sábado, 4 de junho de 2011

Dona Paula

Um pedido de uma amiga é uma ordem. Daniela Name pediu a quatro pintores cariocas algumas frases ("três frases, sintético mesmo", ordenou) para seu blog sobre a exposição da artista portuguesa Paula Rego na Pinacoteca de São Paulo. Os artistas: Patrizia d´Angello, Bruno Miguel, Jozias Benedicto e Raul Leal.
Uma das super-exposições que vi em São Paulo na intensa semana da SP Arte. E que não virá ao Rio, shame! shame! Como a do Leonilson no Itaucultural de SP, maravilhosa, e a do Gerhard Richter (que está na Caixa Cultural de Brasília e que vai a São Paulo e até a Salvador). Será que é porque ainda somos um balneário? Enfim, nada que uma passagem com desconto ou com milhagem não resolva, mesmo se for uma ida bate-e-volta a SP como fiz em horários absurdos mas a preço mais-barato-que-o-Expresso-Cometa.
Os textos estão no blog da Daniela Name, ao lado da análise, como sempre enriquecedora, feita sobre a trajetória e a obra da artista, complementada com boas imagens de algumas obras expostas.
Aqui vai o meu texto, um registro apenas de uma exposição marcante, inesquecível, de um trabalho forte e visceral, ao mesmo tempo eterno e tão contemporâneo.
"Domínio técnico completo: óleo sobre colagem, tinta acrílica, desenho, pastel, gravura em ponta-seca, água-forte, lito. Mas o trabalho de Paula Rego é muito mais que isso, que o virtuosismo técnico. É o desvendar de um universo completo em sua estranheza e pervesidade, infantil e adulto, mulher e homem e andrógino, feto abortado e animais à espreita, personagens de contos de fada e de Sade. Em salas e quartos de classe média-alta, famílias se dedicam a jogos dúbios, de prazer e de horror, enquanto sobre o tapete passeia um inocente animal de estimação, um pequeno javali de dentes afilados ou a filha masturba a bota do pai ao engraxá-la. Bailarinas musculosas, um anti-Degas, ajeitam os tutus e se preparam para entrar em um palco  que nunca aparece, o espetáculo é a espera do espetáculo. Mulheres que abortam, solitárias, dor e sangue discretos, recolhidos, fetos, bonecas destruídas, criaturas do mar. Azulejos portugueses, Portugal que lida com as décadas de brutal repressão e atraso, a tristeza do fado e a nostalgia de um antigo império hoje decadente, a herança moura, os muxarabis, as mulheres encarceradas. Uma exposição para ser vista e revista, com vagar, mergulhando neste mundo cruel e pulsante, ameaçador e ao mesmo tempo tão familiar, de histórias infantis, de dores e de sangrar. Ao mesmo tempo um mundo tão real: basta olhar em volta. Basta ter olhos e ver. Ou fechar os olhos e sonhar os pesadelos de Paula Rego."


Clique aqui para o blog da Daniela Name, uma referência em comentários, notícias, tudo sobre arte

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pinturas 2009-2011

Admirava as pinturas medíocres, bandeiras de portas, cenários, telões de saltimbancos, letreiros, iluminuras populares; a literatura antiquada, (...) romances do tempo da avó, contos de fadas, almanaques infantis, óperas antigas, refrões simplórios, ritmos singelos.”  Uma estação no inferno,  A.Rimbaud (citado por Eco, U. em “A História da Feiúra”)

