sábado, 4 de junho de 2011

Dona Paula

Um pedido de uma amiga é uma ordem. Daniela Name pediu a quatro pintores cariocas algumas frases ("três frases, sintético mesmo", ordenou) para seu blog sobre a exposição da artista portuguesa Paula Rego na Pinacoteca de São Paulo. Os artistas: Patrizia d´Angello, Bruno Miguel, Jozias Benedicto e Raul Leal.
Uma das super-exposições que vi em São Paulo na intensa semana da SP Arte. E que não virá ao Rio, shame! shame! Como a do Leonilson no Itaucultural de SP, maravilhosa, e a do Gerhard Richter (que está na Caixa Cultural de Brasília e que vai a São Paulo e até a Salvador). Será que é porque ainda somos um balneário? Enfim, nada que uma passagem com desconto ou com milhagem não resolva, mesmo se for uma ida bate-e-volta a SP como fiz em horários absurdos mas a preço mais-barato-que-o-Expresso-Cometa.
Os textos estão no blog da Daniela Name, ao lado da análise, como sempre enriquecedora, feita sobre a trajetória e a obra da artista, complementada com boas imagens de algumas obras expostas.
Aqui vai o meu texto, um registro apenas de uma exposição marcante, inesquecível, de um trabalho forte e visceral, ao mesmo tempo eterno e tão contemporâneo.
"Domínio técnico completo: óleo sobre colagem, tinta acrílica, desenho, pastel, gravura em ponta-seca, água-forte, lito. Mas o trabalho de Paula Rego é muito mais que isso, que o virtuosismo técnico. É o desvendar de um universo completo em sua estranheza e pervesidade, infantil e adulto, mulher e homem e andrógino, feto abortado e animais à espreita, personagens de contos de fada e de Sade. Em salas e quartos de classe média-alta, famílias se dedicam a jogos dúbios, de prazer e de horror, enquanto sobre o tapete passeia um inocente animal de estimação, um pequeno javali de dentes afilados ou a filha masturba a bota do pai ao engraxá-la. Bailarinas musculosas, um anti-Degas, ajeitam os tutus e se preparam para entrar em um palco  que nunca aparece, o espetáculo é a espera do espetáculo. Mulheres que abortam, solitárias, dor e sangue discretos, recolhidos, fetos, bonecas destruídas, criaturas do mar. Azulejos portugueses, Portugal que lida com as décadas de brutal repressão e atraso, a tristeza do fado e a nostalgia de um antigo império hoje decadente, a herança moura, os muxarabis, as mulheres encarceradas. Uma exposição para ser vista e revista, com vagar, mergulhando neste mundo cruel e pulsante, ameaçador e ao mesmo tempo tão familiar, de histórias infantis, de dores e de sangrar. Ao mesmo tempo um mundo tão real: basta olhar em volta. Basta ter olhos e ver. Ou fechar os olhos e sonhar os pesadelos de Paula Rego."


Clique aqui para o blog da Daniela Name, uma referência em comentários, notícias, tudo sobre arte

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pinturas 2009-2011

Admirava as pinturas medíocres, bandeiras de portas, cenários, telões de saltimbancos, letreiros, iluminuras populares; a literatura antiquada, (...) romances do tempo da avó, contos de fadas, almanaques infantis, óperas antigas, refrões simplórios, ritmos singelos.”  Uma estação no inferno,  A.Rimbaud (citado por Eco, U. em “A História da Feiúra”)

Revisando as pinturas que fiz a partir de 2009, anoto algumas características que me parecem comuns. Um exercício, busco ver estas muitas dezenas (centenas) de telas como um conjunto, em sua diversidade de temas e procedimentos, à semelhança da minha série Polkianas, exposta no Largo das Artes em fevereiro de 2011, onde as 35 pequenas telas se agrupam em uma só pintura.
Esta é exatamente uma primeira característica que está presente em meu trabalho:  Ele se desenvolve em séries, se agrupa em polípticos, séries que não se encerram e que são sempre retomadas. Serialidade, repetição, multiplicidade, camadas. Obsessão em dividir, em contar as partes e em agrupá-las, em propor elementos em quantidades precisas, em números ímpares, o 3, o 7, o 12+1 (este uma metáfora da Última Ceia)... Pedaços de mundo que se agrupam em um todo, um todo que é bem maior que a soma das partes, uma completeza que está sempre em aberto.
Trabalho cada pintura em camadas, sobrepondo formas, manchas, técnicas, matérias, universos. Sobreponho citações de imagens da História da Arte e cito procedimentos de pintura, “estilos”: os gestuais da action-painting, as cores fortes do fauve, as pinceladas do expressionismo abstrato... Os polka-dot do Sigmar Polke, as Vanitas do Philippe de Champaigne, os rostos e corpos que se desfazem como no Francis Bacon... A coexistência entre estas camadas nem sempre é pacífica, em muitos trabalhos me interessa mesmo o embate entre mundos pictóricos: o abstrato-orgânico versus o geométrico-metálico.
Recorrentes em meu trabalho são as imagens do kitsch, em especial o kitsch religioso: sagrados corações, coroas de espinhos, mantos de nossa senhora aparecida, as Vanitas. Fora do contexto de uma pintura sacra ou mística, no meu trabalho estes elementos não significam transcendência, ao contrário, estão pairando sobre a aridez de um mundo inóspito.
Utilizo uma paleta exuberante, tons fortes, cores falsas, berrantes, tons neon, tintas metálicas, superfícies cheias, texturas, matéria, pigmentos, excesso de acontecimentos. Passo longe do clean.  Tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Uma teatralidade de ópera: nos autorretratos eu sou eu e sou o Rei Sol, o Cardeal Richelieu, nas paisagens o trampolim de Icaraí é como um palco, há uma história que está sendo contada mas o que é fixado é o momento entre duas falas, o silêncio que precede a ária, a expectativa do salto mortal sem a rede de proteção.
Deixo muito espaço para o acaso, para o aleatório, para o erro. A mancha, o escorrido, o sem-controle. O feio. Trabalho com incertezas, muitas vezes buscando os limites da percepção: manchas que são figuras humanas ou não, paisagens apenas sugeridas, imagens dúbias, espaços dúbios.

*   *  *
Sobre o que falam estas pinturas? São paisagens, vanitas, retratos e autorretratos.
As paisagens são praias com o esqueleto de uma construção, um trampolim. São ruínas de usinas nucleares, um mirante abandonado no alto de uma serra, pedaços da arquitetura modernista de Brasília. São cenários de um mundo destruído ou em destruição, onde o tempo está congelado. O apocalipse nuclear já veio e nós ainda não notamos.
As vanitas repetem à exaustão uma cena clássica: sobre uma mesa, um crânio ladeado por um vaso com flores e uma ampulheta: em uma série com 50 pinturas dissequei a pintura de Philippe de Champaigne. Em outras pinturas, as caveiras de príncipes e imperatrizes dançam, esqueletos dos Habsburgos e dos Bragança. Crânios aparecem, ou se escondem no limite da percepção, em paisagens, em retratos. Memento mori, a vida como um teatro.
Retratos de ídolos mortos ou eternamente vivos, de estátuas de museu de cera, de crianças com lábios leporinos. Paródia de um expressionismo, de um Francis Bacon ou de um Lucian Freud ou de um Graham Sutherland – mas as carnes à mostra são de plástico, as cores são de um cenário de teatro, o sangue é puro Alizarim Crimson 346 Acrilex.
Dos retratos aos autorretratos, a teatralidade se exacerba: eu sou personagens, meu verdadeiro eu está na superfície, na tinta metálica que reflete o espectador, no rosa-neon que desmascara a seriedade do expressionismo. Um cardeal, um pintor com uma taça de vinho e uma tela em branco, um jogador de futebol e seu duplo, um homem com o coração exposto, com os olhos fechados, com os dentes arreganhados como um cão de guarda. Como o Rei Sol. Teatro.
Vendo o conjunto, observo que um tema se mostra presente em todo o meu trabalho: a transitoriedade. Não quero falar da morte de um indivíduo, da minha morte, da morte de alguém querido, não quero falar de um ponto de vista psicológico, não busco ser triste, não quero ser sério, ser deprimente. Luto, talvez; mas não melancolia. Não quero ser óbvio fazendo uma pintura sóbria em tons fechados: as minhas caveiras dançam, as cores explodem, busco exatamente este contraste. Busco falar da transitoriedade da vida e do Universo, dos papéis neste teatro de sombras. Nada é absoluto, as certezas se dissolvem em tinta e em pedaços de História, as imagens se apagam e reaparecem, as camadas se somam e ao fundo se vê restos de vidas neste palimpsesto em que vivemos.

