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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O paradoxo e a maratona

Observei em minha vida recente um paradoxo: quando eu morava em Brasília e vinha ao Rio e a São Paulo com o tempo contado, conseguia ver todas as exposições de arte importantes nas duas cidades, além das (poucas) em Brasília. Agora que voltei a morar no Rio, vejo que não consigo me manter atualizado no movimento de exposições na cidade, e também minhas idas a São Paulo estão sendo mais raras.
Para romper este paradoxo, só outra invenção dos gregos, a maratona. E retomei o hábito de dedicar um dia inteiro para ver todas as exposições, ou quase todas, e depois cair na cama morto de cansaço. Valeu à pena, já que eu corria sério risco de perder algumas boas exposições, em seus últimos dias .
Comecei pelo CCBB, que abriu sua Sala A Contemporânea com uma boa instalação da artista Mariana Manhães. São, máquinas, robôs, que se movimentam, gemem, chiam, mostram imagens, um high-tech que é low-tech, com fios, curcuitos, conexões e engrenagens a vista. Impossível não lembrar das máquinas da Rebecca Horn na mesma sala há algumas semanas; irônicas máquinas, nos trabalhos das duas artistas; mas também muitas diferenças, na elegância apolínea da alemã e na brasilidade macunaímica (se é que posso usar estes termos quando falo de mecanismos) da instalção da Mariana.
Ainda no CCBB, retrospectiva da Anita Malfatti, com cerca de 120 obras. Um mistério para mim, a trajetória da artista paulista: das obras fortes do início de sua carreira até os anos 1920, para o trabalho com boa técnica mas insípido e kitsch do restante da carreira. O turning point teria sido o famoso artigo de Monteiro Lobato, Paranóia ou Mistificação; mas o artigo é de 1917 e vemos ainda bons trabalhos de Anita até meados dos anos 1920. Uma leitura feminista talvez aponte como causa o massacre da mulher: família burguesa empobrecida com a morte precoce do pai, uma menina com problemas físicos de nascença (atrofia no braço e mão direita), portanto "incapaz" para um bom casamento, tem que se sustentar através de aulas e de pinturas submetidas ao gosto dos compradores. Muitas outras leituras são possíveis, e nunca este mistério fica tão evidente como em uma retrospectiva.
Na Casa França Brasil, A Céu Aberto, uma exposição com a proposta de criar novos espaços expositivos na instituição, voltados para o exterior do magnífico prédio. Uma frase do artista Leonilson, "Observar e dar chance à minha curiosidade", dá o mote da exposição, que é bem feliz em sua proposta. Os demais artistas são Geléia da Rocinha, Paulo Vivacqua e Smael. Já nos espaços internos, instalações do Chelpa Ferro e do Cadu Costa, exploram a sonoridade.
A instalação do Chelpa é uma versão da apresentada na Galeria Progetti, e a do Cadu é uma gigantesca caixa de música/órgão de foles, com martelos (ferramentas comuns), que, acionados pelo espectador através de um mecanismo giratório, provocam um som de avalanche. Tenho um trabalho do artista, Pour Elise, onde a música de uma caixinha de música é transformada em uma gravura; e vejo neste gigantesco mecanismo como o artista explora sempre de forma precisa e eficaz as ideias de sua pesquisa.
No Centro Cultural dos Correios, revejo a exposição Goeldi, O Encantador das Sombras. Rever é uma maneira de dizer, vi esta exposição em Brasília, no Centro Cultural da Caixa, em uma versão reduzida; aqui, é como ver uma nova exposição:  com muito mais obras, a montagem se utiliza muito bem do amplo espaço da instituição, são feitas oficinas e apresentações didáticas, há um catálogo não muito extenso mas muito bem produzido. E os highlights para mim são a remontagem do ateliê do artista, primorosa, com matrizes de gravuras, instrumentos de trabalho e até, requintes, jornais da época; e a exibição do filme "O Guarda-Chuva Vermelho", feito pela artista Lygia Pape como um tributo ao gravador, ela, também uma artista com xilos maravilhosas. Sim, e o fantástico trabalho do Goeldi, os urubus, os guarda-chuvas, as caveiras, os peixes, os jogadores de cartas e os ladrões, os urubus, um mundo tenebroso e ameaçador, onde o perigo, a morte, vem dos cantos, dos becos escuros, das chuvas, dos objetos que revoam carregados por um vendaval.
Na Galeria LGC Arte Contemporânea, a exposição de Frederico Dalton, Exceções Recorrentes, com curadoria do artista Oswaldo Carvalho. As questões apresentadas pelo artista são muito atuais, por exemplo: "O que significa realmente ser “minoria” hoje?", "A arte ainda pode ser considerada uma situação de exceção?" e ao tratar estes temas usando midias contemporâneas porém ultrapassadas - projeção de slides - o artista faz um contraponto a uma arte integrada, que se coloca sistematicamente up-to-date. Um pouco "vai Carlos, ser gauche na vida", um pouco o low-tech que certamente dialoga com a Mariana Manhães, com o Cadu e o Chelpa Ferro, todos em um círculo de menos de 200m de diâmetro; como dialoga com o Matta-Clark, no Paço há pouco mais de um mês. Mas ao meu ver o parentesco é maior com o artista americano, ao privilegiar os destituídos, as exceções, as minorias, o fusca que se move como uma borboleta, os projetores de slides, o não à obsolescência planejada, ao high-tech, ao mundo pasteurizado onde parece que cada vez mais se está sem alternativa. Uma exceção pode ser uma alternativa, ainda mais se é recorrente.
Uma andada do Corredor Cultural até a área da Praça Tiradentes. O Centro do Rio é mesmo delicioso, principalmente em um dia de sol, mas sem calor; se podemos parar nos camelôs e dar asas à imaginação, se o Halls que em todos os lugares custa 1 real aqui sai por 2 por 1 real, bem, só pode ser mercadoria roubada, mas enfim, encho minha mochila com Halls, o pretinho, o que engasga mais, e chego totalmente engasgado a minha próxima parada:
Largo das Artes, rever a exposição do Gilvan Nunes. O espaço do Largo é talvez o mais maravilhoso dos espaços de galerias de arte cariocas, com a vantagem que é autêntico, não é um loft-Disney. E agora com um algo a mais, o andar de baixo é ocupado por um sebo dos bons que tem um café/restaurante delicioso.
Bom, mas para os artistas, qualquer artista, é um desafio, aquele espaço enorme, o pé direito alto, a área central onde cabe até uma montagem de Aída, com elefantes e tudo. E o Gilvan se saiu super-bem deste desafio, ocupou muito bem o espaço; são pinturas enormes, muito coloridas; serigrafias obssessivamente cheias; pequenas telas; tudo muito bonito, dá vontade de rever, de ter. Lindas pinturas, matéricas, coloridíssimas, ornamentos; algo como uma Milhazes-rascante; as pinturas com apropriações de bibelôs são um achado; e saí da exposição sentindo que tem tudo a ver, o Centro da Cidade, o Saara, o colorido desta cidade tropical e destas pinturas que tudo incorporam e tudo transfiguram em tinta e gesto.
Na Gentil Carioca, Fabiano Gonper, “Do Sujeito. Do Poder. Da Arte”, com desenhos, videodesenhos, fotografias, obras gráficas e uma escultura. Um bom trabalho, coerente, antenado. As pessoas são desenhadas como contornos, esculpidas como manchas bidemensionais; nas obras gráficas o preto invade as figuras, e as relações de poder ficam evidenciadas.

