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sábado, 30 de janeiro de 2010

Bye bye, Brasília

A primeira vez que vim a Brasília, com meus pais, a cidade ainda estava em construção, um canteiro de obras. Para meu pai, um homem culto que não conseguiu estudar a arquitetura de que tanto gostava, mas que projetou e construiu auto-didaticamente algumas casas modernistas na pequena São Luiz do Maranhão, a visita era como a realização de um sonho. Para mim, um deslumbramento, o porte das obras me parecia (e era) gigantesco, enormes movimentos de terraplanagem, tratores e escavadeiras (dizia-se que vindos do Sul em aviões) cavavam buracos de 30m de altura no meio do que era um enorme barro vermelho, no Marco Zero, o centro do que em breve seria a Rodoviária; a Esplanada ainda com os andaimes e o esqueleto dos prédios do Ministérios; a escultura ôca do que seria a Catedral; a tão-longe Ermida que para mim era mesmo o lugar onde esse Dom Bosco havia sonhado com a Capital do Terceiro Milênio.
Alguns prédios já totalmente prontos, e lindos: o Palácio da Alvorada, com a maravilhosa parede em ouro que falava do nascer do sol, da esperança em um futuro grandioso para o Brasil e os brasileiros, para as crianças como eu...
Ficamos hospedados no Brasilia Palace Hotel, o único hotel em funcionamento na época, também projeto do Niemeyer, e não esqueço os sinuosos corredores de acesso aos quartos, com milhares de copos de vidro incrustados na parede de concreto, permitindo a iluminação e protegendo do vento frio do Lago Paranoá (quando o Hotel pegou fogo, em 1978, tive pesadelos imaginando os copos trincando com o calor das chamas). O Catetinho, uma obra-prima rústica do gênio da arquitetura, proporções perfeitas, simplicidade e ecologia antes de existir o conceito de ecologia. A enorme lua cheia sobre o Paranoá, o brilho feito maior pela escuridão do céu ainda não poluído por iluminação urbana.
Depois, voltei muitas vezes a Brasília.
Em 1967, meus pais foram (entre centenas de pessoas, claro) à posse do Costa e Silva como Presidente da República. Viajamos do Rio até Brasília em um fusquinha café-com-leite e nunca uma estrada me pareceu tão reta. Na noite da festa da posse, no Itamaraty (eu não fui, pois era apenas um adolescente), chovia torrencialmente, e esta cidade que sempre está associada à secura, mostra que sabe como chover, como vim a ver muito tempo depois.
Em 1971, vim com minhas irmãs para uns dias na casa de meus tios, pioneiros de Brasília. Meus primos eram ainda crianças de colo; ao chegar na cidade, em pleno tempo seco, fiquei rouco e depois totalmente afônico, uma reação alérgica que nada deixa a desejar ao meu desconforto atual com a secura. Meus tios ainda moravam em um apartamento na 102 Sul, e o terreno do Lago Sul, onde depois eles construíram a casa onde moram até hoje, ainda era um matagal distante (sem a Ponte das Garças, a Primeira Ponte, que só foi inaugurada em 1974). O unico "point" na cidade era o Gilberto Salomão, e duas unicas "boites" (na época escrevia-se assim,em francês), a Kako e a Shalako, ficavam uma ao lado da outra, totalmente iguais, depois que você entrava em uma delas não sabia mais em qual delas estava.
Em 1974 passei um mês inteiro em Brasília, trabalhando no prédio do Ministério da Fazenda, e morando com meus tios. Era verão. Eu em Brasília e o Rio bombando, com a praia, estava apaixonado e gastava milhões em moeda da época com telefonemas intermináveis para o Rio. Conheci a Galeria de Arte do Oscar Seraphico, um pioneiro, e com ele comprei meu primeiro Gerchman, uma gravura amarela com uma estrela prateada e a palavra SOS. No final da estadia, uma véspera de Carnaval, enfrentei o maior engarrafamento de aeroporto de minha vida (pior que nos apagões aéreos de 2006), e pela primeira vez aprendi a odiar os homenzinhos de terno com distintivos de Deputado ou Senador que furavam todas as filas.
Depois outras vindas, sempre rápidas, a trabalho, às vezes esticando finais de semana na casa ou na fazenda dos meus tios. Meus primos crescem, se casam, e meu sobrinhos-netos são outra nova geração que leva para o futuro as gotas de sangue dos Aguiar. Nos anos 1980 ouvi falar pela primeira vez em um bairro novo, o Sudoeste, uma expansão criada a partir do estudo do Lúcio Costa, "Brasília Revisitada".
Até que, em 2006, a proposta de trabalho é boa, o assunto (um projeto em tecnologia de Inteligência Artificial) tem apelo, a vontade de mudar, de novas experiências, de morar em uma cidade modernista, é forte.
E cheguei em Brasília, para ficar talvez 6 meses, talvez 1 ano no máximo; acabei ficando quase 4 anos. Vim apenas com uma pequena mala, e na chegada já uma prova da hospitalidade "nordestina" dos moradores da cidade: um amigo, colega de trabalho, fez a questão de me buscar no aeroporto, mesmo contra meus protestos; nos horários de almoço os colegas disputavam quem iria me levar para almoçar, eu ainda sem carro em uma cidade que depende de carro para tudo, e com um restaurante no trabalho com uma comida intragável.
Semanas na casa de meus tios, depois alugo, neste novo bairro ("setor", como eles chamam), no Sudoeste, um pequeno apartamento, um conjugado, o que em Brasília se chama "uma kit", herança do termo quitinete da Copacabana dos anos 1960. Com o tempo, conheço melhor a geografia afetiva da cidade, e me mudo para um apart-hotel na beira do Lago, com um visual que me lembra o mar, mas nem tanto o mar do Rio e sim outro mar, a praia do Ôlho d'Água de uma longínqua São Luiz que só existe em minhas memórias.
Hoje, quando começo a contar não mais em meses ou dias e sim em horas o tempo que ainda passarei aqui, chega o tempo para reflexão.
Brasília, ame ou odeie. Ou, como a sequencia dos 5-D da piada que esqueci: deslumbramento, decepção... até chegar a depressão ou desepero...
Posso dizer que, se não cheguei a amar esta cidade com um amor incondicional, gostei e gosto muito dela. No geral é muito bonita, bem preservada; esqueça as pobres arquiteturas pós-modernistas das Superquadras novas, do Pontão e do Lakeside e as construções mal feitas das cidades satélites e pense na boa arquitetura que às vezes nos surpreende em um detalhe; esqueça as violações, os estupros ao Plano e pense onde estes princípios são mantidos, na Superquadra Sul 308, na Esplanada; esqueça as invasões (não tão visíveis como no Rio e São Paulo, mas existentes, discretas, mesmo ao longo da via de acesso ao Palácio da Alvorada) e pense nas áreas verdes, nos espaços livres, no Paranoá democrático onde se anda de lancha ou jet-sky mas também se pesca a linha nas margens nem todas privatizadas ou urbanizadas.
Esqueça a desconfiança dos estranhos ou vizinhos que em geral não respondem ao seu "bom-dia" (muitos mesmo se assustam), e pense que, uma vez rompido o gelo, os estranhos se transformam em amigos de infância, prestativos, acolhedores. Pense na segurança que faz com que se possa namorar tranquilamente em um carro estacionado à noite na orla do Lago sem nenhuma preocupação em sofrer violência por parte de assaltantes ou da própria polícia.
Esqueça a desordem urbana, esqueça as propostas de um trem (para mim, um bonde) de superfície no gramado central da Esplanada, a licença para apartamentos de morradia no Eixo Monumental, a proposta da Praça da Cidadania e outras. Leia o texto original do Lúcio Costa na exposição de motivos do Plano Piloto, ou leia um livro como Case: Lucio Costa Brasilia's Superquadra, que analisa a proposta e a realidade do viver em conceitos modernistas, e pense em como as quatro escalas propostas por Lucio Costa - monumental, gregária, residencial e bucólica  - ainda se mantêm, resistindo a ameaças.
Pensando nisto tudo, e mais, é uma cidade muito boa para se viver, para se crescer. Fiz investimentos aqui, imobiliários e afetivos, e todos eles me trouxeram ótimo retorno.
Atingi meus objetivos. Se o tal projeto de Inteligência Artificial não atingiu totalmente seus objetivos, isso se deveu, a meu ver, à hubris dos seus condutores no nível mais político; sim, e esta política suja, sem opção ética, que vemos hoje e que contamina todo o aparelho estatal, embora floresça aqui, não é daqui; daqui é, sim, o populismo e o clientelismo de um Roriz e de um Arruda que fez e fazem tudo para destruir a harmonia do Plano Piloto.
Volto para o Rio, e volto para o que ao meu ver faz falta em Brasília: uma vida cultural intensa, prerrogativa de metrópoles como Rio, São Paulo, NYC, Paris, Berlin... Brasília não é uma metrópole, na verdade esta não é sua proposta. Embora Brasília tenha alguma vida noturna e bons restaurantes (o atendimento sempre muito atencioso e pouco eficiente, eu acho), alguns focos de eventos culturais (CCBB e Caixa Cultural), a fome de cultura não faz parte do dia-a-dia dos moradores, e os eventos culturais são poucos, mal divulgados, em temporadas curtas e caros ou inacessíveis.
Volto para o Rio, para dar continuidade a meus novos projetos, menos com Tecnologia e muito mais com Arte, meu principal interesse.
Mas construí uma Brasília em meu coração, que me acompanhará até o fim dos meus dias.



