O escritor Luiz Lopes Coelho, morto em 1975, é pioneiro da literatura policial brasileira e referência no gênero para os leitores - e escritores como Rubem Fonseca e o jovem Raphael Montes. Acabei de ler/reler seus três livros de contos: "A morte no envelope" (1957), "O homem que matava quadros" (1961) e "A ideia de matar Belina" (1968), parte de uma pesquisa para meus novos trabalhos em ficção, e recomendo a leitura. A linguagem elegante, bem característica da época e do mundo onde transitam seus personagens - alta roda paulista com interseções com a marginalidade de bookmakers, empresários falidos, mulheres caça-dotes, sequestradores - é o sabor especial, embora alguns contos acabem ficando datados (sem spoilers...). O que acho melhor é "O homem que matava quadros", o conto que dá título ao livro é uma pequena obra-prima, e transportando o embate abstratos x figurativos para pintores x multimidias ou mesmo artistas x curadores se poderia dizer um texto contemporâneo. Os livros estão esgotados, mas achei na Estante Virtual por preços irrisórios, e um site do "Projeto Mão em Mão", da Prefeitura de São Paulo, disponibiliza grátis uma coletânea, "Ninguém morre duas vezes", boa para se chegar ao autor; porém para mim esta leitura fica melhor em livro, com o cheiro e o tato do papel, a ortografia da época e as capas como a do Eugênio Hirsch para a Editora Civilização Brasileira.
Como um leitor obsessivo desde o Thesouro da Juventude que ganhei com meus 4 ou 5 anos de idade, e ainda como um colecionador também obsessivo, um de meus objetos de desejo tinha que ser "Obras Completas".
Quando eu não tinha muito dinheiro, ficava namorando as edições em papel bíblia da editora Aguilar, e uma de minhas primeiras ousadias quando comecei a trabalhar com um salário melhor foi comprar, em prestações, o Fernando Pessoa, obra poética completa, edição de 1977, tenho e leio até hoje. Abro agora, em 2010, e um cartão postal de 1982 marca a página 601, onde leio "The rain outside was cold in Hadrian's soul./The boy lay dead (...)"
O livreiro, com um indefinível sotaque meio espanhol, vendia as coleções da Aguilar, dicionários, coleções infantis; ia de sala em sala no prédio do Ministério da Fazenda, no centro do Rio; era antes do cheque-pré, eu acho, pois ele voltava todo o final de mês para cobrar a prestação e trazer novas tentações.
O Machado de Assis completo, também em papel bíblia da Aguilar, comprei após um bom namoro, em um sebo em Ipanema que não existe mais; edição de 1959, ainda perfeita a menos da ortografia um tanto desatualizada, sem problema, não embaça o texto maravilhoso. Outros da Aguilar, em feiras do livro, sebos ou então em gestos de audácia, parcelando no cartão: o Lima Barreto, o João Cabral, o Eça de Queiroz (em 4 volumes, um só de cartas!), o maravilhoso Augusto dos Anjos... mais recentemente, dois sonhos: o Guimarães Rosa e o teatro completo de Shakespeare que a Bárbara Heliodora vem traduzindo, em volumes parcimoniosamente entregues.
E uma lista de desejos que continua ativa: o Murilo Mendes, o teatro do Nélson Rodrigues...
O Borges completo não é em papel bíblia mas é uma edição muito boa, comprei aos poucos, me desesperando pois achava que iam tirar de circulação ou esgotar a qualquer momento, e são só quatro volumes. O último (os Prefácios) comprei em um encontro que marquei pela internet, no Rio Sul. Enquanto esperava, entrei em uma livraria e lá estava, com desconto, o volume dos Prefácios do Borges. Como resistir? depois levei o livro para o jantar e para o motel, com medo de esquecê-lo no meio da noitada de sexo selvagem e beijos românticos. Nunca mais vi a figura, mas o livro está aqui, na minha estante, livros são muito melhores que paixões desenfreadas.
Outro objeto de desejo eu consegui, em uma tarde de sábado de tédio em Brasília, na Livraria Cultura do Park Shopping: os três volumes da série Mitológicasdo Claude Lévi-Strauss ("O Cru e o Cozido", "Do Mel às Cinzas" e "A Origem dos Modos à Mesa"). Eu tinha que comprar, ou o ar seco do Planalto me mumificaria. Edições pequenas, já esgotadas; e Seu Cosac ainda nos deve o quarto volume da série, "O Homem Nu".
Neste meu quadro quase clínico de colecionador, que Freud deve certamente explicar, um dos objetos mais fortes de desejo para mim sempre foram as obras completas dele mesmo, Sigmund Freud.
Vi em vários sebos, avaliei, pensei até em comprar em espanhol pois era a melhor opção em termos de preço, era quase um projeto de casal pois neste época eu era metade de um casal (talvez a metade mais fraca pois depois fui deixado). Novamente solteiro, ter as obras completas de Freud passou a ser desejo só meu, ao mesmo tempo fácil (existe, em vários sebos, a um preço razoável) e dificil (sim, não é só ter, é preciso ler, claro, e eu imaginava que sem a outra metade para me ajudar na leitura eu iria achar tudo muito dificil, um universo nublado e impenetrável como um pesadelo sem interpretação analítica).
Enfim, foi editada recentemente uma nova tradução das obras do Freud, diretamente do alemão pelo Paulo César de Souza, pela Companhia das Letras, os volumes estão sendo publicados aos poucos, um projeto gráfico simples e bonito, claro que comprei os três primeiros volumes já lançados.
E aí começa o desafio: vai enfeitar a estante para "um dia"? ou vou ler logo? ou tentar ler, uma leitura que deve ser dificilima, desistir?
Comecei pelo volume "azul", com escritos de 1911-1913, e caio logo no Caso Schreber, "observações psicanalíticas sobre um caso de paranóia relatado em autobiografia".
Parece impenetrável, não é. Para minha surpresa, Ele, o Pai, escreve com a fluidez de um cronista de jornal, as ideias são expostas de forma clara, a linguagem é precisa e agradável, a postura não é arrogante, o texto é lido e entendido por mim, leigo em psi apesar dos anos que ralei deitado em divãs.
Há algumas lacunas, claro, coisas que talvez estejam mais bem explicadas em outros textos (eu chego lá), mas no geral a leitura é boa, é um pouco como ler um conto policial, pistas escondidas são decifradas, de uma forma muito cool.
Algumas coisas são totalmente datadas, afinal acho que no Terceiro Milênio não há mais mulheres com histeria, e pensar em desejos homosexuais criando paranóia é tão anacrônico como fraque e cartola; mas ler Freud absolutamente não é datado, como ler Proust também não é.
Sigo no volume "azul", ainda tenho para ler o "laranja" e o "verde" em casa, e comprarei e lerei os demais, à medida em que forem lançados, claro, até ter as Obras Completas em casa (e matar de inveja a metade do casal que se foi).
Pouco tempo depois, na abertura de uma exposição na Gávea, encontro uma amiga, artista plástica, com o marido, ele um psicanalista; os grupos se fazem e se desfazem com a "conversa de artistas" e o vinho branco, e eu conto para o marido de minha amiga a minha conquista: li um artigo inteiro do Freud e não achei difícil.
A conversa de pé de venissage rendeu, o analista (vamos chamá-lo, à maneira de S.F., de Sr. D.) concorda que muitos dos textos do Pai são fáceis de ler, mais ainda, gostosos de ler, são os textos que ele usava para divulgar suas ideias; alertou-me que vou esbarrar, nas Obras Completas, em textos mais difíceis, mais técnicos; mas que para o que eu persigo posso tranquilamente deixar estes de lado, seguir pelos caminhos mais fáceis e depois retornar aos mais áridos, ou não.
