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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Em busca do ouro

Chegar a Ouro Preto é como, de repente, estar dentro de uma paisagem de Guignard, é claro que já devem ter escrito isto antes mil vezes pois é a mais pura e óbvia verdade, não me importo, para que tentar ser original quando do alto destas montanhas tantos séculos me contemplam, tanto ouro tirado da terra, entregue aos Bragança ou contrabandeado nas trancinhas dos cabelos pixaim ou nas entranhas dos santos-do-pau-oco, tantos escravos mortos ou alforriados, em busca do ouro, do ouro preto.
(o ouro encontrado na região tinha as pepitas escurecidas por uma camada de paládio, o que lhe dava uma  tonalidade escurecida, característica, diferente da cor do ouro de outros lugares).
O ônibus vem devagar, amanhece, eu estou totalmente aceso, a estrada é cheia de curvas, subidas, descidas; em uma curva do caminho se abre inesperada a paisagem, um panorama entremeado de névoa, neblinas, um sol insistindo em nascer, as montanhas que se sucedem em planos irregulares. Nos planos: palmeiras, igrejas, casas com telhas moldadas nas coxas dos escravos, rios, córregos, matas. E acima de tudo o céu onde provavelmente moram anjos e santos barrocos. Guignard puro.
Desço (aqui se desce e sobe o tempo todo) até a Praça Tiradentes, já é plena manhã com sol forte e céu azul, pego um mapa da cidade para programar passeios e, no lugar onde os pedaços de Tiradentes ficaram expostos, enquanto estudo o mapa, ouço conversas como música de fundo. No mais puro sotaque de mineiro, que sempre traz uma sensação de pureza, de ingenuidade, um rapaz conta para o outro o ciúme que sentia da mulher e como ela a traiu, o assunto passa abruptamente para como ele agora está "em condicional", o interlocutor pergunta "o que é condicional", ele explica. Com a impressão de que perdi para sempre alguma informação importante (provavelmente os detalhes de como a infiel foi morta), sigo minha descoberta de Ouro Preto, Vila Rica, a Imperial Cidade de Ouro Preto.
Para mim, apenas um lindo dia de sol, a sensação de caminhar sobre pedras, seguir o mapa até uma igreja, ficar deslumbrado com o poder, a grandiosidade das volutas barrocas, da pedra entalhada, dos dourados, dos azulejos, dos santos com roupas e cabelos de verdade e com olhos brilhantes de vidro; descobrir que as sacristias são mais bonitas que os altares-mor; desenhar em meu moleskine detalhes, detalhes, detalhes intermináveis; seguir o caminho, pelo mapa ou pedindo informações, uma cidade turística como outra qualquer, só que sem um MacDonalds, o que é um diferencial altamente positivo.
Mas não é só isso, à medida em que sigo e converso ou ouço conversas, percebo presenças, sinto que o Tiradentes exposto na praça continua exposto, que a paisagem está cheia de grupos de turistas mas também está cheia de fantasmas, de vultos que se intui ou se percebe apenas com a visão periférica ou com os olhos fechados.
Vila Rica, o nome já nasceu com o indicativo da riqueza que foi sua glória e sua derrota: o garimpo. E a rica vila , uma serra pelada do período colonial, deve ter sido um lugar bem estranho para se viver.
Há uma Vila Rica, expansiva, solar; no burburinho dos onibus escolares com turistas; nos garotos, as cuecas aparecendo sob as bermudas caídas, que tiram fotos com seus celulares e ao apito dos professores se aglomeram para ouvir as explicações sobre a história da cidade; nas famílias que fazem turismo ou festejam uma segunda lua-de-mel; nas igrejas cheias de fiéis mas mais cheias ainda de turistas que sempre querem fotografar; no movimento de estudantes que tomam café com pão de queijo no intervalo entre as aulas.
E uma outra Ouro Preto, noturna, misteriosa, feita do sangue dos garimpos e dos escravos, dos inconfidentes, dos poetas, e que aparece em lugares insuspeitos; na conversa ao meu lado na praça; nos calouros que circulam pelas ruas com cartazes pendurados em seus corpos indicando sua situação (como os escravos); nos crimes; no Tiradentes esquartejado e exposto; nos becos onde você pode se perder para sempre; nas noites onde o barulho das festas ao longe mal esconde o rumor de correntes arrastadas, de matracas da Paixão de Cristo, de novenas e Te Deums, de açoites, castigos e orgasmos.
