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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cenas de uma ocupação

O cenário: Prédio neoclássico em ponto nobre do Rio, construído na década de 1920, por encomenda de Otávio Guinle, pelo arquiteto francês Joseph Gire, autor do Copacabana Palace e outros marcos históricos do Rio: o edifício A Noite, o Hotel Glória, o Palácio Laranjeiras, a mansão da ilha de Brocoió, o embarcadeiro da praça Mauá, entre outros. Um prédio com tudo o que uma construção de luxo da época tinha direito: vista para o mar, amplos espaços, pé-direito alto, simetrias, ornatos em mármore e ferro forjado, sancas, nichos, molduras douradas, tacos de madeira nobre, elevadores amplos, elevador de serviço com grades de ferro, daqueles tão comuns em Paris e, no último andar, uma chambre-de-bonne para cada apartamento. Um prédio surpreendentemente bem conservado em um Brasil e um Rio que odeiam as memórias do passado. Neste prédio, um apartamento que mantém os acabamentos luxuosos e que, recém-comprado, passará por uma planejada reforma para adequá-lo às necessidades de seus novos moradores.
Os personagens: artistas plásticos/performers/músicos, um deles a proprietária do apartamento.
A ação: Ocupar o local com instalações, performances, pinturas, esculturas, desenhos, ambientes, fotografias, propostas, vídeos, músicas, danças... por um final de semana inteiro
Cenas:
Inicialmente tímidos diante do espaço, os artistas negociam seus espaços com os organizadores, apresentam suas propostas, discutem a logística, fazem incursões ao apartamento de cobertura do prédio (fechado há 25 anos) e ao bar próximo ao prédio, onde o croquete apresentado como autêntico do Alemão de Petrópolis é a sensação.
Aos poucos os trabalhos vão tomando forma, as propostas se modificam à medida em que se sente melhor o espaço, em que a interação entre trabalhos aponta para outros caminhos.
Uma semana, cinco dias úteis de preparação, de uma 2a. até uma 6a.feira. Alguns trabalham em casa, e os que preparam suas instalações no local estranham: será que só nós estamos trabalhando? onde estão os outros? será que vai dar certo? será que o resultado final vai ser um conjunto harmônico, vai "ter uma cara" ou vai ser um agregado de divergências?
O convívio estabelece alianças, cria amizades, propicia troca de informações, troca de energia. Descansa-se trabalhando, ou visitando o trabalho dos outros artistas. Para os lanches ou o chopp do final do expediente, o Bar da Praia bomba como talvez nunca tenha bombado. Segunda-feira, terça-feira...
Sexta-feira no início da tarde, a maioria dos trabalhos está completa ou em fase final de instalação, mas a tal visão de conjunto ainda não se faz, talvez o barulho de artistas trabalhando ou conversando, talvez o lixo ainda por tirar, talvez os trabalhos que ainda não estão montados, uma certa sensação de uma coisa anárquica... Vou para casa, um banho, descansar um pouco antes da festa de abertura...
...e ao chegar no apartamento vejo que, aparentemente como uma mágica, a luz se fez: a exposição flui, os trabalhos dialogam, se integram, se reforçam, há uma organização no que parecia um caos, há linhas de leitura que fazem "um desvio para o azul", "um desvio do rosa para o vermelho" e outros percursos, há até um bar na cozinha do apartamento com um eficiente barman preparando a melhor caipirinha de morango que jamais bebi em minha vida.
Mágica? não, sincronicidade, e a atuação discreta e agregadora dos organizadores/curador.
(Sonho com possível percurso: ao se abrir a porta do elevador, o tapete persa com corte de silhuetas de corpos humanos e uma misteriosa fotografia de um rosto-meio-vegetal dão as boas-vindas. No palaciano hall do apartamento uma cascata de pérolas, que pode ser uma arquitetura desconstruída ou uma infiltração, e sugestões de paisagem anacrônica pintadas nos nichos dourados das paredes se somam em uma minúscula gruta que expõe as entranhas do prédio em pérolas e pigmento azul.
Desviando para o vermelho, passamos por uma saleta obsessivamente cor-de-rosa com pequenos faunos desafiando a gravidade e chegamos a outra sala com uma parede pintada com gestos também cor-de-rosa e uma cascata de maçãs vermelhas caindo das gavetas de um armário; um pano vermelho entra pela parede e se conseguirmos seguir por este pequeno buraco chegaremos a uma biblioteca ocupada por uma bateria e outros instrumentos de percussão, e uma pequena escultura; na parede, uma pintura feita de contas brilhantes e coloridas; na estante, uma coleção de pratos de porcelana pintados reconta a História do Brasil.
De novo no hall, o percurso para o azul leva a uma paisagem sugerida por discretas linhas em um enorme campo de azul brilhante, que  confronta uma parede ocupada por uma dança erótica em traços livres de tinta azul, leves como as azaléias brancas de papel em vasos em frente à varanda; desta sala, o verdadeiro acesso à biblioteca; ou o acesso a outra sala dominada por gigantesco animal feito de pedaços de móveis antigos e penas e plumas brancas, onde um pequeno desenho da paisagem externa em uma parede preta é companheiro de instalações que fazem brotar da parede o interior de um processo construtivo moderno, vergalhões e tijolos.
Volta-se ao hall marcado pelas pérolas, e o largo corredor/galeria que leva à antiga cozinha é palco de uma massiva instalação com fotos do desabitado apartamento de cobertura e com material recolhido em lixo. No meio do corredor, portas de correr levam a uma antiga sala de banquetes, hoje o espaço de performances, marcado por pinturas/desenhos que fazem referência a corpos.
Pelo apartamento, telas exibem videos, um deles mostra uma mulher de burca andando compulsivamente pelos corredores vazios do que parece o mesmo apartamento mas talvez seja outro apartamento no prédio; outro mostra um estranho despertar; mendigos à volta de uma fogueira; e outras imagens perturbadoras.
Em uma pequena saleta, uma parede com buracos e textos de filósofos mostra como "filosofar com um martelo"; já em um dos banheiros, delicados desenhos feitos com lágrimas e maquilagem escorrida, um diálogo com as pérolas, com as flores de papel; com as pequenas placas de gesso que se esgueiram em diversos lugares mostrando desenhos da paisagem externa, de detalhes do interior ou do exterior do apartamento e os pequenos retratos sobre pedaços de fórmica de pessoas desconhecidas mas possíveis, reais, como os fantasmas, como o fantasma da mulher de burca que vagueia pelos corredores, como os pombos mortos no apartamento de cobertura, como as asas brancas que se estruturam em pedaços de móveis, e se volta ao início e se retorna em outro percurso, agora já um percurso mental de links e reflexões.)
No fim de semana a visitação é grande, no cair da tarde o apartamento se transforma em uma happy-hour, à noite é uma festa. Mesmo com a concorrência de outros eventos importantes no Rio: exposições do Hélio Oiticica no Corredor Cultural, Santa Teresa de Portas Abertas... e a concorrência desleal do que é o evento mais importante para o Rio, um fim de semana com sol gostoso chamando para as praias.
Gratificante.
E também um exercício de despreendimento, de viver o efêmero: domingo à noite as portas se fecham, segunda-feira tudo está desmontado, daí a alguns dias as equipes de pedreiros entrarão, quebrando paredes, trocando azulejos, substituindo a fiação elétrica que passa com fios envoltos em papel dentro de tubos de ferro, atualizando as instalações hidráulicas que se entopem com o acúmulo de décadas...
A partir de agora, só os registros da ocupação. Só a memória.