“We are dying, we are dying, we are all of us dying
and nothing will stay the death-flood rising within us
and soon it will rise on the world, on the outside world.”
The Ship of Death, D.H.Lawrence

domingo, 10 de abril de 2011

KJ no Rio

Sim, KJ. Palmas.
Keith Jarrett no Municipal, retornando ao Rio depois de 22 anos. Não vi, perdi, não vou perder esta por nada no mundo. KJ e os improvisos de piano.
(Adoro. Köln Concert, o CD que vendeu mais de 3,5 nilhões de CDs (eu comprei, meu CD sumiu, depois dei download na internet, como eu muitos, então os três milhões se multiplicam. Outros muitos outros. Mais de 60 CDs gravados, em solo ou com o grupo, standards, clássicos, improvisações. Para mim os melhores as improvisações, o concerto no Scala de Milão quando no meio dos improvisos ele toca um Over the Rainbow. Não precisa mais de nada, só isso).
E lá está ele, todo de preto, e o piano, o piano. Ele esquenta aos poucos, como nós mortais; o primeiro improviso é delicado, inocente, como uma planta carnívora nos chama com a beleza e a leveza para um mundo onde seremos devorados pelas teclas que fluem, agora leves, inocentes, exageradamente inocentes, flores no campo. Depois ele esquenta, a segunda peça já tem os aromas terciários, como um vinho, como uma música que não é mais somente primavera, e assim vai.
Hoje, peças curtas, muitas. Finalizações abruptas, como para marcar um universo de peças curtas. Ah um desejo de ouvir uma peça longa, um lado de um CD ou mais.
Recebe as palmas com uma reverência, retorna ao palco e ao piano, aplausos consagradores, volta ao palco e toca um bis. Outro. Outro. Além da performance irrepreensível, ele trouxe uma sequencia de bis que é simplesmente divina, sem palavras, vejo tudo e entendo finalmente o que é deus. Palmas.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Cinzas

Lembra-te que és pó.
E ao pó retornarás. Um dia. Um carnaval.
Um dia a gente dizia, para quem não quer curtir carnaval a melhor coisa é ficar no Rio, a cidade fica vazia, a praia fica ótima. Ah, mas nós queríamos curtir carnaval e enfrentávamos engarrafamentos monstruosos para a Região dos Lagos, lá era um carnaval feito de pequenos blocos de rua, lá tudo era nosso, tudo era sempre, tudo, tudo. No Rio, o carnaval era ver pela televisão o desfile das escolas e no máximo uma banda de Ipanema que desfilava contida entre as calçadas do bairro mágico.
Hoje, é diferente, o Rio não fica mais vazio, cresceu no carnaval de rua, os blocos e bandas se espalham enormes, e não se consegue fugir do clamor das ruas, do som sincopado, do alaa-ô-ô-ôô...
Mijar se tornou um problema, uma interdição, um crime hediondo.
Penso que tudo mudou e tudo se renova, bebo uma latinha de vodka ice (prefiro não beber cerveja para não querer mijar), beijo na boca e me deixo beijar, e a vida segue. Mais um. Carnaval.
(nas cinzas separo as contas, amanhã dia 10, não perder as datas dos pagamentos, programar a agenda para o resto de março, um mês que ficou tão curto, agendar médicos, apresentações de projetos, portfolios, enfim: cinzas)
Respirar fundo, mais um, mais um ano. Obrigado, obrigado, obrigado, ainda não retornei. Ao pó.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Um outro Carnaval

Era Carnaval, eu era uma criança. A melhor lança-perfume era a Rodo metálica, um cilindro dourado esguichando um líquido frio perfumadamente enjoativo. As crianças ganhavam a sua quota de Rodo metálica, os adultos adoravam, cheiravam, caiam, pediam para as crianças uma prise no lenço de linho, as crianças não entendiam qual a graça daquilo tudo. Eu matava formigas, saúvas, tanajuras com o jato de minha Rodo metálica, ou jogava aquele jato gelado na nuca de uma menina. Um dia imitei os adultos e fiquei cheirando um lenço gelado de Rodo metálica, achei horrível.
Era Carnaval, a cerveja era quente, não dava tempo de gelar, a gente comprava nos bares a garrafa grande de 600ml e bebíamos no gargalo, quente mesmo, eu não era mais uma criança e queria ser um adulto mas a melhor parte era quando íamos mijar juntos e trocávamos cerveja quente no gargalo, éramos muito jovens e não tinha problema em nada, mesmo quando nos beijamos no banheiro sujo do boteco bebendo cerveja quente enquanto mijávamos, depois voltamos cada um para a sua namorada, suados, era Carnaval.
Era Carnaval, a cerveja que nunca gelava e uma peixada, panelas cheirosas na cozinha, pirão, arroz de cuxá, quem sabe o que é isso? minha namorada olhou para mim, eu beijei o pescoço dela, linda, como uma fruta silvestre, taperebá açai cupuaçu, ela riu e deu um gole grande na sopa de peixe, me beijou e passou com a língua a sopa para a minha boca, ficamos nos beijando e trocando de bocas aquela peixada e eu pensei, agora sou um adulto, não preciso mais matar formigas com a minha Rodo metálica, é meio nojento mas a vida de adulto é toda ela nojenta.
Era Carnaval, e falaram no auto-falante do clube no meio do desfile, um carro, um Galaxie pegando fogo, no estacionamento, era o nosso, fomos correndo, um cigarro mal apagado talvez. e lá estava o carro pegando fogo como uma carruagem do deus Apolo, era Carnaval.
Um Carnaval destes eu falei, chamei, gritei, é impossível que o Carnaval acabe hoje, na terça-feira, eu quero eu desejo eu imploro a todos os meus amigos, amanhã minha casa está aberta para continuarmos o Carnaval que eu não acredito que possa acabar. No dia seguinte acordei perplexo, falei com minha família sobre a bobagem que eu tinha feito, a noite fechamos a casa e apagamos as luzes, vimos chegar vários carros, os que acreditaram em mim, buzinaram, pararam na porta, a campainha, e nós silenciosos dentro de casa.
Arraial do Cabo, o Bloco do Feijão, outros Carnavais onde parece que se vai encontrar outro grande amor mas aos poucos se vê que o amor é escasso. Pouco. Pessoas que nem lembro o nome, mas que beijei bem, e pessoas que lembro bem o nome mas que foram para outros universos, vou beijar-te agora não me leve a mal, tudo é Carnaval. E depois dormindo na rede sempre estendida na varanda.
Um Carnaval, ainda faziam bailes no Theatro Municipal, desfiles de fantasia de luxo ou originalidade. Faziam corso, circulando com os carros, a gasolina era barata. Nos blocos e bandas, as pessoas trepavam transavam faziam amor faziam sexo, meu amigo que hoje é avô dizia contava enumerava quantas bocas. Eu não. Vou beijar-te agora.
No Bloco do Feijão é assim, os homens se vestem de mulher e as mulheres se vestem de homens. O segredo é, não sei qual é o segredo.  Só sei que o mascarado ou mascarada tirou a máscara de clóvis, abriu a roupa de losangos e nos beijamos, e era lindo, como eu, e a noite foi nossa. Era Carnaval.
No dia seguinte, na varanda da casa, contei minha história de amor no Carnaval. Ninguém acreditou. Eu sei como é isso, na verdade nem eu acreditei mesmo.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Uma traição