Vila Rica começou com a Bandeira de Antônio Dias no final do século XVII, o primeiro bandeirante paulista a chegar na região, atraído pelas promessas de riqueza a partir do estranho ouro enegrecido. Um primitivo arraial se fundou no morro de São João com a celebração de uma primeira missa para um grupo pequeno, que depois se multiplicaria. O garimpo, terra de ninguém; as atividades tradicionais - agricultura, criação - são abandonadas pela busca do ouro, para que perder tempo plantando ou pastoreando quando em uma pepita se pode descobrir a riqueza instantânea?
Assim, no início do século XVIII, a região passa pelo que se chamou de A Grande Fome. Dois forasteiros se matam a faca por uma cuia de farinha. Cheias dos rios em terríveis estações de chuvas agravaram a situação e provocam o êxodo de populações para outros arraiais, uma marcha de famintos que caíam de inanição nos caminhos do Rodeio. Fala-se que existiria até hoje um Campo das Caveiras, com centenas de mortos no esforço de subir a serra fugindo da cidade famélica. Escravos e ciganos, armados, assaltavam os vivos e saqueavam os mortos. O horror.
Horror que continuou e talvez tenha tido seu auge na Inconfidência; penas cruéis: por enforcamento, amarrado a cavalos e arrastado pelas ruas, depois esquartejado. Tiradentes, enforcado em 1792, teve seu corpo esquartejado e os destroços espalhados pelos caminhos de Minas Gerais; outros, exílio da África; o poeta Cláudio Manuel da Costa encontrado morto na prisão, oficialmente por suicídio. A cabeça de Tiradentes foi exposta em plena Vila Rica, sumiu misteriosamente e nunca mais foi encontrada.
Já no século XXI, o horror foi outro, novas tecnologias na cidade colonial, um jogo de RPG (role-playing game) com toques de magia negra teria provocado o assassinato de uma jovem,  a estudante Aline Silveira Soares, que foi a um evento em Ouro Preto, a "Festa do Doze", em 11 de outubro de 2001. Com duas amigas, ficaram hospedadas em uma república; no dia 13, um túmulo do cemitério de Ouro Preto foi violado; e no dia seguinte, o corpo de Aline foi encontrado no cemitério da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia; sobre um túmulo, despida, de braços abertos e pés cruzados, e com 17 ferimentos feitos a faca. Os acusados pelo crime são três rapazes, moradores da república, e uma jovem, prima da vítima.
As repúblicas em Ouro Preto são um capítulo a parte; se espalham pela cidade, cheia de estudantes; de todos os níveis, umas ricas e tradicionais, ocupam casas maravilhosas; outras menos poderosas, improvisadas até; só de moças, só de rapazes, mistas, GLS ou homofóbicas. São muito parecidas com as fraternities e sororities das universidades americanas, tão descritas em livros (A História Secreta, de Donna Tartt, é um deles, com sua trama de cumplicidades e estudos clássicos) e filmes (um dos melhores talvez o Sociedade dos Poetas Mortos, do diretor Peter Weir, além de longas séries de terror+rir de Pânico e aparentados). Uma experiência que, no Brasil, não é onipresente como na cultura norte-americana; na Universidade em que estudei o campus era uma ficção, se resumia às conversas nos pilotis; assim para mim foi uma experiência engraçada ficar hospedado em uma república.
O ponto forte é a hospitalidade, a facilidade em se fazer amigos, a diversão sempre presente, a casa cheia todo o tempo. O que poderia ser um ponto fraco, a pouca privacidade, não cheguei a sentir; mesmo com a casa cheia há um cuidado com as individualidades. Enfim, uma boa experiência, como é interessante passear na noite na cidade e ver a movimentação nas repúblicas, o barulho de festas, a juventude. E também uma marca da cidade, de Minas, a interiorização: não há um "baixo Ouro Preto", como temos vários "baixos" no Rio, onde as pessoas vão para as ruas beber e confraternizar; as loucuras acontecem entre as paredes coloniais das repúblicas, das casas, das igrejas; sob a aparência tradicional, o desvio; sob as igrejas barrocas, o prazer, a transgressão, o êxtase.
Como no crime das irmãs Poni, em 1962; as irmãs Ethel e Edina Poni, da chamada alta sociedade de Minas Gerais, assassinaram em uma pousada em Ouro Preto, a sangue frio, a nova companheira do ex-marido de Edina, o milionário Fernando Melo Viana Filho. Uma história de amor e ódio, de traição, de dinheiro, violência e impunidade; um assassinato cometido na frente de testemunhas, em público; enquanto Ethel segurava os braços de Maria de Lourdes Dias Calmon, Edina, campeã de tiro ao alvo dos clubes tradicionais de Belo Horizonte, dispara dois tiros de seu revolver calibre 32 na nuca da vítima. As duas senhoras foram presas algumas horas depois; para recebê-las, a cadeia de Ouro Preto foi reformada; o julgamento teve a participação de juristas importantes, e o conservadorismo da sociedade mineira foi determinante para acolher a tese da defesa, de coação moral irresistível, e absorver as acusadas, culpabilizando a vítima.
