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sábado, 4 de junho de 2011

Dona Paula

Um pedido de uma amiga é uma ordem. Daniela Name pediu a quatro pintores cariocas algumas frases ("três frases, sintético mesmo", ordenou) para seu blog sobre a exposição da artista portuguesa Paula Rego na Pinacoteca de São Paulo. Os artistas: Patrizia d´Angello, Bruno Miguel, Jozias Benedicto e Raul Leal.
Uma das super-exposições que vi em São Paulo na intensa semana da SP Arte. E que não virá ao Rio, shame! shame! Como a do Leonilson no Itaucultural de SP, maravilhosa, e a do Gerhard Richter (que está na Caixa Cultural de Brasília e que vai a São Paulo e até a Salvador). Será que é porque ainda somos um balneário? Enfim, nada que uma passagem com desconto ou com milhagem não resolva, mesmo se for uma ida bate-e-volta a SP como fiz em horários absurdos mas a preço mais-barato-que-o-Expresso-Cometa.
Os textos estão no blog da Daniela Name, ao lado da análise, como sempre enriquecedora, feita sobre a trajetória e a obra da artista, complementada com boas imagens de algumas obras expostas.
Aqui vai o meu texto, um registro apenas de uma exposição marcante, inesquecível, de um trabalho forte e visceral, ao mesmo tempo eterno e tão contemporâneo.
"Domínio técnico completo: óleo sobre colagem, tinta acrílica, desenho, pastel, gravura em ponta-seca, água-forte, lito. Mas o trabalho de Paula Rego é muito mais que isso, que o virtuosismo técnico. É o desvendar de um universo completo em sua estranheza e pervesidade, infantil e adulto, mulher e homem e andrógino, feto abortado e animais à espreita, personagens de contos de fada e de Sade. Em salas e quartos de classe média-alta, famílias se dedicam a jogos dúbios, de prazer e de horror, enquanto sobre o tapete passeia um inocente animal de estimação, um pequeno javali de dentes afilados ou a filha masturba a bota do pai ao engraxá-la. Bailarinas musculosas, um anti-Degas, ajeitam os tutus e se preparam para entrar em um palco  que nunca aparece, o espetáculo é a espera do espetáculo. Mulheres que abortam, solitárias, dor e sangue discretos, recolhidos, fetos, bonecas destruídas, criaturas do mar. Azulejos portugueses, Portugal que lida com as décadas de brutal repressão e atraso, a tristeza do fado e a nostalgia de um antigo império hoje decadente, a herança moura, os muxarabis, as mulheres encarceradas. Uma exposição para ser vista e revista, com vagar, mergulhando neste mundo cruel e pulsante, ameaçador e ao mesmo tempo tão familiar, de histórias infantis, de dores e de sangrar. Ao mesmo tempo um mundo tão real: basta olhar em volta. Basta ter olhos e ver. Ou fechar os olhos e sonhar os pesadelos de Paula Rego."


Clique aqui para o blog da Daniela Name, uma referência em comentários, notícias, tudo sobre arte

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Os Salões de Arte e os novos Novíssimos

Uma festa, a abertura dos Novíssimos 2010, na Galeria do Ibeu, em Copacabana, Rio. Adoro Copacabana, o prédio onde está o Ibeu é um clássico, a exposição é muito boa, muita gente no vernissage, e eu, o inquieto olheiro, não consigo desviar o foco dos bons trabalhos mostrados para viajar no passado.
A exposição dos Novíssimos está impecável, as premiações foram totalmente acertadas: Daniel Lanes é o premiado que fará uma individual na Galeria em 2011, e Rafael Adorján uma menção honrosa, estraá em um evento de fotografia que a Galeria do Ibeu programa também para 2011.
Muitos outros artistas bons, muitos amigos, outros que conheci ali mesmo; uma alegria especial para mim, a maravilhosa pintura da Danielle Carcav, tão admirada, após a exposição virá para minha coleção, eu poderei olhar para aquelas florações cor-de-rosa até o final dos meus dias. Enfim, o artista M.N. (também lá, com lindas pinturas) diz que eu tenho um toque de Midas, será?
Mas aqui não quero falar sobre os Novíssimos e sim sobre os Salões de Arte, uma instituição cada vez mais anacrônica (sua irrelevância já constatada por Marcel Duchamp com a Fonte). Uma expoaição como o Novíssimos mostra uma alternativa para um Salão do século XXI; outras alternativas existem; mas a questão básica é: inserção dos novos artistas no circuito.
Antigamente, muito antigamente, a unica maneira de um jovem artista entrar no circuito de artes no Brasil era através da participação em Salões.

Nem falo de uma época pré-histórica, pré-anos 1950-60, dos Salões de Belas Artes, que estavam intimamente atrelados ao establishment: professores eram jurados e os alunos que se destacavam, talvez não só pela qualidade em seguir os parâmetros da Academia mas também pela cordialidade e outros critérios pessoais, recebiam os prêmios, o maior dos quais as Viagens ao Exterior, aí entendido como Paris.

Falo dos anos 1970, quando o Salão de Belas Artes foi expurgado do academicismo e se transformou, por lei federal, no Salão Nacional de Artes. Do Salão Carioca, da Prefeitura do Rio.
E também de Salões da iniciativa privada, como o Salão da Bússula, patrocinado por uma empresa de publicidade cuja logomarca era uma bússula (coisa tão pré-design). Dos Salões de Verão patrocinados pelo então grande Jornal do Brasil; em um deles o jovem artista Antonio Manoel se inscreveu, ele, seu corpo, como obra; a proposta era que o prêmio de aquisição significaria que o MAM, beneficiário das obras adquiridas, deveria prover a subsistência do artista, como obra, pelo resto de sua vida; na abertura do Salão o artista ficou nu no Museu; as fotos são emblemáticas; e em uma época em que ainda não se falava, no Brasil, de performance, e onde a repressão era sufocante, não só a repressão da ditadura como a repressão sexual de uma classe média pré-liberação sexual.
Um pouco mais tarde, ainda anos 1970, quando a maioria dos artistas no Brasil estava entregue ao sistema (o boom da Bolsa incentivado pelo Delfim Neto criou uma bolha de galerias de arte em lugares nobres do Rio e São Paulo), um grupo de artistas no Rio começa a questionar o circuito de artes.
No Rio, um dos Salões preparados com toda a pompa pelo mesmo Jornal do Brasil foi boicotado pelos artistas, um manifesto com assinaturas dos artistas foi distribuído aos convidados, à burguesia que frequentava as festas da Condessa Pereira Carneiro, aos intelectuais que contestavam a ditadura mas que não viam a ditadura do circuito de artes. Minha assinatura está lá, neste manifesto, ao lado dos então também jovens artistas Paulo Herkenhoff e Fernando Cocchiarale, tenho a documentação guardada em algum armário aqui em casa, se os cupins não comeram.
Como o fogo comeu o MAM em 1978. As dores do parto do moderno gerando o contemporâneo e do contemporâneo matando em lenta agonia o moderno.
Sim, todos os Salões que citei eram no Rio de Janeiro. São Paulo era o templo dos consagrados, as Bienais; mas para os jovens artistas a entrada no circuito eram os Salões no Rio. Uma unica exceção, o Paraná, com uma política cultural própria, e bons Salões e boas mostras temáticas, como as mostras de desenhos, muito valorizado na época, mesclando artistas convidados e artistas selecionados.
No final desta década e início dos anos 1980 a Funarte começa a incentivar a descentralização: exposições itinerantes, salões em pequenas cidades, mas ainda um movimento tímido, tudo muito distante e difícil. Um projeto da Funarte, o Projeto Arco-Íris (sem segundas intenções, na época o rainbow ainda não tinha sido apropriado como símbolo do movimento gay) levou trabalhos de uma meia dúzia de jovens artistas, eu estava lá com 3 ou 4 aquarelas, em lugares como Itajubá, Teresina e Belém; recebemos depois clipping dos jornais locais que exaltavam os artistas como redentores da cultura local; em Itajubá eu fui, com o Chico Fortunato, e fomos recebidos com banda de música e todas as honras de visitantes ilustres.
Participar de um salão nesta época era muito complicado, em termos de logística. Fotos de trabalhos com qualidade eram caras, em preto e branco, coloridas então totalmente fora do orçamento de um artista jovem. Assim, você se inscrevia e tinha que mandar, na inscrição, os trabalhos, físicos, com moldura. Se o Salão era no Rio, tudo bem, você podia pegar um ônibus até o local da inscrição carregando aquela tralha; os trabalhos não eram avaliados a partir do dossiê (na verdade o dossiê era apenas o currículo e as fichas de inscrição) e sim "ao vivo"; e os trabalhos rejeitados eram "jogados" em um porão com a humilhante letra "R" em vermelho no verso; e lá você ia ter que resgatá-los, voltando de ônibus com eles, o peso das letras "R" era de toneladas.
Acidentes: uma pintora, E.S., minha namorada na época, foi aceita em um Salão de Verão com uma bonita pintura. Na semana da montagem do Salão, o crítico Roberto Pontual liga para ela, totalmente fora de si; nos trabalhos de montagem, outro trabalho, pesado, caiu sobre a pintura dela e cortou a tela; três cortes grandes, profundos; as opções eram retirá-la do Salão; ou ela refazer a tela. Disciplinada, ela repintou a obra; como era uma pintura mais conceitual, foi possível; a tela nova foi exposta e ganhou um prêmio de aquisição; deve estar nos subterrâneos do MAM; a original, um Fontana-like, está comigo (se os cupins não comeram).
Tudo isto que escrevi é um preâmbulo para dizer de como hoje o contexto está diferente.
Acabaram-se totalmente os Salões Nacionais. Os salões regionais e locais hoje tem uma programação intensa, uma consequencia das leis de incentivo à cultura e da política de descentralização cultural do Ministério da Cultura, que pode ter seus excessos (supervalorizar o regional em detrimento da contemporaneidade) mas que significa descentralização do fluxo de recursos.
Ao mesmo tempo, os salões regionais/locais deixam de ser provincianos, pois as novas tecnologias facilitam a inscrição de artistas de todo o país. Para participar em um salão no Pará, por exemplo, hoje basta mandar o dossiê, por email ou Sedex; nos anos 1970-80 eu teria que mandar três trabalhos, com moldura, vidro; pesados, pela Varig-Cargas, para o Pará, um custo alto; e que poderiam ser recusados (frete de retorno a cobrar). Para mim, na época, participar em salões fora do Rio só como artista convidado, e assim mesmo só em alguns, os mais conceituados.
Então, hoje, temos para os artistas jovens um circuito intenso de salões pelo Brasil afora; e nenhum salão no centro irradiador de cultura que é, ainda, o Rio de Janeiro.
Pensei nisso tudo entre chopps e bolinhos de bacalhau na velha Adega Pérola, saindo da abertura da exposição Novíssimos e esperando a hora de entrar no Fosfobox para a festa do Saulo Laudares, desta vez com o artista convidado Heleno Bernardi. Minha madeleine foram os bolinhos de bacalhau, me levaram por um breve momento aos anos 1970 (não fosse a visão do fantasma de um antigo garoto-prodígio, precoce autor de uma peça de sucesso e hoje, trôpego em suas muletas, um lobisomem pelas madrugadas de Copacabana), e me trouxeram de volta a uma atualidade bem diferente.
Melhor ou pior, não dá para comparar, diferente; a tecnologia certamente facilitou a vida, mas abriu novos desafios. No final das contas, a instituição "Salão de Arte" está aí, mais viva que nunca, e ninguém mais contesta. Enfim.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