O Sr. D. concorda com a minha visão de que algumas coisas são datadas; ler Freud hoje é muito diferente do que foi lê-lo na época; o impacto de suas ideias foi imenso, mas elas foram aos poucos assimiladas; e hoje "tudo" no mundo reflete S.F., o que amortece um pouco a força do original. Impossível, hoje, pensar na vida sem ter incorporada a visão-Freud. da vida.
Acontece com todos os revolucionários, sua diluição é parte de sua vitória. Como Duchamp, hoje é impossível pensar arte como se pensava antes dos ready-made; mas ao mesmo tempo, ele, Duchamp, já se tornou "um dado", sua ação já está no mundo e qualquer garoto de primeiro ano da EBA já quer (já pode) ir muito além do ready-made.
Mas sobre minha observação de que não existem mais mulheres histéricas, o Sr. D. foi witty e preciso: "Jozias, existem sim, elas hoje só não desmaiam mais; elas detonam o cartão de crédito do marido". É verdade. Nada melhor do que conversar com quem entende.
Hoje, sábado chuvoso no Rio, vontade de ficar na cama mas um compromisso me acorda cedo; elétrico, enfrento a chuva e o metrô para o Laboratório de Vivência Literária, um workshop de dia inteiro com o escritor Luiz Ruffato, na Estação das Letras.
Como preparação para a atividade, os participantes deveriam levar um texto, de preferência um conto, com até 6000 caracteres (ah meu Deus, sempre este stress de contar toques), e isso em uma semana que para mim foi cheia de trabalhos, cursos e eventos, além de uma inesperada noitada de 5a.feira depois da abertura de uma exposição. É bom sair, em companhia agradável, beber, chegar em casa com o dia claro; mas a 6a.feira, o dia em que eu contava para burilar meu texto, se tornou muito curta. Paciência.
Eu vasculhei meus arquivos no computador, incrível, tantos textos inacabados ou enormes, muito acima das duas laudas. Muitos fragmentos, para desenvolver ou dar um sentido só tendo uma 6a.feira de 48 horas. Muitos textos "fortes", politicamente incorretos, e eu não quero repetir a experiência de ter sido tão patrulhado na Oficina de Crônicas que fiz no início do ano.
Finalmente, um texto que é um fragmento de um trabalho maior, um romance que planejei em meu exílio em Brasília e que deixei de lado ao voltar ao Rio. O título (provisório, claro) do romance é "Doce B. e o Tigrão". Risos, o efeito meio cômico é o desejado mesmo.
E o trecho com mais 12 mil caracteres, incluindo espaços, tem as cartas que o narrador troca com sua sogra e seu irmão, e que narram sua adaptação em uma nova vida, tentando esquecer sua tragédia; e que pouco a pouco são substituídas por emails que são a transição do narrador para novos interesses, e a preparação para a entrada em cena de um novo personagem, o Tigrão. Ufa.
Dito assim, difícil fazer caber o texto nos 6 mil caracteres, mas foi o que fiz na 6a.feira: cortar, cortar, cortar. Cortar o irmão, no romance faz muito sentido mas neste conto que estou produzindo não acrescenta, só dispersa. Resumir as cartas a apenas três, três momentos chave na nova vida que o narrador procura desesperadamente. Finalizar com o que no romance está em outro trecho, a descrição da tragédia.
E, ao final, ver que faz sentido. Nada como trabalhar com restrições de número de toques e com deadlines.
Tarefa cumprida, meu texto impresso a tempo, protegido da chuva e também no pen-driver para maior segurança, aqui estou eu.
Li pouco, muito pouco, do escritor Luiz Ruffato. Apenas o livro da coleção Amores Expressos, Estive em Lisboa e Lembrei de Você, muito bom. E agora, motivado pela expectativa do workshop, comecei a ler seu principal livro, Eles eram muitos cavalos. Uma pauleira. Um livro que se começa e não se consegue parar, um clima de tensão constante; um mosaico, um caleidoscópio, uma cidade e seus personagens, cada personagem falando em sua própria linguagem e tudo se somando em uma cacofonia de uma São Paulo, uma megalópolis que poderia ser qualquer outra, ou não.
Treze alunos, doze textos (uma moça não conseguiu escrever, diz; outra ia ceder para ela um dos dois textos que trouxe, mas desiste). Tiradas as cópias dos textos, cada um começa a ler o seu; vem os comentários, inicialmente tímidos, cortezes; depois mais incisivos, mas sempre pertinentes. Ruffato é um bom moderador, mais que isso, é um leitor muito sagaz, nesta primeira leitura, rápida, ele extrai do texto as fragilidades, as inconsistências e os pontos positivos; não dói, pelo contrário, é desafiante ouvir que meu texto, de certa forma feito meio que "nas coxas", pode ser melhorado, com um trabalho de alguma reescrita.
Os textos lidos vão de uma densa viagem interior sobre um relacionamento a uma seca descrição de uma tarde em um bar de periferia; entre estes extremos, textos que dão vontade de continuar a ler, ou que são pesados mas que podem servir de base para um novo trabalho; ou que são totalmente perfeitos em seu humor e o que poderia ser (ou não) memória de um final de adolescência e passagem para a vida adulta.
O trabalho flui bem, o medo que eu tinha de não se conseguir ler e comentar todos os textos se mostra infundado, terminamos apenas 10 minutos depois do horário marcado, e ainda tive o prazer de, no breve intervalo para o almoço, comer um quibe na mesa do escritor e ouvir alguns causos interessantes de Minas Gerais.
Três dos participantes do workshop já são veteranos desta atividade com o Ruffato, e a qualidade de seus textos mostra isso, esta evolução. Bom, vou reescrever meu texto, e volto no próximo com outro texto mais bem trabalhado.
E algumas lições que levo para casa, a partir do que nos disse Luiz Ruffato: a) Ler muito b) Buscar interlocutores, outros escritores com os quais me identifico c) Escrever sempre d) Disciplina e) Reescrever f) Tentar sempre compreender que história está tentando ser contada
E o meu conto? Em princípio, Três Cartas e uma Memória. Vou reescrever, e quando achar que está razoável, publico aqui no blog.
Enquanto isso, disciplina; e as lições acima valem também para pintura. O que faz a pintura é o que faz o bom texto: trabalho, trabalho disciplinado e prazeroso, que envolve o corpo e alimenta o espírito, que exige estar sempre ligado, sempre buscando os interlocutores, na literatura e na história da arte.
Um árduo caminho, uma escada íngreme e estreita, a sensação do ar cada vez mais rarefeito e o prazer de (1) chegar lá (2) ver que ainda há mais escada para escalar, e que o "lá" é sempre além.
Não o conheci; eu estava em Brasília quando ele frequentava o Parque Lage, meus amigos me falavam dele, do livro, e me falaram de sua morte. Rodrigo de Souza Leão.
Hoje, leio o livro (Todos os Cachorros são Azuis), emprestado por minha amiga Virgínia, que o conheceu bem. O livro que leio é precioso, tem dedicatória em uma letra tremida (“À Vivi, um pouco do meu caos. beijo amigo do Rodrigo 02/04/09”), que engraçado, sincronicidade talvez, a dedicatória é datada exatamente de um ano atrás, eu estava um bom tempo com o livro que Virgínia me emprestou e exatamente hoje, 02/04/2010 o abri para ler e já estou quase terminando, de um fôlego só. Sem parar, uma escrita que prende, que envolve, que entra no corpo do leitor até a medula.
O Rodrigo (que não conheci mas agora conheço um pouco mais) está presente em cada palavra, em cada página deste livro, pequeno mas profundo; ele, ou o personagem, que engoliu um grilo aos 15 anos, que já adulto engoliu um chip, que quebrou a casa para salvá-la de cupins gigantes;e seus alter-egos ou amigos imaginários ou amigos reais ou companheiros de internação, Baudelaire e Rimbaud. Personagens, Lembra-Vovó, a Senhora de Todos os Gritos, o Temível Louco, com seis assassinatos/estupros no prontuário, mas que temia o personagem/o autor pois lhe parecia com o Pai, que o espancava. O medo, a loucura, a prisão, a liberdade, os remédios.
