sábado, 30 de janeiro de 2010

Bye bye, Brasília

A primeira vez que vim a Brasília, com meus pais, a cidade ainda estava em construção, um canteiro de obras. Para meu pai, um homem culto que não conseguiu estudar a arquitetura de que tanto gostava, mas que projetou e construiu auto-didaticamente algumas casas modernistas na pequena São Luiz do Maranhão, a visita era como a realização de um sonho. Para mim, um deslumbramento, o porte das obras me parecia (e era) gigantesco, enormes movimentos de terraplanagem, tratores e escavadeiras (dizia-se que vindos do Sul em aviões) cavavam buracos de 30m de altura no meio do que era um enorme barro vermelho, no Marco Zero, o centro do que em breve seria a Rodoviária; a Esplanada ainda com os andaimes e o esqueleto dos prédios do Ministérios; a escultura ôca do que seria a Catedral; a tão-longe Ermida que para mim era mesmo o lugar onde esse Dom Bosco havia sonhado com a Capital do Terceiro Milênio.
Alguns prédios já totalmente prontos, e lindos: o Palácio da Alvorada, com a maravilhosa parede em ouro que falava do nascer do sol, da esperança em um futuro grandioso para o Brasil e os brasileiros, para as crianças como eu...
Ficamos hospedados no Brasilia Palace Hotel, o único hotel em funcionamento na época, também projeto do Niemeyer, e não esqueço os sinuosos corredores de acesso aos quartos, com milhares de copos de vidro incrustados na parede de concreto, permitindo a iluminação e protegendo do vento frio do Lago Paranoá (quando o Hotel pegou fogo, em 1978, tive pesadelos imaginando os copos trincando com o calor das chamas). O Catetinho, uma obra-prima rústica do gênio da arquitetura, proporções perfeitas, simplicidade e ecologia antes de existir o conceito de ecologia. A enorme lua cheia sobre o Paranoá, o brilho feito maior pela escuridão do céu ainda não poluído por iluminação urbana.
Depois, voltei muitas vezes a Brasília.
Em 1967, meus pais foram (entre centenas de pessoas, claro) à posse do Costa e Silva como Presidente da República. Viajamos do Rio até Brasília em um fusquinha café-com-leite e nunca uma estrada me pareceu tão reta. Na noite da festa da posse, no Itamaraty (eu não fui, pois era apenas um adolescente), chovia torrencialmente, e esta cidade que sempre está associada à secura, mostra que sabe como chover, como vim a ver muito tempo depois.
Em 1971, vim com minhas irmãs para uns dias na casa de meus tios, pioneiros de Brasília. Meus primos eram ainda crianças de colo; ao chegar na cidade, em pleno tempo seco, fiquei rouco e depois totalmente afônico, uma reação alérgica que nada deixa a desejar ao meu desconforto atual com a secura. Meus tios ainda moravam em um apartamento na 102 Sul, e o terreno do Lago Sul, onde depois eles construíram a casa onde moram até hoje, ainda era um matagal distante (sem a Ponte das Garças, a Primeira Ponte, que só foi inaugurada em 1974). O unico "point" na cidade era o Gilberto Salomão, e duas unicas "boites" (na época escrevia-se assim,em francês), a Kako e a Shalako, ficavam uma ao lado da outra, totalmente iguais, depois que você entrava em uma delas não sabia mais em qual delas estava.
Em 1974 passei um mês inteiro em Brasília, trabalhando no prédio do Ministério da Fazenda, e morando com meus tios. Era verão. Eu em Brasília e o Rio bombando, com a praia, estava apaixonado e gastava milhões em moeda da época com telefonemas intermináveis para o Rio. Conheci a Galeria de Arte do Oscar Seraphico, um pioneiro, e com ele comprei meu primeiro Gerchman, uma gravura amarela com uma estrela prateada e a palavra SOS. No final da estadia, uma véspera de Carnaval, enfrentei o maior engarrafamento de aeroporto de minha vida (pior que nos apagões aéreos de 2006), e pela primeira vez aprendi a odiar os homenzinhos de terno com distintivos de Deputado ou Senador que furavam todas as filas.
Depois outras vindas, sempre rápidas, a trabalho, às vezes esticando finais de semana na casa ou na fazenda dos meus tios. Meus primos crescem, se casam, e meu sobrinhos-netos são outra nova geração que leva para o futuro as gotas de sangue dos Aguiar. Nos anos 1980 ouvi falar pela primeira vez em um bairro novo, o Sudoeste, uma expansão criada a partir do estudo do Lúcio Costa, "Brasília Revisitada".
Até que, em 2006, a proposta de trabalho é boa, o assunto (um projeto em tecnologia de Inteligência Artificial) tem apelo, a vontade de mudar, de novas experiências, de morar em uma cidade modernista, é forte.
E cheguei em Brasília, para ficar talvez 6 meses, talvez 1 ano no máximo; acabei ficando quase 4 anos. Vim apenas com uma pequena mala, e na chegada já uma prova da hospitalidade "nordestina" dos moradores da cidade: um amigo, colega de trabalho, fez a questão de me buscar no aeroporto, mesmo contra meus protestos; nos horários de almoço os colegas disputavam quem iria me levar para almoçar, eu ainda sem carro em uma cidade que depende de carro para tudo, e com um restaurante no trabalho com uma comida intragável.
Semanas na casa de meus tios, depois alugo, neste novo bairro ("setor", como eles chamam), no Sudoeste, um pequeno apartamento, um conjugado, o que em Brasília se chama "uma kit", herança do termo quitinete da Copacabana dos anos 1960. Com o tempo, conheço melhor a geografia afetiva da cidade, e me mudo para um apart-hotel na beira do Lago, com um visual que me lembra o mar, mas nem tanto o mar do Rio e sim outro mar, a praia do Ôlho d'Água de uma longínqua São Luiz que só existe em minhas memórias.
Hoje, quando começo a contar não mais em meses ou dias e sim em horas o tempo que ainda passarei aqui, chega o tempo para reflexão.
Brasília, ame ou odeie. Ou, como a sequencia dos 5-D da piada que esqueci: deslumbramento, decepção... até chegar a depressão ou desepero...
Posso dizer que, se não cheguei a amar esta cidade com um amor incondicional, gostei e gosto muito dela. No geral é muito bonita, bem preservada; esqueça as pobres arquiteturas pós-modernistas das Superquadras novas, do Pontão e do Lakeside e as construções mal feitas das cidades satélites e pense na boa arquitetura que às vezes nos surpreende em um detalhe; esqueça as violações, os estupros ao Plano e pense onde estes princípios são mantidos, na Superquadra Sul 308, na Esplanada; esqueça as invasões (não tão visíveis como no Rio e São Paulo, mas existentes, discretas, mesmo ao longo da via de acesso ao Palácio da Alvorada) e pense nas áreas verdes, nos espaços livres, no Paranoá democrático onde se anda de lancha ou jet-sky mas também se pesca a linha nas margens nem todas privatizadas ou urbanizadas.
Esqueça a desconfiança dos estranhos ou vizinhos que em geral não respondem ao seu "bom-dia" (muitos mesmo se assustam), e pense que, uma vez rompido o gelo, os estranhos se transformam em amigos de infância, prestativos, acolhedores. Pense na segurança que faz com que se possa namorar tranquilamente em um carro estacionado à noite na orla do Lago sem nenhuma preocupação em sofrer violência por parte de assaltantes ou da própria polícia.
Esqueça a desordem urbana, esqueça as propostas de um trem (para mim, um bonde) de superfície no gramado central da Esplanada, a licença para apartamentos de morradia no Eixo Monumental, a proposta da Praça da Cidadania e outras. Leia o texto original do Lúcio Costa na exposição de motivos do Plano Piloto, ou leia um livro como Case: Lucio Costa Brasilia's Superquadra, que analisa a proposta e a realidade do viver em conceitos modernistas, e pense em como as quatro escalas propostas por Lucio Costa - monumental, gregária, residencial e bucólica  - ainda se mantêm, resistindo a ameaças.
Pensando nisto tudo, e mais, é uma cidade muito boa para se viver, para se crescer. Fiz investimentos aqui, imobiliários e afetivos, e todos eles me trouxeram ótimo retorno.
Atingi meus objetivos. Se o tal projeto de Inteligência Artificial não atingiu totalmente seus objetivos, isso se deveu, a meu ver, à hubris dos seus condutores no nível mais político; sim, e esta política suja, sem opção ética, que vemos hoje e que contamina todo o aparelho estatal, embora floresça aqui, não é daqui; daqui é, sim, o populismo e o clientelismo de um Roriz e de um Arruda que fez e fazem tudo para destruir a harmonia do Plano Piloto.
Volto para o Rio, e volto para o que ao meu ver faz falta em Brasília: uma vida cultural intensa, prerrogativa de metrópoles como Rio, São Paulo, NYC, Paris, Berlin... Brasília não é uma metrópole, na verdade esta não é sua proposta. Embora Brasília tenha alguma vida noturna e bons restaurantes (o atendimento sempre muito atencioso e pouco eficiente, eu acho), alguns focos de eventos culturais (CCBB e Caixa Cultural), a fome de cultura não faz parte do dia-a-dia dos moradores, e os eventos culturais são poucos, mal divulgados, em temporadas curtas e caros ou inacessíveis.
Volto para o Rio, para dar continuidade a meus novos projetos, menos com Tecnologia e muito mais com Arte, meu principal interesse.
Mas construí uma Brasília em meu coração, que me acompanhará até o fim dos meus dias.



