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terça-feira, 30 de março de 2010

Sobre xilos e marés

Exposição do artista paulista Fabrício Lopez na Galeria Mercedes Viegas, com xilogravuras em grandes formatos e pinturas sobre papel. Impacto. Recupero no notebook um texto inacabado, que comecei a escrever a partir de minha primeira visão do trabalho do artista.

Há quase um ano, em São Paulo, na exposição "Rumos Artes Visuais - Trilhas do Desejo", no Itaú Cultural, uma xilogravura prende minha atenção. Não é uma xilogravura tradicional, está longe da visão mental que fazemos ao pensar em “xilogravura”.

"Rema, Rema, Remador" tem 3x4m, ocupa uma parede inteira onde está colada diretamente, sem moldura, tem cores e formas inusitadas, repetições, sobreposições, veladuras, o resultado é mais de pintura do que de xilogravura. Verdes (verde esmeralda, verde musgo, verde cana, muitos mais), vermelhos, sombras, negros; um mar, formas de um barco; e a escala que domina o espaço em torno, como uma instalação, como uma maré que invadisse a sala e a Avenida Paulista.

Valongo, a exposição individual do artista na Estação Pinacoteca, que vejo logo em seguida, no mesmo dia de uma viagem “bate-e-volta” BSB-SP-BSB, é para mim ainda mais marcante. O título faz referência ao bairro onde o artista tem seu ateliê, na cidade portuária de Santos, um bairro industrial dedicado à atividade de torrefação do café no período de auge da produção cafeeira paulista.

Uma xilogravura monumental é o centro da exposição, com formas e elementos que se repetem e se espalham por outras xilogravuras. As matrizes são exibidas, não com a preocupação didática de explicar a técnica, e sim como obras, se misturam e dialogam com os papéis. Letras, palavras, frases aparecem em meio as imagens, porém não ilustram nem elucidam, são pura carga poética e gráfica.

A mostra na verdade é como uma instalação, como uma ópera, onde canoas, pássaros, flores, portas, cabeças são leitmotivs, em meio a uma massa densa de cores e perspectivas fragmentadas, um espaço que se forma e se destrói, revelando e ocultando uma paisagem de cais, de mar, de um horizonte que se intui e que nos escapa, de um infinito que nos desafia e nos ilude, de uma busca sem fim, de novo como as ondas de um mar que pensamos dominar mas que sempre nos foge e que na verdade nos domina.

Assim, ao conhecer, em 2009, as xilos do Fabrício, o tema “xilogravura” entrou em minha pauta mental. E como nada é por acaso, elas, as xilogravuras, apareceram no circuito de artes em muitas mostras, exposições que no todo formam um apanhado de várias vertentes desta técnica na arte brasileira.

Claro que esqueço algumas, e apesar de minhas tentativas de ubiquidade não vi todas, mas em rápido refresh de memória lembro as gravuras de cordel (A Arte de J. Borges: do Cordel à Xilogravura); Luz Noturna, pequena mas importante retrospectiva da obra do Goeldi, pequena já que sua obra gigantesca sempre desafia limites, como o céu negro de suas pequenas gravuras cresce muito além do papel e se projeta no espaço. Ainda, a exposição de Hansen-Bahia, com obras recentemente restauradas do artista alemão radicado no Brasil na década de 1950; a importante exposição do Rubem Grilo, com cerca de 180 trabalhos do artista, que aliou um trabalho de cunho político a pesquisas formais e a um perfeccionismo na execução; os trabalhos iniciais da Anna Letícia, os bichos, em xilo, fortes e que apontam para o desenvolvimento da obra da artista na gravura em metal; todas estas exposições na Caixa Cultural.

Na Pinacoteca, a imponência das massas gravadas em madeira pela artista Maria Bonomi. Na SP-arte conheci o trabalho de outro artista da nova geração de gravadores, o Ulysses Bôscolo, paulista, que constrói em sua bancada de marceneiro caixas de madeira reaproveitada para suas xilogravuras.

