sexta-feira, 11 de junho de 2010

Madrid em maio

Uma viagem com tempo curto, uma programação intensa e muita disposição: nada mais que 12 dias do mês de maio, entre Madrid, Bilbao e Paris, para conhecer o Guggenheim de Bilbao, os novos (para mim) espaços de arte em Madrid e Paris e, como motivação maior, 2 exposições em Paris: "Vanités (C’est la vie)" - claro, meu tema preferido - e a retrospectiva do Lucien Freud. O planejamento inicial evoluiu, incluindo uma ida a Metz para conhecer o recém inaugurado (ainda com cheiro de tinta fresca) Centre Pompidou-Metz, e o resultado foi melhor que o planejado, conto aqui no blog.

Talvez eu seja muito americanizado, como Carmem Miranda e a bossa nova. O fato é que nos últimos anos (décadas) privilegiei viagens para meu playground artístico predileto, NYC, deixando a Europa de lado. Este ano tomei coragem, e com as prestações da última viagem (NYC em outubro de 2009) pagas e um passaporte novo, cá estou andando na Gran Via de Madrid que está completando 100 anos e que, juro, já se chamou, nos tempos franquistas, Avenida José Antonio (não confundir com a paulista Brigadeiro Luiz Antonio, o de Madrid é barra-pesada, é o fundador da organização fascista Falange).

Agora um parênteses no meu texto. Minha primeira viagem a Madrid foi há longos anos, em plena ditadura do Generalissimo Francisco Franco e também em plena ditadura no Brasil, assim eu flanei pela Avenida José Antonio e fui em excursão ao principal passeio turístico, o tal Valle de Los Caídos, um bosque e uma igreja incrustada em uma montanha de pedra, e que são na verdade um monumento fascista em homenagem aos mortos da Guerra Civil espanhola; uma marca dolorosa para o povo espanhol, pois foi construído com exploração do trabalho dos vencidos na Guerra Civil.
Quando voltei a Madrid alguns anos depois, o Rei Juan Carlos garantia os primeiros passos da nova ordem, uma monarquia parlamentar; o fascismo era algo a ser totalmente esquecido, e a Avenida voltou a ser Gran Via; e bem que tentei rever, sem segundas intenções, o Valle de Los Caidos, mas os guias turísticos me olhavam com suspeita, disfarçavam, mudavam de assunto, o passeio não fazia mais parte de nenhuma programação turística, era como se o Valle nunca tivesse existido ou fosse um produto de minha imaginação.
Bom, hoje, em 2010, talvez a Espanha tenha chegado na um tempo sem radicalismos, o fato é que ao final dos menus de passeios turísticos, provavelmente o passeio mais brega, lá está o Valle, agora com um plus: o ditador F.F. também está enterrado lá (não sei se isso é um plus ou um minus, enfim). Fechar parênteses.

Realmente outros tempos (a velha piadinha sem graça, "a Espanha finalmente entrou para a Europa"). Madrid é uma cidade linda, bem conservada, muito limpa, pujante na nova arquitetura que é feita sem destruição do antigo; os serviços funcionam muito bem, o Aeroporto foi reformado e está lindo e funcional (e ligado ao centro da cidade por metrô, que diferença dos nossos); a vida noturna é íntensa e mais barata que em Paris; e a vida cultural também bombando.
É o que me interessa, fui lá para isso, e muito fácil, os principais museus todos em uma mesma linha, um passeio para se fazer a pé. Ou pelo tour do ônibus regular de turismo, 17 euros por um dia de viagens ilimitadas em duas linhas, podendo saltar em qualquer ponto e retomar o passeio, vale à pena, até para um entendimento melhor da geografia da cidade.
Ah sim, filas grandes nos museus, compensa comprar um passe para todos os museus, pelo menos se evita as filas; embora em alguns museus o passe não dá direito às exposições temporárias.

