sexta-feira, 2 de julho de 2010

O céu da pintura

Pintor gosta de pintura.
Eu sou pintor, além de blogueiro obsessivo, mas não sou sectário. Adoro exposições como a do Gordon Matta-Clark e a da Rebecca Horn, as esculturas do Thomas Schütte que vi em maio no Reina Sofia, a coleção de 140 pequenas esculturas do Amilcar de Castro que vi no CCBB-BSB e depois na Silvia Cintra, os parangolés do Hélio Oiticica, os desenhos da série trágica do Flávio de Carvalho.
Mas exposições de pintura lavam minha alma, a minha e a de muitos pintores amigos meus, ficamos babando diante de pinturas boas comentando, só entre nós, como o dialeto de alguma seita, entre dentes, frases do tipo: "que brancos...", "óleo ou acrílica?", "essa pequena mancha magenta escorrida", "os lilases...", enfim. Os que passam por perto não devem entender nada, mas nós nos entendemos, em nosso dialeto e no roer das unhas sempre com um pouco de tinta, nós, os pintores, os que adoram pintura.
Principalmente quando o MAM abre seus salões para uma individual da Cristina Canale (Arredores e Rastros) e para uma exposição chamada "Se a pintura morreu o MAM é um céu", ambas com curadoria do Luiz Camillo Osorio, a coletiva com pinturas de Daniel Senise, Luiz Zerbini, Adriana Varejão, Jarbas Lopes, Vania Mignone, Eduardo Berliner e Gustavo Speridião.
Eu não ia à inauguração, juro que não ia, estava em casa, em meu ateliê provisório, fazendo o que? pintando, todo sujo com as tintas que vão para a tela mas teimam em escorrer em mim e na cerâmica branca, com gosto de gesso-cré e de pigmento na boca, com telas e telas secando indefinidamente ao sol que já se pôs. Mas o convite veio e foi irresistível.
Escreve Luiz Camillo, na apresentação da coletiva: "A morte da pintura é um tema recorrente. Quase tanto como sua insistente sobrevivência, suas muitas metamorfoses e reinvenções contemporâneas. Nossa memória visual está marcada pela história da pintura. Cada gesto de um pintor-artista recria e repotencializa sua tradição. Enquanto formos capazes de nos surpreender diante de uma pintura ela existirá e incorporará sua morte como estímulo vital. (...) O nosso objetivo é o de por em foco os vários caminhos da pintura contemporânea, com ênfase nos desdobramentos da figuração depois de incorporada a abstração no imaginário pictórico. Uma pintura na qual a figura cria vínculos improváveis e alimenta nossa capacidade de fabulação visual. Uma figura intoxicada pelas muitas formas de produção de imagens contemporânea – fotografia, HQ, cinema e, como não poderia deixar de ser, a própria história da arte – e que sem duplicá-las nos faz pensar sobre o visível, nos faz parar para olhar e perder tempo, em um mundo cada vez mais acelerado visualmente."
E a exposição está assim, forte, impecável. Claro que não esgota o assunto, poderia se fazer muitos e muitos outros recortes, incluir outros pintores da cena atual (muitos deles estavam lá, presentes, na abertura da exposição), mas o objetivo nem é o de fazer uma antologia completa; e sim fazer uma boa exposição; conseguiu; me faz parar a cada obra, maravilhado. Algumas pinturas eu só conhecia em reprodução, pequenas, e vê-las ao vivo, imensas, faz toda a diferença, é o caso de duas das telas do Zerbini ("O Hamlet Contemporâneo não segura a caveirinha" e o retrato do Barrão). E é bom, sempre é bom rever as fantásticas pinturas dos anos 1980 do Daniel Senise, como também ser envolvido pela força dos azulejos craquelados, manchados de sangue, da Adriana Varejão. Ver como o Berliner é o mesmo e é sempre diferente a cada tela, e como pinta bem! Gustavo Speridião também impressiona, gosto especialmente das apropriações dos cartazes da Casa Cruz; e o clima de mistério das pinturas da Vania Mignone tem histórias não contadas e um emprego de cor que acerta, pela sobriedade, ao realçar o mistério. E para mostrar que pintura não se faz só com tintas e tela, as enormes colagens, tramas, trançados, com rostos de banners de propaganda eleitoral do Jarbas Lopes são pintura, da boa; brincam com a percepção do espectador com sua dubiedade, deixando também um mistério, de outro tipo.