Artistas:
Abel Duarte
Alessandro Sartore
Aleteia Daneluz
Bob N
Bruna Lobo
Claudia Bakker
Edu Monteiro
Evandro Machado
Fernando de La Rocque
Gimena Mello
Hugo Richard
Jozias Benedicto
Kunja Bihari
Leo Ayres
Luar Maria
Luiza Crosman
Marcelo Rocha
Matias Mesquita
Moises Alcuna
Natali Tubenchlak
Nora Stephens
Orlando Mollica
Pontogor
Rafael Inacio
Robson
Sandra Schechtman
Simone Michelin
Ursula Tautz
Virginia Paiva
Ze Carlos Garcia

Organização:
Aleteia Daneluz
Bob N

Barman:
Ricardo

meus registros em foto


Registros em vídeo:








FaceArte publica uma versão resumida deste texto





terça-feira, 13 de julho de 2010

Bárbara & Gordon & Rebecca

Últimos dias para correr e ver duas exposições, no Rio, que estão se encerrando, uma delas  nesta semana e a outra na próxima.
As duas exposições estão em dois polos do Corredor Cultural do Rio de Janeiro, entre elas uma andada em uma linha quase reta de menos de um quilômetro, passando pelo Arco do Teles, onde sempre eu escuto os gemidos de Bárbara dos Prazeres.
Bárbara morava na rua, nos anos 1800, abrigada sob o mesmo Arco dos Teles sob o qual eu caminho em meu circuito artístico. O Arco, que milagrosamente escapou quase incólume da especulação imobiliária que arrasou o Rio de Janeiro. Antes da especulação imobiliária, o arrasa-quarteirões para o desmonte do morro do Castelo, e a construção da Av.Pres.Vargas; lá mesmo, na atual Praça XV (o antigo Largo do Paço, o Largo do Terreiro do Polé), desfigurado, asfixiado com a Perimetral, vendo depois surgir o espigão da Universidade Cândido Mendes no pátio do Convento do Carmo.
O Arco escapou, se olhamos só para baixo, pois em cima dele se plantou um edifício horrível, acho que pela força de Bárbara dos Prazeres, que lá morava e ainda mora, e cujos suspiros de gozo eu sempre ouço.
Ouço mesmo, não é força de expressão. Eu sei. Eu a sinto, em baixo do Arco, e o Largo do Paço cheio de movimento diurno, navios chegam, a família Real no Paço, o comércio na Rua Larga, marinheiros chegam e saem a todo o momento no atracadouro, o Príncipe de Bragança é um jovem audacioso e sensual, depois a jovem Imperatriz é uma Habsburgo, depois, depois...
Bárbara, em seu posto, sob o Arco, é o verdadeiro centro de tudo; talvez uma noite mesmo o impetuoso Bragança tenha ido gozar entre as coxas quentes de Bárbara; mas se não ele, os nobres e os marinheiros, os embaixadores e os clérigos, os jovens e os velhos, certamente, gozaram, e alimentaram com seu gozo os gemidos que eu hoje ainda ouço.
O que ficou na história não é muito simpático a Bárbara. Eu sei, mentiras perpetuadas. Os historiadores são uns porcos chauvinistas, contam a história do ponto de vista dos vencedores, dos machos, dos caretas. Uma questão de gênero, que só apareceu recentemente.
Assim, dizem os historiadores que ela era uma bruxa, que matou o marido e os amantes, que tinha sífilis (bom, isso bem provável, pelo estilo de vida, se fosse hoje certamente seria HIV+) e/ou lepra, e que raptava crianças abandonadas para matá-las em rituais satânicos, bebendo o sangue dos enjeitados para conseguir a cura de suas mazelas. Uma serial-killer avant la lettre, talvez. De linda dos Prazeres passou a ser vista como vampira, tornou-se "a Onça" dos pesadelos das crianças, até que simplesmente desapareceu, morta certamente, mas continuou por décadas a frequentar os pesadelos dos cariocas.
Eu sei, para mim tudo mentira, quando eu passo pelo Arco do Telles vindo do Espaço Cultural do Paço e indo para o CCBB, ela sussurra em meus ouvidos, eu a ouço, a sinto; peço sua bênção; quando bebo um chopp ou um vinho em algum vernissage na área sempre deixo algum trago para ela; e agradeço a ela por eu estar de novo, ali, mais uma vez; não a vejo, ainda, mas um dia quem sabe?
Ela, para mim, é a verdadeira dona do Arco do Telles; foi ela quem o preservou da especulação imobiliária , ela cuida de tudo. Assim, para mim foi ela quem fez com que, em pleno 2010, duas exposições muito importantes, e inéditas no Rio, se encontrassem nas duas extremidades do "seu" corredor: Desfazer o Espaço, de Gordon Matta-Clark, no Paço Imperial, e Rebelião em Silêncio, de Rebecca Horn, no CCBB. Não é pouca coisa, é de primeira.
Gordon Matta-Clark desenvolveu seu trabalho, jovem, nos anos 1970, e morreu prematuramente em 1978, com 35 anos. Tem o frescor da juventude, e mais ainda, de quem foi jovem naquela década mágica, quando ser jovem era mais do que um adjetivo (o jovem artista), ser jovem era ser o motor do mundo, em um mundo das gerações anteriores que caía aos pedaços em tanto conformismo, no auge da Guerra Fria; e um mundo que seria dos jovens, só seria salvo pelos jovens na medida em que eles recusassem os paradigmas das gerações anteriores.
(tudo isso aconteceu, talvez Matta-Clark nem imaginasse, ao fazer seus trabalhos, que seria possível tanta mudanca, tantas conquistas e ao mesmo tempo tantos retrocessos: a liberação feminina aconteceu, as minorias ganharam visibilidade, a ecologia passou a ser discutida seriamente, a Guerra Fria se acabou, o Muro de Berlin caiu, a internet possibilitou comunicação universal instantânea, veio a globalização com novas formas de dominação; o terrorismo internacional tem poderes de submeter até as grandes potências; o fundamentalismo e o obscurantismo não diminuiriam, pelo contrário, são mais fortes e poderosos; o circuito da arte incorporou no mainstream o que antes era radical; o radical se banalizou).
Matta-Clark fazia intervenções, mas não eram intervenções banais. Ele simplesmente cortava uma casa ao meio; depois retirava parte dos alicerces de uma das metades da casa; e esta caía um pouco, na lateral, oblíqua, na medida apenas para expor a fenda entre as partes, como uma coisa sobre-humana e ao mesmo tempo tão simples; e o interior da casa, visto através da fenda, recebia sol, luz, como nunca.
Ele levava sol, luz, a lugares e conceitos escuros, ele levava um novo olhar e uma nova forma de vida, utópica e possível, a um meio artístico e um establishment que se caracterizavam pelo conservadorismo mais arraigado.
Arte é vida, e para o artista americano, arte é penetrar nas brechas, é propor e viabilizar alternativas; não é pintar telas abstrato-expressionistas para as penthouses dos Rockefellers ou para os lobbies das grandes Corporações. Ao realizar suas efêmeras intervenções, em escalas gigantes e com meios precários, com gigantescos esforços físicos, o artista questionava sobre a ocupação do espaço urbano e a destruição da memória das cidades, a mesma especulação imobiliária que, por exemplo, até hoje faz tudo para destruir o Rio de Janeiro.
Uma arte política, uma atuação política. Em 1971 o artista boicotou a Bienal de São Paulo, e assinou manifesto contra a ditadura brasileira que respaldava a mostra.
Além das intervenções urbanas, Matta-Clark atuou em experiências culinárias, estudos de Alquimia, dança, performance, desenho e fotografia; e sempre dentro deste espírito questionador sobre os espaços, a urbanização, a inserção, os moradores de rua, o desperdício, a sustentabilidade, a arte.
A rebelião de Rebecca Horn se faz em silêncio, em sutilezas, um trabalho que apresenta questões ao espectador, que é levado a um mundo de dualidades, de pequeno/grande, dentro/fora, amor/ódio, lirismo/máquina, de repetições e de inesperado.
Nascida em 1944, apenas um ano depois de Matta-Clark, a artista foi uma das pioneiras na utilização da tecnologia em arte, nos anos1970. Seus primeiros trabalhos consistiam de performances com máscaras, próteses e objetos feitos com penas de aves; que evoluíram para impressionantes instalações e esculturas cinéticas, feitas em e para lugares carregados com grande importância histórica e política. Assim foi em 1994, em Viena, com a Torre dos Sem-nome, quando a artista cria um monumento para os refugiados das guerras da península balcânica, uma torre com violinos mecânicos.
A partir de filmagens feitas para documentar suas performances, Rebecca passou a utilizar também a linguagem do vídeo, e daí ao cinema, chegando em 1990 a criar e dirigir um longa-metragem, Buster’s Bedroom, com recursos de cinema profissional e a participação dos atores Donald Sutherland e Geraldine Chaplin. Este filme e vários outros da obra cinematográfica da artista podem ser vistos nesta exposição.
Na magnífica rotunda do CCBB, O Universo em uma Pérola, uma enorme escultura em movimento, construída por dois espelhos separados por funis de ouro. Ao olharmos nossa imagem no jogo de reflexos, paradoxalmente o que parece se mover não são os espelhos, não é nossa consciência, e sim as paredes do prédio, provocando estranheza ou mesmo causando vertigem.
É uma exposição para ser vista com tempo, com vagar, não é uma exposição para uma leitura dinâmica (pensando bem, que exposição seria adequada para uma leitura dinâmica?).
Tempo para poder ver todos os filmes, e também para "espreitar" os objetos da artista, que "acordam" e funcionam aleatoriamente, de tempos em tempos. De repente, uma máquina-borboleta enclausurada em uma redoma de vidro faz um pequeno voo; um leque de penas se abre; um piano pendurado do teto, com as pernas para cima, começa a ser tocado mecanicamente; uma "máquina de pintar" joga manchas de tinta em uma parede... Espreitar, ser surpreendido; pensar sobre.
E também para pensar sobre os muitos pontos em comum e os muitos pontos divergentes entre os trabalhos dos dois artistas, trabalhos totalmente contemporâneos. Como o trabalho político tão radical do Matta-Clark nos anos 1970 foi interrompido por sua morte; enquanto que a maior longevidade da artista alemã possibilitou um desenvolvimento do trabalho, utilizando recursos do sistema; como hoje o sistema aceita, e até incorpora, procedimentos outrora visto como radicais e contestadores; talvez até diluindo sua força de contestação.
O precário dos filmes em Super 8 do artista americano e a super-produção do longa-metragem de Rebecca Horn falam talvez da mesma coisa; mas a contundência é bem diversa. Mesmo como peça de museu, como documentário apenas, as experiências de Matta-Clark remetem a um momento de mudança; talvez esta mudança, a possível, tenha ocorrido; e talvez só nos reste olhar o mundo globalizado se balançando como dois espelhos separados por funis de ouro.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Eduardo Kac, uma tecnologia do corpo

