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domingo, 27 de junho de 2010

O Projeto Acervo (e a lua cheia)

O convite veio meio misterioso, sem data e local. Mas logo depois recebi email do Leonardo Videla esclarecendo: a primeira edição do Projeto Acervo que seria feita na casa do colecionador, um espaço privado, com isso não seria tão aberto como os anteriores, a maioria feita no fantástico Espaço Bananeiras.
Sou um fã do Projeto Acervo, sou um feliz colecionador de uma edição (apresentada no Bar do Mineiro, também em Santa Teresa), acho uma ótima alternativa para romper o viciado circuito artístico, veiculando trabalhos de qualidade para novos colecionadores. O trabalho que o Leo Videla faz, de colocar lado a lado os artistas e os colecionadores, sem interferência do mercado, mas ao mesmo tempo sem detonar o mercado e sim entrando em um nicho, em uma lacuna deste mesmo mercado, é ímpar. E os resultados estão aí: 2 anos de Projeto Acervo, uma fila de espera de pelo menos 6 meses, artistas que fazem a diferença, colecionadores que também fazem a diferença; e cada vez mais, ousadia.
Enfim, um táxi (eu que não vou mais de carro para a night, a Lei Seca é feroz e eu acredito nela) que nos leva do Corneteiro (aggrrhh) da Visconde de Pirajá até o Curvelo. O portão é misterioso, mas é o numero que eu tenho; o táxi não pode subir; OK, subo a ladeira, resfolegando, no meio da mata aparecem construções modernistas, meu deus, será que estou no parque da Glass House? mas a paisagem é linda, as árvores, um bosque, mata atlântica, bem mais viçosas que na Glass House.
Aqui estamos, é um sábado a noite, o táxi nos deixou na entrada, subimos a pé uma ladeira fatal para os cardíacos. No meio da mata, aos poucos, vemos uma casa, moderna, concreto, espaços. Como pronta, como a fazer, como um vir-a-ser, sobre o morro, vigilante, cúmplice da luz cheia, guardiã de uma vista que mostra, de um lado, o centro da cidade com a ponte Rio-Niterói e uma promessa de montanhas e Dedo de Deus em dias de céu claro e do outro, um Pão de Açúcar majestoso.
A casa é linda, maravilhosa; e a coleção do Projeto Acervo está lá, em frente de uma parede de concreto. Ah mas a inveja mata e enterra; eu sempre achei que a minha edição do Projeto Acervo era o máximo, quando vejo uma nova edição fico louco. Fico louco mesmo, de inveja, de ódio, de ciúme, todas as emoções... vendo o objeto do Fernando de la Rocque, vendo o objeto sonoro do Franz Manata e do Saulo Laudares, vendo o desenho do Pedro Varela... Claro que nesta hora eu rezo a Deus, peço perdão, me lembro de como minha edição também foi excelente; mas colecionadores são assim, nunca satisfeitos.
Beleza, vamos beber um vinho, vamos conversar, vamos olhar a lua cheia que está colocada exatamente na linha do projeto de arquitetura, na verdade parece que a luz cheia é um adereço da casa. Vamos conversar sobre arte, sobre desejos, sobre a vida.
Escrevi algumas vezes aqui no blog sobre o Projeto Acervo, que mantém sua proposta e a cada edição me surpreende. Feliz o colecionador, que leva trabalhos de alta qualidade por um valor bem menor que o mercado cobraria; e trabalhos que tem uma ligação, uma curadoria, que aparece na exposição mas que ao mesmo tempo não é excessiva
Estão eles lá: a casa, clean; a arte; o conviver. Melhor que isso só dois disso. Quero dois, quero mil, um milhão. Enfim.
É a casa do colecionador, é o Projeto Acervo em sua primeira edição na casa do próprio colecionador. E que edição. Os artistas: Alexandre Vogler, Ana Holck, Arjan Martins, Fernando de La Rocque, Franz Manata e Saulo Laudares, Guga Ferraz, Leo Videla, Luiza Baldan, Pedro Varela e Tatiana Grinberg.
A história da casa: recente, nestes primeiros anos no terceiro milênio, o casal procura uma casa para comprar, em Santa Teresa onde sempre moraram, em apartamentos alugados. Procura uma casa antiga, para restaurar, bem no clima do bairro. Não é fácil, um dia encontram um terreno, um super terreno que sobe por uma encosta e, a cavalo desta, tem uma face para o centro e outra para Botafogo: de um lado a Ponte Rio-Niterói e em dias limpos até o Dedo de Deus; do outro o Pão de Açucar; no terreno, uma ruína apenas; e um desafio: construir uma casa, uma vida. Um colega de trabalho vê em uma revista obras de um arquiteto paulista, mostra a revista; ele marca um encontro, o arquiteto vem ao Rio, sobe a Santa Teresa, anda pelo terreno, sente o cheiro das árvores, navega pelo visual. Semanas depois o arquiteto marca outro encontro, vem de carro e traz um objeto: uma maquete do que ele pensava como solução para a casa.
A maquete é um determinante, ela se impõe mais que um jogo de plantas, ela é uma promessa e uma esperança, e assim o negócio se fecha. Cercado de críticas: como uma casa de arquitetura modernista em pleno enclave de arquitetura colonial? Como uma casa de arquitetura paulista em pleno Rio de Janeiro? Como, como, como? As críticas dificultam o andar da obra, a comunidade de Santa Teresa reivindica um projeto mais dentro da arquitetura tradicional... mas o casal segue em sua tarefa, construindo o que para mim é um monumento, uma obra prima da arquitetura.
O Rio na verdade acaba tendo poucas obras-primas de arquitetura, e desfigura as que tem, em um processo autofágico. O Rio é maravilhoso, a paisagem é linda, a montanha e o mar; e confia nisso, não cuida de sua arquitetura, desmonta coisas que deram certo, deixa a pobreza e a irregularidade invadirem bairros interessantes (a Gávea, por exemplo) e depois tem soluções urbanísticas de quinta categoria. Neste processo louco, Santa Teresa é um bairro que resiste, muito por conta dos moradores, tudo contra todos. A luta pelo bondinho é um exemplo, o poder público adoraria desligar o bondinho, trocá-lo por linhas de ônibus que trazem mais caixa 2 para as eleições; mas aqui não, Santa Teresa resiste e o bondinho permanece.
Da casa podemos sentir, do lado direito, outra boa ocupação do morro que foi a Chácara do Céu, do Castro Maia, hoje um museu; abaixo, na direção do Centro da cidade, lembramos de outra boa ocupação de um terreno em Santa, a casa/ateliê do artista José Tannuri. Sem medo de ser feliz eu poderia dizer que são os pontos altos arquitetônicos deste bairro, tão carioca e ao mesmo tempo tão modernos ou contemporâneos.
Fico muito feliz de estar nesta casa, bebendo um vinho e tomando um caldinho de feijão, conversando com os simpáticos donos da casa, com o Leo Videla, com os artistas. Penso que a vida é isso, e que existem alternativas, fora do viciado circuito de arte, para veicular trabalhos artísticos. Que arte e vida estão juntas, e se completam, mas que é muito difícil cuidar disso agora, nestes anos 10 do terceiro milênio; que ser artista é isso, batendo nas grades, tentando expandir espaços, derrubando as grades que nos prendem, as grades que são mais fortes quanto menos visíveis. Uma arte que venha não para validar o que está aí e sim para questioná-lo, para ser uma fissura no estabelecido, para ser o que falta, o que mina as estruturas, o que pergunta.
A lua está cheia e seu brilho cai sobre a piscina como uma noite de prata. Os objetos de arte do Projeto Acervo adquirem vida própria e se espalham pela casa pós-moderna, como objetos, como náufragos, como coisas.
Respiro fundo, a noite é fatal. A casa fica, as obras de arte ficam, mas tenho que ir embora, é tarde e tenho compromissos para o domingo. Um adeus me diz que estive em um momento fora da minha realidade, e que esta é uma realidade em paralelo. Gosto. Gosto muito.
Respiro fundo, sigo a trilha de volta, no caminho para casa. Bom. E perfeito, é a vida.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