Na Durex, o artista plástico Mauro Espíndola apresenta a exposição "Nactividade", com desenhos e pinturas que lidam com questões de identidade, particularidade e universalidade, a partir de fotografias. Um trabalho bonito e pleno de significados. As relações entre fotografia e memoria, entre pintura e fotografia, entre permanente e efêmero, entre o indivíduo e a família/sociedade, estão muito presentes e são bem resolvidas.
Na Caixa Cultural, uma exposição sobre os móveis do arquiteto Sérgio Rodrigues, bem montada e bem interessante. Gosto dos móveis e tudo o mais do arquiteto, para mim eles tem a cara dos anos 1960, da revista Senhor, do clube Costa Brava, da Garota de Ipanema (o filme), de uma espontaneidade (a Cadeira Mole) que depois foi atropelada pelos anos 1970, pela contra-cultura, pelos hippies, pelas drogas, pelo Pop. E o arquiteto se renova, trocou o jacarandá pelas madeiras certificadas, e está tudo lá, na exposição.
Metrô até Copacabana, uma parada para ver Sergio Allevato na Artur Fidalgo. À primeira vista são aquarelas de botânica; mas olhando bem, o artista enxerta nas formas vegetais outras formas, de personagens da Disney, da Hanna Barbera, da Hello Kitty.
Outras estações de metrô e chego em Ipanema, revejo as Galerias Amarelonegro e Laura Marsiaj, mas, exausto, deixo a Galeria Laura Alvim para outro dia.
Na Amarelonegro, além das coleções de múltiplos que são mostradas por demanda, a boa coletiva Além do Horizonte – Paisagens Contemporâneas, com curadoria da Daniela Name e obras de artistas contemporâneos relacionadas à paisagem: Álvaro Seixas, Bob N, Bruno Miguel, Danielle Carcav, Deborah Engel, Estela Sokol, Gisele Camargo, Leo Ayres, Luiza Baldan, Pedro Varela, Rafael Alonso e Raul Leal. Bons artistas, um bom conjunto e uma boa montagem, aproveitando bem o novo espaço da Galeria.
Na Laura Marsiaj, a exposição “Fechar os Olhos Para Ver”, da Ana Miguel, traz frases gravadas, gravuras e objetos, a temática e as soluções bem próprias do trabalho da artista, me sinto um pouco como a Alice, uma criança enorme em um mundo estranho. No Anexo, em "A Casa Sem Paisagem", Daniel Murgel mostra trabalhos que discutem relações do comportamento do homem com seu habitat, a casa. As duas exposições dialogam entre si, embora bem diferentes, a sutileza da Ana é contraponto à assertividade do Daniel, e se complementam neste diálogo.
Cansado, encerro minha maratona, mas sei que muita coisa ficou de fora e que na semana que vem o dever me chama. Ou o prazer, dá na mesma.