Leia mais:

Texto sobre o uso dos pilotis em Brasília
Texto sobre o "viver moderno" nos blocos das superquadras
Outro texto sobre "a invenção das superquadras" em contraposição ao viver em condomínios
Mas a melhor referência sobre as Superquadras, para mim, é o livro Case: Lucio Costa Brasilia's Superquadra, editado por Fares el-Dahdah, e que pode ser comprado na Amazon por menos de US$20, uma leitura essencial para o entendimento teórico do "viver em uma Cidade Modernista"

Créditos:
As fotos atuais são minhas, das centenas de imagens que fiz sobre Brasília, uma cidade tão fotogênica.
As fotos da construção de Brasília são do Arquivo Público do DF e foram digitalizadas por Augusto Areal, que tem dois bons sites com informações muito interessantes sobre a construção de Brasília e Brasília atual, que muito me ajudaram a entender a cidade com a visão prática de quem nela viveu e vive

domingo, 24 de janeiro de 2010

O Museu Nacional de Brasília e a exposição Entreséculos

A exposição Entreséculos, com o acervo artístico das instituições públicas sediadas em Brasília, tem curadoria de Wagner Berja e Xico Chaves, e fica até o final de janeiro, no Museu Nacional (Conjunto Cultural da República), em Brasília.
Ao meu ver é mais uma tentativa de ocupar bem o interior do prédio do Museu, que foi projetado pelo Niemeyer como um espaço monumental, sem nenhuma consideração prática com o que significa "mostrar obras de arte". As tentativas mais bem sucedidas, pelo que pude ver neste tempo em que acompanho as exposições no Museu, foram as que ocupam o mezanino; ou as que ocupam "as beiras" da cúpula, com painéis acompanhando mais ou menos as paredes circulares, deixando o espaço central, com seu pé direito gigantesco, para alguma projeção ou instalação "de efeito", ou mesmo um vazio. A rampa externa que liga o salão principal ao mezanino, e que possibilita uma vista linda da Esplanada dos Ministérios, raramente é usada, e nas últimas exposições está sendo radicalmente fechada.
Para não parecer que sou implicante, li no jornal de Brasília entrevista dos curadores com queixas, bem polidas, sobre esta dificuldade, citando inclusive o carpete cinza, que não pode ser modificado. Sim, eu vi o efeito do carpete contra a linda escultura Língua, do Tunga: as duas enormes peças onduladas de madeira repousam sobre pequenos Budas de bronze; isto eu sei, pois já vi a escultura antes, no Museu de Arte de Brasília; nesta montagem, os Budas simplesmente não são vistos, desaparecem entre os pelos do maldito carpete cinza.
Sem contar com a crítica de sempre: o que o Niemeyer tem contra árvores? Por que o Museu e a Biblioteca foram implantados em um enorme terreno todo acimentado, sem uma grama, um arbusto, uma sombra, apenas três ridículos espelhos d'água? Outra crítica, mas esta eu sei a resposta: por que não fazer um estacionamento subterrâneo? já que uma das laterais do terreno (a da via S2) fica a uns 4 metros abaixo do nível principal (logo perto, este desnível é utilizado para garagens subterrâneas em todos os prédios dos Ministérios, projetos do mesmo Niemeyer). Assim, o Conjunto Cultural da República oferece para estacionamento apenas as laterais das ruas internas de acesso aos prédios, insuficiente para os visitantes nos dias de semana.
Mas a minha resposta a esta pergunta surgiu no domingo passado, um domingo de sol, quando visitei a exposição, e vi que, para minha surpresa, o Museu estava cheio. Muito cheio. Famílias, crianças, casais, adolescentes, idosos... Olhando melhor o público, vi que é um público que, em grande maioria, não veio de carro; não tive dificuldade nenhuma para estacionar. Não vir de carro, em Brasília, tem uma significação diferente de em cidades como Rio ou São Paulo, com transporte urbano razoável; significa que este público veio de longe e enfrentou um transporte, ônibus ou metrô, super-precário, com horários que nos finais de semana são muito mais irregulares; saltou na Rodoviária e foi, em massa, visitar o Museu, talvez fazendo hora para uma ida ao Shopping (o Conjunto Nacional, outra pequena caminhada a partir da Rodoviária). Sim, este é o público do Niemeyer, e ele não precisa de vaga em estacionamento. Este é o público do Arruda e dos demais políticos de Brasília, e ele vai gostar do tal trem urbano que estão planejando para circular bem no canteiro central da Esplanada, destruindo a harmonia projetada pelo Lúcio Costa e por um Niemeyer com 50 anos a menos. Pareço elitista? talvez ranzinza. Mas eu gostei de ver o Museu cheio, muito melhor do que vê-lo vazio.
A exposição é bem interessante, e se propõe a reunir obras do acervo de instituições públicas sediadas em Brasília, como forma de ampliar o acesso do público a essas obras, ou talvez para mascarar o fato de que o Museu e a Biblioteca são cascas vazias, lindos prédios sem acervos. Engraçado, acho eu, é que a divulgação a apresenta como uma ideia do próprio Lula: "...nem sempre o público tem acesso a estas obras. Foi pensando nisso que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sugeriu que se montasse uma mega-exposição para exibir, ao povo brasileiro, os destaques destes acervos". Bom, de metalúrgico a Presidente e agora Curador; ou talvez um reflexo do culto à personalidade que vivemos e que vimos, por exemplo, com o Grande Timoneiro Mao.
A partir desta diretriz, e considerando as dificuldades já citadas, os curadores Wagner Berja e Xico Chaves fizeram um bom trabalho; a exposição flui bem, por núcleos ou ilhas: “Montamos várias ilhas, sem seguir uma linha do tempo linear. Partimos das afinidades para revelar coisas que muitas vezes passam despercebidas”, explica Barja.
Algumas obras que não estão presentes, por não fazerem parte de acervos no DF, mas que seriam importantes na ilha (um manto do Bispo do Rosário, um Profeta do Aleijadinho), são substituídas por imagens impressas em computador, o que achei um recurso fraco, até por que a qualidade da imagem é péssima.
O melhor de tudo, certamente, são as obras do Museu de Arte de Brasília. O MAB, criado em 1985, tem um acervo que vem sido constituído desde a década de 1960, a partir de doações, contrapartidas e prêmios de aquisições, e assim conseguiu um impressionante acervo, com obras de, entre outros, Beatriz Milhazes, Daniel Senise, Iberê Camargo, Lygia Pape, Nuno Ramos, Waltércio Caldas... O prédio do MAB é totalmente inadequado (escrevi aqui no blog sobre isso após minha primeira visita a esse Museu), e as obras foram transferidas, felizmente, para a reserva técnica do Museu Nacional, mas permanece mal explicada uma tentativa de fusão das duas instituições, que na prática significaria apenas a extinção do MAB, ou seja, um espaço a menos (e um espaço que, embora precário, necessitando de reforma e adequação, é bem simpático).
Outros acervos importantes, presentes na exposição, são o do Banco Central, constituído, principalmente, por obras recebidas, nos anos 1970, como pagamento de dívidas de instituições financeiras em liquidação, o da Caixa Econômica, o do Ministério de Relações Exteriores (Itamaraty) e o da Universidade de Brasília (UnB). E é interessante saber, também pela divulgação, que o acervo do Museu Nacional já se iniciou com uma doação, feita pela Polícia Federal, com aproximadamente 200 peças, "obras de alguns dos maiores nomes do Modernismo no Brasil – Portinari, Volpi, Tarsila do Amaral  etc." Não entendo muito bem por que a Polícia Federal teria quadros modernistas em suas paredes, mas tudo bem. E ainda da divulgação: "desde então, o museu vem montando uma coleção feita com outras doações, principalmente de representações diplomáticas". É aí que mora o perigo. Há uma política de acervo, um foco, um conceito que norteie a formação de uma coleção? ou é um pragmatismo do tipo "a cavalo dado não se olham os dentes". O Museu Nacional não deveria focar em arte brasileira? então por que receber doações de representações diplomáticas? Enfim, posso mais uma vez estar sendo ranzinza.