“Eu já estava tomando tanto remédio, que estava com aquela baba elástica bobina e viscosa, como dizia o escritor.”
Um livro pequeno, 78 páginas, mas profundo, como os abismos da mente, como a consciência de se estar louco ou no limiar, como o saber que nesta caverna o sol não entra, como o saber que desta caverna não se sai vivo. Da vida. Da loucura. Da vida não se sai vivo.
“A primeira liberdade é sair do cubículo. A segunda liberdade é andar pelo hospício. Liberdade, só fora do hospício. Mas a liberdade mesmo não existe.”
Leio sem parar, é um livro pequeno, as 78 páginas são lidas rapidamente. Hoje, feriado, um dia de sol no Rio, fui à praia, encontrei amigos, bebi uma deliciosa caipirinha de kiwi com gengibre e limão; mas à noite minha viagem é na clínica onde o personagem/Rodrigo foi internado, eu também estou nesta clínica e sou seu companheiro, seu amigo imaginário como Baudelaire e Rimbaud, e sei que só vou sair deste cubículo, desta prisão, como Rodrigo, para um mundo que nos dá uma falsa sensação de liberdade.
Como Rodrigo, morto tão jovem, que talvez tenha saído deste mundo e desta falsa sensação de liberdade para a verdadeira liberdade, para o não-ser.
“Ainda continuo na jaula. A minha boca está fechada com uma mordaça. Meus pés estão presos. A música sai de mim e volta, não posso causar mal nenhum a não ser a mim mesmo.”
Rodrigo, eu também.
"É junho. / Tem festa junina no hospício. / A quadrilha dos loucos está em fila. Os que tomam Gardenal não falam. Outros tomam Haldol. Outros são dependentes químicos. Outros estão doidos por uma cachaça e jogam sinuca de bico. Ninguém quer entrar na fila pra dançar. Nenhum psicótico quer dançar. Nenhum oligofrênico quer deixar de dar cabeçadas na parede. Mas Rimbaud está contente e dança sem tristeza."
Mais:
Rodrigo manteve um blog, lowcura, até sua morte, de um enfarte, em 02/07/2009. O último post é de 25/06. Clique aqui para o blog
Site muito bom, com muitas informações sobre Rodrigo, clique aqui
Além do Todos os Cachorros são Azuis, Rodrigo publicou, em 2001, um livro de poemas, Há flores da Pele (Editora Trema)
Boa entrevista com Rodrigo, feita pelo Ramon Mello, clique aqui. Ramon é um jovem poeta, estou lendo seu livro Vinis Mofados, muito bom, em breve falarei dele no blog
Tom Ford (ele mesmo, o famoso estilista) vai dirigir um filme, leio em algum lugar, e o que logo imagino é uma linda casca vazia, uma estética rasa e superficial, um 9½ Semanas de Amorgay. Lendo mais sobre o projeto, descubro que ele se cercou bem, adaptou (ele mesmo, como co-roteirista) um clássico de Christopher Isherwood, A Single Man, que trata não de relações superficiais entre barbies ou modetes, e sim da solidão profunda de um homem, tanto faz se gay ou straight, ao perder seu cônjuge de 16 anos. Bom, então ele vai estragar o livro maravilhoso do Christopher Isherwood, era a minha aposta.
OK, perdi a aposta. A Single Man do Tom Ford, guardadas as diferenças de linguagem entre um livro e sua versão cinematográfica, não deixa a desejar ao A Single Man do Christopher Isherwood.
Pelo contrário, é um filme sensivel, profundo, que trata de personagem em depressão sem ser depressivo; que disseca a riqueza de pensamentos de um homem impotente frente a finitude, frente a morte; que a deseja, a morte, o fim; que quer comandar sua morte, mas que percebe que só ela comanda, só a morte diz ao homem quando é o seu momento. E que o ser humano, nadando e afundando neste mar revolto e traiçoeiro que é a vida, depende apenas da "bondade de estranhos" para ir além quando suas forças se esvairem.
Esteticamente, o filme é perfeito. As interpretacoes de Colin Firth e Julianne Moore, bem como dos demais atores, é sóbria, requintada, como o são a musica (intensa sem ser melosa) e a fotografia (as variações de cor, do sépia quase sem cor que se torna em cores quentes apenas nos flash-backs ou nos momentos de mais vida do personagem); os cenários (a casa do personagem, em vidro e madeira, é o numero um de minha wish list, seu Mercedes vintage é maravilhoso) e, como não podia deixar de ser, os figurinos, impecáveis.
E o que é melhor, eu acho, é que ver o filme é uma força para reler (e para quem não leu, ler pela primeira vez) o livro A Single Man. Um livro fininho, minha edição de 1985 tem 161 páginas.
Mergulhar de novo, depois de quase 30 anos, neste texto sensível e inteligente, witty, é um prazer.
O livro, escrito em 1964, descreve uma ação passada dois anos antes, em plena crise dos mísseis com Cuba, uma época que foi um turning point na sociedade e na cultura norte-americana e ocidental. O status dominante: a Guerra Fria, a continuidade dos anos 1950 com sua caretice, uma inocência (que logo será perdida com a morte de Kennedy), a invisibilidade dos gays, as mulheres ainda submissas. Por outro lado, nas Universidades (e o personagem, George Falconer, é professor em uma Universidade na California) começa a surgir a contra-cultura, a oposição à guerra do Vietnam, as feministas queimando soutiens, o movimento hippie, as drogas; a caretice dos suburbios americanos nunca mais seria a mesma. No início da década, a disseminação da pílula anticoncepcional modifica as relações entre mulheres e homens. E no final da década, Stonewall inicia o movimento gay, e marca o fim da invisibilidade, as portas dos closet são abertas.
Sobre este pano de fundo, um dia na vida do professor George Falconer, que perdeu, há 8 meses, seu companheiro de 16 anos, Jim, morto em um acidente de carro; a invisibilidade dos gays na época faz com que George não possa nem ir ao seu enterro, reservado para a família; e para os vizinhos a ausência de Jim é explicada por George como uma simples mudança de cidade. Só, George decide morrer, e seu dia se passa entre os preparativos secretos e as tarefas normais: dirigir por auto-estradas para a Universidade, dar aula... No entorno, a caretice: vizinhos, professores, alunos... Uma aula sobre Aldous Huxley e George se empolga, fala mais do que gostaria, mas talvez os alunos nem consigam entender o que foi dito. No final do dia, um banho de mar noturno com um jovem aluno, encontrado casualmente em um bar. Tudo escrito em uma prosa fluente, inteligente, irônica, agradável de ler e com frases inesquecíveis:
(sobre os vizinhos de George:) "Mas têm muito medo. De que têm medo? Têm medo do que sabem que está em alguma parte na escuridão em torno, do que pode a qualquer momento emergir à inegável luz de flashes de suas máquinas fotográficas, para nunca mais ser ignorado ou minimizado com racionalizações. O demônio que não se encaixará em suas estatísticas, a górgone que lhes recusa a cirurgia plástica, o vampiro que bebe sangue com ruídos incivilizados e grosseiros, a besta fedorenta que não usa seus desodorantes, o indizível que insiste, apesar de todos os psius deles, em dizer o próprio nome."
A Single Man tem uma "presença ausente", a de Don Bachardy. Nos créditos do filme, ele, hoje com 75 anos, aparece como consultor. E o livro foi escrito por Christopher Isherwood com componentes auto-biográficos, não sobre uma perda real, mas sobre o temor de uma perda: o escritor pensou como seria sua vida sem Don, e a partir daí escreveu esta elegia sobre a perda de seu companheiro.
