domingo, 18 de outubro de 2009

Semana no Rio (uma maratona artística)

Dias chuvosos no Rio, perfeitos para me enfurnar no ateliê (após os muitos estudos sobre a vanitas do pintor francês Philippe de Champaigne, descobri outra pintura do artista, o Tríplice Retrato do Cardeal Richelieu, que é o tema para meu trabalho em nova série de pinturas), e também para visitar as galerias e espaços culturais, com uma programação de matar de inveja os não residentes... Uma semana que infelizmente termina em tragédia, com a terrível notícia do incêndio que destrói cerca de 90% da obra do artista Helio Oiticica em poder da família, uma perda irreparável.
Bom, sem contar com as exposições já comentadas antes aqui no blog, são duas dezenas de eventos, em um mês "normal", ou seja, está acontecendo muita coisa!

1- Quintal, exposição de Efrain Almeida na Galeria Anna Maria Niemeyer. O cubo branco da galeria, com a força do trabalho do artista, como que se transforma em um quintal de uma casa no interior do Nordeste brasileiro; mas esta transformação se faz sem recriar ambientes que se caracterizam pelo excesso, e sim ocupando, com rigor e concisão, o espaço com pequenas e preciosas peças.
Em revoada, 22 pequenas mariposas, entalhadas em madeira e laminado, ocupam uma das paredes; embora presas à parede branca, a sensação é de que voam no infinito; e cada uma delas é diferente das demais, tem suas características e personalidade diferenciadas pelo trabalho do artista, que não fez uma série repetitiva e sim criou 22 mariposas únicas e diferentes, indivíduos.
Ao lado, um pequeno galho solitário com algumas folhas, esculpido em madeira, também brota da parede como se brotasse de uma manhã, vencendo a seca e a adversidade para ser ele o quintal.
Abaixo, oito pintinhos em madeira (também cada um deles um indivíduo) fazem o que fazem pintinhos em um quintal: ciscam, se bicam, se agrupam, se separam correndo... Mais ao lado, dois pássaros (“assum preto”, tão característico do Nordeste, imortalizado na canção de Luiz Gonzaga que minha geração ouvia na límpida voz da Gal Costa), bicam um cordão de canutilhos de vidro vermelho, como se disputassem a mesma infinita minhoca viva e transcendente.
O todo é contado por suas partes, e destas cenas se faz o quintal, para onde viajamos, nos transportando mentalmente do Shopping da Gávea para o sertão nordestino. E o toque final a nos mostrar onde estamos nesta viagem mental, é a gravura feita pelo artista com xilogravadores populares nordestinos; cada gravador entalha seu auto-retrato, e um dos 14 auto-retratos é o do artista, Efrain, que assim mostra que sua arte, contemporânea e internacional, tem as raízes solidamente plantadas em um quintal nordestino e nas ricas tradições populares deste Brasil.

2- Claudio Paiva, O Multiplicador de Infinitos, na Galeria Artur Fidalgo, é uma exposição que poderia/deveria estar em um espaço institucional. Já comentei aqui sobre situações onde as galerias ditas comerciais assumem um papel diferenciado, ao patrocinar exposições que, por resgatar artistas ou obras importantes porém fora do circuito, estão trabalhando em uma lacuna que não é coberta pelas instituições culturais do Estado. Em duas situações recentes, Artur Fidalgo atuou desta forma, na exposição do artista Umberto Costa Barros, e agora ao recuperar a obra do artista Cláudio Paiva, em uma exposição importante não só pelo resgate da obra (apresentando trabalhos das décadas de 1970, 1980 junto a trabalhos recentes, uma mini-retrospectiva) mas pela qualidade, sutileza e força dos trabalhos expostos. Cláudio Paiva é da geração de Cildo, Barrio, Waltercio, Tunga, Umberto, Luiz Alphonsus, tantos outros, uma geração de artistas que apareceu logo após a Nova Figuração de Gerchman, Antonio Dias, Vergara, Roberto Magalhães... E que apareceu no período em que era mais negra a ditadura militar, a repressão e o milagre brasileiro eram as duas faces de um regime anti-cultura e anti-vida que combatia não só a contestação mas qualquer forma de vida pensante.
Em 1969, Cláudio recebe o primeiro prêmio no Salão de Verão do MAM-Rio, com desenhos que marcam para sempre a retina de quem os viu; nos anos 1980 cria obras com caixas de fósforos (as Instalações de Bolso), singelos objetos transubstanciados pela poesia dos títulos; mais recentes, desenhos também simples, concisos, ganham a força pelo título displicentemente escrito quase na borda do papel; alimento para o pensar, os objetos e desenhos tem uma seriedade e ao mesmo tempo um humor, uma ironia e uma visão de mundo de quem vê cada copo d’água como uma fonte em potencial de sabedoria e ensinamento. Imperdível.
Ah sim, sobre desenho, Claudio Paiva escreveu: “Há um pacto entre os meios, entre a linha e a cor: se, por um lado, o desenho quer ser cor, quer ser pintura, por outro lado, o desenho não quer ser nada além da linha”.