Mais no blog sobre o Museu de Arte de Brasília e o Museu Nacional, clique aqui e aqui

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Narrativas privadas, pinturas de Fábio Baroli


Estava na internet, navegando sem compromisso, vendo sites ligados a artes (bom, claro que no meio tempo uns sites pornôs, também), quando aquelas imagens me pegaram pelo pé, me derrubaram, me nocautearam; eu queria ver mais; pesquisei pelo nome do artista, descobri um blog e um flickr, mas sem endereço de email para contato. Pinturas. Um artista de Brasília. Fábio Baroli.


As primeiras imagens que vi, no site do Olheiro da Arte, uma boa vitrine para jovens artistas, foram as que me nocautearam. O breve currículo diz apenas: "É bacharelando do décimo semestre em Artes Plásticas pelo Instituto de Artes (IdA) da Universidade de Brasília (UnB)."

Depois, no blog e no flickr, pude ver mais imagens. Pinturas, retratos, grandes dimensões, de um realismo até meio retrô, virtuosísticas, mas nas quais se sente forte conceituação como base. A questão do conceito sustentando a pintura fica mais clara ao ver que o artista é o mentor de algumas performances que vi pelos jornais aqui em Brasília: intervenção na Catedral com uma luz cor de rosa; Telúrico, polêmica escultura para espaço público no campus da UnB.

Como tenho sorte, o artista participa de um Salão juntamente com uma artista amiga minha, faz-se o contato, primeiro por email e depois, ao vivo, na abertura de uma coletiva em Brasilia; uma exposição heterogênea, mas onde os trabalhos dele se destacam. Enfim vejo "ao vivo" as pinturas, continuo gostando delas, e gosto mais ainda do artista, um jovem motivado e antenado, que escolheu como meio de expressão a velha e já tantas vezes anunciada como morta, a pintura; um artista que está participando de muitas exposições e salões pelo Brasil afora, com premiações, e que é uma aposta para o futuro.

A série Narrativas Privadas se desdobra em pequenos trípticos. Uma pintura de nus que elimina a sensualidade da carne; a carne e o azulejo tem o mesmo tratamento pictórico; e o azulejo é na verdade mais sensual que a carne; como se o artista "dissecasse" os corpos, ao invés de apenas "expô-los". Mas não é um tratamento frio, distanciado; pelo contrário, a pintura é espessa, exuberante, pinceladas, espátulas, óleo; a cor é muito variada, a pele tem tonalidades de carne, de ocre, de marfim, de verde, marrons, azuis; mas a voluptuosidade é da tinta, da pintura, não das pessoas; estas estão tranquilas tomando seus banhos, os sexos e as celulites, as dobras de gorduras, as varizes, os cabelos do corpo, à mostra; como se vistas, em movimento (dado pelo enquadramento dos trípticos), observadas por alguém escondido, vistas através de um basculante, o voyeur-espectador; e o erotismo está todo nele, no pintor, no espectador, que ao ver a cena erotiza não só a carne mas também os azulejos, as gotas d'água, as torneiras de metal gasto, os aparelhos de gilete e os box de plástico.

Erotização feita não pelo tema (nus banais), e sim através da pintura; a marca do pincel do artista é a marca que o olhar do voyeur-espectador busca, e extrai de uma cena de quotidiano, de homens e mulheres de meia idade em uma tarefa corriqueira, um banho talvez meio corrido para não perder o horário do trabalho, ou cansado depois de um dia de luta; não o banho de quem se prepara para o amor ou de quem, saciado, se limpa dos fluidos e secreções de uma cópula; não; apenas isso: um prosaico banho.

Não são jovens, os corpos não são os malhados que a midia vende como os desejáveis, eles talvez não conheçam mais a intensidade do desejo já há tanto tempo perdido na rotina dos dias. Não são Madonas, não são Jesus. Mas o artista os retira de seus banheiros anônimos, e nos faz desejá-los, e nos faz, a nós, iguais a eles, desejados; como objetos de um desejo perverso polimórfico, como objetos de uma sensualidade pagã, como objetos de desejo para o voyer-artista.

Engraçado, Narrativas Privadas não é um trabalho erótico, carnal; ao optar pelo erotismo do voyeur, pelo fetichismo, eles se tornam menos crus, podem participar de exposições, não tem a pulsação de outros trabalhos do Fábio, que são explícitos e tem o vigor de um erotismo rebelde, uma série erótica da qual mesmo o artista fala com certo cuidado. São as Apropriações Textuais: uma versão sangrenta, menstruada, da Origem do Mundo, de Courbet; um enorme empalado com o rosto do artista e genitais bem desenhados, que tem de um Cristo clássico, de Goya (Esto es Peor) e de Vlad Tepes; Decapto, onde (como nos Caravaggio) a cabeça decaptada é um auto-retrato - mas o jovem carrasco está nu e seu vigor erótico é explícito.



Outros trabalhos do Fábio também tem esta forte carga de erotismo, que aparece até mesmo nos trabalhos de cunho conceitual. Telúrico é um obelisco que é uma árvore fálica em pleno campus da UnB; a rejeição ao trabalho acabou por derrubá-lo, o que irônicamente não desfez a semelhança, apenas destruíu a ereção.

Da mesma forma, ao pintar com luz a Catedral de Brasilia o concreto se torna carne, vibrante em cor de rosa, uma gigantesca vulva multifacetada. Talvez estes trabalhos mais explícitos sejam muito chocantes (pois Brasília, embora Corte, é uma Província) e estejam guardados, protegidos, para serem mostrados aos poucos, como véus que se abrem. Mas ao "domesticar" o erotismo através do fetiche, do voyeur, das Narrativas Privadas, Fábio consegue, sem prejuízo da qualidade, "se infiltrar" e  "nocautear" o espectador desavisado, como eu naquela noite em que navegava na internet.  



Veja mais trabalhos do artista em seu Blog e em seu Flickr, com mais fotos da construção e da derrubada de Telúrico, e a repercussão na imprensa.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Luiz Aquila, em Brasília


Hoje, abertura da exposição Luiz Aquila e suas aventuras na arte, na Caixa Cultural de Brasília.
Dias antes da exposição, um susto, manchete de todos os jornais: as obras da exposição, já embaladas e a caminho de Brasília, foram roubadas, com o restante da carga do caminhão que as transportava; dois dias depois, a partir de uma denúncia anônima, foram recuperadas em uma casa na favela de Vila Pinheiros, no Rio de Janeiro.
Passado o susto, estão todas lá: coloridas, musicais, transbordantes de harmonia e movimento. Uma boa expoisção. Já é um lugar-comum chamar o artista de um dos pais da Geração 80, mas é uma verdade: os ensinamentos e a vivência com Luiz Aquila e com os demais professores do Parque Lage foram essenciais para que aqueles jovens no início dos anos 1980 redescobrissem a pintura, o prazer de pintar, o profissionalismo e a seriedade do ofício.
Na exposição, telas de 1987, 1999, convivem com telas recentes (2008, 2009), a linguagem é coesa, o estilo inconfundível, a qualidade homogênea. Em uma tela de 2009, A Pintura Retomada, uma surpreendente figuração em meio às manchas abstratas: quatro pássaros em traços vermelhos, voando, em diálogo com os campos de cor, com lilases e verdes que se misturam em massa de tinta, com grades e traços em sugestões de massas e de movimento. Em uma tela de 1999, Pintura Retangulada, os tons vivos e alegres cedem espaço a tonalidades baixas, escuras, de verdes, ocres e marrons; mas nem por isso tristes; sóbrios, sim, mas não tristes, para baixo.
Pinturas sobre papéis, sobre jornais, sobre serigrafias. Uma tela horizontalmente monumental, Canteiro de Obra, de 2002, com 1,57 x 17,96m, se estende, em seus fundo de azuis, como um horizonte em pulsação, como uma passarela para o céu, como um infinito melódico.
A Pintura e o Vermelho de Três Pontas, de 1992, com 2,40 x 2,60m, tem forte impacto pelo contraste entre os azuis e os vermelhos do triângulo; como uma vela sobre o céu com nuvens, o vermelho flutua; para se transformar talvez em um coração, e voltar a ser o que é: pintura, simplesmente pintura, da melhor qualidade!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Auto-retratos (com Ipês Amarelos)



Em plena secura (e pelo meu relógio mental este ano um pouco mais cedo), eles começaram a florir, tímidos, ainda no final de julho. Falo dos ipês amarelos, de Brasília, que se espalham, isolados entre outras árvores, por diversos lugares no cerrado. Durante o ano todo eles se confundem, disfarçados de humildes, entre as outras árvores e a vegetação baixa; para nesta época resplandecerem, ouro sobre o céu de puro azul quase sem nuvens.
O ponto máximo é onde eles se reúnem, no coração do Plano, a Praça dos Três Poderes, talvez duas ou três dezenas, em fileiras regulares (eles que nos diversos jardins são vistos quase sempre isolados), no jardim do lado esquerdo do Congresso, fazendo um contraponto ao jardim do lado direito com as fileiras regulares de verdes palmeiras imperiais.

