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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Obras completas (lendo Freud)

Como um leitor obsessivo desde o Thesouro da Juventude que ganhei com meus 4 ou 5 anos de idade, e ainda como um colecionador também obsessivo, um de meus objetos de desejo tinha que ser "Obras Completas". 
Quando eu não tinha muito dinheiro, ficava namorando as edições em papel bíblia da editora Aguilar, e uma de minhas primeiras ousadias quando comecei a trabalhar com um salário melhor foi comprar, em prestações, o Fernando Pessoa, obra poética completa, edição de 1977, tenho e leio até hoje. Abro agora, em 2010, e um cartão postal de 1982 marca a página 601, onde leio "The rain outside was cold in Hadrian's soul./The boy lay dead (...)"
O livreiro, com um indefinível sotaque meio espanhol, vendia as coleções da Aguilar, dicionários, coleções infantis; ia de sala em sala no prédio do Ministério da Fazenda, no centro do Rio; era antes do cheque-pré, eu acho, pois ele voltava todo o final de mês para cobrar a prestação e trazer novas tentações.
O Machado de Assis completo, também em papel bíblia da Aguilar, comprei após um bom namoro, em um sebo em Ipanema que não existe mais; edição de 1959, ainda perfeita a menos da ortografia um tanto desatualizada, sem problema, não embaça o texto maravilhoso. Outros da Aguilar, em feiras do livro, sebos ou então em gestos de audácia, parcelando no cartão: o Lima Barreto, o João Cabral, o Eça de Queiroz (em 4 volumes, um só de cartas!), o maravilhoso Augusto dos Anjos... mais recentemente, dois sonhos: o Guimarães Rosa e o teatro completo de Shakespeare que a Bárbara Heliodora vem traduzindo, em volumes parcimoniosamente entregues.
E uma lista de desejos que continua ativa: o Murilo Mendes, o teatro do Nélson Rodrigues... 
O Borges completo não é em papel bíblia mas é uma edição muito boa, comprei aos poucos, me desesperando pois achava que iam tirar de circulação ou esgotar a qualquer momento, e são só quatro volumes. O último (os Prefácios) comprei em um encontro que marquei pela internet, no Rio Sul. Enquanto esperava, entrei em uma livraria e lá estava, com desconto, o volume dos Prefácios do Borges. Como resistir? depois levei o livro para o jantar e para o motel, com medo de esquecê-lo no meio da noitada de sexo selvagem e beijos românticos. Nunca mais vi a figura, mas o livro está aqui, na minha estante, livros são muito melhores que paixões desenfreadas.
Outro objeto de desejo eu consegui, em uma tarde de sábado de tédio em Brasília, na Livraria Cultura do Park Shopping: os três volumes da série Mitológicas do Claude Lévi-Strauss ("O Cru e o Cozido", "Do Mel às Cinzas" e "A Origem dos Modos à Mesa"). Eu tinha que comprar, ou o ar seco do Planalto me mumificaria. Edições pequenas, já esgotadas; e Seu Cosac ainda nos deve o quarto volume da série, "O Homem Nu".
Neste meu quadro quase clínico de colecionador, que Freud deve certamente explicar, um dos objetos mais fortes de desejo para mim sempre foram as obras completas dele mesmo, Sigmund Freud.
Vi em vários sebos, avaliei, pensei até em comprar em espanhol pois era a melhor opção em termos de preço, era quase um projeto de casal pois neste época eu era metade de um casal (talvez a metade mais fraca pois depois fui deixado). Novamente solteiro, ter as obras completas de Freud passou a ser desejo só meu, ao mesmo tempo fácil (existe, em vários sebos, a um preço razoável) e dificil (sim, não é só ter, é preciso ler, claro, e eu imaginava que sem a outra metade  para me ajudar na leitura eu iria achar tudo muito dificil, um universo nublado e impenetrável como um pesadelo sem interpretação analítica).