Segundo a defesa (o texto é uma pérola ao descrever o conservadorismo brasileiro da época, onde o divórcio ainda não era legalizado e as separações eram vistas com estranheza, um casal formado após um desquite era um casal pária, apontado na rua, os filhos de desquitados marginalizados nas brincadeiras com os filhos de famílias),  "a vida de Edina tornou-se uma via crucis, n’uma sucessão de sobressaltos e angústias, permanentemente oprimida e coagida por sua impiedosa rival (...) se viu obrigada a privar-se de comodidades e da vida de conforto que sempre teve – pois passou faltar-lhe o mínimo para a sua subsistência – Maria de Lourdes deixava seu emprego (...) anunciando aos quatro ventos que descobrira uma “mina de ouro” e não precisava exercer um ganha-pão honrado: foi engrossar o número daquelas que vivem da mais triste e mais antiga das profissões... (...) Continua acentuado o contraste entre ambas, após a desgraça visitar a morada de Edina, na pessoa da Calmon: enquanto esta fazia freqüentes viagens a Europa (...), ostentava jóias de um luxo asiático (...), requintando em sempre fazer chegar a Edina a notícia dos presentes caríssimos que recebia do Dr. Fernando (...). Edina a esposa legítima, atravessava períodos de notórias privações, com os credores batendo-lhe humilhantemente às portas (...) com os próprios fornecedores de gêneros negando-lhe mais crédito e obrigando-a a ir as duras fainas do trabalho na propriedade agrícola do casal, onde se dedicava à fabricação de doce para vender junto ao seu círculo de relações.  (...) Senhora da situação como se julgava, confiante de sua ascendência de fêmea moça sobre o amante sexagenário (em números redondos a Calmon tinha 30 anos e o dr. Fernando o dobro, passou ela a infernar a vida da acusada Edina atormentando-a, amargurando-a e levando-a ao desespero, através de freqüentes (...) telefonemas urbanos e interurbanos em que, utilizando de linguagem sórdida, preservada na tradição das vivandeiras, à Edina dizia que devia conceder o desquite ao marido para que ele pudesse regularizar sua situação com ela; que Edina se convencesse que era uma mulher velha e superada, enquanto que ela tinha mocidade a oferecer a seu marido e coisas quejandas (...)"
Estão todos lá, vagando, enquanto caminho pelas ladeiras, enquanto fotografo com meu celular as sombras, os azulejos e as fontes, enquanto bebemos uma cerveja Backer, enquanto vamos de república em república, os vultos nos perseguem e se escondem nos becos, os barulhos ao longe, as estrelas, o céu do Guignard.
Sim, e o Museu Casa de Guignard, uma delícia; a casa onde o artista morou, uma casa muito simpática com um gostoso quintal, muito bem conservada e adaptada para um museu simples, sem grandiosidade, cool como o artista.
Museu com pouco acervo, nem meia dúzia de telas do Guignard (mas uma lindíssima, pintura sobre madeira, grande, com cores fortes); uma cama e outros objetos pintados pela artista; e uma coleção de pequenos desenhos, cartões, bilhetes de enamorado; apenas isso; mas não faz mal, se respira Guignard em toda parte, um lugar gostoso para se ficar horas como ficamos, e se sentir também um pouco enamorado por esta Ouro Preto de Guignard. Como esta casa fosse um par de parênteses, fosse como uma capa protetora a deixar fora o lado soturno, os espíritos.
(Guignard também tem um lado negro, sabemos; depressivo, os complexos a partir dos lábios leporinos; mas sua obra dificilmente é soturna, mesmo nas cenas de noite, há uma transcendência, uma elevação, uma alegria quase ingênua. Outro artista, ligado a Ouro Preto, que transcendeu as limitações do físico foi certamente Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, cuja deformação absolutamente não deixa marca na beleza de seus anjos. O barroco, a transcendência da pérola deformada, o êxtase)
E assim deixo Ouro Preto, já fazendo planos para voltar.
Uma residência, registrando em meus moleskines os azulejos e azulejos das igrejas, quem sabe?
Ou simplesmente voltar, sem motivo, sem desculpa, pois a vida é boa e melhor ainda se se consegue rever o passado e tornar realidade algo que ficou inconcluso há tantos anos. Ou séculos.
Buscando o ouro e o encontrando.

