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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cenas de uma ocupação

O cenário: Prédio neoclássico em ponto nobre do Rio, construído na década de 1920, por encomenda de Otávio Guinle, pelo arquiteto francês Joseph Gire, autor do Copacabana Palace e outros marcos históricos do Rio: o edifício A Noite, o Hotel Glória, o Palácio Laranjeiras, a mansão da ilha de Brocoió, o embarcadeiro da praça Mauá, entre outros. Um prédio com tudo o que uma construção de luxo da época tinha direito: vista para o mar, amplos espaços, pé-direito alto, simetrias, ornatos em mármore e ferro forjado, sancas, nichos, molduras douradas, tacos de madeira nobre, elevadores amplos, elevador de serviço com grades de ferro, daqueles tão comuns em Paris e, no último andar, uma chambre-de-bonne para cada apartamento. Um prédio surpreendentemente bem conservado em um Brasil e um Rio que odeiam as memórias do passado. Neste prédio, um apartamento que mantém os acabamentos luxuosos e que, recém-comprado, passará por uma planejada reforma para adequá-lo às necessidades de seus novos moradores.
Os personagens: artistas plásticos/performers/músicos, um deles a proprietária do apartamento.
A ação: Ocupar o local com instalações, performances, pinturas, esculturas, desenhos, ambientes, fotografias, propostas, vídeos, músicas, danças... por um final de semana inteiro
Cenas:
Inicialmente tímidos diante do espaço, os artistas negociam seus espaços com os organizadores, apresentam suas propostas, discutem a logística, fazem incursões ao apartamento de cobertura do prédio (fechado há 25 anos) e ao bar próximo ao prédio, onde o croquete apresentado como autêntico do Alemão de Petrópolis é a sensação.
Aos poucos os trabalhos vão tomando forma, as propostas se modificam à medida em que se sente melhor o espaço, em que a interação entre trabalhos aponta para outros caminhos.
Uma semana, cinco dias úteis de preparação, de uma 2a. até uma 6a.feira. Alguns trabalham em casa, e os que preparam suas instalações no local estranham: será que só nós estamos trabalhando? onde estão os outros? será que vai dar certo? será que o resultado final vai ser um conjunto harmônico, vai "ter uma cara" ou vai ser um agregado de divergências?
O convívio estabelece alianças, cria amizades, propicia troca de informações, troca de energia. Descansa-se trabalhando, ou visitando o trabalho dos outros artistas. Para os lanches ou o chopp do final do expediente, o Bar da Praia bomba como talvez nunca tenha bombado. Segunda-feira, terça-feira...
Sexta-feira no início da tarde, a maioria dos trabalhos está completa ou em fase final de instalação, mas a tal visão de conjunto ainda não se faz, talvez o barulho de artistas trabalhando ou conversando, talvez o lixo ainda por tirar, talvez os trabalhos que ainda não estão montados, uma certa sensação de uma coisa anárquica... Vou para casa, um banho, descansar um pouco antes da festa de abertura...
...e ao chegar no apartamento vejo que, aparentemente como uma mágica, a luz se fez: a exposição flui, os trabalhos dialogam, se integram, se reforçam, há uma organização no que parecia um caos, há linhas de leitura que fazem "um desvio para o azul", "um desvio do rosa para o vermelho" e outros percursos, há até um bar na cozinha do apartamento com um eficiente barman preparando a melhor caipirinha de morango que jamais bebi em minha vida.
Mágica? não, sincronicidade, e a atuação discreta e agregadora dos organizadores/curador.
(Sonho com possível percurso: ao se abrir a porta do elevador, o tapete persa com corte de silhuetas de corpos humanos e uma misteriosa fotografia de um rosto-meio-vegetal dão as boas-vindas. No palaciano hall do apartamento uma cascata de pérolas, que pode ser uma arquitetura desconstruída ou uma infiltração, e sugestões de paisagem anacrônica pintadas nos nichos dourados das paredes se somam em uma minúscula gruta que expõe as entranhas do prédio em pérolas e pigmento azul.
Desviando para o vermelho, passamos por uma saleta obsessivamente cor-de-rosa com pequenos faunos desafiando a gravidade e chegamos a outra sala com uma parede pintada com gestos também cor-de-rosa e uma cascata de maçãs vermelhas caindo das gavetas de um armário; um pano vermelho entra pela parede e se conseguirmos seguir por este pequeno buraco chegaremos a uma biblioteca ocupada por uma bateria e outros instrumentos de percussão, e uma pequena escultura; na parede, uma pintura feita de contas brilhantes e coloridas; na estante, uma coleção de pratos de porcelana pintados reconta a História do Brasil.
De novo no hall, o percurso para o azul leva a uma paisagem sugerida por discretas linhas em um enorme campo de azul brilhante, que  confronta uma parede ocupada por uma dança erótica em traços livres de tinta azul, leves como as azaléias brancas de papel em vasos em frente à varanda; desta sala, o verdadeiro acesso à biblioteca; ou o acesso a outra sala dominada por gigantesco animal feito de pedaços de móveis antigos e penas e plumas brancas, onde um pequeno desenho da paisagem externa em uma parede preta é companheiro de instalações que fazem brotar da parede o interior de um processo construtivo moderno, vergalhões e tijolos.
Volta-se ao hall marcado pelas pérolas, e o largo corredor/galeria que leva à antiga cozinha é palco de uma massiva instalação com fotos do desabitado apartamento de cobertura e com material recolhido em lixo. No meio do corredor, portas de correr levam a uma antiga sala de banquetes, hoje o espaço de performances, marcado por pinturas/desenhos que fazem referência a corpos.
Pelo apartamento, telas exibem videos, um deles mostra uma mulher de burca andando compulsivamente pelos corredores vazios do que parece o mesmo apartamento mas talvez seja outro apartamento no prédio; outro mostra um estranho despertar; mendigos à volta de uma fogueira; e outras imagens perturbadoras.
Em uma pequena saleta, uma parede com buracos e textos de filósofos mostra como "filosofar com um martelo"; já em um dos banheiros, delicados desenhos feitos com lágrimas e maquilagem escorrida, um diálogo com as pérolas, com as flores de papel; com as pequenas placas de gesso que se esgueiram em diversos lugares mostrando desenhos da paisagem externa, de detalhes do interior ou do exterior do apartamento e os pequenos retratos sobre pedaços de fórmica de pessoas desconhecidas mas possíveis, reais, como os fantasmas, como o fantasma da mulher de burca que vagueia pelos corredores, como os pombos mortos no apartamento de cobertura, como as asas brancas que se estruturam em pedaços de móveis, e se volta ao início e se retorna em outro percurso, agora já um percurso mental de links e reflexões.)
No fim de semana a visitação é grande, no cair da tarde o apartamento se transforma em uma happy-hour, à noite é uma festa. Mesmo com a concorrência de outros eventos importantes no Rio: exposições do Hélio Oiticica no Corredor Cultural, Santa Teresa de Portas Abertas... e a concorrência desleal do que é o evento mais importante para o Rio, um fim de semana com sol gostoso chamando para as praias.
Gratificante.
E também um exercício de despreendimento, de viver o efêmero: domingo à noite as portas se fecham, segunda-feira tudo está desmontado, daí a alguns dias as equipes de pedreiros entrarão, quebrando paredes, trocando azulejos, substituindo a fiação elétrica que passa com fios envoltos em papel dentro de tubos de ferro, atualizando as instalações hidráulicas que se entopem com o acúmulo de décadas...
A partir de agora, só os registros da ocupação. Só a memória.