A primeira vez que te vi, nossos olhos não conseguiam se separar, era uma festa badalada, em uma época em que eu ganhava convites para festas badaladas, nem sei porque.
Lá estava eu, sozinho e na festa e sozinho no mundo, e nossos olhos não conseguiam se separar. Eu era casado mas estava sozinho no mundo, se é que isso é possível, claro que é, é o mais comum.
Uma criança, você, e por que estas olheiras? que só aumentam a profundidade do teu olhar, que só fazem do teu olhar um lago de águas verdes aparentemente rasas e paradas mas com uma armadilha, um redemoinho, um sumidouro.
(ah não, sem os lugares-comuns, não vou falar dos olhos de ressaca ou dos olhos-espelho-d'alma, mas teu olhar me levou para junto de você e me fez te desejar muito, me fez te desejar muito, me fez trair)
Nos encontramos outras vezes, em outras festas badaladas, pulseirinhas de convidado vip, um dia nos beijamos na festa mesmo, muitas vezes, saímos da festa e fomos a um bar e bebemos mais e mais e nos beijamos mais e mais e eu voltei para casa com dois balões pretos com caveiras brancas e o teu telefone anotado em um pedaço de papel com uma caligrafia totalmente ilegível.
(claro, uma festa de lançamento de um estilista que usa a caveira como ícone, como eu uso, as vanitas, os balões eram a decoração da festa, eu levei para casa dois deles que depois murcharam, nada é para sempre)
Liguei, marquei, desmarquei, tinha medo, eu nunca tinha traido. Mentira. Eu não queria trair. Mentira. Eu não sabia o que eu queria. Mentira. Eu não queria o que eu sabia.
(na manhã seguinte eu acordei cego, como Édipo, mas isso é outra história:)
Aquela manhã J acordou cego e com o braço direito dormente. Dentro da névoa da ressaca, abriu um olho para olhar o relógio digital ao lado da cama, como sempre fazia, cada manhã; um dia de semana, tenho que ir trabalhar; depois o outro olho: via o brilho do mostrador digital mas não conseguia enxergar os números. Estava cego.
Enquanto um neurônio pensava que esfinge ele tinha decifrado para ter a cegueira como castigo, com o racional percebe que apenas havia dormido, totalmente bêbado, com as lentes de contato. Aí a dormência do braço aumenta, e ele percebe que há alguém dormindo ao seu lado.

(mas isso é realmente outra história)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Na madrugada

É a hora em que os que estão com alguém dormem saciados. É a hora em que os lobos uivam famintos, a lua cheia adquire um tom de vermelho-sangue, a dama-da-noite recolhe seu perfume. Os que não estão com alguém continuam tomando chopp quente em pé e baixam o nível de exigência.
É a hora em que são cometido os assassinatos, as invasões, os estupros, os incestos.
No meu prédio tem um vigia, que deve estar dormindo. É a hora em que até os vigias mais sérios dormem, em que nas boates só ficam os solteiros, os que procuram e ficam até o final exatamente porque procuram.
É a hora em que os sites de relacionamento na internet estão cheios de pessoas nuas, que se masturbam para o mundo, ou para o verdadeiro amor que nunca terão, que está sempre além, sempre. É a hora em que as crianças choram dormindo ou acordam com pesadelos.
(uma noite eu acordei chorando, gritando, mais ou menos nesta hora, eu gritava e apontava para o teto da casa, eu via uma bruxa gargalhando entre as vigas, entre os caibros de madeira, no dia seguinte subiram e viram que as madeiras estavam carcomidas por milhares de cupins e que a casa ia ruir, depois reformaram a casa mas eu continuo até hoje vendo aquela bruxa, ela está comigo em todas as minhas madrugadas)
É a hora em que os suicidas despencam de um andar alto segurando apertado na mão uma imagem de um santo. É a hora em que os santos entram em êxtase. É a hora em que o êxtase é fácil e vem como um preparativo para o sono ou para a morte.
O vigia deve estar dormindo, eu posso interfonar para ele e perguntar se está tudo bem, claro que ele vai demorar para atender, deve estar em um sono profundo, mas vai dizer que está tudo bem, evidente. É que ele não sabe, ele não viu a bruxa que ri sempre entre as vigas.
Nos sites, webcams ligadas, todos procuram. Nos bares, chopps ligados, todos procuram. Nos becos escuros, na areia da praia, nas esquinas, todos procuram, sempre. Os suicidas também, os carentes, os destituídos de tudo, os que viram a novela e os que leram um livro, os que foram ao supermercado que abre 24 horas, os que foram à praia e os que ficaram em casa.
(um dia, ele virá, como no apocalipse, brilhante mas ao mesmo tempo negro como a minha bruxa, e ordenará, cessem todos os chopps, cessem os sites de relacionamento, as webcams, cesse toda a espera, eu vim e estou aqui e sempre estarei pois sou o êxtase total, o princípio e o fim)
Mas ninguém vai ouvir o que ele diz.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Dia de los Muertos

Happy-hour em Ipanema, tantas happy-hours, penso em você, lembro de você, tanto tempo, tantas happy-hours que curtimos juntos, 20 anos é uma vida ou quase, e em um momento tudo se acaba, pra sempre; bebo e penso no rio, no Aqueronte, você está lá, na barca, e olha pra mim, e segue, a barca segue; você olha pra mim, a barca segue, a happy-hour no feriado do dia de Finados continua...

Elisa comenta:
Sempre continua, Jozias.
Sempre.
;)  
   
                              
Um dia, um dia, um dia, eu também seguirei nesta barca, aí estaremos juntos, de novo; por enquanto eu tenho que brincar que estou vivo, que você não me faz falta, tenho que seguir, mas você me faz muita falta, mesmo depois de tanto tempo. Não adianta chorar, a barca segue e te leva pra mais longe de mim, e eu continuo bebendo caipivodka e rindo, sou feliz, tenho amigos, mas sei que um dia estarei de novo com você em uma happy-hour sem tempo pra acabar.


domingo, 31 de outubro de 2010

Sobre a dificuldade de escrever

Amigos me perguntam, quando você vai postar no blog as impressões sobre a Bienal? sobre a visita a ateliês? sobre o trabalho de artistas novos? sobre tua vida, tua visão subjetiva dos acontecimentos, em um momento de ruptura? sobre a programação cultural no Rio, tão intensa? sobre teu trabalho? sobre os artistas que você está pesquisando, sobre Daniel Buren, sobre Sigmar Polke, sobre...
A exposição está fechando, o trabalho do artista está mudando, o ateliê não é mais o mesmo, teus sentimentos reais só tem sentido mediados pela poesia do texto, por que pesquisar estes artistas tão pesquisados quando novos artistas emergentes são lançados ou são recuperados, por que escrever sobre a Bienal de São Paulo sem os urubus quando nos países asiáticos dezenas de Bienais estão em exibição, por que mostrar/falar de pintura quando as outras mídias são as queridas da mídia, por que pintar (a cozinha, o demorado, o sutil, o permanente) quando o momento é do imediato, do provisório, do descartável. Por que. por que, por que?
Muitas pautas, muitas trocas, muitas deadlines.
A realidade de que, hoje, escrever um texto, um simples texto, 2 laudas, é um trabalho penoso. Bom, claro, acabou o trabalho penoso de datilografar, corrigir, redatilografar... os editores de texto são a maior invenção desde Mr.Gutemberg.
Mas, paradoxalmente, o escrever se torna mais exigente. Checar as fontes, todas elas, estabelecer os links, procurar as imagens, preocupar-se com direitos de imagem (ainda na internet uma brincadeira, mas uma tendência forte para o futuro). A preocupação em ser politicamente correto. A auto-censura.
Enfim, tudo isso para dizer que:
Dei um tempo no blog. 
Não dei um tempo em criar, pelo contrário, estou pintando e desenhando sem parar, meu ateliê está vivo e movimentado (bom, um pouco sujinho demais, minha Ivanete tirou uma licença de 2 semanas para se casar de véu e grinalda e com tudo que tem direito), continuo visitando ateliês e exposições. Reflexão. Estou escrevendo também, bastante, os contos que discuto nos workshop com o Luiz Ruffato (e que não posto mais no blog para manter o ineditismo).
Ou seja: não estou morto, pelo contrário.
Apenas inaugurei a temporada de hibernação aqui no blog.
Volto após hibernar.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Erotismo e Apropriação (Fábio Baroli)

Em janeiro deste ano escrevi aqui no blog sobre uma "descoberta": Narrativas Privadas, série de pinturas do artista Fábio Baroli, de Brasília, que me impressionaram de maneira muito forte.
Depois disso, conheci melhor o Fábio, conversamos bastante sobre arte, e em julho fui surpreendido com um convite do artista para escrever, com base no texto que escrevi para meu blog, uma apresentação de sua exposição individual no Centro Cultural Adamastor, em Guarulhos. Esta individual veio em decorrência da premiação recebida pelo artista no 9 Salão de Guarulhos (2009).