domingo, 31 de maio de 2009

Fim de semana em Brasília

Fim de semana em Brasília, o tempo rende, além de pintar vi algumas exposições:
1- No CCBB, "Virada Russa - A Vanguarda na Coleção do Museu Estatal Russo de São Petersburgo". Está na última semana aqui em Brasília, depois irá para o CCBB do Rio. Uma exposição importante, bom catálogo.
2- Na Caixa Cultural, "O Gravador Roberto Burle Marx no Atelier Ymagos", com quase 90 trabalhos do artistas, entre desenhos e gravuras, em metal e litos, bonita exposição. "Lágrimas de São Pedro - Acalento ao Sertão Nordestino", uma instalação do artista bahiano Vinícius S.A. e "Quem tem medo de olhar para cima", exposição de fotografias de Silvio Zambonide, com fotos do céu em vários lugares do mundo emoldurado por detalhes de arquitetura, tiradas exatamente de baixo para cima.
Ah, sim, e volta a polêmica da Praça da Soberania, o arquiteto Oscar Niemeyer refez o projeto diminuindo o obelisco e dividindo a construção em dois prédios mais baixos nas laterais da Praça, portanto desobstruíndo, em parte, a visão da Esplanada a partir da Rodoviária. É melhor que o projeto anterior, porém continua ocupando uma área que, pelo Plano Urbanístico do Lucio Costa, não poderia ser ocupada; compete com a Rodoviária, e além disso é outro imenso chão de concreto, sem árvores. O IPHAN já se manifestou contrário, e o Governador Arruda diz que não o fará em seu governo, por falta de recursos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Leonardo Videla e as churrasqueiras


Recebi e-mail do artista Leonardo Videla, com imagens de seu trabalho chamado Churrasquinho no Quartinho de Empregada, já apresentado no barracãomaravilha. Sem sair da temática da arquitetura, o olhar do artista se volta agora para uma “arquitetura móvel (...) fotografando churrasqueiras de quintal ou de laje feitas e desfeitas de tijolo”.
Neste e-mail, Leonardo se refere à entrevista da crítica Glória Ferreira com o Bechara no Blefuscu (nesta entrevista é feita uma referência pelo Bechara aos trabalhos do Leonardo na série Acrílico sobre Tela), e à questão do vazio (a arquitetura, segundo Bruno Zevi, citado na entrevista, é como uma “escultura esvaziada”, onde o homem penetra no interior, onde vive; enquanto que na escultura há o tridimensional mas o homem está “fora”; e na pintura, as diferentes dimensões existem em sugestão apenas). Estes conceitos podem ser exemplificados ao se analisar o conjunto de trabalhos do Leonardo Videla, como coloquei em meu post, onde “as plantas-baixas se transformam em dobraduras, e a pintura invade o espaço: a planta-baixa - na verdade uma representação gráfica do "chão" dos espaços - vai para a parede ao se tornar pintura, salta da tela ao se tornar um objeto-pintura, e na dobradura invade o espaço tridimensional, de uma "pintura de canto" a um objeto com dobraduras em MDF”.

