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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Movimento D: Meu Prazer, Márcia Milhazes (CCBB-BSB)


Mal se abre a cortina do palco, ouço um "oh!!!" de admiração, vindo de alguém atrás de mim, na platéia do CCBB de Brasília, onde Márcia Milhazes Companhia de Dança apresenta seu mais novo espetáculo, Meu Prazer.
A interjeição é para o cenário de Beatriz Milhazes, irmã da coreógrafa. São flores, círculos, mandalas, bem coloridos; na luz "matutina" do início do espetáculo, parecem saídos de um desenho infantil; mais tarde, respondendo às sutis mudanças na luz (a iluminação é de Gláucia Milhazes, mãe das artistas), se transformam em flores pulsantes, em brilhos noturnos, círculos vivos, medusas.
Márcia tem trabalhado com cenários de Beatriz, e a combinação é perfeita; mas o espetáculo não é só o cenário, o trabalho da coreógrafa soma, com acerto e precisão, todos os elementos para falar da "tentativa de encontro entre quatro pessoas solitárias, carregadas por suas histórias pessoais": música (todas brasileiras e hoje pouco conhecidas, seleções que juntam Sílvio Caldas de 1938 e Henrique Oswald de 1908), um trabalho de corpo primososo, a expressividade e vitalidade dos bailarinos, ritmo e uma dinâmica de ocupação do espaço cênico.
No início, os dançarinos não se tocam; traçam suas trajetórias, se aproximam, se olham, se prendem pelo olhar, mas não se tocam; o "matutino" é como uma história de incomunicabilidade, da solidão; de gestos repetidos, extremados, violentos; enxurrada, tsunami; e também sutis, interiorizados; mas não de troca. O esforço dos gestos se materializa em suor, em respirações entrecortadas, que são vividas em quatro solidões, dos quatro personagens no palco.
(Ao falar sobre seu trabalho após a sessão, Márcia fala de uma sala de um Museu onde a porta é fechada, a chave se perde, e os quatro visitantes tem que interagir durante o período em que dura a clausura; ao se abrir de novo a porta, tudo se acaba; mas naqueles momentos de Huis Clos, a partir da interação, a vida dos quatro pode ter mudado para sempre; ou não...)
O momento onde finalmente acontece o primeiro toque, a primeira troca, é marcado por um lindo e contemporâneo pas de deux, um girar sem fim do dançarino com a dançarina, em torno do eixo, até a vertigem; o homem firme é o eixo, e a mulher se deixa levar, rodar, se entrega; até a vertigem; a vertigem. A partir daí, a luz e o cenário já são vespertinos, e mostram que que o encontro existe, é possível, que as solidões e os individuais podem se somar, se encontrar, e que este encontro é um abismo que traga as individualidades.
O esforço dos movimentos já é o esforço físico de um encontro, e o suor e as respirações agora são o arfar deste encontro que tem um erotismo, uma carnalidade, uma transcendência e um êxtase.
De repente, não mais que de repente. As flores infantis do cenário no início do espetáculo são agora plantas carnívoras, ventosas, redemoinhos; e o movimento e a música marcam os momentos onde é possível se sair da solidão, do individualismo, para uma nova realidade, que alguns chamam de amor. Falasse eu as línguas dos anjos, e não tivesse o amor, nada seria.
O amor, o dionisíaco, o orgiástico, o transcendente, o inominável; o se perder; o nada ter, nada querer, nada esperar, nada procurar. O momento único, onde mergulhamos no segredo do Universo; onde somos Deus, onde somos Nada, onde criamos e somos criados, onde mergulhamos no sem-tempo, no sem-futuro, no sem-passado, no fluir eterno.
E Meu Prazer segue, e não é um espetáculo linear, muito pelo contrário, pois o momento do êxtase logo se transmuda em movimento, em mais música e mais corpo, mais espaço, mais beleza.
Outro momento forte, desta vez um acrobático pas de deux masculino (que me remete aos inesquecíveis Béjart), forte, de um erotismo transfigurado; uma entrada de um universo fálico em um espetáculo que transborda uma feminilidade arquetípica; um erotismo grego, pré-cristão; como os verdadeiros jogos olímpicos de uma arcádia que já se foi; como uma leitura coreográfica do Banquete de Platão ou de um poema de Kaváfis.
Ao final, a dançarina solitária, com os movimentos repetitivos e olhar e o esgar que nos fazem supor um êxtase, é como uma Santa Tereza de Bernini, a imagem do êxtase, como as mulheres o sentem, o misterioso orgasmo feminino ("mas afinal, o que querem as mulheres?" pergunta Freud), enquanto a luz vespertina se torna noite, e o brilho dos elementos do cenário que rompem o escuro e que vão ficando nas retinas dos espectadores, junto com os movimentos e olhares da dançarina, exatamente como um orgasmo, como o que fica quando se goza e fecha os olhos e cores e formas nos indicam que sim, desta vez chegamos lá, e lá estamos, e este é o Paraíso de onde fomos expulsos mas onde só voltamos ao gozarmos. Silêncio. Palmas. Cortinas fechadas. Palmas. Obrigado, Márcia, Beatriz e Gláucia. Obrigado, Al Crispinn, Ana Amélia Vianna, Felipe Padilha e Fernanda Reis. Obrigado.