De volta ao Rio

O corpo moído pelas 12 horas de voo com a conexão, em cadeira apertada da classe econômica (nada que a sessão de RPG de hoje não tenha resolvido), o cansaço de ter que ver e fazer tudo em uma viagem de apenas 12 dias. Não consegui escrever nada no blog, paciência, fico devendo, escrevo a partir de hoje, tanta coisa para contar.
Uma estranheza em caminhar nas ruas (Ipanema é linda mas está tão suja!), em ler o jornal (Dilma leva sua maquiadora para as viagens internacionais, nada diferente do que a Dulce Figueiredo fazia).
E já me programando para ver neste resto de semana as exposições em cartaz (uma boa programação, em especial Rebecca Horn no CCBB e Gordon Matta-Clark no Paço Imperial) e também para os eventos do próximo sábado dia 29:
1- Nova edição do Projeto Acervo, desta vez com obras de Amália Giacomini, Clarissa Campello, Débora Engel, Fernando de La Rocque, Geraldo Marcolini, Laura Lima, Leonardo Videla, Marcos Chaves, Raul Mourão e Romano
2- Inauguração na Galeria Progetti de uma exposição coletiva com obras de AoLeo, Bettina Vaz Guimarães, Elisa Castro, Jimson Vilela e Vivian Caccuri
3- Entretempos, coletiva no Largo das Artes com obras de Fernando Azevedo, Flavio Colker e Leandro Pereira
Ufa!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Do virtual ao real e de volta, mais uma vez

É uma tendência bem atual. Apesar, ou mesmo por causa, do sucesso de eventos do circuito tradicional de artes (galerias, leilões, feiras de arte), os artistas buscam novas alternativas para veicular seus trabalhos.
Uma destas iniciativas, no Rio, é o Projeto Acervo (já escrevi aqui no blog sobre este projeto algumas vezes), que foi inspiração para galerias comerciais em projetos com formato semelhante, como a Galeria Arte em Dobro, já na 3ª. edição de sua Coleção.
Outras iniciativas bem interessantes, e com bom retorno, estão baseadas na internet e nas redes de relacionamento, conceitos e realidades bem contemporâneas.
Um exemplo é o da Galeria Motor, uma galeria virtual de arte que, lançada no início de 2010, funciona acoplada ao site de compras Submarino, a partir de iniciativa da Galeria Nara Roesler (SP), com apoio de dez outras galerias do Rio e São Paulo. Na SP-arte esta galeria estava presente com um stand, com vendas, fazendo uma bem sucedida passagem do ciberespaço para o espaço real da feira. Mas a Motor não é, como vimos, uma iniciativa dos artistas e sim de empresas já consolidadas (o Submarino e as galerias) no sentido de busca de novos consumidores de arte, através da internet.
Já no Rio, a utilização das redes de relacionamento para veicular o trabalho de artistas e promover vendas de arte surgiu a partir da iniciativa dos próprios artistas, com a criação da FaceArte, que funciona como um “perfil” no Facebook. Os portfólios dos artistas ficam armazenados como álbuns do Facebook, a divulgação segue o formato de mensagens e eventos do site, e as vendas são negociadas por email.
Além das atividades de divulgação de obras e artistas, FaceArte também se mobiliza em situações de comoção (terremoto no Haiti, chuvas no Rio), na forma de “leilões” virtuais de trabalhos de arte com a renda revertida para as campanhas de doação.
E agora, FaceArte também faz uma passagem bem sucedida para o mundo real, com a exposição Formatos, que abriu ontem no Espaço Crânio, no Rio. É a chance de ver “ao vivo” as obras que estão expostas no espaço virtual do Facebook, conversar com os artistas e organizadores, e o público reagiu bem, enchendo a galeria e comprando. O sucesso no mundo real certamente vai alavancar a atuação virtual de FaceArte.
Utilizando sistemas pré-existentes (todo o software e infra-estrutura do Facebook, já disponível gratuitamente), sistemáticas próprias leves (contato com clientes por email, remessa de trabalhos por Sedex, captação de novos fornecedores/artistas e consumidores/colecionadores através da própria rede de relacionamento), e criando uma imagem virtual positiva (bom gosto, contemporaneidade, preocupação social), FaceArte pode ser descrito como um case de sucesso em e-commerce.
Apesar do crescimento e consolidação do mercado de arte no Brasil nas últimas décadas, ele ainda é muito fechado, com muito personalismo e jogos de poder e de interesses. Desta forma, estas iniciativas são importantes para os artistas que conseguem, sem entrar em guerra com as instituições, como era usual nos anos 1970, ampliar suas alternativas.



O link para FaceArte é: http://www.facebook.com/facearte
Fotos do vernissage da exposição estão no site Só Arte Contemporânea