SP-arte 2010 (anotações esparsas e incompletas)

Vim tão cansado de SP que dormi quase 24 horas seguidas.
Tudo errado. Eu deveria ter começado este texto falando do sucesso que foi a SP-arte em sua versão 2010, está em todos os jornais: "SP Arte, feira paulista de galerias, atinge seu auge após o fim de temores da crise econômica" (O Globo).
É verdade, ao meu ver foi realmente um sucesso, e talvez por isso eu tenha ficado tão cansado de bater perna, subir e descer rampa, andar pelos stands, conversar com mil pessoas, beber taças e taças de espumante, tentar guardar na memória uma infinidade de imagens de obras de arte que, finda esta feira, voltarão a alguma coleção privada ou acervo de galeria, e depois só serão vistos quando retornarem ao mercado, em um leilão de espólio ou talvez nem isto.
Com meu andar incessante no Pavilhão, eu internalizei uma característica das feiras: uma visão dispersa de milhares de realidades heterogêneas competindo entre si, e com esta minha nova personalidade (espero que provisória) não consigo escrever meu texto para o blog com começo (talvez falar das feiras medievais, uma metáfora do mercado perfeito dos primeiros economistas), meio (talvez destacar galerias e obras, comparar esta edição da feira com as anteriores) e fim (uma conclusão witty).
O registro então passa a ser o de anotações esparsas, "impressões". O que é coerente com a feira e com a forma de registro visual que adotei: as fotos de celular, toscas e com baixa definição, substituindo as fotos "boas" (com auxílio do São Photoshop) que eu fiz para a feira do ano passado e para outros eventos.
Em tópicos, sem preocupação com ordem, já sabendo que serei injusto, esquecerei coisas importantes, selecionarei apenas partes não tão significativas etc etc etc:
1- Meu destaque com certeza é para Tamba Tajá, escultura da Maria Martins feita nos anos 1940. Avaliada em R$1.500.000,00, é a obra mais cara da feira (e vale cada centavo, principalmente após a redescoberta da escultora, com o lançamento de sua biografia que discute em detalhe seu longo caso com Marcel Duchamp e sua influência na obra do artista). Galeria Arte 57, de SP.
2- Lançamento do livro da Adriana Varejão, Entre Carnes e Mares. Uma publicação bem abrangente sobre a trajetória da artista, com boas reproduções de obras e vários textos (na minha fila de leitura, passando à frente de muitos outros livros).
3- Profusão de obras da Mira Schendel. Na Galeria Pinakotheke, um lindo políptico da artista (uma sequencia de têmperas sugerindo movimento como de uma onda).
4- O virtual se torna real: a Galeria Motor, uma galeria virtual de arte associada ao site Submarino, com um stand físico, obras reais e vendas efetivas.
5- A mais nova galeira, a Ziper, estreia em grande estilo, com um bom stand. O foco é em artistas jovens, e lá está uma bonita instalação do Pedro Varela, que também aparece em outros stands.
6- Um pequeno Guignard, paisagem noturna, com toques de cor quase neon, tão contemporâneo em sua simplicidade.
7- Entre as aquisições da Pinacoteca de SP, um bom Ivens MachadoGaleria Amarelonegro dos anos 1970, da (folhas de caderno com pautas obliteradas por Liquid Paper). E, da Galeria Mezanino, um conjunto de xilogravuras em caixa feita a mão com madeira reciclada, do Ulysses Bôscolo. Duas galerias pequenas (uma do Rio e a outra de SP) que mostram bons trabalhos com foco em artistas jovens.
8- Performance da Maria Lynch, os seres coloridos rastejam pela rampa entre os visitantes da feira.
9- Entre os trabalhos monumentais, a coragem da HAP em trazer duas pesadas e imponentes esculturas em mármore carrara do Nelson Felix. Parece que pousaram no stand por mágica, e no entanto a logística deve ter sido bem complicada. Valeu.
10- As galerias do Rio estão bem, nada a dever às poderosas galerias de São Paulo. E atuam com criatividade (entre outras obras, Artur Fidalgo traz um objeto/instalação do Claudio Paiva feito com um pão francês descansando sobre copos de água; A Gentil Carioca com a instalação sonora/aquática do Paulo Nenflídio), com foco em artistas jovens ou mais consagrados - Amarelonegro (artistas jovens como Álvaro Seixas, Gisele Camargo, Rafael Alonso, Hugo Huayek, Raul Leal, Elvis Almeida), a Arte em Dobro (destaque para a Coleção 3 com múltiplos de, entre outros, Franklin Cassaro e Walton Hoffman, e para uma curiosa pintura do Sergio Romagnolo representando a Eudora, mãe da Feiticeira...), Progetti (lindas pinturas da Sandra Cinto e da Lívia Flores), Laura Marsiaj (lindas pinturas da Lucia Laguna e da Gabriela Machado), a Mercedes Viegas (bonita escultura do Ângelo Venosa, Ana Holck), Anita Schwartz, Silvia Cintra+Box4, Márcia Barroso do Amaral. Ainda, a Tempo e a Pequena Galeria 18 (ambas com fotografias), Almacén (lindas pinturas do Walter Goldfarb), Athena, Eliana Benchimol, Gustavo Rebello...
11- Jean Boghici arrasa, ao apresentar uma exposição individual do artista Emeric Marcier, resgatando a obra deste pintor, falecido em 1990, e com isso mostrar que mesmo em uma feira, em uma galeria comercial, se pode ter um aspecto quase institucional.
12 - Eu vi a exposição nos anos 1970, no MAM, e lá estão dois sobreviventes, dois Objetos de Sedução, frágeis trabalhos da Lygia Pape: saquinhos de pipoca com a marca de um beijo da artista em baton e objetos de um imaginário kitsch e barato: perfumes, espelhos, maquiagem...