Revisando as pinturas que fiz a partir de 2009, anoto algumas características que me parecem comuns. Um exercício, busco ver estas muitas dezenas (centenas) de telas como um conjunto, em sua diversidade de temas e procedimentos, à semelhança da minha série Polkianas, exposta no Largo das Artes em fevereiro de 2011, onde as 35 pequenas telas se agrupam em uma só pintura.
Esta é exatamente uma primeira característica que está presente em meu trabalho:  Ele se desenvolve em séries, se agrupa em polípticos, séries que não se encerram e que são sempre retomadas. Serialidade, repetição, multiplicidade, camadas. Obsessão em dividir, em contar as partes e em agrupá-las, em propor elementos em quantidades precisas, em números ímpares, o 3, o 7, o 12+1 (este uma metáfora da Última Ceia)... Pedaços de mundo que se agrupam em um todo, um todo que é bem maior que a soma das partes, uma completeza que está sempre em aberto.
Trabalho cada pintura em camadas, sobrepondo formas, manchas, técnicas, matérias, universos. Sobreponho citações de imagens da História da Arte e cito procedimentos de pintura, “estilos”: os gestuais da action-painting, as cores fortes do fauve, as pinceladas do expressionismo abstrato... Os polka-dot do Sigmar Polke, as Vanitas do Philippe de Champaigne, os rostos e corpos que se desfazem como no Francis Bacon... A coexistência entre estas camadas nem sempre é pacífica, em muitos trabalhos me interessa mesmo o embate entre mundos pictóricos: o abstrato-orgânico versus o geométrico-metálico.
Recorrentes em meu trabalho são as imagens do kitsch, em especial o kitsch religioso: sagrados corações, coroas de espinhos, mantos de nossa senhora aparecida, as Vanitas. Fora do contexto de uma pintura sacra ou mística, no meu trabalho estes elementos não significam transcendência, ao contrário, estão pairando sobre a aridez de um mundo inóspito.
Utilizo uma paleta exuberante, tons fortes, cores falsas, berrantes, tons neon, tintas metálicas, superfícies cheias, texturas, matéria, pigmentos, excesso de acontecimentos. Passo longe do clean.  Tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Uma teatralidade de ópera: nos autorretratos eu sou eu e sou o Rei Sol, o Cardeal Richelieu, nas paisagens o trampolim de Icaraí é como um palco, há uma história que está sendo contada mas o que é fixado é o momento entre duas falas, o silêncio que precede a ária, a expectativa do salto mortal sem a rede de proteção.
Deixo muito espaço para o acaso, para o aleatório, para o erro. A mancha, o escorrido, o sem-controle. O feio. Trabalho com incertezas, muitas vezes buscando os limites da percepção: manchas que são figuras humanas ou não, paisagens apenas sugeridas, imagens dúbias, espaços dúbios.

*   *  *
Sobre o que falam estas pinturas? São paisagens, vanitas, retratos e autorretratos.
As paisagens são praias com o esqueleto de uma construção, um trampolim. São ruínas de usinas nucleares, um mirante abandonado no alto de uma serra, pedaços da arquitetura modernista de Brasília. São cenários de um mundo destruído ou em destruição, onde o tempo está congelado. O apocalipse nuclear já veio e nós ainda não notamos.
As vanitas repetem à exaustão uma cena clássica: sobre uma mesa, um crânio ladeado por um vaso com flores e uma ampulheta: em uma série com 50 pinturas dissequei a pintura de Philippe de Champaigne. Em outras pinturas, as caveiras de príncipes e imperatrizes dançam, esqueletos dos Habsburgos e dos Bragança. Crânios aparecem, ou se escondem no limite da percepção, em paisagens, em retratos. Memento mori, a vida como um teatro.
Retratos de ídolos mortos ou eternamente vivos, de estátuas de museu de cera, de crianças com lábios leporinos. Paródia de um expressionismo, de um Francis Bacon ou de um Lucian Freud ou de um Graham Sutherland – mas as carnes à mostra são de plástico, as cores são de um cenário de teatro, o sangue é puro Alizarim Crimson 346 Acrilex.
Dos retratos aos autorretratos, a teatralidade se exacerba: eu sou personagens, meu verdadeiro eu está na superfície, na tinta metálica que reflete o espectador, no rosa-neon que desmascara a seriedade do expressionismo. Um cardeal, um pintor com uma taça de vinho e uma tela em branco, um jogador de futebol e seu duplo, um homem com o coração exposto, com os olhos fechados, com os dentes arreganhados como um cão de guarda. Como o Rei Sol. Teatro.
Vendo o conjunto, observo que um tema se mostra presente em todo o meu trabalho: a transitoriedade. Não quero falar da morte de um indivíduo, da minha morte, da morte de alguém querido, não quero falar de um ponto de vista psicológico, não busco ser triste, não quero ser sério, ser deprimente. Luto, talvez; mas não melancolia. Não quero ser óbvio fazendo uma pintura sóbria em tons fechados: as minhas caveiras dançam, as cores explodem, busco exatamente este contraste. Busco falar da transitoriedade da vida e do Universo, dos papéis neste teatro de sombras. Nada é absoluto, as certezas se dissolvem em tinta e em pedaços de História, as imagens se apagam e reaparecem, as camadas se somam e ao fundo se vê restos de vidas neste palimpsesto em que vivemos.

