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quarta-feira, 3 de março de 2010

Eduardo Kac, uma tecnologia do corpo

Ultimos dias para visitar as exposições de Eduardo Kac, na Galeria Laura Marsiaj e no Oi Futuro Flamengo. Se no espaço do Oi Futuro o artista mostra trabalhos atuais, mesclando arte e tecnologia, na Laura Marsiaj a opção foi a de mostrar "como isto tudo começou", os trabalhos do artista nos anos 1980, onde a ênfase era a de uma arte contestadora, desafiadora em relação ao fechamento político e à repressão sexual, uma arte libertária. Uma exposição complementa a outra.
Os trabalhos ligados à tecnologia tem tido uma visibilidade grande, muitas vezes tratados pela midia de forma superficial, principalmente a partir de Alba, o coelho feito verde-neon a partir de uma mutação genética comandada pelo artista. Mas ver a foto do artista, ele mesmo, nu, no alto de um prédio em plena Copacabana, com visão de milhares de janelas (inclusive de uma igreja e de um batalhão da PM), em plena ditadura militar, é ver que seu trabalho vai além, muito além, de gadgets.
As fotos (Pornogramas) e os videos dos anos 1980 mostram muito bem isto. Poético, performático: o artista declama versos na praia de Ipanema. Política do corpo: o artista declama versos, completamente nu. Libertário: após declamar suas poesias, o artista e dezenas de frequentadores da praia saem, nus, em uma passeata. Os videos registram em preto e branco, som direto, e vê-los, hoje, em 2010 é pensar: onde está aquela revolução do corpo que a nossa geração achou que tinha feito? foi acabar nesta atualidade de neo-conservadorismo e vulgaridade? onde foi parar o Reich que lemos e praticamos? a midia absorveu e vomita para as massas, resumido em um edredon do Big Brother. Mas ver os videos também é lembrar que estes momentos existiram, são reais, são arte.
E ver os videos e as fotos nos mostram que continua tudo lá, no trabalho atual do Eduardo Kac. Um trabalho atual, tecnológico, parte dele que está no Oi Futuro, em Biotopos, Lagoglifos e Obras Transgênicas.

Conceitos: “Biotopos” são obras vivas que evoluem e se modificam, de acordo com as condições ambientais. “Lagoglifos” são obras produzidas através de uma forma de escrita visual, que o artista define como “coelhográfica”. E as "obras transgênicas" tem como meio de criação literalmente a biotecnologia, é o caso das “Edúnias”, mistura da flor petúnia com material genético do próprio artista, ou seja, Kac aplicou o DNA extraído de seu sangue à flor, criando um novo ser, ou, em termos artísticos, uma espécie de autorretrato.

Está tudo lá: uma postura libertária, que se apropria dos termos e precessos da Ciência para subvertê-la; não é uma arte que se utiliza da tecologia "para brilhar" e sim "para desafiá-la", como as poesias gritadas na praia, que desafiavam o regime militar mas também iam contra a esquerda careta. O corpo, visto como instrumento de política, de modificação existencial e social, é o mesmo corpo que (em sua mais completa essência, o DNA) "humaniza" a flor. Uma criação poética e revolucionária; que extrai poesia das coisas simples, transfigurando-as: um coelho, uma flor com o DNA humano; o que aparentemente é um quadro abstrato e que se revela feito de microorganismos vivos e totalmente sensível às mudanças do ambiente; e que desafia o espectador que pretende "fruí-lo" como arte: este "quadro", esta pintura, é um ser vivo, tão vivo quanto o espectador, e que, nas perfeitas condições de temperatura e alimentação, poderá mesmo sobreviver a ele.
Um trabalho cheio de significados, com coerência dentro de sua evolução, com soluções visualmente bonitas e com conceitos bem resolvidos, e acima de tudo, extremamente poético. Uma tecnologia que está ancorada no corpo, no humano, na arte; e que através da poesia alcança infinitos.

Veja também:
Site do Eduardo Kac

Boa entrevista do Eduardo Kac, originalmente publicada em Art.Es (Espanha)
Fotos da  abertura das exposições estão no site Só Arte Contemporânea

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Projeto Acervo, 15a. edição

 A inauguração da 15a. edição do Projeto Acervo, no Espaço Bananeiras, foi na segunda-feira dia 08. Como nas outras edições, uma festa, com trabalhos de qualidade e também, perfeito para o calor do Rio, deliciosas batidas de frutas (a de frutas vermelhas é o máximo!).
Os artistas participantes são:
Adriano Melhem, com uma bonita pintura em pequeno formato, um rosto de criança quase monocromático, com obliterações em branco;
Alexandre Vogler, interferência (auto-retrato) em uma cédula de R$2,00, um trabalho irônico e tecnicamente perfeito;
Anna Linnemann, um objeto (garrafa de plástico de Coca-Cola) com os cortes em fatias, característicos da pesquisa desenvolvida pela artista, O Mundo como uma Laranja, que submete objetos do quotidiano a tratamentos de corte semelhantes aos feitos na preparação de alimentos em cozinha;
Cadu, com a gravura feita pelas marcas de uma caixinha de música que toca Pour Elise, de Beethoven, um conceito perfeito, execução impecável e resultado muito bonito;
Gustavo Speridião, bonita pintura, em pequeno formato, no tema da nuvem, um dos temas constantes do artista;
Gisele Camargo apresenta uma variação da série Panavision, desta vez um díptico, com telas em dimensões diferentes, inclusive a espessura do suporte, montadas sem intervalo entre elas. Com isto a sensação de fragmentação da paisagem em infinitas partes, uma característica da série, dá lugar a uma composição mais maciça e com outro ritmo, menos regular, ao explorar esta terceira dimensão que vem das diferenças nos suportes;
João Modé, uma bonita fotografia, linhas marcadas com giz ligando pontos no chão que me remetem às stoppages do Duchamp;
Leonardo Videla, uma fotografia da série das plantas arquitetônicas que se transformam em caixas, uma pesquisa do artista que sempre apresenta evolução, como vimos na exposição do artista na Galeria Laura Marsiaj;
Maria Lynch, em sua primeira participação no Projeto, uma pintura com cores fortes e tinta espessa, trabalho de impacto e bem característico da artista;
Marcos Chaves, com uma imagem que é a capa do livro sobre sua obra, enormes letreiros sobre um edifício expõem, monumentais, a palavra Chaves, provavelmente uma marca ou empresa mas também sobrenome do artista. Bem característica da pesquisa feita pelo artista ao descobrir e fotografar situações inusitadas em cenas do quotidiano aparentemente banal, como as fotos dos esfregões que estiveram em Retratos, recente exposição na Galeria Artur Fidalgo.
A montagem, do Leo Videla (idealizador e curador do Projeto), flui bem, em um white cube com janelões de vidro, surpreendentes, dando visão para a paisagem de enormes bananeiras. E constato que. em cada nova edição do Projeto, se mantém e se consolida o nível de qualidade. Leo sempre consegue incorporar artistas novos, e os artistas que participam de mais de uma edição tem sempre a preocupação de apresentar trabalhos/propostas diferentes.
É uma grande realização chegar a esta 15a. edição, 2 anos de trabalho, sem apoio de nenhuma instituição, apenas com a vontade do Leo e dos artistas em divulgar seu trabalho e em ampliar o circuito de arte, possibilitando que novos colecionadores tenham acesso a trabalhos de qualidade.
Uma sugestão é aproveitar este marco para pensar em registrar o passado, as 15 edições, em um catálogo, afinal são 150 trabalhos, 15 colecionadores, grande número de artistas, e um registro permite preservar esta memória, rever o já feito e pensar o futuro.