terça-feira, 30 de março de 2010

Sobre xilos e marés

Exposição do artista paulista Fabrício Lopez na Galeria Mercedes Viegas, com xilogravuras em grandes formatos e pinturas sobre papel. Impacto. Recupero no notebook um texto inacabado, que comecei a escrever a partir de minha primeira visão do trabalho do artista.

Há quase um ano, em São Paulo, na exposição "Rumos Artes Visuais - Trilhas do Desejo", no Itaú Cultural, uma xilogravura prende minha atenção. Não é uma xilogravura tradicional, está longe da visão mental que fazemos ao pensar em “xilogravura”.

"Rema, Rema, Remador" tem 3x4m, ocupa uma parede inteira onde está colada diretamente, sem moldura, tem cores e formas inusitadas, repetições, sobreposições, veladuras, o resultado é mais de pintura do que de xilogravura. Verdes (verde esmeralda, verde musgo, verde cana, muitos mais), vermelhos, sombras, negros; um mar, formas de um barco; e a escala que domina o espaço em torno, como uma instalação, como uma maré que invadisse a sala e a Avenida Paulista.

Valongo, a exposição individual do artista na Estação Pinacoteca, que vejo logo em seguida, no mesmo dia de uma viagem “bate-e-volta” BSB-SP-BSB, é para mim ainda mais marcante. O título faz referência ao bairro onde o artista tem seu ateliê, na cidade portuária de Santos, um bairro industrial dedicado à atividade de torrefação do café no período de auge da produção cafeeira paulista.

Uma xilogravura monumental é o centro da exposição, com formas e elementos que se repetem e se espalham por outras xilogravuras. As matrizes são exibidas, não com a preocupação didática de explicar a técnica, e sim como obras, se misturam e dialogam com os papéis. Letras, palavras, frases aparecem em meio as imagens, porém não ilustram nem elucidam, são pura carga poética e gráfica.

A mostra na verdade é como uma instalação, como uma ópera, onde canoas, pássaros, flores, portas, cabeças são leitmotivs, em meio a uma massa densa de cores e perspectivas fragmentadas, um espaço que se forma e se destrói, revelando e ocultando uma paisagem de cais, de mar, de um horizonte que se intui e que nos escapa, de um infinito que nos desafia e nos ilude, de uma busca sem fim, de novo como as ondas de um mar que pensamos dominar mas que sempre nos foge e que na verdade nos domina.

Assim, ao conhecer, em 2009, as xilos do Fabrício, o tema “xilogravura” entrou em minha pauta mental. E como nada é por acaso, elas, as xilogravuras, apareceram no circuito de artes em muitas mostras, exposições que no todo formam um apanhado de várias vertentes desta técnica na arte brasileira.