“We are dying, we are dying, we are all of us dying
and nothing will stay the death-flood rising within us
and soon it will rise on the world, on the outside world.”
The Ship of Death, D.H.Lawrence

domingo, 10 de abril de 2011

KJ no Rio

Sim, KJ. Palmas.
Keith Jarrett no Municipal, retornando ao Rio depois de 22 anos. Não vi, perdi, não vou perder esta por nada no mundo. KJ e os improvisos de piano.
(Adoro. Köln Concert, o CD que vendeu mais de 3,5 nilhões de CDs (eu comprei, meu CD sumiu, depois dei download na internet, como eu muitos, então os três milhões se multiplicam. Outros muitos outros. Mais de 60 CDs gravados, em solo ou com o grupo, standards, clássicos, improvisações. Para mim os melhores as improvisações, o concerto no Scala de Milão quando no meio dos improvisos ele toca um Over the Rainbow. Não precisa mais de nada, só isso).
E lá está ele, todo de preto, e o piano, o piano. Ele esquenta aos poucos, como nós mortais; o primeiro improviso é delicado, inocente, como uma planta carnívora nos chama com a beleza e a leveza para um mundo onde seremos devorados pelas teclas que fluem, agora leves, inocentes, exageradamente inocentes, flores no campo. Depois ele esquenta, a segunda peça já tem os aromas terciários, como um vinho, como uma música que não é mais somente primavera, e assim vai.
Hoje, peças curtas, muitas. Finalizações abruptas, como para marcar um universo de peças curtas. Ah um desejo de ouvir uma peça longa, um lado de um CD ou mais.
Recebe as palmas com uma reverência, retorna ao palco e ao piano, aplausos consagradores, volta ao palco e toca um bis. Outro. Outro. Além da performance irrepreensível, ele trouxe uma sequencia de bis que é simplesmente divina, sem palavras, vejo tudo e entendo finalmente o que é deus. Palmas.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Cinzas

Lembra-te que és pó.
E ao pó retornarás. Um dia. Um carnaval.
Um dia a gente dizia, para quem não quer curtir carnaval a melhor coisa é ficar no Rio, a cidade fica vazia, a praia fica ótima. Ah, mas nós queríamos curtir carnaval e enfrentávamos engarrafamentos monstruosos para a Região dos Lagos, lá era um carnaval feito de pequenos blocos de rua, lá tudo era nosso, tudo era sempre, tudo, tudo. No Rio, o carnaval era ver pela televisão o desfile das escolas e no máximo uma banda de Ipanema que desfilava contida entre as calçadas do bairro mágico.
Hoje, é diferente, o Rio não fica mais vazio, cresceu no carnaval de rua, os blocos e bandas se espalham enormes, e não se consegue fugir do clamor das ruas, do som sincopado, do alaa-ô-ô-ôô...
Mijar se tornou um problema, uma interdição, um crime hediondo.
Penso que tudo mudou e tudo se renova, bebo uma latinha de vodka ice (prefiro não beber cerveja para não querer mijar), beijo na boca e me deixo beijar, e a vida segue. Mais um. Carnaval.
(nas cinzas separo as contas, amanhã dia 10, não perder as datas dos pagamentos, programar a agenda para o resto de março, um mês que ficou tão curto, agendar médicos, apresentações de projetos, portfolios, enfim: cinzas)
Respirar fundo, mais um, mais um ano. Obrigado, obrigado, obrigado, ainda não retornei. Ao pó.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Um outro Carnaval