Mais, anotações sobre as exposições que consegui ver em SP, nos intervalos da feira:
1- Andy Warhol na Estação Pinacoteca, uma boa exposição do artista, bons trabalhos, boa curadoria. Pena que não vem ao Rio.
2- Originais de Une Semaine de Bonté, colagens do Max Ernst, no Masp. Preciosos, é a segunda vez que os frágeis originais são expostos. Imperdível.
3- Helio Oiticica no Itaucultural, com penetráveis, metaesquemas, bólides, parangolés, uma exposição bem completa, talvez prejudicada pelo baixo pé direito de algumas salas. Virá ao Rio.
4- Flávio de Carvalho no MAM. Bons trabalhos, um recorte interessante da obra com ênfase na pintura e desenhos, diminuindo um pouco, talvez, o aspecto contestador e libertário do artista. Em outra sala uma pequena exposição com releituras contemporâneas do trabalho do Flavio exercita mais este aspecto contestador, por exemplo, focando o corpo nu como instrumento no trabalho do Ney Matogrosso em Secos e Molhados.
5- Centro Cultural de São Paulo, Dimensões Variáveis, exposição que enfoca a relação entre o desenho e a escultura, entre o plano e o tridimensional, com trabalhos de Daniel Acosta, Felipe Cohen, Marcius Galan e Nicolás Robbio.
6- Mauro Piva, na Galeria Fortes Vilaça, lindos desenhos, uma exposição que, pela técnica impecável e por abordar como um dos temas os materiais de desenho, é especialmente instigante para nós, artistas.
Ufa!



Veja fotos do evento em Só Arte Contemporânea, site do Odir Almeida
Site da SP-arte
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Clique aqui e aqui para meus comentários sobre a SP-arte edição 2009

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Uma foto de celular

São Paulo, noite de abertura da SP-arte, o Pavilhão Bienal no Ibirapuera cheio, o espumante Salton servido sem parcimônia. Entre os milhares de pessoas que passam pelos stands, um sorriso tímido e irônico, um olhar forte, roupa preta, uma camiseta com estampa de caveira, uma vanitas. É ela, a cantora? pergunto. Sim.
Vou até ela, que já se afasta do stand, falo seu nome, meio envergonhado pois já não sou mais um adolescente para agir como um fã, pergunto se posso tirar uma foto  com meu celular, uma foto dela comigo, pedindo desculpas por agir como um adolescente fã enamorado.
Ela sorri e com a voz muito rouca diz que sem problemas, que já está acostumada, eu me enrolo todo na operação do celular para tirar a foto, não é o nervosismo do encontro, é que eu sou meio atolado com estas coisas de tecnologia, digo, ela, paciente diz que também é (claro que é uma mentira piedosa), finalmente consigo tirar a foto que minutos depois está no Facebook, para gáudio e inveja das centenas de amigos: eu e ela.
Agradeço, gaguejo, pois não é bem isso o que eu queria dizer, apenas “obrigado”, queria dizer que eu a conheço muito, desde o primeiro LP quando ela era muito magrinha e com cabelos encaracolados, desde quando ela fez a tatuagem com a figura de um cometa, desde quando eu pulava com S. no Canecão ao som da guitarra que ela tocava com o charme de tirar a mecha do cabelo negro que sempre voltava a cobrir sua testa, queria dizer mais, que minha avó e a avó dela trocavam receitas quando grávidas de nossas mães, em outra cidade, outro Universo, outro século, outra dimensão de tempo e de hiperespaço, queria dizer tanta coisa dentro do “muito obrigado” que falo com um sorriso e um beijo em cada lado da face, tão cariocas (os paulistas dão apenas um beijo, as faces direitas). E ela desaparece entre os corredores sinuosos do Pavilhão Bienel lotado de gente.
No Hotel, procuro no iPod e lá está, entre as 5673 músicas armazenadas, Fullgás, Marina Lima, o LP inteiro. Adormeço ouvindo as guitarras e a voz rouca que embalaram nossa tardia adolescência, um tempo quando tínhamos um futuro, e este futuro era o momento presente eternizado na voz rouca que chega a mim não mais nos sulcos do vinil e sim de um chip, da voz rouca que está além de qualquer tecnologia, eterna como eternos são os mitos e os amores de adolescência.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Em São Paulo

São Paulo sempre é bom, mesmo quando o avião, descendo em Congonhas, me dá um susto ao arremeter (segundo o piloto, por segurança, o avião anterior ainda estava na pista, foi o que entendi). Isto depois da impossibilidade de fazer um mísero check-in on-line, a TAM "mudou o seu sistema" (a culpa é sempre do "sistema", esta entidade abstrata) e o site está com erros primários (saudade do meu tempo de analista de sistemas, eu não deixaria um site deste jeito ser liberado para os usuários, talvez por isso me estressava tanto). Tudo bem, estou em Sampa e hoje a programação é tranquila, apenas três ou quatro locais a visitar (e voltar rápido para o Rio antes da chuva que está fazendo estragos na cidade a cada final de tarde).
Nas Pinacotecas, dois importantes artistas portugueses:
No Projeto Octógono, na Pinacoteca do Estado, a instalação Deposição, de Pedro Cabrita Reis, de grande impacto. Na rotunda monumental do prédio projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo, o artista coloca duas pesadas vigas de aço em formato de um T apoiadas sobre uma mesa comprida, também de aço; o minimalismo da forma, solitária sob o peso do ar da rotunda, faz uma referência sutil às deposições de Cristo da cruz, as Pietàs, da história da arte. Sutil e monumental, dois conceitos que a obra do artista combina muito bem.
E na Estação Pinacoteca, grande exposição ocupa todo um andar com pinturas, videos, instalações e performance do artista Julião Sarmento. Conhecia pouco da obra do artista, e a vontade de conhecer mais foi o motivador desta minha ida a SP; neste ponto minha expectativa foi atendida, a exposição é bem abrangente; sinto falta apenas de um catálogo, um bom catálogo como os que a Pinacoteca fazia.
A utilização das várias midias pelo artista português não torna seu trabalho disperso, pelo contrário, cada suporte é utilizado de uma forma precisa para aquele trabalho específico. E em todos o artista fala, obsessivamente, dos mesmos temas: uma fragmentação dos corpos e dos objetos, uma presença ou uma ausência; uma sensualidade que coloca o espectador como voyeur; os recortes de gestos, de corpos, são de uma sensualidade que se concentra nestes fragmentos; um embotamento da percepção, que paradoxalmente aguça a percepção do espectador; jogos de linguagem (o título, a imagem da obra e textos na obra, que aparentemente não tem relação ou se contradizem)...
A performance: um homem, uma mulher, duas cadeiras, em um pequeno ambiente fechado e todo verde; um disco de vinil em uma vitrola portátil toca uma música obsessiva, a mulher dança sozinha, sensual; o homem se levanta e dançam juntos, uma sensualidade e ao mesmo tempo uma ausência, uma distância, gestos sensuais e ao mesmo tempo mecânicos dos pelvis que se juntos ao ritmo da música; e o espectador fica preso nesta teia até o final da música (que poderia se repetir ad infinitum), é feito refém como é feito voyeur das pernas e braços desenhados em telas quase monocromáticas, embaçadas; das mulheres sem cabeça que habitam uma estante ou um relógio de parede, nas esculturas/instalações; da stripper que, em um video, se despe para tornar a se vestir, incessantemente, interminávelmente; em outro vídeo, pernas de mulheres que andam interminávelmente por uma rua; ou um longo close nos pelos pubianos de uma mulher vestida, como a stripper, com meias e cinta-lliga; as pinturas com massas pretas sobre fundo branco, ou o contrário, onde o espectador/voyeur "de repente " jogos sexuais; e a partir daí não vê mais outra coisa, como obcecado, o sexo grita por entre os blocos de tinta, antes inocentes acrílicas preta e branca sobre a lona preparada da tela, pintura e obsessão.
Uma sensualidade infinita, incessante, interminável, como um Bolero de Ravel sem o clímax, e que se esprai por vários suportes, como se apenas uma midia fosse pouco ou nada para conter esta força que, sutil, permanece na retina do espectador como um langor post-copula.
Valeu o susto na descida no aeroporto!
Em seguida, visitei o Centro Cultural de SP, onde está a Mostra do Programa de Exposições 2009, com os artistas convidados Daniel Senise (com Eva, uma instalação onde blocos de tijolos, feitos pelo público a partir de material reciclado do CCSP, cobrem a escultura Eva, de Brecheret, do acervo do Centro), Rochelle Costi (apropriação de imagens do porão do CCSP, onde funcionam oficinas de restauração,gráfica etc.) e Ricardo Basbaum (câmeras de video captam, em tempo real, locais onde o artista interferiu com palavras escritas nas paredes ou chão do Centro Cultural).
E os artistas Ana Prata (pintura, figurativa, bem bonita), Carlota Mazon, Cris Bierrenbach, Grupo Hóspede, Letícia Ramos, Luiz Marchetti (A poética dos pequenos furtos, série de filmes bem interessantes, sobre pessoas comuns que furtaram objetos de desejo e os exibem: Nik roubou cachecol em Estocolmo...), Rafael Carneiro e Sofia Borges.
Além disso, Paradas em Movimento/Wonderland: Ações e Paradoxos, com curadoria de Pamela Prado e Rafael RG, com videos que "se relacionam pelo modo como transformam uma ação em obra de arte": remar, apagar, nadar, acender, despejar... Bem interessantes, os videos são de Antti Laitinen, Marilá Dardot, Laura Glusman, Cinthia Marcelle, Kika Nicolela, Renata Padovan, Rodrigo Castro, Lais Myrrha, Adriana Aranha e Paola Junqueira.
Finalmente, no Instituto Tomie Ohtake, Eternamente Agora, bonita exposição/tributo a Mário Cravo Neto, artista precocemente falecido em 2009, com curadoria de Paulo Herkenhoff e Christian Cravo. E uma exposição do importante artista norte-americano Robert Rauschenberg.
Organizada pelo próprio Instituto Tomie Ohtake, a exposição contou com a colaboração de Robert Rauschenberg Studio, da galeria PaceWildenstein e da ULAE Universal Limited Art Editions, trazendo 98 obras (23 peças únicas e 75 gravuras), e conseguindo dar um bom panorama do trabalho do artista.
Acho incrível como o trabalho de Rauschenberg consegue, no início da cultura de massa, ser tão premonitório em relação às estéticas que surgiriam depois, como a profusão infinita de imagens que cada vez mais e mais chegam, invadem, inundam, exaurem os espectadores; na época que o artista iniciou estes trabalhos, noas anos 1960, a mass midia ainda incipiente (mas já estudada por Marshall McLuhan, outro profeta, de quem hoje ninguém mais fala), as imagens chegavam apenas pelos jornais, TV e cinema e hoje, em fluxos exponencialmente maiores, pela internet, I-Phones, videogames, MTV, celulares, a cada momento mais e mais imagens descartáveis que Rauschenberg, como um arqueólogo do futuro, preserva sua falta de sentido e o transfigura em arte.
Estes trabalhos do artista são o zapping antes de existir o controle remoto nas televisões... e, pela longevidade produtiva do artista, evoluíram até 2008 (ano de sua morte), incorporando as sempre novas midias e novas tendências. Talvez fique faltando nesta exposição alguma coisa do trabalho inicial de Rauschenberg, o "Erased de Kooning Drawing", as "White Paintings", as "Black Paintings"; mas afinal não é uma retrospectiva, e faz acertadamente em focar nas colagens de imagens, obras que se tornaram as mais características do artista.
Volto para o Rio, antes da chuva que nem sei se acabou caindo mesmo. O motorista de táxi fala de uma "operação limpa bueiros", que tirou até um sofá de dois lugares de lugares por onde a água deveria escoar; um pouco o texto que a midia e os governos tem hoje, em devolver a culpa dos problemas à população (ela é culpada por sujar as ruas), esquecendo (de propósito) que o papel dos eleitores é pagar impostos e votar e o papel dos administradores é administrar bem, pagos com o dinheiro dos contribuintes. De volta ao Rio, vejo na internet que o Prefeito de São Paulo foi cassado pela Justiça Eleitoral. Não é nada, não é nada, não é nada.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