(Acho que já comentei aqui em meu blog que esta composição de verde/amarelo foi uma sugestão do Le Corbusier que o Lúcio Costa incorporou aos símbolos da capital, homenageando também por tabela os Bragança e os Habsburgos, fundadores da Nação Brasileira com a Independência, cujas cores, o verde-bandeira e o amarelo-ouro liguram em nossas bandeiras desde o Império e, sabiamente, não foram cassados pelo positivismo nem por outros ismos).
Mas os da Praça ainda não estão florindo, eles se guardam como que programados geneticamente para explodir nos primeiros dias de setembro, talvez marcando mais a data quando se comemora o nascimento do Brasil como Nação.
Já os precoces, os inquietos, estes já estão radiantes, em meio à grama seca; no final de semana que passou a secura diminuiu, e a grama começa a brotar; e os ipês ficam ainda mais lindos, como que lavados com a chuva que começa a cair.
Há outros, os roxos que florescem antes; os brancos que florescem quase ao mesmo tempo que os amarelos (a fileira de ipês brancos abaixo do nível da Esplanada, na ligação entre a L2 Sul e a Norte, está florindo, e causando uma boa surpresa a quem vem pelo Eixo e os vê como que emergindo, só flores, da terra vermelha); mais no final do ano serão os flamboyant (destes o Plano é pródigo, trazidos no início da construção de Brasília; e agora desprezados e odiados - injustamente, digo eu - como exóticos, pelos que acham que Brasília só deveria ter vegetação nativa). Mas os meus preferidos são certamente os ipês amarelos.
Trouxe a visão destas árvores para acompanhar minha imagem em nova série de auto-retratos, pequenas pinturas de cores fortes, tinta espessa e gestual largo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Movimento D: Meu Prazer, Márcia Milhazes (CCBB-BSB)


Mal se abre a cortina do palco, ouço um "oh!!!" de admiração, vindo de alguém atrás de mim, na platéia do CCBB de Brasília, onde Márcia Milhazes Companhia de Dança apresenta seu mais novo espetáculo, Meu Prazer.
A interjeição é para o cenário de Beatriz Milhazes, irmã da coreógrafa. São flores, círculos, mandalas, bem coloridos; na luz "matutina" do início do espetáculo, parecem saídos de um desenho infantil; mais tarde, respondendo às sutis mudanças na luz (a iluminação é de Gláucia Milhazes, mãe das artistas), se transformam em flores pulsantes, em brilhos noturnos, círculos vivos, medusas.
Márcia tem trabalhado com cenários de Beatriz, e a combinação é perfeita; mas o espetáculo não é só o cenário, o trabalho da coreógrafa soma, com acerto e precisão, todos os elementos para falar da "tentativa de encontro entre quatro pessoas solitárias, carregadas por suas histórias pessoais": música (todas brasileiras e hoje pouco conhecidas, seleções que juntam Sílvio Caldas de 1938 e Henrique Oswald de 1908), um trabalho de corpo primososo, a expressividade e vitalidade dos bailarinos, ritmo e uma dinâmica de ocupação do espaço cênico.
No início, os dançarinos não se tocam; traçam suas trajetórias, se aproximam, se olham, se prendem pelo olhar, mas não se tocam; o "matutino" é como uma história de incomunicabilidade, da solidão; de gestos repetidos, extremados, violentos; enxurrada, tsunami; e também sutis, interiorizados; mas não de troca. O esforço dos gestos se materializa em suor, em respirações entrecortadas, que são vividas em quatro solidões, dos quatro personagens no palco.
(Ao falar sobre seu trabalho após a sessão, Márcia fala de uma sala de um Museu onde a porta é fechada, a chave se perde, e os quatro visitantes tem que interagir durante o período em que dura a clausura; ao se abrir de novo a porta, tudo se acaba; mas naqueles momentos de Huis Clos, a partir da interação, a vida dos quatro pode ter mudado para sempre; ou não...)
O momento onde finalmente acontece o primeiro toque, a primeira troca, é marcado por um lindo e contemporâneo pas de deux, um girar sem fim do dançarino com a dançarina, em torno do eixo, até a vertigem; o homem firme é o eixo, e a mulher se deixa levar, rodar, se entrega; até a vertigem; a vertigem. A partir daí, a luz e o cenário já são vespertinos, e mostram que que o encontro existe, é possível, que as solidões e os individuais podem se somar, se encontrar, e que este encontro é um abismo que traga as individualidades.
O esforço dos movimentos já é o esforço físico de um encontro, e o suor e as respirações agora são o arfar deste encontro que tem um erotismo, uma carnalidade, uma transcendência e um êxtase.
De repente, não mais que de repente. As flores infantis do cenário no início do espetáculo são agora plantas carnívoras, ventosas, redemoinhos; e o movimento e a música marcam os momentos onde é possível se sair da solidão, do individualismo, para uma nova realidade, que alguns chamam de amor. Falasse eu as línguas dos anjos, e não tivesse o amor, nada seria.
O amor, o dionisíaco, o orgiástico, o transcendente, o inominável; o se perder; o nada ter, nada querer, nada esperar, nada procurar. O momento único, onde mergulhamos no segredo do Universo; onde somos Deus, onde somos Nada, onde criamos e somos criados, onde mergulhamos no sem-tempo, no sem-futuro, no sem-passado, no fluir eterno.
E Meu Prazer segue, e não é um espetáculo linear, muito pelo contrário, pois o momento do êxtase logo se transmuda em movimento, em mais música e mais corpo, mais espaço, mais beleza.
Outro momento forte, desta vez um acrobático pas de deux masculino (que me remete aos inesquecíveis Béjart), forte, de um erotismo transfigurado; uma entrada de um universo fálico em um espetáculo que transborda uma feminilidade arquetípica; um erotismo grego, pré-cristão; como os verdadeiros jogos olímpicos de uma arcádia que já se foi; como uma leitura coreográfica do Banquete de Platão ou de um poema de Kaváfis.
Ao final, a dançarina solitária, com os movimentos repetitivos e olhar e o esgar que nos fazem supor um êxtase, é como uma Santa Tereza de Bernini, a imagem do êxtase, como as mulheres o sentem, o misterioso orgasmo feminino ("mas afinal, o que querem as mulheres?" pergunta Freud), enquanto a luz vespertina se torna noite, e o brilho dos elementos do cenário que rompem o escuro e que vão ficando nas retinas dos espectadores, junto com os movimentos e olhares da dançarina, exatamente como um orgasmo, como o que fica quando se goza e fecha os olhos e cores e formas nos indicam que sim, desta vez chegamos lá, e lá estamos, e este é o Paraíso de onde fomos expulsos mas onde só voltamos ao gozarmos. Silêncio. Palmas. Cortinas fechadas. Palmas. Obrigado, Márcia, Beatriz e Gláucia. Obrigado, Al Crispinn, Ana Amélia Vianna, Felipe Padilha e Fernanda Reis. Obrigado.