Era Carnaval, eu era uma criança. A melhor lança-perfume era a Rodo metálica, um cilindro dourado esguichando um líquido frio perfumadamente enjoativo. As crianças ganhavam a sua quota de Rodo metálica, os adultos adoravam, cheiravam, caiam, pediam para as crianças uma prise no lenço de linho, as crianças não entendiam qual a graça daquilo tudo. Eu matava formigas, saúvas, tanajuras com o jato de minha Rodo metálica, ou jogava aquele jato gelado na nuca de uma menina. Um dia imitei os adultos e fiquei cheirando um lenço gelado de Rodo metálica, achei horrível.
Era Carnaval, a cerveja era quente, não dava tempo de gelar, a gente comprava nos bares a garrafa grande de 600ml e bebíamos no gargalo, quente mesmo, eu não era mais uma criança e queria ser um adulto mas a melhor parte era quando íamos mijar juntos e trocávamos cerveja quente no gargalo, éramos muito jovens e não tinha problema em nada, mesmo quando nos beijamos no banheiro sujo do boteco bebendo cerveja quente enquanto mijávamos, depois voltamos cada um para a sua namorada, suados, era Carnaval.
Era Carnaval, a cerveja que nunca gelava e uma peixada, panelas cheirosas na cozinha, pirão, arroz de cuxá, quem sabe o que é isso? minha namorada olhou para mim, eu beijei o pescoço dela, linda, como uma fruta silvestre, taperebá açai cupuaçu, ela riu e deu um gole grande na sopa de peixe, me beijou e passou com a língua a sopa para a minha boca, ficamos nos beijando e trocando de bocas aquela peixada e eu pensei, agora sou um adulto, não preciso mais matar formigas com a minha Rodo metálica, é meio nojento mas a vida de adulto é toda ela nojenta.
Era Carnaval, e falaram no auto-falante do clube no meio do desfile, um carro, um Galaxie pegando fogo, no estacionamento, era o nosso, fomos correndo, um cigarro mal apagado talvez. e lá estava o carro pegando fogo como uma carruagem do deus Apolo, era Carnaval.
Um Carnaval destes eu falei, chamei, gritei, é impossível que o Carnaval acabe hoje, na terça-feira, eu quero eu desejo eu imploro a todos os meus amigos, amanhã minha casa está aberta para continuarmos o Carnaval que eu não acredito que possa acabar. No dia seguinte acordei perplexo, falei com minha família sobre a bobagem que eu tinha feito, a noite fechamos a casa e apagamos as luzes, vimos chegar vários carros, os que acreditaram em mim, buzinaram, pararam na porta, a campainha, e nós silenciosos dentro de casa.
Arraial do Cabo, o Bloco do Feijão, outros Carnavais onde parece que se vai encontrar outro grande amor mas aos poucos se vê que o amor é escasso. Pouco. Pessoas que nem lembro o nome, mas que beijei bem, e pessoas que lembro bem o nome mas que foram para outros universos, vou beijar-te agora não me leve a mal, tudo é Carnaval. E depois dormindo na rede sempre estendida na varanda.
Um Carnaval, ainda faziam bailes no Theatro Municipal, desfiles de fantasia de luxo ou originalidade. Faziam corso, circulando com os carros, a gasolina era barata. Nos blocos e bandas, as pessoas trepavam transavam faziam amor faziam sexo, meu amigo que hoje é avô dizia contava enumerava quantas bocas. Eu não. Vou beijar-te agora.
No Bloco do Feijão é assim, os homens se vestem de mulher e as mulheres se vestem de homens. O segredo é, não sei qual é o segredo.  Só sei que o mascarado ou mascarada tirou a máscara de clóvis, abriu a roupa de losangos e nos beijamos, e era lindo, como eu, e a noite foi nossa. Era Carnaval.
No dia seguinte, na varanda da casa, contei minha história de amor no Carnaval. Ninguém acreditou. Eu sei como é isso, na verdade nem eu acreditei mesmo.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Uma traição