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Projeto Acervo, 15a. edição

 A inauguração da 15a. edição do Projeto Acervo, no Espaço Bananeiras, foi na segunda-feira dia 08. Como nas outras edições, uma festa, com trabalhos de qualidade e também, perfeito para o calor do Rio, deliciosas batidas de frutas (a de frutas vermelhas é o máximo!).
Os artistas participantes são:
Adriano Melhem, com uma bonita pintura em pequeno formato, um rosto de criança quase monocromático, com obliterações em branco;
Alexandre Vogler, interferência (auto-retrato) em uma cédula de R$2,00, um trabalho irônico e tecnicamente perfeito;
Anna Linnemann, um objeto (garrafa de plástico de Coca-Cola) com os cortes em fatias, característicos da pesquisa desenvolvida pela artista, O Mundo como uma Laranja, que submete objetos do quotidiano a tratamentos de corte semelhantes aos feitos na preparação de alimentos em cozinha;
Cadu, com a gravura feita pelas marcas de uma caixinha de música que toca Pour Elise, de Beethoven, um conceito perfeito, execução impecável e resultado muito bonito;
Gustavo Speridião, bonita pintura, em pequeno formato, no tema da nuvem, um dos temas constantes do artista;
Gisele Camargo apresenta uma variação da série Panavision, desta vez um díptico, com telas em dimensões diferentes, inclusive a espessura do suporte, montadas sem intervalo entre elas. Com isto a sensação de fragmentação da paisagem em infinitas partes, uma característica da série, dá lugar a uma composição mais maciça e com outro ritmo, menos regular, ao explorar esta terceira dimensão que vem das diferenças nos suportes;
João Modé, uma bonita fotografia, linhas marcadas com giz ligando pontos no chão que me remetem às stoppages do Duchamp;
Leonardo Videla, uma fotografia da série das plantas arquitetônicas que se transformam em caixas, uma pesquisa do artista que sempre apresenta evolução, como vimos na exposição do artista na Galeria Laura Marsiaj;
Maria Lynch, em sua primeira participação no Projeto, uma pintura com cores fortes e tinta espessa, trabalho de impacto e bem característico da artista;
Marcos Chaves, com uma imagem que é a capa do livro sobre sua obra, enormes letreiros sobre um edifício expõem, monumentais, a palavra Chaves, provavelmente uma marca ou empresa mas também sobrenome do artista. Bem característica da pesquisa feita pelo artista ao descobrir e fotografar situações inusitadas em cenas do quotidiano aparentemente banal, como as fotos dos esfregões que estiveram em Retratos, recente exposição na Galeria Artur Fidalgo.
A montagem, do Leo Videla (idealizador e curador do Projeto), flui bem, em um white cube com janelões de vidro, surpreendentes, dando visão para a paisagem de enormes bananeiras. E constato que. em cada nova edição do Projeto, se mantém e se consolida o nível de qualidade. Leo sempre consegue incorporar artistas novos, e os artistas que participam de mais de uma edição tem sempre a preocupação de apresentar trabalhos/propostas diferentes.
É uma grande realização chegar a esta 15a. edição, 2 anos de trabalho, sem apoio de nenhuma instituição, apenas com a vontade do Leo e dos artistas em divulgar seu trabalho e em ampliar o circuito de arte, possibilitando que novos colecionadores tenham acesso a trabalhos de qualidade.
Uma sugestão é aproveitar este marco para pensar em registrar o passado, as 15 edições, em um catálogo, afinal são 150 trabalhos, 15 colecionadores, grande número de artistas, e um registro permite preservar esta memória, rever o já feito e pensar o futuro.

Para ler sobre as outras edições do Projeto Acervo, procure pelo marcador (Projeto Acervo)

Clique aqui para ler meus comentários sobre a exposição do Leonardo Videla na Galeria Laura Marsiaj e aqui para os comentários sobre Retratos, exposição do Marcos Chaves na Galeria Artur Fidalgo

Mais comentários sobre o trabalho do Leonardo Videla clicando aqui (Janelas) e aqui (Churrasqueiras)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Nova edição do Projeto Acervo

Convite para a nova edição do Projeto Acervo, iniciativa e curadoria do artista Leonardo Videla, na próxima 6a.feira dia 11 no Espaço Bananeiras. Desta vez os artistas participantes, um time fantástico, são: Ana Miguel, Álvaro Seixas, Geraldo Marcolini, Guga Ferraz, Joana Traub Csekö, Leo Videla, Leo Tepedino, Marcos Abreu, Ricardo Basbaum e Suzana Queiroga.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Nova edição do Projeto Acervo


Leo Videla promove a inauguração, no próximo dia 22, um sábado, na Rua Visconde de Caravelas, da nova edição do Projeto Acervo, em paralelo a uma individual de Leonardo Tepedino.
São estes os artistas que participam desta edição do Projeto: Brígida Baltar, Cadu Costa, Gabriela Machado, Gisele Camargo, James Kudo, Leonardo Videla, Luiza Baldan, Marcos Chaves, Rafael Alonso e Vicente de Mello. Como das edições anteiores, um time de primeira.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Inauguração do Projeto Acervo (O Colecionador)