Para Leonardo: “o que quero dizer com isso é o quanto é poderoso esse assunto na produção do fazer e pensar arte atualmente, no decorrer das transformações que vivenciamos, a pintura saindo da parede, a escultura saindo do chão, as instalações, os vídeos, as performances, enfim, vivemos um alargamento dos conceitos de arquitetura (...)”

Nas Churrasqueiras, creio que o artista, além das questões mais formais (as linhas que marcam as plantas-baixas reaparecem na construção das churrasqueiras, estas podem ser vistas como instalações, e também podemos ver as fotos não só como registros mas como pinturas, com referências ao neoconcretismo), enfrenta um alargamento do foco, abordando outras questões: questões sociais tão profundamente brasileiras ("o churrasco" como evento de união e socialização, o “quartinho de empregada”, invenção tão nossa quanto o “elevador de serviço”), o papel da arte e da arquitetura frente uma arquitetura-popular ou uma arquitetura-povera, o kitsch na arquitetura e outras. As dobraduras dos trabalhos anteriores do artista, após invadiram o espaço, com as Churrasqueiras ampliam esta invasão do espaço, incorporando outras questões e outros significados ao seu trabalho.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Garaicoa, no CCBB-BSB: arquitetura e ruínas


Carlos Garaicoa é um artista cubano nascido em 1967, com uma obra já reconhecida internacionalmente, e que tem a arquitetura como um dos temas recorrentes. Com estreitas ligações com o Brasil, o artista já participou da Bienal de SP, de coletivas como “Arte de Cuba” no CCBB em 2006 e teve uma individual na Gentil Carioca, no Rio. O CCBB de Brasília está mostrando uma boa exposição individual de Garaicoa, uma ótima chance para conhecer um pouco da trajetória do artista.
Havana, uma cidade com um passado pujante de construções coloniais e da primeira metade do século XX, que os anos de regime fechado e de descaso transformaram em ruínas, e a inventividade da população remendou com os escassos recursos da extinta União Soviética.


Estas imagens que se tornaram tão comuns na midia são a matéria prima para o artista Garaicoa, que as transfigura em seu trabalho; e se tornam imagens universais, a falar de ruínas não só cubanas mas da arquitetura mundial, e mesmo ruínas do ser humano, no sentido mais existencial, zen, como na instalação Jardim Japonês: pó - construção - ornamento arquitetônico - ruína - pó.
A busca de espaços utópicos: maquetes de construções ultra-modernas no meio das ruínas de Havana; a proposta de "clonar" prédios, subvertendo o conceito eugenico de clonagem, ao utilizar como matriz não "o melhor da raça" e sim um prédio industrial decadente, meio abandonado, meio ruína. Em uma instalação, a partir de uma mesa, traços de construções em perspectiva, feitos em linha de costura presa por alfinetes, com panorâmicas de cidades reais em pequenos monitores de vídeo, se projetam na parede em uma cidade utópica, modernista, com direito até a um zepelim sobrevoando, tudo feito em linha com os alfinetes, frágeis construções como que a falar de um futuro-passado lírico porém frágil (do pó ao pó).
A vinculação crítica com a arquitetura, com o modernismo, com o Brasil, a arte brasileira, o concretismo e também, claro, com Brasília, fica muito evidente em uma instalação chamada De como minha biblioteca brasileira se alimenta de fragmentos de uma realidade concreta: Livros de arte e de arquitetura brasileira, presos em blocos de concreto como construções "concretas" modernistas, formam o qe se percebe ser um muro, ao ver que o verso está crivado de cápsulas de balas...
Arquiteturas ideológicas e políticas: uma maquete com a proposta de uma estátua equestre do "governante de plantão"; sem cabeça, a estátua equestre está complementada por rampas e cabeças sobressalentes para que a população substitua pela cabeça dos novos líderes, cabeças que se enfileram nas rampas. cada qual com seu pombo de bronze, à espera de serem colocadas em função no tronco do herói equestre.
Uma boa exposição, e a crítica à arquitetura e ao modernismo ganha, ao meu ver, outra visão ao ser vista em Brasília e no meio do tiroteio sobre a enfim abortada Praça da Soberania, onde apareceu todo um subtexto de ideias sobre o poder mágico da arquitura e do arquiteto, a função da utopia, o desgaste das construções e das ideologias que fizeram estas construções, a ruína... ideias estas que Garaicoa utiliza de maneira precisa, competente e estética, em seu trabalho.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Notícia sobre a Praça da Soberania