Christopher e Don se conheceram no Valentine's Day de 1953, quando o escritor tinha 48 anos e Don era um jovem de 18 anos, embora o próprio Don recentemente tenha declarado, em entrevista para o filme Don & Chris, que à época tinha 16 anos.
O escritor ingles, de origens aristocráticas, já era consagrado e estava radicado na California desde 1939; já o jovem americano tinha origem na classe média baixa, e parecia bem mais novo; os amigos intelectuais de Christopher ignoravam o rapaz; mas, com o incentivo do escritor, Don dedicou-se ao desenho e pintura, se mostrando bastante talentoso e se firmando como retratista. Apesar das diferenças culturais, de idade e de meio social, Christopher e Don ficaram juntos até a morte do escritor, em 1986. David Hockney retratou o casal em uma linda pintura, com 212x304cm, em 1986.
Ao imaginar a perda de Don, Christopher escreveu sua obra-prima; se fosse possível prever o futuro e visualizar os longos anos em que ainda estariam juntos, talvez as palavras, se escritas, não tivessem tanta dor, uma dor de quem efetivamente viveu uma perda irreversível: "Vamos supor que os mortos realmente revisitem os vivos. Que alguma coisa que possa mais ou menos ser descrita como Jim seja capaz de voltar para ver como anda George. Seria isso sequer satisfatório? Valeria mesmo à pena? Na melhor das hipóteses, será que não seria, obviamente, como a rápida visita de um observador de outro país com permissão para entremostrar-se dos vastos campos de sua liberdade, e ver, a distância, através da ampulheta, este vulto que se senta, isolado, à mesinha do cômodo apertado, comendo humilde e melancolicamente seus ovos escaldados, um prisioneiro da vida?"
Através da arte, da literatura, podemos viver um pouco deste amor entre Christopher e Don, e nos identificarmos com ele a partir de nossas perdas, reais ou temidas. E através da arte, do cinema, este amor situado em um tempo tão próximo e ao mesmo tempo tão diferente de nós, pode ser sentido e finalmente perder sua invisibilidade. Hoje, quero crer que George estaria no enterro de Jim, chorando, sem precisar esconder sua dor.
Ainda:
Sim, o nome do filme no Brasil é Direito de Amar, mesmo nome de uma novela da Globo
Mais sobre Tom Ford, na Wikipedia
A casa do pesonagem é o máximo, em vidro e madeira, clique aqui para ver fotos e mais informações Clique aqui para ver o trailler do filme Don e Chris Clique aqui para ver o trailler do flme Cabaret, dirigido por Bob Fosse, baseado em livro do Christopher Isherwood
Grande expectativa em torno de O Seminarista: o retorno de Rubem Fonseca ao romance, pois depois do romance Mandrake, a Bíblia e a Bengala, de 2005, o escritor lançou apenas um livro de contos (bom, Ela e Outras Mulheres, 2006) e um de crônicas (fraco, O Romance Morreu, 2007). É também o primeiro livro de Rubem Fonseca em sua nova editora (Agir), após o rompimento de uma parceria de 20 anos com a Companhia da Letras. O lançamento é acompanhado por um volume com uma reedição de um conto do escritor, A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro, ilustrado com fotografias de seu filho, Zeca Fonseca. Enfim, o livro é lançado com ampla cobertura na midia, fica disponível também pelo Kindle, tudo para ser um cult no final de ano.
Ao começar a ler, uma certa sensação de déjà vu. Sei que o romance retoma personagens (um matador de aluguel, o Especialista, e seu contratador, o Despachante)e também situações, de contos antigos, mas a sensação de que "já li isso antes (e melhor escrito)" é grande e me incomoda. Apesar disso, a leitura flui bem, o livro prende, o ritmo se acelera em cenas de um quase-Tarantino, e ao término deixa comigo aquele sabor de "quero ler mais".
E vou aos contos Belinha, Olívia e Xênia, do livro Ela e Outras Mulheres, onde José, o Especialista, aparece, juntamente com o Despachante e as situações que são desenvolvidas no romance.
Nos contos o assassino quer umas férias; no romance, quer se aposentar; e os enredos vem a partir disso: impossível sair simplesmente dessa atividade, pois sabe-se demais; e o caçador vira caça. Mas a releitura dos contos me mostra que estes são muito melhores que o romance, mas compactos, a energia condensada em poucas páginas não se dispersa, as cenas de matança não tem o tom exagerado de um filme de ação e sim a secura, a concisão, de boa literatura. Uma cena que é aproveitada inteira a partir de um conto para o romance, a do freguês-cadeirante, está bem melhor no conto (perdeu muito no cut-and-paste). E a protagonista feminina do romance, a alemã Kirsten, não tem a força de uma Belinha ou uma Xênia.
Outro problema sério no romance são incongruências, impensáveis em um escritor do porte de Rubem Fonseca, e que aparentemente escaparam às revisões, mas que são percebidas por mim, leitor atento e chato:
A partir da página 33, o Especialista começa a contar como matou o Despachante: "Mas, para isso, tive que matar o Despachante, depois explico por que e como". Na página 76-77, finalmente o Especialista conta como matou o Despachante, não sem antes fazê-lo tirar os óculos escuros e ver seus "olhos azuis rutilantes". Mas logo depois, na página 77-78, o Especialista flagra Kirsten com o Despachante, e percebe por que ficara perturbado ao conhecer a alemã (na página 33) e ver seus "olhos azuis rutilantes". Bom, a aparição do Despachante vivo logo após a descrição de sua morte não é problema, a morte pode estar sendo contada em um flash-forward. Mas se o Especialista só viu os olhos azuis do Despachante ao matá-lo, como poderia ter se perturbado ao conhecer Kirsten e ver pela primeira vez seus olhos da mesma cor? se nesta altura ainda não havia morto o Despachante, tanto é que, já vivendo algum tempo com Kirsten é que ele encontra os dois juntos e ambos vivos, claro.
Ainda: A partir da página 90, o Despachante vai para Buzios em uma missão de busca de informações preciosas e potencialmente letais; ele e o Especialista se comunicam por telefone, o Despachante desaparece, o Especialista vai a Buzios e descobre (página 93) que o Despachante havia sido morto: "Um camarada de óculos escuros? Foi liquidado" "Onde está o corpo?" "No Oceano Atlântico". Como o corpo efetivamente não aparece, o leitor imagina que na verdade o Despachante estaria vivo,e retornaria, para então, em outra virada da trama, ser finalmente morto pelo Especialista, como este já narrou; o que não acontece. E o leitor atento fica frustrado, descobrindo que está diante de erros que uma revisão mais cuidadosa não deixaria passar.
Em suma, apesar destes problemas, é um bom livro, vale a pena ser lido, embora perca na comparação com os ótimos contos do escritor (comecei a reler, a partir de Os Prisioneiros, e cada vez gosto mais) e com seus grandes romances como Bufo & Spallanzani, A Grande Arte e Agosto.
Aeroporto Santos Dumont, manhã chuvosa de 3a.feira, a dúvida se teremos ou não teto para os voos, compro um livro: Purgatório, o novo livro do escritor argentino Tomás Eloy Martinez. Meu I-Pod na função shuffle começa a tocar nada mais nada menos que Bajofondo, e isso é um bom prognóstico, nada como o tango eletrônico do conjunto portenho para acompanhar a leitura que tenho certeza que será muito interessante.
Tomás Eloy Martinez nasceu em 1934 em Tucumán (Argentina), e em 1975, perseguido pelo Triple A, foi forçado a buscar o exílio em Paris e depois em Caracas, onde viveu e trabalhou como jornalista entre 1975 e 1983. O Triple A, Aliança Anticomunista Argentina, foi um grupo armado de extrema direita, de extermínio, comandado secretamente por López Rega, El Brujo, Ministro de Bem Estar Social e guru da Presidenta Isabel Perón, a Isabelita.