Espalhados harmonicamente sobre uma parede de azulejos brancos com detalhes em azulejos anos 50, os dez trabalhos da edição do Projeto Acervo. Foi a inauguração desta edição, na 2a.feira dia 15, no Bar do Mineiro, em Santa Teresa, que abriu especialmente para a festa. Os trabalhos tinham como companhia a decoração do bar, onde, em meio a objetos característicos "de bar", estão obras de arte como um São Jorge em resina, do Farnese da Andrade; um objeto da série dos ovos, do Antonio Manuel; uma parede com dezenas de pinturas, quase ex-votos, da artista Miriam; uma foto do Thomas Struth; um Radiant Baby do Keith Haring; e muitos outros, parte do que o Diógenes, o dono do bar e colecionador (talvez o maior colecionador particular brasileiro do Volpi) acumula em tantos anos de bar e de visitas a ateliês brasileiros e internacionais.
Em suma, o lugar perfeito, que transmite a paixão pela arte e pelo colecionismo, para o Projeto Acervo, que tem como objetivo estimular novos colecionadores, propondo novas formas de interação artista-colecionador.
E lá estão eles, as estrelas da noite, os dez trabalhos, curadoria do Leonardo Videla e montagem do Leo e da Gisele Camargo. Os artistas, quase todos presentes; e muitos outros artistas também, de várias gerações, compartilhando da experiência e da surpresa do Colecionador ao ver, pela primeira vez, a sua nova coleção.
Arjan Martins: Sobre uma imagem impressa, um trabalho visceral, feito em desenho e pintura, traços e tintas unidos em função da grande expressividade do trabalho do artista. É um trabalho de impacto, como costuma ser o trabalho do Arjan; e um plus: o tema é um crânio, uma vanitas, uma imagem que o artista explora com maestria e que também é uma das (muitas) obsessões do Colecionador.
Alexandre Vogler: Intervenção em uma cédula de R$10,00, substituindo a efígie da República por um inconfundível retrato do artista; o perfeccionismo da intervenção nos leva a duvidar da cédula real, de repente é preciso procurar uma cédula na carteira para me assegurar que o Vogler não está nas cédulas que circulam normalmente... um trabalho que remete ao Zero Cruzeiro do Cildo, claro (semelhança quanto ao uso do dinheiro como suporte, mas profundas diferenças quanto ao processo), mas que vai também a outras referências e significados, com a sutil ironia do artista.
Beth Jobim: Três pequenas telas, um múltiplo, com as formas moduladas que são marca registrada do trabalho da artista; formas que vieram de pedras, de observação da natureza, para chegar a uma contundente abstração. Nestas pinturas as linhas fortes não são azuis, e sim de um terra bem escuro que aprisiona os brancos; num jogo entre fundo e forma que instiga o olhar a uma viagem incessante pela superfície do trabalho; e as diferenças na espessura do suporte, que dá outro nível de dinamismo. Ainda: o trabalho de Beth funciona em tamanho grande, enorme, como já vimos em galerias, e funciona aqui também, em tamanho menor, com a mesma força.
Cadu Costa: O trabalho do Cadu, ao meu ver, sempre agrega um resultado esteticamente bem resolvido, bonito mesmo, a um conceito bem fechado; pode se ver um trabalho do artista, apenas ver, fruir, esteticamente; mas ao se ler sobre "o que está por trás", o trabalho adquire novos significados, o prazer estético se fortalece pelo entendimento racional. Claro que muitos artistas exploram esta dicotomia; mas o que me faz ver o diferencial do trabalho do Cadu é o perfeito equilibrio entre estas vertentes, um equilíbrio conseguido com uma "aparente" simplicidade e de uma forma muito cool. E o trabalho que está nesta edição é assim. Cadu partiu do mecanismo de uma caixinha de música, que toca Pour Elise, de Beethoven; o mecanismo da caixa de música consiste em um cilindro com ranhuras, onde pequenas teclas de metal circulam e "tocam" a música; este cilindro é como "o código" da música, e com isso vemos que há uma semelhança com o processo utilizado, em arte, para gravura. Assim, Cadu trabalhou uma gravura feita a partir das ranhuras do cilindro da tal caixinha de música com aquela música específica; e o resultado é uma gravura em relevo, clean, bonita; e que tem por baixo o DNA da obra tão famosa do compositor.
Gustavo Speridião: Interferência ("nuvem") em uma imagem, uma cena de multidão soviética com texto Gráfica Utópica - O Circo dos Sonhos, faz referência ao quadrado negro do Malevich, às experiências gráficas soviéticas, como Rodchenko.
Gabriela Machado: Uma pequena pintura sobre papel, em tons azulados, esverdeados, amarelados, da série dos novelos, em uma caixa de acrílico que a exibe como a uma jóia. Uma linda pintura, e onde se vê que a mão da artista, que domina os espaços largos de suas pinturas em dimensões maiores, sinfônicas, também acerta ao escolher a escala de uma música suave, de um solo de piano, de uma Gymnopédie. A pintura pulsa, em sua caixa, cresce, explode em cores, e ao mesmo tempos nos fita, pequena, da parede, como que pronta a enfeitiçar o olhar do espectador para um mundo que pulsa em cores, uma explosão, uma fissão nuclear, a explosão de uma supernova.
Gisele Camargo: Escrevi aqui no blog sobre o trabalho da Gisele, apontando para um grande crescimento em pouco tempo, fruto certamente de muito trabalho e muita sensibilidade. Aqui estão três pequenas pinturas, a utilização de suportes quadrados com chassis tipo painel dá um "peso" maior às pinturas, que não mais "flutuam" e sim são fragmentos aéreos de paisagens, como pequenas janelas que recortam um mundo geométrico, gráfico, e cada vez mais painterly; uma delas, com paredes ou painéis em vermelho, é como uma "âncora" construtiva para as outras, detalhes de árvores e de nuvens/montanhas, em tons de brancos e cinzas claros. Funcionam muito bem separadamente, mas no trio adquirem uma força que é bem maior que a soma das partes.
James Kudo: Já conhecia o trabalho de pintura do artista, muito bom, com elementos figurativos bem pintados espalhados no espaço da tela quase sem cor, criando uma nova realidade, estranha, intrigante; mas como não conhecia seu trabalho em desenho, para mim veio como uma surpresa: dois pequenos desenhos, com elementos centralizados em cada folha de papel delicado, pequenas pérolas desenhadas com perfeccionismo. Montados diretamente na parede, seguros por alfinetes na parte superior, apresentam uma leveza e uma fragilidade que atrai o olhar, mesmo no burburinho da exposição; e o olhar fica irremediavelmente apaixonado pelas preciosas figurinhas centrais, com seu brilho nacarado.
Leonardo Videla: Uma pintura do artista, com o tema dos estudos de dobraduras, um dos motivos tão utilizados pelo Leonardo, sobre um fundo metálico, prateado, que, pelas marcas das pinceladas, não apresenta um aspecto frio, tecnológico, e sim de um painterly sutil e dinâmico. Um bom trabalho, forte e conciso.
Raul Mourão: O artista apresentou um trabalho do início desta década, que utiliza um papel bem fino com um corte de um círculo; o contraste é entre o amarelado com marcas do papel e o vazio do círculo, que é formado por subtração. Um bom trabalho, discreto, quase zen; e ao mesmo tempo intrigante e muito bonito na simplicidade e economia de solução.



A opinião geral dos presentes considerou esta a melhor edição, até o momento, do Projeto Acervo, que tem crescido e se consolidado, atingindo seus objetivos de propor a discussão de novas formas de veicular arte, não sendo contra o ciruito de arte, mas sim, de uma forma positiva, contribuindo para criar novos circuitos.
E para mim, um sabor super-especial, pois afinal as dez lindas obras de arte vão me acompanhar e me dar o prazer de fruí-las, dialogar com elas, até o fim dos meus dias...

(obrigado a Gisele Camargo e Nara Reis pelas fotos!)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"Projeto Acervo"


A new edition of Projeto Acervo, curated by artist Leonardo Videla. The Project aims to reach new collectors of brazilian contemporary art. In each edition of Acervo, a collector gets, for a fixed price, 10 works (not multiples) of artists who participated in the project, mixing young artists with artists already consolidated in brazilian art market.
This edition will be shown on June 15, in Bar do Mineiro, in bucolic Santa Teresa, Rio de Janeiro. Bar do Mineiro is a special bar and restaurant, and also a special place for the visual arts, as his owner is also an art collector and has a huge collection of paintings of Volpi, with whom he has a friend.
The artists on this edition of Acervo are: Arjan Martins, Alexandre Vogler, Beth Jobim, Cadu Costa, Gustavo Speridião, Gabriela Machado, Gisele Camargo, James Kudo, Leonardo Videla e Raul Mourão.