As bandeiras, uma série de pinturas, os perigos


Eu estava indo de São Paulo para São José dos Campos, uma manhã de outubro do ano passado, por uma das auto-estradas cheias de postos de pedágio, quando uma imagem me entrou pelos olhos e ficou gravada em meu cérebro.
Tudo muito rápido, o carro na velocidade máxima, meus companheiros de viagem conversando sobre a reunião que teríamos logo mais em São José, eu ainda meio sonado... quando, talvez sobre a porteira de uma daquelas fazendas, vi, muito rapidamente, uma bandeira. Simples. Branca, com dois retângulos vermelhos desalinhados.
Aquela imagem me perseguiu, e alguns dias depois, já de volta a Brasília, comecei uma série de pequenas telas (pequenas mesmo, 15x20cm) com estudos sobre o que me lembrava da bandeira, mesmo sem saber seu significado. 
Como que querendo, precisando, recapturar aquela imagem (que provavelmente nunca mais verei), para me libertar dela, extraí-la de minha retina, de minha memória, apagá-la para sempre daquela paisagem verde de uma calma fazenda na beira de uma auto-estrada.
Por trás da bandeira, nas minhas telinhas, aos poucos aparecem os crânios, os esqueletos, as vanitas, e assim se fez uma pequena série de pinturas, como sempre o tema apenas um pretexto para brincar com cores, com as formas, experimentar contrastes, texturas, escorridos, transparências... enfim, com a pintura, desta vez em um mínimo universo de apenas 15x20cm.
Depois, pesquisando na internet, cheguei a uma bandeira semelhante.
Não uma bandeira de um país, nem pavilhão de uma família nobre, de um clã ou de um time de futebol, e sim uma das bandeiras de sinais náuticos.
A Wikipedia, onisciente como sempre, define: "As Bandeiras de Sinais distinam-se à transmissão de mensagens à distência. Em meados do século XIX foi estabelecido um código internacional de sinais, em que existe uma bandeira específica para cada letra ou número, algumas das bandeiras significando letras podem também transmitir, por si, uma mensagem específica." 
As cores de uma das bandeiras de sinal náutico são as mesmas da minha bandeira apenas percebida na manhã de um outubro, o branco e o vermelho, mas os retângulos se transformaram em quadrados, e o fundo branco diminui (ou os quadrados vermelhos se expandem), e a bandeira passa a ser quatro quadrados com cores alternadas. Diferente da "minha" bandeira, mas com alguma semelhança. No alfabeto de sinais , ela representa a letra "U", identificada como "U-niform". E o mais incrível é o significado oculto na letra U, a mensagem específica deste sinal náutico, que poderia ser, ou não, o significado da bandeira guardiã de uma porteira de fazenda na beira de uma estrada no Estado de SP:

UniformVocê está indo em direção a um perigo
..-

Se eu tivesse um país ou um clã, esta seria a minha bandeira.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

José Spaniol, Timpano


Timpano, an installation of artist José Spaniol, opened last saturday, on Morumbi Chapel, São Paulo. On August 22 there will be a guided visit, with the presence of the artist, and the beautiful installation will be open to visitors until November 22.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Uma lembrança

Um sábado, em São Paulo, saímos muito bebados de champagne de um vernissage nos Jardins, fomos à feira da Praça Benedito Calixto (eu não conhecia), tomamos muita cerveja, comprei um cristal pra mim e um pra você; eu sempre tenho medo de beber sem me alimentar então queria comer pelo menos uma fatia de pizza, você falou para irmos em tua casa pedir a pizza pelo telefone e assim te conheci.
O meu cristal está até hoje comigo, na cabeceira de minha cama.
Você me deu uma pequena pintura tua, ela também está na cabeceira de minha cama, me olha sutil, ela também é um cristal.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Poligrafa na Gravura Brasileira


A Galeria Gravura Brasileira, de SP, agora comercializa as gravuras da Polígrafa, importante impressora de Barcelona que, além de livros de arte, edita gravuras de importantes artistas como Francis Bacon, Christo, Daniel Senise, Tunga, Nelson Leirner, Guillermo Kuitca, León Ferrari, Helen Frankenthaler, Tapies, Liliana Porter, entre muitos outros. A Gravura Brasileira já conta com importante acervo e representa bons artistas, entre os quais destaco os paulistas Claudio Murbarac, Fabrício Lopez e Ulysses Bôscolo (cujas obras são mais difícieis de encontrar no Rio), e agora, com esta parceria com a gráfica espanhola, amplia muito sua oferta de boas obras.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Nelson Leirner no Itaú Cultural (SP)


Convite da exposição do artista Nelson Leirner no Itaú Cultural, SP. Não posso ir no dia da inauguração, mas já está na minha lista de coisas a ver...

sábado, 16 de maio de 2009

SP: outros (on-line)

Outras programações em SP, além da SP-arte. Como na minha outra vinda a SP, há duas semanas, já vi as principais exposições (MAM, Pinacoteca, Tomie Ohtake e outros), sobraram poucas coisas a ver, mas sempre há:
1- MASP: 1 Século de Pintura Francesa (1860-1960). A exposição tem como título (estranho) "O Realismo"(poderia ser "Do Realismo" o que talvez fosse mais preciso), e não apresenta somente pintores franceses (também brasileiros, de alguma forma ligados à França; belgas etc.). São os quadros do acervo do MASP, e também do Museu Berardo (Lisboa) e instituições francesas. É interessante, em especial pelos quadros vindos de fora, que são novidade para mim; mas não é de modo algum uma exposição excepcional.

"Terra em Transe", trabalhos do fotógrafo espanhol Manuel Vilariño (nada a ver com o filme do Gláuber), fotografias muito bonitas: pássaros mortos, tabuleiros de xadrez, crânios, velas, um clima de mistério, vânitas contemporâneas, e uma técnica bem precisa, uma surpresa para mim. E rever a retrospectiva do Vik Muniz, que eu já havia visto no MAM-Rio (e pensar mais sobre a discussão que tivemos, eu e os artistas Rubem Grilo e Adriana Maciel, sobre a obra do Vik, descendo de Petrópolis em um dia de Carnaval).