E finalmente, a mostra da coleção de George e Monica Kormis, também na Caixa Cultural, uma enciclopédia da gravura brasileira e em particular da xilogravura. Completa, estão todos lá: Segall, Goeldi, Lívio Abramo, Samico, Lygia Pape, Roberto Magalhães, Elisa Bracher, até a série/políptico feita pela Fayga Ostrower para o Itamaraty, talvez o ápice da xilogravura abstrata no Brasil (e onde aparece, de forma pioneira na Brasil, a monumentalidade que vai explodir na obra do Fabrício).

Na exposição no Rio, quando revejo o trabalho de Fabrício e conheço, conversando com o artista, mais sobre seu percurso e seu processo de trabalho, releio os fragmentos que escrevi e volto a pensar em como esta técnica artística pode se manter a mesma, com toda sua tradição; e ao mesmo tempo, se renovar, ser absolutamente contemporânea apesar dos séculos.

Nada mais antigo do que entalhar madeira para reproduzir e disseminar imagens; e nada mais contemporâneo do que as xilos monumentais que Fabrício desenvolve; cópias únicas, matrizes modificadas e reutilizadas, uma paleta de cores “de pintura” em tintas desenvolvidas especialmente para o artista; repetições, sobreposições e veladuras; podemos falar de gravuras ou de pinturas? e pela monumentalidade, não estaríamos já no campo das instalações?

Ao mesmo tempo, estas características tão contemporâneas são também procedimentos “da xilogravura”: as tintas especiais utilizadas são tintas gráficas; as matrizes de madeira reaproveitadas, as folhas de papel coladas diretamente na parede como affiches ou papéis de parede, até a escala monumental já aparecem na história da técnica (aprendo com Fabrício que, já no Século XVI, uma gravura de Ticiano, A Travessia do Mar Vermelho, foi feita em 12 folhas que, juntas, chegam a 2,20 x 1,20m). A utilização destas características “históricas” com uma visão contemporânea marca o trabalho e a pesquisa do jovem artista.

A presença das pinturas ao lado das xilos como que mostra que não há, em seu trabalho, barreiras entre as técnicas. Vindo da pintura e da cenografia, Fabrício um pouco que inverte o usual: mostra gravuras grandes (as menores medem 1x0,70m) ao lado de pinturas em menor escala (52x50cm). Todas, gravuras e pinturas, são sobre papel e são obras únicas. Todas apresentam a mesma temática, o mar, as canoas, pessoas como coadjuvantes de uma história atemporal de cais e de marés. E a mesma paleta, linda (é possível falar de um xilogravador que ele é excelente colorista?): os verdes, os vermelhos, os ocres, os sombras.

Sigo pensando nas tantas exposições de xilogravura, e como, em algumas delas, no trabalho de artistas esta técnica foi empregada com tanta força e tão dentro do espírito da época, que a xilo se tornou imediatamente identificada com este mesmo zietgist. É o caso das gravuras de cordel e também dos trabalhos expressionistas, que tanto marcaram os anos 1950, das gravuras abstratas dos ano 1960 ou dos trabalhos com cunho fortemente político que retormaram a figuração nos anos 1960-70.

E penso em uma xilogravura diferente, renascida, contemporânea, nesta primeira década do terceiro milênio, e que no futuro talvez seja marcante ao pensarmos na imagem da época que ainda não bem entendemos.

No caminho Gávea-Ipanema o vento do mar me leva a Santos, ao cais do porto, às marés, às pequenas canoas e aos navios embarcados com sacas de café torrado, aos verdes esmeralda e verdes azulados, chego a quaqse sentir o cheiro forte do café misturado ao cheiro de maresia, eu sei, a História da Arte acabou, mas também sei que há uma outra história que continua, e que xilogravuras podem ser arte contemporânea, uma blitz, por favor senhor, vá em frente, obrigado, obrigado, pode seguir. OK. Coloco meu CD do Philip Glass no volume máximo e sigo, rumo a Ipanema, ao mar, ao cais do Valongo, sempre em frente, para o alto e rumo ao infinito.