Em paralelo ao trabalho como escritor e jornalista, Martínez desenvolveu uma carreira acadêmica, lecionando entre 1984 e 1987 na Universidade de Maryland (USA) e, desde 1995, na Rutgers University, em New Jersey, onde dirige o Programa de Estudos Latino-Americanos.
O que me leva a uma boa expectativa sobre Purgatório são os livros anteriores do autor, publicados no Brasil, e que já li, com prazer e interesse: tramas bem urdidas, surpresas e desfechos inesperados, personagens inesquecíveis, bem descritos, profundidade psicológica e contexto político, uma Argentina de cantores de tango, da ditadura e dos desaparecidos, de Perón e do cadáver de Evita, as calles de Buenos Ayres e as províncias, o pampa.
Santa Evita, talvez o livro mais lido do autor, traduzido para 32 idiomas e publicado em 50 países, conta a fantástica história real do cadáver da primeira-dama argentina, que, após um trabalho magistral do embalsamador, foi seqüestrado, escondido em sótãos e lugares desertos, violentado, teve réplicas, viajou continentes, até o descanso final (final?) no jazigo do Cemitério da Recoleta.
Outros livros publicados no Brasil são O Romance de Perón (segundo o autor, “narro uma investigação muito séria de uma forma romanceada”); O Cantor de Tango (procura obsessiva por um obscuro cantor de tango que teria uma voz e interpretações celestiais mas que silenciara), A Mão do Amo (uma história edipiana, um cantor com uma voz perfeita “absoluta” desde menino prodígio mas que, preso a uma mãe castradora, não consegue chegar à gloria que merecia, já que para a mãe a voz maravilhosa era apenas um objeto de satisfação dos seus caprichos).
O Vôo da Rainha, que foi laureado com o importante prêmio espanhol Alfaguara e publicado no Brasil como o volume final da coleção Plenos Pecados, representando a Soberba, ficção e realidade se confundem em tragédia, ao narrar a história de um influente jornalista que se apaixona obsessivamente por uma repórter em início de carreira, tendo como pano de fundo a ditadura militar, a corrupção dos políticos e o poder da imprensa. Com boa parte do livro escrito, o escritor tomou conhecimento que seu amigo de longa data, o , influente jornalista Pimenta Neves, havia assassinado a namorada, a também jornalista Sandra Gomide. Ao perceber as coincidências macabras entre o real e o livro que escrevia, Martínez mudou a história e no processo de reescrita, foi atropelado com a mulher, que não sobreviveu. É um livro visceral, sofrido, sobre a Soberba, “a abelha-rainha de todos os vícios e pecados”.
Enfim, Purgatório.
Já no voo, ouvindo mais Bajofondo, começo a ler a história de uma mulher argentina, Emilia, que presa com o marido, pela ditadura militar, procura o marido desaparecido por mais de trinta anos, até encontrar o morto bem vivo e, mais estranhamente ainda, sem ter envelhecido, com a mesma aparência que tinha aos 25 anos, enquanto Emilia se tornou uma sessentona, em sua solitária procura. O que acontecerá nesta história que mistura violência policial, romance, busca existencial?
Parketté uma conceituada editora suíça com filial em NYC, que se apresenta como "um pequeno museu e uma enorme biblioteca de arte contemporânea", e além de bons livros de arte publica, três vezes ao ano, a revista com o mesmo nome, com textos e imagens de importantes escritores, críticos e artistas internacionais. Até o momento foram publicados mais de 80 volumes, com cerca de 180 monografias e mais de 1500 ensaios, o que faz de Parkett uma das mais completas bibliotecas de arte contemporânea mundial. Em cada número, um artista apresenta um trabalho exclusivo, assinado e numerado; entre outros, já participaram Laurie Anderson, Richard Artschwager, Georg Baselitz, Matthew Barney, Louise Bourgeois, Francesco Clemente, Gilbert & George, Rebecca Horn, Jeff Koons, Brice Marden, Bruce Nauman, Meret Oppenheim, Raymond Pettibon, Sigmar Polke, Gerhard Richter, Cindy Sherman, Andy Warhol. O preço: a assinatura anual (3 exemplares) custa 90 euros mais as despesas de correio. Está sendo lançado o volume 85 de Parkett, denominado "Transatlântico", que comemora o 25 aniversário da publicação, e nele um destaque é a nossa Beatriz Milhazes. Em ensaio sobre a artista, Tanya Barson declara que suas pinturas mostram a vida como um "processo perpétuo de renovação e decadência"; em uma entrevista com o músico Arto Lindsay, Beatriz Milhazes "exorcisa o terror claustrofóbico da tela em branco e a presença intimidadora de duas de suas maiores influências, Matisse e Frida Kahlo"; e ainda um ensaio de Barry Schwabsky discorrendo sobre a musicalidade inerente ao trabalho de Beatriz. Além disso, e mais forte que as palavras, uma linda serigrafia em 18 cores produzida especialmente para a revista, com os motivos das últimas colagens da artista, com papéis de chocolate e que, com a imagem central de um coração pulsante, irradia uma vida e uma beleza que salta das páginas da revista.
Veja mais: Vídeo com uma boa entrevista, em inglês, da artista Beatriz Milhazes, no site de sua galeria em NYC, a James Cohan Gallery
Terminando de ler Questões de Honra, do escritor Louis Begley, outro escritor que me faz sentir o tal "prazer da leitura" sobre o qual falei aqui no meu blog em relação ao Monteiro Lobato de minha infância e ao Bernardo Carvalho dos anos 1990. É o oitavo romance do escritor, que, judeu nascido na Polônia, sobreviveu à Guerra, radicando-se com a família nos Estados Unidos, onde, após cursar Harvard, tornou-se brilhante advogado, um membro da elite americana; e que iniciou sua carreira literária ao se aposentar aos 57 anos, com um livro fantástico, Infância de Mentira, que narra a estratégia de sobrevivência de sua família ao se esconder dos nazistas na Polônia ocupada. O novo livro também tem fundo autobiográfico, o autor se divide entre dois dos personagens principais, Sam (o narrador) e Henry; a ação se inicia no primeiro dia de Universidade (Harvard, claro) e prossegue na medida em que Sam, Henry e Archie, companheiros de alojamento na Universidade de elite, e Margot, da Universidade-irmã Radcliff, vão se conhecendo, amadurecendo e também seguindo caminhos diferentes. Sam transforma-se em um escritor conceituado e Henry, judeu polonês que emigrou com a família após a guerra, em um competente advogado internacional. O livro é interessante e li as quase 500 páginas de um só fôlego. Mas ao meu ver não é certamente o melhor livro do autor. Louis Begley é excelente ao mostrar o mundo dos bem-nascidos, dos ricos, da elite financeira e intelectual internacional; como um Proust globalizado, como uma Edith Wharton no terceiro milênio. Quanto a este aspecto, Questões de Honra nada deixa a desejar: todos são ricos, os não tão bem nascidos conseguem ascender; é um mundo de martinis e bordeaux, em NYC e em Paris. Mas minha opinião é que os melhores livros do autor são os que acrescentam a este mundo borbulhante um lado negro, decadente, mortal. É o caso do que eu acho talvez o melhor, O Homem que se atrasava, que seria apenas a descrição, facilmente esquecível, das viagens de um rico advogado e de como ele se atrasava ao tomar as suas decisões; mas ao mostrar as consequencias do seu "atraso" em assumir a mulher que era o amor de sua vida, a narrativa ganha outro peso, torna-se inesquecível. Da mesma forma a doença e a proximidade da morte em O Olhar de Max e Despedida em Veneza (neste último, ainda, a presença da Veneza decadente e afundando bem como, claro, a referência ao Thomas Mann e sua obra-prima), o terror em Naufrágio; e mesmo no primeiro Schmidt (Sobre Schmidt), com o contraponto entre a aposentadoria (degraus rumo à morte) e a vida pulsante, erótica; aspectos que se perdem na continuação, Schmidt Libertado, que, sem este "lado negro", se torna uma historinha piegas. (Falando em Schmidt, o livro foi vítima do que talvez seja uma das piores adaptações de um bom romance para as telas, o About Schmidt. Imagino que tenha rendido um bom dinheiro, mas o que se fez foi transformar o Schmidt original, um rico advogado com uma polpuda aposentadoria, morando nos Hamptons, em um operário classe média com uma aposentadoria medíocre e viajando em um trailler, ainda mais interpretado por um Jack Nicholson imitando seus próprios trejeitos e caretas do As Good As It Gets, além de fazer crescer um personagem secundário para mostrar uma ridícula Kathy Bates exibindo pateticamente os seios mal cuidados de hippie velha... O roteiro e a direção são do Alexander Payne , que além desta bomba fez outro filmezinho chato e supervalorizado, o Sideways. Os atores J.N. & K.B. foram indicados ao Oscar. Enfim. ) De certa maneira, Questões de Honra retoma os temas "autobiográficos" já tratados nos demais livros do L.B., e traz temas novos (talvez nem todos autobiográficos): a amizade, que pode ser maior que os laços familiares; as manobras para sobrevivência de uma família judia na Guerra; a busca das origens; o "atraso" em assumir o amor de sua vida; o risco nas manobras das altas finanças internacionais; a depressão, o alcoolismo, o suicídio; o abandonar uma vida estruturada; só que neste livros o lado negro é meio desfocado, estas questões são "narradas" de uma forma meio episódica. Ao final o leitor tem a impressão de haver acompanhado a narração de algumas vidas, interessantes sim, uma marcha do Brooklin a Avignon passando por NYC e Paris, mas não de haver um verdadeiro mergulho nas pulsões e contradições humanas, algo além dos episódios e do racional, como o autor mostrou em alguns dos outros livros com o "lado negro". Continuo esperando o próximo livro do Louis Begley.