Artistas:
Abel Duarte
Alessandro Sartore
Aleteia Daneluz
Bob N
Bruna Lobo
Claudia Bakker
Edu Monteiro
Evandro Machado
Fernando de La Rocque
Gimena Mello
Hugo Richard
Jozias Benedicto
Kunja Bihari
Leo Ayres
Luar Maria
Luiza Crosman
Marcelo Rocha
Matias Mesquita
Moises Alcuna
Natali Tubenchlak
Nora Stephens
Orlando Mollica
Pontogor
Rafael Inacio
Robson
Sandra Schechtman
Simone Michelin
Ursula Tautz
Virginia Paiva
Ze Carlos Garcia

Organização:
Aleteia Daneluz
Bob N

Barman:
Ricardo

meus registros em foto


Registros em vídeo:








FaceArte publica uma versão resumida deste texto





quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ao vencedor, as baratas

"Tirai as argolas de ouro das orelhas de vossas mulheres, vossos filhos e vossas filhas e trazei-mas. (...) trabalhou o ouro com buril e fez dele um bezerro (...) No dia seguinte, madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se." (Êxodo 32:2-6)
Adorar um animal de ouro. No Antigo Testamento, um bezerro, feito com as jóias de ouro do povo. Ouro para o bem do Brasil, nos anos 1960, derreter alianças, pulseiras de bebê e cordões de Agnus Dei, para salvar o país do perigo comunista. Fotos da atriz Julie Christie ao ganhar seu Oscar em 1966, com um vestido dourado, beijando impudicamente a estatueta dourada. Cenas do garimpo da Serra Pelada, homens chafurdando em barro e pepitas do precioso metal, riqueza instantânea ou pobreza continuada.
Hoje, uma inversão: o ouro, o objeto máximo de desejo e idolatria, se associa ao inseto mais repugnante, habitante dos esgotos e dos becos escuros e úmidos. As baratas de ouro do artista Fernando de La Rocque não são objetos de adoração, não são ícones de um mundo estático, hieraquizado; são objetos de arte, de uma arte que associa o desejo à repunância para questionar os limites da própria arte, as contradições da sociedade que endeusa artistas midiáticos, que transformou a arte em espetáculo e os museus em mausoléus.
Com simplicidade, Fernando fala de seu processo de trabalho.
Da visão modernista do artista como um ser especial, do trabalho de arte como uma ligação entre o divino e o humano, do gesto criador como o sopro de Deus em Adão, da Arte como Expressão e Transcendência (tudo com maíusculas), temos um artista que sai pela noite urbana com sua mochilinha, um spray de tinta dourada; sua caça, os insetos rastejantes; sua obra, as baratas douradas. Baratas que ele devolve à liberdade ou que envia, por Sedex, uma Nasty-Mail-Art.
São as baratas do Fernando de La Rocque que estão na exposição "Barata de ouro -- Expressionante", no Espaço Cultural Sergio Porto, no Rio, até dia 29. Baratas de plástico pintadas de ouro em estojos, uma mais sexy em um estojo de cetim cor-de-rosa; uma pequena pintura expressionista de uma barata, com moldura kitsch; desenhos de baratas douradas sobre papel; vídeos; troca de emails do artista sobre o projeto das baratas. Multiplicidade de formas, de midias; simplicidade; contemporaneidade. Interessante também é conversar com o artista sobre seu trabalho, vê-lo ensaiando uns passos de dança no Fosfobox, ou melhor, ver sua entrevista no programa do Jô Soares (está no Youtube, coloquei o link abaixo), para sentir que é um artista comprometido com seu trabalho e, ao mesmo tempo, comprometido com uma visão de mundo, com um trabalho que procura alternativas, que não se conforma ao espaço tradicional das categorias (pintura, desenho, escultura, artes aplicadas), das galerias, do circuito de arte. Sempre com leveza, witty e doce, e sem abrir mão de seu pensamento, de sua proposta.
Interessante também acompanhar o trabalho do artista, questionador, e ao mesmo tempo leve, com humor e ironia. Os objetos-esculturas feitos de canudos de plástico usados: são pedras que respiram, são galáxias ou nuvens, são cérebros ou pulmões; são pop e contemporâneos. "Colônias", instalação com "azulejos pseudo-coloniais", uma parede externa da Galeria Gentil Carioca coberta pelo que parece um padrão típico de azulejo colonial; vista de perto, vê-se que o inocente padrão na verdade é uma suruba infinita, explícita, em azul e branco; um passante reclama, vai à Polícia, registra um B.O.; a discussão chega aos jornais, e não estamos no obscurantismo medieval e sim no Terceiro Milênio em um País Tropical. Enfim.
Este é o trabalho do Fernando de La Rocque: instigante, leve, irônico, contestador e acima de tudo contemporâneo. 

Clique aqui para Larocque, o blog do artista

Entrevista do artista no programa do Jô Soares, parte 1 e parte 2:



Julie Christie, o filme "Darling" é de 1965 e o Oscar em 1966, no vídeo não aparece o tal beijo, objeto das fotos, proféticas de uma época de idolatria e materialismo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O paradoxo e a maratona