Para ler sobre as outras edições do Projeto Acervo, procure pelo marcador (Projeto Acervo)

Clique aqui para ler meus comentários sobre a exposição do Leonardo Videla na Galeria Laura Marsiaj e aqui para os comentários sobre Retratos, exposição do Marcos Chaves na Galeria Artur Fidalgo

Mais comentários sobre o trabalho do Leonardo Videla clicando aqui (Janelas) e aqui (Churrasqueiras)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Estranho Cotidiano, Galeria Movimento


"Todo dia ela faz tudo sempre igual".
E se o todo dia, o cotidiano, tiver um ruído embutido, uma estranheza incorporada, um toque de irreverência e subversão, um toque apenas, que não acabe com o sempre igual do dia-a-dia, mas que seja o suficiente para transfigurá-lo, para renová-lo?
Se os objetos do cotidiano se revoltarem? Se um filtro de água, cor de rosa, se enfeitar com pedaços de Linholene cor de rosa, e, usando um I-Pod também cor de rosa (claro), começar a murmurar, a gemer, a cantar? E se as pílulas mágicas da felicidade, os Valium, os Prozac, os Viagra se agigantarem a ponto de não mais poderem ser engolidas e terem de ser carregados como grandes amuletos?
Se a espreita através de um olho mágico mostrar que o hall do elevador é um local onde coisas mágicas acontecem, onde danças solitárias ou diálogos imaginários tem a sua arena? Se as tramas de um tricô se perderem do seu aspecto utilitário - suéter, cachecol, meia, luva - e criarem vida própria, pendentes do teto como preguiças, se jogando ao chão como serpentes?
Mais ainda, se o cotidiano das galerias de arte for subvertido por novas formas de pensar/fazer/veicular arte, onde relações fortemente hierarquizadas, herança do sistema de arte que atingiu seu ápice nas últimas décadas do Século XX, forem substituídas por novas relações, em rede, por novas formas de pensar arte, fazer arte, veicular arte?
Estranho Cotidiano, exposição na Galeria Movimento, lança sua discussão sobre estes pontos e muitos outros. Com curadoria do artista Walton Hoffman, contou com o artista Pedro Varela como co-curador. Segundo Pedro, "o que ocorreu na verdade é que foi um evento que aconteceu mais pela união de artistas que criam redes de trocas de informações do que uma curadoria num sentido clássico (...) a maioria (dos artistas) veio de uma relação mais fluida, são artistas que se comunicam, artistas que trocam informações e experiências, e no final a exposição foi um momento de construção de novas redes, através deste fio condutor que é a reinvenção do cotidiano. O que facilita é o eixo comum, o assunto da exposição. Os artistas escolheram o trabalho que queriam expor, cada um interpretou do seu jeito a ideia de estranho cotidiano". 
Pedro ressalva que, mesmo no caso de artistas que "fazem trabalhos formais, que parecem fugir da ideia de cotidiano", outras questões como o material ou o espaço, "passam a ser questoes que inserem seus trabalhos no contexto da exposição. (...) exemplos de como este "jogo" (talvez seja um nome melhor do que curadoria) funcionou para trazer questoes que talvez não fossem pensadas em uma outra mostra."
Comento com Pedro como é interessante ele usar a palavra "jogo" para falar do trabalho de curadoria de Estranho Cotidiano, já que esta palavra me remete ao trabalho do Walton, com a utilização de peças de jogos, e o próprio trabalho do Pedro também tem muito do lúdico, com a construção de mundos fantásticos a partir da combinação livre e obsessiva de elementos unidos pelo cimento da fantasia.
Para Felipe Scovino, que assina o texto de apresentação da mostra, "os trabalhos reunidos em Estranho Cotidiano têm por primazia a constituição de um resgate do “exercício experimental da liberdade”, no qual a atitude de continuamente subverter limites dados vale mais do que a invenção formal, e em que o processo criativo importa, por vezes, mais do que o resultado": é o jogo de que fala Pedro.
Ainda no texto de apresentação, Felipe enfatiza "a rede de construção simbólica que é traçada entre as obras expostas", e que (...) "os diálogos travados entre os trabalhos constituem-se em uma quebra de hierarquias definidas entre o terreno da produção artística e o âmbito em que se desenrola a vida ordinária".
Este aspecto de rede, de conexão entre artistas e entre trabalhos, é muito característico da arte e da cultura atuais, que utilizam os mesmos conceitos aplicados na Internet, uma rede não-hierárquica, de conexões voluntárias e independentes, de fluxos e caminhos alternativos, que subverte os papeis tradicionais no sistema de cultura -  "o criador", "o fruidor", "o intermediário", "o crítico"... As individualidades se diluem, ou se reforçam criando uma nova forma de individualidade para o Terceiro Milênio, onde o indivíduo é múltiplo com a multiplicidade de papéis que ele assume nas diversas redes.
Ir à frente, prospectar o futuro, pode ser visitar ateliês de artistas jovens a partir de indicações e torcer para no meio dos escolhidos vir uma promessa, um artista que fique. Em Estranho Cotidiano a Galeria Movimento fez mais que isso, que apenas editar uma coletiva. Ao apresentar uma exposição que joga com estes conceitos tão atuais, que foi concebida em rede e que funciona em rede no espaço expositivo, com um diálogo rico em conexões e significados entre as obras, Walton e Pedro acertaram na mosca, apresentando bons trabalhos e bons artistas mas também um conceito sobre os trabalhos apresentados e um modelo de exposição que vai além e aponta verdadeiramente para um futuro; e o resultado me faz esperar com ansiedade pelas próximas.

Artistas que participam de Estranho Cotidiano: Botner/Pedro, Carolina Ponte, Gisela Milman, Glaucia Mayer, Leo Ayres, Louise D.D., Malu Saddi, Marcelo Amorim, Maria Laet, Maria Lynch, Murilo Kammer, Ni da Costa, Nino Cais, Patricia Gouvêa, Pedro Varela, Reginaldo Pereira, Rodrigo Torres, Silvia Jábali, Toz.

As fotos são do Pedro Varela, e o registro do vernissage pode ser visto no site do Odir Almeida, Só Arte Contemporânea, e também no blog da Galeria.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sábado no Rio: Laura Marsiaj e Largo das Artes

O final de semana no Rio começou muitíssimo bem, com uma reunião em petit-comité, na 6a.feira à noite, para comemorar aniversário de amigos, em uma casa maravilhosa, no Alto Jardim Botânico, com vista para o que a paisagem do Rio tem de melhor: Corcovado, acima; e abaixo, Lagoa e Praia de Ipanema. A casa está saindo de uma reforma que a deixou clean porém acolhedora, e é matéria de reportagem em uma publicação sobre decoração. Ah sim, e a conversa maravilhosa, desnecessário dizer, versou sobre arte, arte contemporânea; e sobre as pavorosas esculturas e murais que o poder público continua nos impingindo no Rio (last but not least, os "murais ruprestes" da estação de Ipanema do Metrô).

No sábado visitei as exposições do Elder Rocha e do Leonardo Videla, inauguradas esta semana na Galeria Laura Marsiaj, e à noite fui à abertura da exposição coletiva, no Largo das Artes, com curadoria de Suzana Queiroga.