Terminando de ler Leite Derramado, o novo livro do Chico Buarque. Gostei muito, ao meu ver é o melhor dos quatro romances do escritor e compositor (Estorvo, de 1991; Benjamin, 1995; Budapeste, 2003). Os mesmos jogos de espelhos, de aparências, coisas que ao mesmo tempo são e não são, a memória, a sua persistência e fugacidade. Mas ao meu ver neste romance a escrita sai mais redonda; nos anteriores a precoupação com a forma, os jogos com a linguagem, embora corretos, como que diziam ao leitor a todo o momento: é um livro do Chico Buarque, sagaz, inteligente, cheio de significados, witty; a todo o momento se podia ver os olhos verdes do autor atrás da voz do narrador; como se os personagens fossem personas de um escritor que é como que um conhecido de todos nós pela exposição na midia por tanto tempo. Já em Leite Derramado os personagens adquirem vida própria, e apesar de o leitor até poder "achar" pontos em comum entre autor e narrador (famílias quatrocentonas etc.), Eulálio d'Assumpção, ancião centenário, morrendo ou renascendo, com suas contradições, sua falta ou excesso de memória, seus preconceitos, sua ingenuidade e imaturidade que o persegue pela vida, com tudo isso, é um ser que cresce e toma vida a partir das páginas do livro. Matilde, a mulher que desapareceu sem uma foto, sem deixar um traço de sua presença, enigmática, misteriosa como uma Capitu, puta, santa, mártir, louca, suicida? também vive o seu mistério se torna um desafio para o leitor, como o é para o seu Eulálio. Um bom livro.
Em outro voo, desta vez de Brasília para São Paulo, termino minha leitura de O Filho da Mãe, o mais novo livro do escritor Bernardo Carvalho; sem conseguir parar, preso à narrativa, ao caleidoscópio de personagens e de situações que se move sob um clima geral de paranóia, de perseguições imaginadas e reais. As mães, que na primeira parte do livro dão o tom de uma quase ópera de sentimentos, de amor e rejeição, como comentei em post anterior, na segunda parte (As Quimeras) se colocam quase que como um coro para um primeiro plano onde os filhos, os machos, atuam em um balé acrobático, um filme de ação: eles se amam, se perseguem, se machucam, se matam... Aparecem até mesmo o pai/o padastro, em capítulos que são como pausas nesta ação, até pelas locações distantes: a Floresta Amazônica e o Mar do Japão (e que ficam, ao meu ver, como apenas inseridos na estrutura do livro; poderiam ter sido, talvez, mais desenvolvidos, principalmente o do padastro). E ao clima geral de paranóia, de medo, se soma uma tristeza, no leitor, de entender a tragédia que estará no fim desta sinfonia; o final (Epílogo) é como um apocalipse e um pesadelo; surreal, brutal, uma ação irracional e violenta como uma força da natureza, um temporal, um terremoto. Alguns livros do autor terminam sem explicar todo o mistério, que fica em aberto ("o que significa a caixinha de As Iniciais?"). Em outros, o mistério principal é esclarecido, abrindo o significado até para um releitura (Mongólia). Em O Filho da Mãe o final chega com o destino dos personagens bem traçados, os mistérios do enredo esclarecidos; o que fica sem solução, e nisto o Epílogo é perfeito, é o mistério maior: o que é e o por que deste amor mãe-filho, deste instinto que é do ser humano e dos animais, o por que disso tudo, o por que da vida mesmo? Hoje eu diria que este é o melhor livro do Bernardo Carvalho, embora ache Onze, Teatro e Aberração (nesta ordem mas praticamente empatados) verdadeiras maravilhas, livros que espero reler mais algumas vezes, acho que em O Filho da Mãe o escritor atingiu uma maturidade, um equilíbrio, um domínio da narrativa e dos personagens que me fazem colocar este último à frente dos demais. Agora vou começar a esperar o próximo, espero que não demore muito...