Observei em minha vida recente um paradoxo: quando eu morava em Brasília e vinha ao Rio e a São Paulo com o tempo contado, conseguia ver todas as exposições de arte importantes nas duas cidades, além das (poucas) em Brasília. Agora que voltei a morar no Rio, vejo que não consigo me manter atualizado no movimento de exposições na cidade, e também minhas idas a São Paulo estão sendo mais raras.
Para romper este paradoxo, só outra invenção dos gregos, a maratona. E retomei o hábito de dedicar um dia inteiro para ver todas as exposições, ou quase todas, e depois cair na cama morto de cansaço. Valeu à pena, já que eu corria sério risco de perder algumas boas exposições, em seus últimos dias .
Comecei pelo CCBB, que abriu sua Sala A Contemporânea com uma boa instalação da artista Mariana Manhães. São, máquinas, robôs, que se movimentam, gemem, chiam, mostram imagens, um high-tech que é low-tech, com fios, curcuitos, conexões e engrenagens a vista. Impossível não lembrar das máquinas da Rebecca Horn na mesma sala há algumas semanas; irônicas máquinas, nos trabalhos das duas artistas; mas também muitas diferenças, na elegância apolínea da alemã e na brasilidade macunaímica (se é que posso usar estes termos quando falo de mecanismos) da instalção da Mariana.
Ainda no CCBB, retrospectiva da Anita Malfatti, com cerca de 120 obras. Um mistério para mim, a trajetória da artista paulista: das obras fortes do início de sua carreira até os anos 1920, para o trabalho com boa técnica mas insípido e kitsch do restante da carreira. O turning point teria sido o famoso artigo de Monteiro Lobato, Paranóia ou Mistificação; mas o artigo é de 1917 e vemos ainda bons trabalhos de Anita até meados dos anos 1920. Uma leitura feminista talvez aponte como causa o massacre da mulher: família burguesa empobrecida com a morte precoce do pai, uma menina com problemas físicos de nascença (atrofia no braço e mão direita), portanto "incapaz" para um bom casamento, tem que se sustentar através de aulas e de pinturas submetidas ao gosto dos compradores. Muitas outras leituras são possíveis, e nunca este mistério fica tão evidente como em uma retrospectiva.
Na Casa França Brasil, A Céu Aberto, uma exposição com a proposta de criar novos espaços expositivos na instituição, voltados para o exterior do magnífico prédio. Uma frase do artista Leonilson, "Observar e dar chance à minha curiosidade", dá o mote da exposição, que é bem feliz em sua proposta. Os demais artistas são Geléia da Rocinha, Paulo Vivacqua e Smael. Já nos espaços internos, instalações do Chelpa Ferro e do Cadu Costa, exploram a sonoridade.
A instalação do Chelpa é uma versão da apresentada na Galeria Progetti, e a do Cadu é uma gigantesca caixa de música/órgão de foles, com martelos (ferramentas comuns), que, acionados pelo espectador através de um mecanismo giratório, provocam um som de avalanche. Tenho um trabalho do artista, Pour Elise, onde a música de uma caixinha de música é transformada em uma gravura; e vejo neste gigantesco mecanismo como o artista explora sempre de forma precisa e eficaz as ideias de sua pesquisa.
No Centro Cultural dos Correios, revejo a exposição Goeldi, O Encantador das Sombras. Rever é uma maneira de dizer, vi esta exposição em Brasília, no Centro Cultural da Caixa, em uma versão reduzida; aqui, é como ver uma nova exposição:  com muito mais obras, a montagem se utiliza muito bem do amplo espaço da instituição, são feitas oficinas e apresentações didáticas, há um catálogo não muito extenso mas muito bem produzido. E os highlights para mim são a remontagem do ateliê do artista, primorosa, com matrizes de gravuras, instrumentos de trabalho e até, requintes, jornais da época; e a exibição do filme "O Guarda-Chuva Vermelho", feito pela artista Lygia Pape como um tributo ao gravador, ela, também uma artista com xilos maravilhosas. Sim, e o fantástico trabalho do Goeldi, os urubus, os guarda-chuvas, as caveiras, os peixes, os jogadores de cartas e os ladrões, os urubus, um mundo tenebroso e ameaçador, onde o perigo, a morte, vem dos cantos, dos becos escuros, das chuvas, dos objetos que revoam carregados por um vendaval.
Na Galeria LGC Arte Contemporânea, a exposição de Frederico Dalton, Exceções Recorrentes, com curadoria do artista Oswaldo Carvalho. As questões apresentadas pelo artista são muito atuais, por exemplo: "O que significa realmente ser “minoria” hoje?", "A arte ainda pode ser considerada uma situação de exceção?" e ao tratar estes temas usando midias contemporâneas porém ultrapassadas - projeção de slides - o artista faz um contraponto a uma arte integrada, que se coloca sistematicamente up-to-date. Um pouco "vai Carlos, ser gauche na vida", um pouco o low-tech que certamente dialoga com a Mariana Manhães, com o Cadu e o Chelpa Ferro, todos em um círculo de menos de 200m de diâmetro; como dialoga com o Matta-Clark, no Paço há pouco mais de um mês. Mas ao meu ver o parentesco é maior com o artista americano, ao privilegiar os destituídos, as exceções, as minorias, o fusca que se move como uma borboleta, os projetores de slides, o não à obsolescência planejada, ao high-tech, ao mundo pasteurizado onde parece que cada vez mais se está sem alternativa. Uma exceção pode ser uma alternativa, ainda mais se é recorrente.
Uma andada do Corredor Cultural até a área da Praça Tiradentes. O Centro do Rio é mesmo delicioso, principalmente em um dia de sol, mas sem calor; se podemos parar nos camelôs e dar asas à imaginação, se o Halls que em todos os lugares custa 1 real aqui sai por 2 por 1 real, bem, só pode ser mercadoria roubada, mas enfim, encho minha mochila com Halls, o pretinho, o que engasga mais, e chego totalmente engasgado a minha próxima parada:
Largo das Artes, rever a exposição do Gilvan Nunes. O espaço do Largo é talvez o mais maravilhoso dos espaços de galerias de arte cariocas, com a vantagem que é autêntico, não é um loft-Disney. E agora com um algo a mais, o andar de baixo é ocupado por um sebo dos bons que tem um café/restaurante delicioso.
Bom, mas para os artistas, qualquer artista, é um desafio, aquele espaço enorme, o pé direito alto, a área central onde cabe até uma montagem de Aída, com elefantes e tudo. E o Gilvan se saiu super-bem deste desafio, ocupou muito bem o espaço; são pinturas enormes, muito coloridas; serigrafias obssessivamente cheias; pequenas telas; tudo muito bonito, dá vontade de rever, de ter. Lindas pinturas, matéricas, coloridíssimas, ornamentos; algo como uma Milhazes-rascante; as pinturas com apropriações de bibelôs são um achado; e saí da exposição sentindo que tem tudo a ver, o Centro da Cidade, o Saara, o colorido desta cidade tropical e destas pinturas que tudo incorporam e tudo transfiguram em tinta e gesto.
Na Gentil Carioca, Fabiano Gonper, “Do Sujeito. Do Poder. Da Arte”, com desenhos, videodesenhos, fotografias, obras gráficas e uma escultura. Um bom trabalho, coerente, antenado. As pessoas são desenhadas como contornos, esculpidas como manchas bidemensionais; nas obras gráficas o preto invade as figuras, e as relações de poder ficam evidenciadas.

Na Durex, o artista plástico Mauro Espíndola apresenta a exposição "Nactividade", com desenhos e pinturas que lidam com questões de identidade, particularidade e universalidade, a partir de fotografias. Um trabalho bonito e pleno de significados. As relações entre fotografia e memoria, entre pintura e fotografia, entre permanente e efêmero, entre o indivíduo e a família/sociedade, estão muito presentes e são bem resolvidas.
Na Caixa Cultural, uma exposição sobre os móveis do arquiteto Sérgio Rodrigues, bem montada e bem interessante. Gosto dos móveis e tudo o mais do arquiteto, para mim eles tem a cara dos anos 1960, da revista Senhor, do clube Costa Brava, da Garota de Ipanema (o filme), de uma espontaneidade (a Cadeira Mole) que depois foi atropelada pelos anos 1970, pela contra-cultura, pelos hippies, pelas drogas, pelo Pop. E o arquiteto se renova, trocou o jacarandá pelas madeiras certificadas, e está tudo lá, na exposição.
Metrô até Copacabana, uma parada para ver Sergio Allevato na Artur Fidalgo. À primeira vista são aquarelas de botânica; mas olhando bem, o artista enxerta nas formas vegetais outras formas, de personagens da Disney, da Hanna Barbera, da Hello Kitty.
Outras estações de metrô e chego em Ipanema, revejo as Galerias Amarelonegro e Laura Marsiaj, mas, exausto, deixo a Galeria Laura Alvim para outro dia.
Na Amarelonegro, além das coleções de múltiplos que são mostradas por demanda, a boa coletiva Além do Horizonte – Paisagens Contemporâneas, com curadoria da Daniela Name e obras de artistas contemporâneos relacionadas à paisagem: Álvaro Seixas, Bob N, Bruno Miguel, Danielle Carcav, Deborah Engel, Estela Sokol, Gisele Camargo, Leo Ayres, Luiza Baldan, Pedro Varela, Rafael Alonso e Raul Leal. Bons artistas, um bom conjunto e uma boa montagem, aproveitando bem o novo espaço da Galeria.
Na Laura Marsiaj, a exposição “Fechar os Olhos Para Ver”, da Ana Miguel, traz frases gravadas, gravuras e objetos, a temática e as soluções bem próprias do trabalho da artista, me sinto um pouco como a Alice, uma criança enorme em um mundo estranho. No Anexo, em "A Casa Sem Paisagem", Daniel Murgel mostra trabalhos que discutem relações do comportamento do homem com seu habitat, a casa. As duas exposições dialogam entre si, embora bem diferentes, a sutileza da Ana é contraponto à assertividade do Daniel, e se complementam neste diálogo.
Cansado, encerro minha maratona, mas sei que muita coisa ficou de fora e que na semana que vem o dever me chama. Ou o prazer, dá na mesma.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Os Salões de Arte e os novos Novíssimos

Uma festa, a abertura dos Novíssimos 2010, na Galeria do Ibeu, em Copacabana, Rio. Adoro Copacabana, o prédio onde está o Ibeu é um clássico, a exposição é muito boa, muita gente no vernissage, e eu, o inquieto olheiro, não consigo desviar o foco dos bons trabalhos mostrados para viajar no passado.
A exposição dos Novíssimos está impecável, as premiações foram totalmente acertadas: Daniel Lanes é o premiado que fará uma individual na Galeria em 2011, e Rafael Adorján uma menção honrosa, estraá em um evento de fotografia que a Galeria do Ibeu programa também para 2011.
Muitos outros artistas bons, muitos amigos, outros que conheci ali mesmo; uma alegria especial para mim, a maravilhosa pintura da Danielle Carcav, tão admirada, após a exposição virá para minha coleção, eu poderei olhar para aquelas florações cor-de-rosa até o final dos meus dias. Enfim, o artista M.N. (também lá, com lindas pinturas) diz que eu tenho um toque de Midas, será?
Mas aqui não quero falar sobre os Novíssimos e sim sobre os Salões de Arte, uma instituição cada vez mais anacrônica (sua irrelevância já constatada por Marcel Duchamp com a Fonte). Uma expoaição como o Novíssimos mostra uma alternativa para um Salão do século XXI; outras alternativas existem; mas a questão básica é: inserção dos novos artistas no circuito.
Antigamente, muito antigamente, a unica maneira de um jovem artista entrar no circuito de artes no Brasil era através da participação em Salões.