Primeiro, o Prado. Um clássico, modernizado com uma ala nova para exposições temporárias (expondo as releituras do Richard Hamilton sobre Las Meninas, as de Velasquez, de Goya e as do Picasso), mas o bom mesmo é visitá-lo como a um clássico: Las Meninas, claro, pelo menos uns 10 minutos de êxtase diante desta obra-prima, e os outros Velasquez, as infantas e os reis; e os Goya, e o Saturno devorando seu filho (o mesmo Prado tem também uma outra versão do mesmo tema, de Rubens, vale a pena ver e comparar, o expressionismo de Goya é mais ao gosto contemporâneo, mas a visão da mordida e da cara de pavor da criança no quadro do Rubens não tem preço, a criança do Goya é meio um boneco destroçado mas a do Rubens é uma criança viva, como eu, como nós todos); e, ainda do Goya, o "Perro Semihundido", este tão contemporâneo e que me faz lembrar a visita ao ateliê da Lucia Laguna e um tela dela, um estudo a partir do Goya, desconstruindo-o, que foi fundamental para o desenvolvimento de sua pintura. E o Jardim das Delicias e outros Bosch, e os El Greco, e mais, muito mais.

Museo Reina Sofia. Um espaço maravilhoso, amplo, uma junção perfeita da arquitetura antiga (o edifício do antigo hospital projetado por Hermosilla e ampliado por Sabatini) com a nova (a expansão feita pelo Jean Nouvel). Um jardim interno delicioso, na ala Sabatini; e uma praça agradável com um bar muito gostoso, na ala Nouvel, são os espaços de convivência.  Perfeito? não tão perfeito assim, achei o museu com um fluxo meio confuso, algumas exposições ou obras se perdem completamente; mas nada que um bom design não possa remediar. A dica: entre pelo predio principal, o Sabatini, nós entramos pelo Nouvel e ficamos meio perdidos até nos situarmos.
Um museu de primeiro mundo, com muito espaço disponível, um acervo monumental (Guernica finalmente em seu pouso, eu a vi pela primeira vez no MoMA, "asilada" segundo orientações do próprio Picasso, aguardando a redemocratização espanhola, e depois no Prado) e exposições temporárias de peso.
Sim, as exposições temporárias. As principais:
1- Retrospectiva do artista alemão Thomas Schütte, nascido em 1954 e que foi aluno do Gerhard Richter.Eu conhecia pouco o trabalho do artista, assim foi muito bom ver uma retrospectiva tão extensa e bem montada, com esculturas, cerâmicas, projetos/maquetes, desenhos, pinturas e principalmente instalações, combinando as demais midias; uma obra forte, coerente, política (uma série fantástica de esculturas, Dirty Dictators, são bustos de ditadores com fisionomias contraídas, esgares, caretas) e também poética, frequentemente em grandes escalas e bem ancorada em conceitos muito precisos e execução primorosa.

2- Martín Ramírez, Marcos de reclusión. Morto em 1963, mexicano que passou a maior parte de sua vida internado em hospitais psiquiátricos na California, construiu uma obra pessoal e obsessiva. Eu tinha grande curiosidade pelo seu trabalho, muito badalado em termos de outside art, mas ao ver uma grande exposição como esta me decepcionei um pouco, achei um tanto repetitivo, e com resultados que não chegam aos de um Bispo de Rosário.

3- "Desvíos de la deriva. Experiencias, travesías y morfologías", com curadoria de Lisette Lagnado e Maria Berríos, apresenta projetos arquitetônicos/urbanísticos utópicos (a maioria dos quais não chegou a ser construída) brasileiros e chilenos. A exposição tem para nós, brasileiros, portanto, um significado especiais, mostrando o trabalho de artistas bem conhecidos nossos: Flávio de Carvalho, seu traje de verão, os projetos para prédios e palácios não construídos e também o de sua casa na Fazenda Valinhos (com páginas de revistas de época, O Cruzeiro, Casa e Jardim...); Lina Bo Bardi; Sérgio Bernardes e outros modernistas utópicos brasileiros. E também, claro, para conhecer trabalhos chilenos na mesma linha, que conhecemos tão pouco: Juan Borchers, Roberto Matta...