Claro que esqueço algumas, e apesar de minhas tentativas de ubiquidade não vi todas, mas em rápido refresh de memória lembro as gravuras de cordel (A Arte de J. Borges: do Cordel à Xilogravura); Luz Noturna, pequena mas importante retrospectiva da obra do Goeldi, pequena já que sua obra gigantesca sempre desafia limites, como o céu negro de suas pequenas gravuras cresce muito além do papel e se projeta no espaço. Ainda, a exposição de Hansen-Bahia, com obras recentemente restauradas do artista alemão radicado no Brasil na década de 1950; a importante exposição do Rubem Grilo, com cerca de 180 trabalhos do artista, que aliou um trabalho de cunho político a pesquisas formais e a um perfeccionismo na execução; os trabalhos iniciais da Anna Letícia, os bichos, em xilo, fortes e que apontam para o desenvolvimento da obra da artista na gravura em metal; todas estas exposições na Caixa Cultural.

Na Pinacoteca, a imponência das massas gravadas em madeira pela artista Maria Bonomi. Na SP-arte conheci o trabalho de outro artista da nova geração de gravadores, o Ulysses Bôscolo, paulista, que constrói em sua bancada de marceneiro caixas de madeira reaproveitada para suas xilogravuras.

E finalmente, a mostra da coleção de George e Monica Kormis, também na Caixa Cultural, uma enciclopédia da gravura brasileira e em particular da xilogravura. Completa, estão todos lá: Segall, Goeldi, Lívio Abramo, Samico, Lygia Pape, Roberto Magalhães, Elisa Bracher, até a série/políptico feita pela Fayga Ostrower para o Itamaraty, talvez o ápice da xilogravura abstrata no Brasil (e onde aparece, de forma pioneira na Brasil, a monumentalidade que vai explodir na obra do Fabrício).

Na exposição no Rio, quando revejo o trabalho de Fabrício e conheço, conversando com o artista, mais sobre seu percurso e seu processo de trabalho, releio os fragmentos que escrevi e volto a pensar em como esta técnica artística pode se manter a mesma, com toda sua tradição; e ao mesmo tempo, se renovar, ser absolutamente contemporânea apesar dos séculos.

Nada mais antigo do que entalhar madeira para reproduzir e disseminar imagens; e nada mais contemporâneo do que as xilos monumentais que Fabrício desenvolve; cópias únicas, matrizes modificadas e reutilizadas, uma paleta de cores “de pintura” em tintas desenvolvidas especialmente para o artista; repetições, sobreposições e veladuras; podemos falar de gravuras ou de pinturas? e pela monumentalidade, não estaríamos já no campo das instalações?

Ao mesmo tempo, estas características tão contemporâneas são também procedimentos “da xilogravura”: as tintas especiais utilizadas são tintas gráficas; as matrizes de madeira reaproveitadas, as folhas de papel coladas diretamente na parede como affiches ou papéis de parede, até a escala monumental já aparecem na história da técnica (aprendo com Fabrício que, já no Século XVI, uma gravura de Ticiano, A Travessia do Mar Vermelho, foi feita em 12 folhas que, juntas, chegam a 2,20 x 1,20m). A utilização destas características “históricas” com uma visão contemporânea marca o trabalho e a pesquisa do jovem artista.

A presença das pinturas ao lado das xilos como que mostra que não há, em seu trabalho, barreiras entre as técnicas. Vindo da pintura e da cenografia, Fabrício um pouco que inverte o usual: mostra gravuras grandes (as menores medem 1x0,70m) ao lado de pinturas em menor escala (52x50cm). Todas, gravuras e pinturas, são sobre papel e são obras únicas. Todas apresentam a mesma temática, o mar, as canoas, pessoas como coadjuvantes de uma história atemporal de cais e de marés. E a mesma paleta, linda (é possível falar de um xilogravador que ele é excelente colorista?): os verdes, os vermelhos, os ocres, os sombras.

Sigo pensando nas tantas exposições de xilogravura, e como, em algumas delas, no trabalho de artistas esta técnica foi empregada com tanta força e tão dentro do espírito da época, que a xilo se tornou imediatamente identificada com este mesmo zietgist. É o caso das gravuras de cordel e também dos trabalhos expressionistas, que tanto marcaram os anos 1950, das gravuras abstratas dos ano 1960 ou dos trabalhos com cunho fortemente político que retormaram a figuração nos anos 1960-70.