Ultimos dias para visitar as exposições de Eduardo Kac, na Galeria Laura Marsiaj e no Oi Futuro Flamengo. Se no espaço do Oi Futuro o artista mostra trabalhos atuais, mesclando arte e tecnologia, na Laura Marsiaj a opção foi a de mostrar "como isto tudo começou", os trabalhos do artista nos anos 1980, onde a ênfase era a de uma arte contestadora, desafiadora em relação ao fechamento político e à repressão sexual, uma arte libertária. Uma exposição complementa a outra.
Os trabalhos ligados à tecnologia tem tido uma visibilidade grande, muitas vezes tratados pela midia de forma superficial, principalmente a partir de Alba, o coelho feito verde-neon a partir de uma mutação genética comandada pelo artista. Mas ver a foto do artista, ele mesmo, nu, no alto de um prédio em plena Copacabana, com visão de milhares de janelas (inclusive de uma igreja e de um batalhão da PM), em plena ditadura militar, é ver que seu trabalho vai além, muito além, de gadgets.
As fotos (Pornogramas) e os videos dos anos 1980 mostram muito bem isto. Poético, performático: o artista declama versos na praia de Ipanema. Política do corpo: o artista declama versos, completamente nu. Libertário: após declamar suas poesias, o artista e dezenas de frequentadores da praia saem, nus, em uma passeata. Os videos registram em preto e branco, som direto, e vê-los, hoje, em 2010 é pensar: onde está aquela revolução do corpo que a nossa geração achou que tinha feito? foi acabar nesta atualidade de neo-conservadorismo e vulgaridade? onde foi parar o Reich que lemos e praticamos? a midia absorveu e vomita para as massas, resumido em um edredon do Big Brother. Mas ver os videos também é lembrar que estes momentos existiram, são reais, são arte.
E ver os videos e as fotos nos mostram que continua tudo lá, no trabalho atual do Eduardo Kac. Um trabalho atual, tecnológico, parte dele que está no Oi Futuro, em Biotopos, Lagoglifos e Obras Transgênicas.

Conceitos: “Biotopos” são obras vivas que evoluem e se modificam, de acordo com as condições ambientais. “Lagoglifos” são obras produzidas através de uma forma de escrita visual, que o artista define como “coelhográfica”. E as "obras transgênicas" tem como meio de criação literalmente a biotecnologia, é o caso das “Edúnias”, mistura da flor petúnia com material genético do próprio artista, ou seja, Kac aplicou o DNA extraído de seu sangue à flor, criando um novo ser, ou, em termos artísticos, uma espécie de autorretrato.

Está tudo lá: uma postura libertária, que se apropria dos termos e precessos da Ciência para subvertê-la; não é uma arte que se utiliza da tecologia "para brilhar" e sim "para desafiá-la", como as poesias gritadas na praia, que desafiavam o regime militar mas também iam contra a esquerda careta. O corpo, visto como instrumento de política, de modificação existencial e social, é o mesmo corpo que (em sua mais completa essência, o DNA) "humaniza" a flor. Uma criação poética e revolucionária; que extrai poesia das coisas simples, transfigurando-as: um coelho, uma flor com o DNA humano; o que aparentemente é um quadro abstrato e que se revela feito de microorganismos vivos e totalmente sensível às mudanças do ambiente; e que desafia o espectador que pretende "fruí-lo" como arte: este "quadro", esta pintura, é um ser vivo, tão vivo quanto o espectador, e que, nas perfeitas condições de temperatura e alimentação, poderá mesmo sobreviver a ele.
Um trabalho cheio de significados, com coerência dentro de sua evolução, com soluções visualmente bonitas e com conceitos bem resolvidos, e acima de tudo, extremamente poético. Uma tecnologia que está ancorada no corpo, no humano, na arte; e que através da poesia alcança infinitos.

Veja também:
Site do Eduardo Kac

Boa entrevista do Eduardo Kac, originalmente publicada em Art.Es (Espanha)
Fotos da  abertura das exposições estão no site Só Arte Contemporânea