Leonardo Videla: interfaces. O artista dá continuidade a sua pesquisa de elementos da arquitetura, desta vez as plantas baixas que se transformaram em caixas de papelão (as Sugestões Habitacionais) dão origem a esculturas/objetos/pinturas de parede, em metal, onde as dobraduras das caixas e os traços das plantas são  elementos em campos de cor; a pintura mais neutra, chapada, que aparecia nos trabalhos de dobraduras e plantas, dá lugar a uma pintura pela pintura, painterly, que já aparecia nos trabalhos do artista na série das Janelas. Há também uma escultura de chão, e fotografias também muito bonitas, com as dobraduras e plantas baixas. E, no acervo da Galeria, duas telas grandes, onde a pintura se faz ainda mais presente, livre e autônoma, no diálogo com os elementos arquitetônicos. Diz Leonardo: "Moramos em caixas, e meu trabalho faz uma critica direta aos resultados arquitetônicos atuais, diria que hoje vivemos dentro do conceito de Embalagens Habitacionais".
Em outras ocasiões comentei aqui no blog sobre o trabalho do artista: sobre a série Janelas, sobre a série das Churrasqueiras e também comentários sobre o Projeto Acervo, uma boa realização do Leo!


Elder Rocha: mar de bar. Elder é um artista de Brasília (comentei aqui no blog sua exposição Justaposição Polar no CCBB-BSB), professor da UnB, e apresenta telas, desenhos e uma instalação, Mar de Bar. Sobrepondo imagens e símbolos retirados de publicações, ampliados, acrescidos de elementos gráficos e de pintura, as imagens se multiplicam e envolvem o espectador em um jogo ao mesmo tempo cerebral e sensitivo. Do "bar", os copos se equilibram precariamente, e a tinta a óleo excita e desafia este equilíbrio, com faixas que trazem efeitos óticos ou manchas espessas que quase se sente no tato, não só ao olhar. Na instalação, o líquido que flui de um para outro copo, congelado no desenho a guache na parede, é um mar onde flutuam pequenas telas redondas com as imagens. Como o mar de Justaposição Polar, a instalação é estática e é dinâmica, é desenho e é pintura e é instalação, e o bar é na verdade um laboratório de sensações e de desafios à percepção.


[SÓ VOCE E OS OUTROS PASSAM], a coletiva no Largo das Artes, apresenta trabalhos de Alexandre Faccin, Amanda Bolsas, Claudia Ferraz, Danielle Carcav, Fernanda Braz, Guilherme Portela, Jimson Vilela, Leandro Pereira, Manuela Bezamat, Rafaela Saraiva, Raul Leal e Saulo Marzocchi,  jovens artistas têm em comum o interesse expressivo pela pintura e o trânsito por outros meios como desenho, fotografia e vídeo, e participam do núcleo de desenvolvimento da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde são orientados por Suzana Queiroga, que faz a curadoria da mostra. Já acompanho o trabalho de alguns destes artistas, e neles vejo um bom crescimento; outros, que não conhecia, vieram para mim como uma boa surpresa; e a exposição acerta, ocupando de maneira bem integrada o amplo, magnífico, espaço da galeria; os trabalhos funcionam individualmente e o conjunto é bem maior que a soma das partes.

domingo, 22 de novembro de 2009

No Rio (exposições)

Final de semana no Rio, ampliado pelo feriado do Dia da Consciência Negra em uma 6a.feira, eu sabia que tinha "algumas" exposições para ver; para minha surpresa, estas "algumas" foram tantas, que deixei várias para visitar apenas na próxima ida ao Rio (sem contar as que estão abrindo nesta semana corrente).
Isso com um sol e um calor que convidavam a mergulhos na praia ou na piscina, com uma arrumação nos vinhos há muito tempo na adega, com rever amigos e muitas tarefas do quotidiano.
As exposições que visitei:


1- Na Galeria Artur FidalgoRetratos, de Marcos Chaves. O artista trabalha buscando novos sentidos para cenas do quotidiano, com um humor sutil e inteligente. Nestas fotos, Marcos brinca com uma característica da percepção humana, que busca sentido em formas abstratas, que vê rostos onde há manchas. Um esfregão, destes comuns de chão, virado com o cabo para baixo, encostado em uma parede; a foto é vertical, nas dimensões que a pintura clássica estabeleceu como portrait; a moldura sóbria e a disposição das diversas fotos como uma galeria de retratos clássica; e pronto: o espectador  cabelos no que são os pelos do esfregão,  nariz e boca em detalhes do centro do esfregão, onde se encaixa o cabo; e vê olhos nas formas simétricas à linha central. Um rosto, outro rosto, vários rostos; e a contraposição de tantos rostos diferentes faz com que cada um deles imediatamente adquira personalidade própria. Incrível, a "contaminação" do espectador a partir do momento em que vê o primeiro rosto é intensa; até uma das fotos onde a simetria é destruída com os pelos do esfregão cobrindo uma das metades da "face", é vista como um retrato (algo como uma Veronica Lake com o cabelo em ondas cobrindo todo um lado do rosto). E a "contaminação" máxima é a foto onde só se vê o cabo e os pelos do objeto: entendida imediatamente pelo espectador como a cabeça de uma pessoa de costas, não se consegue mais vê-lo simplesmente como um esfregão encostado em uma parede. Witty, sim, mas profundo, ao questionar os limites da percepção de forma simples e criativa.


2- Na Galeria AmarelonegroHome... sweet home... sweet home... sweet home, exposição de Rogério Degaki. São 7 esculturas do artista paulista, em resina, agrupadas como uma instalação, um lar, com direito a "tijolinhos aparentes" brilhantes, em uma parede; segundo o artista, como disse Dorothy de “O Mágico de Oz”: “Não há lugar melhor do que a nossa casa!” E os personagens-esculturas, coloridos, estranhos e simpáticos, incrivelmente simpáticos, estão espalhados neste espaço que não é mais o Cubo Branco da galeria e sim um lar. Penso no "quero voltar para casa", do ET do Spilberg, e penso em como eu queria ter algum deles comigo em meu lar intergalático...



3- Na Caixa Cultural, gravuras de Wifredo Lam. Uma exposição importante, raramente vemos trabalhos do artista cubano, que faleceu em 1982: . A pintura certamente é o forte de seu trabalho (vi talvez duas pinturas grandes na exposição de artistas cubanos do CCBB, e alguma coisa no acervo do MoMA), mas a obra gráfica absolutamente não fica atrás. São monstros, seres alados, dentes e garras, um clima weird todo especial; gravuras formalmente bem resolvidas, com utilização perfeita dos espaços negativos e do contraste de tratamento de diversas técnicas.



4- Esculturas de Artur Pereira, no Instituto Moreira Salles. Ao entrar na Nova Galeria do IMS, um impacto: as esculturas de madeira espalhadas, acumuladas, no Cubo Branco, como uma arca de um louco Noé. Artur Pereira é um chamado "artista popular", autodidata, de origem humilde, e com temática ligada a sua região e camada social: animais, caçadores, um presépio cercado por uma cornucópia de animais de Mata Atlântica, um homem que agoniza tendo como espectadores seus animais domésticos, seu rebanho... Mas as soluções estéticas são perfeitas, precisas; com poucos traços marcados no cedro, seu Artur define uma fisionomia de um animal com uma personalidade própria - uma jibóia irônica, um cachorro amigável, outros cachorros ferozes que perseguem onças, o medo estampado no rosto das onças perseguidas... Não "arte popular" e sim Arte.