Nem falo de uma época pré-histórica, pré-anos 1950-60, dos Salões de Belas Artes, que estavam intimamente atrelados ao establishment: professores eram jurados e os alunos que se destacavam, talvez não só pela qualidade em seguir os parâmetros da Academia mas também pela cordialidade e outros critérios pessoais, recebiam os prêmios, o maior dos quais as Viagens ao Exterior, aí entendido como Paris.

Falo dos anos 1970, quando o Salão de Belas Artes foi expurgado do academicismo e se transformou, por lei federal, no Salão Nacional de Artes. Do Salão Carioca, da Prefeitura do Rio.
E também de Salões da iniciativa privada, como o Salão da Bússula, patrocinado por uma empresa de publicidade cuja logomarca era uma bússula (coisa tão pré-design). Dos Salões de Verão patrocinados pelo então grande Jornal do Brasil; em um deles o jovem artista Antonio Manoel se inscreveu, ele, seu corpo, como obra; a proposta era que o prêmio de aquisição significaria que o MAM, beneficiário das obras adquiridas, deveria prover a subsistência do artista, como obra, pelo resto de sua vida; na abertura do Salão o artista ficou nu no Museu; as fotos são emblemáticas; e em uma época em que ainda não se falava, no Brasil, de performance, e onde a repressão era sufocante, não só a repressão da ditadura como a repressão sexual de uma classe média pré-liberação sexual.
Um pouco mais tarde, ainda anos 1970, quando a maioria dos artistas no Brasil estava entregue ao sistema (o boom da Bolsa incentivado pelo Delfim Neto criou uma bolha de galerias de arte em lugares nobres do Rio e São Paulo), um grupo de artistas no Rio começa a questionar o circuito de artes.
No Rio, um dos Salões preparados com toda a pompa pelo mesmo Jornal do Brasil foi boicotado pelos artistas, um manifesto com assinaturas dos artistas foi distribuído aos convidados, à burguesia que frequentava as festas da Condessa Pereira Carneiro, aos intelectuais que contestavam a ditadura mas que não viam a ditadura do circuito de artes. Minha assinatura está lá, neste manifesto, ao lado dos então também jovens artistas Paulo Herkenhoff e Fernando Cocchiarale, tenho a documentação guardada em algum armário aqui em casa, se os cupins não comeram.
Como o fogo comeu o MAM em 1978. As dores do parto do moderno gerando o contemporâneo e do contemporâneo matando em lenta agonia o moderno.
Sim, todos os Salões que citei eram no Rio de Janeiro. São Paulo era o templo dos consagrados, as Bienais; mas para os jovens artistas a entrada no circuito eram os Salões no Rio. Uma unica exceção, o Paraná, com uma política cultural própria, e bons Salões e boas mostras temáticas, como as mostras de desenhos, muito valorizado na época, mesclando artistas convidados e artistas selecionados.
No final desta década e início dos anos 1980 a Funarte começa a incentivar a descentralização: exposições itinerantes, salões em pequenas cidades, mas ainda um movimento tímido, tudo muito distante e difícil. Um projeto da Funarte, o Projeto Arco-Íris (sem segundas intenções, na época o rainbow ainda não tinha sido apropriado como símbolo do movimento gay) levou trabalhos de uma meia dúzia de jovens artistas, eu estava lá com 3 ou 4 aquarelas, em lugares como Itajubá, Teresina e Belém; recebemos depois clipping dos jornais locais que exaltavam os artistas como redentores da cultura local; em Itajubá eu fui, com o Chico Fortunato, e fomos recebidos com banda de música e todas as honras de visitantes ilustres.
Participar de um salão nesta época era muito complicado, em termos de logística. Fotos de trabalhos com qualidade eram caras, em preto e branco, coloridas então totalmente fora do orçamento de um artista jovem. Assim, você se inscrevia e tinha que mandar, na inscrição, os trabalhos, físicos, com moldura. Se o Salão era no Rio, tudo bem, você podia pegar um ônibus até o local da inscrição carregando aquela tralha; os trabalhos não eram avaliados a partir do dossiê (na verdade o dossiê era apenas o currículo e as fichas de inscrição) e sim "ao vivo"; e os trabalhos rejeitados eram "jogados" em um porão com a humilhante letra "R" em vermelho no verso; e lá você ia ter que resgatá-los, voltando de ônibus com eles, o peso das letras "R" era de toneladas.
Acidentes: uma pintora, E.S., minha namorada na época, foi aceita em um Salão de Verão com uma bonita pintura. Na semana da montagem do Salão, o crítico Roberto Pontual liga para ela, totalmente fora de si; nos trabalhos de montagem, outro trabalho, pesado, caiu sobre a pintura dela e cortou a tela; três cortes grandes, profundos; as opções eram retirá-la do Salão; ou ela refazer a tela. Disciplinada, ela repintou a obra; como era uma pintura mais conceitual, foi possível; a tela nova foi exposta e ganhou um prêmio de aquisição; deve estar nos subterrâneos do MAM; a original, um Fontana-like, está comigo (se os cupins não comeram).
Tudo isto que escrevi é um preâmbulo para dizer de como hoje o contexto está diferente.
Acabaram-se totalmente os Salões Nacionais. Os salões regionais e locais hoje tem uma programação intensa, uma consequencia das leis de incentivo à cultura e da política de descentralização cultural do Ministério da Cultura, que pode ter seus excessos (supervalorizar o regional em detrimento da contemporaneidade) mas que significa descentralização do fluxo de recursos.
Ao mesmo tempo, os salões regionais/locais deixam de ser provincianos, pois as novas tecnologias facilitam a inscrição de artistas de todo o país. Para participar em um salão no Pará, por exemplo, hoje basta mandar o dossiê, por email ou Sedex; nos anos 1970-80 eu teria que mandar três trabalhos, com moldura, vidro; pesados, pela Varig-Cargas, para o Pará, um custo alto; e que poderiam ser recusados (frete de retorno a cobrar). Para mim, na época, participar em salões fora do Rio só como artista convidado, e assim mesmo só em alguns, os mais conceituados.
Então, hoje, temos para os artistas jovens um circuito intenso de salões pelo Brasil afora; e nenhum salão no centro irradiador de cultura que é, ainda, o Rio de Janeiro.
Pensei nisso tudo entre chopps e bolinhos de bacalhau na velha Adega Pérola, saindo da abertura da exposição Novíssimos e esperando a hora de entrar no Fosfobox para a festa do Saulo Laudares, desta vez com o artista convidado Heleno Bernardi. Minha madeleine foram os bolinhos de bacalhau, me levaram por um breve momento aos anos 1970 (não fosse a visão do fantasma de um antigo garoto-prodígio, precoce autor de uma peça de sucesso e hoje, trôpego em suas muletas, um lobisomem pelas madrugadas de Copacabana), e me trouxeram de volta a uma atualidade bem diferente.
Melhor ou pior, não dá para comparar, diferente; a tecnologia certamente facilitou a vida, mas abriu novos desafios. No final das contas, a instituição "Salão de Arte" está aí, mais viva que nunca, e ninguém mais contesta. Enfim.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Bárbara & Gordon & Rebecca