2- Museu Lasar Segall, minha primeira ida a este Museu, na Vila Mariana, numa rua muito simpática. O Museu funciona na antiga casa e atelier de Segall, em uma vila de casas projetadas pelo importante arquiteto modernista Gregori Warchavchik, concunhado do artista, e tanto a rua como o Museu conservam um ambiente bem agradável de uma São Paulo dos anos 1930. No Museu, uma exposição sobre o quadro, obra-prima de Segall, Navio de Emigrantes, com dezenas de estudos, desenhos rápidos feitos em navios, capturando cenas, pessoas, rostos, marinheiros... se consegue como que acompanhar o processo criativo do artista, de das dezenas, centenas de estudos que convergem a uma tela onde: "está tudo lá".

E uma interessante exposição sobre fotomontagens da fotógrafa Grete Stern, alemã radicada na Argentina, nascida em 1904 e falecida em 1999. São trabalhos feitos como ilustração para uma coluna sobre psicanálise em uma revista argentina (Revista Idilio, da Editora Abril); e transcendem a ilustração para se colocar como autênticos trabalhos surrealistas. Interessante é a descrição da técnica, feita pela artista e reproduzida no folder da exposição; e pensar em que hoje em dia tudo isso é feito na foto digital com um Photoshop ou algo que valha...

3- projeto APT 181. A princípio pensei ser algo semelhante ao projeto ApArtamento, que o Jonas Aisengart e outros artistas estão fazendo no Rio, e sobre o qual já escrevi em meu blog, mas é bem diferente. Não há a proposta de interferir no espaço do apartamento e na vida dos moradores; na proposta paulista, apartamentos remodelados, localizados no Centro da Cidade (este é um lindo e amplo apartamento, na Av.São Luís 141/181, com um terraço com vista para os edifícios e luzes desta região tão bonita; e a reforma valorizou os espaços e detalhes originais da construção; a maior intervenção talvez tenha sido na cozinha/copa/área/terraço, que se transformaram em um espaço contínuo com chão de cimento cru), utilizados como esapaço expositivo. Nesta edição doprojeto, trabalhos dos artistas Cris Bierrenbach, Célio Braga e Marcelo Solá (gosto muito deste último). Hoje, abertura, uma festa; e durante a semana por agendamento. Provavelmente alén de funcionar como galeria alternativa para os artistas,é uma forma de também mostrar o apartamento à venda para o público alternativo que irá ver os trabalhos e poderá se interessar em comprar o imóvel (eu gostei muito, poderia tranquilamente me mudar e viverem um apartamento tão gostoso e tão perto de tudo, inclusive do metrô - Estação República - e do ônibus para o Aeroporto Internacional de Guarulhos, ou seja, para novas viagens e aventuras...).
Sampa, como sempre, bombando... e ao passear pelo centro, impossível esquecer a voz do Caetano Veloso em um de seus momentos mais inspirados: "só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João"...
Sampa é assim. No metrô, linha verde, me sento ao lado de um rapaz de seus 30 e poucos anos, todo paramentado de tenista, com as raquetes, shorts brancos, tênis, agasalhos, pernas descobertas apesar do frio; ele lê um livro, compenetrado; aos poucos (curioso) eu consigo ver o título: a Crítica da Razão Pura, do Kant, ainda por cima em francês; inacreditável. Saltamos na mesma estação (Consolação), ele vem do jogo de tênis e vai para a filosofia, e eu flutuo pela arte, só para dizer que: isto é Sampa, na sua mais perfeita traduçao!

SP-arte (on-line)

Volto à SP-arte, em plena 6a.feira a tarde o público comparece em massa, imagino como não estará no final de semana... mas consigo rever tudo e realmente "ver" os trabalhos expostos, sem o burburinho da festa de inauguração. Para arrematar, retorno no sábado, e vejo então mais uma vez como os eventos culturais em SP "bombam": fila na bilheteria, famílias inteiras, muitas crianças, grupos de terceira idade, de estudantes...
Cito algumas coisas que me despertam a atenção:
A primeira delas, sem dúvida, é uma versão de 1940 que a Tarsila fez para sua obra-prima "A Negra" (de 1923), eu nunca soube que existia esta versão onde a Negra na verdade é uma mulata-clara, e o fundo tem listas em tons pastel com destaques em magenta e azul turquesa. Muito linda, e certamente uma raridade (nem perguntei o valor da avaliação), no stand do Ricardo Camargo.
Beatriz Milhazes: Uma linda tela, grande ("Menino Pescando", de 1997), da coleção do Banco Itaú/Unibanco, no stand dos bancos para clientes VIP; no stand da galeria Almeida & Dale (SP), uma gravura grande (das edições feitas no USA, a mesma imagem que está no acervo da Pinacoteca) e uma grande colagem, ladeiam uma linda tela com tons escuros e uma surpreendente rosácea em cores claras contrastantes (cian/magenta) que adquirem um tom de neon, de fosforencência de corais; preços: US$80.000 a gravura, US$380.000 a colagem e US$400.000 a tela, e valem cada centavo. Em outro stand, uma tela grande dos anos 1980, com as colunas e o anjo barroco em dourado (esta, uma pechincha, ao meu ver: 200.000 reais); e na Pinakotheke, um pequeno desenho, de no máximo 20x25cm, papel, um esboço de arabescos como um azulejo, cuja avaliação é de US$50.000
Os trabalhos novos do Alvaro Seixas, no stand da Amarelonegro, são telas pequenas com elementos geométricos (listas, círculos) e uma forte fatura de tinta e de cor; e também uma tela maior (talvez 80x100cm), em cinzas e pretos, muito bonita, gosto muito. Ainda no stand desta Galeria, o Rafael Alonso que partiu das suas colagens de fitas que formam como que paisagens e pinturas das paisagens feitas de fitas, para pinturas realmente de paisagens, com tinta forte e boa qualidade pictórica, uma boa evolução. E também, para mim, a oportunidade de poder comparar os trabalhos mais antigos da Gisele Camargo com os mais recentes, e ver que minha memória não me traiu e acertei em minha análise, publicada aqui no blog ao falar da exposição individual, sobre o crescimento do trabalho.