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Em São Paulo

São Paulo sempre é bom, mesmo quando o avião, descendo em Congonhas, me dá um susto ao arremeter (segundo o piloto, por segurança, o avião anterior ainda estava na pista, foi o que entendi). Isto depois da impossibilidade de fazer um mísero check-in on-line, a TAM "mudou o seu sistema" (a culpa é sempre do "sistema", esta entidade abstrata) e o site está com erros primários (saudade do meu tempo de analista de sistemas, eu não deixaria um site deste jeito ser liberado para os usuários, talvez por isso me estressava tanto). Tudo bem, estou em Sampa e hoje a programação é tranquila, apenas três ou quatro locais a visitar (e voltar rápido para o Rio antes da chuva que está fazendo estragos na cidade a cada final de tarde).
Nas Pinacotecas, dois importantes artistas portugueses:
No Projeto Octógono, na Pinacoteca do Estado, a instalação Deposição, de Pedro Cabrita Reis, de grande impacto. Na rotunda monumental do prédio projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo, o artista coloca duas pesadas vigas de aço em formato de um T apoiadas sobre uma mesa comprida, também de aço; o minimalismo da forma, solitária sob o peso do ar da rotunda, faz uma referência sutil às deposições de Cristo da cruz, as Pietàs, da história da arte. Sutil e monumental, dois conceitos que a obra do artista combina muito bem.
E na Estação Pinacoteca, grande exposição ocupa todo um andar com pinturas, videos, instalações e performance do artista Julião Sarmento. Conhecia pouco da obra do artista, e a vontade de conhecer mais foi o motivador desta minha ida a SP; neste ponto minha expectativa foi atendida, a exposição é bem abrangente; sinto falta apenas de um catálogo, um bom catálogo como os que a Pinacoteca fazia.
A utilização das várias midias pelo artista português não torna seu trabalho disperso, pelo contrário, cada suporte é utilizado de uma forma precisa para aquele trabalho específico. E em todos o artista fala, obsessivamente, dos mesmos temas: uma fragmentação dos corpos e dos objetos, uma presença ou uma ausência; uma sensualidade que coloca o espectador como voyeur; os recortes de gestos, de corpos, são de uma sensualidade que se concentra nestes fragmentos; um embotamento da percepção, que paradoxalmente aguça a percepção do espectador; jogos de linguagem (o título, a imagem da obra e textos na obra, que aparentemente não tem relação ou se contradizem)...
A performance: um homem, uma mulher, duas cadeiras, em um pequeno ambiente fechado e todo verde; um disco de vinil em uma vitrola portátil toca uma música obsessiva, a mulher dança sozinha, sensual; o homem se levanta e dançam juntos, uma sensualidade e ao mesmo tempo uma ausência, uma distância, gestos sensuais e ao mesmo tempo mecânicos dos pelvis que se juntos ao ritmo da música; e o espectador fica preso nesta teia até o final da música (que poderia se repetir ad infinitum), é feito refém como é feito voyeur das pernas e braços desenhados em telas quase monocromáticas, embaçadas; das mulheres sem cabeça que habitam uma estante ou um relógio de parede, nas esculturas/instalações; da stripper que, em um video, se despe para tornar a se vestir, incessantemente, interminávelmente; em outro vídeo, pernas de mulheres que andam interminávelmente por uma rua; ou um longo close nos pelos pubianos de uma mulher vestida, como a stripper, com meias e cinta-lliga; as pinturas com massas pretas sobre fundo branco, ou o contrário, onde o espectador/voyeur "de repente " jogos sexuais; e a partir daí não vê mais outra coisa, como obcecado, o sexo grita por entre os blocos de tinta, antes inocentes acrílicas preta e branca sobre a lona preparada da tela, pintura e obsessão.
Uma sensualidade infinita, incessante, interminável, como um Bolero de Ravel sem o clímax, e que se esprai por vários suportes, como se apenas uma midia fosse pouco ou nada para conter esta força que, sutil, permanece na retina do espectador como um langor post-copula.
Valeu o susto na descida no aeroporto!
Em seguida, visitei o Centro Cultural de SP, onde está a Mostra do Programa de Exposições 2009, com os artistas convidados Daniel Senise (com Eva, uma instalação onde blocos de tijolos, feitos pelo público a partir de material reciclado do CCSP, cobrem a escultura Eva, de Brecheret, do acervo do Centro), Rochelle Costi (apropriação de imagens do porão do CCSP, onde funcionam oficinas de restauração,gráfica etc.) e Ricardo Basbaum (câmeras de video captam, em tempo real, locais onde o artista interferiu com palavras escritas nas paredes ou chão do Centro Cultural).
E os artistas Ana Prata (pintura, figurativa, bem bonita), Carlota Mazon, Cris Bierrenbach, Grupo Hóspede, Letícia Ramos, Luiz Marchetti (A poética dos pequenos furtos, série de filmes bem interessantes, sobre pessoas comuns que furtaram objetos de desejo e os exibem: Nik roubou cachecol em Estocolmo...), Rafael Carneiro e Sofia Borges.
Além disso, Paradas em Movimento/Wonderland: Ações e Paradoxos, com curadoria de Pamela Prado e Rafael RG, com videos que "se relacionam pelo modo como transformam uma ação em obra de arte": remar, apagar, nadar, acender, despejar... Bem interessantes, os videos são de Antti Laitinen, Marilá Dardot, Laura Glusman, Cinthia Marcelle, Kika Nicolela, Renata Padovan, Rodrigo Castro, Lais Myrrha, Adriana Aranha e Paola Junqueira.
Finalmente, no Instituto Tomie Ohtake, Eternamente Agora, bonita exposição/tributo a Mário Cravo Neto, artista precocemente falecido em 2009, com curadoria de Paulo Herkenhoff e Christian Cravo. E uma exposição do importante artista norte-americano Robert Rauschenberg.
Organizada pelo próprio Instituto Tomie Ohtake, a exposição contou com a colaboração de Robert Rauschenberg Studio, da galeria PaceWildenstein e da ULAE Universal Limited Art Editions, trazendo 98 obras (23 peças únicas e 75 gravuras), e conseguindo dar um bom panorama do trabalho do artista.
Acho incrível como o trabalho de Rauschenberg consegue, no início da cultura de massa, ser tão premonitório em relação às estéticas que surgiriam depois, como a profusão infinita de imagens que cada vez mais e mais chegam, invadem, inundam, exaurem os espectadores; na época que o artista iniciou estes trabalhos, noas anos 1960, a mass midia ainda incipiente (mas já estudada por Marshall McLuhan, outro profeta, de quem hoje ninguém mais fala), as imagens chegavam apenas pelos jornais, TV e cinema e hoje, em fluxos exponencialmente maiores, pela internet, I-Phones, videogames, MTV, celulares, a cada momento mais e mais imagens descartáveis que Rauschenberg, como um arqueólogo do futuro, preserva sua falta de sentido e o transfigura em arte.
Estes trabalhos do artista são o zapping antes de existir o controle remoto nas televisões... e, pela longevidade produtiva do artista, evoluíram até 2008 (ano de sua morte), incorporando as sempre novas midias e novas tendências. Talvez fique faltando nesta exposição alguma coisa do trabalho inicial de Rauschenberg, o "Erased de Kooning Drawing", as "White Paintings", as "Black Paintings"; mas afinal não é uma retrospectiva, e faz acertadamente em focar nas colagens de imagens, obras que se tornaram as mais características do artista.
Volto para o Rio, antes da chuva que nem sei se acabou caindo mesmo. O motorista de táxi fala de uma "operação limpa bueiros", que tirou até um sofá de dois lugares de lugares por onde a água deveria escoar; um pouco o texto que a midia e os governos tem hoje, em devolver a culpa dos problemas à população (ela é culpada por sujar as ruas), esquecendo (de propósito) que o papel dos eleitores é pagar impostos e votar e o papel dos administradores é administrar bem, pagos com o dinheiro dos contribuintes. De volta ao Rio, vejo na internet que o Prefeito de São Paulo foi cassado pela Justiça Eleitoral. Não é nada, não é nada, não é nada.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Lábios Leporinos (um video)

 
Aqui no blog já postei imagens de uma série de pinturas que fiz em abril de 2009, baseadas em uma foto de criança com lábios leporinos. Agora editei estas imagens em um pequeno video, usando como trilha sonora um trecho de Stockhausen. O video já está no Youtube, coloco aqui também.


Clique aqui e aqui para ver os posts sobre as pinturas desta série

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Estranho Cotidiano, Galeria Movimento