Outros links:
Marcia Milhazes no Youtube

sábado, 8 de agosto de 2009

Movimento D: Quasar (CCBB-BSB)


Ciclo de dança no CCBB de Brasília. Vou ver o grupo goiano Quasar, com o espetáculo Céu na Boca, concepção e coreografia de Henrique Rodovalho. Pelo folder, vejo que o espetáculo "propõe um diálogo entre o paraíso que desejamos e a realidade que nos é oferecida. O ponto de partida (...) foi a curiosidade pelas leis físicas e teorias do Universo. Explosões estrelares, buracos negros e movimentos gravitacionais serviram como alegorias no processo inicial de criação. A narrativa desenvolve-se de forma não linear desencadeando ações, reações e relações impregnadas de humor, ironia, desejo e frustração. transita entre a densidade e a leveza, nos levando a constatação de que os desencontros fazem parte da vida e que devemos, sim, tirar proveito deles". Animador.
O teatro cheio, o CCBB-BSB tem um ônibus que chegou lotado e ao final da sessão partiu mais lotado ainda. Um lugar muito agradável, muitas pessoas vem antes e jantam em um restaurante interessante, sentados em cadeiras Bertoia; eu apenas tomei um expresso, olhando o visual da Ponte JK; e revi a exposição do Eder Rocha, entendendo mais um pouco a proposta e gostando mais ainda, e esperando o adiado lançamento do catálogo...
Gostei do Céu na Boca. Probleminhas: os chavões de "modernidade". Por que as pessoas que fazem dança moderna acham que sempre tem que se estapear, se contorcer, se jogar no chão com força, se machucar, usar músicas bregas, fazer momentos risíveis, apenas para mostrar que são "mudernos"?
Mas este espetáculo, este grupo, supera os que eu acho probleminhas. Técnica impecável. Imensa vitalidade. Figurinos, lindos, trocados discretamente, e totalmente dentro do contexto. A tal da música brega aparece, sim, claro, não podemos esquecer que é um grupo de Goiania, mas não fica excessiva, apenas marca o clima. Eles se estapeiam, se jogam no chão barulhentamente, podemos sentir os hematomas, mas sobrevivem, lindos, jovens, dançando mais intensamente ainda. Gosto disso. Muito.
Um bom espetáculo.
Semana que vem, Andréa Maciel com "Gravidade Zero", não estarei em Brasília. Mas na semana seguinte (21 a 24 de agosto) não perco Márcia Milhazes com "Meu Prazer".