Outros links:
Marcia Milhazes no Youtube

sábado, 8 de agosto de 2009

Movimento D: Quasar (CCBB-BSB)


Ciclo de dança no CCBB de Brasília. Vou ver o grupo goiano Quasar, com o espetáculo Céu na Boca, concepção e coreografia de Henrique Rodovalho. Pelo folder, vejo que o espetáculo "propõe um diálogo entre o paraíso que desejamos e a realidade que nos é oferecida. O ponto de partida (...) foi a curiosidade pelas leis físicas e teorias do Universo. Explosões estrelares, buracos negros e movimentos gravitacionais serviram como alegorias no processo inicial de criação. A narrativa desenvolve-se de forma não linear desencadeando ações, reações e relações impregnadas de humor, ironia, desejo e frustração. transita entre a densidade e a leveza, nos levando a constatação de que os desencontros fazem parte da vida e que devemos, sim, tirar proveito deles". Animador.
O teatro cheio, o CCBB-BSB tem um ônibus que chegou lotado e ao final da sessão partiu mais lotado ainda. Um lugar muito agradável, muitas pessoas vem antes e jantam em um restaurante interessante, sentados em cadeiras Bertoia; eu apenas tomei um expresso, olhando o visual da Ponte JK; e revi a exposição do Eder Rocha, entendendo mais um pouco a proposta e gostando mais ainda, e esperando o adiado lançamento do catálogo...
Gostei do Céu na Boca. Probleminhas: os chavões de "modernidade". Por que as pessoas que fazem dança moderna acham que sempre tem que se estapear, se contorcer, se jogar no chão com força, se machucar, usar músicas bregas, fazer momentos risíveis, apenas para mostrar que são "mudernos"?
Mas este espetáculo, este grupo, supera os que eu acho probleminhas. Técnica impecável. Imensa vitalidade. Figurinos, lindos, trocados discretamente, e totalmente dentro do contexto. A tal da música brega aparece, sim, claro, não podemos esquecer que é um grupo de Goiania, mas não fica excessiva, apenas marca o clima. Eles se estapeiam, se jogam no chão barulhentamente, podemos sentir os hematomas, mas sobrevivem, lindos, jovens, dançando mais intensamente ainda. Gosto disso. Muito.
Um bom espetáculo.
Semana que vem, Andréa Maciel com "Gravidade Zero", não estarei em Brasília. Mas na semana seguinte (21 a 24 de agosto) não perco Márcia Milhazes com "Meu Prazer".

(foto de Lu Barcelos, Chocolate Fotografias, divulgação do grupo Quasar)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Exposições no CCBB-BSB

Fim de semana em Brasília, e uma boa programação é sempre o CCBB. Pensar que enquanto o Palácio do Planalto está sendo reformado, o Centro Cultural é utilizado para os despachos da Presidência da República; será que os políticos tem a curiosidade de andar um pouquinho e ver as exposições em cartaz?
Três boas exposições:
1- Saint-Étienne - Cidade de Design: É parte das comemorações do Ano da França no Brasil, uma mostra sobre design, tecnologia e sustentabilidade da Cité du Design Saint-Étienne. Objetos interessantes, um design que sabe ser bonito mas também cheio de preocupação com ecologia, desperdício, reaproveitamento de recursos etc.
2- Elder Rocha - Justaposição Polar: pinturas, desenhos e uma instalação do artista goiano, residente em Brasília, professor de Artes Visuais da UnB. Bonitos trabalhos, justaposição de imagens anônimas, quase arquetípicas, com elementos de pintura. As imagens são ilustrações de livros antigos, gravuras em traços finos, pré-computação gráfica; ampliadas, adquirem uma estranheza, os traços finos se tornam aparentes como traços, e a pintura traz efeitos painterly ao gráfico, escorridos, velaturas, contrastes. Um trabalho limpo e preciso, uma boa exposição, para ver e rever. O lançamento do catálogo será no dia 5 de agosto.
3- Abelardo da Hora, retrospectiva - Amor e Solidariedade: Artista radicado em Recife, Abelardo da Hora completa 60 anos de carreira, marcada pelos temas sociais e líricos, e a retrospectiva no CCBB apresenta cerca de 120 peças - esculturas, desenhos e trabalhos em cerâmica. Uma oportunidade de ver o trabalho do artista, pouco apresentado no circuito Rio-SP. Embora algumas peças me pareçam meio "datadas", é inegável o vigor da obra.

domingo, 21 de junho de 2009

Cena doméstica


No apart de Brasília, as pinturas (telas 50x60cm) da série da obsessão/compulsão, encostadas na TV; o sol da manhã entra no espaço, tenho que ir trabalhar, bebi vinho ontem a noite, terei um dia corrido, à tarde viajo para o Rio. Podemos pensar nas pinturas como que invadindo todo o espaço, como o faz uma TV que você liga e deixa ligada sem prestar muita atenção para o que é dito; podemos pensar em mecanismos obsessivos para evitar catástrofes; podemos pensar na arte como uma das formas de controlar o mundo. Ou não. Apenas isso, uma cena doméstica (a faxineira deve ter vindo depois que eu sai, e deve ter colocado ordem na casa).

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"Pontos de Encontro" and "Um Lugar a partir Daqui"


In Brasilia, opening of two exhibitions on ECCO - Espaço Cultural Contemporaneo, tomorrow, June 9:
"Pontos de Encontro"(Meeting Places, Points in Common): drawings and installations by artists Pedro Varela and Carolina Ponte.
"Um Lugar a Partir Daqui" (a place beyond here): a group show, with 15 of the 45 artists who were selected to the important Rumos Artes Visuais 2009: Alice Shintani, Amanda Mei, Ariel Ferreira, Bárbara Wagner, C.L.Salvaro, Coletivo Gráfica Utópica + O Circo dos Sonhos, Dirceu Maués, Elieni Tenório, Kilian Glasner, Rafael Carneiro, Ricardo Mello, Shima, Tiago Carvalho, Vitor César e Yana Tamayo.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Do caos e do vazio, tramas e paisagens fantásticas





Ao entrar no Espaço ECCO, em pleno Setor Comercial Norte de Brasília, sensações contraditórias: de um caos e de um vazio. Fui encontrar meus amigos, os artistas Pedro Varela e Carolina Ponte que, vindos do México, estão montando sua exposição naquele espaço cultural.
Por que estas sensações?
O caos faz parte da montagem de uma exposição, como do ensaio geral de uma ópera ou da entrega final de um trabalho. Aqui são papéis amassados, embrulhos, fitas adesivas, tesouras, xícaras de café, balas de leite da Kopenhagen, linhas e agulhas de tricô; destes materiais heterogêneos como que emergem, aos poucos, os trabalhos, as obras de arte.
E o vazio, pois o espaço é tão grande, enorme, pé direito bem alto, paredes tão brancas, chão de cimento, que parece que nunca será ocupado devidamente pelos trabalhos que emergem, aos poucos, ainda descansando nas mesas ou em rolos de plástico pelo chão, prontos para se espalhar pelas paredes e pelo chão ou cair do teto, mas ainda parecendo pequenos, poucos, tímidos, crianças ante o gigantesco vazio a ser ocupado.
Mas é isso mesmo, hoje é só 5a.feira, a abertura da exposição é na semana que vem, até lá este caos e este vazio terão dado lugar a tramas, paisagens fantásticas, redes, lagos, seres misteriosos, cores e padrões que são música para os olhos; um mundo.
Para o espectador que não acompanhou a montagem, é como se tudo sempre estivesse lá desde o início de tudo, um dado de realidade como é nosso planeta. Para mim, espectador privilegiado que pude acompanhar momentos da montagem da exposição e conversar com os artistas sobre o processo, será visitar um mundo que, afinal, foi "criado", surgiu a partir do nada.
Porém para os criadores deste mundo, Pedro e Carol, será o momento de refletir sobre o mundo criado e que já não é mais deles, passou a pertencer à humanidade, ao patrimônio cultural universal. E, de uma forma natural, voltar seu pensamento e sua motivação, sua inspiração, para a criação de novos mundos, novos espaços, novas dimensões, superar o já criado, mais, mais...
Afinal, este é o destino do artista.
(O Espaço Cultural ECCO fica em Brasília, no SCN - Q 3 - Bl C, e está aberto de 3a. a domingo das 9 às 19h. A abertura da exposição de Pedro Varela e Carolina Ponte será no dia 09 de junho, próxima 3a.feira, e neste mesmo dia abre, também no ECCO, uma coletiva com um recorte do Rumos, que vi no Itaú Cultural em SP. As exposições ficam até agosto, e são excelente indicação para uma visita)

domingo, 31 de maio de 2009

Fim de semana em Brasília

Fim de semana em Brasília, o tempo rende, além de pintar vi algumas exposições:
1- No CCBB, "Virada Russa - A Vanguarda na Coleção do Museu Estatal Russo de São Petersburgo". Está na última semana aqui em Brasília, depois irá para o CCBB do Rio. Uma exposição importante, bom catálogo.
2- Na Caixa Cultural, "O Gravador Roberto Burle Marx no Atelier Ymagos", com quase 90 trabalhos do artistas, entre desenhos e gravuras, em metal e litos, bonita exposição. "Lágrimas de São Pedro - Acalento ao Sertão Nordestino", uma instalação do artista bahiano Vinícius S.A. e "Quem tem medo de olhar para cima", exposição de fotografias de Silvio Zambonide, com fotos do céu em vários lugares do mundo emoldurado por detalhes de arquitetura, tiradas exatamente de baixo para cima.
Ah, sim, e volta a polêmica da Praça da Soberania, o arquiteto Oscar Niemeyer refez o projeto diminuindo o obelisco e dividindo a construção em dois prédios mais baixos nas laterais da Praça, portanto desobstruíndo, em parte, a visão da Esplanada a partir da Rodoviária. É melhor que o projeto anterior, porém continua ocupando uma área que, pelo Plano Urbanístico do Lucio Costa, não poderia ser ocupada; compete com a Rodoviária, e além disso é outro imenso chão de concreto, sem árvores. O IPHAN já se manifestou contrário, e o Governador Arruda diz que não o fará em seu governo, por falta de recursos.