"Todo dia ela faz tudo sempre igual".
E se o todo dia, o cotidiano, tiver um ruído embutido, uma estranheza incorporada, um toque de irreverência e subversão, um toque apenas, que não acabe com o sempre igual do dia-a-dia, mas que seja o suficiente para transfigurá-lo, para renová-lo?
Se os objetos do cotidiano se revoltarem? Se um filtro de água, cor de rosa, se enfeitar com pedaços de Linholene cor de rosa, e, usando um I-Pod também cor de rosa (claro), começar a murmurar, a gemer, a cantar? E se as pílulas mágicas da felicidade, os Valium, os Prozac, os Viagra se agigantarem a ponto de não mais poderem ser engolidas e terem de ser carregados como grandes amuletos?
Se a espreita através de um olho mágico mostrar que o hall do elevador é um local onde coisas mágicas acontecem, onde danças solitárias ou diálogos imaginários tem a sua arena? Se as tramas de um tricô se perderem do seu aspecto utilitário - suéter, cachecol, meia, luva - e criarem vida própria, pendentes do teto como preguiças, se jogando ao chão como serpentes?
Mais ainda, se o cotidiano das galerias de arte for subvertido por novas formas de pensar/fazer/veicular arte, onde relações fortemente hierarquizadas, herança do sistema de arte que atingiu seu ápice nas últimas décadas do Século XX, forem substituídas por novas relações, em rede, por novas formas de pensar arte, fazer arte, veicular arte?
Estranho Cotidiano, exposição na Galeria Movimento, lança sua discussão sobre estes pontos e muitos outros. Com curadoria do artista Walton Hoffman, contou com o artista Pedro Varela como co-curador. Segundo Pedro, "o que ocorreu na verdade é que foi um evento que aconteceu mais pela união de artistas que criam redes de trocas de informações do que uma curadoria num sentido clássico (...) a maioria (dos artistas) veio de uma relação mais fluida, são artistas que se comunicam, artistas que trocam informações e experiências, e no final a exposição foi um momento de construção de novas redes, através deste fio condutor que é a reinvenção do cotidiano. O que facilita é o eixo comum, o assunto da exposição. Os artistas escolheram o trabalho que queriam expor, cada um interpretou do seu jeito a ideia de estranho cotidiano". 
Pedro ressalva que, mesmo no caso de artistas que "fazem trabalhos formais, que parecem fugir da ideia de cotidiano", outras questões como o material ou o espaço, "passam a ser questoes que inserem seus trabalhos no contexto da exposição. (...) exemplos de como este "jogo" (talvez seja um nome melhor do que curadoria) funcionou para trazer questoes que talvez não fossem pensadas em uma outra mostra."
Comento com Pedro como é interessante ele usar a palavra "jogo" para falar do trabalho de curadoria de Estranho Cotidiano, já que esta palavra me remete ao trabalho do Walton, com a utilização de peças de jogos, e o próprio trabalho do Pedro também tem muito do lúdico, com a construção de mundos fantásticos a partir da combinação livre e obsessiva de elementos unidos pelo cimento da fantasia.
Para Felipe Scovino, que assina o texto de apresentação da mostra, "os trabalhos reunidos em Estranho Cotidiano têm por primazia a constituição de um resgate do “exercício experimental da liberdade”, no qual a atitude de continuamente subverter limites dados vale mais do que a invenção formal, e em que o processo criativo importa, por vezes, mais do que o resultado": é o jogo de que fala Pedro.
Ainda no texto de apresentação, Felipe enfatiza "a rede de construção simbólica que é traçada entre as obras expostas", e que (...) "os diálogos travados entre os trabalhos constituem-se em uma quebra de hierarquias definidas entre o terreno da produção artística e o âmbito em que se desenrola a vida ordinária".
Este aspecto de rede, de conexão entre artistas e entre trabalhos, é muito característico da arte e da cultura atuais, que utilizam os mesmos conceitos aplicados na Internet, uma rede não-hierárquica, de conexões voluntárias e independentes, de fluxos e caminhos alternativos, que subverte os papeis tradicionais no sistema de cultura -  "o criador", "o fruidor", "o intermediário", "o crítico"... As individualidades se diluem, ou se reforçam criando uma nova forma de individualidade para o Terceiro Milênio, onde o indivíduo é múltiplo com a multiplicidade de papéis que ele assume nas diversas redes.
Ir à frente, prospectar o futuro, pode ser visitar ateliês de artistas jovens a partir de indicações e torcer para no meio dos escolhidos vir uma promessa, um artista que fique. Em Estranho Cotidiano a Galeria Movimento fez mais que isso, que apenas editar uma coletiva. Ao apresentar uma exposição que joga com estes conceitos tão atuais, que foi concebida em rede e que funciona em rede no espaço expositivo, com um diálogo rico em conexões e significados entre as obras, Walton e Pedro acertaram na mosca, apresentando bons trabalhos e bons artistas mas também um conceito sobre os trabalhos apresentados e um modelo de exposição que vai além e aponta verdadeiramente para um futuro; e o resultado me faz esperar com ansiedade pelas próximas.

Artistas que participam de Estranho Cotidiano: Botner/Pedro, Carolina Ponte, Gisela Milman, Glaucia Mayer, Leo Ayres, Louise D.D., Malu Saddi, Marcelo Amorim, Maria Laet, Maria Lynch, Murilo Kammer, Ni da Costa, Nino Cais, Patricia Gouvêa, Pedro Varela, Reginaldo Pereira, Rodrigo Torres, Silvia Jábali, Toz.

As fotos são do Pedro Varela, e o registro do vernissage pode ser visto no site do Odir Almeida, Só Arte Contemporânea, e também no blog da Galeria.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Ruído, Luiz Zerbini na Laura Alvim


Molduras de slides, vazias; palavras manuscritas nas bordas dão indicações de local/data/assunto dos slides que já não mais estão lá; em algumas, os slides desaparecidos (as memórias desaparecidas) são substituídos por gelatina colorida; as molduras dos slides formam uma trama, e são colocadas em molduras/caixas de acrílico; a luz entra pelos vazados ou pela gelatina, e forma uma trama de sombra.
Um vídeo mostra paisagens, árvores, céus e nuvens, refletidas em água - lagos, rios, açudes? pois, sabemos pelo título, é o Sertão; o recurso da reflexão e a lentidão na filmagem tornam este um sertão lírico; até que irrompem na tela, muito rápido, quadrados de cores fortes e aleatórias, é o defeito no vídeo, um ruído digital como eram os riscos nos velhos filmes analógicos em Super8.
Pinturas mostram centenas de quadradinhos, ou de círculos enfileirados, quase monocromáticos; como se pudessem formar uma imagem, como se fossem pedaços decompostos de uma imagem também inexistente ou desaparecida; e sobre uma superfície brilhante, perfeitamente lisa, metálica, os quadradinhos coloridos que são o ruído em uma imagem digital e agora são o ruído em uma pintura, a pintura se torna digital, ou os quadradinhos-ruído se transformam em pura cor.
Uma sala com três paredes pintadas de um preto brilhante; uma cadeira ao centro; o espectador senta-se na cadeira e se vê, refletido, na parede preto brilhante, como ele-mesmo um ruído. Um auto-retrato noturno e mórbido, lembra-te homem que és um ruído e ao ruído retornarás.
Luiz Zerbini na Galeria Laura Alvim, Ruído, a curadoria é da Lígia Canongia e o texto do catálogo do Luiz Camillo Osório. Uma boa exposição.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sábado no Rio: Laura Marsiaj e Largo das Artes

O final de semana no Rio começou muitíssimo bem, com uma reunião em petit-comité, na 6a.feira à noite, para comemorar aniversário de amigos, em uma casa maravilhosa, no Alto Jardim Botânico, com vista para o que a paisagem do Rio tem de melhor: Corcovado, acima; e abaixo, Lagoa e Praia de Ipanema. A casa está saindo de uma reforma que a deixou clean porém acolhedora, e é matéria de reportagem em uma publicação sobre decoração. Ah sim, e a conversa maravilhosa, desnecessário dizer, versou sobre arte, arte contemporânea; e sobre as pavorosas esculturas e murais que o poder público continua nos impingindo no Rio (last but not least, os "murais ruprestes" da estação de Ipanema do Metrô).

No sábado visitei as exposições do Elder Rocha e do Leonardo Videla, inauguradas esta semana na Galeria Laura Marsiaj, e à noite fui à abertura da exposição coletiva, no Largo das Artes, com curadoria de Suzana Queiroga.


Leonardo Videla: interfaces. O artista dá continuidade a sua pesquisa de elementos da arquitetura, desta vez as plantas baixas que se transformaram em caixas de papelão (as Sugestões Habitacionais) dão origem a esculturas/objetos/pinturas de parede, em metal, onde as dobraduras das caixas e os traços das plantas são  elementos em campos de cor; a pintura mais neutra, chapada, que aparecia nos trabalhos de dobraduras e plantas, dá lugar a uma pintura pela pintura, painterly, que já aparecia nos trabalhos do artista na série das Janelas. Há também uma escultura de chão, e fotografias também muito bonitas, com as dobraduras e plantas baixas. E, no acervo da Galeria, duas telas grandes, onde a pintura se faz ainda mais presente, livre e autônoma, no diálogo com os elementos arquitetônicos. Diz Leonardo: "Moramos em caixas, e meu trabalho faz uma critica direta aos resultados arquitetônicos atuais, diria que hoje vivemos dentro do conceito de Embalagens Habitacionais".
Em outras ocasiões comentei aqui no blog sobre o trabalho do artista: sobre a série Janelas, sobre a série das Churrasqueiras e também comentários sobre o Projeto Acervo, uma boa realização do Leo!