A Gentil Carioca trouxe o trabalho do artista Pedro Varela em uma parede, na rampa, uma delícia para os olhos e principalmente para as crianças que, no sabado, não se cansavam em brincar nos mundos fantasticos do artista.
No stand da Galeria Mezanino, trabalhos bem interessantes e acessíveis de artistas jovens; com esta proposta, o stand fica sempre cheio, e crianças e adolescentes são atraídos pelos trabalhos bem contemporâneos e com linguagem de comics. Pequenas pinturas e xilos do Ulysses Bôscolo, bem interessantes... embora eu saiba que o artista se destaca mais à gravura, as pinturas são demais, as telas de dimensões pequenas se somam em dípticos, trípticos, colocados assimetricamente; sei reconhecer uma boa pintura, e assim não resisti a um tríptico com cenas de mar, em azul escuro, um Castagneto do terceiro milênio (embora tenha ficado balançado com uma árvore que parecia uma cachoeira, e com um díptico de um cachorro e sua carrocinha...)
Mercedes Viegas e Laura Marsiaj juntaram as forças compartilhando um stand, com muitas surpresas além dos trabalhos que já vi ultimamente nas Galerias. No sábado, "aparece" uma linda pintura da Lucia Laguna, e "desaparece" um múltiplo do Ângelo Venosa (Borboletas que na verdade são vanitas) que eu namoro há um bom tempo... outra vantagem das Feiras sobre as Bienais, o dinamismo, as obras são vendidas e é interessante ver a equipe de apoio embalando um Krajcberg, um Nuno Ramos, e o galerista rapidamente repondo com outra boa obra do acervo...
No stand de Galeria pernambucana Mariana Moura, ver duas lindas telas de artistas que eu só conhecia pela força do desenho: Gil Vicente e Carlos Mélo (este, expondo no Rio na Galeria da Luara Marsiaj). Os desenhos dos artistas são fortes, mas a pintura (embora bem diferente, já que do desenho expressionista e misterioso eles foram a uma pintura abstrata - no caso do Gil Vicente mais comportada, concreta; e no Carlos Mélo mais expressionismo abstrato) é boa e causa impacto.
Uma interessante performance da artista Ana Teixeira, "Outras Identidades"; o espectador escolhe entre diversas frases de impacto qual seria a da sua nova identidade (eu escolhi, claro, AINDA TENHO TEMPO); a artista registra em um livro a frase com a digital do espectador, e ambas vão para uma cédula de identidade que é entregue, em plástico, tudo como uma verdadeira identidade; um bom trabalho, e uma artista cortez e que pensa em tudo, até no álcool para limpar o dedo após a captura da digital. Ninguém lembra mais, mas nos anos 1970 em um salão de arte, o com mais visibilidade (acho que o Salão de Verão, com curadoria do crítico Roberto Pontual, apoio do então prestigiado Jornal do Brasil e exposição no MAM-Rio), a jovem artista Margareth Dunham Maciel ganhou o prêmio principal com trabalhos em xerox sobre a sua carteira de identidade; talvez tenha sido muito cedo; ou outro motivo que leva os artistas a buscarem o silêncio; mas não houve continuidade no seu trabalho; e ao ser identificado, colhida minha digital, em plena SP-arte em 2009, me lembro do trabalho da Margareth e penso em como o tempo voa.
Na Galeria do Murilo Castro (MG), um destaque para o trabalho do Daniel Murgel, as maquetes e os projetos das gaiolas; mas desta vez o artista "embaralha" tudo, os projetos e as maquetes divergem, e o resultado: um caos (comentei com o artista sobre o aspecto "atulhado" da instalação, e ele me retornou que esta era mesmo a proposta).
Na Galeria Nara Roesler, uma escultura/instalação incrível da Laura Vinci, uma "escultura" em gelo, com um texto: O.BRANCO.DO.RIO.PASSA. A tecnologia soft, dominada pela poesia, como é o trabalho da artista.
Duas lindas telas do Jorge Guinle, na Athena Studio e no Ricardo Camargo ("A Mulher do Marinheiro", 2x2m, de 1986, deslumbrante).
Debora Bolsoni, a das pipocas de ceramica na Paralela à Bienal, em varios stands; na Silvia Cintra com bonitos trabalhos de papel enclausurado em acrilico, e na Galeria Marilia Razuk, com uma instalação ("Sentinela") que, discreta, se confunde com o ambiente (um carrinho com um garrafão de água mineral e uma cesta de lixo, algo provável, e para o qual os visitantes em geral nem davam atenção, jogando seu lixo na cesta de lixo, e talvez, nao vi mas é bem possível, tenham mesmo bebido da água do garrafão)...
Na Galeria Gustavo Rebelo, do Rio, um reencontro com meu amigo de muito tempo, o artista Chico Fortunato; e um lindo Daniel Senise da fase de 1980-90; pequeno, talvez 110x80cm; mas um monumento. E um lindissimo Ivan Serpa da Fase Negra, uma raridade.
Na Casa Triângulo, algumas surpresas para um aficcionado de pintura como eu: Uma lindissima pintura da Vania Mignoni ("Meio Dia"); Eduardo Berliner, com "Placenta", que foi adquirida por um dos patrocinadores e doada ao MAM-Rio (uau!!!), uma linda pintura, com detalhes que se veem aos poucos no decorrer da apreciação; e o Felipe Barbosa: com as montagens de casinhas de cachorro, casinhas de pássaros etc., ele chegou a um Volpi pós-moderno; e agora investiga a pintura que esta por trás ou pela frente destes movimentos; boa pintura, interessantes jogos de transparência e opacidade, de painterly e chapado... a fatura com o pincel bem aparente, como é a do Volpi que é a presença oculta em todos os trabalhos; e ao mesmo tempo a tinta acrílica, o contemporâneo, um diálogo entre presente e passado no campo da tinta e do pictórico... Mas: uma ressalva em relação a esta Galeria, que tantas obras importantes nos apresentou: fumantes!!! dentro do ambiente fechado da SP-arte!!! lamentável...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

SP-arte: inauguração

Ontem, festa de inauguração da SP-arte, com o Pavilhão Bienal no Ibirapuera cheio, um público bonito e alegre, prosecco e uísque bem servidos, e o mais importante: arte, muita arte, para todos os gostos. Em 2007 escrevi que ir a SP-arte era melhor que ir à Bienal, e escrevi isso antes da "Bienal do Vazio", que terminou de esvaziar a Bienal... Hoje a SP-arte cresceu e minha máxima (compartilhada por vários artistas com os quais discuti o assunto) ficou mais próxima da (triste) realidade. A presença das galerias do Rio é importante, nos espaços maiores e bem situados, bem como no mezanino, ala da Arte Nova, onde stands pouco menores possibilitam a presença de galerias mais novas e mais voltadas para a arte jovem e contemporânea, uma boa solução da organização do evento. A noite de inauguração é ideal para "fazer uma social", mas mesmo assim já deu para ver obras primas, algumas raridades, muitas descobertas e também sentir algumas ausências, entre as obras apresentadas. Voltarei à exposição ainda nos demais dias, até seu encerramento no domingo, para realmente ver com calma, e volto a escrever minhas impressões.

domingo, 26 de abril de 2009

SP, on-line, 2

Domingo de sol gostoso e temperatura amena em São Paulo, continuo minhas visitas às exposições:
1- No "anexo" da exposição Rumos no Itaú Cultural, um sobrado simples perto abriga duas instalações "site specific", dos artistas Kilian Glasner e Tiago Carvalho ("Galeria Boliche"), interessantes.
2- Na FIESP, "1961: A Arte Argentina na Encruzilhada: Informalismo e Nova Figuração". No geral, conhecemos muito mais da arte européia ou americana do que da arte de nosso vizinhos latino-americanos, assim esta exposição é uma ótima ocasião para suprir um pouco desta lacuna. O interessante é que a exposição foca na produção de arte de apenas 1 ano, 1961, no qual a arte argentina teria passado por esta inflexão da arte abstrata à nova figuração. Um destaque para mim é a pintura do artista Luis Felipe Noé, que eu não conhecia, e que me deixou fascinado: uma pintura espessa, no limiar entre abstração e figura, cores escuras e vermelhos fortíssimos, e uma prova de se pode fazer uma pintura abstrata política ou engajada, sem ter que cair na figuração kitsch.
3- No Instituto Tomie Ohtake, boas exposições. "O Corpo Denso das Imagens", uma pequena retrospectiva do escultor e pintor Sérgio Romagnolo, com esculturas que são a marca registrada do artista (série Os Profetas, os Fuscas Vermelhos...) e pinturas desde o início da carreira nos anos 1980 até recentes, enormes pinturas de stills desfocados da série de TV A Feiticeira; o catálogo é resumido, mas à venda há um lindo múltiplo, réplica em miniatura dos dois fuscas vermelhos. Roberto Magalhães, A Outra Margem, exposição que se concentra na produção desenhos e pinturas) mais recente do artista; eu vi parte destes trabalhos, acompanhados de obras de outras fases, na Caixa Cultural de Brasília; ao meu ver, no confronto com as obras antigas, estas pinturas mais novas (onde o artista deixa o "hiperrealismo" no tratamento da pintura por um tratamento mais chapado, gráfico) perdem um pouco; porém ao vê-las em um conjunto homogêneo adquirem outra vida. Bob Nugent, Amazônia, uma pintura que se estende por várias salas; um bom catálogo também; o artista é excelente colorista, domina com maestria as diferentes técnicas que utiliza e os efeitos que consegue, com base nas suas muitas viagens ao Brasil e especialmente à Amazônia, são belíssimos, embora (eu acho) um tanto frios, distanciados (como um olhar apolíneo sobre uma Amazônia que é mais dionisíaca). Gravuras recentes de Tomie Ohtake, muito bonitas, e o mais importante ao meu ver é o dinamismo e a vida da artista, ainda produzindo, e muito, e bem, em sua idade.