(foto de Lu Barcelos, Chocolate Fotografias, divulgação do grupo Quasar)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Celina Portella e Elisa Pessoa (de morar) - Rio


"de morar", videoinstalação de Celina Portella e Elisa Pessoa, no SESC Copacabana. A inauguração é hoje, mas fica até 12 de julho, e também vale a pena ir conferir. O trabalho das duas artistas, que fazem um mix de artes visuais, video e dança, é muito interessante, e estava na exposição Nova Arte Nova, no CCBB.

domingo, 19 de abril de 2009

No Rio, feriados, sol e cultura

Nestes dias no Rio, um período pródigo em feriados, além do feriado nacional de Tiradentes, dia 21, o dia de São Jorge, 23/04, feriado apenas no Rio. Não vou poder aproveitar todos os feriados, mas consegui um final de semana com um bom sol e uma praia gostosa, e também uma programação cultural interessante:


1. Na Galeria Silvia Cintra, Contos, mostra de pinturas da Cristina Canale, pintora que surgiu na Geração 80 e hoje mora na Alemanha, com uma carreira bem consolidada. São imagens de cenas quotidianas, interiores, com cachorros; a narrativa é, na verdade, apenas pretexto para a excelente pintura. Penso em Bonnard, os cachorros tem o "at-ease" que os cachorros e as mulheres nos banheiros do pintor francês, envoltos pelo ambiente caseiro, com seus padrões e cores, cena capturada pelo pintor em um ângulo meio estranho, que ressalta a sua presença, o olho do pintor/observador, e coloca o espectador do quadro como um voyeur. Melhor ainda, consegui ir na abertura e pude rever amigos, vários artistas da Geração 80 lá estavam. O fotógrafo Odir Almeida estava lá, registrando para o seu site Só Arte Contemporânea , vai ser bom rever o movimento do vernissage nas fotos
2. Na Galeria Mercedes Viegas, a coletiva Trabalhos sobre papel. Uma marca das coletivas da galeria tem sido o alto nível de todos os participantes; só há, na exposição, trabalhos bons; e os contemporâneos, como Daniel Murgel e Marta Jourdan, estão lado a lado com Tarsila, Ismael Nery,Ivan Serpa, Antonio Dias, Tunga...

3. No Instituto Moreira Salles, se encerrando hoje, ainda consegui ver os desenhos e aquarelas do Samson Flexor; os desenhos e gravuras de Claudio Mubarac ("Idéias de fabricação: pequeno atlas") e as fotos de Otto Stupakoff. Três belas exposições. O IMS é um oásis de tranquilidade e beleza, um pedaço de Mata Atlântica cada vez mais sitiado pela Rocinha que se expande e que breve destruirá a Gávea e o Rio de Janeiro (espero não estar sendo apocalíptico). Um bom catálogo acompanha a exposição do Mubarac; eu gosto muito do trabalho do artista: um desenho preciso, uma utilização fantástica de várias técnicas de gravura, a temática de investigação do corpo, e o resultado são lindas gravuras com um pathos próprio, onde o contemporâneo e o arcaico se combinam e se completam.
4. No MAM, três exposições, além de mostra do acervo (meu Deus, não me canso de olhar os Iberê!).

A primeira é do contemporâneo BobN . Conheci o BobN no Parque Lage, ele era assistente do José Maria Dias da Cruz e eu aluno; depois fiz um curso, no mesmo Parque Lage, Arte Hoje, onde BobN e Márcio Botner se voltavam mais para a arte bem contemporânea, novas midias, os exercícios eram coisas como propor uma forma de veicular um trabalho usando a internet (daí surgiu este meu blog e meu outro, o Thesouro da Juventude). Pode parecer contraditório, este mesmo Bob que em um trabalho "invade" uma instalação do artista Ducha e se põe a "comer grama" ao lado de um equino; e que nas aulas do José Maria nos colocava para, incessantemente, combinar as cores à perfeição em obsessivos exercícios de misturar tintas, e que dava para os alunos as dicas práticas de pintura. Na verdade, ao montar um lounge no MAM, ou interferir em pinturas magistrais do acervo com molduras berrantes em impressão sobre plástico (nos livros de assinaturas na exposição pessoas reclamaram das intervenções como gratuitas), o Bob tem um embasamento teórico e prático que sustenta isso tudo. Pena que não pude estar na abertura, mas nas fotos do site do Odir pude ver que foi um evento...