Últimos dias para correr e ver duas exposições, no Rio, que estão se encerrando, uma delas  nesta semana e a outra na próxima.
As duas exposições estão em dois polos do Corredor Cultural do Rio de Janeiro, entre elas uma andada em uma linha quase reta de menos de um quilômetro, passando pelo Arco do Teles, onde sempre eu escuto os gemidos de Bárbara dos Prazeres.
Bárbara morava na rua, nos anos 1800, abrigada sob o mesmo Arco dos Teles sob o qual eu caminho em meu circuito artístico. O Arco, que milagrosamente escapou quase incólume da especulação imobiliária que arrasou o Rio de Janeiro. Antes da especulação imobiliária, o arrasa-quarteirões para o desmonte do morro do Castelo, e a construção da Av.Pres.Vargas; lá mesmo, na atual Praça XV (o antigo Largo do Paço, o Largo do Terreiro do Polé), desfigurado, asfixiado com a Perimetral, vendo depois surgir o espigão da Universidade Cândido Mendes no pátio do Convento do Carmo.
O Arco escapou, se olhamos só para baixo, pois em cima dele se plantou um edifício horrível, acho que pela força de Bárbara dos Prazeres, que lá morava e ainda mora, e cujos suspiros de gozo eu sempre ouço.
Ouço mesmo, não é força de expressão. Eu sei. Eu a sinto, em baixo do Arco, e o Largo do Paço cheio de movimento diurno, navios chegam, a família Real no Paço, o comércio na Rua Larga, marinheiros chegam e saem a todo o momento no atracadouro, o Príncipe de Bragança é um jovem audacioso e sensual, depois a jovem Imperatriz é uma Habsburgo, depois, depois...
Bárbara, em seu posto, sob o Arco, é o verdadeiro centro de tudo; talvez uma noite mesmo o impetuoso Bragança tenha ido gozar entre as coxas quentes de Bárbara; mas se não ele, os nobres e os marinheiros, os embaixadores e os clérigos, os jovens e os velhos, certamente, gozaram, e alimentaram com seu gozo os gemidos que eu hoje ainda ouço.
O que ficou na história não é muito simpático a Bárbara. Eu sei, mentiras perpetuadas. Os historiadores são uns porcos chauvinistas, contam a história do ponto de vista dos vencedores, dos machos, dos caretas. Uma questão de gênero, que só apareceu recentemente.
Assim, dizem os historiadores que ela era uma bruxa, que matou o marido e os amantes, que tinha sífilis (bom, isso bem provável, pelo estilo de vida, se fosse hoje certamente seria HIV+) e/ou lepra, e que raptava crianças abandonadas para matá-las em rituais satânicos, bebendo o sangue dos enjeitados para conseguir a cura de suas mazelas. Uma serial-killer avant la lettre, talvez. De linda dos Prazeres passou a ser vista como vampira, tornou-se "a Onça" dos pesadelos das crianças, até que simplesmente desapareceu, morta certamente, mas continuou por décadas a frequentar os pesadelos dos cariocas.
Eu sei, para mim tudo mentira, quando eu passo pelo Arco do Telles vindo do Espaço Cultural do Paço e indo para o CCBB, ela sussurra em meus ouvidos, eu a ouço, a sinto; peço sua bênção; quando bebo um chopp ou um vinho em algum vernissage na área sempre deixo algum trago para ela; e agradeço a ela por eu estar de novo, ali, mais uma vez; não a vejo, ainda, mas um dia quem sabe?
Ela, para mim, é a verdadeira dona do Arco do Telles; foi ela quem o preservou da especulação imobiliária , ela cuida de tudo. Assim, para mim foi ela quem fez com que, em pleno 2010, duas exposições muito importantes, e inéditas no Rio, se encontrassem nas duas extremidades do "seu" corredor: Desfazer o Espaço, de Gordon Matta-Clark, no Paço Imperial, e Rebelião em Silêncio, de Rebecca Horn, no CCBB. Não é pouca coisa, é de primeira.
Gordon Matta-Clark desenvolveu seu trabalho, jovem, nos anos 1970, e morreu prematuramente em 1978, com 35 anos. Tem o frescor da juventude, e mais ainda, de quem foi jovem naquela década mágica, quando ser jovem era mais do que um adjetivo (o jovem artista), ser jovem era ser o motor do mundo, em um mundo das gerações anteriores que caía aos pedaços em tanto conformismo, no auge da Guerra Fria; e um mundo que seria dos jovens, só seria salvo pelos jovens na medida em que eles recusassem os paradigmas das gerações anteriores.
(tudo isso aconteceu, talvez Matta-Clark nem imaginasse, ao fazer seus trabalhos, que seria possível tanta mudanca, tantas conquistas e ao mesmo tempo tantos retrocessos: a liberação feminina aconteceu, as minorias ganharam visibilidade, a ecologia passou a ser discutida seriamente, a Guerra Fria se acabou, o Muro de Berlin caiu, a internet possibilitou comunicação universal instantânea, veio a globalização com novas formas de dominação; o terrorismo internacional tem poderes de submeter até as grandes potências; o fundamentalismo e o obscurantismo não diminuiriam, pelo contrário, são mais fortes e poderosos; o circuito da arte incorporou no mainstream o que antes era radical; o radical se banalizou).
Matta-Clark fazia intervenções, mas não eram intervenções banais. Ele simplesmente cortava uma casa ao meio; depois retirava parte dos alicerces de uma das metades da casa; e esta caía um pouco, na lateral, oblíqua, na medida apenas para expor a fenda entre as partes, como uma coisa sobre-humana e ao mesmo tempo tão simples; e o interior da casa, visto através da fenda, recebia sol, luz, como nunca.
Ele levava sol, luz, a lugares e conceitos escuros, ele levava um novo olhar e uma nova forma de vida, utópica e possível, a um meio artístico e um establishment que se caracterizavam pelo conservadorismo mais arraigado.
Arte é vida, e para o artista americano, arte é penetrar nas brechas, é propor e viabilizar alternativas; não é pintar telas abstrato-expressionistas para as penthouses dos Rockefellers ou para os lobbies das grandes Corporações. Ao realizar suas efêmeras intervenções, em escalas gigantes e com meios precários, com gigantescos esforços físicos, o artista questionava sobre a ocupação do espaço urbano e a destruição da memória das cidades, a mesma especulação imobiliária que, por exemplo, até hoje faz tudo para destruir o Rio de Janeiro.
Uma arte política, uma atuação política. Em 1971 o artista boicotou a Bienal de São Paulo, e assinou manifesto contra a ditadura brasileira que respaldava a mostra.
Além das intervenções urbanas, Matta-Clark atuou em experiências culinárias, estudos de Alquimia, dança, performance, desenho e fotografia; e sempre dentro deste espírito questionador sobre os espaços, a urbanização, a inserção, os moradores de rua, o desperdício, a sustentabilidade, a arte.
A rebelião de Rebecca Horn se faz em silêncio, em sutilezas, um trabalho que apresenta questões ao espectador, que é levado a um mundo de dualidades, de pequeno/grande, dentro/fora, amor/ódio, lirismo/máquina, de repetições e de inesperado.
Nascida em 1944, apenas um ano depois de Matta-Clark, a artista foi uma das pioneiras na utilização da tecnologia em arte, nos anos1970. Seus primeiros trabalhos consistiam de performances com máscaras, próteses e objetos feitos com penas de aves; que evoluíram para impressionantes instalações e esculturas cinéticas, feitas em e para lugares carregados com grande importância histórica e política. Assim foi em 1994, em Viena, com a Torre dos Sem-nome, quando a artista cria um monumento para os refugiados das guerras da península balcânica, uma torre com violinos mecânicos.
A partir de filmagens feitas para documentar suas performances, Rebecca passou a utilizar também a linguagem do vídeo, e daí ao cinema, chegando em 1990 a criar e dirigir um longa-metragem, Buster’s Bedroom, com recursos de cinema profissional e a participação dos atores Donald Sutherland e Geraldine Chaplin. Este filme e vários outros da obra cinematográfica da artista podem ser vistos nesta exposição.
Na magnífica rotunda do CCBB, O Universo em uma Pérola, uma enorme escultura em movimento, construída por dois espelhos separados por funis de ouro. Ao olharmos nossa imagem no jogo de reflexos, paradoxalmente o que parece se mover não são os espelhos, não é nossa consciência, e sim as paredes do prédio, provocando estranheza ou mesmo causando vertigem.
É uma exposição para ser vista com tempo, com vagar, não é uma exposição para uma leitura dinâmica (pensando bem, que exposição seria adequada para uma leitura dinâmica?).
Tempo para poder ver todos os filmes, e também para "espreitar" os objetos da artista, que "acordam" e funcionam aleatoriamente, de tempos em tempos. De repente, uma máquina-borboleta enclausurada em uma redoma de vidro faz um pequeno voo; um leque de penas se abre; um piano pendurado do teto, com as pernas para cima, começa a ser tocado mecanicamente; uma "máquina de pintar" joga manchas de tinta em uma parede... Espreitar, ser surpreendido; pensar sobre.
E também para pensar sobre os muitos pontos em comum e os muitos pontos divergentes entre os trabalhos dos dois artistas, trabalhos totalmente contemporâneos. Como o trabalho político tão radical do Matta-Clark nos anos 1970 foi interrompido por sua morte; enquanto que a maior longevidade da artista alemã possibilitou um desenvolvimento do trabalho, utilizando recursos do sistema; como hoje o sistema aceita, e até incorpora, procedimentos outrora visto como radicais e contestadores; talvez até diluindo sua força de contestação.
O precário dos filmes em Super 8 do artista americano e a super-produção do longa-metragem de Rebecca Horn falam talvez da mesma coisa; mas a contundência é bem diversa. Mesmo como peça de museu, como documentário apenas, as experiências de Matta-Clark remetem a um momento de mudança; talvez esta mudança, a possível, tenha ocorrido; e talvez só nos reste olhar o mundo globalizado se balançando como dois espelhos separados por funis de ouro.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