Projeto Acervo, convite


Este é o convite para a nova edição do Projeto Acervo, a inauguração será no Bar do Mineiro, em Santa Teresa, um local tradicionalmente ligado às artes (o dono do bar é talvez o maior colecionador particular de Volpi), na próxima 2a.feira dia 15. E o curador, o artista Leo Videla, escalou um time de primeira, participam os artistas: Arjan Martins, Alexandre Vogler, Beth Jobim, Cadu Costa, Gustavo Speridião, Gabriela Machado, Gisele Camargo, James Kudo, Leonardo Videla e Raul Mourão.

sábado, 11 de abril de 2009

Colecionadores, consumismos e compulsões


No Rio, vejo os jornais velhos que estão me esperando em uma pilha que não para de crescer, é um trabalho de um Sísifo pós-moderno; eu leio o jornal todos os dias pela internet, onde quer que eu esteja; mas mantenho no Rio a assinatura que me coloca, fisicamente, os jornais de minha cidade, como um prazer e uma obrigação (tenho medo que a pilha, precariamente colocada sobre uma velha cadeira do Philippe Starck, caia ou, pior, invada a sala e o apartamento todo).
Uma taça de vinho, uma torta de bacalhau e em uma Revista O Globo um tanto antiga, de 15 de março, duas matérias me chamam a atenção e servem de material para o blog.
A primeira, A Nova Arte, coloca para os milhões de leitores da grande midia a tendência que tenho acompanhado e explicitado no blog: novas alternativas ao circuito de arte, como o Projeto Acervo, a exposição recente da galeria Arte em Dobro, os Clubes de Colecionadores dos MAM (Rio e SP), que ampliam o circuito possibilitando aos interessados a aquisição de obras de arte (múltiplos e, no Projeto Acervo, obras únicas), a preços/condições mais em conta; este grupo de novos colecionadores fortalece o circuito; e amplia o circuito além do grupo dos grandes colecionadores e colecionadores institucionais; algo que já existe nos mercados mais consolidados, USA e Europa, e que no Brasil se iniciou na fase do chamado "fastígio da gravura" nos anos 1960, com ressurgências nas serigrafias e litografias dos anos 1970 e a sempre tentativa de fazer o mesmo com a fotografia em tiragem assinada.
A diferença, acho eu, da tendência moderna para as experiências anteriores, é que antes se partia para "vamos multiplicar a oferta" (centenas de litos do Volpi com a aura da assinatura do artista "equivaleriam" nesta equação a uma única tela do mestre?); e agora se parte para "vamos multiplicar a demanda", ou seja, criar novos mercados, para múltiplos, obras únicas, fotografias, videos, o que seja, importante é abrir novas frentes, trazer novos consumidores de arte para o mercado, para o circuito. Ao meu ver esta nova estratégia é mais eficaz que a anterior, e a matéria da revista mostra: o publicitário que foi o primeiro colecionador do Projeto Acervo e que em 6 anos comprou 70 obras de arte (parabéns pelos Felipe Barbosa, são demais!).
A outra matéria, páginas adiante, e chamada na capa, é sobre o consumismo: "em plena crise financeira, histórias de cariocas que lutam para deixar de comprar compulsivamente". São histórias de consumistas compulsivos, alguns famosos (Preta Gil com foto ninando sua maravilhosa bolsa Louis Vuitton com design do street artist Stephen Sprouse , adoro; a escritora Maria Carmem Barbosa e seu vestido vintage do Georges Henri...) outros anonimos (a professora de dança que é viciada em produtos de papelaria...).
Em meio ao texto descrevendo uma "patricinha", Alexia Schultz Wenk, moradora do Jardim Pernambuco, lugar exclusivo de casas de ricos no Leblon, compradora compulsiva de grifes como Prada e Balenciaga a preços "em conta" em brechós, pontas de estoque e liquidações em NYC (adoro!), descobre-se o link entre as matérias: Alexia "confessa a sua nova mania: comprar obras de arte. A mais recente paixão é um 'Lula na caixa', de Raul Mourão". O ciclo se fecha.
Outra taça de vinho, branco, harmonizando com o lindo sábado de sol e não com o bacalhau, e penso. Haverá algo em comum entre isso tudo, entre o colecionador de obras de arte, a consumista de sapatos, de objetos de papelarias ou de caríssimas bolsas de grife?
A palavra chave é (read my lips) o.b.s.e.s.s.ã.o. Ela motiva os colecionadores, as crianças que não dormem até fechar o album com aquela figurinha dificil, os adultos que compram sem parar perfumes, sapatos, bolsas, ações, imóveis... e também os adultos colecionadores de obras de arte...
Eu poderia estar roubando e estou aqui neste ônibus vendendo balas Halls... Eu poderia estar comprando Ferraris e estou aqui comprando Frans Hals...
Bom, nada contra, de verdade, eu também um obsessivo. Falei no blog sobre minha relação com a compra de uma obra de arte, a partir de um diálogo com o pintor Álvaro Seixas ("por que você comprou minha pintura?"). E é importante que se agreguem novos "obsessivos" ao circuito, que (como eu) não se contentam com ter só um trabalho do artista, queiram ter um de cada fase, depois queiram ter um de cada fase e vários das melhores fases etc etc etc... Além disso tudo, um toque básico: os sapatos e bolsas velhas podem ser revendidos etc. mas dificilmente terão valor agregado; enquanto que, no longo prazo, para quem escolhe bem, as obras de arte terão valorização constante e em alguns casos (raros, é claro) exponencial.
No lançamento do catálogo da exposição do Rubem Grilo, na Caixa Cultural, encontrei os colecionadores George e Monica Kormis, meus contemporâneos do curso de Economia na PUC no início dos anos 1970, e hoje importantes colecionadores de arte, com uma coleção voltada para a gravura brasileira que tem sido objeto de várias matérias e exposições, a melhor a da própria Caixa Cultural, em 2008.
Na conversa, George me relembrou uma situação que eu mais ou menos havia esquecido: no início dos anos 1980 Franco Terranova teve que fechar a Petit Galerie no espaço da Rua Barão da Torre (um espaço maravilhoso de exposições e também, nos andares de cima, onde Rossella Terranova fazia as suas fantásticas aulas de alongamento com dança e que eu tive a felicidade de fazer e me sentir alongando e descobrindo pedaços adormecidos do meu corpo); e fez isso com um "Leilão de Parede" do seu acervo: os trabalhos ficavam expostos e os compradores davam seus lances escrevendo em papéis fixados na parede ao lado de cada trabalho; uma experiência engraçada pois subvertia o paradigma dos lances sequenciais dos leilões tradicionais, ao invés dos lances se sucederem no tempo, se sucediam no espaço, até o momento do fechamento, previamente definido, do leilão.
O acervo do leilão era o máximo, imagine um galerista que esteve com sua Petit Galerie ao lado de todo o movimento de artes nos anos 1960, 70, 80; que trouxe muitos artistas de fora, e que abriu espaço para muitos artistas brasileiros que se firmaram internacionalmente. Tudo lá, os internacionais e brasileiros consolidados a preços altos, mas também boas opções a preços adequados para jovens colecionadores...
Enfim, uma hora destas estamos eu e George Kormis disputando algumas peças, conversamos, combinamos não competir entre nós, dividimos os interesses, fizemos nossos lances, e o leilão se fecha.
Hoje, 20 ou mais anos depois, ao conversarmos, George lembra com detalhes a peça que ele "perdeu" para mim (um lindo Antonio Manuel, um trabalho da série dos flans de jornal com intereferências de desenho, pintura e colagem, cinco cenas de estudantes apanhando da polícia). Mas a que ele levou, á época, deve ter parecido a ele a mais acertada, uma linda pintura sobre papel, grande, do José Roberto Aguilar; que provavelmente ele não terá mais, já que ele e Monica optaram acertadamente por focar sua coleção.
Hoje, tanto tempo depois, George Kormis lembra do Antonio Manuel que não comprou, e me pergunta: se eu ainda tenho o trabalho; e se um dia eu quiser me desfazer dele, se eu consideraria dar prioridade a vendê-lo a ele.
Meio surpreso (gosto do trabalho, sim, mas nem me lembrava muito da situação em que o comprei), demoro um tempo até entender. George lembra com detalhes (mais que eu), descreve o trabalho que ele não vê há 20 e poucos anos, e que teria um lugar em sua coleção focada em gravuras brasileiras, por mostrar, no caso, a utilização da técnica de gravura associada a intereferências.
Pois, diz George, "as pessoas tendem a só pensar em gravura para a reprodução exata, a multiplicação de clones, todos iguais; na verdade se o artista usa a reprodutibilidade e interfere sobre ela (como se se colocasse, por exemplo, um brinco em um Goeldi), não deixa de ser uma gravura, e portanto está dentro do foco de nossa coleção."
Registro o interesse do colecionador sobre a obra que está comigo; e penso, em casa, sobre o assunto.
Sobre a memória do colecionador, que faz com que o George, mais de 20 anos depois, lembre até com mais detalhes que eu, que vejo em meu dia a dia, uma peça que ele "perdeu" e que poderia estar na coleção dele; uma visão atual, pois à época ele certamente não imaginava ainda para onde iria sua coleção, e como aquela obra se encaixaria melhor na sua coleção 20 anos depois do que a obra que ele escolheu.
A memória, o desejo, de isso somos feitos, os colecionadores, as crianças que conquistam suas figurinhas "no bafo", os adultos que perseguem sem cansaço um ideal de coleção completa. As coleções que crescem, tomam vida própria, conseguem uma coesão e uma coerência; ou as que fluem como mato, sem outra coerência que o prazer de colecionar. A ideal, o mito de completar uma coleção; como aquelas figurinhas difíceis dos álbuns de infância, que tinham seu valor multiplicado, o prazer de abrir um envelope e encontrar, entre as fáceis, uma tal figurinha difícil. E completar uma coleção que nunca se completa, pois colecionar é viver, é evitar a morte, e uma vida nunca está completa.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Projeto Acervo, 8a. edição, uma imagem