Elder Rocha: mar de bar. Elder é um artista de Brasília (comentei aqui no blog sua exposição Justaposição Polar no CCBB-BSB), professor da UnB, e apresenta telas, desenhos e uma instalação, Mar de Bar. Sobrepondo imagens e símbolos retirados de publicações, ampliados, acrescidos de elementos gráficos e de pintura, as imagens se multiplicam e envolvem o espectador em um jogo ao mesmo tempo cerebral e sensitivo. Do "bar", os copos se equilibram precariamente, e a tinta a óleo excita e desafia este equilíbrio, com faixas que trazem efeitos óticos ou manchas espessas que quase se sente no tato, não só ao olhar. Na instalação, o líquido que flui de um para outro copo, congelado no desenho a guache na parede, é um mar onde flutuam pequenas telas redondas com as imagens. Como o mar de Justaposição Polar, a instalação é estática e é dinâmica, é desenho e é pintura e é instalação, e o bar é na verdade um laboratório de sensações e de desafios à percepção.


[SÓ VOCE E OS OUTROS PASSAM], a coletiva no Largo das Artes, apresenta trabalhos de Alexandre Faccin, Amanda Bolsas, Claudia Ferraz, Danielle Carcav, Fernanda Braz, Guilherme Portela, Jimson Vilela, Leandro Pereira, Manuela Bezamat, Rafaela Saraiva, Raul Leal e Saulo Marzocchi,  jovens artistas têm em comum o interesse expressivo pela pintura e o trânsito por outros meios como desenho, fotografia e vídeo, e participam do núcleo de desenvolvimento da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde são orientados por Suzana Queiroga, que faz a curadoria da mostra. Já acompanho o trabalho de alguns destes artistas, e neles vejo um bom crescimento; outros, que não conhecia, vieram para mim como uma boa surpresa; e a exposição acerta, ocupando de maneira bem integrada o amplo, magnífico, espaço da galeria; os trabalhos funcionam individualmente e o conjunto é bem maior que a soma das partes.

domingo, 22 de novembro de 2009

No Rio (exposições)

Final de semana no Rio, ampliado pelo feriado do Dia da Consciência Negra em uma 6a.feira, eu sabia que tinha "algumas" exposições para ver; para minha surpresa, estas "algumas" foram tantas, que deixei várias para visitar apenas na próxima ida ao Rio (sem contar as que estão abrindo nesta semana corrente).
Isso com um sol e um calor que convidavam a mergulhos na praia ou na piscina, com uma arrumação nos vinhos há muito tempo na adega, com rever amigos e muitas tarefas do quotidiano.
As exposições que visitei:


1- Na Galeria Artur FidalgoRetratos, de Marcos Chaves. O artista trabalha buscando novos sentidos para cenas do quotidiano, com um humor sutil e inteligente. Nestas fotos, Marcos brinca com uma característica da percepção humana, que busca sentido em formas abstratas, que vê rostos onde há manchas. Um esfregão, destes comuns de chão, virado com o cabo para baixo, encostado em uma parede; a foto é vertical, nas dimensões que a pintura clássica estabeleceu como portrait; a moldura sóbria e a disposição das diversas fotos como uma galeria de retratos clássica; e pronto: o espectador  cabelos no que são os pelos do esfregão,  nariz e boca em detalhes do centro do esfregão, onde se encaixa o cabo; e vê olhos nas formas simétricas à linha central. Um rosto, outro rosto, vários rostos; e a contraposição de tantos rostos diferentes faz com que cada um deles imediatamente adquira personalidade própria. Incrível, a "contaminação" do espectador a partir do momento em que vê o primeiro rosto é intensa; até uma das fotos onde a simetria é destruída com os pelos do esfregão cobrindo uma das metades da "face", é vista como um retrato (algo como uma Veronica Lake com o cabelo em ondas cobrindo todo um lado do rosto). E a "contaminação" máxima é a foto onde só se vê o cabo e os pelos do objeto: entendida imediatamente pelo espectador como a cabeça de uma pessoa de costas, não se consegue mais vê-lo simplesmente como um esfregão encostado em uma parede. Witty, sim, mas profundo, ao questionar os limites da percepção de forma simples e criativa.


2- Na Galeria AmarelonegroHome... sweet home... sweet home... sweet home, exposição de Rogério Degaki. São 7 esculturas do artista paulista, em resina, agrupadas como uma instalação, um lar, com direito a "tijolinhos aparentes" brilhantes, em uma parede; segundo o artista, como disse Dorothy de “O Mágico de Oz”: “Não há lugar melhor do que a nossa casa!” E os personagens-esculturas, coloridos, estranhos e simpáticos, incrivelmente simpáticos, estão espalhados neste espaço que não é mais o Cubo Branco da galeria e sim um lar. Penso no "quero voltar para casa", do ET do Spilberg, e penso em como eu queria ter algum deles comigo em meu lar intergalático...



3- Na Caixa Cultural, gravuras de Wifredo Lam. Uma exposição importante, raramente vemos trabalhos do artista cubano, que faleceu em 1982: . A pintura certamente é o forte de seu trabalho (vi talvez duas pinturas grandes na exposição de artistas cubanos do CCBB, e alguma coisa no acervo do MoMA), mas a obra gráfica absolutamente não fica atrás. São monstros, seres alados, dentes e garras, um clima weird todo especial; gravuras formalmente bem resolvidas, com utilização perfeita dos espaços negativos e do contraste de tratamento de diversas técnicas.



4- Esculturas de Artur Pereira, no Instituto Moreira Salles. Ao entrar na Nova Galeria do IMS, um impacto: as esculturas de madeira espalhadas, acumuladas, no Cubo Branco, como uma arca de um louco Noé. Artur Pereira é um chamado "artista popular", autodidata, de origem humilde, e com temática ligada a sua região e camada social: animais, caçadores, um presépio cercado por uma cornucópia de animais de Mata Atlântica, um homem que agoniza tendo como espectadores seus animais domésticos, seu rebanho... Mas as soluções estéticas são perfeitas, precisas; com poucos traços marcados no cedro, seu Artur define uma fisionomia de um animal com uma personalidade própria - uma jibóia irônica, um cachorro amigável, outros cachorros ferozes que perseguem onças, o medo estampado no rosto das onças perseguidas... Não "arte popular" e sim Arte.



5- Na Galeria Arte em Dobro, “A Coleção 2”, dá continuidade à proposta de venda de "pacote" com múltiplos de artistas contemporâneos em ascensão, por preços bem acessíveis. Se a primeira edição, A Coleção 1, lançada no início de 2009 (comentei aqui no blog), teve uma boa acolhida, esta segunda edição, com múltiplos de Marcelo Solá, Graziela Pinto, Felipe Barbosa, Daniel Toledo e Julio Callado, foi um sucesso estrondoso: ao chegar na Galeria a exposição já estava sendo desmontada, pois em menos de uma semana toda a edição já havia sido vendida. Sendo que os múltiplos do Marcelo Solá, por problema no transporte, nem haviam chegado ao Rio (serão entregues depois aos compradores). Como na edição anterior, boa escolha de artistas e trabalhos interessantes; o globo terrestre murcho em uma caixa de acrílico, do Daniel Toledo, é um achado! E um exemplo de como há um mercado de arte ansioso por novidades de qualidade a um bom preço.


6- O Mundo Mágico de Chagall, no MNBA, é apresentada como a maior exposição do artista no Brasil, comemorando o Ano França-Brasil, porém na realidade não é uma mega-exposição. As 309 obras apresentadas, em sua grande maioria, são gravuras, de séries como A BíbliaAs Almas MortasDafne e CloéFábulas de La Fointaine... bonitas, mas em geral em preto e branco ou com pouca cor (para mim o colorido é o ponto forte de Chagall), e forte conotação ilustrativa. Nas pinturas, onde o esplendor da arte de Chagall se mostra todo, vemos coisas boas, porém não são muitas - e a maioria de coleções particulares brasileiras. Vale à pena ver, sim, uma boa exposição mas, da mesma forma que a exposição do Matisse apresentada na Pinacoteca de São Paulo, sem acreditar muito na grandiosidade indicada pela midia.