3- Paulo Pasta, na Galeria HAP, apresenta desenhos, com enfoque diferente, e é interessante comparar as frases dos artistas sobre o assunto: “Se a pintura manda em mim, parece que no desenho mando eu. Dizendo em outras palavras, o desenho funciona como um respiradouro. É um exercício mais rápido, e essa agilidade é necessária todas as vezes que estão ocorrendo mudanças no meu trabalho. O desenho se presta melhor a isso. Ele não é uma tradução mais rápida do que faço, mas me faz ver mais rapidamente as coisas”.
Paulo Pasta é um mago da cor, da sutileza; trabalha no limite entre a percepção e a cor que “entra” no observador, além da percepção; ao ver as grandes telas, com formas e estruturas simples e tantas vezes repetidas.
Nada é o que lhe parece; uma tela monocromática, a uma inspeção mais detalhada se revela em formas e cores sutilmente diferenciadas; em outras, um contraste entre dois campos na verdade é um escape para a dança de outras formas e cores sutis e ocultas.
Os desenhos, em óleo sobre papel, apresentam as questões da pintura do artista, mas não são simples estudos ou preparatórios para "a grande arte" da pintura, eles tem um pathos próprio, que pode ser equivalente ou até mais forte que o das grandes pinturas.
Bom de ver, de pensar sobre, de sentir, de viajar nas cores e nelas encontrar uma âncora, um porto, o respiradouro do artista que também é nosso; inspirar fundo; prender o fôlego; uma passagem para uma nova realidade, mais real que o real; expirar. É isso!
4- Turdus, de Ângelo Venosa, na Casa de Cultura Laura Alvim, com curadoria de Ligia Canongia, é uma exposição de impacto. O motivo dos trabalhos é um pequeno crânio de um pássaro, um sabiá, que o artista guardou em seu ateliê por uma década. O gênero das aves que inclui o sabiá, Turdus, é o nome da exposição; e a “dissecação” do pequeno crânio, a inspiração direta para as obras. O artista trabalhou a partir de uma ressonância magnética da caixa óssea do pássaro, criando duas obras na linha das pesquisas de serialidade e fatiamento características de seu trabalho. Em "Turdus 160", 170 placas de acrílico com os cortes transversais feitos a partir de uma ressonância magnética do pequeno crânio do pássaro. Unidas as placas, elas compõem uma caixa na qual se vê a estrutura translúcida de um crânio de sabiá. Já em "Turdus 21", uma escultura suspensa é formada por fatias de acrílico, baseadas nos cortes transversais do crânio, ampliados, como um móbile.
Duas visões do pássaro. O Assum Preto, do Efraim, é um pássaro quotidiano, esculpido na madeira mas leve, vivaz, o pássaro que habita os quintais e que poderia estar voando; o pássaro do Ângelo é dissecado, fatiado, seu crânio, fonte da vontade, é recomposto em esculturas feitas do espaço negativo.
Nas outras salas da exposição, o pássaro é visto como que sublimado: um dois três. Uma sala repleta do que pode ser visto como um ninho, a base para o voo do pássaro; depois, uma sala com trajetórias circulares cortadas em madeira (como a Baleia, escultura do artista, podem ser as circularidades do organismo do animal mas também as trajetórias de vôo do hipotético pássaro), contradição entre o leve do voar, da forma, e  o pesado da estrutura, do esqueleto; e na sala frontal, que se joga sobre o mar de Ipanema, “curadoria” imortal da "louca" Laura Alvim, uma enorme forquilha em madeira e metal é o bico do pássaro. Ele está pronto para voar, sobre a praia, além da praia, para o infinito.
E no Museu Chácara do Céu, na série dos Amigos da Gravura, Ângelo apresenta um múltiplo em papel recortado a laser e gravuras, baseados nas tomografias do corpo humano, bons trabalhos. E o múltiplo, 50 exemplares, um achado por R$550,00 (uma edição já quase esgotada).