E penso em uma xilogravura diferente, renascida, contemporânea, nesta primeira década do terceiro milênio, e que no futuro talvez seja marcante ao pensarmos na imagem da época que ainda não bem entendemos.

No caminho Gávea-Ipanema o vento do mar me leva a Santos, ao cais do porto, às marés, às pequenas canoas e aos navios embarcados com sacas de café torrado, aos verdes esmeralda e verdes azulados, chego a quaqse sentir o cheiro forte do café misturado ao cheiro de maresia, eu sei, a História da Arte acabou, mas também sei que há uma outra história que continua, e que xilogravuras podem ser arte contemporânea, uma blitz, por favor senhor, vá em frente, obrigado, obrigado, pode seguir. OK. Coloco meu CD do Philip Glass no volume máximo e sigo, rumo a Ipanema, ao mar, ao cais do Valongo, sempre em frente, para o alto e rumo ao infinito.


E mais:
A foto do vernissage é do Odir Almeida, mais fotos no site Só Arte Contemporânea
Para ver o blog do Fabrício Lopez, Ateliê Santos
Comentei neste blog a exposição do Rubem Grilo na Caixa Cultural, clique aqui para ler o post
Clique aqui para o texto de Maria Luisa Luz Távora, Fayga Ostrower e a Gravura Abstrata no Brasil, com análise sobre o pioneirismo da artista no Políptico do Itamaraty em termos de monumentalidade na xilogravura
Clique aqui para o Instituto Fayga Ostrower
CordelOn, site sobre literatura de cordel, com textos e imagens de xilogravuras de cordel
Plataforma, o blog do artista Ulysses Bôscolo



sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Fernanda Figueiredo & Eduardo Mattos


Ontem, 5a.feira, inauguração da exposição da dupla de artistas Fernanda Figueiredo & Eduardo Mattos, na Galeria Movimento. A Galeria agora conta com o artista Walton Hoffmann como sócio e curador, o que sem dúvida é um up-grade, já que Walton, além de artista firmado pelo trabalho bom e consistente, possui conhecimento e capacidade agregadora que certamente vão impulsionar a programação da Galeria e seus resultados nesta nova fase.
Fernanda e Eduardo são jovens artistas paulistas. Fernanda começou a trabalhar, ainda na Faculdade (FAAP) com a própria pele como suporte, e logo chegou ao batom como "lápis" para seus desenhos, como tatuagens descartáveis, eternizadas através de fotos. Já Eduardo é formado em Cinema, também pela FAAP, e logo o que era simples colaboração entre o casal (ela desenha e ele fotografa) passou a ser mais, um verdadeiro trabalho em dupla, desde a concepção até o produto final.
E que produto final! As fotos são fantásticas, o batom entra como traço e tinta mas também como sangue e carne, como brilho e âncora para as tonalidades usadas, para o claro-escuro de pintura renascentista.
O erotismo aparece de forma extremamente refinada, a dualidade dos sexos é explorada nos símbolos desenhados (soldados com armas em riste espreitam uma mulher, casais que parecem ter saído de um Carlos Zéfiro pós-moderno, mãos que se procuram e se tocam...) mas principalmente no suporte dos desenhos, a pele; e nos membros femininos que se agigantam, em closes que revelam os poros e a pequena penugem alourada, em olhares e gestos que unem fotos isoladas em dípticos, em instalações.
Ainda, em 8 desenhos sobre papel de Fernanda, um registro das tatuagens (permanentes) do casal, desenhos que também cativam pela delicadeza e precisão.
Ao contrapor a permanência da tatuagem à volatilidade do batom, e ao registrar as efêmeras tatuagens utilizando fotos em uma linguagem tão clássica, os momentos se eternizam, e o erotismo se mostra como é, como transcendência, como eternizar o momento do gozo, que prenuncia a morte (como as vanitas que, pelos desenhos, sabemos que Fernanda tem tatuadas sobre os pés) mas que a vence, quando o homem é deus por ser criador. Como na arte.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

James Kudo, Telúrico


Na Galeria Laura Marsiaj, a exposição Telúrico, do artista James Kudo, mostra 11 obras, sendo 4 pinturas,  5 desenhos e 2 objetos. A curadoria é do Marcelo Campos, que escreve um belo texto de apresentação. No Anexo, fotografias de Magnus Vaena.
O título Telúrico (do dicionário, "telúrico - te.lú.ri.co - adj (teluri+ico2) 1 Relativo ou pertencente à Terra.") nos remete à natureza, a um cheiro de terra molhada, de folhas caídas e de cogumelos brotando, para mim um clima até meio hippie, anos 1960, ou mesmo século XIX, Thoreau...