sábado, 4 de abril de 2009

Em Brasília


Fim de semana em Brasília. Uma bem-vinda chuva, para assentar a poeira vermelha e dar uma folga à minha agora onipresente rinite alérgica. Todos dizem que serão as últimas chuvas antes do período de secas, eu espero que não; e curto o friozinho e o visual do Paranoá enevoado que vejo de minha janela.
Procurando, se acha (cultura, arte da boa que é o que eu preciso, injetada na veia): no Espaço ECCO (um galpão em cimento queimado e estrutura metálica que poderia estar em Chelsea NYC, numa localização bem central, mas que poucos nativos conhecem), duas boas exposições:
1- Uma coletiva, focando as aquisições para o acervo do Espaço ECCO viabilizadas pelo Prêmio Funarte Marcantonio Vilaça. São 6 artistas de primeira linha: Nelson Felix, Gabriela Machado, Paulo Pasta, José Spaniol, Hilal Sami Hilal e Claudia Jaguaribe. E é muito bom ver, com vagar, assistir o vídeo do Nelson Felix (pena que os da Gabriela e do Spaniol não estavam sendo exibidos por problemas técnicos), conversar com os simpáticos e bem informados monitores que realmente dão explicações sobre as obras... Além das obras adquiridas (um bom acervo, portanto), há mais obras de cada artista, formando como 6 mini-individuais, bem distribuídas pelo espaço. As pinturas da Gabriela Machado são simplesmente maravilhosas, e a artista muda a escala sem medo de errar a mão: pequenos dípticos e grandes telas; as cores pulsam, se misturam, sugestões de flores, de cascas de frutas, tangerinas, de formas orgânicas, mas isso não importa, importa é o diálogo entre as massas de tinta e o fundo neutro, a explosão... Em outro extremo, as pinturas sobre papel do Paulo Pasta, são sutis, zen, mostram até onde pode chegar a transcendência do ser humano a partir do diálogo de um azul e um alaranjado. Outro zen, claro, não fosse um budista, o Nélson Felix; os cubos vazados de mármore de carrara (bom ver o vídeo, nele Nélson explica que o uso do carrara também é uma referência à história da arte, aos gregos, à grande tradição) pendurados em equilíbrio instável pelas ponteiras de bronze (outra referência à grande arte) com textos, gravados, da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen; desenhos, a pedra em si captada com traços nervosos e aguadas; e a obra que estará agora no acervo do Espaço Ecco, as duas metades de um cubo de mármore rosso se abrem, deixam ver o azul ultramar profundo, e nas metades, unindo-as, separando-as, uma aliança de ouro...
Ainda: as fotos da Claudia Jaguaribe nos Lençóis maranhenses, modificando a escala de formações naturais e transformando-as em gigantescas ruínas; os móveis impossíveis do José Spaniol; e os livros impossíveis, a biblioteca de Babel, a leitura que não se lê mas se entende, entra pelos sentidos e domina a razão, do Hilal Sami Hilal.

2- Uma exposição individual do artista goiano Marcelo Solá, com desenhos-pinturas-monotipias sobre papel, em diversos tamanhos, de uns pequenos, quase esboços, a outros enormes, quase murais. Gosto do trabalho do artista, tenho visto em exposições como o Nova Arte Nova, e no Rio na Galeria Arte em Dobro; e ver uma individual bem montada, com os desenhos nas diversas dimensões, é muito bom. Impossível deixar de lembrar de Basquiat, em algumas obras, e do Leonilson, na utilização acertada de textos; mas como influências e não como escravidão. A vertente gráfica e a linguagem do grafitti do artista goiano é muito forte; mas em alguns trabalhos as camadas de tinta se acercam de uma pintura sobre papel, e o gráfico coexiste em harmonia com o painterly. A cor é concisa: pretos, brancos, traços vermelhos, verdes; e um dourado, em spray ou tinta, que dá leves traços de opulência barroca a um desenho tão urbano e tão contemporâneo.
Ainda, na Caixa Cultural, outro bom espaço em Brasília:
1- A Linha e o Sujeito, exposição contrapondo obras do acervo (uma linda tela de lencóis com vermelhos, da Maria Leontina; dois lindos Abelardo Zaluar, duas Fayga, um Krajcberg...) a trabalhos interativos do artista Chico Amaral, com curadoria de Graça Ramos.
2- Mulheres em Luta, com videos de artistas mulheres polonesas e brasileiras, destaque para o Menarca, que não me canso de rever, de minha mestra Katie van Scherpenberg; e Cheerleader, irônico video de 2006 da polonesa Katarzyna Kazyra. Ainda: Bagna Burska, Zuzanna Janin, Katia Maciel, Marta Daskur, Simone Michelin e Tina Velho.
3- A Máscara Teatral na arte dos Sartori, uma exposição bem interessante sobre máscaras teatrais, com instalações, desenhos e máscaras da família Sartori, importante família italiana cuja pesquisa sobre máscaras extrapola o cenográfico.
4- Fauna e Flora Brasileira, aquarelas de Álvaro Nunes. Rever meu post sobre Margaret Mee; tenho que reconhecer que a inglesa consegue em suas aquarelas uma leveza que a maioria dos aquerelistas de natureza não consegue. Destaque para os selos feitos a partir de aquarelas do Álvaro Ramos, que tem um lúdico que não desaparece, na verdade aumenta, nesta era de e-mail e de msn; e que me remete à Arte Postal (Mail Art) e à minha época de colecionador de selos, e também à obsessão, que é um dos temas recorrentes deste blog...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Garaicoa, no CCBB-BSB: arquitetura e ruínas


Carlos Garaicoa é um artista cubano nascido em 1967, com uma obra já reconhecida internacionalmente, e que tem a arquitetura como um dos temas recorrentes. Com estreitas ligações com o Brasil, o artista já participou da Bienal de SP, de coletivas como “Arte de Cuba” no CCBB em 2006 e teve uma individual na Gentil Carioca, no Rio. O CCBB de Brasília está mostrando uma boa exposição individual de Garaicoa, uma ótima chance para conhecer um pouco da trajetória do artista.
Havana, uma cidade com um passado pujante de construções coloniais e da primeira metade do século XX, que os anos de regime fechado e de descaso transformaram em ruínas, e a inventividade da população remendou com os escassos recursos da extinta União Soviética.


Estas imagens que se tornaram tão comuns na midia são a matéria prima para o artista Garaicoa, que as transfigura em seu trabalho; e se tornam imagens universais, a falar de ruínas não só cubanas mas da arquitetura mundial, e mesmo ruínas do ser humano, no sentido mais existencial, zen, como na instalação Jardim Japonês: pó - construção - ornamento arquitetônico - ruína - pó.
A busca de espaços utópicos: maquetes de construções ultra-modernas no meio das ruínas de Havana; a proposta de "clonar" prédios, subvertendo o conceito eugenico de clonagem, ao utilizar como matriz não "o melhor da raça" e sim um prédio industrial decadente, meio abandonado, meio ruína. Em uma instalação, a partir de uma mesa, traços de construções em perspectiva, feitos em linha de costura presa por alfinetes, com panorâmicas de cidades reais em pequenos monitores de vídeo, se projetam na parede em uma cidade utópica, modernista, com direito até a um zepelim sobrevoando, tudo feito em linha com os alfinetes, frágeis construções como que a falar de um futuro-passado lírico porém frágil (do pó ao pó).
A vinculação crítica com a arquitetura, com o modernismo, com o Brasil, a arte brasileira, o concretismo e também, claro, com Brasília, fica muito evidente em uma instalação chamada De como minha biblioteca brasileira se alimenta de fragmentos de uma realidade concreta: Livros de arte e de arquitetura brasileira, presos em blocos de concreto como construções "concretas" modernistas, formam o qe se percebe ser um muro, ao ver que o verso está crivado de cápsulas de balas...
Arquiteturas ideológicas e políticas: uma maquete com a proposta de uma estátua equestre do "governante de plantão"; sem cabeça, a estátua equestre está complementada por rampas e cabeças sobressalentes para que a população substitua pela cabeça dos novos líderes, cabeças que se enfileram nas rampas. cada qual com seu pombo de bronze, à espera de serem colocadas em função no tronco do herói equestre.
Uma boa exposição, e a crítica à arquitetura e ao modernismo ganha, ao meu ver, outra visão ao ser vista em Brasília e no meio do tiroteio sobre a enfim abortada Praça da Soberania, onde apareceu todo um subtexto de ideias sobre o poder mágico da arquitura e do arquiteto, a função da utopia, o desgaste das construções e das ideologias que fizeram estas construções, a ruína... ideias estas que Garaicoa utiliza de maneira precisa, competente e estética, em seu trabalho.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Minhas Pinturas de Brasília