A imagem é uma foto do Leonardo Videla, mostra um desenho do Bernardo Damasceno e, refletido no vidro da moldura, o trabalho do Daniel Murgel - participantes da 8a. edição do Projeto Acervo, que na terça-feira passada (13/01) entregou as 10 obras ao novo Colecionador. Na foto, a caixa-maquete do D.M. (acompanhada do desenho-projeto em uma moldura) dialoga com o cubo vazado no desenho (série Afrika) do B.D., e o crânio parece flutuar à frente de um espaço real mantido na penumbra.
Ao fazer acompanhar a maquete do desenho-projeto, como um trabalho único (projeto+maquete), o Daniel Murgel acerta na mosca. Ele tem um desenho excelente, e os objetos também são muito fortes, e a junção do objeto com o seu projeto chega a um resultado muito maior que a soma das partes. Os desenhos funcionam como projetos e também como desenhos, e as maquetes tem muito impacto. Em uma exposição na Galeria Mercedes Viegas, acho que em 2007, ele mostrou uma construção em escala natural, se não me engano uma casa na árvore; o impacto é maior, claro; mas as maquetes funcionam com muita força, são trabalhos em si, não como algo que precise ser construído grande para ter sentido.
E a série Afrika é certamente um destaque no trabalho do Bernardo Damasceno, um sonho de consumo de qualquer colecionador... Na coletiva de desenho da Galeria Laura Marsiaj estavam (foram vendidos, claro) dois desenhos desta série, pequenos, e depois pude ver ainda os demais desenhos, os pequenos, todos com fundo azul; e os maiores; este do Projeto Acervo é dos maiores. Gosto: do desenho preciso, cirúrgico; da repetição, ad nauseam, com pequenas, imperceptíveis, variações; do colorido (um dos grandes, com fundo lilás, é chocante de tão bonito); de um subtexto político (o formato do crânio é o formato do mapa da África, os olhos tem cruzes ou miras de fuzis...); de referências à História da Arte (as vanitas); de uma aura de contemporaneidade que identifico com uma relação direta com Basquiat, com o grafitti, com a estética da guerrilha urbana; etc. etc. etc.
O que vi (por foto) dos demais trabalhos desta edição do Projeto Acervo é muito interessante: um lindo desenho da Brígida Baltar, uma escultura do Leo Tepedino, uma "paisagem" feita com fita durex, do Rafael Alonso, um "acrílico sobre tela" do Leonardo Videla, uma foto misteriosa do Álvaro Seixas.

mais sobre a 8a. edição do Projeto Acervo

imagem do convite da 7a. edição do Projeto Acervo

sobre a abertura da 7a. edição do Projeto Acervo

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Projeto Acervo


Esta é a imagem da oitava edição do Projeto Acervo. Como sempre, uma ótima seleção de artistas, desta vez: Alexandre Vogler, Álvaro Seixas, Brígida Baltar, Bernardo Damasceno, Cadu Costa/Eduardo Berliner, Daniel Murgel, Gisele Camargo, Leo Tepedino, Leonardo Videla, Rafael Alonso. Fico muito curioso para ver as obras, mas nesta edição não haverá a inauguração com mostra, o que é uma pena...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Um diálogo (a motivação do colecionador)