5- Na Galeria Arte em Dobro, “A Coleção 2”, dá continuidade à proposta de venda de "pacote" com múltiplos de artistas contemporâneos em ascensão, por preços bem acessíveis. Se a primeira edição, A Coleção 1, lançada no início de 2009 (comentei aqui no blog), teve uma boa acolhida, esta segunda edição, com múltiplos de Marcelo Solá, Graziela Pinto, Felipe Barbosa, Daniel Toledo e Julio Callado, foi um sucesso estrondoso: ao chegar na Galeria a exposição já estava sendo desmontada, pois em menos de uma semana toda a edição já havia sido vendida. Sendo que os múltiplos do Marcelo Solá, por problema no transporte, nem haviam chegado ao Rio (serão entregues depois aos compradores). Como na edição anterior, boa escolha de artistas e trabalhos interessantes; o globo terrestre murcho em uma caixa de acrílico, do Daniel Toledo, é um achado! E um exemplo de como há um mercado de arte ansioso por novidades de qualidade a um bom preço.


6- O Mundo Mágico de Chagall, no MNBA, é apresentada como a maior exposição do artista no Brasil, comemorando o Ano França-Brasil, porém na realidade não é uma mega-exposição. As 309 obras apresentadas, em sua grande maioria, são gravuras, de séries como A BíbliaAs Almas MortasDafne e CloéFábulas de La Fointaine... bonitas, mas em geral em preto e branco ou com pouca cor (para mim o colorido é o ponto forte de Chagall), e forte conotação ilustrativa. Nas pinturas, onde o esplendor da arte de Chagall se mostra todo, vemos coisas boas, porém não são muitas - e a maioria de coleções particulares brasileiras. Vale à pena ver, sim, uma boa exposição mas, da mesma forma que a exposição do Matisse apresentada na Pinacoteca de São Paulo, sem acreditar muito na grandiosidade indicada pela midia.

7 - No Instituto Moreira Salles, exposição Maureen Bisilliat: fotografias, com mais de 250 imagens da fotógrafa inglesa radicada no Brasil, trazendo fotos das séries mais conhecidas da artista, como as que retratam o universo de Guimarães Rosa, os índios do Xingu, os sertões de Euclides e as viagens ao altiplano boliviano, à China e ao Japão. Complementam a exposição objetos e documentos pessoais da fotógrafa, como o sensível caderno feito durante os meses da doença do pai de Maureen: a cada dia, a artista buscava um livro na estante, abria o livro e fazia uma xerox do trecho ao qual chegara aleatoriamente; e todos os textos e o caderno como um todo traziam uma relação com o momento de agonia que viviam pai e filha.


8- Na Galeria Márcia Barroso do Amaral, novas gravuras de Tomie Othake. Muito bonitas, impecáveis, e é bom ver o trabalho coerente da artista nos seus 96 anos.

9 - Exposição coletiva no Crânio, simpático espaço de artes e cultura na Rua Pacheco Leão, no Jardim Botânico, são pinturas, fotografias e objetos dos artistas Bianca MadrugaCláudio MontagnaLetícia TandetaMárcia de AlmeidaRicardo FerreiraUrsula Tautz e Vlad da Hora.


10 - Multiplo Coletivo, na Galeria Inox, uma coletiva dos artistas Afonso TostesAlê SoutoAlexandre OrionCarlos ContenteJosé TannuriMarcelo LagoMarcos CardosoMaurício BentesSmael  Toyota. São múltiplos, bem interessantes, e o acervo da Galeria, que abriu recentemente, também apresenta coisas muitos boas, em destaque a linda gravura da Beatriz Milhazes feita para o número especial da Parkett Magazine, que já comentei aqui no blog.


11 - Minha visita ao Paço Imperial, logo após a abertura das exposições, foi prejudicada pela greve dos servidores da cultura. Assim, desta vez, pude retornar ao Paço e ver: Ícones do Design Francês (bonita exposição, além dos ícones do design francês, alguns ícones do design brasileiro, um contraponto entre a Caneta Bic e a Sandálias Havaianas, less is more), Julio Villani (o artista trabalha com reprodução, em tamanho grande, de fotografias antigas, interferindo nas mesmas com formas geométricas em cores fortes, em tinta a óleo, bem espessa, o óleo da tinta se espalha como sombras pelo papel e as formas criam novas realidades para as fotografias; e também as formas geométricas a óleo sobre manuscritos antigos; além de um vídeo em díptico, com papagaios que brincam com objetos como uma reprodução da Monalisa; gosto do trabalho do artista) e as fotografias de Alair Gomes, A New Sentimental Journey, com fotos de estátuas greco-romanas e a renascentistas com o mesmo olhar lançado pelo fotógrafo sobre os meninos do Rio.
Transcrevo aqui o comentário que já fiz no blog sobre o trabalho do artista: Alair é um fotógrafo, morto de forma violenta no auge de sua produção, cuja obra - séries de fotos de rapazes se exercitando na praia - sempre é revisitada com muito prazer. Desta vez são fotos e texto, de uma viagem a Europa, onde as esculturas clássicas de homens ganham o mesmo tratamento terno e apaixonado dado às imagens dos rapazes. Miguel Rio Branco editou as centenas de fotos em sequencias, dentro da linguagem de Alair. Um livro, A New Sentimental Journey, registra e acompanha a exposição. Uma dúvida que tenho, Alair desenvolveu seu trabalho de uma foram discreta, só expôs em 1984 (Galeria do Centro Cultural Candido Mendes), com retorno altamente favorável. Se fosse hoje, onde o politicamente correto comanda, ele não seria acusado de pedofilia, voyerismo,  apropriação da imagem das pessoas fotografadas à revelia? Talvez nossos dias e o futuro acabem com a possibilidade de trabalhos que, através da transgressão, chegam ao sublime.


12- Na Casa França-Brasil, uma grandiosa instalação da artista Iole de Freitas, cujo trabalho vimos recentemente também na Galeria Laura Marsiaj. Se no espaço da Galeria a artista usa o peso, uma instalação que como que "voa baixo", ocupando todo o cubo branco, no espaço generoso da Casa França-Brasil a artista prefere voar alto, sutil, silenciosa, não interferindo e sim realçando a arquitetura e os detalhes de ornamentação do prédio. 

13- Galeria Paulo Figueiredo, com gravuras em madeira do artista Fernando Mendonça. São pequenas matrizes e xilogravuras, em traços rústicos, de cenas de quotidiano.

14- Galeria Movimento, No Risco do Traço de
Mateu Velasco, são pinturas ancoradas no grafite e no design, figuras humanas com cabelos que se transformam em tentáculos, forte lembrança de uma estética art-nouveau atualizada para o contemporâneo.


15- Margaret Mee, 100 anos de vida e obra, no Centro Cultural dos Correios, é a mesma exposição que vi na Pinacoteca de SP e que comentei, talvez de forma um tanto crítica, aqui no blog (veja o comentário).

16-
Bandeira de Mello, Eu existo assim, na Caixa Cultural. O artista, nascido em 1929 e com uma atuação voltada para a arte acadêmica, para o ensino e para obras em lugares públicos (os murais no próprio espaço da Caixa Cultural complementam a exposição) está sendo redescoberto nesta exposição.

17 -
J Bosco Renaud, na Galeria de Arte Maria de Lourdes Mendes de Almeida (Centro Cultural Cândido Mendes), objetos, desenhos e técnica mista, sob o tema de plungers (desentupidores de pia): no espaço, na Lua, invadindo paisagens, ampliados...