Mas o artista utiliza de forma bem diferente os elementos ligados à terra, à natureza: pássaros, cogumelos, troncos de árvores, água... com uma estética que está longe de ser hippie ou back-to-basics, pelo contrário, é uma estética totalmente contemporânea, do terceiro milênio, que tem parentesco com os comics, com uma visão da cultura de massa e de apropriação e transfiguração do kitsch. Uma visão bem pessoal e lírica, e ao mesmo tempo universal e contemporânea. Sim, e com uma técnica perfeita, perfeccionista, um desenho que é desenho, bom desenho, pintura que é pintura da boa, e objetos impecavelmente construídos.

Os pássaros dos desenhos não voam, são cabeças e bicos de pássaros, delicadamente desenhados, que brotam, como cogumelos, de galhos de árvores; ou são silhuetas apenas, como recortadas de lambris imitando madeira (na veradade, pinturas em guache mimetizando os veios da madeira, não da madeira mas de seu simulacro em plástico, em fórmica, em contact).
Os cogumelos que brotam nos desenhos e nas pinturas, que se transformam em balões de comics, flutuantes, em padrões/cores diferenciados, em frente a uma floresta de sombras de árvores; os mesmos cogumelos, em um objeto, brotam, feitos em mármore, de um tronco (de madeira "de verdade"?), pintado em padrão camuflado: o fugaz e perecível cogumelo, feito no material eterno das esculturas; em um tronco que, com a pintura, se transforma em uma representação em plástico de um tronco, onde o camuflado é também uma representação das folhas de outono.

A água, toda a umidade de uma floresta, se junta em caudalosas quedas domesticadas em um represa; mas a imagem é um ícone, a represa tem a textura de madeira, e a água é um azul-celeste chapado, imobilizado; ou manchas de azul, delimitadas em retas e ângulos, em tinta bem espessa, eu sou uma pintura; ou círculos de laca branca envolvendo, estáticos, uma casa e uma torre também em puro branco. Ou estes círculos não são água e sim nuvens, castelos nas nuvens?
Telúrico.
Telúrico, sim, mas uma natureza mutante, onde nada é o que parece, onde os objetos sempre apontam ou mimetizam outros. Onde nada é extático, tudo muda, brota ou decai, inspira ou expira, flui, brilha, e mesmo morto se renova em outro ser.

É como ler Metamorfoses, de Ovídio, e viajar em um tempo onde os deuses se transformavam em cisnes, em chuvas de ouro, e os mortais podiam se transmudar em árvores ou ser transformados, por castigo, em cervos ou em cortiça... mas ao mesmo tempo este tempo não é lá, em um passado longínquo, e sim aqui e agora, o mundo mágico ainda existe e está ao alcance de quem o busca, de quem o merece, de quem o recria, como James Kudo.

Mais:
Registros do vernissage nas fotos de Odir Almeida

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Jorge Guinle no Rio de Janeiro

Hoje a abertura de Belo Caos, exposição retrospectiva do pintor carioca Jorge Guinle, no MAM-Rio. A exposição, que tem curadoria de Ronaldo Brito e Vanda Klabin, esteve antes em São Paulo, no MAM-SP (onde eu a visitei, magnífica, e comentei aqui no blog) e na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Por pouco não veio ao Rio, ao que consta por falta de patrocínio. Felizmente para todos nós, cariocas, especialmente os que puderam conviver com Jorginho em sua curta porém intensa e produtiva carreira, esta questão se resolveu e a exposição, que no Rio está ampliada com mais 19 telas, está abrindo no que seria  a sua verdadeira casa, o nosso MAM. Entre as novidades da montagem do Rio, a monumental "A Última Pincelada", com 2x3,40m, que pela primeira vez sai da residência do colecionador João Sattamini.
A epígrafe da exposição é um texto do Ronaldo Brito, que diz muito sobre Jorginho e sua pintura: "Por uma questão de justiça poética, já que o artista partiu tão cedo, as telas de Jorge Guinle decidiram permanecer jovens. Fisicamente até, elas passam a impressão de tinta fresca. Irradiam sempre a mesma vontade de pintar, a mesma vontade de viver, continuam a provocar, a agradar e a desagradar."