De volta ao Rio

O corpo moído pelas 12 horas de voo com a conexão, em cadeira apertada da classe econômica (nada que a sessão de RPG de hoje não tenha resolvido), o cansaço de ter que ver e fazer tudo em uma viagem de apenas 12 dias. Não consegui escrever nada no blog, paciência, fico devendo, escrevo a partir de hoje, tanta coisa para contar.
Uma estranheza em caminhar nas ruas (Ipanema é linda mas está tão suja!), em ler o jornal (Dilma leva sua maquiadora para as viagens internacionais, nada diferente do que a Dulce Figueiredo fazia).
E já me programando para ver neste resto de semana as exposições em cartaz (uma boa programação, em especial Rebecca Horn no CCBB e Gordon Matta-Clark no Paço Imperial) e também para os eventos do próximo sábado dia 29:
1- Nova edição do Projeto Acervo, desta vez com obras de Amália Giacomini, Clarissa Campello, Débora Engel, Fernando de La Rocque, Geraldo Marcolini, Laura Lima, Leonardo Videla, Marcos Chaves, Raul Mourão e Romano
2- Inauguração na Galeria Progetti de uma exposição coletiva com obras de AoLeo, Bettina Vaz Guimarães, Elisa Castro, Jimson Vilela e Vivian Caccuri
3- Entretempos, coletiva no Largo das Artes com obras de Fernando Azevedo, Flavio Colker e Leandro Pereira
Ufa!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Do virtual ao real e de volta, mais uma vez

É uma tendência bem atual. Apesar, ou mesmo por causa, do sucesso de eventos do circuito tradicional de artes (galerias, leilões, feiras de arte), os artistas buscam novas alternativas para veicular seus trabalhos.
Uma destas iniciativas, no Rio, é o Projeto Acervo (já escrevi aqui no blog sobre este projeto algumas vezes), que foi inspiração para galerias comerciais em projetos com formato semelhante, como a Galeria Arte em Dobro, já na 3ª. edição de sua Coleção.
Outras iniciativas bem interessantes, e com bom retorno, estão baseadas na internet e nas redes de relacionamento, conceitos e realidades bem contemporâneas.
Um exemplo é o da Galeria Motor, uma galeria virtual de arte que, lançada no início de 2010, funciona acoplada ao site de compras Submarino, a partir de iniciativa da Galeria Nara Roesler (SP), com apoio de dez outras galerias do Rio e São Paulo. Na SP-arte esta galeria estava presente com um stand, com vendas, fazendo uma bem sucedida passagem do ciberespaço para o espaço real da feira. Mas a Motor não é, como vimos, uma iniciativa dos artistas e sim de empresas já consolidadas (o Submarino e as galerias) no sentido de busca de novos consumidores de arte, através da internet.
Já no Rio, a utilização das redes de relacionamento para veicular o trabalho de artistas e promover vendas de arte surgiu a partir da iniciativa dos próprios artistas, com a criação da FaceArte, que funciona como um “perfil” no Facebook. Os portfólios dos artistas ficam armazenados como álbuns do Facebook, a divulgação segue o formato de mensagens e eventos do site, e as vendas são negociadas por email.
Além das atividades de divulgação de obras e artistas, FaceArte também se mobiliza em situações de comoção (terremoto no Haiti, chuvas no Rio), na forma de “leilões” virtuais de trabalhos de arte com a renda revertida para as campanhas de doação.
E agora, FaceArte também faz uma passagem bem sucedida para o mundo real, com a exposição Formatos, que abriu ontem no Espaço Crânio, no Rio. É a chance de ver “ao vivo” as obras que estão expostas no espaço virtual do Facebook, conversar com os artistas e organizadores, e o público reagiu bem, enchendo a galeria e comprando. O sucesso no mundo real certamente vai alavancar a atuação virtual de FaceArte.
Utilizando sistemas pré-existentes (todo o software e infra-estrutura do Facebook, já disponível gratuitamente), sistemáticas próprias leves (contato com clientes por email, remessa de trabalhos por Sedex, captação de novos fornecedores/artistas e consumidores/colecionadores através da própria rede de relacionamento), e criando uma imagem virtual positiva (bom gosto, contemporaneidade, preocupação social), FaceArte pode ser descrito como um case de sucesso em e-commerce.
Apesar do crescimento e consolidação do mercado de arte no Brasil nas últimas décadas, ele ainda é muito fechado, com muito personalismo e jogos de poder e de interesses. Desta forma, estas iniciativas são importantes para os artistas que conseguem, sem entrar em guerra com as instituições, como era usual nos anos 1970, ampliar suas alternativas.



O link para FaceArte é: http://www.facebook.com/facearte
Fotos do vernissage da exposição estão no site Só Arte Contemporânea

terça-feira, 6 de abril de 2010

No Jardim de Ervas Daninhas

Jardim das Daninhas, a exposição da artista Rosana Palazyan, na Casa França Brasil, transforma a imponente alfândega de Grandjean de Montigny em um bucólico jardim ou pracinha, com caminhos entre canteiros de plantas, casulos de borboletas que se abrem e um realejo que toca e revela sortes em pequenos papéis coloridos.
Mas à medida em que caminhamos entre os canteiros e lemos as frases delicadamente bordadas com fios de cabelos ou impressas nos papéis da sorte, penetramos em uma realidade cruel, de comunidades periféricas, de moradores de rua, de vítimas de violência, de marginalizados de toda a sorte.
A arte, para Rosana, é uma ferramenta de transformação social, e ao dar a voz em seu trabalho aos marginalizados da sociedade, a artista contribui para um diálogo e um caminho de integração dos mesmos.
Na performance O Realejo este diálogo se faz de uma forma bem emocional. O som do realejo nos leva a um passado mítico, e a sorte que tiramos em um papel colorido nos indicaria talvez um futuro brilhante ou um amor transformador; no entanto, o papel traz apenas parte de um depoimento de um morador de rua ("...mas a gente não é louco. A gente tá falando sozinho porque a gente tá coordenando a mente..." foi a sorte que eu tirei).
Na instalação No Lugar do Outro, uma sala totalmente branca tem um pequeno móvel "de hospital", e dezenas de frágeis casulos brancos na perede; alguns casulos se abriram (na verdade, em uma performance na inauguracão da exposição foram abertos por biólogos) e deles saíram, como borboletas, delicados bordados com fragmentos pessoais de moradores de rua entrevistados.
(Uso a palavra "entrevistados" para os moradores de rua que participaram do projeto por um defeito de linguagem, o correto talvez fosse falar não de "entrevistados" mas de co-autores do trabalho da artista, é o que eu acho; mas o circuito de arte ainda, mesmo hoje, preza a "autoria" de um trabalho)
Finalmente, Por Que Daninhas, que acompanha os canteiros, com relicários que funcionam como placas indicativas das espécies, mas tem plantas e frases bordadas com fios de cabelos, que questionam o próprio conceito de "erva daninha". A erva daninha seria uma planta que é considerada má, e que precisaria ser destruída, se não iria acabar por invadir e tomar todo o jardim; o que Rosana mostra é que este conceito é ideológico, sujeito a modas; algumas das chamadas daninhas são bonitas, porém não estão na moda, e assim acabam por ser dizimadas; e a artista aplica esta metáfora à própria organização do corpo social, em uma mensagem de integração contra a marginalização.
A exposição é muito bonita, e alia um conteúdo político a uma forma estética bem precisa e sensível.