No Globo de hoje, uma notícia positiva sobre o "puxadinho" que Niemeyer projetou e o Arruda quer construir, desfigurando o gramado e a visão da Esplanada dos Ministérios: MP investiga novo projeto de Niemeyer em Brasília. Segundo a notícia, além do inquírito aberto pelo Ministério Público Federal para investigar o projeto, há declarações do IPHAN, segundo o qual o projeto deveria ser embargado, por contrariar o tombamento da cidade, concorrendo também com outras obras do mesmo arquiteto. A família do Lucio Costa também se manifestou. Em carta ao Niemeyer, a filha do urbanista, Maria Elisa Costa, que também é urbanista, declara que a praça projetada interfere no projeto feito pelo seu pai, sugerindo que essa seja deslocada para outro ponto da cidade. O arquiteto disse que aguarda uma decisão definitiva para se manifestar.
Eu espero que o bom-senso prevaleça.

ver também:
Um "puxadinho" do Niemeyer
Ainda sobre o "puxadinho"

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Ainda sobre o "puxadinho"

Muitos pensam que a importância de Brasília, que fez dela Patrimônio Histórico da Humanidade, vem da beleza (estética) das construções de Niemeyer, e que seria então apenas "uma questão de gostar ou não" das linhas do arquiteto. Na verdade, a importância maior de Brasília é ela ser o único exemplar de uma cidade inteira projetada e construída segundo a ideologia do modernismo. Urbanisticamente ela é, habitada, funcionando, exatmente tudo o que preconizaram Le Corbusier e demais pensadores daquele movimento que modificou a concepção do homem e sua relação com a cidade, com a técnica, com a natureza, e que hoje é visto como um pensamento "de época". Claro que a utilização da linha curva pelo Niemeyer foi um passo além, em termos de arquitetura, mas urbanisticamente a importância de Brasília está em como os escritos de Lucio Costa no Memorial do Plano Piloto de Brasília refletem o pensamento modernista, e em como este pensamento modernista virou concreto, uma cidade inteira viva, não simplesmente experiências limitadas (e posteriormente modificadas) como as construções do modernismo europeu. E a síntese deste pensamento está nas quatro escalas que Lucio Costa propõe para Brasília e que presidiram a própria concepção da cidade: a Monumental; a Residencial; a Gregária; e a Bucólica:
Escala Monumental – é aquela que contribui para a formação do sentido de Capital, onde a monumentabilidade confere aos edifícios seu valor simbólico. Constituída pelo Eixo Monumental, desde a Praça dos Três Poderes até a Praça do Buriti, incluindo as principais edificações que estão neste trajeto.
Escala Gregária – é aquela para onde convergem os fluxos no encontro dos eixos Rodoviário e Monumental. É o centro urbano onde se previu edifícios maiores e mais altos e o espaço urbano é disposto de forma a permitir um fluxo de circulação mais intensa. É a escala do encontro.
Escala Residencial – é aquela que define a relação entre os edifícios residências, onde se encontra uma proposta inovadora de Lucio Costa – as Superquadras. Neste caso, a relação entre os espaços edificados e os abertos é outra, respeitando as características do convívio cotidiano, por isso, a altura fixada para as edificações é de seis pavimentos (permitindo, nas palavras do urbanista, que a mãe, de sua janela, mesmo que no último andar do edifício, conseguisse ver e chamar seu filho que brinca no parque), além de uma extensa área verde de 20 metros emoldurando cada Superquadra.
Escala Bucólica - se constitui dos gramados, passeios, bosques e jardins da cidade que permeiam e envolvem as Superquadras, as Entrequadras, os diversos setores e os conjuntos de casa e comércios locais, e a cidade inteira, imprimindo a Brasília a qualidade de cidade-parque que ela é. Está por todo lugar, protegendo as áreas construídas umas das outras.
E, em 1987, ao redigir o documento “Brasília Revisitada”, Lucio Costa ratifica, como urbanista da cidade, o respeito as quatro escalas que presidiram a própria concepção desta, através da manutenção dos gabaritos e taxas de ocupação que as definem.
Ao meu ver, com a proposta da Praça da Soberania, com o gigantesco obelisco e o prédio que encobrirá a visão da Rodoviária para a Praça dos Três Poderes, Oscar Niemeyer está danificando o equilíbrio entre as escalas, "expandindo" a escala gregária (o "centro" de Brasília, traçado por Lúcio Costa na junção dos Eixos) para a escala monumental; e ao mesmo tempo enfatizando esta última, minimizando a outra. Mais que isso, com o apoio dos políticos e da mídia, faz-se uma redução do papel de Lucio Costa, este o urbanista, para inflar desproporcionalmente o papel de arquiteto do Niemeyer.
Que Niemeyer é um arquiteto genial, isto é indiscutível; porém Brasília não é um amontoado de prédios projetados por ele (um "Caminho Niemeyer", como o de Niterói, só que em ponto maior) e sim uma concepção urbanística e o testemunho de um mundo que "pensou-se moderno".