E mais:
A foto do vernissage é do Odir Almeida, mais fotos no site Só Arte Contemporânea
Para ver o blog do Fabrício Lopez, Ateliê Santos
Comentei neste blog a exposição do Rubem Grilo na Caixa Cultural, clique aqui para ler o post
Clique aqui para o texto de Maria Luisa Luz Távora, Fayga Ostrower e a Gravura Abstrata no Brasil, com análise sobre o pioneirismo da artista no Políptico do Itamaraty em termos de monumentalidade na xilogravura
Clique aqui para o Instituto Fayga Ostrower
CordelOn, site sobre literatura de cordel, com textos e imagens de xilogravuras de cordel
Plataforma, o blog do artista Ulysses Bôscolo



terça-feira, 2 de junho de 2009

Poligrafa na Gravura Brasileira


A Galeria Gravura Brasileira, de SP, agora comercializa as gravuras da Polígrafa, importante impressora de Barcelona que, além de livros de arte, edita gravuras de importantes artistas como Francis Bacon, Christo, Daniel Senise, Tunga, Nelson Leirner, Guillermo Kuitca, León Ferrari, Helen Frankenthaler, Tapies, Liliana Porter, entre muitos outros. A Gravura Brasileira já conta com importante acervo e representa bons artistas, entre os quais destaco os paulistas Claudio Murbarac, Fabrício Lopez e Ulysses Bôscolo (cujas obras são mais difícieis de encontrar no Rio), e agora, com esta parceria com a gráfica espanhola, amplia muito sua oferta de boas obras.

sábado, 25 de abril de 2009

SP, on-line, 1

Direto de São Paulo, em uma lan-house do shopping da Frei Caneca, postando tópicos sobre as exposições que vi hoje, depois complemento com imagens e mais comentários. Um sábado de sol, gostoso, muita gente nas ruas, agora esfriando e eu ainda de bermuda (e suéter), nada que um jantar com um viño tinto não resolva.
1- No Itau Cultural, Rumos Artes Visuais. O curador é o Paulo Sérgio Duarte e o tema é Linhas do Desejo. Boa exposição, um bom apanhado de artistas jovens no Brasil inteiro, faço meu corte e destaco: Álvaro Seixas (com 3 pinturas de paisagens que vi na Amarelonegro e que já comentei aqui, gosto muito); Diego Belda (paulista, são 2 esculturas de parede, "mesas de sinuca" descontruídas, em fórmica e coloridíssimas); Fabrício Lopez (uma xilo enorme, colorida, presa na parede como cartazes ou intervenções urbanas, falo dele mais ao comentar a individual na Estação Pinacoteca); Felipe Cohen (esculturas com granito, feltro e caixas de papelão); Felipe Scandelari (pinturas!!!!); Flávio Araújo (pequenas pinturas sobre pvc, a partir de fotos de jornais de violência); Ilma Guideroli (a artista mistura plantas baixas de casas com mapas de localidades diferentes, criando seus espaços indeterminados); Julia Amaral (são jóias feitas a partir de bichos - uma lacraia de prata, aranhas, sapos... um pássaro morto se decompondo, em bronze...); Laerte Ramos (uma bataçha naval em escala humana, a ser jogada "de verdade" por oponentes em baias separados por um vidro, as peças são feitas de cerâmica); Nino Cals ("colunas" sustentam o teto, feitas de madeiras finas como cabos de vassoura e tendo ao alto objetos de plástico bem colorido: bacias, baldes...); Tiago Romagnani (video e instalação, mostra plantas em vasos que, retiradas da posição com a queda do vaso em 90º, voltam a procurar a posição para cima, uma metáfora para a vida, para o homem); Yana Tamayo (fotografias de objetos domésticos de plástico bem colorido que ficam monumentais à frente do Museu da República, do Niemeyer, em Brasília).
2- Galeria Luís Strina: Carlos Garacoia com "Cómo Hacerse Millionario a Través del Junk Mail"; e Marlon de Azambuja, brasileiro radicado na Espanha, com pássaros em gaiolas que reproduzem o MASP, o New Museum de NYC e a Tate Modern, bem interessante; e maquetes.
3- Mônica Filgueiras Galeria de Arte: Escrita, mostra com trabalhos de Mira Schendel, León Ferrari, Raquel Kogan, Gilberto Guimarães Bastos e Ozi.
4- Pinacoteca: "Fernand Léger, relações e amizades brasileiras", uma boa exposição, oportunidade de conhecer mais sobre Léger e as afinidades com o Brasil; lado a lado, um Léger e uma Tarsila (aluna do artista), mostram que as afinidades e as influências foram muitas. Léger hoje talvez parece datado (e é mesmo, a ideologia do modernismo, da máquina como nova linguagem, do Carlitos de Tempos Modernos, está toda lá), mas influenciou uma geração e é parte importante da história da arte mundial e especialmente da brasileira ; Monumetria, do grupo Delenguaamano, disseca a trajetória de um monumento (a estátua de Ramos de Azevedo, construtor da Pinacoteca e de muitos outros prédios em SP); Last Minute, instalação de Jorge Macchi e Edgardo Rudnitzky, um gigantesco relógio onde os ponteiros giram captando sons do atrito com o mármore do chão do Octógono, espaço central da Pinacoteca; À Procura de um Olhar: Fotógrafos Franceses e Brasileiros Revelam o Brasil, uma boa exposição de fotografia.
5- Estação Pinacoteca: Daniel Senise, é a mesma exposição que já vi no MAM-Rio, uma bela exposição, com ênfase nos trabalhos mais recentes (gostaria de ver uma verdadeira retrospectiva do artista, com trabalhos dos anos 1980 e 1990); e Fabrício Lopez em Valongo, lindas xilogravuras, grandes, coloridas, gosto muito do trabalho do artista, que usa a xilogravura como meio para uma obra super-contemporânea, com estreito parentesco com street-art e pintura.