Foi uma encomenda interessante, transformar um texto escrito descontraidamente, em linguagem de blog, em outro texto que falasse sobre a obra do Fábio sem perder a informalidade, um texto "de artista para artista" e não um "texto crítico".

A exposição ficou bem bonita, mostra um apanhado da obra do artista, incluindo além das pinturas alguns trabalhos de cunho mais conceitual, e aconteceu ao mesmo tempo da primeira individual do Fábio no Rio, no Anexo da Galeria Laura Marsiaj, com boa repercussão. Na galeria do Rio foram apresentadas pinturas da série Narrativas Privadas; já em Guarulhos as demais séries, com as imagens fortes que descrevo em meu texto, causaram polêmica que teve que ser contornada para que a exposição fosse mantida.

As imagens deste post são o projeto do Fábio para sua exposição de Guarulhos, e dão bem a ideia do que foi a mostra.

Segue também o texto que escrevi para essa exposição:

 
Erotismo e Apropriação

Estava navegando na internet, sem compromisso, quando aquelas imagens me pegaram pelo pé, me derrubaram, me nocautearam. Assim descobri, como um voyeur, a pintura de Fábio Baroli.
Narrativas Privadas é uma série de pinturas concebidas a partir da apropriação de imagens de sites pornográficos. Homens e mulheres, distraídos, tomando seus banhos, com sexos e celulites à mostra, observados de longe, através de basculantes, pelo voyeur-pintor escondido, que se apropria de seus corpos e que ao pintá-los erotiza igualmente suas peles e os azulejos, as torneiras de metal gasto, os aparelhos de gilete. A sensualidade é minimizada, como se o artista "dissecasse" os corpos, ao invés de "expô-los". Os banhistas não são jovens nem belos, mas através da pintura o artista os retira de seus banheiros vulgares, e nos faz desejá-los, objetos de um olhar perverso polimórfico. O prazer de ver uma pintura, de possuir pela visão.
Já na série Semblantes o artista se apropria da tradição da pintura de retratos: o modelo encara o espectador; o claro-escuro destaca a figura centralizada; há a semelhança com as feições do retratado; mas o que domina tudo é um pensamento contemporâneo. O voyeurismo dá lugar a um olhar direto e mútuo, a uma nudez de intimidade; uma intimidade que “filtra” o corpo nu, o torna familiar. São pinturas que congelam em bem pintados retratos o momento anterior ou posterior ao clímax do desejo ou a familiaridade de uma amizade muito intensa.
Outra série, as Apropriações Textuais, apresenta pinturas que tem a tensão de um erotismo rebelde. O artista de novo se apropria da tradição da História da Arte, a domina e a expõe em toda a crueza, em toda a força de um erotismo século XXI, pós-liberação sexual. Uma versão sangrenta, menstruada, da “Origem do Mundo”, de Courbet. Um homem empalado, um Cristo clássico, tem o rosto do artista e genitais expostos na altura do olhar do espectador. Uma cabeça decapitada, um autorretrato, exibida por um carrasco nu com vigor erótico explícito. No auto-erotismo escandaloso do “Autômato”, uma metáfora da própria pintura.
A forte carga de erotismo aparece também nos trabalhos de cunho conceitual, as Intervenções. “Telúrico” é um obelisco, uma árvore exageradamente fálica que foi construída nos jardins do campus da Universidade de Brasília. Em outra instalação, ao se apropriar da Catedral de Brasília “pintando-a” com luz, o artista transmuda o concreto armado em carne, vibrante em um escandaloso tom de rosa. O templo, monumento arquitetônico modernista, se torna uma gigantesca vulva multifacetada.
Na internet, inscreva-se em um site pornô, veja as câmeras de vídeo que a cada momento oferecem a intimidade de várias pessoas, em cidades ou países distantes ou talvez suas vizinhas. Escolha uma imagem, é fácil, basta um clique, e pronto, você está acompanhando todos os detalhes de um corpo desconhecido que se expõe on-line para dezenas, centenas de espectadores anônimos. Você não precisa dizer nada, basta olhar; e para apagar aquela pessoa de sua vida basta fechar a janela do computador.
O erotismo hoje se escancara pela mídia, pela internet; e se torna banal, nada mais surpreende.  Mas ao internalizar o erotismo em sua pintura através do fetiche, da citação, da apropriação, Fábio Baroli consegue "se infiltrar" e "nocautear" o espectador desavisado, como eu naquela noite em que navegava descompromissadamente pela internet e fui parar em uma exposição de arte.  