Enquanto continua a polêmica sobre a Praça da Soberania, coloco aqui minha homenagem à paisagem desta cidade modernista, duas pequenas pinturas (série "A cidade modernista", 20x20cm, 30x30cm, 40x40cm) que fiz nos meus primeiros tempos em Brasília, quando a beleza e a estranheza da paisagem me faziam sentir um alienígena total, um ser de uma cidade humana abduzido para uma cidade extra-terrestre.
Tópicos sobre a Praça da Soberania: Niemeyer diz que o Plano Piloto é elitista, e sugere uma "comissão de notáveis" (algo mais elitista?) para definir o futuro da Praça e do Plano; Maria Elisa Costa, filha do Lucio Costa, diz (um tapa com luva de pelica sobre a crítica de elitismo do projeto urbanístico) que a Praça deveria ser construída em Taguatinga; e finalmente o Governador Arruda dá (espero) a pá de cal no projeto, ao declarar que é interessante, obra de gênio sim, mas... falta dinheiro para executá-lo...

Ver também:
estudos sobre o Plano Piloto
Outras pinturas da série "A Cidade modernista"

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Notícia sobre a Praça da Soberania

No Globo de hoje, uma notícia positiva sobre o "puxadinho" que Niemeyer projetou e o Arruda quer construir, desfigurando o gramado e a visão da Esplanada dos Ministérios: MP investiga novo projeto de Niemeyer em Brasília. Segundo a notícia, além do inquírito aberto pelo Ministério Público Federal para investigar o projeto, há declarações do IPHAN, segundo o qual o projeto deveria ser embargado, por contrariar o tombamento da cidade, concorrendo também com outras obras do mesmo arquiteto. A família do Lucio Costa também se manifestou. Em carta ao Niemeyer, a filha do urbanista, Maria Elisa Costa, que também é urbanista, declara que a praça projetada interfere no projeto feito pelo seu pai, sugerindo que essa seja deslocada para outro ponto da cidade. O arquiteto disse que aguarda uma decisão definitiva para se manifestar.
Eu espero que o bom-senso prevaleça.

ver também:
Um "puxadinho" do Niemeyer
Ainda sobre o "puxadinho"

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Ainda sobre o "puxadinho"

Muitos pensam que a importância de Brasília, que fez dela Patrimônio Histórico da Humanidade, vem da beleza (estética) das construções de Niemeyer, e que seria então apenas "uma questão de gostar ou não" das linhas do arquiteto. Na verdade, a importância maior de Brasília é ela ser o único exemplar de uma cidade inteira projetada e construída segundo a ideologia do modernismo. Urbanisticamente ela é, habitada, funcionando, exatmente tudo o que preconizaram Le Corbusier e demais pensadores daquele movimento que modificou a concepção do homem e sua relação com a cidade, com a técnica, com a natureza, e que hoje é visto como um pensamento "de época". Claro que a utilização da linha curva pelo Niemeyer foi um passo além, em termos de arquitetura, mas urbanisticamente a importância de Brasília está em como os escritos de Lucio Costa no Memorial do Plano Piloto de Brasília refletem o pensamento modernista, e em como este pensamento modernista virou concreto, uma cidade inteira viva, não simplesmente experiências limitadas (e posteriormente modificadas) como as construções do modernismo europeu. E a síntese deste pensamento está nas quatro escalas que Lucio Costa propõe para Brasília e que presidiram a própria concepção da cidade: a Monumental; a Residencial; a Gregária; e a Bucólica:
Escala Monumental – é aquela que contribui para a formação do sentido de Capital, onde a monumentabilidade confere aos edifícios seu valor simbólico. Constituída pelo Eixo Monumental, desde a Praça dos Três Poderes até a Praça do Buriti, incluindo as principais edificações que estão neste trajeto.
Escala Gregária – é aquela para onde convergem os fluxos no encontro dos eixos Rodoviário e Monumental. É o centro urbano onde se previu edifícios maiores e mais altos e o espaço urbano é disposto de forma a permitir um fluxo de circulação mais intensa. É a escala do encontro.
Escala Residencial – é aquela que define a relação entre os edifícios residências, onde se encontra uma proposta inovadora de Lucio Costa – as Superquadras. Neste caso, a relação entre os espaços edificados e os abertos é outra, respeitando as características do convívio cotidiano, por isso, a altura fixada para as edificações é de seis pavimentos (permitindo, nas palavras do urbanista, que a mãe, de sua janela, mesmo que no último andar do edifício, conseguisse ver e chamar seu filho que brinca no parque), além de uma extensa área verde de 20 metros emoldurando cada Superquadra.
Escala Bucólica - se constitui dos gramados, passeios, bosques e jardins da cidade que permeiam e envolvem as Superquadras, as Entrequadras, os diversos setores e os conjuntos de casa e comércios locais, e a cidade inteira, imprimindo a Brasília a qualidade de cidade-parque que ela é. Está por todo lugar, protegendo as áreas construídas umas das outras.
E, em 1987, ao redigir o documento “Brasília Revisitada”, Lucio Costa ratifica, como urbanista da cidade, o respeito as quatro escalas que presidiram a própria concepção desta, através da manutenção dos gabaritos e taxas de ocupação que as definem.
Ao meu ver, com a proposta da Praça da Soberania, com o gigantesco obelisco e o prédio que encobrirá a visão da Rodoviária para a Praça dos Três Poderes, Oscar Niemeyer está danificando o equilíbrio entre as escalas, "expandindo" a escala gregária (o "centro" de Brasília, traçado por Lúcio Costa na junção dos Eixos) para a escala monumental; e ao mesmo tempo enfatizando esta última, minimizando a outra. Mais que isso, com o apoio dos políticos e da mídia, faz-se uma redução do papel de Lucio Costa, este o urbanista, para inflar desproporcionalmente o papel de arquiteto do Niemeyer.
Que Niemeyer é um arquiteto genial, isto é indiscutível; porém Brasília não é um amontoado de prédios projetados por ele (um "Caminho Niemeyer", como o de Niterói, só que em ponto maior) e sim uma concepção urbanística e o testemunho de um mundo que "pensou-se moderno".

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Um "puxadinho" do Niemeyer


A polêmica está no ar (seco, apesar das chuvas de janeiro no Planalto), e da discussão depende o futuro da perpectiva monumental idealizada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer para a Esplanada dos Ministérios, em Brasília (na imagem deste post, em uma visão do pintor Glauco Rodrigues). Um dos cartões postais mais bonitos da Capital, a visão de quem está na Rodoviária para o lado Leste sofre a maior ameaça já sofrida nestes 48 anos de Brasília. A visão que, na concepção original de Lucio Costa, teria o homem simples, ao olhar, da Rodoviária (para ele o verdadeiro "centro" do povo) para a direção do nascente: o gramado central do Eixo Monumental; a Catedral à esquerda; os Ministérios enfileirados; ao fundo o Congresso, com as cúpulas em simetria horizontal e as torres gêmeas do anexo, pensadas para serem a elevação máxima da Esplanada (como a dizer que, mesmo com a hegemonia dos Poderes corporificada no triângulo equilátero da Praça, no fundo todo o poder emana do Povo). Lucio Costa fala desta visão: "Eu queria que a Praça dos Três Poderes fosse um Versalhes, não um Versalhes do rei, mas um Versalhes do povo, tratado com muito apuro."Uma ameaça veio durante a ditadura, a construção do mastro da Bandeira Nacional, projetado pelo Sérgio Bernardes, bancada pelos militares e que teve a oposição dos criadores de Brasília e dos intelectuais (principalmente cariocas), por perturbar esta perspectiva tão perfeita. Outra ameaça veio com a explosão populacional dos condomínios do Lago Sul, que "mancham" o verde que era o pano de fundo para a perspectiva; e tornando obsoletas as palavras de Lúcio Costa sobre a visão monumental para a Praça dos Três Poderes: "Meu objetivo era acentuar o contraste da parte civilizada, de comando do país, com a natureza agreste do cerrado."
Sintomaticamente, as ameaças seguintes não vieram mais dos militares ou do populismo, e sim do próprio criador: Oscar Niemeyer.
A ocupação dos grandes espaços contíguos à Rodoviária era pequena, deixando grandes espaços a serem ocupados no decorrer do tempo, apenas dois projetos do Niemeyer: no terreno do lado Norte, o Teatro (lindo, com a laterais com os relevos do Athos Bulcão que foram retirados para uma restauração que já demora tanto tempo); e no lado Sul, o antigo prédio do Touring (sempre achei inexplicável a ocupação de área tão nobre por uma instituição privada, a menos pelo fato que o falido Touring sempre foi reduto de militares reformados).
Quando cheguei em Brasília, há quase três anos, vi o final da construção do projeto do Niemeyer para o espaço entre o Touring e a Catedral, o Complexo Cultural da República, com a Biblioteca e o Museu. Apesar da beleza das construções, alguns problemas me chamaram a atenção. O primeiro é a inadequação da forma dos novos prédios em relação aos já tradicionais da Esplanada (Catedral, Ministérios, Congresso): a forma de cúpula do Museu repete a cúpula do Senado, no complexo do Congresso Nacional, esvaziando portanto o seu impacto e criando um "eco" totalmente assimétrico que desequilibra a monumentalidade da Esplanada; e de quebra reduz a imponência da própria Catedral, meio que a esmagando. Ao meu ver este segundo problema poderia ser resolvido com outra distribuição dos prédios no terreno (por exemplo, colocando o Museu contíguo ao Touring e a Biblioteca mais perto da Catedral e em posição paralela, não perpendicular, ao Eixo); mas a solução do primeiro problema teria que passar por uma mudança na própria solução de cúpula. Outros problemas, aí mais de funcionalidade (bom, mas o Niemeyer NUNCA é funcional): por que tão pouco estacionamento, por que não fazer logo um estacionamento subterrâneo, com entrada pela S2 (já em nível mais baixo)? por que não ter um jardim, uma graminha, e só aquele inóspito chão de concreto com uns pífios laguinhos? sem contar com a inadequação total do interior do belo Museu para exposições de arte.
As ameaças seguintes ficaram em projeto apenas, a construção de um monumento à paz em pleno gramado, e um local para shows, no terreno contíguo ao Teatro, que foi vetado pelo IPHAN por superar o gabarito permitido (neste projeto aparecem duas outras cúpulas, menores, talvez seja a solução do arquiteto para ecoar a forma de cúpula na Esplanada).