18-
Pierre et Gilles, A Apoteose do Sublime, no OI Futuro, curadoria de Marcos Lontra, design do Alvaro Seixas. A dupla de artistas franceses monta os cenários, fotografa, pinta sobre as fotos, seleciona molduras que acentuam o caráter kitsch-fantástico-hype dos retratos, de modelos desconhecidos (e belos) ou de famosos (Madonna...). Como escreve o curador, "O trabalho de Pierre et Gilles, cheio de vitalidade, é próximo do espírito brasileiro, especialmente da cidade do Rio de Janeiro, tendo em vista sua exuberância, intensidade cromática, sensualidade e mistura tipicamente Kitsch, nos fazendo remeter às alegorias e fantasias dos desfiles de escolas de samba brasileiras (…) o mundo contemporâneo está saturado de imagens, elas estão em toda a parte. Um dos papéis mais importantes da ação artística é selecionar dentre essas imagens, proporcionando-lhes novas direções e conceitos. Todas as imagens são, portanto, passíveis de manipulação artística, e é isso o que fazem, de forma singular, Pierre e Gilles." Vale à pena ver.




19 e 20 - E ainda duas exposições de Leilões: Bolsa de Arte e Soraya Cals, com ótimos catálogos (o da Soraya Cals, um livro muito bem editado, com texto do Frederico Morais, não é vendido, e o da Bolsa de Arte, mantem o bom padrão e é vendido por R$25,00 com renda revertida para obras beneficientes). Vale a pena circular por estas exposições de Leilões; normalmente são muito heterogêneas, mas sempre se encontra surpresas; e os catálogos são boa fonte de consulta, inclusive pelas estimativas de preço que trazem. Na Soraya Cals, uma surpresa para mim: 4 aquarelas de um artista dos anos 1970 que aparentemente havia "desaparecido", Luiz Gonzaga Beltrame, as aquarelas são dos anos 1970 e o catálogo tem uma pequena nota biográfica. Vi uma exposição individual do artista em 1974 na Galeria Real, no Rio, e também em alguns salões, o trabalho dele era um cult em meio à descobertas do Oriente ("Se Oriente, rapaz..." cantávamos como Gal e Gil), pequenas e delicadas aquarelas com espaços místicos e estranhos; depois, nos anos 1980, não vi mais nada sobre o artista; que agora aparece no leilão, está registrado no Catálogo e, logo depois, podemos já ler sobre ele na internet.

Algumas fotos dos vernissages destas exposições estão no site Só Arte Contemporânea

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Fernanda Figueiredo & Eduardo Mattos


Ontem, 5a.feira, inauguração da exposição da dupla de artistas Fernanda Figueiredo & Eduardo Mattos, na Galeria Movimento. A Galeria agora conta com o artista Walton Hoffmann como sócio e curador, o que sem dúvida é um up-grade, já que Walton, além de artista firmado pelo trabalho bom e consistente, possui conhecimento e capacidade agregadora que certamente vão impulsionar a programação da Galeria e seus resultados nesta nova fase.
Fernanda e Eduardo são jovens artistas paulistas. Fernanda começou a trabalhar, ainda na Faculdade (FAAP) com a própria pele como suporte, e logo chegou ao batom como "lápis" para seus desenhos, como tatuagens descartáveis, eternizadas através de fotos. Já Eduardo é formado em Cinema, também pela FAAP, e logo o que era simples colaboração entre o casal (ela desenha e ele fotografa) passou a ser mais, um verdadeiro trabalho em dupla, desde a concepção até o produto final.
E que produto final! As fotos são fantásticas, o batom entra como traço e tinta mas também como sangue e carne, como brilho e âncora para as tonalidades usadas, para o claro-escuro de pintura renascentista.
O erotismo aparece de forma extremamente refinada, a dualidade dos sexos é explorada nos símbolos desenhados (soldados com armas em riste espreitam uma mulher, casais que parecem ter saído de um Carlos Zéfiro pós-moderno, mãos que se procuram e se tocam...) mas principalmente no suporte dos desenhos, a pele; e nos membros femininos que se agigantam, em closes que revelam os poros e a pequena penugem alourada, em olhares e gestos que unem fotos isoladas em dípticos, em instalações.
Ainda, em 8 desenhos sobre papel de Fernanda, um registro das tatuagens (permanentes) do casal, desenhos que também cativam pela delicadeza e precisão.
Ao contrapor a permanência da tatuagem à volatilidade do batom, e ao registrar as efêmeras tatuagens utilizando fotos em uma linguagem tão clássica, os momentos se eternizam, e o erotismo se mostra como é, como transcendência, como eternizar o momento do gozo, que prenuncia a morte (como as vanitas que, pelos desenhos, sabemos que Fernanda tem tatuadas sobre os pés) mas que a vence, quando o homem é deus por ser criador. Como na arte.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Rio, 4 exposições

1- Na Galeria Mercedes Viegas, uma exposição com obras do artista Amílcar de Castro, duas dezenas de obras entre esculturas e pinturas, uma boa exposição, bem representativa da obra do artista.
É interessante ver as pinturas do Amílcar logo após ter visto as pinturas negras da Célia Euvaldo; tem a ver, o fazer deve ser muito semelhante; mas o resultado é bem diferente, os artistas enfocam problemas diferentes em suas pinturas:  as pinturas do artista mineiro, paradoxalmente para um escultor, são bem bidimensionais, leves, enquanto que as pinturas negras da artista paulista tem um peso, elas querem sair do seu suporte, mesmo dialogando com ele; estas, esculturas, relevos, dançam, se movem com a luz, que enfatiza as diferenças de textura, de espessura, de profundidade.
Embora as pinturas do Amílcar sejam muito bonitas, o forte de sua obra é mesmo sua escultura. Com formas simples, dobraduras precisas, repetições e rupturas, simplicidade e coerência, pesos e levezas, o artista constrói uma obra que vai se mostrando aos poucos ao espectador, que se revela aos poucos, recatada e desafiadora, como a paisagem mineira; obra que é perfeita tradução do concretismo, dos trabalhos gráficos do artista com o Jornal do Brasil nos áureos tempos, tradução do período desenvolvimentista, e que vem até nós, no terceiro milênio, renovada, atualizada, contemporânea...
E uma lembrança, a exposição Arte para Crianças, no CCBB/BSB, no início deste ano, com curadoria do Evandro Salles, que apresentou, em uma sala, 140 pequenas esculturas do Amilcar, com uma enorme ao fundo, inesquecível!