Enfim, foi editada recentemente uma nova tradução das obras do Freud, diretamente do alemão pelo Paulo César de Souza, pela Companhia das Letras, os volumes estão sendo publicados aos poucos, um projeto gráfico simples e bonito, claro que comprei os três primeiros volumes já lançados.
E aí começa o desafio: vai enfeitar a estante para "um dia"? ou vou ler logo? ou tentar ler, uma leitura que deve ser dificilima, desistir?
Comecei pelo volume "azul", com escritos de 1911-1913, e caio logo no Caso Schreber, "observações psicanalíticas sobre um caso de paranóia relatado em autobiografia".
 Parece impenetrável, não é. Para minha surpresa, Ele, o Pai, escreve com a fluidez de um cronista de jornal, as ideias são expostas de forma clara, a linguagem é precisa e agradável, a postura não é arrogante, o texto é lido e entendido por mim, leigo em psi apesar dos anos que ralei deitado em divãs.
Há algumas lacunas, claro, coisas que talvez estejam mais bem explicadas em outros textos (eu chego lá), mas no geral a leitura é boa, é um pouco como ler um conto policial, pistas escondidas são decifradas, de uma forma muito cool.
Algumas coisas são totalmente datadas, afinal acho que no Terceiro Milênio não há mais mulheres com histeria, e pensar em desejos homosexuais criando paranóia é tão anacrônico como fraque e cartola; mas ler Freud absolutamente não é datado, como ler Proust também não é.
Sigo no volume "azul", ainda tenho para ler o "laranja" e o "verde" em casa, e comprarei e lerei os demais, à medida em que forem lançados, claro, até ter as Obras Completas em casa (e matar de inveja a metade do casal que se foi).
Pouco tempo depois, na abertura de uma exposição na Gávea, encontro uma amiga, artista plástica, com o marido, ele um psicanalista; os grupos se fazem e se desfazem com a "conversa de artistas" e o vinho branco, e eu conto para o marido de minha amiga a minha conquista: li um artigo inteiro do Freud e não achei difícil.
A conversa de pé de venissage rendeu, o analista (vamos chamá-lo, à maneira de S.F., de Sr. D.) concorda que muitos dos textos do Pai são fáceis de ler, mais ainda, gostosos de ler, são os textos que ele usava para divulgar suas ideias; alertou-me que vou esbarrar, nas Obras Completas, em textos mais difíceis, mais técnicos; mas que para o que eu persigo posso tranquilamente deixar estes de lado, seguir pelos caminhos mais fáceis e depois retornar aos mais áridos, ou não.
O Sr. D. concorda com a minha visão de que algumas coisas são datadas; ler Freud hoje é muito diferente do que foi lê-lo na época; o impacto de suas ideias foi imenso, mas elas foram aos poucos assimiladas; e hoje "tudo" no mundo reflete S.F., o que amortece um pouco a força do original. Impossível, hoje, pensar na vida sem ter incorporada a visão-Freud. da vida.
Acontece com todos os revolucionários, sua diluição é parte de sua vitória. Como Duchamp, hoje é impossível pensar arte como se pensava antes dos ready-made; mas ao mesmo tempo, ele, Duchamp, já se tornou "um dado", sua ação já está no mundo e qualquer garoto de primeiro ano da EBA já quer (já pode) ir muito além do ready-made.
Mas sobre minha observação de que não existem mais mulheres histéricas, o Sr. D. foi witty e preciso: "Jozias, existem sim, elas hoje só não desmaiam mais; elas detonam o cartão de crédito do marido". É verdade. Nada melhor do que conversar com quem entende.