Domingo à noite, no Galeão, esperando o voo que me leva de volta a Brasília e a mais uma semana de ralação, começo a ler, ou melhor, me aproximo reverente do livro, como de uma escrita sagrada, a princípio tímido, depois totalmente preso pela prosa dinâmica e envolvente. Continuo a ler no avião, e leio toda a primeira parte (Trezentas Pontes) do livro, do mais novo livro do Bernardo Carvalho. Não consigo parar, em um cochilo na decolagem (quando normalmente eu desmaio de cansaço ou pânico de voar) os personagens penetram em meu sono e me acordam violentamente. O livro é O Filho da Mãe, da coleção Amores Expressos. Por contrato, o escritor teve que passar um mês em uma cidade (São Petersburgo); eu imaginava que a cidade havia sido escolha sua, mas em entrevista li que não, ele nunca havia imaginado ou desejado particularmente estar naquela cidade. E, também por contrato, o livro deveria tratar de uma história de amor. Ao chegar a São Petersburgo, Bernardo Carvalho passou por uma tentativa de assalto, à luz do dia em uma avenida movimentada; depois outras amostras de uma violência às claras; e a partir destas experiências, desenvolveu uma paranóia, que acabou por dar a atmosfera do livro. As experiências do autor na cidade russa estão no seu blog do Amores Expressos, e são bem narradas, interessantes, embora seja um blog curto. (Um detalhe, deixei um comentário no ultimo post do blog e, por alguma idiossincrasia do blogger.com, os comentários posteriores, dirigidos, é claro, ao Bernardo Carvalho, estão vindo também - ou somente - para mim; é uma situação meio de duplo, que tem a ver com uma das temáticas do escritor, ou talvez com algumas situações colocadas pela Patrícia Melo no Jonas, o Copromanta ...) Em O Filho da Mãe, Bernardo Carvalho utiliza um recurso não utilizado nos seus livros anteriores: o relato é feito por um narrador onisciente, deixa o subjetivo (embora em alguns dos livros anteriores as subjetividades de vários narradores se mesclam, num caleidoscópio de subjetividades). E são muitos personagens, muitas histórias que se entrelaçam, e o tema do amor é visto pela ótica do chamado "maior amor", o amor da Mãe pelo seu Filho; mas são muitos amores de mãe, são muitas mães: a mulher estéril que ao se saber condenada quer salvar o filho de outra mulher; a mulher que resgata pessoalmente seu filho de uma guerra; a mulher que abandona seu filho para voltar a uma vida tradicional; a jovem que usa o dinheiro do aborto para se drogar, a avó que se deixa morrer para tirar seu neto da guerra e da morte... são muitas mães e muitos filhos, e a busca do amor, a luta pela vida em um cenário onde a corrupção das instituições, a fragilidade economica e a arbitrariedade do sistema contribuem para um clima de insegurança, de instabilidade, de ameaças a cada momento, a tal paranóia que o autor sentiu e que trouxe com maestria para seu texto. Esta paranóia contamina o leitor, que fica preso ao clima de thriller, de suspense; de identificação e de medo de uma situação limite, de guerra, mas que está afinal tão próxima de nós. A paranóia que perpassa os livros do Bernardo Carvalho, uns mais outros menos, ao meu ver, neste livro chega ao seu paroxismo. É como ver as cenas da Índia na primeira metade filme Slumdog Millionaire , do diretor Danny Boyle (vi hoje, gostei): a chacina dos muçulmanos onde a mãe dos personagens é morta; a exploração e mutilação das crianças abandonadas... Ou como ler um jornal brasileiro, qualquer jornal, qualquer dia, e ver o avanço da ilegalidade, da violência, da falta de ética, as milícias... imaginar que hoje, nos centros urbanos do Brasil, estamos protegidos, classe média, mas que é uma proteção muito frágil, e que por um "nada" poderemos, ou nossos filhos, ser vítimas de uma violência e um desrespeito, que já é o dia a dia dos destituídos; e que a paranóia difusa da época da ditadura militar na verdade não se resolveu com a abertura política, pelo contrário, ela se generalizou; os desaparecidos de ontem são as vítimas de bala perdida ou de sequestro-relâmpago de hoje, são as crianças de rua do filme ou os jovens sequestrados pelos grupos militares ou para-militares das diversas facções do livro. Continuo a leitura amanhã e depois, nestes muitos voos de minha vida de nômade pós-moderno; e continuo meus comentários. Mas a avaliação até o momento é bastante positiva.
Entrevistas nos jornais, na internet. Ele deve estar chegando, finalmente. Entro na Livraria da Travessa de Ipanema, meio corrido antes de ir para casa, vindo de tarde com amigos em exposições. Procuro na parte dos lançamentos, nada. Procuro na parte de Literatura Brasileira, nada. Já vou embora, quando vejo, a capa vermelha bem "soviética". É ele, o novo livro do Bernardo Carvalho, O Filho da Mãe, da coleção Amores Expessos. Meu coração bate forte. Compro. Lembro das entrevistas, do blog, dos trechos já publicados em jornais e revistas. Enfim, começo a ler:
"(...) aquilo que há de comum a todas as tramas de Noll (vividas por um único protagonista que muda de pele de uma para a outra mas se mantem identico na humanidade que nos vincula a ele) é uma condição de desqualificação ou anonimato que se resume bem no termo ingles disenfranchisement, a grande decepção de uma modernidade que ofereceu a todos a promessa da emancipação universal mas que não a cumpriu. Significa a carencia absoluta dos direitos que tornam o indivíduo livre, capaz de se representar e, em consequencia, de participar e existir juridica e politicamente no corpo da sociedade. Sofrer este anonimato ou desqualificação vem a ser igualmente o destino de quem se vê emagado pelo peso das condições e estruturas dadas pelo mundo, e de quem se recusa confromar-se a elas, como bem entendia Lima Barreto, autor de Triste fim de Policarpo Quaresma. O encarceramento e o exílio são as duas imagens de espelho entre os quais os protagonistas de Noll se debatem na luta para se reconhecer a si mesmos." (David Treece, tradutor das obras de Noll para o ingles)
Já adulto, tive de novo a sensação do “prazer de ler associado à nostalgia do fim do prazer”, que senti ao ler Monteiro Lobato em minha infância (como coloquei em post anterior) ao conhecer a literatura de Bernardo Carvalho, em meados dos anos 1990. Eu havia lido sobre ele, jornalista da Folha de São Paulo, sobre os livros, mas o meu primeiro contato mesmo foi ao encontrar, em um sebo de livros na calçada da Escola de Música no Passeio Público, meu caminho de todos os dias, um exemplar, discreto, do Onze. Olhei, peguei, como quem pega uma relíquia; comprei; comecei minha leitura, nesta mesma noite, no meu canto de leitura na varanda do apartamento onde então morava, em Ipanema, na Rua Vinícius de Moraes, antiga rua Montenegro. Foi amor à primeira vista, à primeira leitura. Procurei em várias livrarias até conseguir o Aberração, este o primeiro livro do autor, e a minha impressão foi reforçada: é um grande escritor; quero ler tudo dele... A partir daí, comecei a esperar cada novo livro com a expectativa de quem espera um prazer intenso. Diferentemente do meu prazer pela coleção do Monteiro Lobato, quando eu via na estante os livros que ainda iria ler, via materialmente o fim do prazer se aproximando, à medida em que a leitura evoluia e os livros passavam para a categoria de "lidos"; como a obra do Bernardo Carvalho estava sendo escrita, a perspectiva de prazer era, pelo menos teoricamente, ilimitada... era só uma questão de esperar, um belo dia apareceria uma nova resenha na Folha, vai ser lançado o novo livro, e meus sentidos se aguçavam na expectativa do novo livro do B.C... Me lembro da surpresa que tive com um deles, acho que As Iniciais. Eu não havia lido nada sobre o breve lançamento, ainda estava naquela expectativa distante do “próximo livro”... e uma tarde de sábado, passeando na Livraria da Travessa de Ipanema apareceu, pronto, materializado, na estante, sob meu olhar atônito, inesperado, o novo livro, como um amor de Carnaval... E cada um deles, os esperados ou o inesperado, era o prazer renovado, o prazer da leitura, como o que eu tinha, criança, ao ler os Monteiro Lobato... Ao ler o Nove Noites, senti uma estranheza, vi uma mudança, uma inflexão na prosa do escritor; depois continuada com o Mongólia. Os temas são os mesmos dos primeiros livros, os grandes temas da literatura, os arquétipos: o duplo, o labirinto, o jogo de espelhos, o amor e a morte, a busca do pai e da identidade, a literatura/a arte como uma chave e também como um engano, os relacionamentos e o amor também como uma solução e um engano, os mistérios que jamais serão desvendados, a memória e o esquecimento... Mas, para mim, é como se nos primeiros livros estes temas se