terça-feira, 16 de junho de 2009

Inauguração do Projeto Acervo (O Colecionador)





Espalhados harmonicamente sobre uma parede de azulejos brancos com detalhes em azulejos anos 50, os dez trabalhos da edição do Projeto Acervo. Foi a inauguração desta edição, na 2a.feira dia 15, no Bar do Mineiro, em Santa Teresa, que abriu especialmente para a festa. Os trabalhos tinham como companhia a decoração do bar, onde, em meio a objetos característicos "de bar", estão obras de arte como um São Jorge em resina, do Farnese da Andrade; um objeto da série dos ovos, do Antonio Manuel; uma parede com dezenas de pinturas, quase ex-votos, da artista Miriam; uma foto do Thomas Struth; um Radiant Baby do Keith Haring; e muitos outros, parte do que o Diógenes, o dono do bar e colecionador (talvez o maior colecionador particular brasileiro do Volpi) acumula em tantos anos de bar e de visitas a ateliês brasileiros e internacionais.
Em suma, o lugar perfeito, que transmite a paixão pela arte e pelo colecionismo, para o Projeto Acervo, que tem como objetivo estimular novos colecionadores, propondo novas formas de interação artista-colecionador.
E lá estão eles, as estrelas da noite, os dez trabalhos, curadoria do Leonardo Videla e montagem do Leo e da Gisele Camargo. Os artistas, quase todos presentes; e muitos outros artistas também, de várias gerações, compartilhando da experiência e da surpresa do Colecionador ao ver, pela primeira vez, a sua nova coleção.
Arjan Martins: Sobre uma imagem impressa, um trabalho visceral, feito em desenho e pintura, traços e tintas unidos em função da grande expressividade do trabalho do artista. É um trabalho de impacto, como costuma ser o trabalho do Arjan; e um plus: o tema é um crânio, uma vanitas, uma imagem que o artista explora com maestria e que também é uma das (muitas) obsessões do Colecionador.
Alexandre Vogler: Intervenção em uma cédula de R$10,00, substituindo a efígie da República por um inconfundível retrato do artista; o perfeccionismo da intervenção nos leva a duvidar da cédula real, de repente é preciso procurar uma cédula na carteira para me assegurar que o Vogler não está nas cédulas que circulam normalmente... um trabalho que remete ao Zero Cruzeiro do Cildo, claro (semelhança quanto ao uso do dinheiro como suporte, mas profundas diferenças quanto ao processo), mas que vai também a outras referências e significados, com a sutil ironia do artista.
Beth Jobim: Três pequenas telas, um múltiplo, com as formas moduladas que são marca registrada do trabalho da artista; formas que vieram de pedras, de observação da natureza, para chegar a uma contundente abstração. Nestas pinturas as linhas fortes não são azuis, e sim de um terra bem escuro que aprisiona os brancos; num jogo entre fundo e forma que instiga o olhar a uma viagem incessante pela superfície do trabalho; e as diferenças na espessura do suporte, que dá outro nível de dinamismo. Ainda: o trabalho de Beth funciona em tamanho grande, enorme, como já vimos em galerias, e funciona aqui também, em tamanho menor, com a mesma força.
Cadu Costa: O trabalho do Cadu, ao meu ver, sempre agrega um resultado esteticamente bem resolvido, bonito mesmo, a um conceito bem fechado; pode se ver um trabalho do artista, apenas ver, fruir, esteticamente; mas ao se ler sobre "o que está por trás", o trabalho adquire novos significados, o prazer estético se fortalece pelo entendimento racional. Claro que muitos artistas exploram esta dicotomia; mas o que me faz ver o diferencial do trabalho do Cadu é o perfeito equilibrio entre estas vertentes, um equilíbrio conseguido com uma "aparente" simplicidade e de uma forma muito cool. E o trabalho que está nesta edição é assim. Cadu partiu do mecanismo de uma caixinha de música, que toca Pour Elise, de Beethoven; o mecanismo da caixa de música consiste em um cilindro com ranhuras, onde pequenas teclas de metal circulam e "tocam" a música; este cilindro é como "o código" da música, e com isso vemos que há uma semelhança com o processo utilizado, em arte, para gravura. Assim, Cadu trabalhou uma gravura feita a partir das ranhuras do cilindro da tal caixinha de música com aquela música específica; e o resultado é uma gravura em relevo, clean, bonita; e que tem por baixo o DNA da obra tão famosa do compositor.
Gustavo Speridião: Interferência ("nuvem") em uma imagem, uma cena de multidão soviética com texto Gráfica Utópica - O Circo dos Sonhos, faz referência ao quadrado negro do Malevich, às experiências gráficas soviéticas, como Rodchenko.
Gabriela Machado: Uma pequena pintura sobre papel, em tons azulados, esverdeados, amarelados, da série dos novelos, em uma caixa de acrílico que a exibe como a uma jóia. Uma linda pintura, e onde se vê que a mão da artista, que domina os espaços largos de suas pinturas em dimensões maiores, sinfônicas, também acerta ao escolher a escala de uma música suave, de um solo de piano, de uma Gymnopédie. A pintura pulsa, em sua caixa, cresce, explode em cores, e ao mesmo tempos nos fita, pequena, da parede, como que pronta a enfeitiçar o olhar do espectador para um mundo que pulsa em cores, uma explosão, uma fissão nuclear, a explosão de uma supernova.
Gisele Camargo: Escrevi aqui no blog sobre o trabalho da Gisele, apontando para um grande crescimento em pouco tempo, fruto certamente de muito trabalho e muita sensibilidade. Aqui estão três pequenas pinturas, a utilização de suportes quadrados com chassis tipo painel dá um "peso" maior às pinturas, que não mais "flutuam" e sim são fragmentos aéreos de paisagens, como pequenas janelas que recortam um mundo geométrico, gráfico, e cada vez mais painterly; uma delas, com paredes ou painéis em vermelho, é como uma "âncora" construtiva para as outras, detalhes de árvores e de nuvens/montanhas, em tons de brancos e cinzas claros. Funcionam muito bem separadamente, mas no trio adquirem uma força que é bem maior que a soma das partes.
James Kudo: Já conhecia o trabalho de pintura do artista, muito bom, com elementos figurativos bem pintados espalhados no espaço da tela quase sem cor, criando uma nova realidade, estranha, intrigante; mas como não conhecia seu trabalho em desenho, para mim veio como uma surpresa: dois pequenos desenhos, com elementos centralizados em cada folha de papel delicado, pequenas pérolas desenhadas com perfeccionismo. Montados diretamente na parede, seguros por alfinetes na parte superior, apresentam uma leveza e uma fragilidade que atrai o olhar, mesmo no burburinho da exposição; e o olhar fica irremediavelmente apaixonado pelas preciosas figurinhas centrais, com seu brilho nacarado.
Leonardo Videla: Uma pintura do artista, com o tema dos estudos de dobraduras, um dos motivos tão utilizados pelo Leonardo, sobre um fundo metálico, prateado, que, pelas marcas das pinceladas, não apresenta um aspecto frio, tecnológico, e sim de um painterly sutil e dinâmico. Um bom trabalho, forte e conciso.
Raul Mourão: O artista apresentou um trabalho do início desta década, que utiliza um papel bem fino com um corte de um círculo; o contraste é entre o amarelado com marcas do papel e o vazio do círculo, que é formado por subtração. Um bom trabalho, discreto, quase zen; e ao mesmo tempo intrigante e muito bonito na simplicidade e economia de solução.