Clique aqui para ler o post de janeiro de 2010 sobre o trabalho do Fábio Baroli

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cenas de uma ocupação

O cenário: Prédio neoclássico em ponto nobre do Rio, construído na década de 1920, por encomenda de Otávio Guinle, pelo arquiteto francês Joseph Gire, autor do Copacabana Palace e outros marcos históricos do Rio: o edifício A Noite, o Hotel Glória, o Palácio Laranjeiras, a mansão da ilha de Brocoió, o embarcadeiro da praça Mauá, entre outros. Um prédio com tudo o que uma construção de luxo da época tinha direito: vista para o mar, amplos espaços, pé-direito alto, simetrias, ornatos em mármore e ferro forjado, sancas, nichos, molduras douradas, tacos de madeira nobre, elevadores amplos, elevador de serviço com grades de ferro, daqueles tão comuns em Paris e, no último andar, uma chambre-de-bonne para cada apartamento. Um prédio surpreendentemente bem conservado em um Brasil e um Rio que odeiam as memórias do passado. Neste prédio, um apartamento que mantém os acabamentos luxuosos e que, recém-comprado, passará por uma planejada reforma para adequá-lo às necessidades de seus novos moradores.
Os personagens: artistas plásticos/performers/músicos, um deles a proprietária do apartamento.
A ação: Ocupar o local com instalações, performances, pinturas, esculturas, desenhos, ambientes, fotografias, propostas, vídeos, músicas, danças... por um final de semana inteiro
Cenas:
Inicialmente tímidos diante do espaço, os artistas negociam seus espaços com os organizadores, apresentam suas propostas, discutem a logística, fazem incursões ao apartamento de cobertura do prédio (fechado há 25 anos) e ao bar próximo ao prédio, onde o croquete apresentado como autêntico do Alemão de Petrópolis é a sensação.
Aos poucos os trabalhos vão tomando forma, as propostas se modificam à medida em que se sente melhor o espaço, em que a interação entre trabalhos aponta para outros caminhos.
Uma semana, cinco dias úteis de preparação, de uma 2a. até uma 6a.feira. Alguns trabalham em casa, e os que preparam suas instalações no local estranham: será que só nós estamos trabalhando? onde estão os outros? será que vai dar certo? será que o resultado final vai ser um conjunto harmônico, vai "ter uma cara" ou vai ser um agregado de divergências?
O convívio estabelece alianças, cria amizades, propicia troca de informações, troca de energia. Descansa-se trabalhando, ou visitando o trabalho dos outros artistas. Para os lanches ou o chopp do final do expediente, o Bar da Praia bomba como talvez nunca tenha bombado. Segunda-feira, terça-feira...
Sexta-feira no início da tarde, a maioria dos trabalhos está completa ou em fase final de instalação, mas a tal visão de conjunto ainda não se faz, talvez o barulho de artistas trabalhando ou conversando, talvez o lixo ainda por tirar, talvez os trabalhos que ainda não estão montados, uma certa sensação de uma coisa anárquica... Vou para casa, um banho, descansar um pouco antes da festa de abertura...
...e ao chegar no apartamento vejo que, aparentemente como uma mágica, a luz se fez: a exposição flui, os trabalhos dialogam, se integram, se reforçam, há uma organização no que parecia um caos, há linhas de leitura que fazem "um desvio para o azul", "um desvio do rosa para o vermelho" e outros percursos, há até um bar na cozinha do apartamento com um eficiente barman preparando a melhor caipirinha de morango que jamais bebi em minha vida.
Mágica? não, sincronicidade, e a atuação discreta e agregadora dos organizadores/curador.
(Sonho com possível percurso: ao se abrir a porta do elevador, o tapete persa com corte de silhuetas de corpos humanos e uma misteriosa fotografia de um rosto-meio-vegetal dão as boas-vindas. No palaciano hall do apartamento uma cascata de pérolas, que pode ser uma arquitetura desconstruída ou uma infiltração, e sugestões de paisagem anacrônica pintadas nos nichos dourados das paredes se somam em uma minúscula gruta que expõe as entranhas do prédio em pérolas e pigmento azul.
Desviando para o vermelho, passamos por uma saleta obsessivamente cor-de-rosa com pequenos faunos desafiando a gravidade e chegamos a outra sala com uma parede pintada com gestos também cor-de-rosa e uma cascata de maçãs vermelhas caindo das gavetas de um armário; um pano vermelho entra pela parede e se conseguirmos seguir por este pequeno buraco chegaremos a uma biblioteca ocupada por uma bateria e outros instrumentos de percussão, e uma pequena escultura; na parede, uma pintura feita de contas brilhantes e coloridas; na estante, uma coleção de pratos de porcelana pintados reconta a História do Brasil.
De novo no hall, o percurso para o azul leva a uma paisagem sugerida por discretas linhas em um enorme campo de azul brilhante, que  confronta uma parede ocupada por uma dança erótica em traços livres de tinta azul, leves como as azaléias brancas de papel em vasos em frente à varanda; desta sala, o verdadeiro acesso à biblioteca; ou o acesso a outra sala dominada por gigantesco animal feito de pedaços de móveis antigos e penas e plumas brancas, onde um pequeno desenho da paisagem externa em uma parede preta é companheiro de instalações que fazem brotar da parede o interior de um processo construtivo moderno, vergalhões e tijolos.
Volta-se ao hall marcado pelas pérolas, e o largo corredor/galeria que leva à antiga cozinha é palco de uma massiva instalação com fotos do desabitado apartamento de cobertura e com material recolhido em lixo. No meio do corredor, portas de correr levam a uma antiga sala de banquetes, hoje o espaço de performances, marcado por pinturas/desenhos que fazem referência a corpos.
Pelo apartamento, telas exibem videos, um deles mostra uma mulher de burca andando compulsivamente pelos corredores vazios do que parece o mesmo apartamento mas talvez seja outro apartamento no prédio; outro mostra um estranho despertar; mendigos à volta de uma fogueira; e outras imagens perturbadoras.
Em uma pequena saleta, uma parede com buracos e textos de filósofos mostra como "filosofar com um martelo"; já em um dos banheiros, delicados desenhos feitos com lágrimas e maquilagem escorrida, um diálogo com as pérolas, com as flores de papel; com as pequenas placas de gesso que se esgueiram em diversos lugares mostrando desenhos da paisagem externa, de detalhes do interior ou do exterior do apartamento e os pequenos retratos sobre pedaços de fórmica de pessoas desconhecidas mas possíveis, reais, como os fantasmas, como o fantasma da mulher de burca que vagueia pelos corredores, como os pombos mortos no apartamento de cobertura, como as asas brancas que se estruturam em pedaços de móveis, e se volta ao início e se retorna em outro percurso, agora já um percurso mental de links e reflexões.)
No fim de semana a visitação é grande, no cair da tarde o apartamento se transforma em uma happy-hour, à noite é uma festa. Mesmo com a concorrência de outros eventos importantes no Rio: exposições do Hélio Oiticica no Corredor Cultural, Santa Teresa de Portas Abertas... e a concorrência desleal do que é o evento mais importante para o Rio, um fim de semana com sol gostoso chamando para as praias.
Gratificante.
E também um exercício de despreendimento, de viver o efêmero: domingo à noite as portas se fecham, segunda-feira tudo está desmontado, daí a alguns dias as equipes de pedreiros entrarão, quebrando paredes, trocando azulejos, substituindo a fiação elétrica que passa com fios envoltos em papel dentro de tubos de ferro, atualizando as instalações hidráulicas que se entopem com o acúmulo de décadas...
A partir de agora, só os registros da ocupação. Só a memória.

Artistas:
Abel Duarte
Alessandro Sartore
Aleteia Daneluz
Bob N
Bruna Lobo
Claudia Bakker
Edu Monteiro
Evandro Machado
Fernando de La Rocque
Gimena Mello
Hugo Richard
Jozias Benedicto
Kunja Bihari
Leo Ayres
Luar Maria
Luiza Crosman
Marcelo Rocha
Matias Mesquita
Moises Alcuna
Natali Tubenchlak
Nora Stephens
Orlando Mollica
Pontogor
Rafael Inacio
Robson
Sandra Schechtman
Simone Michelin
Ursula Tautz
Virginia Paiva
Ze Carlos Garcia

Organização:
Aleteia Daneluz
Bob N

Barman:
Ricardo

meus registros em foto


Registros em vídeo:








FaceArte publica uma versão resumida deste texto





quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Em busca do ouro

Chegar a Ouro Preto é como, de repente, estar dentro de uma paisagem de Guignard, é claro que já devem ter escrito isto antes mil vezes pois é a mais pura e óbvia verdade, não me importo, para que tentar ser original quando do alto destas montanhas tantos séculos me contemplam, tanto ouro tirado da terra, entregue aos Bragança ou contrabandeado nas trancinhas dos cabelos pixaim ou nas entranhas dos santos-do-pau-oco, tantos escravos mortos ou alforriados, em busca do ouro, do ouro preto.
(o ouro encontrado na região tinha as pepitas escurecidas por uma camada de paládio, o que lhe dava uma  tonalidade escurecida, característica, diferente da cor do ouro de outros lugares).
O ônibus vem devagar, amanhece, eu estou totalmente aceso, a estrada é cheia de curvas, subidas, descidas; em uma curva do caminho se abre inesperada a paisagem, um panorama entremeado de névoa, neblinas, um sol insistindo em nascer, as montanhas que se sucedem em planos irregulares. Nos planos: palmeiras, igrejas, casas com telhas moldadas nas coxas dos escravos, rios, córregos, matas. E acima de tudo o céu onde provavelmente moram anjos e santos barrocos. Guignard puro.
Desço (aqui se desce e sobe o tempo todo) até a Praça Tiradentes, já é plena manhã com sol forte e céu azul, pego um mapa da cidade para programar passeios e, no lugar onde os pedaços de Tiradentes ficaram expostos, enquanto estudo o mapa, ouço conversas como música de fundo. No mais puro sotaque de mineiro, que sempre traz uma sensação de pureza, de ingenuidade, um rapaz conta para o outro o ciúme que sentia da mulher e como ela a traiu, o assunto passa abruptamente para como ele agora está "em condicional", o interlocutor pergunta "o que é condicional", ele explica. Com a impressão de que perdi para sempre alguma informação importante (provavelmente os detalhes de como a infiel foi morta), sigo minha descoberta de Ouro Preto, Vila Rica, a Imperial Cidade de Ouro Preto.
Para mim, apenas um lindo dia de sol, a sensação de caminhar sobre pedras, seguir o mapa até uma igreja, ficar deslumbrado com o poder, a grandiosidade das volutas barrocas, da pedra entalhada, dos dourados, dos azulejos, dos santos com roupas e cabelos de verdade e com olhos brilhantes de vidro; descobrir que as sacristias são mais bonitas que os altares-mor; desenhar em meu moleskine detalhes, detalhes, detalhes intermináveis; seguir o caminho, pelo mapa ou pedindo informações, uma cidade turística como outra qualquer, só que sem um MacDonalds, o que é um diferencial altamente positivo.
Mas não é só isso, à medida em que sigo e converso ou ouço conversas, percebo presenças, sinto que o Tiradentes exposto na praça continua exposto, que a paisagem está cheia de grupos de turistas mas também está cheia de fantasmas, de vultos que se intui ou se percebe apenas com a visão periférica ou com os olhos fechados.
Vila Rica, o nome já nasceu com o indicativo da riqueza que foi sua glória e sua derrota: o garimpo. E a rica vila , uma serra pelada do período colonial, deve ter sido um lugar bem estranho para se viver.
Há uma Vila Rica, expansiva, solar; no burburinho dos onibus escolares com turistas; nos garotos, as cuecas aparecendo sob as bermudas caídas, que tiram fotos com seus celulares e ao apito dos professores se aglomeram para ouvir as explicações sobre a história da cidade; nas famílias que fazem turismo ou festejam uma segunda lua-de-mel; nas igrejas cheias de fiéis mas mais cheias ainda de turistas que sempre querem fotografar; no movimento de estudantes que tomam café com pão de queijo no intervalo entre as aulas.
E uma outra Ouro Preto, noturna, misteriosa, feita do sangue dos garimpos e dos escravos, dos inconfidentes, dos poetas, e que aparece em lugares insuspeitos; na conversa ao meu lado na praça; nos calouros que circulam pelas ruas com cartazes pendurados em seus corpos indicando sua situação (como os escravos); nos crimes; no Tiradentes esquartejado e exposto; nos becos onde você pode se perder para sempre; nas noites onde o barulho das festas ao longe mal esconde o rumor de correntes arrastadas, de matracas da Paixão de Cristo, de novenas e Te Deums, de açoites, castigos e orgasmos.
Vila Rica começou com a Bandeira de Antônio Dias no final do século XVII, o primeiro bandeirante paulista a chegar na região, atraído pelas promessas de riqueza a partir do estranho ouro enegrecido. Um primitivo arraial se fundou no morro de São João com a celebração de uma primeira missa para um grupo pequeno, que depois se multiplicaria. O garimpo, terra de ninguém; as atividades tradicionais - agricultura, criação - são abandonadas pela busca do ouro, para que perder tempo plantando ou pastoreando quando em uma pepita se pode descobrir a riqueza instantânea?
Assim, no início do século XVIII, a região passa pelo que se chamou de A Grande Fome. Dois forasteiros se matam a faca por uma cuia de farinha. Cheias dos rios em terríveis estações de chuvas agravaram a situação e provocam o êxodo de populações para outros arraiais, uma marcha de famintos que caíam de inanição nos caminhos do Rodeio. Fala-se que existiria até hoje um Campo das Caveiras, com centenas de mortos no esforço de subir a serra fugindo da cidade famélica. Escravos e ciganos, armados, assaltavam os vivos e saqueavam os mortos. O horror.
Horror que continuou e talvez tenha tido seu auge na Inconfidência; penas cruéis: por enforcamento, amarrado a cavalos e arrastado pelas ruas, depois esquartejado. Tiradentes, enforcado em 1792, teve seu corpo esquartejado e os destroços espalhados pelos caminhos de Minas Gerais; outros, exílio da África; o poeta Cláudio Manuel da Costa encontrado morto na prisão, oficialmente por suicídio. A cabeça de Tiradentes foi exposta em plena Vila Rica, sumiu misteriosamente e nunca mais foi encontrada.
Já no século XXI, o horror foi outro, novas tecnologias na cidade colonial, um jogo de RPG (role-playing game) com toques de magia negra teria provocado o assassinato de uma jovem,  a estudante Aline Silveira Soares, que foi a um evento em Ouro Preto, a "Festa do Doze", em 11 de outubro de 2001. Com duas amigas, ficaram hospedadas em uma república; no dia 13, um túmulo do cemitério de Ouro Preto foi violado; e no dia seguinte, o corpo de Aline foi encontrado no cemitério da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia; sobre um túmulo, despida, de braços abertos e pés cruzados, e com 17 ferimentos feitos a faca. Os acusados pelo crime são três rapazes, moradores da república, e uma jovem, prima da vítima.
As repúblicas em Ouro Preto são um capítulo a parte; se espalham pela cidade, cheia de estudantes; de todos os níveis, umas ricas e tradicionais, ocupam casas maravilhosas; outras menos poderosas, improvisadas até; só de moças, só de rapazes, mistas, GLS ou homofóbicas. São muito parecidas com as fraternities e sororities das universidades americanas, tão descritas em livros (A História Secreta, de Donna Tartt, é um deles, com sua trama de cumplicidades e estudos clássicos) e filmes (um dos melhores talvez o Sociedade dos Poetas Mortos, do diretor Peter Weir, além de longas séries de terror+rir de Pânico e aparentados). Uma experiência que, no Brasil, não é onipresente como na cultura norte-americana; na Universidade em que estudei o campus era uma ficção, se resumia às conversas nos pilotis; assim para mim foi uma experiência engraçada ficar hospedado em uma república.
O ponto forte é a hospitalidade, a facilidade em se fazer amigos, a diversão sempre presente, a casa cheia todo o tempo. O que poderia ser um ponto fraco, a pouca privacidade, não cheguei a sentir; mesmo com a casa cheia há um cuidado com as individualidades. Enfim, uma boa experiência, como é interessante passear na noite na cidade e ver a movimentação nas repúblicas, o barulho de festas, a juventude. E também uma marca da cidade, de Minas, a interiorização: não há um "baixo Ouro Preto", como temos vários "baixos" no Rio, onde as pessoas vão para as ruas beber e confraternizar; as loucuras acontecem entre as paredes coloniais das repúblicas, das casas, das igrejas; sob a aparência tradicional, o desvio; sob as igrejas barrocas, o prazer, a transgressão, o êxtase.
Como no crime das irmãs Poni, em 1962; as irmãs Ethel e Edina Poni, da chamada alta sociedade de Minas Gerais, assassinaram em uma pousada em Ouro Preto, a sangue frio, a nova companheira do ex-marido de Edina, o milionário Fernando Melo Viana Filho. Uma história de amor e ódio, de traição, de dinheiro, violência e impunidade; um assassinato cometido na frente de testemunhas, em público; enquanto Ethel segurava os braços de Maria de Lourdes Dias Calmon, Edina, campeã de tiro ao alvo dos clubes tradicionais de Belo Horizonte, dispara dois tiros de seu revolver calibre 32 na nuca da vítima. As duas senhoras foram presas algumas horas depois; para recebê-las, a cadeia de Ouro Preto foi reformada; o julgamento teve a participação de juristas importantes, e o conservadorismo da sociedade mineira foi determinante para acolher a tese da defesa, de coação moral irresistível, e absorver as acusadas, culpabilizando a vítima.
Segundo a defesa (o texto é uma pérola ao descrever o conservadorismo brasileiro da época, onde o divórcio ainda não era legalizado e as separações eram vistas com estranheza, um casal formado após um desquite era um casal pária, apontado na rua, os filhos de desquitados marginalizados nas brincadeiras com os filhos de famílias),  "a vida de Edina tornou-se uma via crucis, n’uma sucessão de sobressaltos e angústias, permanentemente oprimida e coagida por sua impiedosa rival (...) se viu obrigada a privar-se de comodidades e da vida de conforto que sempre teve – pois passou faltar-lhe o mínimo para a sua subsistência – Maria de Lourdes deixava seu emprego (...) anunciando aos quatro ventos que descobrira uma “mina de ouro” e não precisava exercer um ganha-pão honrado: foi engrossar o número daquelas que vivem da mais triste e mais antiga das profissões... (...) Continua acentuado o contraste entre ambas, após a desgraça visitar a morada de Edina, na pessoa da Calmon: enquanto esta fazia freqüentes viagens a Europa (...), ostentava jóias de um luxo asiático (...), requintando em sempre fazer chegar a Edina a notícia dos presentes caríssimos que recebia do Dr. Fernando (...). Edina a esposa legítima, atravessava períodos de notórias privações, com os credores batendo-lhe humilhantemente às portas (...) com os próprios fornecedores de gêneros negando-lhe mais crédito e obrigando-a a ir as duras fainas do trabalho na propriedade agrícola do casal, onde se dedicava à fabricação de doce para vender junto ao seu círculo de relações.  (...) Senhora da situação como se julgava, confiante de sua ascendência de fêmea moça sobre o amante sexagenário (em números redondos a Calmon tinha 30 anos e o dr. Fernando o dobro, passou ela a infernar a vida da acusada Edina atormentando-a, amargurando-a e levando-a ao desespero, através de freqüentes (...) telefonemas urbanos e interurbanos em que, utilizando de linguagem sórdida, preservada na tradição das vivandeiras, à Edina dizia que devia conceder o desquite ao marido para que ele pudesse regularizar sua situação com ela; que Edina se convencesse que era uma mulher velha e superada, enquanto que ela tinha mocidade a oferecer a seu marido e coisas quejandas (...)"
Estão todos lá, vagando, enquanto caminho pelas ladeiras, enquanto fotografo com meu celular as sombras, os azulejos e as fontes, enquanto bebemos uma cerveja Backer, enquanto vamos de república em república, os vultos nos perseguem e se escondem nos becos, os barulhos ao longe, as estrelas, o céu do Guignard.
Sim, e o Museu Casa de Guignard, uma delícia; a casa onde o artista morou, uma casa muito simpática com um gostoso quintal, muito bem conservada e adaptada para um museu simples, sem grandiosidade, cool como o artista.
Museu com pouco acervo, nem meia dúzia de telas do Guignard (mas uma lindíssima, pintura sobre madeira, grande, com cores fortes); uma cama e outros objetos pintados pela artista; e uma coleção de pequenos desenhos, cartões, bilhetes de enamorado; apenas isso; mas não faz mal, se respira Guignard em toda parte, um lugar gostoso para se ficar horas como ficamos, e se sentir também um pouco enamorado por esta Ouro Preto de Guignard. Como esta casa fosse um par de parênteses, fosse como uma capa protetora a deixar fora o lado soturno, os espíritos.
(Guignard também tem um lado negro, sabemos; depressivo, os complexos a partir dos lábios leporinos; mas sua obra dificilmente é soturna, mesmo nas cenas de noite, há uma transcendência, uma elevação, uma alegria quase ingênua. Outro artista, ligado a Ouro Preto, que transcendeu as limitações do físico foi certamente Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, cuja deformação absolutamente não deixa marca na beleza de seus anjos. O barroco, a transcendência da pérola deformada, o êxtase)
E assim deixo Ouro Preto, já fazendo planos para voltar.
Uma residência, registrando em meus moleskines os azulejos e azulejos das igrejas, quem sabe?
Ou simplesmente voltar, sem motivo, sem desculpa, pois a vida é boa e melhor ainda se se consegue rever o passado e tornar realidade algo que ficou inconcluso há tantos anos. Ou séculos.
Buscando o ouro e o encontrando.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ao vencedor, as baratas