quinta-feira, 17 de junho de 2010

Colecionando arte e esposas


Escrevi aqui no blog que a minha visita ao Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid, me trouxe curiosidade sobre o Barão e a Baronesa, cujos retratos, de um kitsch imponente, se destacavam no hall do Museu; um pouco como se no meio da coleção Gilberto Chateaubriand aparecesse um retrato do colecionador não feito por um Glauco Rodrigues e sim por um pintor de rua da Feira Hippie de Ipanema (ou de Montmartre, dá na mesma). 
Afinal, como uma pessoa que viveu cercado de obras-primas desde criança (o pai já era um grande colecionador), não se fez retratar por um grande artista contemporâneo, um Warhol, um Sutherland, ok, um Bacon ou um Freud pode ser demais, mas há alternativas não tão radicais. A Baronesa, em especial, uma perua, com os cachorrinhos poodle com lacinhos cor-de-rosa combinando com seu vestido, é um triunfo do kitsch.
Também me lembrava vagamente de ter lido sobre ligações do Barão com o nazismo, com o Brasil, um casamento com uma brasileira, será esta a do retrato? poxa, ela poderia ter contratado pelo menos o Albery... Minha companheira de viagem lembrava de mais detalhes, quem era a brasileira, e de um divórcio rumoroso ou uma disputa pela herança.
Enfim, os melhores amigos do homem são o Google, a Wikipedia e o whisky, não necessariamente nesta ordem; chegando no Rio fiz minha pesquisa básica sobre o Barão, para complementar meu post sobre Madrid, imaginava um ou dois parágrafos, mas o assunto rendeu e aqui vai em um post próprio.
As histórias que circundam o Barão Thyssen-Bornemisza, morto aos 81 anos de um ataque cardíaco, em 2002, e de sua coleção de arte que deu origem ao Museu, tem aspectos bem interessantes e que aprecerem na midia não só nos cadernos econômicos e culturais, mas também nas revistas sobre o jet-set e nos tablóides de escândalos e fofocas, com cenas de traições, processos e brigas familiares, e com um capítulo importante contado nas colunas sociais brasileiras.
Conhecido como Heini, o Barão veio de uma riqueza e título nobiliárquio recentes, embora as biografias apontem a família Thyssen com raízes alemãs antigas. O avô, August Thyssen, era um produtor rural alemão que, a partir de um negócio de cercas para galinheiros, construiu um império em aço, ferro e armamentos, rivalizando com os Krupp, e se tornando amigo do Kaiser; colecionador tardio, encomendou esculturas a Rodin. Já o filho mais velho, Fritz (tio de Heini), amigo de Goering e Hitler, tornou-se um defensor ardente do nazismo, apoiando e financiando este regime até que um desentendimento com Hitler o levou a um campo de concentração; com a vitória dos Aliados ele também foi preso, e terminou seus dias na Argentina.
O pai de Heini, Heinrich, deixou a Alemanha e se fixou na Hungria, casando-se com a filha de um nobre, o Barão Bornemisza; herdando (ou comprando, para terror dos heterodoxos seguidores do Almanaque de Gotha) o título do sogro. Em húngaro, Bornemisza significa "que não bebe vinho"; posteriormente, Heini brincava que deveria ter modificado o título para Wiznemisza ("que não bebe água"). É bom este Barão, e a história está só começando...
Com a tomada da Hungria pelo governo comunista, em 1919, o Barão Heinrich se mudou com a família  para a Holanda, onde ganhou fortunas, como banqueiro e armador; formando então uma grande coleção de obras de arte, que ficava sob a guarda do filho Heini.
Os biógrafos (não-autorizados, claro) de Heini dizem que sua infância foi muito solitária, apesar de ter três irmãos; foi criado por uma governanta alemã, que depois suicidou-se; e raramente via seus pais, que se divorciaram quando ele tinha 8 anos; ninguém contou a ele sobre o divórcio dos pais até seus 11 anos. Ah, os ricos...
Com a morte do pai em 1947, Heini herdou as empresas e o título, mas seus irmãos reivindicaram na justiça a partilha da coleção, o que o marcou muito. Ele depois passou anos recomprando a maioria das obras e também comprando muitas outras, expandindo o gosto focado em arte do passado da coleção paterna ("Meu pai considerava lixo qualquer pintura feita após o século XVIII", dizia Heini), e transformando-se em um dos colecionadores mais obsessivos e ecléticos, e também muito preocupado em que sua coleção não se dispersasse no futuro. Estimativas são que o Barão gastava cerca de 60 milhões de dólares anuais na compra de obras de arte, e declarava: "Gosto de pintura porque é um assunto que nunca rende conversas desagradáveis", bem ele nunca frequentou como artista uma escola de arte senão teria ouvido muitas conversas desagradáveis sobre pintura.
Tornou-se o segundo maior colecionador particular de arte, só perdendo no ranking para a Rainha da Inglaterra; mas ele observava que a "a Rainha talvez não fosse exatamente uma colecionadora".

Como colecionava obras de arte, o Barão também colecionava mulheres bonitas, em 5 casamentos (com divórcios crescentemente mais caros, afinal colecionar é uma obsessão crescente). Em 1946, casa-se com uma Princesa, Theresa de Lippe, e tiveram um filho, Georg Heinrich.

Em 1953 começa um caso com Nina Dyer, uma linda modelo inglesa, casando-se com ela em 1954 após o divórcio, para descobrir que Nina o traía com "um ator francês empobrecido" (segundo Danuza Leão, que, em seu livro "Quase Tudo" alega também ter sido paquerada por Heini (será?), o amante de Nina era Christian Marquand; entrega ainda Danuza que Marquand era amante de Marlon Brando; apaixonado, Brando batizou  seu primeiro filho com o nome de Christian). Enfim, Heini e Nina tiveram um divórcio ainda mais caro que o anterior; depois Nina casou-se (e também se divorciou) do Príncipe Sadruddin Aga Khan , irmão do Aga Khan IV, convertendo-se ao islanismo com o nome "Shirin", que significa "doçura", suicidando-se em 1965, tudo muito rápido como as bolhas de champagne que bebiam.

O Barão insiste nas modelos inglesas, casando-se em 1956 com Fiona Campbell-Walter, e um divórcio ainda mais caro, em 1964. Fiona depois se envolveu com um homem muito mais novo, Alexander, filho do armador Onassis, que morreu com 24 anos em um acidente de helicóptero.
Heini e Fiona tiveram dois filhos, FrancescaLorne Freiherr, que se converteu ao islamismo, não casou e é produtor/diretor de cinema). Já Francesca se casou muito bem, com Karl Habsburg-Lothringen, o herdeiro do extinto Império Austro-Húngaro, filho do Arquiduque Otto. Os avós de Karl, Karl I e Zita de Bourbon-Parma, foram os últimos Habsburgos reinantes, por pouco menos de 2 anos, até o final da Primeira Guerra, quando Karl I foi deposto (não abdicou, detalhe sutil); posteriormente Karl I foi beatificado (um passo antes de ser declarado santo) pelo Papa João Paulo II, em 2004; e o processo para beatificação de Zita também está correndo no Vaticano. Chiques, não? E outra conexão brasileira: o milagre atribuído a Karl I foi a cura, inexplicável pela ciência, das veias varicosas que tornavam inválida uma freira brasileira.