sábado, 25 de abril de 2009

SP, on-line, 1

Direto de São Paulo, em uma lan-house do shopping da Frei Caneca, postando tópicos sobre as exposições que vi hoje, depois complemento com imagens e mais comentários. Um sábado de sol, gostoso, muita gente nas ruas, agora esfriando e eu ainda de bermuda (e suéter), nada que um jantar com um viño tinto não resolva.
1- No Itau Cultural, Rumos Artes Visuais. O curador é o Paulo Sérgio Duarte e o tema é Linhas do Desejo. Boa exposição, um bom apanhado de artistas jovens no Brasil inteiro, faço meu corte e destaco: Álvaro Seixas (com 3 pinturas de paisagens que vi na Amarelonegro e que já comentei aqui, gosto muito); Diego Belda (paulista, são 2 esculturas de parede, "mesas de sinuca" descontruídas, em fórmica e coloridíssimas); Fabrício Lopez (uma xilo enorme, colorida, presa na parede como cartazes ou intervenções urbanas, falo dele mais ao comentar a individual na Estação Pinacoteca); Felipe Cohen (esculturas com granito, feltro e caixas de papelão); Felipe Scandelari (pinturas!!!!); Flávio Araújo (pequenas pinturas sobre pvc, a partir de fotos de jornais de violência); Ilma Guideroli (a artista mistura plantas baixas de casas com mapas de localidades diferentes, criando seus espaços indeterminados); Julia Amaral (são jóias feitas a partir de bichos - uma lacraia de prata, aranhas, sapos... um pássaro morto se decompondo, em bronze...); Laerte Ramos (uma bataçha naval em escala humana, a ser jogada "de verdade" por oponentes em baias separados por um vidro, as peças são feitas de cerâmica); Nino Cals ("colunas" sustentam o teto, feitas de madeiras finas como cabos de vassoura e tendo ao alto objetos de plástico bem colorido: bacias, baldes...); Tiago Romagnani (video e instalação, mostra plantas em vasos que, retiradas da posição com a queda do vaso em 90º, voltam a procurar a posição para cima, uma metáfora para a vida, para o homem); Yana Tamayo (fotografias de objetos domésticos de plástico bem colorido que ficam monumentais à frente do Museu da República, do Niemeyer, em Brasília).
2- Galeria Luís Strina: Carlos Garacoia com "Cómo Hacerse Millionario a Través del Junk Mail"; e Marlon de Azambuja, brasileiro radicado na Espanha, com pássaros em gaiolas que reproduzem o MASP, o New Museum de NYC e a Tate Modern, bem interessante; e maquetes.
3- Mônica Filgueiras Galeria de Arte: Escrita, mostra com trabalhos de Mira Schendel, León Ferrari, Raquel Kogan, Gilberto Guimarães Bastos e Ozi.
4- Pinacoteca: "Fernand Léger, relações e amizades brasileiras", uma boa exposição, oportunidade de conhecer mais sobre Léger e as afinidades com o Brasil; lado a lado, um Léger e uma Tarsila (aluna do artista), mostram que as afinidades e as influências foram muitas. Léger hoje talvez parece datado (e é mesmo, a ideologia do modernismo, da máquina como nova linguagem, do Carlitos de Tempos Modernos, está toda lá), mas influenciou uma geração e é parte importante da história da arte mundial e especialmente da brasileira ; Monumetria, do grupo Delenguaamano, disseca a trajetória de um monumento (a estátua de Ramos de Azevedo, construtor da Pinacoteca e de muitos outros prédios em SP); Last Minute, instalação de Jorge Macchi e Edgardo Rudnitzky, um gigantesco relógio onde os ponteiros giram captando sons do atrito com o mármore do chão do Octógono, espaço central da Pinacoteca; À Procura de um Olhar: Fotógrafos Franceses e Brasileiros Revelam o Brasil, uma boa exposição de fotografia.
5- Estação Pinacoteca: Daniel Senise, é a mesma exposição que já vi no MAM-Rio, uma bela exposição, com ênfase nos trabalhos mais recentes (gostaria de ver uma verdadeira retrospectiva do artista, com trabalhos dos anos 1980 e 1990); e Fabrício Lopez em Valongo, lindas xilogravuras, grandes, coloridas, gosto muito do trabalho do artista, que usa a xilogravura como meio para uma obra super-contemporânea, com estreito parentesco com street-art e pintura.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Pedro Varela na Gentil e no SESC Pompéia


Recebi email do artista Pedro Varela com algumas imagens dos trabalhos que estão na exposição Paisagem, parte do projeto Tripé, no SESC Pompéia (SP), e também o convite para a individual na galeria Gentil Carioca, que abre no próximo sábado dia 21, e que terá uma grande colagem de vinil adesivo ocupando todas as paredes da galeria.
O trabalho do Pedro tem crescido bastante, a sua imaginação em criar universos fantásticos se alia ao perfeccionismo na execução. Interessante é comparar seu trabalho com o registro de trabalhos que obtiveram sucesso na recente PULSE NYC 2004, que cito em meu post anterior, e verificar os pontos de contato.

O trabalho de Pedro Varela está bem dentro da tendência de valorização de desenhos/trabalhos sobre papel, especialmente os obsessivos em sua técnica e com temas lúdicos, fantásticos; por exemplo, o trabalho do artista inglês Kevin Osmond, que em sua série Nowhere Land também trabalha com maquetes suspensas, como Pedro; são trabalhos com conceitos diferentes mas com muitos pontos em contato, o que me reforça a idéia da contemporaneidade do trabalho do Pedro, que poderia estar, com sucesso, na PULSE, assim como já esteve na ARCO e em outras mostras. Um universo e uma temática bem dele, um virtuosismo no trabalho, a busca de sair dos limites do desenho, do bidimensional, as maquetes de mundos imaginários flutuantes, tudo isso que caracteriza o trabalho do Pedro e que faz das exposições na Gentil e no SESC momentos imperdíveis.

Depois, troquei alguns emails com o Pedro sobre sua experiência de morar no México, seguem os pontos principais do depoimento do artista:
"Eu e Carol nos mudamos pro México mais ou menos na loucura..." (Carol é a artista Carolina Ponte, mulher de Pedro e sua colega na EBA, com um trabalho sutilmente crítico e que abordarei em outro post) "Os pais dela já estavam morando lá a mais ou menos 1 ano e dai resolvemos visitá-los. Nos encantamos com toda a loucura do México, com a justaposição de mundos, de culturas, de histórias. Ficamos muito impressionados! Para os mexicanos eu falo que resolvemos nos mudar para lá por causa da comida e da cerveja... hehehehehe Mas a verdade é que pensamos que se a gente não fizesse uma loucura logo nunca mais faríamos. Não estamos fazendo residência nem faculdade, mas sempre pensamos nesta possibilidade. Além disso eu e Carol já organizamos uma exposição para a Fototeca de Veracruz chamada Realidades Imposibles, que apresentou trabalhos de 20 artistas brasileiros, incluindo Nino Cais, Marcelo Amorim, Rodrigo Torres, Brígida Baltar, Glaucia Mayer, João Penoni, Chico Fernandes e muitos outros artistas bacanas.
Estamos aos poucos conhecendo melhor a cena artística de lá do México. Estou começando a me relacionar com uma galeria muito boa de lá chamada Enrique Guerrero. Já participei de uma exposição relâmpago lá durante o SITAC, que é o simposio de arte e teoria mais importante do México e provavelmente da América Latina. Apesar de ter sido uma exposição rápida muita gente viu meu trabalho lá. "

sábado, 14 de março de 2009

Em SP (6) - Instalações no MAC-Ibirapuera

No último andar do Pavilhão Bienal, no Ibirapuera (meio escondido, o acesso é por uma rampa externa, uma boa subida para os não tão jovens interessados em arte contemporânea), o MAC (Museu de Arte Contemporânea da USP) ocupa muito bem um ótimo espaço (que é menos da metade do que a 28a. Bienal não ocupou , na verdade desperdiçou, com o seu andar vazio...)

São instalações do acervo do MAC e uma coletiva, Superfícies da Memória, também de instalações. Com curadoria de Lisbeth Rebollo Gonçalves e Sylvia Werneck, esta coletiva aborda a memória, o passado e suas reminiscências como elementos na busca da identidade, e apresenta oito instalações, dos artistas Divino Sobral, José Rufino e dos artistas uruguaios Pablo Uribe e Sergio Meirana; cada um deles, à sua maneira e em linguagens contemporâneas, buscando respostas para as inquietações humanas.
A instalação Náusea , do José Rufino, é bem impactante: antigos móveis de escritório, com manchas de uso, de sujo, de ferrugem, da ação do tempo; de onde brotam monotipias feitas pelo artista sobre antigos documentos encontrados em arquivos abandonados. A simetria bilateral das monografias lhes dá aspecto algo humano, talvez de radiografias ou tomografias, de marcas e lembranças de pessoas que habitaram e trabalharam naqueles móveis e documentos e que agora são apenas passado e memória.

A instalação Horto das Jabuticabeiras, do artista Divino Sobral apresenta galhos de árvores envoltos por fios coloridos de lã que estariam, segundo o artista “mumificados em camadas de tempo”; esta memória do tempo é vista com lirismo, as cores dos fios de lã trazem algo de festa popular de antigamente, de uma renovação dos galhos mortos através da arte. Outra instalação do artista consiste em projeções de fotos sobrepostas de cidades do interior de Goiás.
Paulo Uribe apresenta Doble Pensar, com retratos em serigrafia sobre informes publicitários do governo uruguaio publicados em jornais na década de 1980, que visavam conseguir adeptos para a Reforma Institucional uruguaia; em Coleção interfere com a mesma técnica em catálogo do MAC USP; apresentando ainda a videoinstalação Atardecer. A falta de tempo é o tema do artista Sergio Meirana, que espalha pequenos executivos entalhados em madeira, com suas valises e aparentando pressa, pelas paredes do espeço expositivo.

Na mostra do acervo de instalações do MAC, o destaque é para um Penetrável de Plástico, de Jesús Rafael Soto, que oferece ao espectador experiências estéticas visuais, táteis e sensoriais, ao invadir o ambiente que é como uma casacta de fios de plástico translúcido.
Em Ex it (Os portões do Inferno são apenas um Jogo de Luz ), Yoko Ono e suas árvores "de verdade" brotando de caixões mortuários enfileirados, indicando a efemeridade da vida e o “eterno retorno”.
Simon Benetton, em O Jardim dos Filósofos e Além , coloca esculturas de aço cromado como um jardim, contrastando a fragilidade das formas orgânicas com a rigidez do material.