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Um "puxadinho" do Niemeyer


A polêmica está no ar (seco, apesar das chuvas de janeiro no Planalto), e da discussão depende o futuro da perpectiva monumental idealizada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer para a Esplanada dos Ministérios, em Brasília (na imagem deste post, em uma visão do pintor Glauco Rodrigues). Um dos cartões postais mais bonitos da Capital, a visão de quem está na Rodoviária para o lado Leste sofre a maior ameaça já sofrida nestes 48 anos de Brasília. A visão que, na concepção original de Lucio Costa, teria o homem simples, ao olhar, da Rodoviária (para ele o verdadeiro "centro" do povo) para a direção do nascente: o gramado central do Eixo Monumental; a Catedral à esquerda; os Ministérios enfileirados; ao fundo o Congresso, com as cúpulas em simetria horizontal e as torres gêmeas do anexo, pensadas para serem a elevação máxima da Esplanada (como a dizer que, mesmo com a hegemonia dos Poderes corporificada no triângulo equilátero da Praça, no fundo todo o poder emana do Povo). Lucio Costa fala desta visão: "Eu queria que a Praça dos Três Poderes fosse um Versalhes, não um Versalhes do rei, mas um Versalhes do povo, tratado com muito apuro."Uma ameaça veio durante a ditadura, a construção do mastro da Bandeira Nacional, projetado pelo Sérgio Bernardes, bancada pelos militares e que teve a oposição dos criadores de Brasília e dos intelectuais (principalmente cariocas), por perturbar esta perspectiva tão perfeita. Outra ameaça veio com a explosão populacional dos condomínios do Lago Sul, que "mancham" o verde que era o pano de fundo para a perspectiva; e tornando obsoletas as palavras de Lúcio Costa sobre a visão monumental para a Praça dos Três Poderes: "Meu objetivo era acentuar o contraste da parte civilizada, de comando do país, com a natureza agreste do cerrado."
Sintomaticamente, as ameaças seguintes não vieram mais dos militares ou do populismo, e sim do próprio criador: Oscar Niemeyer.
A ocupação dos grandes espaços contíguos à Rodoviária era pequena, deixando grandes espaços a serem ocupados no decorrer do tempo, apenas dois projetos do Niemeyer: no terreno do lado Norte, o Teatro (lindo, com a laterais com os relevos do Athos Bulcão que foram retirados para uma restauração que já demora tanto tempo); e no lado Sul, o antigo prédio do Touring (sempre achei inexplicável a ocupação de área tão nobre por uma instituição privada, a menos pelo fato que o falido Touring sempre foi reduto de militares reformados).
Quando cheguei em Brasília, há quase três anos, vi o final da construção do projeto do Niemeyer para o espaço entre o Touring e a Catedral, o Complexo Cultural da República, com a Biblioteca e o Museu. Apesar da beleza das construções, alguns problemas me chamaram a atenção. O primeiro é a inadequação da forma dos novos prédios em relação aos já tradicionais da Esplanada (Catedral, Ministérios, Congresso): a forma de cúpula do Museu repete a cúpula do Senado, no