Mas a fase brasileira do Barão só começou em seguida, casando-se com Denise Shorto, riquíssima, frequentadora, com sua irmã Charlene Shorto, de todas as colunas sociais brasileiras e do jet-set internacional na época. Viveram juntos por 17 anos, com um filho (Alexander), até um divórcio muito mais caro e conflituoso, com acusações mútuas de sonegação (ele) e roubo de jóias de família (ela).

Uma fofoca interessante (traduzo livremente uma entrevista do colecionador e marchand Eugene V.Thaw, publicada na Architectural Digest em fevereiro de 2008, e que está na internet, clique aqui) é que "em algum estágio do casamento Denise tinha, com o consentimento do Barão, um amante, Franco Rapetti, que se tornou um grande fornecedor de obras de arte para Heini: pinturas de grandes mestres e do barroco. Ao mesmo tempo, as obras do período modernos eram adquiridas em NYC de marchand Andrew Crispo, que logo se tornou famoso de um modo negativo, envolvido em um caso de assassinato ligado a sadomasoquismo, conhecido como Máscara da Morte? E mesmo o Rappetti acadou caindo ou sendo jogado de um apartamento em Manhattan. Ele sabia demais, já que havia muita coisa envolvida na batalha por acesso ao Barão, marchands em amplas redes de intermediários e comissões super-lucrativas ..."

Outras histórias interessantes, para quem lia a Interview brasileira, são as que envolvem Charlene Shorto, irmã da baronesa Denise, e seu marido, o lindo modelo Cacá de Souza, e o estilista da haute-couture  Valentino Garavani. Cacá tinha 18 anos quando conheceu Valentino; companheiros inseparáveis; até que Cacá conhece Charlene e esta paixão falou mais alto, casou-se com a jovem linda (e rica, claro); as fotos do casal na praia de Ipanema, mesmo em preto e branco na antga Interview são inesquecíveis, o sorriso aberto de Cacá e a sensualidade loura de Charlene. Segundo publicado em revistas sobre o jet-set, Valentino deixou de falar com o antigo protegido, até que um telefonema insistente teve que ser atendido: era Cacá comunicando o nascimento de seu primeiro filho, Sean; e o convite para que Valentino fosse o padrinho da criança. Irresistível, vem o perdão, e Cacá e Charlene trabalham para o costureiro, Cacá é o relações-públicas, mesmo depois do divórcio Charlene (hoje Charlene de Ganay) continua tendo tarefas na maison de Valentino; e Valentino é o padrinho de Sean e de Anthony, os dois filhos do casal, e herdeiros de toda a fortuna do estilista. O amor é lindo, e todas as pessoas desta história são lindas, Cacá não é mais aquele jovem de sorriso aberto das fotos da Interview mas continua lindo em seus cabelos grisalhos; tem um sítio em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em uma Casa Vogue antiga tenho fotos do sítio, dele e de Sean e Anthony, dois belos rapazes.

E a história segue, estas histórias paralelas caberiam em um blog inteiro, assim volto ao Barão. Uma boa fonte para este underground do mercado de arte e do sadomasoquismo no jet-set são os números antigos da Vanity Fair. Sobre o crime da Máscara da Morte, alguns artigos na internet, clique aqui e aqui. E sobre a morte do Rappetti, um colunista do NYT que o conheceu bem (e que também detalha no artigo outras fofocas sobre o Barão e suas esposas) diz que teria sido um suicídio causado pelo excesso de cocaína, clique aqui.

Bom, em 1981 o Barão conhece uma antiga Miss Espanha 1961, Carmen Cervera, ou Tita, ex-mulher do ator Lex Barker, antigo Tarzan e um dos muitos (ao todo 7) ex-maridos de Lana Turner, a "Garota do Suéter", a inesquecível mulher fatal de The Postman Allways Rings Twice. Lex foi casado 5 vezes e estava noivo da futura 6a. esposa quando um enfarte fulminante o levou, caminhando nas ruas de NYC poucos dias depois de completar 54 anos, muito jovem e ainda charmoso.

Lex era um galã, alto e muito bonito, e Lana um símbolo sexual; um casal perfeito de Hollywood; mas o casamento  acaba quando Lana, com um revolver, expulsa Lex de casa; ele havia estuprado Cherryl Crane, filha de Lana, então com pouco mais de 12 anos; em uma sequencia de abusos que, segundo a autobiografia de Cherryl, se iniciara há algum tempo. Pobre Cherryl, poucos anos depois, com 14 anos, foi a vez dela usar uma arma, desta vez uma faca, e matar o gangster Johnny Stompanato, guarda-costas e amante de Lana, que, extremamente ciumento,  extorquia e espancava a atriz, ameaçando desfigurar seu rosto. Cherryl foi absolvida, posteriormente assumiu seu lesbianismo, trabalha como corretora de imóveis em Palm Springs e foi um apoio para Lana em seu período de decadência, devido principalmente ao alcoolismo da atriz. Ufa!