Andando um pouco, chegamos na CaixaForum Madrid para La solitude organisative, uma exposição do artista Miquel Barceló. Adoro, é um de meus pintores prediletos, a partir da exposição que vi em 2003 na Pinacoteca de SP. E agora fico  muito feliz em poder ver outra exposição grande deste pintor, que, segundo falou Martin, um jovem espanhol que jantou conosco, não é muito bem visto no meio artístico espanhol atual; talvez muito comercial; não sei; a partir deste comentário tentei ver a exposição com olhos mais críticos mas acabo gostando mais ainda do Barceló e de suas pinturas, desenhos e esculturas extremamente matéricos.
O espaço da CaixaForum também é lindo, os arquitetos aproveitaram um prédio antigo e acima dele construíram espaços de exposição, com um muro vivo, de plantas, e os muxarabies, janelas que os espanhóis herdaram dos mouros, a reclusão a partir de treliças colocadas nos balcões; mas os arquitetos fizeram um muxarabie de terceiro milênio, em aço córten com textura cortada a laser.
Na entrada, uma escultura do Barceló, um imponente elefante equilibrado apenas em sua própria tromba. E no espaço expositivo, a obra do artista aparece, distribuída em sete módulos; são os desenhos (destaque para as aquarelas feitas às centenas na África), pinturas (os mares, as bibliotecas, os vegetais e os seres marinhos, as "paisagens para cegos"  que parecem "pintadas em braille"; as cabras, os crânios, os gorilas, os retratos e auto-retratos...), esculturas, cerâmicas, uma obra múltipla e que celebra a vida e arte, uma pintura que se impõe no espaço a partir de um peso interno e da forte matéria pictórica.
Um bom catálogo também, com um resumo da trajetória "nômade" do artista e de suas casas: Maiorca, Barcelona, Madrid, Paris, Portugal, Genebra, NYC, além das muitas temporadas em pequenas cidades na África.


E o Museu Thyssen-Bornemizsa. Lindo, instalado em um Palácio do Século XVIII-XIX especialmente reformado para abrigar a coleção, o Palacio Villahermosa, um excelente acervo com uma visão sequencial da história da arte ocidental, do medieval ao modernismo, complementa exatamente o espaço entre o Prado e o Reina Sofia bem como as coleções destes outros museus: o primeiro com a pintura mais antiga e um acervo extenso, e o segundo com foco nos modernistas, artistas espanhóis e arte contemporânea.
Uma exposição temporária, muito boa, Monet e a Abstração, aborda o trabalho de Monet como  importante no desenvolvimento do Expressionismo Abstrato e outras formas de abstração. Monet, que nas primeiras décadas do século XX teve seu trabalho em ostracismo, voltou a ser valorizado a partir dos anos 1950 com o Expressionismo Abstrato. Assim, obras de Monet, em especial algumas da série das ninféias, são colocadas junto a obras de Pollock, Lee Krasner, De Kooning, Rothko, Helen Frankenthaler... e de outros artistas onde se pode ver abstração embora não sejam expressionistas abstratos, como Turner, Gerhard Richter, Cy Twombly e mesmo o surrealista Andre Masson.
Se o Museu Thyssen-Bornemizsa impressiona, me trouxe também curiosidade sobre a vida do Barão e da Baronesa, cujos retratos imponentes e kitsch dominam o hall principal da construção; uma leve lembrança de talvez ter lido em colunas sociais que uma brasileira era a mulher deste Barão aumentou minha curiosidade; uma pesquisa rápida pela internet me abriu um filão interessante, mas isto fica para o próximo blog.

Outro "museu" a visitar foi o Museo del Jamón, alimento não para o espírito como os outros museus e sim para o corpo, uma cadeia de bares/restaurantes, meio o que seria aqui no Rio um lugar tradicional como o é Cervantes (ih, outro espanhol), que se pode comer no balcão mesmo, sem decoração sofisticada mas comidas deliciosas: presuntos de todo tipo, claro; frutos do mar, paellas, queijos também deliciosos, tapas; cervezas, viños... tudo muito gostoso e não muito caro.