Quando eu já estava saindo do evento de abertura do Projeto Acervo, no Espaço Bananeiras, o artista Álvaro Seixas me faz uma pergunta, a queima-roupa: "Queria saber por que você comprou o meu quadro". Logo em seguida, se desculpa pela pergunta, acha que talvez tenha sido impertinente, mas eu acho a pergunta relevante e adio minha saída. Conversamos um bocado, a artista Gisele Camargo também participa da conversa, e eu tento verbalizar minha motivação para "ter" o quadro do Álvaro, a motivação do colecionador, o impulso irresistível para possuir determinada obra de arte, aquela, não outra...
Aqui no blog vou tentar escrever, de uma forma mais estruturada, meu pensamento que talvez não tenha ficado bem expresso no momento (depois da deliciosa caipirinha do Espaço Bananeiras as idéias se aclaram mas as palavras às vezes ficam mais obscuras).
A.S.: Por que você comprou o meu quadro?
J.B.: Em primeiro lugar vou dizer o porque não. Não foi para pendurar em uma sala combinando com o sofá. Não foi como um investimento, embora eu ache que é um bom investimento, A.S. é um artista jovem, com um trabalho de qualidade, vai dar continuidade a este trabalho e evoluir, e a tendência será uma valorização no correr dos anos; mas não foi esta a motivação primordial. Há uma diferença sutil: claro que para o colecionador é importante visualizar um futuro para a obra que estrá sendo adquirida, projetar se o artista terá uma carreira, uma evolução; e também se a obra adquirida será, futuramente, representativa no contexto geral do trabalho do artista; agora, se isso significa uma valorização monetária, um investimento, ao meu ver (pelo menos para mim) não é o essencial.
Vou falar do processo de compra. Fui à exposição, na galeria Amarelonegro, gostei da exposição como um todo e dos trabalhos individualmente, claro que gostei mais de uns e de outros menos, vi uma continuidade (conceitual e formal) entre os trabalhos, mesmo utilizando meios diferentes. Me fixei na pintura, isso é uma opção pessoal minha; como minha atividade artística é mais voltada para a pintura, as pinturas me atraem mais. E em pintura, o que eu acho do trabalho de A.S.: resultado bonito e com técnica impecável; gosto muito do minimalismo do preto e branco, da pouca cor; gosto das veladuras; gosto do mistério das formas, dos escorridos de tinta, das áreas de repouso e das áreas de inquietude para o olhar, das sugestões de paisagem ou de retratos, porém nada óbvios; gosto do diálogo com a tradição da grande pintura, atualizada em uma linguagem bem contemporânea. Gosto de ver que é uma pintura de qualidade que está ancorada por um conceito forte. Minha análise é que a pintura, após as tantas mortes anunciadas, consegue sua permanência no século XXI a partir desta ancoragem forte em um conceito; depois da pintura pela pintura da Geração 80, para mim os pintores que permanecem são os que tem um bom resultado visual com um forte conceito por trás.
Depois, dentro da pintura, minha opção era bem direta. Pintura tem a ver com grandes dimensões, o desafio que é o problema da escala; assim gostei em primeiro lugar das grandes pinturas do A.S., "paisagens", mas logo me volta o tal "espírito prático": "são muito grandes, muito caras, fora do meu orçamento, não tenho paredes..."
Até aí é um monólogo, eu comigo mesmo, em toda exposição que eu gosto. Saio da Galeria sem "dar bandeira" do meu desejo. Normalmente, como vejo várias exposições em sequencia, os desejos se anulam; como Darwin diria, os mais fortes sobrevivem.
No dia seguinte, e depois, acordo com as imagens em minha mente, e verifico que EU QUERO. Mais que isso, não poderei viver sem aquelas imagens me acompanhando, do meu lado. Dialogando comigo. Para o resto dos meus dias.
Voltam os pensamentos práticos, o orçamento, o limite do meu espaço.
Então, somei isso tudo e concluí: o EU QUERO TER ganhou. EU QUERO um A.S. para me acompanhar pelo resto dos meus dias. Dito de outra forma: Eu não poderei viver o resto dos meus dias sem ter uma pintura do A.S.
A próxima etapa é operacionalizar: As grandes, como falei, são maravilhosas, mas "fora do meu orçamento, não tenho espeço de parede..." Gostei de uma pequena tela, com tons de um rosa-salmão-carne discreto e imagens de explosão (continuo gostando e queria ter...), mas me fixo nas pinturas "de tamanho médio". O valor está dentro de meu orçamento, cabe na minha parede e as duas pinturas são lindas.
Por email, peço à galeria que me mande as imagens.
Bom, aí vem a grande dificuldade, para mim, a escolha de Sofia... Uma das pinturas (na minha interpretação) é masculina, a imagem é mais angulosa, retilínea; a outra mais circular, feminina... Vem de novo a incerteza, o desejo de tudo abarcar, e o orçamento que é uma restrição, e finalmente opto por uma das telas (a "masculina").
Hoje, ela está comigo. No lugar perfeito, em minha casa, acima de uma gravura do Nuno Ramos com quem dialoga pelo monocromatismo, pelo mistério. Ao mesmo tempo, fico triste de não ter podido ter para mim também a gêmea (a feminina) ou um trabalho grande. Claro, o colecionador sempre é insaciável, quem sabe?...
Não sei se ao descrever "o processo de compra" consegui esclarecer a pergunta do artista A.S. Acho que ainda falta dizer, ou enfatizar, o que eu disse a ele no Espaço Bananeiras: o desejo do colecionador é obsessivo; não sou um colecionador padrão, compro o que entra no meu interesse, diferente dos colecionadores que tem um programa (e um curador), e também diferente dos colecionadores que querem decorar um espaço; comprei pois não poderia viver o resto de meus dias sem TER; comprei o que eu quero ter, ver, segurar, cheirar... para sempre... Para mim este é o desejo que impulsiona O Colecionador...
Talvez esta obsessão do Colecionador seja o medo da morte, o desejo de permanência, de transcendência. Projeção do ego em objetos, fetiche. Prato cheio para meu antigo analista (ele também um artista e um colecionador). Enfim. O importante é que eu terei a tela do A.S., por mim escolhida, até o fim de meus dias (espero).

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Projeto Acervo, no Espaço Bananeiras, Santa Teresa, Rio

Abertura da 7a. edição do Projeto Acervo. Não conhecia o Espaço Bananeiras, e mesmo Santa Teresa, que já frequentei tanto nos anos 1970 e 80, é como um bairro novo para mim: mais bonito, bem cuidado, muitos estrangeiros e pessoas bonitas nas ruas e no bonde (bem, isso sempre teve, pessoas bonitas), os restaurantes e bares deixaram aquela aura hippie de pé sujo e se tornaram cult. E o Espaço Bananeiras é mágico, visto da rua (Ladeira do Castro) é uma casa simples com um porão habitável (tudo muito silencioso, eu achei que tinha errado o dia do evento); entra-se pelo que me parecia ser a porta do tal porão, e que é a entrada para espaços que se desdobram, até se chegar a uma galeria com grandes vidros, em outro nível abaixo outra grande galeria, tudo isso entre jardins com, claro, bananeiras; descendo mais um pouco um bar, um espaço que poderia ser de projeção de filmes ou vídeos, e mais além outro jardim; dos níveis inferiores ao se olhar para cima se vê que a tal casa simples, na verdade, como um origami em câmara reversa, se desdobrou em um prédio do início do século XX com quatro andares, pelo menos dois anexos e os tais jardins com as onipresentes bananeiras.
Na primeira galeria (a dos grandes vidros), o trabalho da artista residente Marie Fleur Lefebvre. Desenhos sobre papel translúcido, montados nos grandes vidros, podendo ser vistos dos dois lados, poéticos e muito bonitos. Em duas grandes telas, cada uma dialogando com uma pequena fotografia, as linhas volteiam orgânicas sobre o linho cru, como hastes coroadas por um fruto maduro de tinta pesada. Um bom trabalho, muito sensível e delicioso de se ver, e que ficou bem exposto no salão com vidros rodeado de jardins de floresta tropical (tudo a ver).