Em menos de 6 graus de separação, portanto, vamos do Barão Thyssen-Bornemisza a Johnny Stompanato e ao submundo de gangsters da California (o filme L.A. Confidential coloca Johnny Stemponato como um personagem secundário), como fomos do Barão a John Kennedy via Onassis.

Abro parênteses:
A teoria dos 6 graus de separação é muito interessante, e serve como base para os vários sites de relacionamento a partir do Orkut. Segundo esta teoria,  são necessárias no máximo seis "laços de amizade" para que duas pessoas, no mundo inteiro, estejam ligadas. Assim, A é amigo de B (1 grau), B é amigo de C (2 graus)... Se pegarmos duas pessoas quaisquer do Planeta Terra, elas podem ser ligadas em uma rede menor que 6 graus. 
Quaisquer pessoas, pensei agora em um exemplo meio louco, a Madonna (sim, a superstar) e a Dona Deusa, a auxiliar de minha mãe em Teresina, Piauí. Não me pergunte como seriam todas as redes possíveis, mas vou tentar uma delas:
Madonna  ---  Jesus Luz  ----  D.Christiane, mãe de Jesus Luz  ---  minha amiga Virgínia (sim, a mãe de Jesus Luz trabalhava em um salão de beleza em Ipanema como tinturista e cuidava da cor do cabelo de minha amiga e de muitas outras pessoas no Rio)  ---  eu  ---  minha mãe  --- Dona Deusa.
Fácil, exatamente nos 6 graus de separação, com possíveis simplificações: ir direto da Madonna para a sogra D.Christiane e de Virgínia para minha mãe, e chegamos a 4 graus de separação entre a Madonna e Dona Deusa. Faça a brincadeirinha, é engraçado.
Esta teoria inspirou uma peça e um filme muito interessantes. No filme, que se passa em NYC, um rapaz (interpretado pelo Will Smith) que se diz filho de Sidney Poitier, entra na vida de um casal rico, o marido é marchand, e a partir daí vai entrando na vida de pessoas da elite americana.
Eu tenho uma sub-teoria, a de que ao se analisar a elite, o jet-set, a realeza, o patriciado, em qualquer época; e se usar para os "graus de ligação" um conceito mais restrito, o de "parentesco de sangue ou sociedade em negócios ou conhecido no sentido bíblico" (veja que o conceito usado na teoria original é muito amplo, o que é "amigo" parece mais com "amigo virtual" ou apenas "conhecido"), as ligações, todas elas, se fazem em bem menos que 6 graus, talvez 4.
O jet-set é muito incestuoso, sempre foi, haja visto os Habsburgos, os Bourbons, o círculo em torno de Napoleão, e mesmo os Césares de Roma com o monte de Julias e Otávias.
Fecho os parênteses.

Com o casamento com Tita, Heini adota Borja, um filho que Tita teve como produção independente, complicando mais ainda sua sucessão. As relações entre o Barão e seus filhos se agravam a partir do casamento com Carmem, a quem a filha Francesca descreve como "a madrasta má". A partir de um derrame, Heini entrega o controle das empresas ao filho Georg; posteriormente o Barão e a Baronesa (na verdade a Baronesa, comandando o Barão já parcialmente inválido) acusam Georg de negligência nos negócios; a Baronesa até mesmo, como tentativa de tirar o controle dos negócios de Georg, alega que este não seria filho do Barão e sim de seu cunhado. Após uma longa disputa judicial, um acordo é assinado. 


Uma grande preocupação de Heini era a de não dispersar sua coleção, e para tal entra em negociações com várias instituições e governos. Inicialmente a Suíça, país onde morava e onde já estava a coleção; mas a proposta do governo suíço, para ele, foi insuficiente. A Disney acenou com a possibilidade de abrigar a coleção em Orlando, na Flórida, e os governos da França e da Alemanha entraram na disputa. Margaret Thatcher, na época primeira-ministra da Inglaterra, escreveu várias cartas ao Barão, informando-o de que investiria 220 milhões de dólares para erguer um museu em Londres, e o lobby inglês se completou com uma visita do príncipe Charles ao magnata. O barão declarou ter se divertido com o assédio, mas declinou gentilmente as propostas. 

