terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Relembrando um amigo (João Luiz Perigault)


Éramos amigos inseparáveis, pelo menos por um breve período. Eternos, como costumam ser as amizades e as crenças quando somos jovens e temos o mundo à nossa frente.
O ano era 1973. Com a morte do Ivan Serpa, alguns alunos migraram para as aulas com o Bruno Tausz, no mesmo Centro de Pesquisa de Arte, em Ipanema, uma casa no número 48 da Rua Paul Redfern: um terreno pequeno e a casa se espalhava para o alto, para os 4 andares onde arte & vida se misturavam.
O segundo andar era o local dos cursos. Até o final de 1972 o Ivan vinha do Méier para suas aulas e a sala ficava cheia: alunos antigos (Emil Forman, Gerald Thomas, Paulo Gomes Garcez, Luiz Ferreira...), alunos novos, as "madames" (que tinham arte por hobbie, adoravam o Ivan e compravam seus quadros e às vezes também compravam trabalhos dos jovens alunos), passantes (vinham assistir uma ou duas aulas e depois sumiam, talvez com medo das broncas do Ivan)...
Nós víamos a obra dos pintores nos livros que o Ivan trazia ou nos "audio-visuais" que o Bruno projetava (slides, com a trilha sonora da querida Jenny, depois sonoplasta de tantas novelas na TVGlobo). Tão diferente de hoje, quando a arte internacional chega por exposições, pela internet, no momento mesmo em que é feita; naquela época a maneira de conhecer a arte dos grandes centros era uma viagem internacional (caríssimas) ou através dos livros de arte que pessoas antenadas como o Ivan recebiam em primeira mão através da D.Vanna, da Livraria Leonardo da Vinci.
Com a morte do Ivan, o espaço se reorientou em torno das aulas do Bruno, que tinha uma didática excelente; embora fosse controvertido como artista, era um líder, com muito carisma e extremamente envolvido com o ensino.
Assim conheci os alunos do Bruno e logo éramos 3 amigos, inseparáveis: eu, Perigault e S. Um trio improvável, mas que estava sempre junto, viajando, vendo exposições, discutindo arte, fazendo planos para o futuro, rindo, rindo muito...
Eu, artista misto de executivo da nascente tecnologia da informação, tentando ser um hippie mas curtindo muito o dinheiro que minha carreira me dava.
S., uma linda mulher nos seus 20 e poucos anos, charmosa, sexy, gargalhada farta, vinda de uma estadia em Londres e buscando conhecer arte, ser artista talvez? trabalhar em alguma atividade ligada a arte, o que conseguiu, pois se firmou no meio das artes como uma marchand das mais conceituadas.
João Luiz Perigault, alguns anos mais novo, meio wierd, super-inteligente, um romântico, introspectivo, um dark ou gótico ("avant la lettre", só se falaria nestes movimentos anos depois), detentor de uma mitologia toda pessoal que ia toda para suas pinturas excessivas, barrocas... Sempre de preto e com uma jaqueta mesmo em pleno verão do Rio, grande consumidor de livros de arte e de rock (ganhei dele o meu primeiro LP do Lou Reed, ninguém esquece), freguês de carteirinha da Livraria Leonardo e da Modern Sound.
No apartamento no Bairro Peixoto, o pai, uma influência marcante, muito inteligente, foi José Perigault, um dos fundadores e diretores do Ibope (na fase pré-Montenegro da instituição); morreu em 1977 em um acidente na Via Dutra e hoje é nome de rua em Jacarepaguá. A mãe, D.Marisa Villela Perigault, uma juíza competente e uma pessoa doce e gentil; e a irmã mais nova, Márcia, na época uma garota que devia achar estranho o rock sempre nas alturas no quarto do irmão. Ah sim, e um cachorro, o Caifás (que o Perigault pronunciava escandindo: "Cai-e-faz").
Em nossas discussões existenciais que viravam noites, ele tinha sempre uma dúvida, profunda, intensa: "Não sei se devo ou não pintar em tela". Eu e S. ríamos do que nos parecia uma dúvida menor, ingênua, diante das dúvidas sobre o mundo, sobre dinheiro/ideal, sobre ter ou não talento, sobre a imortalidade da alma; mas esta era a dúvida que estava submersa no mundo das artes quando se dizia que a pintura morrera, e que foi respondida com o grito, na década seguinte, da Geração 80, da Transvanguarda. Só hoje entendo que a questão que ele colocava de forma quase infantil era então a verdadeira questão da arte; o que eu e S. na época, talvez nos achando mais velhos e mais experientes, não víamos.
Perigault fez uma exposição individual no mesmo Centro de Pesquisa de Arte, ainda nos anos 1970. Pelo que me lembro, em uma época de arte conceitual, as suas pinturas góticas, épicas, com forte influência do H.R.Giger, foram mal recebidas; devo ter ainda o recorte de jornal de uma crítica negativa. Completamente fora de seu tempo. Nos dias de hoje certamente o trabalho do Perigault seria melhor compreendido, é o que penso quando vejo artistas como o ingles Glenn Brown (um dos YBA, Young British Artists), o belga Stephan Balleux, entre outros. Pintura minuciosa, feita com prazer, transpirando carne e erotismo, apropriação/referências à história da arte, elementos de ficção-científica (impressionante como os enormes quadros da série de Sci-fi do pintor inglês me lembram as telas do Perigault!), está tudo lá, em telas que hoje foram esquecidas.
Muitas gargalhadas depois, fomos cada um para seu caminho.
Nunca mais o vi, nunca mais ouvi falar dele. Por uma notícia de jornal muito tempo depois, soube da morte da mãe; no obituário de D.Marisa, ele é qualificado de "artista plástico" e a irmã, Márcia, que conheci vagamente como irmã mais nova de meu amigo, citada como médica, conceituada, morando em São Paulo.
Recentemente, pesquisando na internet, soube que o João Luiz Perigault morreu em 2000 ou 2001; morreu novo, sem completar 46 anos; apenas a data da morte, sem detalhes; nem mesmo a qualificação como artista. Não sei o que foi feito do trabalho, se as pinturas se conservaram; tenho uma, óleo sobre papel cartão; um icônico torso, fantástico, esfolado, dissecado, em tons de azuis e lilases. Apenas isso, e as memórias.
Ao querido J.L.P., onde estiver, em um Walhalla qualquer, vendo as Valquirias e os guerreiros do seu universo fantástico, o meu abraço.