7 - No Instituto Moreira Salles, exposição Maureen Bisilliat: fotografias, com mais de 250 imagens da fotógrafa inglesa radicada no Brasil, trazendo fotos das séries mais conhecidas da artista, como as que retratam o universo de Guimarães Rosa, os índios do Xingu, os sertões de Euclides e as viagens ao altiplano boliviano, à China e ao Japão. Complementam a exposição objetos e documentos pessoais da fotógrafa, como o sensível caderno feito durante os meses da doença do pai de Maureen: a cada dia, a artista buscava um livro na estante, abria o livro e fazia uma xerox do trecho ao qual chegara aleatoriamente; e todos os textos e o caderno como um todo traziam uma relação com o momento de agonia que viviam pai e filha.


8- Na Galeria Márcia Barroso do Amaral, novas gravuras de Tomie Othake. Muito bonitas, impecáveis, e é bom ver o trabalho coerente da artista nos seus 96 anos.

9 - Exposição coletiva no Crânio, simpático espaço de artes e cultura na Rua Pacheco Leão, no Jardim Botânico, são pinturas, fotografias e objetos dos artistas Bianca MadrugaCláudio MontagnaLetícia TandetaMárcia de AlmeidaRicardo FerreiraUrsula Tautz e Vlad da Hora.


10 - Multiplo Coletivo, na Galeria Inox, uma coletiva dos artistas Afonso TostesAlê SoutoAlexandre OrionCarlos ContenteJosé TannuriMarcelo LagoMarcos CardosoMaurício BentesSmael  Toyota. São múltiplos, bem interessantes, e o acervo da Galeria, que abriu recentemente, também apresenta coisas muitos boas, em destaque a linda gravura da Beatriz Milhazes feita para o número especial da Parkett Magazine, que já comentei aqui no blog.


11 - Minha visita ao Paço Imperial, logo após a abertura das exposições, foi prejudicada pela greve dos servidores da cultura. Assim, desta vez, pude retornar ao Paço e ver: Ícones do Design Francês (bonita exposição, além dos ícones do design francês, alguns ícones do design brasileiro, um contraponto entre a Caneta Bic e a Sandálias Havaianas, less is more), Julio Villani (o artista trabalha com reprodução, em tamanho grande, de fotografias antigas, interferindo nas mesmas com formas geométricas em cores fortes, em tinta a óleo, bem espessa, o óleo da tinta se espalha como sombras pelo papel e as formas criam novas realidades para as fotografias; e também as formas geométricas a óleo sobre manuscritos antigos; além de um vídeo em díptico, com papagaios que brincam com objetos como uma reprodução da Monalisa; gosto do trabalho do artista) e as fotografias de Alair Gomes, A New Sentimental Journey, com fotos de estátuas greco-romanas e a renascentistas com o mesmo olhar lançado pelo fotógrafo sobre os meninos do Rio.
Transcrevo aqui o comentário que já fiz no blog sobre o trabalho do artista: Alair é um fotógrafo, morto de forma violenta no auge de sua produção, cuja obra - séries de fotos de rapazes se exercitando na praia - sempre é revisitada com muito prazer. Desta vez são fotos e texto, de uma viagem a Europa, onde as esculturas clássicas de homens ganham o mesmo tratamento terno e apaixonado dado às imagens dos rapazes. Miguel Rio Branco editou as centenas de fotos em sequencias, dentro da linguagem de Alair. Um livro, A New Sentimental Journey, registra e acompanha a exposição. Uma dúvida que tenho, Alair desenvolveu seu trabalho de uma foram discreta, só expôs em 1984 (Galeria do Centro Cultural Candido Mendes), com retorno altamente favorável. Se fosse hoje, onde o politicamente correto comanda, ele não seria acusado de pedofilia, voyerismo,  apropriação da imagem das pessoas fotografadas à revelia? Talvez nossos dias e o futuro acabem com a possibilidade de trabalhos que, através da transgressão, chegam ao sublime.


12- Na Casa França-Brasil, uma grandiosa instalação da artista Iole de Freitas, cujo trabalho vimos recentemente também na Galeria Laura Marsiaj. Se no espaço da Galeria a artista usa o peso, uma instalação que como que "voa baixo", ocupando todo o cubo branco, no espaço generoso da Casa França-Brasil a artista prefere voar alto, sutil, silenciosa, não interferindo e sim realçando a arquitetura e os detalhes de ornamentação do prédio. 

13- Galeria Paulo Figueiredo, com gravuras em madeira do artista Fernando Mendonça. São pequenas matrizes e xilogravuras, em traços rústicos, de cenas de quotidiano.

14- Galeria Movimento, No Risco do Traço de
Mateu Velasco, são pinturas ancoradas no grafite e no design, figuras humanas com cabelos que se transformam em tentáculos, forte lembrança de uma estética art-nouveau atualizada para o contemporâneo.


15- Margaret Mee, 100 anos de vida e obra, no Centro Cultural dos Correios, é a mesma exposição que vi na Pinacoteca de SP e que comentei, talvez de forma um tanto crítica, aqui no blog (veja o comentário).

16-
Bandeira de Mello, Eu existo assim, na Caixa Cultural. O artista, nascido em 1929 e com uma atuação voltada para a arte acadêmica, para o ensino e para obras em lugares públicos (os murais no próprio espaço da Caixa Cultural complementam a exposição) está sendo redescoberto nesta exposição.

17 -
J Bosco Renaud, na Galeria de Arte Maria de Lourdes Mendes de Almeida (Centro Cultural Cândido Mendes), objetos, desenhos e técnica mista, sob o tema de plungers (desentupidores de pia): no espaço, na Lua, invadindo paisagens, ampliados...



18-
Pierre et Gilles, A Apoteose do Sublime, no OI Futuro, curadoria de Marcos Lontra, design do Alvaro Seixas. A dupla de artistas franceses monta os cenários, fotografa, pinta sobre as fotos, seleciona molduras que acentuam o caráter kitsch-fantástico-hype dos retratos, de modelos desconhecidos (e belos) ou de famosos (Madonna...). Como escreve o curador, "O trabalho de Pierre et Gilles, cheio de vitalidade, é próximo do espírito brasileiro, especialmente da cidade do Rio de Janeiro, tendo em vista sua exuberância, intensidade cromática, sensualidade e mistura tipicamente Kitsch, nos fazendo remeter às alegorias e fantasias dos desfiles de escolas de samba brasileiras (…) o mundo contemporâneo está saturado de imagens, elas estão em toda a parte. Um dos papéis mais importantes da ação artística é selecionar dentre essas imagens, proporcionando-lhes novas direções e conceitos. Todas as imagens são, portanto, passíveis de manipulação artística, e é isso o que fazem, de forma singular, Pierre e Gilles." Vale à pena ver.




19 e 20 - E ainda duas exposições de Leilões: Bolsa de Arte e Soraya Cals, com ótimos catálogos (o da Soraya Cals, um livro muito bem editado, com texto do Frederico Morais, não é vendido, e o da Bolsa de Arte, mantem o bom padrão e é vendido por R$25,00 com renda revertida para obras beneficientes). Vale a pena circular por estas exposições de Leilões; normalmente são muito heterogêneas, mas sempre se encontra surpresas; e os catálogos são boa fonte de consulta, inclusive pelas estimativas de preço que trazem. Na Soraya Cals, uma surpresa para mim: 4 aquarelas de um artista dos anos 1970 que aparentemente havia "desaparecido", Luiz Gonzaga Beltrame, as aquarelas são dos anos 1970 e o catálogo tem uma pequena nota biográfica. Vi uma exposição individual do artista em 1974 na Galeria Real, no Rio, e também em alguns salões, o trabalho dele era um cult em meio à descobertas do Oriente ("Se Oriente, rapaz..." cantávamos como Gal e Gil), pequenas e delicadas aquarelas com espaços místicos e estranhos; depois, nos anos 1980, não vi mais nada sobre o artista; que agora aparece no leilão, está registrado no Catálogo e, logo depois, podemos já ler sobre ele na internet.