2- Aquarelas de José Alberto Nemer, na Galeria Anna Maria Niemeyer. O artista, também mineiro, com suas aquarelas, ao meu ver busca expandir os conceitos de aquarela. São aquarelas grandes, as maiores com 1,30 x 2m, o que já contraria a noção comum de um meio que se presta a trabalhos pequenos, delicados, imediatos. O perfeccionismo na técnica do artista chega a nos fazer duvidar de que se trata de aquarela, aquele meio que não aceita erro, que não permite consertos; pois as manchas de tinta se sobrepõem, se derramam, se entrecruzam; as tonalidades se combinam e se mesclam, para logo depois fluírem isoladamente; e fazer esta tinta líquida, mercurial e rebelde, seguir por grandes áreas de papel, obediente ao desejo e visão do artista, é um feito e tanto!
Além desta minha análise, afinal uma análise de quem também já brigou com a aquarela e entende as dificuldades que Nemer superou com maestria, mesmo os olhos de um leigo se encantarão pela beleza e força dos trabalhos. Vi duas exposições anteriores do artista, no CCBB em 2000 e depois em 2003, no Instituto Moreira Salles, e vejo um crescimento e amadurecimento na técnica e nos resultados.
3- Na Galeria Silvia Cintra, Divagações de um Fugu delirante, exposição de fotos de Miguel Rio Branco. O fugu é o peixe japones, equivalente ao que conhecemos como baiacu, e que, apesar de extremamente venenoso, é uma iguaria apreciada na culinária nipônica, e na verdade é o pretexto para o fotógrafo mostrar suas lindas imagens sobre Tóquio, onde expôs em 2004.
Em 2007, Miguel volta ao Japão para realizar seu segundo projeto no país, fotografando a capital japonesa enquanto o japonês Daido Moryama fazia o mesmo com a cidade de São Paulo, para uma grande exposição no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio, em 2008, e parte da qual está sendo exposta na Galeria carioca. As fotos são excelentes, e ao serem apresentadas em conjuntos elas se agigantam, as cores saltam e se sobressaem em relação às formas, são quase abstratas em sua concretude de fotografias, são instalações, imagens de um caleidoscópio que apresenta a estranheza (para nós, claro) da cultura japonesa.
Sobre o Fugu, uma boa referência na Wikipedia, onde podemos ler sobre os cuidados para a retirada das partes venenosas do peixe, o treinamento e a prova pelos quais passam os chefs licenciados pelo Governo Japonês a preparar e servir o Fugu (na prova final o aluno come o Fugu que ele mesmo preparou, e a reprovação é a morte, o que é muito curioso mas, pensando bem, muito correto), e ainda que o prato mais popular é o tessa, um sashimi de Fugu, cortado em fatias tão finas que os desenhos do prato são vistos sob a carne crua; os pratos de tessa são decorados na forma de uma flor do crisântemo, que é, na cultura japonesa, um símbolo da morte...


4- Visões, exposição de José Tannuri, na Galeria Hugo Rocha. Um plus em minha visita à exposição foi vê-la na companhia do artista, podendo discutir com ele o trabalho, buscando um entendimento mais completo. José Tannuri utiliza o jornal como matéria prima para seu trabalho, mas nesta série que está exposta o jornal entra como meio, não como informação. Um pouco como o trabalho do Luciano Figueiredo, que utiliza as palavras e imagens do jornal como um elemento visual a mais na composição de um espaço pictórico, e diferente portanto do trabalho, por exemplo, do Antonio Manuel, onde a informação do jornal é tratada graficamente mas é a informação que o trabalho veicula.
Assim, Tannuri monta as folhas de jornal em grandes chassis; recobre-as com uma fina camada de tinta amarela, o que protege o frágil jornal e também dilui um pouco as palavras/imagens, coerente com sua proposta; sobre esta "tela", grava, com matrizes de serigrafia, imagens de "telas de arame", o que é outra camada de distanciamento; ao final pintando em silhueta partes de corpo feminino, pernas, pés, curvas; em algumas delas formas circulares como que vazadas, em diálogo com o vazado das redes; um diálogo de sobreposições, de cheio-vazio, de mostrar-se/cobrir-se, uma tensão erótica que aparece muito explícita em uma obra onde uma pequena tela de video, engastada em um suporte de jornal/tela de arame, mostra repetidamente uma dança adolescente e palavras/imagens de prostitutas.

Veja registros dos vernissages no site do fotógrafo Odir Almeida, http://www.soartecontemporanea.com/

sábado, 5 de setembro de 2009

Diogo Mainardi x Vik Muniz

Acho que sou um pouco retardado, eu vejo os filmes depois que todos já viram, e quero conversar sobre eles como se fossem novidade; eu guardo uma pilha de jornais e vou lendo aos poucos, estou até hoje vendo fotos do ex-namorado da neta do Sarney quando me parece que todos esqueceram o assunto, hoje li um jornal de quando a Argentina estava cheia de mortes na gripe suína, e as pessoas desistiam de viajar para lá; aí vi em outro jornal, mais recente, que este campeonato o Brasil já ganhou, "nunca antes neste país tivemos mais mortalidade na gripe suína do que a Argentina ou os USA, a Europa se curva diante do Brasil, o campeão em mais uma modalidade esportiva, os óbitos pela gripe H1N1", enfim, eu não nego que sou meio retardado.
Então, só hoje tomei conhecimento de uma polêmica que esteve na mídia em maio, o texto do Diogo Mainardi sobre o Vik Muniz, e a réplica do artista, em carta publicada na revista.
Aí vão os textos, cada um faz sua própria análise e toma posição, ou não, apenas se diverte, como eu. E continuo lendo os jornais velhos de minha pilha, e depois vou ver a lua cheia, com uma taça de vinho ao lado, pensando em alguém que está em Paraty.
Thank's God it's Friday!!!

Diogo Mainardi
Mister Maker


"Vik Muniz reproduz a Mona Lisa com pasta de amendoim e a Última Ceia com calda de chocolate.
Em vez de ganhar um programa no Discovery Kids,
ele tem suas obras compradas pelo MoMA"
Mister Maker tem um programa no Discovery Kids. Ele ensina a pintar coelhos e paisagens marinhas usando materiais insólitos como balas de goma, embalagens de ovos e tampinhas de garrafa. Vik Muniz é o Mister Maker do MoMA. Ele reproduz a Mona Lisa com pasta de amendoim e a Última Ceia com calda de chocolate. Em vez de ganhar um programa no Discovery Kids, ele tem suas obras compradas pelo Museu de Arte Moderna de Nova York.
Aleijadinho? Portinari? Hélio Oiticica? Lygia Clark? Ninguém é páreo para Vik Muniz. Ele é o artista brasileiro mais festejado de todos os tempos. Ele está para a arte brasileira assim como Leonardo da Vinci está para a arte italiana. O que já diz tudo sobre a arte brasileira. Vik Muniz valorizou as técnicas mais desprezadas da história da arte: a cópia e o trompe-l’oeil. Primeiro, ele copia, fotografando. Em seguida, reconstrói a imagem colando sobre ela elementos de uso cotidiano, como molho de tomate, geleia de amora e soldadinhos de plástico, em forma de mosaico. O resultado se assemelha às telas de Arcimboldo, o pintor maneirista que compunha figuras humanas a partir de legumes, frutas e livros. Além de ser o Mister Maker do MoMa, Vik Muniz é o Arcimboldo cearense. O Arcimboldo pau de arara.
Nos últimos anos, os artistas brasileiros se espalharam por museus e galerias dos Estados Unidos e da Europa. Vik Muniz é o mais popular de todos. Mas há outros na cola dele. Em particular: Cildo Meireles, Beatriz Milhazes e Ernesto Neto. Inicialmente, eles eram patrocinados pelo Banco Santos, do fraudador Edemar Cid Ferreira. Assim como as mulheres dos deputados, os artistas brasileiros iam a Veneza, Berlim ou Nova York com todas as despesas pagas pelos contribuintes. Agora isso mudou. Eles ganharam o mercado mundial. Em 1891, Paul Gauguin abandonou Paris e foi retratar os selvagens no Taiti. Um século depois, os artistas brasileiros percorreram o caminho inverso: eles representam os selvagens do Taiti indo retratar Paul Gauguin em Paris. Vik Muniz é aquela taitiana com o seio de fora. Ele é aquela taitiana de cócoras. Ele é aquela taitiana segurando uma fatia de melancia.
A meta de Vik Muniz é "romper a hierarquia da arte". É o que ele faz quando pendura uma cópia de Rafael ao lado de uma cópia de Bosch. O mesmo discurso populista e popularesco é estendido ao público de suas obras. Segundo ele, tanto faz se o espectador é um curador de arte ou um bilheteiro. Vik Muniz sempre diz que é um produto do Brasil. E é mesmo. Nós rompemos a hierarquia das ideias, dos valores, dos gostos, dos costumes, das leis. Os outros fizeram a Mona Lisa. Nós a lambuzamos com pasta de amendoim.