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5 comentários:

Mara Ivanov disse...

Jozias,

Muito bonita e merecida a homenagem que fez a João Luiz Perigault, a quem eu conheci Jean Loui Perigault.

Tive a oportuinidade de conhecer muitas das obras deste grande e inspirado artista e amigo, no atelier que ficava ao lado do Hotel LUXOR na Avenida Atlântica e assim como vc, fiquei chocada ao pesquisar sobre o mesmo e saber da partida dele deste plano terrestre.

Também gostaria de saber qual destino foi dado as obras, pois dentre estas, estão duas valquírias nas quais meu rosto figurava...

Peço a quem ler este post e que possa dar o paradeiro destas obras que informe por favor, gostaria de ter a oportuinidade de montar uma exposição na qual possamos compartilhar com outras pessoas, a arte deste que se foi...

Grata

Mara

Valéria disse...

Prezado Jozias,
Somente hoje, pesquisando, por acaso, na Internet, soube da morte do João Luiz. Nossa, foi um grande baque. Conheci o João em 26 de janeiro de 1988 e foi, sem dúvida o maior amor da minha vida. Eu, na época, com 22 anos, e ele com 32, obviamente que me apaixonei perdidamente por aquele sedutor e brilhante homem, de talento surpreendente. Nossa, Jozias, se fosse possível, gostaria muito de conhecê-lo pessoalmente, para falarmos um pouco do João e mantermos, assim, ele vivo dentro de nós. Abs, Valéria Gallo,

Jozias Benedicto disse...

Valéria, com certeza, em meu perfil teu meu email, entra em contato comigo por e mail e me manda teu contato! grande abraço
Jozias

Maria disse...

Tambem conheci o Joao Luiz em 1985. Fiquei muito chocada quando descobri que ele havia falecido em 2001 so ha dois anos atras. A ultima vez que falei com ele foi no ano 2000 via telefone onde ele me contou que a mae havia falecido e a irma havia se casado, morava em Sao Paulo e tinha um fiho. Tambem comentou que ja nao tinha mais o apartamento em Copacabana, e que estava conseguindo vender algumas de suas obras e continuava morando em Sao Conrado. Depois disso, nunca mais nos falamos ate eu me interessar por pintura e resolver fazer uma pesquisa na internet sobre ele ha dois anos atras. Creio que a pessoa que tem todas as respostas sobre o destino das obras dele eh a irma, que eh medica endocrinologista no Rio. O nome dela eh Dra Marcia Clementina Villela Perigault. Boa sorte...

mara ivanovic disse...

Josias de João Luiz, tenho apenas um desenho de uma Valquíria, quadro que ele ia pintar e me presentear.
Eu...adorei os esboços que vi, alguns, de tamanhos consideráveis, no Atelier da Avenida Atlântica.
Atualmente, organizo Eventos e Leilões Beneficentes com Obras de Arte.
Não encontrei nenhum micro-museu, casa de cultura ou afim com as Obras de Jean Loui e pensei se vc não poderia intermediar junto a Família, a participação das Obras dele nestes Leilões, revertendo parte da arrecadação para montar uma exposição com o trabalho dele e que eu em particular, gostaria muito de rever.
Vc que era tão próximo e amigo do mesmo, poderia ajudar na Organização desta Exposição.
Então?
O que vc acha?

Aguardo

Mara