Leia mais:

Texto sobre o uso dos pilotis em Brasília
Texto sobre o "viver moderno" nos blocos das superquadras
Outro texto sobre "a invenção das superquadras" em contraposição ao viver em condomínios
Mas a melhor referência sobre as Superquadras, para mim, é o livro Case: Lucio Costa Brasilia's Superquadra, editado por Fares el-Dahdah, e que pode ser comprado na Amazon por menos de US$20, uma leitura essencial para o entendimento teórico do "viver em uma Cidade Modernista"

Créditos:
As fotos atuais são minhas, das centenas de imagens que fiz sobre Brasília, uma cidade tão fotogênica.
As fotos da construção de Brasília são do Arquivo Público do DF e foram digitalizadas por Augusto Areal, que tem dois bons sites com informações muito interessantes sobre a construção de Brasília e Brasília atual, que muito me ajudaram a entender a cidade com a visão prática de quem nela viveu e vive

2 comentários:

Ivanildo Lima disse...

Belo texto! Um texto daqueles que dá prazer em ler; que nos prende (pelo menos a mim) logo no início. Um forte abraço ao amigo e volte sempre!

Maria Virginia disse...

Excelente texto sobre Brasília. Objetivo, mas com todo o coração envolvido. É bem você, sabia?
Grande abraço,
Virginia de Vasconcellos