Sua escolha finalmente foi pela Espanha, onde passou seus últimos anos de vida, e atendendo também ao desejo da Baronesa para se firmar socialmente de forma mais completa, como benemérita diretora de uma Fundação importante em seu país. O que a princípio seria uma doação acaba como uma cessão com custos; por cerca de 350 milhões de dólares, o governo espanhol arrendou 830 obras da coleção, para sediar a coleção reforma o antigo Palácio de Villahermosa, construído entre o final do século XVIII e o início do século XIX, em Madrid.  Mais tarde, outras peças da coleção Thyssen-Bornemisza ganharam exibição permanente num monastério medieval perto de Barcelona, no antigo Mosteiro de Pedralbes. E assim a coleção, como o Barão queria, ficou coesa e aberta para o público, que pode, como eu fiz, admirar as obras-primas em uma tarde ensolarada em Madrid.


Leia ainda: Obituário do Barão no Telegraph

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Do virtual ao real e de volta, mais uma vez

É uma tendência bem atual. Apesar, ou mesmo por causa, do sucesso de eventos do circuito tradicional de artes (galerias, leilões, feiras de arte), os artistas buscam novas alternativas para veicular seus trabalhos.
Uma destas iniciativas, no Rio, é o Projeto Acervo (já escrevi aqui no blog sobre este projeto algumas vezes), que foi inspiração para galerias comerciais em projetos com formato semelhante, como a Galeria Arte em Dobro, já na 3ª. edição de sua Coleção.
Outras iniciativas bem interessantes, e com bom retorno, estão baseadas na internet e nas redes de relacionamento, conceitos e realidades bem contemporâneas.
Um exemplo é o da Galeria Motor, uma galeria virtual de arte que, lançada no início de 2010, funciona acoplada ao site de compras Submarino, a partir de iniciativa da Galeria Nara Roesler (SP), com apoio de dez outras galerias do Rio e São Paulo. Na SP-arte esta galeria estava presente com um stand, com vendas, fazendo uma bem sucedida passagem do ciberespaço para o espaço real da feira. Mas a Motor não é, como vimos, uma iniciativa dos artistas e sim de empresas já consolidadas (o Submarino e as galerias) no sentido de busca de novos consumidores de arte, através da internet.
Já no Rio, a utilização das redes de relacionamento para veicular o trabalho de artistas e promover vendas de arte surgiu a partir da iniciativa dos próprios artistas, com a criação da FaceArte, que funciona como um “perfil” no Facebook. Os portfólios dos artistas ficam armazenados como álbuns do Facebook, a divulgação segue o formato de mensagens e eventos do site, e as vendas são negociadas por email.
Além das atividades de divulgação de obras e artistas, FaceArte também se mobiliza em situações de comoção (terremoto no Haiti, chuvas no Rio), na forma de “leilões” virtuais de trabalhos de arte com a renda revertida para as campanhas de doação.
E agora, FaceArte também faz uma passagem bem sucedida para o mundo real, com a exposição Formatos, que abriu ontem no Espaço Crânio, no Rio. É a chance de ver “ao vivo” as obras que estão expostas no espaço virtual do Facebook, conversar com os artistas e organizadores, e o público reagiu bem, enchendo a galeria e comprando. O sucesso no mundo real certamente vai alavancar a atuação virtual de FaceArte.
Utilizando sistemas pré-existentes (todo o software e infra-estrutura do Facebook, já disponível gratuitamente), sistemáticas próprias leves (contato com clientes por email, remessa de trabalhos por Sedex, captação de novos fornecedores/artistas e consumidores/colecionadores através da própria rede de relacionamento), e criando uma imagem virtual positiva (bom gosto, contemporaneidade, preocupação social), FaceArte pode ser descrito como um case de sucesso em e-commerce.
Apesar do crescimento e consolidação do mercado de arte no Brasil nas últimas décadas, ele ainda é muito fechado, com muito personalismo e jogos de poder e de interesses. Desta forma, estas iniciativas são importantes para os artistas que conseguem, sem entrar em guerra com as instituições, como era usual nos anos 1970, ampliar suas alternativas.



O link para FaceArte é: http://www.facebook.com/facearte
Fotos do vernissage da exposição estão no site Só Arte Contemporânea

domingo, 11 de outubro de 2009

Diários de Inhotim (3)


Domingo. Apesar da farra no jantar, o grupo acorda cedo, sabe que há muito para ver e tão pouco tempo. Nosso ônibus chega em Inhotim ao mesmo tempo que muitos outros carros, fila na bilheteria, e no decorrer do domingo vemos que a visitação é muito grande: famílias, jovens, idosos, namorados, crianças... de BH sim mas muitos de mais longe, uma atração turística, e isso é ótimo.
A primeira visita do dia é o pavilhão feito para a instalação da artista Doris Salcedo, Neither, uma recriação permanente de uma importante exposição da artista na Galeria White Cube, em Londres. Com referência nos poemas de Paul Celan, vítima dos nazistas, e pensada pela artista após uma visita a Auschwitz, a instalação aborda um contexto repressivo de campo de concentração que ainda existe em Guantanamo, por exemplo. Mas, ao transformar o white cube em grades que emergem das brancas paredes e se corporificam no que poderia ser uma saída, inexistente, a artista questiona também o próprio espaço expositivo e o circuito de arte.