"Tirai as argolas de ouro das orelhas de vossas mulheres, vossos filhos e vossas filhas e trazei-mas. (...) trabalhou o ouro com buril e fez dele um bezerro (...) No dia seguinte, madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se." (Êxodo 32:2-6)
Adorar um animal de ouro. No Antigo Testamento, um bezerro, feito com as jóias de ouro do povo. Ouro para o bem do Brasil, nos anos 1960, derreter alianças, pulseiras de bebê e cordões de Agnus Dei, para salvar o país do perigo comunista. Fotos da atriz Julie Christie ao ganhar seu Oscar em 1966, com um vestido dourado, beijando impudicamente a estatueta dourada. Cenas do garimpo da Serra Pelada, homens chafurdando em barro e pepitas do precioso metal, riqueza instantânea ou pobreza continuada.
Hoje, uma inversão: o ouro, o objeto máximo de desejo e idolatria, se associa ao inseto mais repugnante, habitante dos esgotos e dos becos escuros e úmidos. As baratas de ouro do artista Fernando de La Rocque não são objetos de adoração, não são ícones de um mundo estático, hieraquizado; são objetos de arte, de uma arte que associa o desejo à repunância para questionar os limites da própria arte, as contradições da sociedade que endeusa artistas midiáticos, que transformou a arte em espetáculo e os museus em mausoléus.
Com simplicidade, Fernando fala de seu processo de trabalho.
Da visão modernista do artista como um ser especial, do trabalho de arte como uma ligação entre o divino e o humano, do gesto criador como o sopro de Deus em Adão, da Arte como Expressão e Transcendência (tudo com maíusculas), temos um artista que sai pela noite urbana com sua mochilinha, um spray de tinta dourada; sua caça, os insetos rastejantes; sua obra, as baratas douradas. Baratas que ele devolve à liberdade ou que envia, por Sedex, uma Nasty-Mail-Art.
São as baratas do Fernando de La Rocque que estão na exposição "Barata de ouro -- Expressionante", no Espaço Cultural Sergio Porto, no Rio, até dia 29. Baratas de plástico pintadas de ouro em estojos, uma mais sexy em um estojo de cetim cor-de-rosa; uma pequena pintura expressionista de uma barata, com moldura kitsch; desenhos de baratas douradas sobre papel; vídeos; troca de emails do artista sobre o projeto das baratas. Multiplicidade de formas, de midias; simplicidade; contemporaneidade. Interessante também é conversar com o artista sobre seu trabalho, vê-lo ensaiando uns passos de dança no Fosfobox, ou melhor, ver sua entrevista no programa do Jô Soares (está no Youtube, coloquei o link abaixo), para sentir que é um artista comprometido com seu trabalho e, ao mesmo tempo, comprometido com uma visão de mundo, com um trabalho que procura alternativas, que não se conforma ao espaço tradicional das categorias (pintura, desenho, escultura, artes aplicadas), das galerias, do circuito de arte. Sempre com leveza, witty e doce, e sem abrir mão de seu pensamento, de sua proposta.
Interessante também acompanhar o trabalho do artista, questionador, e ao mesmo tempo leve, com humor e ironia. Os objetos-esculturas feitos de canudos de plástico usados: são pedras que respiram, são galáxias ou nuvens, são cérebros ou pulmões; são pop e contemporâneos. "Colônias", instalação com "azulejos pseudo-coloniais", uma parede externa da Galeria Gentil Carioca coberta pelo que parece um padrão típico de azulejo colonial; vista de perto, vê-se que o inocente padrão na verdade é uma suruba infinita, explícita, em azul e branco; um passante reclama, vai à Polícia, registra um B.O.; a discussão chega aos jornais, e não estamos no obscurantismo medieval e sim no Terceiro Milênio em um País Tropical. Enfim.
Este é o trabalho do Fernando de La Rocque: instigante, leve, irônico, contestador e acima de tudo contemporâneo. 

Clique aqui para Larocque, o blog do artista

Entrevista do artista no programa do Jô Soares, parte 1 e parte 2:



Julie Christie, o filme "Darling" é de 1965 e o Oscar em 1966, no vídeo não aparece o tal beijo, objeto das fotos, proféticas de uma época de idolatria e materialismo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O paradoxo e a maratona