E a réplica do Vik Muniz, na seção de cartas do leitor da revista na semana seguinte:
"Eu gostaria de agradecer a Diogo Mainardi pelo interesse e tradicional eloquência com que me criticou (ou elogiou, até agora não sei) o meu trabalho. Agradeço, pois, ao Diogo, que, apesar de pessoalmente ser uma pessoa formidável, intelectualmente é um gabiru recalcado cuja única contribuição para a cultura local tem sido uma constante e enfadonha reinvenção da demagogia como forma de entretenimento. Muito obrigado por me comparar ao Mister Maker. Adoro e recomendo o programa, especialmente para o Diogo, que, como crítico de arte, demonstrou ser confuso e não enxergar um palmo além de parcos estereótipos."

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Exposições no Rio - 3


Em post anterior falei sobre a beleza do Rio, e nada como lindos dias no Rio, especialmente em Ipanema, para comprovar. O sol na medida para espantar o inverno e os vírus da Influenza A, o mar de uma cor linda, o céu de puro azul, pessoas bonitas no calçadão...
E na Galeria Ipanema, as fotos de César Barreto em Novo Pouso, Novas Imagens, mostram o Rio de Janeiro em toda a sua beleza: montanhas, mar, nuvens, árvores; em preto & branco, com uma nitidez impressionante, conseguem transmitir a cor do rio, o movimento das ondas, o vento nas nuvens... E também fotos da série Moedas de Areia, são fotos de moedas desgastadas, oxidadas, pelo tempo e pelas intempéries, em ampliações que nos fazem vê-las não como objetos quotidianos mas como ícones misteriosos de um passado. Além disso, parte do acervo da tradicional galeria: 2 lindos Ivan Serpa da série Geomântica, Maria Leontina e Milton Dacosta, Mabe, Waltercio, até uma tela grande da inglesa contemporânea Sarah Morris.

Na Galeria Laura Alvim, em nuvem, Laura Lima transformou a varanda fechada por vidros, com sua visão para a praia cheia e o mar azul, em um estranho fumoir, com cachimbos e charutos refeitos, em estranhos formatos, pela artista. Nos dias de hoje, sob o império do antitabagismo, um fumoir é um anacronismo e também uma coisa extremamente transgressora; e a nuvem de fumaça envolve a exposição neste clima. São fotos antigas, de um livro sobre Art Nouveau, transmudadas com o Photoshop em delírios surrealistas; elementos das fotos, como as mãos que saem de uma parede para segurar um quadro, são colocados pela artista na galeria, não como representação mas como mãos humanas que saem da parede e seguram, exibem, o quadro (a foto antiga com as interferências), um castiçal com uma lâmpada, ou ajudam os usuários do fumoir; uma orelha humana, com um brinco enorme, sai de um pequeno orifício da parede...

Ainda: no fumoir, um pequeno castelo de areia é usado como um cinzeiro, dezenas de guimbas de cigarros o perfuram como setas, como espinhos, como apêndices mal-cheirosos em uma representação de pureza da infância... Um clima mágico, onírico, surrealista mesmo (as mãos que seguram tocheiros em A Bela e a Fera do Cocteau). Uma bela exposição, um trabalho bem pesquisado e bem executado, forte e suave como a fumaça mentolada...
Na Galeria Laura Marsiaj, uma exposição da artista Celina Yamauchi e, no Anexo, três grandes telas do Arjan. A artista paulista trabalha com fotos/negativos que são scaneados, imagens de dois ou mais negativos são justapostas, e o resultado final é impresso digitalmente; é como uma foto digital feita a partir de fotos analógicas; e a desconstrução da fotografia fica mais evidente quando a artista inclui desenhos, rabiscos, sobre os negativos, reforçando ou comentando suas imagens com traços rápidos com a pulsação da mão humana. Em alguns, o desenho (a linha) vem de réstias de luz, a foto+grafia.

Já o artista carioca ocupa com suas telas o espaço do Anexo; propositalmente, do piso ao teto, de parede a parede, esmagando o espectador, uma Capela Sistina profana. O traço do artista, vivo, fluido e carregado; palavras escritas, vestígios de latim; ossos e crânios, corpos em torção; recobertos de tinta, de velaturas, de escorridos; nuvens, vertigem, um pulsar de imagens, e ao mesmo tempo uma calma de um céu, de um paraíso para sempre perdido.

Na Galeria Maria de Lourdes Mendes de Almeida, do Centro Cultural Candido Mendes, Regina Váter apresenta VerVê ou Olho da Onça, uma instalação, desenhos e fotografias apresentando, segundo a artista, a sua "maneira xamanística de abordar a arte". A instalação é um grande desenho, no piso da galeria, feito em milho, arroz e feijão preto, compondo figuras em espiral que remetem à forma da onça pintada. As fotos, “natureza eletrônica”, como comenta a artista, são ampliações de trechos de documentários animais vistos em uma tela de televisão com cores e brilhos distorcidos.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Group Show on Amarelonegro, Rio


On Amarelonegro Gallery, Ipanema, Rio de Janeiro, opening tonight of a group show. July 07, 7pm. Artists: Alê Souto, Alvaro Seixas, Bernardo Damasceno, Elvis Almeida, Futoshi Yoshisawa, Geraldo Marcolini, Marina Freire Weffort, Sidney Philocreon, Vânia Mignone, Yasushi Taniguchi.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Photos ("Só Arte Contemporânea")


If you missed an opening party of a contemporary art exhibition, in Rio do Janeiro, the best way to check how the party was is looking at the photos made by the photographer Odir Almeida. He goes to every art exhibition opening, and his photos are in his site, "Só Arte Contemporânea" (Only Contemporary Art). Don't miss.