E, em paralelo, a Galeria Mercedes Viegas abre no dia 22, próxima 3a.feira, uma exposição dedicada ao artista. Mercedes, que tem formação em museologia, consegue apresentar em sua galeria uma programação que eu diria institucional, intercalando com a programação mais de galeria mesmo, voltada para a arte contemporânea. Foi o caso da exposição do Amilcar de Castro, uma concisa retrospectiva do escultor, e agora certamente o da exposição sobre o Jorge Guinle, que complementará a grande exposição no MAM.

Leia aqui meus comentários sobre a exposição Belo Caos no MAM-SP

terça-feira, 2 de junho de 2009

Poligrafa na Gravura Brasileira


A Galeria Gravura Brasileira, de SP, agora comercializa as gravuras da Polígrafa, importante impressora de Barcelona que, além de livros de arte, edita gravuras de importantes artistas como Francis Bacon, Christo, Daniel Senise, Tunga, Nelson Leirner, Guillermo Kuitca, León Ferrari, Helen Frankenthaler, Tapies, Liliana Porter, entre muitos outros. A Gravura Brasileira já conta com importante acervo e representa bons artistas, entre os quais destaco os paulistas Claudio Murbarac, Fabrício Lopez e Ulysses Bôscolo (cujas obras são mais difícieis de encontrar no Rio), e agora, com esta parceria com a gráfica espanhola, amplia muito sua oferta de boas obras.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Coletiva na Galeria Mercedes Viegas

Como há alguns anos, a Galeria Mercedes Viegas exibe uma mostra coletiva, com um apanhado dos artistas representados pela galeria e também do acervo. Não funciona só como um retrospecto das exposições do ano que passou e uma prévia do ano seguinte, já que apresenta, ao lado de obras novas, trabalhos mais antigos; em diversos meios; sempre um grande número de artistas e trabalhos; e a boa montagem tira partido desta diversidade. Este ano uma surpresa interessante: um espaço que funciona como reserva técnica da galeria está aberto e mostra um acúmulo de trabalhos - nas paredes, do chão ao teto e mesmo acima da porta, em uma mesa baixa de centro. É quase como uma pequena sala abarrotada de ex-votos; mas a coisa funciona, a sensação é de que o espectador "invadiu" um arquivo que está oculto a maior parte do tempo. São 32 artistas, entre eles: Rubens Gerchman (logo na entrada, um trabalho maravilhoso, uma construção em madeira com a moldura de vidro da Lindonéia enquadrando uma linda pintura; e um pequeno beijo na reserva técnica), Antonio Dias, Daniel Senise, Ivens Machado, Bechara (um lindo tríptico, em vermelho e e oxidações), Sued, Waltércio, Ângelo Venosa (uma linda escultura grande e um múltiplo, em lâminas de MDF), Daniel Murgel, Marta Jourdan (um bule dourado que "vomita" metal), Ricardo Ventura... muitos mais. Uma boa exposição e, no sábado quando visitei, com boa frequencia mesmo com a concorrencia de um lindo dia de sol e praia no Rio.

quarta-feira, 7 de julho de 2004

Exposição do Chico Cunha

Inauguração ontem da exposição do Chico Cunha, meu colega de Parque Lage nos idos dos anos 1980 e hoje meu professor de pintura no mesmo Parque Lage, na Galeria Anna Maria Niemeyer. Uma boa exposição: 8 telas grandes (fotos das telas estão no "site" da Galeria), quase monocromáticas, com algumas figuras fantasmagóricas como que saídas de velhas fotos preto&branco ou de memórias desvanecidas, vagando entre formas dúbias magistralmente contruídas com texturas e pinceladas de óleo e encáustica. E alguns desenhos, de pequeno formato: silhuetas sobre restos de antigos mapas.

domingo, 13 de junho de 2004

Luiz Pizarro

Exposição do Luiz Pizarro na Galeria Anita Schwartz, na Barra. Bom trabalho, boa pintura, uma retomada à força e à qualidade da pintura do Luiz Pizarro da década de 1980 (Geração 80). Ele retoma o tema do corpo, usando lutadores. O tratamento faz uma textura quase de pedra, que se contrasta com as cores – azuis, vermelhos, violetas... – delicados como asas de borboletas...