Em edições anteriores do Realejo, inclusive na Bienal de SP, o realejo conta com um periquito amestrado, que retira a sorte com o bico e a entrega ao espectador. Aqui no Rio, um tal  Secretário Especial de Promoção e Defesa dos Animais censurou a participação do pássaro; a gaiola do realejo ficou vazia e o homem do realejo, totalmente passado, dizia apenas que "o periquito não pode vir"...
... É irônico, eu acho: esta censura, o próprio conceito de uma Secretaria de Estado de Defesa dos Animais que "defende" os animais acima da integridade de uma obra de arte, é uma característica bem marcante de nosso tempo, este tempo de supremacia total de uma ideologia do politicamente correto, de um neo-conservadorismo do Estado que, em tática para mascarar os verdadeiros problemas, ataca pequenos problemas, passando através da mídia a sensação de que se está resolvendo alguma coisa.
Assim, proíbe-se o periquito amestrado na performance do realejo, censura-se os desenhos do Nelson Leirner feitos sobre fotos da Anna Geddes, persegue-se os "mijões" nos blocos de rua no Carnaval (enquanto nos mesmos blocos os batedores de carteira e mesmo assaltantes a mão armada "trabalham" livremente).
É irônico, já que ao meu ver a exposição trata exatamente disso, ao questionar uma ideologia dominante que define seres como daninhos para, marginalizando-os ou exterminando-os, perpetuar seu poder.

terça-feira, 30 de março de 2010

Sobre xilos e marés

Exposição do artista paulista Fabrício Lopez na Galeria Mercedes Viegas, com xilogravuras em grandes formatos e pinturas sobre papel. Impacto. Recupero no notebook um texto inacabado, que comecei a escrever a partir de minha primeira visão do trabalho do artista.

Há quase um ano, em São Paulo, na exposição "Rumos Artes Visuais - Trilhas do Desejo", no Itaú Cultural, uma xilogravura prende minha atenção. Não é uma xilogravura tradicional, está longe da visão mental que fazemos ao pensar em “xilogravura”.

"Rema, Rema, Remador" tem 3x4m, ocupa uma parede inteira onde está colada diretamente, sem moldura, tem cores e formas inusitadas, repetições, sobreposições, veladuras, o resultado é mais de pintura do que de xilogravura. Verdes (verde esmeralda, verde musgo, verde cana, muitos mais), vermelhos, sombras, negros; um mar, formas de um barco; e a escala que domina o espaço em torno, como uma instalação, como uma maré que invadisse a sala e a Avenida Paulista.

Valongo, a exposição individual do artista na Estação Pinacoteca, que vejo logo em seguida, no mesmo dia de uma viagem “bate-e-volta” BSB-SP-BSB, é para mim ainda mais marcante. O título faz referência ao bairro onde o artista tem seu ateliê, na cidade portuária de Santos, um bairro industrial dedicado à atividade de torrefação do café no período de auge da produção cafeeira paulista.

Uma xilogravura monumental é o centro da exposição, com formas e elementos que se repetem e se espalham por outras xilogravuras. As matrizes são exibidas, não com a preocupação didática de explicar a técnica, e sim como obras, se misturam e dialogam com os papéis. Letras, palavras, frases aparecem em meio as imagens, porém não ilustram nem elucidam, são pura carga poética e gráfica.

A mostra na verdade é como uma instalação, como uma ópera, onde canoas, pássaros, flores, portas, cabeças são leitmotivs, em meio a uma massa densa de cores e perspectivas fragmentadas, um espaço que se forma e se destrói, revelando e ocultando uma paisagem de cais, de mar, de um horizonte que se intui e que nos escapa, de um infinito que nos desafia e nos ilude, de uma busca sem fim, de novo como as ondas de um mar que pensamos dominar mas que sempre nos foge e que na verdade nos domina.

Assim, ao conhecer, em 2009, as xilos do Fabrício, o tema “xilogravura” entrou em minha pauta mental. E como nada é por acaso, elas, as xilogravuras, apareceram no circuito de artes em muitas mostras, exposições que no todo formam um apanhado de várias vertentes desta técnica na arte brasileira.

Claro que esqueço algumas, e apesar de minhas tentativas de ubiquidade não vi todas, mas em rápido refresh de memória lembro as gravuras de cordel (A Arte de J. Borges: do Cordel à Xilogravura); Luz Noturna, pequena mas importante retrospectiva da obra do Goeldi, pequena já que sua obra gigantesca sempre desafia limites, como o céu negro de suas pequenas gravuras cresce muito além do papel e se projeta no espaço. Ainda, a exposição de Hansen-Bahia, com obras recentemente restauradas do artista alemão radicado no Brasil na década de 1950; a importante exposição do Rubem Grilo, com cerca de 180 trabalhos do artista, que aliou um trabalho de cunho político a pesquisas formais e a um perfeccionismo na execução; os trabalhos iniciais da Anna Letícia, os bichos, em xilo, fortes e que apontam para o desenvolvimento da obra da artista na gravura em metal; todas estas exposições na Caixa Cultural.

Na Pinacoteca, a imponência das massas gravadas em madeira pela artista Maria Bonomi. Na SP-arte conheci o trabalho de outro artista da nova geração de gravadores, o Ulysses Bôscolo, paulista, que constrói em sua bancada de marceneiro caixas de madeira reaproveitada para suas xilogravuras.

E finalmente, a mostra da coleção de George e Monica Kormis, também na Caixa Cultural, uma enciclopédia da gravura brasileira e em particular da xilogravura. Completa, estão todos lá: Segall, Goeldi, Lívio Abramo, Samico, Lygia Pape, Roberto Magalhães, Elisa Bracher, até a série/políptico feita pela Fayga Ostrower para o Itamaraty, talvez o ápice da xilogravura abstrata no Brasil (e onde aparece, de forma pioneira na Brasil, a monumentalidade que vai explodir na obra do Fabrício).

Na exposição no Rio, quando revejo o trabalho de Fabrício e conheço, conversando com o artista, mais sobre seu percurso e seu processo de trabalho, releio os fragmentos que escrevi e volto a pensar em como esta técnica artística pode se manter a mesma, com toda sua tradição; e ao mesmo tempo, se renovar, ser absolutamente contemporânea apesar dos séculos.

Nada mais antigo do que entalhar madeira para reproduzir e disseminar imagens; e nada mais contemporâneo do que as xilos monumentais que Fabrício desenvolve; cópias únicas, matrizes modificadas e reutilizadas, uma paleta de cores “de pintura” em tintas desenvolvidas especialmente para o artista; repetições, sobreposições e veladuras; podemos falar de gravuras ou de pinturas? e pela monumentalidade, não estaríamos já no campo das instalações?

Ao mesmo tempo, estas características tão contemporâneas são também procedimentos “da xilogravura”: as tintas especiais utilizadas são tintas gráficas; as matrizes de madeira reaproveitadas, as folhas de papel coladas diretamente na parede como affiches ou papéis de parede, até a escala monumental já aparecem na história da técnica (aprendo com Fabrício que, já no Século XVI, uma gravura de Ticiano, A Travessia do Mar Vermelho, foi feita em 12 folhas que, juntas, chegam a 2,20 x 1,20m). A utilização destas características “históricas” com uma visão contemporânea marca o trabalho e a pesquisa do jovem artista.

A presença das pinturas ao lado das xilos como que mostra que não há, em seu trabalho, barreiras entre as técnicas. Vindo da pintura e da cenografia, Fabrício um pouco que inverte o usual: mostra gravuras grandes (as menores medem 1x0,70m) ao lado de pinturas em menor escala (52x50cm). Todas, gravuras e pinturas, são sobre papel e são obras únicas. Todas apresentam a mesma temática, o mar, as canoas, pessoas como coadjuvantes de uma história atemporal de cais e de marés. E a mesma paleta, linda (é possível falar de um xilogravador que ele é excelente colorista?): os verdes, os vermelhos, os ocres, os sombras.