sábado, 25 de abril de 2009

SP, on-line, 1

Direto de São Paulo, em uma lan-house do shopping da Frei Caneca, postando tópicos sobre as exposições que vi hoje, depois complemento com imagens e mais comentários. Um sábado de sol, gostoso, muita gente nas ruas, agora esfriando e eu ainda de bermuda (e suéter), nada que um jantar com um viño tinto não resolva.
1- No Itau Cultural, Rumos Artes Visuais. O curador é o Paulo Sérgio Duarte e o tema é Linhas do Desejo. Boa exposição, um bom apanhado de artistas jovens no Brasil inteiro, faço meu corte e destaco: Álvaro Seixas (com 3 pinturas de paisagens que vi na Amarelonegro e que já comentei aqui, gosto muito); Diego Belda (paulista, são 2 esculturas de parede, "mesas de sinuca" descontruídas, em fórmica e coloridíssimas); Fabrício Lopez (uma xilo enorme, colorida, presa na parede como cartazes ou intervenções urbanas, falo dele mais ao comentar a individual na Estação Pinacoteca); Felipe Cohen (esculturas com granito, feltro e caixas de papelão); Felipe Scandelari (pinturas!!!!); Flávio Araújo (pequenas pinturas sobre pvc, a partir de fotos de jornais de violência); Ilma Guideroli (a artista mistura plantas baixas de casas com mapas de localidades diferentes, criando seus espaços indeterminados); Julia Amaral (são jóias feitas a partir de bichos - uma lacraia de prata, aranhas, sapos... um pássaro morto se decompondo, em bronze...); Laerte Ramos (uma bataçha naval em escala humana, a ser jogada "de verdade" por oponentes em baias separados por um vidro, as peças são feitas de cerâmica); Nino Cals ("colunas" sustentam o teto, feitas de madeiras finas como cabos de vassoura e tendo ao alto objetos de plástico bem colorido: bacias, baldes...); Tiago Romagnani (video e instalação, mostra plantas em vasos que, retiradas da posição com a queda do vaso em 90º, voltam a procurar a posição para cima, uma metáfora para a vida, para o homem); Yana Tamayo (fotografias de objetos domésticos de plástico bem colorido que ficam monumentais à frente do Museu da República, do Niemeyer, em Brasília).
2- Galeria Luís Strina: Carlos Garacoia com "Cómo Hacerse Millionario a Través del Junk Mail"; e Marlon de Azambuja, brasileiro radicado na Espanha, com pássaros em gaiolas que reproduzem o MASP, o New Museum de NYC e a Tate Modern, bem interessante; e maquetes.
3- Mônica Filgueiras Galeria de Arte: Escrita, mostra com trabalhos de Mira Schendel, León Ferrari, Raquel Kogan, Gilberto Guimarães Bastos e Ozi.
4- Pinacoteca: "Fernand Léger, relações e amizades brasileiras", uma boa exposição, oportunidade de conhecer mais sobre Léger e as afinidades com o Brasil; lado a lado, um Léger e uma Tarsila (aluna do artista), mostram que as afinidades e as influências foram muitas. Léger hoje talvez parece datado (e é mesmo, a ideologia do modernismo, da máquina como nova linguagem, do Carlitos de Tempos Modernos, está toda lá), mas influenciou uma geração e é parte importante da história da arte mundial e especialmente da brasileira ; Monumetria, do grupo Delenguaamano, disseca a trajetória de um monumento (a estátua de Ramos de Azevedo, construtor da Pinacoteca e de muitos outros prédios em SP); Last Minute, instalação de Jorge Macchi e Edgardo Rudnitzky, um gigantesco relógio onde os ponteiros giram captando sons do atrito com o mármore do chão do Octógono, espaço central da Pinacoteca; À Procura de um Olhar: Fotógrafos Franceses e Brasileiros Revelam o Brasil, uma boa exposição de fotografia.
5- Estação Pinacoteca: Daniel Senise, é a mesma exposição que já vi no MAM-Rio, uma bela exposição, com ênfase nos trabalhos mais recentes (gostaria de ver uma verdadeira retrospectiva do artista, com trabalhos dos anos 1980 e 1990); e Fabrício Lopez em Valongo, lindas xilogravuras, grandes, coloridas, gosto muito do trabalho do artista, que usa a xilogravura como meio para uma obra super-contemporânea, com estreito parentesco com street-art e pintura.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

John Waters, politicamente incorreto na Gagosian


A dica foi da artista Virgínia Paiva: na Gagosian Gallery de Beverly Hills, Rear Projection, exposição do John Waters (sim, o cineasta de tantos filmes da Divine - Pink Flamingos, Polyester, Hairspray...). O título da exposição faz referência ao truque utilizado antigamente no cinema, quando uma ação no primeiro plano era sobreposta a uma cena pré-filmada (é só lembrar dos filmes antigos onde os atores estavam dentro de um carro, conversando, e a paisagem passava pelas janelas sem que eles nem virassem o volante). Como um trocadilho meio "duchampniesco", Waters exibe fotos de cenas projetadas sobre fotos de bundas nuas, esta é a "rear projection"...
Outros trabalhos já são bem mais interessantes, e são o motivo de minha amiga, que certamente descobriu o evento lendo a revista Vanity Fair, me mandar a dica.


São montagens feitas a partir de fotos de artistas de Hollywood. Em uma delas, crianças atores e atrizes aparecem com um cigarro na boca, mini-Bette Davies, cena que para os dias de hoje em é chocante de tão politicamente incorreta (Virgínia me lembra da coincidência destas imagens com a de uma gravura dos anos 1980 da Monica Barki, que mostra em traços realistas um bebê de meses fumando com prazer um cigarro...). E a outra montagem mostra deusas e galãs de Hollywood, até mesmo uma aparição do Hitchcock, todos com lábios leporinos... Ao exercitar o grotesco e o policitamente incorreto, o cineasta mostra que continua na trilha da rebeldia dos filmes com a Divine (a cena mais famosa talvez a, sem cortes, quando Divine se abaixa em uma calçada e come os dejetos de seu poodle...), mesmo com os trabalhos desta exposição com preços entre US$3000 e US$12000...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Leonardo Videla e as churrasqueiras


Recebi e-mail do artista Leonardo Videla, com imagens de seu trabalho chamado Churrasquinho no Quartinho de Empregada, já apresentado no barracãomaravilha. Sem sair da temática da arquitetura, o olhar do artista se volta agora para uma “arquitetura móvel (...) fotografando churrasqueiras de quintal ou de laje feitas e desfeitas de tijolo”.
Neste e-mail, Leonardo se refere à entrevista da crítica Glória Ferreira com o Bechara no Blefuscu (nesta entrevista é feita uma referência pelo Bechara aos trabalhos do Leonardo na série Acrílico sobre Tela), e à questão do vazio (a arquitetura, segundo Bruno Zevi, citado na entrevista, é como uma “escultura esvaziada”, onde o homem penetra no interior, onde vive; enquanto que na escultura há o tridimensional mas o homem está “fora”; e na pintura, as diferentes dimensões existem em sugestão apenas). Estes conceitos podem ser exemplificados ao se analisar o conjunto de trabalhos do Leonardo Videla, como coloquei em meu post, onde “as plantas-baixas se transformam em dobraduras, e a pintura invade o espaço: a planta-baixa - na verdade uma representação gráfica do "chão" dos espaços - vai para a parede ao se tornar pintura, salta da tela ao se tornar um objeto-pintura, e na dobradura invade o espaço tridimensional, de uma "pintura de canto" a um objeto com dobraduras em MDF”.

Para Leonardo: “o que quero dizer com isso é o quanto é poderoso esse assunto na produção do fazer e pensar arte atualmente, no decorrer das transformações que vivenciamos, a pintura saindo da parede, a escultura saindo do chão, as instalações, os vídeos, as performances, enfim, vivemos um alargamento dos conceitos de arquitetura (...)”

Nas Churrasqueiras, creio que o artista, além das questões mais formais (as linhas que marcam as plantas-baixas reaparecem na construção das churrasqueiras, estas podem ser vistas como instalações, e também podemos ver as fotos não só como registros mas como pinturas, com referências ao neoconcretismo), enfrenta um alargamento do foco, abordando outras questões: questões sociais tão profundamente brasileiras ("o churrasco" como evento de união e socialização, o “quartinho de empregada”, invenção tão nossa quanto o “elevador de serviço”), o papel da arte e da arquitetura frente uma arquitetura-popular ou uma arquitetura-povera, o kitsch na arquitetura e outras. As dobraduras dos trabalhos anteriores do artista, após invadiram o espaço, com as Churrasqueiras ampliam esta invasão do espaço, incorporando outras questões e outros significados ao seu trabalho.