terça-feira, 17 de março de 2009

Rubem Grilo na Caixa Cultural (Rio)


Na Caixa Cultural do Rio, a exposição "Rubem Grilo xilográfico (1985 a 2009)" apresenta 167 gravuras em madeira e 13 matrizes de gravuras do artista, que tem quase um porte de uma retrospectiva. Entre 1973 a 1985 fez trabalhos em ilustração em importante jornais brasileiros, dentre eles: Opinião, Movimento, Pasquim, Jornal do Brasil e Folha de São Paulo. As gravuras de viés expressionistas, meticulosamente trabalhadas na madeira, fugiam ao paradigma da "ilustração de jornal", o que de uma certa forma também representava, além da opção estética, uma opção existencial e política, coerente com a linha editorial das publicações, de contestação à ditadura militar. Com a abertura, Grilo abandona a ilustração (embora ainda faça algumas ilustrações, como exemplo a ilustração na Folha de São Paulo acompanhando os artigos de Ferreira Gullar), e em seu trabalho experimenta soluções mais formais, com discussão sobre a linha na construção do espaço gráfico. As linhas adquirem autonomia, geometrizando-se ou em arabescos, que impressionam ao se saber que feitos não ao pincel, à mão livre; e sim no paciente trabalho com a goiva desbastando as matrizes de madeira.

Cria séries de pequenas gravuras, miniaturas de objetos com toques de ironia e estranheza; algumas, também em pequeno formato, com toques construtivistas mas ainda dentro das questões existenciais do expressionismo.
Muito interessante, e didático, é complementar a mostra das gravuras com a mostra de algumas matrizes, de maiores dimensões, desenhadas e gravadas. São as placas de madeira (cedro) que são trabalhadas pelo artista e através da qual são feitas as cópias xilográficas. Como as matrizes da mostra ainda não foram entintadas, nesse nível do processo, o espectador pode ver a feitura da gravura e o acurado trabalho de desenho e gravação na madeira.
Rubem Grilo também foi um dos participantes, como eu, Eduardo Barreto, João Magalhães, Luísa Interlenghi, Enéas Valle e outros, do ciclo "2a. sim 2a. não", na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, na gestão do Diretor Rubem Breitman , em 1981, com curadoria do artista Gastão Manoel Henrique.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Arte para Crianças, no CCBB/BSB