complexo do Congresso Nacional, esvaziando portanto o seu impacto e criando um "eco" totalmente assimétrico que desequilibra a monumentalidade da Esplanada; e de quebra reduz a imponência da própria Catedral, meio que a esmagando. Ao meu ver este segundo problema poderia ser resolvido com outra distribuição dos prédios no terreno (por exemplo, colocando o Museu contíguo ao Touring e a Biblioteca mais perto da Catedral e em posição paralela, não perpendicular, ao Eixo); mas a solução do primeiro problema teria que passar por uma mudança na própria solução de cúpula. Outros problemas, aí mais de funcionalidade (bom, mas o Niemeyer NUNCA é funcional): por que tão pouco estacionamento, por que não fazer logo um estacionamento subterrâneo, com entrada pela S2 (já em nível mais baixo)? por que não ter um jardim, uma graminha, e só aquele inóspito chão de concreto com uns pífios laguinhos? sem contar com a inadequação total do interior do belo Museu para exposições de arte.
As ameaças seguintes ficaram em projeto apenas, a construção de um monumento à paz em pleno gramado, e um local para shows, no terreno contíguo ao Teatro, que foi vetado pelo IPHAN por superar o gabarito permitido (neste projeto aparecem duas outras cúpulas, menores, talvez seja a solução do arquiteto para ecoar a forma de cúpula na Esplanada).

Agora aparece, já como um plano do Governo do DF para os 50 anos de Brasília, em 2010, o que ao meu ver é a a pá de cal na perspectiva monumental: a construção, no terreno central (entre os Eixos N1 e S1), exatamente onde, na pintura do Glauco Rodrigues é a testa do índio (só que muito maior), de uma Praça da Soberania, com "memorial dos presidentes", um prédio semi-circular com três andares, e um obelisco em forma de chifre, de 100m (equivalente à altura do mastro da Bandeira e do prédio do Congresso, na Praça dos Três Poderes, na verdade mais alto que eles, já que o terreno do obelisco esta em uma cota acima do terreno das outras edificações), o que eu vejo como um "puxadinho", mesmo projetado pelo genial arquiteto Niemeyer. Ah, e a nova praça será totalmente de concreto, sem verde; e no subsolo será construído um estacionamento para 3000 automóveis (que acho que deveria ter sido projetado no subsolo do Complexo Cultural).

Um artigo da Prof. Sylvia Ficher (arquiteta, doutora em história e professora da Universidade de Brasília), com o título Oscar Niemeyer e Brasília: criador versus criatura, publicado na revista de Arquitetura e Urbanismo MDC, analisa bem a questão, lançando a tese de que "coitada de Brasília. Niemeyer não gosta mais dela". Acho bem pertinentes os argumentos da Prof. Sylvia, e tenho visto na internet comentários em apoio ao artigo, um deles o publicado por Elio Gaspari em sua coluna de 18/01 em diversos jornais de circulação nacional. Espero que o debate sirva para repensar algumas coisas e que se preserve as intenções originais da cencepção do genial Lucio Costa.

artigo da Prof. Sylvia Ficher

artigo do jornalista Elio Gaspari