A primeira vez que te vi, nossos olhos não conseguiam se separar, era uma festa badalada, em uma época em que eu ganhava convites para festas badaladas, nem sei porque.
Lá estava eu, sozinho e na festa e sozinho no mundo, e nossos olhos não conseguiam se separar. Eu era casado mas estava sozinho no mundo, se é que isso é possível, claro que é, é o mais comum.
Uma criança, você, e por que estas olheiras? que só aumentam a profundidade do teu olhar, que só fazem do teu olhar um lago de águas verdes aparentemente rasas e paradas mas com uma armadilha, um redemoinho, um sumidouro.
(ah não, sem os lugares-comuns, não vou falar dos olhos de ressaca ou dos olhos-espelho-d'alma, mas teu olhar me levou para junto de você e me fez te desejar muito, me fez te desejar muito, me fez trair)
Nos encontramos outras vezes, em outras festas badaladas, pulseirinhas de convidado vip, um dia nos beijamos na festa mesmo, muitas vezes, saímos da festa e fomos a um bar e bebemos mais e mais e nos beijamos mais e mais e eu voltei para casa com dois balões pretos com caveiras brancas e o teu telefone anotado em um pedaço de papel com uma caligrafia totalmente ilegível.
(claro, uma festa de lançamento de um estilista que usa a caveira como ícone, como eu uso, as vanitas, os balões eram a decoração da festa, eu levei para casa dois deles que depois murcharam, nada é para sempre)
Liguei, marquei, desmarquei, tinha medo, eu nunca tinha traido. Mentira. Eu não queria trair. Mentira. Eu não sabia o que eu queria. Mentira. Eu não queria o que eu sabia.
(na manhã seguinte eu acordei cego, como Édipo, mas isso é outra história:)
Aquela manhã J acordou cego e com o braço direito dormente. Dentro da névoa da ressaca, abriu um olho para olhar o relógio digital ao lado da cama, como sempre fazia, cada manhã; um dia de semana, tenho que ir trabalhar; depois o outro olho: via o brilho do mostrador digital mas não conseguia enxergar os números. Estava cego.
Enquanto um neurônio pensava que esfinge ele tinha decifrado para ter a cegueira como castigo, com o racional percebe que apenas havia dormido, totalmente bêbado, com as lentes de contato. Aí a dormência do braço aumenta, e ele percebe que há alguém dormindo ao seu lado.

(mas isso é realmente outra história)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Na madrugada

É a hora em que os que estão com alguém dormem saciados. É a hora em que os lobos uivam famintos, a lua cheia adquire um tom de vermelho-sangue, a dama-da-noite recolhe seu perfume. Os que não estão com alguém continuam tomando chopp quente em pé e baixam o nível de exigência.
É a hora em que são cometido os assassinatos, as invasões, os estupros, os incestos.
No meu prédio tem um vigia, que deve estar dormindo. É a hora em que até os vigias mais sérios dormem, em que nas boates só ficam os solteiros, os que procuram e ficam até o final exatamente porque procuram.
É a hora em que os sites de relacionamento na internet estão cheios de pessoas nuas, que se masturbam para o mundo, ou para o verdadeiro amor que nunca terão, que está sempre além, sempre. É a hora em que as crianças choram dormindo ou acordam com pesadelos.
(uma noite eu acordei chorando, gritando, mais ou menos nesta hora, eu gritava e apontava para o teto da casa, eu via uma bruxa gargalhando entre as vigas, entre os caibros de madeira, no dia seguinte subiram e viram que as madeiras estavam carcomidas por milhares de cupins e que a casa ia ruir, depois reformaram a casa mas eu continuo até hoje vendo aquela bruxa, ela está comigo em todas as minhas madrugadas)
É a hora em que os suicidas despencam de um andar alto segurando apertado na mão uma imagem de um santo. É a hora em que os santos entram em êxtase. É a hora em que o êxtase é fácil e vem como um preparativo para o sono ou para a morte.
O vigia deve estar dormindo, eu posso interfonar para ele e perguntar se está tudo bem, claro que ele vai demorar para atender, deve estar em um sono profundo, mas vai dizer que está tudo bem, evidente. É que ele não sabe, ele não viu a bruxa que ri sempre entre as vigas.
Nos sites, webcams ligadas, todos procuram. Nos bares, chopps ligados, todos procuram. Nos becos escuros, na areia da praia, nas esquinas, todos procuram, sempre. Os suicidas também, os carentes, os destituídos de tudo, os que viram a novela e os que leram um livro, os que foram ao supermercado que abre 24 horas, os que foram à praia e os que ficaram em casa.
(um dia, ele virá, como no apocalipse, brilhante mas ao mesmo tempo negro como a minha bruxa, e ordenará, cessem todos os chopps, cessem os sites de relacionamento, as webcams, cesse toda a espera, eu vim e estou aqui e sempre estarei pois sou o êxtase total, o princípio e o fim)
Mas ninguém vai ouvir o que ele diz.