A opinião geral dos presentes considerou esta a melhor edição, até o momento, do Projeto Acervo, que tem crescido e se consolidado, atingindo seus objetivos de propor a discussão de novas formas de veicular arte, não sendo contra o ciruito de arte, mas sim, de uma forma positiva, contribuindo para criar novos circuitos.
E para mim, um sabor super-especial, pois afinal as dez lindas obras de arte vão me acompanhar e me dar o prazer de fruí-las, dialogar com elas, até o fim dos meus dias...

(obrigado a Gisele Camargo e Nara Reis pelas fotos!)

4 comentários:

danielle carcav disse...

PARABÉNS, JOZIAS! NÃO VI AS OUTRAS EDIÇÕES MAS COM CERTEZA VOC6E LEVOU PRA CASA UMA COLEÇÃO DE PESO!
BJOCA!

Ivanildo Lima disse...

Arte é sempre arte! Independente do conhecimento que se tenha sobre o assunto, o que importa é senti-la. Cada quadro, texto, gravura...
O importante é a sensação que se tem ao receber a mensagem, seja ela (como frizei) escrita, falada ou em forma de gravura.
Aprecie sem moderação.
Parabéns, Jozias!

narareis disse...

Jozias,como sempre vc acerta na mosca...q coleção!!!... e suas argumentações são sempre plausíveis. parabéns.

narareis disse...

Jozias,como sempre vc acerta na mosca...q coleção!!!... e suas argumentações são sempre plausíveis. parabéns.