Se o tour de ônibus dá uma ideia global da cidade, não se pode dispensar andar a pé pela Gran Via, Plaza Mayor, o centro antigo, até o Palacio Real; no caminho, muito bem restaurado, e um point gastronômico que ferve tanto no almoço como na happy hour, o Mercado de San Miguel. Um mercado antigo, lindo, em ferro e vidro, totalmente recuperado, transformado em lojinhas de tapas, queijos, jamón, viños, cervezas, ostras e champagne francês, caviar, vodkas, drinks sofisticados e drinks básicos, pães, doces, cafés, chocolates, pasta... tudo possível e imaginável, de todas as regiões da Europa pelo milagre do Mercado Comum... Atendimento excelente, pessoas lindas, muito movimento, um lugar para degustar muitas outras vezes.

Encontramos nossos amigos, o pintor Gonçalo Ivo, sua mulher Denise e seus filhos Antonia e Leonardo, que moram em Paris e estavam em uma semana de férias em Madrid, nos deram muitas dicas e que apresentaram a restaurantes muitos bons, a cada noite íamos a um novo lugar, em um crescendo gastronômico e em conversas cada vez mais interessantes; mas o destaque da programação com eles foi mesmo o happy-hour no Teatriz, o antigo teatro redesenhado pelo Philip Stark como um restaurante fantástico, um lugar onírico... e com um champagne frances mais barato que em Paris...

Madrid surpreendeu, um lugar lindo, barato, movimentado, com muitas opções culturais e gastronômicas. E uma característica para mim inusitada. Nós, brasileiros, falamos muito da tal "lógica portuguesa", ("esta estrada vai para tal lugar?" "não sinhoire, ela fica aqui, se ela for nós ficamos sem estrada" e outras coisas do tipo). Pois descobrimos que na verdade é uma "lógica ibérica", na Espanha menos acentuada que em Portugal mas que se manifesta para os brasileiros espantados. Nosso batismo nesta lógica foi no primeiro café-da-manhã no Hotel; o horário para o café estava bem explícito, das 7h às 10h; o que fizemos? claro, chegamos às 9:45h para ver com surpresa que exatamente às 10h, quando ainda estávamos no suco de laranja e no primeiro croissant, toda a mesa farta estava sendo desmontada, muito rapidamente; corremos para salvar o resto do café-da-manhã que afinal deveria nos manter alimentados até mais tarde em um dia de muitas caminhadas; ao reclamarmos com a gerente, ela explicou que estava bem divulgado que o horário de encerramento é às 10h. Ela tem razão, claro, dentro da lógica ibérica cartesiana, "pelo ponto de vista do estabelecimento, se encerra às 10h, às 10h as pessoas não tem mais nada para comer"; só que por nossa lógica, "pelo ponto de vista do consumidor, se o horário é até as 10h, pode se chegar até este horário, encerram-se as entradas no local, não o serviço, até mesmo por que é um buffet". Enfim, são pontos de vista discrepantes, e chega a ser engraçado; mas tudo se passa numa boa, sem conflitos, afinal temos muitos mais coisas em comum que diferenças com a Espanha...

2 comentários:

genacor disse...

Jozias, que jóia você deixar a gente compartilhar com você suas impressões da viagem... Adorei, principalmente, seu jeito de contar... a descrição do "ponto de vista ibérico" representado no café da manhã, e os links dos artistas...
me animei a fazer um registro parecido na viagem que está prevista para começar 26 de junho, se nenhum vulcão ou greve atrapalharem. Quando quiser se aventurar pelo "nordeste oriental", será um prazer passear com você por aqui.

Fabiano disse...

Seu post me deixou saudade de uma viagem q fiz em 2007, passando por vários desses lugares [Prado, Thyssen, Reina Sofia, Museu Picasso, Museu Tápies...], admirando arte, mas ainda sem estudá-la como hoje... Me deu "água na boca" e vontade de voltar!