desenvolvessem em um universo totalmente interior, subjetivo, portanto mais universal; enquanto que nos dois últimos este universo passa a ser mais jornalístico, objetivo: uma memória focada no concreto, em uma narrativa “real”, perdendo um tanto do onírico dos primeiros, onde a narrativa desfocada leva a uma obra aberta, a ser completada pelo leitor. Mongólia segue esta vertente: a estranheza que perpassa os primeiros livros continua, só que ao meu ver colocada externamente: o viajante sente a estranheza da civilização e da cultura estranhas, da língua desconhecida, da Mongólia, ou dos índios; enquanto que, na minha opinião, os narradores e personagens dos primeiros livros sentem a estranheza dentro de si, e a partir desta estranheza subjetiva vem todo um clima que contamina mesmo as situações aparentemente simples e quotidianas (o jantar e o almoço de As Iniciais não seriam absolutamente estranhos, seriam eventos típicos de uma classe social, se não fossem vistos assim pelo narrador). O último, O Sol se põe em São Paulo, ao meu ver consegue integrar as duas vertentes; pois tem um tanto do “jornalístico”, da estranheza colocada "externamente" (no Japão, na cultura japonesa mesmo quando se é descendente dessa cultura) mas apresenta algumas imagens fortes de um mistério, de um mundo interior, que remetem aos primeiros livros. Uma imagem, para mim inesquecível, é a da casa japonesa escondida no meio dos prédios e construções de São Paulo, e que desaparece aparentemente da noite para o dia; como um sonho; como as oníricas cidades borgianas do Aberração, como a misteriosa caixinha de As Iniciais, como o sexo de Ana C. do Teatro. Enfim, continuo lendo B.C., esperando ansioso o próximo livro, que deve ser o situado em São Petersburgo como parte da coleção Amores Expressos. Mas aquele prazer intenso, para mim, com certeza vem mais dos seis livros iniciais do autor. Uma crítica que li (está em um dos links abaixo) diz que o sétimo livro, quando B.C. retornou ao formato de contos, foi recusado pela editora por estar sendo um pastiche dos livros anteriores; a partir desta recusa, o escritor teria feito uma mudança de rumo e partiu para o Nove Noites, com bons resultados (premiações, vendas, reedições em formato de massa). Não sei se é verdade, mas eu ADORARIA ler o livro de contos “recusado”. Com tudo isso em mente, fiz a minha proposta de 2008: reler os livros do Bernardo Carvalho, na sequencia; reler em meses os livros que li espaçadamente em mais de dezena de anos; comprovar se eles resistiam a esta segunda leitura (mais que resistiram, cresceram); testar uma hipótese que eu tinha formulado ao longo das leituras, de que os livros todos na verdade seriam um mesmo livro, uma epopéia interior em vários volumes, e que as histórias que se entrelaçavam em cada um dos livros na verdade se entrelaçariam em um corpo maior (minha conclusão é que sim). Ainda: ao reler, senti talvez o mesmo prazer da leitura inicial, ou um prazer renovado; eu havia esquecido muita coisa dos enredos, claro, mas o clima de cada um dos livros permaneceu comigo desde a primeira leitura, e se renovou com a releitura. Embora esteja considerando minha tarefa concluída, já que não pretendia reler, pelo menos nesta década, os livros da fase que chamei de “jornalística”, estou reavaliando o assunto, e vou relê-los sim (Nove Noites, Mongólia, O Sol se põe em São Paulo), até como testes para minhas hipóteses. E continuo esperando os novos livros. Sim, e o blog que o B.C. fez, meio a contragosto ("O horror confesso que eu tenho dos blogs..."), de São Petersburgo.
Quando eu era criança, meu pai comprou uma coleção com as obras completas de Monteiro Lobato, encadernada em verde com letras em prata.
Uma parte da coleção era a das obras adultas do escritor: Urupês, A Onda Verde, A Barca de Gleyre (este título me deixava intrigado, quem seria este Gleyre que tinha uma barca? além de tudo o livro era em dois "tomos", o que era mais estranho para mim ainda), O Presidente Negro...
Mas a parte que me importava, e à qual me atirei sofregamente, eram as obras para o público infantil e juvenil, que é afinal a obra mais conhecida do escritor: Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, Memórias da Emília, A Chave do Tamanho, Viagem ao Céu, O Saci... e alguns que, hoje, acho que devem ter ficado irremediavelmente datados no passado: O Poço do Visconde, Emília no País da Gramática (com todas as reformas ortográficas dos anos 1950 até está última...)
Lia sem parar, viajava no mundo maravilhoso criado pelo Lobato (é bom dizer que falo de uma época pré-Sítio do Picapau Amarelo na TV, assim a minha imaginação era totalmente livre para visualizar personagens, cenários, efeitos e edição do meu filme interior sobre o que lia).
Mas ao mesmo tempo em que avançava na leitura extraindo dela um prazer enorme, comecei a ficar triste ao ver que o estoque de livros era limitado e estava acabando, e com ele o meu prazer; e o meu ritmo de leitura se transformou em um deslizar entre os dois momentos: o de correr para o prazer e ao mesmo tempo o de regular este prazer para que demorasse o mais possível. Como no amor, como no sexo (eu ainda não sabia disso).
Em paralelo, fiz pesquisas para tentar prolongar o prazer: “Não tem uma outra coleção Monteiro Lobato, uma sequencia?” – “não, o escritor já morreu, e estas são, o nome diz, as obras completas”. Tentei partir para ler os livros de adultos e os achei intragáveis (provavelmente são mesmo, sabemos que o nacionalismo do escritor beirava a xenofobia, e conhecemos seu horror ao modernismo em artes, que culminou na célebre crítica “Paranóia ou mistificação” que conseguiu calar o vigor expressivo da Anita Malfatti)...
Hoje sei que, como amar de novo, repetidamente, a mesma pessoa, a releitura é uma forma de revisitar o prazer de uma leitura; mas a releitura exige tempo para um distanciamento e um certo esquecimento da memória, coisas impensáveis para uma criança. E sei também, a partir de Proust, que a memória do prazer pode ser tão forte como o próprio prazer, se armazenado e despertado de uma forma certa... Ao simplesmente me lembrar do prazer que eu sentia, este prazer é muito mais vívido para mim do que voltasse a ler os mesmos livros, que tanto prazer me deram em uma determinada época...
O conceito original é do evolucionista Julian Huxley, irmão do escritor Adous Huxley, e foi retomado por outros autores como Richard Dawkins. Em defesa do conceito de que a vida poderia surgir por acaso, Huxley argumentava que, desde que dispondo de tempo suficiente, um grupo de macacos datilografando aleatóriamente poderia eventualmente produzir como resultado as obras completas de Shakespeare. Um conceito semelhante está em Borges: a Biblioteca de Babel, infinita, com volumes onde as letras se dispõem aleatóriamente. Por ser infinita, esta Biblioteca contém livros com todas as combinações possíveis de letras e, portanto, contém todos os livros que foram ou que podem vir a ser escritos. (A Biblioteca de Borges me remete diretamente a trabalhos da pintora Maria Helena Vieira da Silva e também a uma tela de Miguel Barceló. E hoje este conceito é visto como uma "premonição" de Borges sobre a Internet, que seria a verdadeira Biblioteca-infinita). E o tema dos "macacos longevos" ficou em minha cabeça até que apareceu em uma série de desenhos que estou fazendo, em técnica mista (pastel oleoso, nanquim e aquarela), em meus caderninhos: escritas, garatujas, cores em interação e formas aleatórias se combinam e neste caos se vê sugestões de uma ordem.
Artista visual, estudou com Ivan Serpa, Anna Bella Geiger, Rubens Gerchman, John Nicholson, Chico Cunha, José Maria Dias da Cruz, Katie Van Scherpenberg. Exposições individuais na Galeria Macunaíma 1981 e na EAV Parque Lage 1982. Na década de 1980 participa com desenhos, Super8 e instalações, do Salão Nacional de Artes Plásticas, Salão Carioca, Mostra de Desenho Brasileiro do Paraná e da XVI Bienal de São Paulo 1981. Na década de 1990 trabalha com multimeios, design gráfico, webdesign e tecnologia da informação, retornando ao desenho e à pintura em 2003. Em 2004 participa do Salão de Paraty e de coletiva de pintura na EAV. Em 2005 e 2006 participa de coletiva na Galeria Gentil Carioca e de eventos com o Grupo Pyrata (Rio) nas barcas Rio-Niterói e no Parque Lage. Entre 2006 e 2010, em Brasília, se entediou e gerenciou um Projeto em Inteligência Artificial. No Rio em 2010, retoma os cursos no Parque Lage (João Magalhães, Malu Fatorelli, Suzana Queiroga, João Atanásio, Gianguido Bonfanti) e tem ateliê na antiga fábrica da Bhering. Trabalha como editor de livros sobre arte, a coleção Pensamento em Arte, da Editora Apicuri. E continua vampiro.