domingo, 23 de agosto de 2009

Lembrando Emil Forman


Início de 1973, eu frequentava o Centro de Pesquisa de Arte, na Rua Paul Redfern, em Ipanema, onde tive meu primeiro contato sério com a arte, nas aulas com o Ivan Serpa, em 1972. Em 1973 este mundo estava ruindo, com a doença do Ivan, que culminou em sua morte, em abril. Uma noite antes da aula a querida Jenny, discretamente como sempre agiu e viveu, me falou de um momento também difícil, e que a família do Emil estava se desfazendo de alguns desenhos dele, uns poucos, apenas para pessoas especiais que poderiam curtir o trabalho... Forço a memória, era logo depois do Carnaval, apenas três ou quatro pequenos desenhos em uma pasta, e as instruções eram estas: "discrição" e "pessoas especiais", já que o Emil não queria vender seus trabalhos; assim pelo menos a família teria mais possibilidade de que depois ele aprovasse o que fora feito neste momento tão difícil.


O desenho que escolhi, uma sutil intervenção com lápis de cor vermelho alaranjado em papel antigo, cheio de marcas do tempo; para ser visto sem um cima/baixo fixo (quatro pequenas assinaturas nos quatro lados do papel marcam esta volatilidade). O tema: nuvens? pedras? um mistério, formas levemente orgânicas em suspensão, em atração e repulsão, em um espaço marcado pelas manchas do tempo no papel antigo.

Nas aulas do Ivan o Emil sempre chegava tarde. Muito jovem, tinha então 20 anos, mas já a personalidade forte e o trabalho definido; muito branco, louro, alto, sempre com roupas escuras; tom de voz baixo, porém seguro, sem timidez; uma suavidade, uma certa aloofness que sempre foi sua característica; mas sob a suavidade estava uma pessoa forte, determinada, precocemente maduro; vindo de um debacle de uma família tradicional, muito rica, uma aristocracia carioca que muito perdera nas mudanças da economia na década. A aula estava pelo meio quando ele chegava, com uma pastinha debaixo do braço; o Ivan perguntava, "trabalhou, Emil?" ele sorria como que envergonhado e dizia, "fiz uns desenhos de ônibus", abria a pasta e mostrava dezenas e dezenas de desenhos feitos com canetas hidrográficas, possivelmente criados em um banco do fundo de um ônibus que o traria da Praia do Flamengo a Ipanema; e os desenhos eram as mesmas formas, nuvens? pedras? só que em um tratamento mais gestual (como os desenhos feitos depois em NYC que são uma parte mais conhecida da obra do artista); os desenhos passavam de mão em mão, um silêncio reverente se fazia, e o Ivan aprovava; um dia alguém falou, meio sério meio boutade, que as formas seriam "desenhos de cocô"; se esta fosse realmente a temática, seria uma antecipação em mais de 30 anos ao Copromanta Jonas da Patrícia Melo.
Enfim, naquela noite escolhi o desenho. Após a convalescença do Emil, conversei com ele sobre o desenho que estava comigo, sobre o mistério das formas, a poesia do lápis de cor suave sobre o papel gasto, as alternativas para exibi-lo; reciclei uma moldura antiga, discreta; e ele achou que estava bom.
No decorrer de 1973 nossa amizade se estreitou, depois o Emil foi morar em Paris, depois em NYC, e em uma época onde não havia email, voip, facebook, nosso contato continuou intenso porém esporádico. Tenho até hoje comigo pequenos desenhos (um lindo caju em uma folha de caderneta de anotações e outros), objetos (fotos ready-made), um envelope onde fizemos em lápis de cor um trabalho conjunto (um cadavre-exquis)... e principalmente lembranças, boas lembranças, fortes lembranças...

4 comentários:

Luiza Nóbrega disse...
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Luiza Nóbrega disse...

Com honrada e honrosa alegria, meu caro Jozias, faço o primeiro comentario a esse seu texto evocativo, do qual se desprende - na homenagem ao icone do nosso locus singular - a atmosfera do CPA. "O Emil e genio, dizia o Ivan, e ele respondia desenhando um sorriso brando com a linha sutilmente ironica do labio, enquanto dos olhos a tristeza filosofica nunca se retirava. Merci pela evocaçao do nosso genial e unforgetable enfant terrible. Tenho eu tambem alguns dos desenhos do Emil, que me foram oferecidos por ele mesmo (num dos quais ha mesmo uma caca, da qual se evola o odor), e um retrato ao qual servi de modelo. Bateu bem ler este texto enquanto finalmente começo a concluir o sempre adiado relato sobre a experiencia do Ivan com o CPA. Que venham outros textos! Como dizem os portugas, bem haja!

Rodolfo Capeto disse...

Belo texto, e que desenho excepcional! Grande figura, o Emil.

Ingrid Forman disse...

Meu tio,nem sabia tanto dele :-(