Na galeria do nível abaixo, as dez obras do Projeto Acervo. A colecionadora é a artista Lucia Laguna, artista que tem um trabalho que fala por si próprio. A felicidade da Lucia é muita, e é fácil de entender, pois ela vai levar para casa uma seleção de obras de alto nível. Em uma leitura da esquerda para a direita:
Rafael Alonso: Gostei da exposição do Rafael na Amarelonegro: listras de fita colante ou de elásticos, fotos de listras de fita colante ou de elástico, e, no que para mim o é o arremate, pinturas de listras de fitas colantes. No Projeto Acervo, uma “paisagem” horizontal com fitas com azuis dominando.
Arjan: Vi e gostei da exposição dele na 90 Arte Contemporânea, o desenho é forte, tem um traço fluido e expressivo. Na individual a soma dos desenhos, o ambiente, reforça cada um dos trabalhos, aqui é um desenho só, mas muito bonito e quase ascético (se é que posso falar em ascetismo em um desenho tão visceral) em sua moldura-caixa branca.
Felipe Barbosa: Uma lixa, comum, de loja de material de construção. Ao lixar uma superfície, a marca da mão do artista fica gravada na lixa, como uma monotipia, a partir da aderência do material da superfície lixada. Emoldurada, é uma obra de arte, e vemos (salta aos olhos e ao intelecto) a beleza da monotipia e também, principalmente, o conceito que gerou o trabalho.
Guga Ferraz: O artista recobriu seu rosto e pescoço de band-aids, apenas os olhos estão de fora, tristes? irônicos? Uma foto, e este é o trabalho: instigante, perspicaz, escrutinador, um diálogo que passa a se fazer entre o artista e o observador, como uma monalisa do século XXI, torturada, doente, sobrevivente.
Gisele Camargo: Duas pinturas, muito bonitas. Conheci o trabalho de Gisele na exposição do CCBB, Arte Nova Arte, e também na Amarelonegro. Acho interessante que o trabalho dela funciona “em massa”, ou seja, cada pintura é muito bonita, e funciona de per si, mas a apresentação das pinturas em série faz com que se pense no conjunto como uma obra, não em cada pintura isolada. Sim, e as delimitações do espaço, as perspectivas, as sobreposições de campos de cor, dialogam com o trabalho da Lucia Laguna, o que é um plus do Projeto Acervo.
Leonardo Videla: Um díptico “de esquina”, duas pequenas telas com os motivos arquitetônicos e de dobradura de caixa que são ícones na obra do Leonardo, com um bom tratamento de pintura, e que se articulam nos 90 graus de uma quina de parede. Um bom trabalho, gosto muito deste enfrentamento com a arquitetura e com a pintura, com a rigidez do desenho arquitetônico e a fluidez da pintura, e acho que o Leonardo é bem feliz com os resultados desta série... embora para mim, claro, seu momento mais feliz é a série Janelas...em outra postagem falarei sobre as Janelas...
Alexandre Vogler: O artista faz uma interferência em um dos morros que cercam a pacata cidade de Nova Iguaçu, Grande Rio: um tridente, pintado em dimensões gigantes sobre a pedra nua. Os moradores reagem contra “a obra do demo”, e o prefeito bonitinho marca uma cerimônia de desagravo. O trabalho no Projeto é uma foto dos evangélicos exorcistas, o prefeito midiático ao centro. O trabalho deverá ser emoldurado no formato do tridente. E uma republicação, feita pela artista, de revistas evangélicas, mostra o desenlace da proposta pelos olhos da midia religiosa.
Marcos Abreu: O artista está trabalhando com bandeiras de nações inexistentes, improváveis ou impossíveis. No Projeto Acervo, uma foto institucional da entrega da bandeira do Mediterrâneo pelo artista a curador de um museu em Barcelona. A bandeira, projetada pelo Marcos, executada por uma empresa que fabrica bandeiras, é uma bandeira nacional “real” de uma nação impossível, o Mar Mediterrâneo, que banha e banhou tantas nações desde tempos imemoriais. No Acervo, a bandeira do Mediterrâneo, em seus azuis e pretos, dialoga com o trabalho do Rafael Alonso.
Brígida Baltar: Um bonito desenho. O trabalho de Brígida tem sempre um clima de sensibilidade e interiorização, presente em seus trabalhos mais conhecidos, como as Coletas (neblina, orvalho, maresia ), os trabalhos com pó de tijolos. A artista esteve em Brasília este ano, no Centro Cultural da Caixa, com uma instalação sonora, ao lado de outra instalação sonora do Paulo Vivacqua, e voltará a Brasília em março, com um trabalho realizado no Cariri. Com um trabalho marcante, Brígida também é uma pessoa muito especial.
Daniela Mattos: Um lindo trabalho, "Procura(r)-se", de 2005, uma série de fotografias montadas como stills de um filme. A artista trabalha com vídeo e performances.
Na saída, o artista Álvaro Seixas me faz uma pergunta, a queima-roupa: "Queria saber por que você comprou o meu quadro". Mas este diálogo vai ser tema de outra postagem.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Projeto Acervo


Este é o convite para a abertura da 7a. edição do Projeto Acervo, no Espaço Bananeiras, em Santa Tereza.
O Projeto Acervo propõe "pacotes" com 10 obras de 10 artistas, que são vendidos (diretamente, sem intermediação de galerias) a um colecionador, a um preço fixo para o pacote. Somente na abertura da exposição o colecionador irá conhecer as suas 10 obras, que ficam expostas por algum tempo no Espaço Bananeiras. A idéia e a curadoria das obras é do Leonardo Videla, um artista que conheci há pouco tempo e que tem um trabalho muito bom.
O colecionador desta edição é a excelente pintora Lucia Laguna, e as obras são dos artistas Arjan Martins, Alexandre Vogler, Brígida Baltar, Daniela Mattos, Felipe Barbosa, Gisele Camargo, Guga Ferraz, Leonardo Videla, Marcos Abreu e Rafael Alonso. A valor do pacote é dividido igualmente entre os 10 artistas, e o Leonardo recebe apenas sua parte como um dos artistas, não havendo diferenciação pelo trabalho de organização. Muitos conceitos interessantes perpassam a idéia do Projeto Acervo: propor outra forma de circular obras de artes fora do circuito, uma democratização para os artistas e para os colecionadores também (compradas individualmente as 10 obras sairiam por um preço bem maior que o do pacote do Projeto), a noção de cooperativismo de artistas, a distribuição de objetos de arte e a disseminação de idéias através de redes (um conceito bem do século XXI) e outras. Além do que os trabalhos (pude ver alguns desta edição em visita ao ateliê do Leonardo há alguns dias) são muito bons, de alta qualidade, e os artistas em sua grande maioria já bem situados no circuito artístico.