5- Na Mercedes Viegas, complementando a grande exposição do Jorge Guinle no MAM, desenhos, pinturas sobre papel e duas pinturas sobre tela, do pintor carioca. Uma boa exposição, as pequenas pinturas pulsam e gritam, tem "a marca" do Jorginho, e os desenhos tem "a força" do artista. Duas boas telas complementam a visão de uma obra forte e que a cada vez que é mostrada nos traz novos significados.


6- No Paço Imperial, fotografias de Alair Gomes. Mas uma greve dos servidores da área da cultura fechou este e outros espaços, o que é uma pena. Alair é um fotógrafo, morto de forma violenta no auge de sua produção, cuja obra - séries de fotos de rapazes se exercitando na praia - sempre é revisitada com muito prazer. Desta vez são fotos e texto, de uma viagem a Europa, onde as esculturas clássicas de homens ganham o mesmo tratamento terno e apaixonado dado às imagens dos rapazes. Miguel Rio Branco editou as centenas de fotos em sequencias, dentro da linguagem de Alair. Um livro, A New Sentimental Journey, registra e acompanha a exposição. Uma dúvida que tenho, Alair desenvolveu seu trabalho de uma foram discreta, só expôs em 1984 (Galeria do Centro Cultural Candido Mendes), com retorno altamente favorável. Se fosse hoje, onde o politicamente correto comanda, ele não seria acusado de pedofilia, voyerismo,  apropriação da imagem das pessoas fotografadas à revelia? Talvez nossos dias e o futuro acabem com a possibilidade de trabalhos que, através da transgressão, chegam ao sublime.

7- Linha de Sombra, exposição da artista Regina Silveira, no CCBB. Com um trabalho desenvolvido ao longo de várias décadas e mostrado internacionalmente, a artista disseca a sombra - e a luz - traçando as distorções da sombra dos objetos sobre as superfícies. Interessante é ver, nos desenhos, o trabalho preparatório da artista, utilizando simples desenhos com quadradinhos para decompor as formas, trabalho que eu imaginava feito em computação gráfica, bom, mas na verdade trabalhos desenvolvidos antes da computação gráfica estar acessível. Na rotunda, uma projeção de pegadas, me lembra a monumentalidade dos insetos, na instalação que a artista apresentou no CCBB-BSB e que comentei, com fotos, aqui no blog. Um trabalho que fala por si, com imagens fortes, engenhosas, que desafiam a percepção do espectador e o colocam como criança, na descoberta de um mundo maravilhoso.

8- Ainda no CCBB, Argentina Hoy. Conhecemos tão pouco a arte dos países vizinhos, que eu sinceramente esperava mais, uma exposição maior, são apenas 63 obras de 33 artistas; mesmo assim, é um bom recorte da produção argentina atual. A curadoria é do brasileiro Franklin Espath Pedroso e da Argentina Adriana Rosenberg, e estão, entre outros, Jorge Macchi (que está tão bem representado na coleção de Inhotim), Marina de Caro, Leandro Erlich, Esteban Pastorino Diáz, Sandro Pereira e Flavia Da Rin. Gosto particularmente desta imagem, Bullfight, foto de Leonel Luna.
9- Ainda no CCBB, espalhadas pelo espaço esculturas de Abelardo da Hora. Vi a exposição do artista no CCBB de Brasilia, e comentei no blog.