Doug Aitken: Sound Pavilion, obra de 2009, uma das obras recentes do Centro Cultural. No ponto mais alto de Inhotim, um pavilhão circular em vidro (que me lembra imediatamente - e não só a mim, meu contemporâneo Fernando Cocchiarale teve o mesmo flash-back - o antigo Belvedere da Estrada Rio-Petrópolis) pousado sobre grandes rochas vermelhas, ferrosas, aparentemente soltas. Entramos e subimos por uma rampa em espiral, que nos leva ao centro do pavilhão, onde há um buraco no solo na direção do centro da Terra, com 202 metros de profundidade; acima deste buraco, outro buraco no teto nos mostra o céu. No fundo do buraco (as rochas soltas são como testemunhas do interior da incisão), microfones de alta sensibilidade captam diferentes freqüências de som, do som da Terra, e estes ruídos são amplificados para nós, espectadores; que ao mesmo tempo que ouvimos o som de profundis, olhamos uma paisagem de 360 graus de mata Atlântica e de montanhas de ferro; mas o vidro da pavilhão é polarizado, assim a visão do exterior só se torna nítida ao nos colocarmos em posição perpendicular, e isto também nos leva para o centro do pavilhão, para o caminho para o centro da terra, para a fonte do ruído que, como um mantra, nos fala de forças tectônicas, de uma natureza subterrânea que não se vê mas que pulsa, vibra, ronca, grita, como adormecida porém ameaçadora, sempre pronta a despertar em vulcões, em terremotos, em tragédias. E, no centro das perpendiculares que marcam o horizonte visível, com o eixo vertical que sobe sonoramente do centro da Terra rumo a céu, nos sentimos, humanos, finitos, também pulsantes, o aqui e agora, e parte deste Universo vivo.

Matthew Barney: Descendo, nos embrenhamos mais e mais na mata Atlântica. Saímos da estrada principal que nos levou ao pavilhão sonoro, seguimos por uma trilha, até que, no meio da mata, uma cúpula geodésica espelhada pousa sobre uma clareira construída. Violentamente construída: árvores arrancadas, terra, pedras vermelhas são o entorno da construção que é como um futuro-do-passado.  O criador das cúpulas geodésicas, Buckminster Fuller, teve o ápice de seu trabalho nos anos 1950-60; em 1967, na Exposição Mundial de Montreal, Canadá - eu estava lá, mas isso é outro post - o pavilhão norte-americano era uma enorme cúpula geodésica transparente, cruzada por um também futurista trenzinho aéreo monotrilho - então se imaginava que nos anos 2000 esta seria a paisagem urbana... depois disso a cúpula geodésica inspirou centenas de construções hippies e projetos científicos/ecológicos. Mas o pavilhão do Matthew Barney (“De Lama Lâmina”) não tem este clima meio hippie ao qual eu associo as cúpulas geodésicas: ele foi implantado, à força, no meio da mata Atlântica; mas ao mesmo tempo reflete a mata, a multiplica em seus espelhos triangulares; e também multiplica o espectador, trazendo-o, intimando-o a entrar. Dentro, um impacto: o habitante do pavilhão é um enorme trator; provavelmente o mesmo que criou a clareira, como um estupro: as rodas estão cobertas de barro seco, o mesmo barro avermelhado que vemos no exterior; e o trator traz em suas garras uma árvore, como as que arrancadas do solo; mas uma árvore branca, de um material plástico; que tem incrustada pedaços fálicos de serras, de armas, e também de tubos; e nos galhos mais altos, elementos como os da estrutura da cúpula; esta árvore mítica está presa pelas garras poderosas do trator; e por baixo do trator, como que atropelados ou nascentes, lâminas do mesmo plástico branco cortadas e empilhadas são como borboletas à espera de renascer. Envolvido pela cúpula espelhada, que tudo multiplica mas que também integra o espectador e a instalação ao entorno, a clareira na Mata; esmagado pelo trator, que é como um Alien predador; o espectador desta obra é totalmente participante de uma experiência de volta ao básico, às pulsões instintivas, à dualidade macho/fêmea, ao sexo como imposição e como recepção. Um lado dark, um lado heavy, um lado random, um lado green. Tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora. E mais claro ainda ao ver, mais tarde, em outro pavilhão do Centro Inhotim, o video do Matthew B., sobre o carro no Bloco do Oludum, com o Arto Lindsay. Tudo a ver. Ah, sim, e além de tudo, o artista é marido da Björk. Tudo mais ainda a ver.

Muitas obras estão nos jardins e assim vemos, debatemos sobre, entre outras, obras de Waltercio Caldas, Cildo Meireles (Inmensa), TungaDan Graham (Bisected triangle, Interior curve), Paul McCarthy (Boxhead), Simon Starling (The Mahogany Pavillion, um barco, veleiro, feito em mogno, invertido, preso ao chão "upside down"como um louco totem), Edgard de Souza (instalação com três esculturas em bronze, figuras masculinas em diferentes poses, feitas com base no corpo do artista e portanto auto-retratos sem rostos).


