sábado, 16 de maio de 2009

SP-arte (on-line)

Volto à SP-arte, em plena 6a.feira a tarde o público comparece em massa, imagino como não estará no final de semana... mas consigo rever tudo e realmente "ver" os trabalhos expostos, sem o burburinho da festa de inauguração. Para arrematar, retorno no sábado, e vejo então mais uma vez como os eventos culturais em SP "bombam": fila na bilheteria, famílias inteiras, muitas crianças, grupos de terceira idade, de estudantes...
Cito algumas coisas que me despertam a atenção:
A primeira delas, sem dúvida, é uma versão de 1940 que a Tarsila fez para sua obra-prima "A Negra" (de 1923), eu nunca soube que existia esta versão onde a Negra na verdade é uma mulata-clara, e o fundo tem listas em tons pastel com destaques em magenta e azul turquesa. Muito linda, e certamente uma raridade (nem perguntei o valor da avaliação), no stand do Ricardo Camargo.
Beatriz Milhazes: Uma linda tela, grande ("Menino Pescando", de 1997), da coleção do Banco Itaú/Unibanco, no stand dos bancos para clientes VIP; no stand da galeria Almeida & Dale (SP), uma gravura grande (das edições feitas no USA, a mesma imagem que está no acervo da Pinacoteca) e uma grande colagem, ladeiam uma linda tela com tons escuros e uma surpreendente rosácea em cores claras contrastantes (cian/magenta) que adquirem um tom de neon, de fosforencência de corais; preços: US$80.000 a gravura, US$380.000 a colagem e US$400.000 a tela, e valem cada centavo. Em outro stand, uma tela grande dos anos 1980, com as colunas e o anjo barroco em dourado (esta, uma pechincha, ao meu ver: 200.000 reais); e na Pinakotheke, um pequeno desenho, de no máximo 20x25cm, papel, um esboço de arabescos como um azulejo, cuja avaliação é de US$50.000
Os trabalhos novos do Alvaro Seixas, no stand da Amarelonegro, são telas pequenas com elementos geométricos (listas, círculos) e uma forte fatura de tinta e de cor; e também uma tela maior (talvez 80x100cm), em cinzas e pretos, muito bonita, gosto muito. Ainda no stand desta Galeria, o Rafael Alonso que partiu das suas colagens de fitas que formam como que paisagens e pinturas das paisagens feitas de fitas, para pinturas realmente de paisagens, com tinta forte e boa qualidade pictórica, uma boa evolução. E também, para mim, a oportunidade de poder comparar os trabalhos mais antigos da Gisele Camargo com os mais recentes, e ver que minha memória não me traiu e acertei em minha análise, publicada aqui no blog ao falar da exposição individual, sobre o crescimento do trabalho.