Sigo pensando nas tantas exposições de xilogravura, e como, em algumas delas, no trabalho de artistas esta técnica foi empregada com tanta força e tão dentro do espírito da época, que a xilo se tornou imediatamente identificada com este mesmo zietgist. É o caso das gravuras de cordel e também dos trabalhos expressionistas, que tanto marcaram os anos 1950, das gravuras abstratas dos ano 1960 ou dos trabalhos com cunho fortemente político que retormaram a figuração nos anos 1960-70.

E penso em uma xilogravura diferente, renascida, contemporânea, nesta primeira década do terceiro milênio, e que no futuro talvez seja marcante ao pensarmos na imagem da época que ainda não bem entendemos.

No caminho Gávea-Ipanema o vento do mar me leva a Santos, ao cais do porto, às marés, às pequenas canoas e aos navios embarcados com sacas de café torrado, aos verdes esmeralda e verdes azulados, chego a quaqse sentir o cheiro forte do café misturado ao cheiro de maresia, eu sei, a História da Arte acabou, mas também sei que há uma outra história que continua, e que xilogravuras podem ser arte contemporânea, uma blitz, por favor senhor, vá em frente, obrigado, obrigado, pode seguir. OK. Coloco meu CD do Philip Glass no volume máximo e sigo, rumo a Ipanema, ao mar, ao cais do Valongo, sempre em frente, para o alto e rumo ao infinito.


E mais:
A foto do vernissage é do Odir Almeida, mais fotos no site Só Arte Contemporânea
Para ver o blog do Fabrício Lopez, Ateliê Santos
Comentei neste blog a exposição do Rubem Grilo na Caixa Cultural, clique aqui para ler o post
Clique aqui para o texto de Maria Luisa Luz Távora, Fayga Ostrower e a Gravura Abstrata no Brasil, com análise sobre o pioneirismo da artista no Políptico do Itamaraty em termos de monumentalidade na xilogravura
Clique aqui para o Instituto Fayga Ostrower
CordelOn, site sobre literatura de cordel, com textos e imagens de xilogravuras de cordel
Plataforma, o blog do artista Ulysses Bôscolo



segunda-feira, 15 de março de 2010

Entre a Linha Vermelha e a Amarela, no escuro e debaixo d'água

Visita ao ateliê da pintora Lucia Laguna, situado "entre a Linha Vermelha e a Linha Amarela": título de uma série de pinturas da artista, referência aos viadutos e elevados que marcam a paisagem da Zona Norte do Rio.
O céu do domingo de sol se enche de nuvens pesadas à medida em que a tarde cai; o motorista do táxi  fala pelo rádio com seus colegas e combinam parar de trabalhar cedo, fugir do temporal que certamente virá. Passando pelo Maracanã, a paisagem brilha com a alegria e as camisas dos torcedores que chegam para o jogo; mas em seguida cai a chuva, forte; uma brisa alivia o calor; a rua, em um condomínio, é arborizada e quase que só com casas; o portão esconde um jardim cheio de plantas, uma vegetação que se fecha no alto como uma espécie de tunel de verde, que leva a um terraço muito agradável. Mal chegamos, a chuva aumenta, em pancadas, o céu desaba. E suculentas carambolas do jardim são sacrificadas em prol de caipirinhas deliciosas.
Nos primeiros momentos da conversa e das caipirinhas, a luz se apaga. Lucia tem lâmpadas de emergência, que usamos em toda a visita como a espada de um Darth Vader do bem.

Uma visita a um ateliê de pintura em uma noite sem luz é um delicioso contra-senso, mas vamos em frente. Caipirinhas, conversas. As notícias do Rio lá fora são desanimadoras: um rio mesmo, as águas de março e os bueiros que a Prefeitura não desentope, os táxis que desaparecem, a Light que tira do gancho o telefone para reclamações. Pela janela do ateliê vemos o trânsito parado nas Linhas Vermelha e Amarela, o morro da Mangueira totalmente iluminado e raios que caem ao longe.
Olhamos, sob a iluminação das espadas de Dart Vader, os quadros nos quais Lucia está trabalhando, já direcionados: SP-arte, Basel... E a artista nos fala e nos mostra albuns com fotos de seu processo de trabalho, esclarece nossas dúvidas, mostra imagens de pinturas, um livro sobre Paolo Ucello...
O processo de trabalho de Lucia é muito interessante. Ela parte de fotos, imagens de revistas..., que seleciona a partir de um critério subjetivo, imagens que lhe "dizem" algo, como potencial para seu trabalho. Estas imagens são trabalhadas pelos assistentes da artista, já em tela, utilizando tinta acrílica: é a base da pintura; em interação entre Lucia e o assistente, a imagem é modificada, muitas vezes é invertida ou a tela passa por uma rotação, fica "de cabeça para baixo", enfim, aos poucos se afasta da imagem original.
Até que se encerra o trabalho do assistente e a tela passa a ser trabalhada, já com tinta a óleo, exclusivamente pela Lucia. Cria novos elementos, destrói outros, recobre grandes áreas, mascara trechos e linhas com fita crepe que, descoladas, revelam camadas anteriores. Áreas que não funcionam, já em óleo, são recobertas com gesso cré e pigmento, o mesmo material da preparação inicial da tela; e são retrabalhadas. O contraste entre o fosco do gesso cré e o brilho do óleo é aproveitado, e é interessante; assim como pequenos toques de tinta dourada, que parecm ocre mas que subitamente brilham.
O trabalho incorpora partes da estrutura original (da imagem que serviu de "inspiração" e do trabalho do assistente) mas a cada etapa adquire uma estrutura nova, própria; ele vive a partir das camadas anteriores, dos erros e dos acertos anteriores; como um palimpsesto; como nós, humanos. Uma vida em evolução, até que um momento a artista vê e sente: está pronto.
A chuva volta a cair, mais forte; não se consegue um táxi; Lucia abre um vinho, e continuamos a conversa.
Lucia fala também de seu processo como artista, mostra trabalhos antigos; fala das viagens para ver pintura, dos grupos de estudo para discutir pintura; fala de si como uma pessoa agregadora, que gosta de trabalhar com outras pessoas e que se valeu desta característica para se unir em grupos que discutiam pintura, isso no início dos anos 1990 quando, mais uma vez, a pintura parecia morta; poucos artistas novos queriam saber de pintura em frente aos novos meios; fala da importancia de, ainda hoje, continuar estas discussões, conhecer trabalhos novos, e com isso reavaliar sempre seu trabalho, de resistir às pressões do mercado que empurram no sentido do fácil, da repetição...

Toca o telefone, conseguiram um táxi, já estamos aqui há 6 horas, amanhã começa outra semana de compromissos... durante a noite tentei desesperadamente mandar uma foto pelo celular para o Facebook, talvez como uma forma de contato com a realidade lá fora ou como um náufrago que manda mensagens em garrafas de 3G; ao chegar em casa descubro que a foto "chegou", repetidas vezes, apesar das mensagens de erro; apenas um pálido registro, uma foto escura, com pouca definição.
A noite toda estivemos debaixo de um dilúvio, ilhados, no escuro. Mas a clareza do pensamento de Lucia Laguna, sua força interior, a beleza e a qualidade de seu trabalho, fizeram com que o ateliê se transformasse, para nós, em um lugar mágico, iluminado. Uma lembrança que certamente ficará, com muito mais força e nitidez do que a foto escura e indefinida.

Participaram da visita ao ateliê os artistas Virgínia Paiva e Manoel Novello, além deste escriba que acha que caipirinha de carambola é algo muito próximo ao néctar do Olimpo.

Lucia Laguna, currículo e imagens no site da Galeria Laura Marsiaj

Clique aqui para ver o comentário que fiz no blog sobre a exposição da Lucia em 2009 na Galeria Laura Marsiaj