Em Cipis Transworld Art Industry & Commerce, Marcelo Cipis apresenta uma obra lúdica com cores fortes, fazendo referência à publicidade e ao mercado de arte.
Já na instalação de Bernardita Vattier, Idêntica Identidade, a identidade é um jogo externo e transitório; os espelhos e as máscaras desafiam o visitante a vestí-las e a refletir-se, e a refletir sobre as suas múltiplas identidades.
Finalmente, Espectros, de Marwan Rechmaoui, mostra, sob a ótica do artista, o comportamento dos moradores do Yackobian, edifício modernista construído na década de 1960, no Líbano. O artista está envolvido desde a última década em ações para a reconstrução da vida em Beirute após a guerra civil, e ao recriar o edifício modernista, construção do início dos anos de 1960, no qual morou por cinco anos, o artista revela as transformações ocorridas em sua estrutura durante as mudanças econômicas e demográficas que tiveram lugar no Líbano ao longo do tempo, recriando as marcas do cotidiano dos seus habitantes e os traços por eles deixados como “vidas urbanas impressas sobre a superfície da cidade”.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Em SP (5) - Pinturas de Marina Saleme


Marina Saleme é uma pintora paulista cujo trabalho acompanho há um bom tempo e que infelizmente expõe pouco no Rio, assim foi um prazer ter conseguido ver Liquid Paper, a sua exposição individual na Luisa Strina; e minha sorte maior foi ter encontrado a artista, em pessoa, na galeria, e ter conversado com ela, tirando algumas dúvidas e trocando ideias sobre seu trabalho.
As exposições da Marina no Rio foram em 1997, no Paço Imperial (esta eu vi, me lembro nitidamente de uma tela em verdes e azuis) e na Paulo Figueiredo (com a série As Poças, esta eu lastimo não ter visto, vi As Poças em reproduções e adoraria ter visto, adoraria ter uma delas comigo...)
Um catálogo muito bom sobre o trabalho da artista é exatamente o Sobre Poças, de exposição no Centro Maria Antonia/Galeria Luisa Strina, com texto da Lisette Lagnado. Bem abrangente, mostra As Poças, as pinturas (chuvas, gotas, figuras como que com burkas...), as pinturas com malhas e com losangos, instalações com pinturas sobre paredes... A leitura e releitura deste catálogo como que "me preparou" para enfim ver a exposição e conversar com a artista.
E que exposição! O conceito do Liquid Paper é o do recurso do corretivo líquido, aquele fluido branco utilizado para correções em textos ou desenhos, em arte-final: recobrir, deixando transparecer algo do recoberto, criando camadas após camadas de cores e seu apagamento, uma pintura construída de camadas, brilhantes ou foscas, mais ou menos transparentes, opacas, uma pintura que o olho tem prazer em percorrer e em descobrir detalhes.
E o colorido, meu deus! os amarelos e o ouro de Fortuna, sob um céu/nuvens roxo/vermelho escuro; os púrpuras/carmins/vermelhos/lilázes/rosas com as manchas e aparições de verdes de Atados... Os arabescos que são recobertos e se tornam textura, impressão, memória, para renascerem como que caíndo do céu em nuvem de prata, do Céu Despencando...
A tela grande (290x440cm), Por trás disso tudo, um verdadeiro universo a ser descoberto, uma viagem por um mundo onde se pensa ver uma narrativa (três vultos, talvez figuras em burka, duas maiores e uma menor, duas mulheres e uma criança? uma paisagem, um céu tomentoso, arabescos que podem ser árabes ou azulejaria portuguesa, um rio verde esmeralda e três formas misteriosas como sangue, pontes, cordões umbelicais? a narrativa é aberta, fica para a imaginação do espectador), mas onde o que se vê realmente é pintura, da melhor qualidade, que joga com estas dubiedades para provocar o espectador e mantê-lo preso aos múltiplos significados do que é, em última instância, uma relação entre cores e formas no plano pictórico.
Pergunto à artista sobre os arabescos, o que vejo como azulejos (eu, minha infância em São Luiz do Maranhão, a cidade dos palácios de azulejos), se seriam uma herança árabe; ela me responde que é meio árabe (pai libanês) meio européia (mãe italiana); me fala que esta paisagem, estas figuras, arabescos, que eu vejo como tão árabes, ela trouxe para sua pintura a partir da contemplação de Giotto; os arabescos chegaram para ela como uma quase obsessão, após as malhas e os losangos, a princípio alguma coisa que ela era como que comeplida a fazer, mesmo sem saber em que iria chegar; e mesmo com a perplexidade dos que viam os novos trabalhos; até que os arabescos foram também se organizando nas estrutura dos quadros, em camadas, apagados e aparecendo em textura, reaparecendo (a ideia do liquid paper)...
Excelente exposição, uma pintora sensível e séria, que também exerce atividade didática em pintura, enfim, para os cariocas, vale mesmo pegar uma Ponte Aérea para ver!

terça-feira, 3 de março de 2009

Em SP (4) - Aquarelas de Margaret Mee


Ainda na Pinacoteca, uma exposição comemora os 100 anos de vida da ilustradora botânica inglesa Margaret Mee, com cerca de 100 obras, sendo 59 aquarelas dedicadas à espécie das Bromeliáceas, e ainda 17 obras da coleção Roberto Burle Marx e desenhos inspirados na caatinga brasileira, além de folhas de cadernos que Margaret usava durante as viagens que fez ao Brasil, com anotações que registram detalhes de cor, textura e aspecto de cada flor.
Mas não pude deixar de fazer algumas reflexões sobre a ilustração botânica após o advento da fotografia.
Se a invenção da fotografia representou uma ameaça (e depois uma libertação) para a pintura, para o gênero da ilustração científica deve ter sido muitas vezes mais fatal; e é curioso que dos sub-gêneros da ilustração científica, me parece que apenas a ilustração botânica tenha sobrevivido ao século, e esteja em pleno Século XXI com espaço no circuito cultural e de mercado. Talvez também alguns outros tipos de ilustrações de fauna bem específicos: beija-flores, borboletas...
Qual a relevância de enfrentar viagens para registrar, com pincéis e aquarelas, bromélias, orquídeas... quando a parafernália tecnológica disponível em fotografia e vídeo consegue resultados muito mais precisos e de disseminação mais universal? (haja visto o National Geographic Channel, 24 horas por dia de "ilustração científica" em movimento e em cores)
Suspeito que esta sobrevida se deve a dois fatores.
O primeiro, intrínseco ao gênero, é a capacidade da ilustração em apresentar o icônico, o geral; enquanto que a fotografia tende a apresentar o indivíduo, o particular. (No National Geographic, cada suricata do documentário tem um nome, uma relação de parentesco com as demais; já nas aquarelas de Margaret Mee, cada bromélia, soberana em um fundo em branco, com seus detalhes destacados ao pé da página juntamente com o título em latim, é "A Bromélia" daquela espécie).
E o outro fator é a capacidade deste tipo de ilustração em "resvalar" para o campo da Arte, com A maíusculo. Elas se apresentam como arte, e são entendidas como tal pela massa, até por que isto atende a interesses do mercado, porém nada mais diferente de uma exposição de ilustrações em aquerela de uma outra exposição de aquarelas de, por exemplo, Fayga Ostrower, Pedro Varela, Xul Solar, Gonçalo Ivo...
Margaret Mee, em minha opinião, utiliza com maestria, além dos recursos da aquarela, estes dois fatores: a capacidade de uma visão icônica (herança da tradição inglesa dos aquarelistas botânicos) e a capacidade de se colocar como arte. E, o que eu acho importante ressaltar: dentro de uma tradição e de uma visão inglesa, européia, herdeira dos colonizadores. A temperatura que se sente em suas bromélias é a de Kew Gardens, não a da Amazônia: onde estão o calor, a umidade, a selva? as bromélias foram retiradas do seu habitat e estão, ícones da espécie, em um gabinete de curiosidades europeu qualquer. Isto para mim é tão mais evidente como em ilustrações de alguns membros da Missão Francesa do início do Século XIX, por exemplo Rugendas e Von Martius, podemos "sentir" o peso da foresta tropical, o calor, a grandeza da paisagem, mesmo quando eles destacam icônicamente os objetos de seu registro.

Na exposição, a única aquarela que tenta mostrar a bromélia em seu ambiente demonstra bem esta contradição: o fundo em branco é substituído pela imagem da Floresta Amazônica, o Rio Negro está visível... mas o tratamento desta paisagem é desfocado, monocromático, esmaecido... de novo a bromélia poderia estar em Kew Gardens e não no Rio Negro... Na verdade eu acho que esta é a obra mais fraca; quando Maragret se atém ao repertório e à linguagem do seu gênero, consegue soluções bem interessantes e esteticamente agradáveis; quando tenta entrar no campo da paisagem, porém, o resultado fica em um meio-termo que não convence.
Mas é uma exposição agradável de ver, e os objetos de viagens, presentes recebidos por tribos indígenas, pequenos troncos, bússola, material de pintura, expostos, dão uma visão humana da Margaret, qie afinal deve ter sido uma pessoa muito interessante e dedicada a seu ofício, com bons resultados dentro de sua proposta!
Ah, sim, e em 2009 (outubro) se comemora os 100 anos, também, do pintor irlandês Francis Bacon.