Observei em minha vida recente um paradoxo: quando eu morava em Brasília e vinha ao Rio e a São Paulo com o tempo contado, conseguia ver todas as exposições de arte importantes nas duas cidades, além das (poucas) em Brasília. Agora que voltei a morar no Rio, vejo que não consigo me manter atualizado no movimento de exposições na cidade, e também minhas idas a São Paulo estão sendo mais raras.
Para romper este paradoxo, só outra invenção dos gregos, a maratona. E retomei o hábito de dedicar um dia inteiro para ver todas as exposições, ou quase todas, e depois cair na cama morto de cansaço. Valeu à pena, já que eu corria sério risco de perder algumas boas exposições, em seus últimos dias .
Comecei pelo CCBB, que abriu sua Sala A Contemporânea com uma boa instalação da artista Mariana Manhães. São, máquinas, robôs, que se movimentam, gemem, chiam, mostram imagens, um high-tech que é low-tech, com fios, curcuitos, conexões e engrenagens a vista. Impossível não lembrar das máquinas da Rebecca Horn na mesma sala há algumas semanas; irônicas máquinas, nos trabalhos das duas artistas; mas também muitas diferenças, na elegância apolínea da alemã e na brasilidade macunaímica (se é que posso usar estes termos quando falo de mecanismos) da instalção da Mariana.
Ainda no CCBB, retrospectiva da Anita Malfatti, com cerca de 120 obras. Um mistério para mim, a trajetória da artista paulista: das obras fortes do início de sua carreira até os anos 1920, para o trabalho com boa técnica mas insípido e kitsch do restante da carreira. O turning point teria sido o famoso artigo de Monteiro Lobato, Paranóia ou Mistificação; mas o artigo é de 1917 e vemos ainda bons trabalhos de Anita até meados dos anos 1920. Uma leitura feminista talvez aponte como causa o massacre da mulher: família burguesa empobrecida com a morte precoce do pai, uma menina com problemas físicos de nascença (atrofia no braço e mão direita), portanto "incapaz" para um bom casamento, tem que se sustentar através de aulas e de pinturas submetidas ao gosto dos compradores. Muitas outras leituras são possíveis, e nunca este mistério fica tão evidente como em uma retrospectiva.
Na Casa França Brasil, A Céu Aberto, uma exposição com a proposta de criar novos espaços expositivos na instituição, voltados para o exterior do magnífico prédio. Uma frase do artista Leonilson, "Observar e dar chance à minha curiosidade", dá o mote da exposição, que é bem feliz em sua proposta. Os demais artistas são Geléia da Rocinha, Paulo Vivacqua e Smael. Já nos espaços internos, instalações do Chelpa Ferro e do Cadu Costa, exploram a sonoridade.
A instalação do Chelpa é uma versão da apresentada na Galeria Progetti, e a do Cadu é uma gigantesca caixa de música/órgão de foles, com martelos (ferramentas comuns), que, acionados pelo espectador através de um mecanismo giratório, provocam um som de avalanche. Tenho um trabalho do artista, Pour Elise, onde a música de uma caixinha de música é transformada em uma gravura; e vejo neste gigantesco mecanismo como o artista explora sempre de forma precisa e eficaz as ideias de sua pesquisa.
No Centro Cultural dos Correios, revejo a exposição Goeldi, O Encantador das Sombras. Rever é uma maneira de dizer, vi esta exposição em Brasília, no Centro Cultural da Caixa, em uma versão reduzida; aqui, é como ver uma nova exposição:  com muito mais obras, a montagem se utiliza muito bem do amplo espaço da instituição, são feitas oficinas e apresentações didáticas, há um catálogo não muito extenso mas muito bem produzido. E os highlights para mim são a remontagem do ateliê do artista, primorosa, com matrizes de gravuras, instrumentos de trabalho e até, requintes, jornais da época; e a exibição do filme "O Guarda-Chuva Vermelho", feito pela artista Lygia Pape como um tributo ao gravador, ela, também uma artista com xilos maravilhosas. Sim, e o fantástico trabalho do Goeldi, os urubus, os guarda-chuvas, as caveiras, os peixes, os jogadores de cartas e os ladrões, os urubus, um mundo tenebroso e ameaçador, onde o perigo, a morte, vem dos cantos, dos becos escuros, das chuvas, dos objetos que revoam carregados por um vendaval.
Na Galeria LGC Arte Contemporânea, a exposição de Frederico Dalton, Exceções Recorrentes, com curadoria do artista Oswaldo Carvalho. As questões apresentadas pelo artista são muito atuais, por exemplo: "O que significa realmente ser “minoria” hoje?", "A arte ainda pode ser considerada uma situação de exceção?" e ao tratar estes temas usando midias contemporâneas porém ultrapassadas - projeção de slides - o artista faz um contraponto a uma arte integrada, que se coloca sistematicamente up-to-date. Um pouco "vai Carlos, ser gauche na vida", um pouco o low-tech que certamente dialoga com a Mariana Manhães, com o Cadu e o Chelpa Ferro, todos em um círculo de menos de 200m de diâmetro; como dialoga com o Matta-Clark, no Paço há pouco mais de um mês. Mas ao meu ver o parentesco é maior com o artista americano, ao privilegiar os destituídos, as exceções, as minorias, o fusca que se move como uma borboleta, os projetores de slides, o não à obsolescência planejada, ao high-tech, ao mundo pasteurizado onde parece que cada vez mais se está sem alternativa. Uma exceção pode ser uma alternativa, ainda mais se é recorrente.
Uma andada do Corredor Cultural até a área da Praça Tiradentes. O Centro do Rio é mesmo delicioso, principalmente em um dia de sol, mas sem calor; se podemos parar nos camelôs e dar asas à imaginação, se o Halls que em todos os lugares custa 1 real aqui sai por 2 por 1 real, bem, só pode ser mercadoria roubada, mas enfim, encho minha mochila com Halls, o pretinho, o que engasga mais, e chego totalmente engasgado a minha próxima parada:
Largo das Artes, rever a exposição do Gilvan Nunes. O espaço do Largo é talvez o mais maravilhoso dos espaços de galerias de arte cariocas, com a vantagem que é autêntico, não é um loft-Disney. E agora com um algo a mais, o andar de baixo é ocupado por um sebo dos bons que tem um café/restaurante delicioso.
Bom, mas para os artistas, qualquer artista, é um desafio, aquele espaço enorme, o pé direito alto, a área central onde cabe até uma montagem de Aída, com elefantes e tudo. E o Gilvan se saiu super-bem deste desafio, ocupou muito bem o espaço; são pinturas enormes, muito coloridas; serigrafias obssessivamente cheias; pequenas telas; tudo muito bonito, dá vontade de rever, de ter. Lindas pinturas, matéricas, coloridíssimas, ornamentos; algo como uma Milhazes-rascante; as pinturas com apropriações de bibelôs são um achado; e saí da exposição sentindo que tem tudo a ver, o Centro da Cidade, o Saara, o colorido desta cidade tropical e destas pinturas que tudo incorporam e tudo transfiguram em tinta e gesto.
Na Gentil Carioca, Fabiano Gonper, “Do Sujeito. Do Poder. Da Arte”, com desenhos, videodesenhos, fotografias, obras gráficas e uma escultura. Um bom trabalho, coerente, antenado. As pessoas são desenhadas como contornos, esculpidas como manchas bidemensionais; nas obras gráficas o preto invade as figuras, e as relações de poder ficam evidenciadas.

Na Durex, o artista plástico Mauro Espíndola apresenta a exposição "Nactividade", com desenhos e pinturas que lidam com questões de identidade, particularidade e universalidade, a partir de fotografias. Um trabalho bonito e pleno de significados. As relações entre fotografia e memoria, entre pintura e fotografia, entre permanente e efêmero, entre o indivíduo e a família/sociedade, estão muito presentes e são bem resolvidas.
Na Caixa Cultural, uma exposição sobre os móveis do arquiteto Sérgio Rodrigues, bem montada e bem interessante. Gosto dos móveis e tudo o mais do arquiteto, para mim eles tem a cara dos anos 1960, da revista Senhor, do clube Costa Brava, da Garota de Ipanema (o filme), de uma espontaneidade (a Cadeira Mole) que depois foi atropelada pelos anos 1970, pela contra-cultura, pelos hippies, pelas drogas, pelo Pop. E o arquiteto se renova, trocou o jacarandá pelas madeiras certificadas, e está tudo lá, na exposição.
Metrô até Copacabana, uma parada para ver Sergio Allevato na Artur Fidalgo. À primeira vista são aquarelas de botânica; mas olhando bem, o artista enxerta nas formas vegetais outras formas, de personagens da Disney, da Hanna Barbera, da Hello Kitty.
Outras estações de metrô e chego em Ipanema, revejo as Galerias Amarelonegro e Laura Marsiaj, mas, exausto, deixo a Galeria Laura Alvim para outro dia.
Na Amarelonegro, além das coleções de múltiplos que são mostradas por demanda, a boa coletiva Além do Horizonte – Paisagens Contemporâneas, com curadoria da Daniela Name e obras de artistas contemporâneos relacionadas à paisagem: Álvaro Seixas, Bob N, Bruno Miguel, Danielle Carcav, Deborah Engel, Estela Sokol, Gisele Camargo, Leo Ayres, Luiza Baldan, Pedro Varela, Rafael Alonso e Raul Leal. Bons artistas, um bom conjunto e uma boa montagem, aproveitando bem o novo espaço da Galeria.
Na Laura Marsiaj, a exposição “Fechar os Olhos Para Ver”, da Ana Miguel, traz frases gravadas, gravuras e objetos, a temática e as soluções bem próprias do trabalho da artista, me sinto um pouco como a Alice, uma criança enorme em um mundo estranho. No Anexo, em "A Casa Sem Paisagem", Daniel Murgel mostra trabalhos que discutem relações do comportamento do homem com seu habitat, a casa. As duas exposições dialogam entre si, embora bem diferentes, a sutileza da Ana é contraponto à assertividade do Daniel, e se complementam neste diálogo.
Cansado, encerro minha maratona, mas sei que muita coisa ficou de fora e que na semana que vem o dever me chama. Ou o prazer, dá na mesma.