Gosto da pintura da Cristina Canale desde o tempo de Geração 80, e é muito bom ver nestas obras recentes (de 7 ou 8 anos para cá) como sua pintura cresceu, como sua técnica se aprimorou e sua narrativa se tornou mais densa e também mais misteriosa.
Poética, nas sugestões de plantas, nos animais, nas imagens de fotografias que são como memórias de infância se desvanecendo.
Ousada, nas cores, no sobrepor de imagens, no fazer e destruir. Pintura é isso, é abdicar de posições conquistadas, é ter a humildade de destruir "partes boas" em função de um todo que só existe na cabeça do pintor; é criar, do nada, Universos.
Um amigo meu (pintor, claro) comenta algo sobre uma tela em "feios verdes", que só a Cristina tem coragem de usar; e que com ela os verdes feios ficam maravilhosos; dialogam com uma pequena área laranja na borda superior da tela; é a "conversa de pintor", eu respondo falando sobre outra tela onde os brancos são tão diferentes, são várias áreas de brancos, só que cada branco é completamente individual, diferente dos demais; depois falamos sobre as áreas em violeta claro em outra tela, são espessas, o óleo tem volume e brilho como de esmalte, de asas de um besouro adorado como um deus no antigo Egito.
A boa pintura é assim, nos faz viajar até a infância, até um mítico Egito, até o Jardim primeiro, até o futuro mais impensado, tudo, simples assim, como mágica, a partir de manchas de cor sobre uma superfície. Simples. E tão difícil.
Mas a noite estava apenas começando.
Um pit-stop na Cobal do Humaitá, mais bebidas (sim, o coquetel do MAM tinha caipivodkas deliciosas e, sinal de sucesso, lá estava D.Graça, a penetra oficial que chancela os bons eventos), comida tex-mex. Bom, todos riram quando eu disse que era a primeira vez que eu ia à Cobal do Humaitá, de que mundo este blogueiro veio? Mas é verdade pura, e foi bom contar com guias fabulosos que destrincharam o cardápio e me aconselharam com as bebidas e comidas. Voltaram a rir quando eu falei que também nunca tinha ido a nossa próxima parada, o Bar/Clube Fosfobox. Pois é, onde eu estava, em que mundo? mesmo descontando o tempo que morei em Brasília, aqui no Rio eu trabalhava demais, estava sempre cansado ou casado ou mergulhado em pintura ou em livros, não necessariamente nesta ordem.
Enfim, o Fosfobox, para a 10a. edição da festa GANG BANG, do Saulo Laudares, que desta vez convidou o artista Raul Mourão para mostrar vídeos (300 vídeos!) e o DJ Diogo Reis.
A cada semana, sempre às quartas-feiras ("a quarta-feira é o novo sábado"), a cada edição com um DJ e um artista convidados, esta festa se transformou em um point de encontro dos artistas, em especial artistas visuais.
Esta edição, então, foi excepcional, uma festa, em todos os sentidos, para todos os sentidos.
Como a boa pintura, que é uma festa para o olhar e que por sinestesia se transforma em uma festa para todos os sentidos.
Podemos sentir o cheiro das flores gigantescas na tela da Cristina Canale, dos abricós de macaco do Zerbini; podemos ouvir ruídos estranhos das figuras estranhas do Eduardo Berliner; podemos sentir na pele a aspereza ou o liso da tinta que se acumula em camadas e camadas da pinturas da Cristina; e mesmo sentir na boca o gosto doce do sangue e enjoativo das carnes cruas que brotam dos azulejos da Adriana Varejão.
Eu gosto de pintura.


Fotos da inauguração em registro do Fotógrafo Odir Almeida no www.soartecontemporanea.com

Um comentário:

Cristina Jacó disse...

Gostei do seu blog. Muitos nomes importantes e ótimo texto. Se você gosta de pintura siga meu blog.
Abraços,
http://www.cristinajaco.art.br