"O lugar do ar", exposição da artista Carla Guagliardi. A artista é carioca, teve a formação artística na cidade, mas há quatro anos não expõe por aqui. A exposição é bem interessante, são esculturas ou instalações, nas quais o tempo é um dos agentes: vergalhões enferrujando dentro de recipientes de plástico com água; elásticos cedendo ao peso de placas de ferro; balões sustentando precariamente pesadas táboas, ou se sustentando a si mesmo na diferença de peso entre o ar e o gas hélio. O paradigma da escultura é o bronze, o mármore, o eterno; a artista rompe com este paradigma ao fazer como que uma escultura-povera, pela transitoriedade; mas que ao mesmo tempo tem a precisão, a imponência, da grande escultura. Boa exposição. E, ainda no MAM, a exposição que comemora os 50 anos do movimento Neoconcreto. Só o poder ler, na íntegra, os manifestos do Ferreira Gullar (Manifesto Neo-concreto e a Teoria do Não-objeto) já vale; e mais ainda ver os recortes de jornal da época, os catálogos, e os trabalhos dos artistas que estiveram neste momento seminal do neoconcretismo.

5- No Centro Cultural Candido Mendes de Ipanema, agora Galeria Maria de Lourdes Mendes Almeida, pinturas abstratas, interessantes, de Rogério Tunes. Lembro muito dela, D.Maria de Lourdes, a entevistar os artistas, entrevistas intermináveis, na verdade meio desconfortáveis para o artista, uma curadora quando as galeiras e a crítica eram ainda bem incipientes no Brasil, e que com isto, o personalismo, a condução do trabalho dos artistas, fez do CCCM nos anos 1970 e 80 um espaço de primeira linha, revelando artistas jovens e mostrando artistas fora do circuito como o fotógrafo Alair Gomes e outros.
6- Cruel, da Companhia Deborah Colker. O início é um pouco diferente do que se imagina da Deborah Colker (acrobacias, uma dança quase ginástica, dançarinos em aparelhos grandiosos, a marca de Vulcão, Velox, Rota); o início é soft, bailarinos vestidos com roupas sociais, bailarinas em vestidos vaporosos e sapatos altos, minha lembrança é um pouco do "Nine Sinatra Songs", da Twyla Tharp, que esteve no Municipal do Rio no início dos anos 1980, e que infuenciou meu amigo o pintor Chico Cunha em uma série de lindas pinturas. "Coisa de menina", eu penso, cadê a parede de alpinista, cadê a roda gigante, cadê os saltos mortais, cadê a crueldade? Mas aos poucos o clima vai mudando, o amor-romance dos primeiros momentos vai deixando entrar a crueldade das relações, o sexismo, as mulheres com o prato de comida entregue pelos homens como uma escravidão do dia-a-dia, e que acaba sendo jogado, quebrado; as roupas finas vão caindo e os bailarinos ficam mais corpo, pulsão, amor-ódio. Uma dançarina com uma roupa que é clássica, um espartilho, como uma puta de Proust, dança com facas, que brilham rubras; as facas são enterradas em uma mesa gigantesca, que é palco para cenas de sexo-ódio, amor-violência. Finalmente, as construções tão características da coreográfa, desta vez são paredes móveis, de espelhos, com escotilhas, onde os bailarinos parecem flutuar. O final é um sorriso de esperança, de uma bailarina sozinha, como se depois de tanto ódio, tanta crueldade, ainda houvesse uma esperança, um pouco um anti-climax. Um bom espetáculo, de uma coreógrafa que tem se renovado e que é uma referência na dança brasileira contemporânea.