A Gentil Carioca trouxe o trabalho do artista Pedro Varela em uma parede, na rampa, uma delícia para os olhos e principalmente para as crianças que, no sabado, não se cansavam em brincar nos mundos fantasticos do artista.
No stand da Galeria Mezanino, trabalhos bem interessantes e acessíveis de artistas jovens; com esta proposta, o stand fica sempre cheio, e crianças e adolescentes são atraídos pelos trabalhos bem contemporâneos e com linguagem de comics. Pequenas pinturas e xilos do Ulysses Bôscolo, bem interessantes... embora eu saiba que o artista se destaca mais à gravura, as pinturas são demais, as telas de dimensões pequenas se somam em dípticos, trípticos, colocados assimetricamente; sei reconhecer uma boa pintura, e assim não resisti a um tríptico com cenas de mar, em azul escuro, um Castagneto do terceiro milênio (embora tenha ficado balançado com uma árvore que parecia uma cachoeira, e com um díptico de um cachorro e sua carrocinha...)
Mercedes Viegas e Laura Marsiaj juntaram as forças compartilhando um stand, com muitas surpresas além dos trabalhos que já vi ultimamente nas Galerias. No sábado, "aparece" uma linda pintura da Lucia Laguna, e "desaparece" um múltiplo do Ângelo Venosa (Borboletas que na verdade são vanitas) que eu namoro há um bom tempo... outra vantagem das Feiras sobre as Bienais, o dinamismo, as obras são vendidas e é interessante ver a equipe de apoio embalando um Krajcberg, um Nuno Ramos, e o galerista rapidamente repondo com outra boa obra do acervo...
No stand de Galeria pernambucana Mariana Moura, ver duas lindas telas de artistas que eu só conhecia pela força do desenho: Gil Vicente e Carlos Mélo (este, expondo no Rio na Galeria da Luara Marsiaj). Os desenhos dos artistas são fortes, mas a pintura (embora bem diferente, já que do desenho expressionista e misterioso eles foram a uma pintura abstrata - no caso do Gil Vicente mais comportada, concreta; e no Carlos Mélo mais expressionismo abstrato) é boa e causa impacto.
Uma interessante performance da artista Ana Teixeira, "Outras Identidades"; o espectador escolhe entre diversas frases de impacto qual seria a da sua nova identidade (eu escolhi, claro, AINDA TENHO TEMPO); a artista registra em um livro a frase com a digital do espectador, e ambas vão para uma cédula de identidade que é entregue, em plástico, tudo como uma verdadeira identidade; um bom trabalho, e uma artista cortez e que pensa em tudo, até no álcool para limpar o dedo após a captura da digital. Ninguém lembra mais, mas nos anos 1970 em um salão de arte, o com mais visibilidade (acho que o Salão de Verão, com curadoria do crítico Roberto Pontual, apoio do então prestigiado Jornal do Brasil e exposição no MAM-Rio), a jovem artista Margareth Dunham Maciel ganhou o prêmio principal com trabalhos em xerox sobre a sua carteira de identidade; talvez tenha sido muito cedo; ou outro motivo que leva os artistas a buscarem o silêncio; mas não houve continuidade no seu trabalho; e ao ser identificado, colhida minha digital, em plena SP-arte em 2009, me lembro do trabalho da Margareth e penso em como o tempo voa.
Na Galeria do Murilo Castro (MG), um destaque para o trabalho do Daniel Murgel, as maquetes e os projetos das gaiolas; mas desta vez o artista "embaralha" tudo, os projetos e as maquetes divergem, e o resultado: um caos (comentei com o artista sobre o aspecto "atulhado" da instalação, e ele me retornou que esta era mesmo a proposta).
Na Galeria Nara Roesler, uma escultura/instalação incrível da Laura Vinci, uma "escultura" em gelo, com um texto: O.BRANCO.DO.RIO.PASSA. A tecnologia soft, dominada pela poesia, como é o trabalho da artista.
Duas lindas telas do Jorge Guinle, na Athena Studio e no Ricardo Camargo ("A Mulher do Marinheiro", 2x2m, de 1986, deslumbrante).
Debora Bolsoni, a das pipocas de ceramica na Paralela à Bienal, em varios stands; na Silvia Cintra com bonitos trabalhos de papel enclausurado em acrilico, e na Galeria Marilia Razuk, com uma instalação ("Sentinela") que, discreta, se confunde com o ambiente (um carrinho com um garrafão de água mineral e uma cesta de lixo, algo provável, e para o qual os visitantes em geral nem davam atenção, jogando seu lixo na cesta de lixo, e talvez, nao vi mas é bem possível, tenham mesmo bebido da água do garrafão)...
Na Galeria Gustavo Rebelo, do Rio, um reencontro com meu amigo de muito tempo, o artista Chico Fortunato; e um lindo Daniel Senise da fase de 1980-90; pequeno, talvez 110x80cm; mas um monumento. E um lindissimo Ivan Serpa da Fase Negra, uma raridade.
Na Casa Triângulo, algumas surpresas para um aficcionado de pintura como eu: Uma lindissima pintura da Vania Mignoni ("Meio Dia"); Eduardo Berliner, com "Placenta", que foi adquirida por um dos patrocinadores e doada ao MAM-Rio (uau!!!), uma linda pintura, com detalhes que se veem aos poucos no decorrer da apreciação; e o Felipe Barbosa: com as montagens de casinhas de cachorro, casinhas de pássaros etc., ele chegou a um Volpi pós-moderno; e agora investiga a pintura que esta por trás ou pela frente destes movimentos; boa pintura, interessantes jogos de transparência e opacidade, de painterly e chapado... a fatura com o pincel bem aparente, como é a do Volpi que é a presença oculta em todos os trabalhos; e ao mesmo tempo a tinta acrílica, o contemporâneo, um diálogo entre presente e passado no campo da tinta e do pictórico... Mas: uma ressalva em relação a esta Galeria, que tantas obras importantes nos apresentou: fumantes!!! dentro do ambiente fechado da SP-arte!!! lamentável...

3 comentários:

Ulysses Bôscolo disse...

Oi Benedicto, tudo bem?
As pinturas marítimas eu fiz, ao lado de algumas gravuras em metal presentes na feira.. e fazem parte de sonhos... de um dia poder desenhar em cim de um cargueiro!
continuo pintando, mas agora, sobre papel.
Forte abraço,
Ulysses Bôscolo.

Lucila Yãnês disse...

oi benedicto,

adorei seu cometario sobre a sp arte, acho que temos o mesmo gosto. Que bom que a arte contemporanea está amadurecendo e se livrando definitivamente dos suportes, tecnicas, e assuntos. Como moro na europa ( mas vou sempre a sp arte ) vejo artistas como o Carlos Melo, por exemplo, que exploram seu potencial criativo livremente, isso é muito novo. E a Laura Vince! que artista incrivel. Fiquei feliz com mais uma surpreendente ediçao da feira, e parabens pelos seus comentários.

Ulysses Bôscolo disse...

Jozias... li novamente o texto sobre o SP-Arte e gostei... As minhas pinturas eu já tinha apresentado uma única vez em 2007no Memorial da América Latina, depois, guardei tudo na mapoteca. Faço também aquarelas e monotipias, ao lado de muitas gravuras. Agora, tenho gravado em matrizes de topo bem grandes, como você pode ver no meu blog. Ainda não sei no que vai dar...mas pretendo imprimir tudo em papel japonês.
Fico bem contente de poder espalhar bem devagar os meus trabalhos, inclusive, para outros artistas.
Mais uma vez, obrigado pelo contato.
Abraços,
Ulysses Bôscolo.