Agora aparece, já como um plano do Governo do DF para os 50 anos de Brasília, em 2010, o que ao meu ver é a a pá de cal na perspectiva monumental: a construção, no terreno central (entre os Eixos N1 e S1), exatamente onde, na pintura do Glauco Rodrigues é a testa do índio (só que muito maior), de uma Praça da Soberania, com "memorial dos presidentes", um prédio semi-circular com três andares, e um obelisco em forma de chifre, de 100m (equivalente à altura do mastro da Bandeira e do prédio do Congresso, na Praça dos Três Poderes, na verdade mais alto que eles, já que o terreno do obelisco esta em uma cota acima do terreno das outras edificações), o que eu vejo como um "puxadinho", mesmo projetado pelo genial arquiteto Niemeyer. Ah, e a nova praça será totalmente de concreto, sem verde; e no subsolo será construído um estacionamento para 3000 automóveis (que acho que deveria ter sido projetado no subsolo do Complexo Cultural).

Um artigo da Prof. Sylvia Ficher (arquiteta, doutora em história e professora da Universidade de Brasília), com o título Oscar Niemeyer e Brasília: criador versus criatura, publicado na revista de Arquitetura e Urbanismo MDC, analisa bem a questão, lançando a tese de que "coitada de Brasília. Niemeyer não gosta mais dela". Acho bem pertinentes os argumentos da Prof. Sylvia, e tenho visto na internet comentários em apoio ao artigo, um deles o publicado por Elio Gaspari em sua coluna de 18/01 em diversos jornais de circulação nacional. Espero que o debate sirva para repensar algumas coisas e que se preserve as intenções originais da cencepção do genial Lucio Costa.

artigo da Prof. Sylvia Ficher

artigo do jornalista Elio Gaspari

sábado, 17 de janeiro de 2009

Arte para Crianças, no CCBB/BSB


Uma das coisas boas desta minha vida de nômade pós-moderno é poder ver (nem sempre, às vezes perco por problemas em agenda) as coisas boas em arte que às vezes ficam restritas a um dos polos apenas (Rio, Brasília, São Paulo). Ou ver duas ou mesmo três versões da mesma exposição, com diferenças de acordo com a cidade (a "fumaça" do Anish Kapoor - Ascension - no CCBB do Rio era solene, icônica, intimidadora; no CCBB de Brasília era lúdica, interativa, user-friendly).
Esta exposição, Arte para Crianças, por exemplo, é específica para o CCBB de Brasília, com seus espaços amplos. O curador é o Evandro Salles, que conheci no início dos anos 1980 (participamos juntos, com muitos outros artistas, de um ciclo de exposições no Parque Lage, dirigido então pelo saudoso Rubem Breitman, outro dia falo destas exposições).
E a exposição tem muitos acertos. É arte para crianças, mas não é absolutamente "baixar o nível" para que as crianças entendam; pelo contrário. É uma ousadia mostrar Lawrence Weiner para as crianças (sem intermediação dos pais, que certamente não entendem nem um pouco do conceitual brabo de L.W.). É uma ousadia colocar centenas de xilogravuras do Rubem Grilo, emolduradas uma a uma, entre elas um pequeno video disfarçado de quadro, em uma "casinha de boneca", com bancos de vaqueiro em couro trançado onde as crianças se sentam e imaginam histórias a partir dos elementos fantásticos das gravuras... É uma ousadia apresentar o suprematismo de El Lissitzky em um desenho animado... E tudo em espaços bem organizados, com textos explicativos, áreas de repouso...

Mas a maior das ousadias, certamente, é o grande salão dedicado ao Amílcar de Castro. O aspecto lúdico, para as crianças, é trabalhar em dobraduras; o que fazem com prazer em grandes mesas. Mas para os adultos (para mim), é absolutamente espantoso ver 140 esculturas do Amílcar (pequenas, 30cm, além de uma escultura grande) em estantes, em uma sequencia infinita. Meu Deus, eu tive que ir a uma exposição "para crianças" para ver esta maravilha? Para poder ver uma legião de esculturas como nunca vi antes, lado a lado, para ver as repetições, as variações, as dobraduras, o ferro tratado como um papel, o movimento suspenso, o equilíbrio precário, todos juntos, 140, o ad nauseam! Que colecionador é esse, que tem 140 esculturas pequenas do A.C.? Que inveja, que deslumbramento!

Ainda: um ambiente lúdico, uterino, maravilhoso, do Ernesto Neto. O cubo de vidro do CCBB foi totalmente ocupado pelo ambiente do Ernesto e por mesas e cadeiras orgânicas do artista, que vi em exposição na Galeria Artur Fidalgo, onde as crianças (e os adultos) fazem trabalhos de dobraduras e encaixes, tendo como molde esculturas "duras" do Ernesto Neto; mas o ponto alto realmente é a vivência do ambiente. As crianças deliram, os adultos viram crianças.

As pinturas do Sued transformadas em varais coloridos com panos manipuláveis pelos espectadores, ao ar livre, em pleno sol da tarde; para as crianças, são casas de cor. Ainda, uma instalação do Emanuel Nassar, que é como se uma pintura do artista se expandisse para abarcar um módulo do prédio; com direito a um mistério (a letra "E" está bem visível no "lado Este" da pintura/instalação; mas onde está o "N"? pergunto à monitora e a resposta é: enterrado, em um canteiro do jardim, no "lado Oeste"...).
Trabalhos emblemáticos da Yoko Ono (talvez excessivos, mas é bom rever o jogo de xadrez com todas as peças brancas). As xipófagas do Tunga (hoje apenas em vídeo, na abertura estavam ao vivo). Uma parede de interatividade com os azulejos tão Brasília, tão modernismo, do Athos Bulcão. Gaiolas e aquários do Eder Santos. Um vídeo do poeta Manoel de Barros. E os fantásticos e safados robôs da Mariana Manhães, em versão candelabros.

O catálogo é didático, sem ser excessivo, e os textos estão próximos a cada trabalho, oferecendo chaves (acho que para os pais, as crianças talvez entrem direto nos trabalhos, sem a necessidade destas chaves). Para mim, este é o maior acerto do Evandro Salles: fez uma exposição "para crianças" que atinge a todos os públicos; pois ele parte de uma concepção de criança que não é absolutamente piegas, paternalista; ele não faz "arte boba para crianças", e não se preocupa em explicar o que não pode ser explicado em arte ("O que é isso, uma mulher de nariz verde? Minha senhora, isto não é uma mulher, é uma pintura"). Ele acredita que a percepção livre das crianças pode ser melhor que a percepção de um adulto reprimido; e ele mostra arte contemporânea sem ter que pedir desculpas pelo que está mostrando.