10- No Centro Cultural da Justiça EleitoralMemórias Inventadas em Costuras Simples, exposição de Caroline Valansi. A artista trabalha como fotografias antigas, no estado (rasgadas, amassadas, deterioradas), fazendo intervenções - colagens de pedaços de fotos diferentes dão novo significado à imagem; costurando, com linha vermelha, para pontuar as uniões entre os personagens das fotos; componto um painel com o verso de várias fotos; montando em álbum diversas fotos/cartões-postais com suas dedicatórias, de lugares e personagens muito diferentes, mostrando que apesar das diversidades a emoção é comum a todos. Um trabalho limpo e bonito, que desperta no espectador fortes memórias afetivas.
11- Na Galeria Anna Maria Niemeyer da Praça Santos Dumont, uma individual do artista Luiz Alphonsus, uma boa chance de ver os trabalhos novos do artista.

Imagem aliada à palavra, com uma poética bem própria; e pinturas muito bonitas, usando do contraste entre cores e tintas metalizadas, pontuadas pelas palavras, trabalhos que dão prazer ao espectador em ler e navegar pelos significados.
12- Na Galeria Anita Schwartz, exposições de Germana Monte-Mór (belos trabalhos com uso do preto, asfalto, sobre papel, com forte carga emocional provocada pelos contrastes - branco/preto, forte/frágil, leve/pesado) e Everardo Miranda (estruturas em grade que provocam fortes sensações de perspectiva, inexistente, e de cor, por reflexo do verso da grade, branca, sobre a parede branca).

13- Coletiva na Amarelonegro, apresenta bons trabalhos dos artistas da galeria: Elvis Almeida (bonitos desenhos), Fernanda Junqueira, Geraldo Marcolini (intervenções sobre capas de discos de vinil), Gisele Camargo (bonitas obras da série Panavision), James Kudo (linda instalação sobre a parede), Louise D D, Marina Freire, Mônica Rubinho, Rafael Alonso (pintura!) e Raul Leal (gravuras clean mostradas na individual do artista).
14- Paisagem Ready-Made, na Galeria do Lago (Museu da República). Com curadoria de Armando Mattos, a exposição gira em torno de uma box-valise de Marcel Duchamp, e apresenta trabalhos de Taunay (do acervo do Museu), Daniel Buren, Daniel Toledo (intervenção sobre a cabeça de Getúlio Vargas, escultura-monstrengo que fica na Praça do Russell), Felipe Barbosa, Laura Lima, Roberto Cabot e Sophie Taueber-Arp, além da box-valise do Duchamp.
15- Coletiva de trabalhos sobre papel, na Galeria 90 Arte Contemporânea, Muro de Papel apresenta obras de Alex Gama, Ana Vitória Mussi, Chang Chi Chai, Evany Cardoso, Helena Freddi, Ileana Hochmann, Lena Bergstein, Leonor Décourt, Nelson Augusto e Neno del Castillo.

16- Pinturas de Kincas Caetano, pintor e designer brasileiro residente em Paris, na LGC Arte Contemporânea.
17- No Centro Cultural Candido Mendes de Ipanema, Marci Trotta, O Verdadeiro e o Falso, fotografias e pinturas digitais.
18- Na Galeria Toulouse, coletiva do acervo da galeria, destaco uma bonita tela grande do Augusto Herkenhoff, da  série chuva de rosas, uma bela tela do Enéas Valle e uma pintura enorme do Luiz Pizarro, da série dos Surfistas (anos 1980), uma preciosidade; além do vídeo e fotos da Brenda Valansi (A Filha de Jambo).
19- No Castelinho do Flamengo, Que segredos tem o Castelo?, coletiva com curadoria de Lucia Avancini, reunindo obras, de diversos artista, que tem como tema o belo prédio eclético do Castelinho - fotos, videos, instalações, pinturas...
20- No Espaço Clarabóia, exposição de obras que farão parte de um leilão agendado para 7 de novembro. Obras de artistas jovens ao lado de artistas já consagrados, um panorama eclético e com boas opções para um colecionador. Fiz uma rápida wish list...
Ufa!

Um comentário:

Jean-Baptiste Déchery disse...

Olá Jozias, obrigado pelo link para o Claraboia, boa estadia em NY.
Jean Dechery