Uma das coisas boas desta minha vida de nômade pós-moderno é poder ver (nem sempre, às vezes perco por problemas em agenda) as coisas boas em arte que às vezes ficam restritas a um dos polos apenas (Rio, Brasília, São Paulo). Ou ver duas ou mesmo três versões da mesma exposição, com diferenças de acordo com a cidade (a "fumaça" do Anish Kapoor - Ascension - no CCBB do Rio era solene, icônica, intimidadora; no CCBB de Brasília era lúdica, interativa, user-friendly).
Esta exposição, Arte para Crianças, por exemplo, é específica para o CCBB de Brasília, com seus espaços amplos. O curador é o Evandro Salles, que conheci no início dos anos 1980 (participamos juntos, com muitos outros artistas, de um ciclo de exposições no Parque Lage, dirigido então pelo saudoso Rubem Breitman, outro dia falo destas exposições).
E a exposição tem muitos acertos. É arte para crianças, mas não é absolutamente "baixar o nível" para que as crianças entendam; pelo contrário. É uma ousadia mostrar Lawrence Weiner para as crianças (sem intermediação dos pais, que certamente não entendem nem um pouco do conceitual brabo de L.W.). É uma ousadia colocar centenas de xilogravuras do Rubem Grilo, emolduradas uma a uma, entre elas um pequeno video disfarçado de quadro, em uma "casinha de boneca", com bancos de vaqueiro em couro trançado onde as crianças se sentam e imaginam histórias a partir dos elementos fantásticos das gravuras... É uma ousadia apresentar o suprematismo de El Lissitzky em um desenho animado... E tudo em espaços bem organizados, com textos explicativos, áreas de repouso...

Mas a maior das ousadias, certamente, é o grande salão dedicado ao Amílcar de Castro. O aspecto lúdico, para as crianças, é trabalhar em dobraduras; o que fazem com prazer em grandes mesas. Mas para os adultos (para mim), é absolutamente espantoso ver 140 esculturas do Amílcar (pequenas, 30cm, além de uma escultura grande) em estantes, em uma sequencia infinita. Meu Deus, eu tive que ir a uma exposição "para crianças" para ver esta maravilha? Para poder ver uma legião de esculturas como nunca vi antes, lado a lado, para ver as repetições, as variações, as dobraduras, o ferro tratado como um papel, o movimento suspenso, o equilíbrio precário, todos juntos, 140, o ad nauseam! Que colecionador é esse, que tem 140 esculturas pequenas do A.C.? Que inveja, que deslumbramento!

Ainda: um ambiente lúdico, uterino, maravilhoso, do Ernesto Neto. O cubo de vidro do CCBB foi totalmente ocupado pelo ambiente do Ernesto e por mesas e cadeiras orgânicas do artista, que vi em exposição na Galeria Artur Fidalgo, onde as crianças (e os adultos) fazem trabalhos de dobraduras e encaixes, tendo como molde esculturas "duras" do Ernesto Neto; mas o ponto alto realmente é a vivência do ambiente. As crianças deliram, os adultos viram crianças.

As pinturas do Sued transformadas em varais coloridos com panos manipuláveis pelos espectadores, ao ar livre, em pleno sol da tarde; para as crianças, são casas de cor. Ainda, uma instalação do Emanuel Nassar, que é como se uma pintura do artista se expandisse para abarcar um módulo do prédio; com direito a um mistério (a letra "E" está bem visível no "lado Este" da pintura/instalação; mas onde está o "N"? pergunto à monitora e a resposta é: enterrado, em um canteiro do jardim, no "lado Oeste"...).
Trabalhos emblemáticos da Yoko Ono (talvez excessivos, mas é bom rever o jogo de xadrez com todas as peças brancas). As xipófagas do Tunga (hoje apenas em vídeo, na abertura estavam ao vivo). Uma parede de interatividade com os azulejos tão Brasília, tão modernismo, do Athos Bulcão. Gaiolas e aquários do Eder Santos. Um vídeo do poeta Manoel de Barros. E os fantásticos e safados robôs da Mariana Manhães, em versão candelabros.

O catálogo é didático, sem ser excessivo, e os textos estão próximos a cada trabalho, oferecendo chaves (acho que para os pais, as crianças talvez entrem direto nos trabalhos, sem a necessidade destas chaves). Para mim, este é o maior acerto do Evandro Salles: fez uma exposição "para crianças" que atinge a todos os públicos; pois ele parte de uma concepção de criança que não é absolutamente piegas, paternalista; ele não faz "arte boba para crianças", e não se preocupa em explicar o que não pode ser explicado em arte ("O que é isso, uma mulher de nariz verde? Minha senhora, isto não é uma mulher, é uma pintura"). Ele acredita que a percepção livre das crianças pode ser melhor que a percepção de um adulto reprimido; e ele mostra arte contemporânea sem ter que pedir desculpas pelo que está mostrando.