Algumas fotos dos vernissages destas exposições estão no site Só Arte Contemporânea

domingo, 11 de outubro de 2009

Diários de Inhotim (3)


Domingo. Apesar da farra no jantar, o grupo acorda cedo, sabe que há muito para ver e tão pouco tempo. Nosso ônibus chega em Inhotim ao mesmo tempo que muitos outros carros, fila na bilheteria, e no decorrer do domingo vemos que a visitação é muito grande: famílias, jovens, idosos, namorados, crianças... de BH sim mas muitos de mais longe, uma atração turística, e isso é ótimo.
A primeira visita do dia é o pavilhão feito para a instalação da artista Doris Salcedo, Neither, uma recriação permanente de uma importante exposição da artista na Galeria White Cube, em Londres. Com referência nos poemas de Paul Celan, vítima dos nazistas, e pensada pela artista após uma visita a Auschwitz, a instalação aborda um contexto repressivo de campo de concentração que ainda existe em Guantanamo, por exemplo. Mas, ao transformar o white cube em grades que emergem das brancas paredes e se corporificam no que poderia ser uma saída, inexistente, a artista questiona também o próprio espaço expositivo e o circuito de arte.

Doug Aitken: Sound Pavilion, obra de 2009, uma das obras recentes do Centro Cultural. No ponto mais alto de Inhotim, um pavilhão circular em vidro (que me lembra imediatamente - e não só a mim, meu contemporâneo Fernando Cocchiarale teve o mesmo flash-back - o antigo Belvedere da Estrada Rio-Petrópolis) pousado sobre grandes rochas vermelhas, ferrosas, aparentemente soltas. Entramos e subimos por uma rampa em espiral, que nos leva ao centro do pavilhão, onde há um buraco no solo na direção do centro da Terra, com 202 metros de profundidade; acima deste buraco, outro buraco no teto nos mostra o céu. No fundo do buraco (as rochas soltas são como testemunhas do interior da incisão), microfones de alta sensibilidade captam diferentes freqüências de som, do som da Terra, e estes ruídos são amplificados para nós, espectadores; que ao mesmo tempo que ouvimos o som de profundis, olhamos uma paisagem de 360 graus de mata Atlântica e de montanhas de ferro; mas o vidro da pavilhão é polarizado, assim a visão do exterior só se torna nítida ao nos colocarmos em posição perpendicular, e isto também nos leva para o centro do pavilhão, para o caminho para o centro da terra, para a fonte do ruído que, como um mantra, nos fala de forças tectônicas, de uma natureza subterrânea que não se vê mas que pulsa, vibra, ronca, grita, como adormecida porém ameaçadora, sempre pronta a despertar em vulcões, em terremotos, em tragédias. E, no centro das perpendiculares que marcam o horizonte visível, com o eixo vertical que sobe sonoramente do centro da Terra rumo a céu, nos sentimos, humanos, finitos, também pulsantes, o aqui e agora, e parte deste Universo vivo.

Matthew Barney: Descendo, nos embrenhamos mais e mais na mata Atlântica. Saímos da estrada principal que nos levou ao pavilhão sonoro, seguimos por uma trilha, até que, no meio da mata, uma cúpula geodésica espelhada pousa sobre uma clareira construída. Violentamente construída: árvores arrancadas, terra, pedras vermelhas são o entorno da construção que é como um futuro-do-passado.  O criador das cúpulas geodésicas, Buckminster Fuller, teve o ápice de seu trabalho nos anos 1950-60; em 1967, na Exposição Mundial de Montreal, Canadá - eu estava lá, mas isso é outro post - o pavilhão norte-americano era uma enorme cúpula geodésica transparente, cruzada por um também futurista trenzinho aéreo monotrilho - então se imaginava que nos anos 2000 esta seria a paisagem urbana... depois disso a cúpula geodésica inspirou centenas de construções hippies e projetos científicos/ecológicos. Mas o pavilhão do Matthew Barney (“De Lama Lâmina”) não tem este clima meio hippie ao qual eu associo as cúpulas geodésicas: ele foi implantado, à força, no meio da mata Atlântica; mas ao mesmo tempo reflete a mata, a multiplica em seus espelhos triangulares; e também multiplica o espectador, trazendo-o, intimando-o a entrar. Dentro, um impacto: o habitante do pavilhão é um enorme trator; provavelmente o mesmo que criou a clareira, como um estupro: as rodas estão cobertas de barro seco, o mesmo barro avermelhado que vemos no exterior; e o trator traz em suas garras uma árvore, como as que arrancadas do solo; mas uma árvore branca, de um material plástico; que tem incrustada pedaços fálicos de serras, de armas, e também de tubos; e nos galhos mais altos, elementos como os da estrutura da cúpula; esta árvore mítica está presa pelas garras poderosas do trator; e por baixo do trator, como que atropelados ou nascentes, lâminas do mesmo plástico branco cortadas e empilhadas são como borboletas à espera de renascer. Envolvido pela cúpula espelhada, que tudo multiplica mas que também integra o espectador e a instalação ao entorno, a clareira na Mata; esmagado pelo trator, que é como um Alien predador; o espectador desta obra é totalmente participante de uma experiência de volta ao básico, às pulsões instintivas, à dualidade macho/fêmea, ao sexo como imposição e como recepção. Um lado dark, um lado heavy, um lado random, um lado green. Tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora. E mais claro ainda ao ver, mais tarde, em outro pavilhão do Centro Inhotim, o video do Matthew B., sobre o carro no Bloco do Oludum, com o Arto Lindsay. Tudo a ver. Ah, sim, e além de tudo, o artista é marido da Björk. Tudo mais ainda a ver.

Muitas obras estão nos jardins e assim vemos, debatemos sobre, entre outras, obras de Waltercio Caldas, Cildo Meireles (Inmensa), TungaDan Graham (Bisected triangle, Interior curve), Paul McCarthy (Boxhead), Simon Starling (The Mahogany Pavillion, um barco, veleiro, feito em mogno, invertido, preso ao chão "upside down"como um louco totem), Edgard de Souza (instalação com três esculturas em bronze, figuras masculinas em diferentes poses, feitas com base no corpo do artista e portanto auto-retratos sem rostos).


E, lindo, colorido, fantástico, à beira do lago, o penetrável do Hélio Oiticica é um marco na paisagem.
Visitamos a Galeria Mata, pavilhão com a exposição“Pontos de Vista”: A cube by Sol Lewitt photographed by Carol Huebner using nine different light sources and all their combinations front to back back to front forever, de Jonathan MonkAgassi, de Anri Sala, um video em loop com imagem congelada do tenista Agassi no exato momento anterior de rebater uma bola; Copo d’água,  CorreçõesDesdobrado, belas obras de Iran do Espírito Santo Fuegos de Artifício de Jorge Macchi, sutileza feita de sombras de pregos na parede e outras.

Dois pavilhões com grandes instalações do Tunga. Um deles, destacado à margem do lago, é o True Rouge, instalação em vermelho, que faz um contraponto em minha mente com o Desvio para o Vermelho, do Cildo Meireles. Tunga é uma das influências sobre a concepção de Inhotim, a partir de conversas com o artista, o milionário Bernardo Paz evoluiu de um colecionador de arte em geral para focar em arte contemporânea, no monumental e instalações, e para abrir sua coleção para o público.
Na Galeria Lago, o impacto se inicia com a catraca de Samson, de Chris Burden, seguindo com Cosmoroca 5 Hendrix War, de Hélio Oiticica e Neville D’Almeida e O Ignoto, de Artur Barrio, entre outros.
Na Galeria Marcenaria, o video De Lama Lâmina, do Matthew Barney, que deu origem à instalação com o trator, e La intimidad de la luz en St Ives, delicada instalação do artista Victor Grippo.

Finalmente, as centenas bolas prateadas em um espelho d'água entre tropicais folhas de inhame roxo (lemos que a recuperação desta desprezada planta rural para o paisagismo é obra do Burle Marx), a instalação Narcissus Garden, de Yayoi Kusama.
Vendo-me refletido nas muitas bolas prateadas, que também refletem as montanhas, o lago, a mata e as onipresentes obras de arte, penso na grandiosidade de tudo o que vi e aprendi nestes dois dias, estou cansado mas gratificado, e pretendo voltar muitas outras vezes.