E, lindo, colorido, fantástico, à beira do lago, o penetrável do Hélio Oiticica é um marco na paisagem.
Visitamos a Galeria Mata, pavilhão com a exposição“Pontos de Vista”: A cube by Sol Lewitt photographed by Carol Huebner using nine different light sources and all their combinations front to back back to front forever, de Jonathan MonkAgassi, de Anri Sala, um video em loop com imagem congelada do tenista Agassi no exato momento anterior de rebater uma bola; Copo d’água,  CorreçõesDesdobrado, belas obras de Iran do Espírito Santo Fuegos de Artifício de Jorge Macchi, sutileza feita de sombras de pregos na parede e outras.

Dois pavilhões com grandes instalações do Tunga. Um deles, destacado à margem do lago, é o True Rouge, instalação em vermelho, que faz um contraponto em minha mente com o Desvio para o Vermelho, do Cildo Meireles. Tunga é uma das influências sobre a concepção de Inhotim, a partir de conversas com o artista, o milionário Bernardo Paz evoluiu de um colecionador de arte em geral para focar em arte contemporânea, no monumental e instalações, e para abrir sua coleção para o público.
Na Galeria Lago, o impacto se inicia com a catraca de Samson, de Chris Burden, seguindo com Cosmoroca 5 Hendrix War, de Hélio Oiticica e Neville D’Almeida e O Ignoto, de Artur Barrio, entre outros.
Na Galeria Marcenaria, o video De Lama Lâmina, do Matthew Barney, que deu origem à instalação com o trator, e La intimidad de la luz en St Ives, delicada instalação do artista Victor Grippo.

Finalmente, as centenas bolas prateadas em um espelho d'água entre tropicais folhas de inhame roxo (lemos que a recuperação desta desprezada planta rural para o paisagismo é obra do Burle Marx), a instalação Narcissus Garden, de Yayoi Kusama.
Vendo-me refletido nas muitas bolas prateadas, que também refletem as montanhas, o lago, a mata e as onipresentes obras de arte, penso na grandiosidade de tudo o que vi e aprendi nestes dois dias, estou cansado mas gratificado, e pretendo voltar muitas outras vezes.

sábado, 10 de outubro de 2009

Diários de Inhotim (2)

Sábado, saímos cedo de BH, rumo a Inhotim, em um ônibus. Não é uma excursão nem uma visita guiada, é um workshop promovido pela Dynamic Encounters, do Charles Watson, professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.  Além do Charles, outros ótimos professores: Fernando Cocchiarale, Frederico Carvalho, Pedro França e Eduardo Berliner; e o grupo de 38 pessoas - artistas, estudantes, publicitários, arquitetos, designers... O workshop na verdade começou ontem, no encontro do grupo para o jantar e discussões informais, entre bocados de comida mineira e colheradas de tentadoras sobremesas.
No caminho, visões bem rurais: rios cercados de lama pelas chuvas recentes (os deuses do tempo nos ajudam, o sol começa a brilhar e brilhará todo o final de semana), matas, montanhas, gado, pastagens, casas simples com cercas de garrafas pet, pessoas de bicicletas; Brumadinho é uma cidade bem pequena; a construção de uma ponte está em pleno trabalho; e nada indica nas redondezas, a menos de placas que sucintamente apontam: Inhotim 5km, que dentro daquela paisagem simplória se esconde o Centro Cultural que é dos 5 mais importantes centros mundiais de artes. Mundiais.
Charles explica a metodologia do workshop. Mesmo tentando uma visão geral, não será uma visita extensiva; vamos focar em alguns trabalhos, discuti-los; e também tentar ver o máximo, mas alguma coisa terá que ficar de fora. E os professores estão o tempo todo à disposição para perguntas, discussões, além das apresentações mais estruturadas, que em sua maioria são feitas pelo próprio Charles ou pelo Fred. As abordagens são bem diversas, e isto é enriquecedor.
O Instituto Inhotim se localiza em um vale, com lagos cercados por jardins feitos com base em conceitos de Burle Marx, rodeado por montanhas. As obras de arte se localizam pelos jardins ou agrupadas em pavilhões, as Galerias, ou os mais recentes pavilhões com obras de artes site-specific. A menos das instalações permanentes, apenas parte da coleção é exposta a cada momento, e a instituição conta com uma boa reserva técnica. Ah, sim, e os jardins são impecáveis.

Começamos pela Galeria Praça, com instalações de parede do Iran do Espírito Santo (paredes com os degradês de cinzas, como a da exposição na Galeria Artur Fidalgo, que comentei aqui no blog) e murais escultóricos nas paredes do pátio externo, de John AhearnRigoberto Torres (Abre a Porta e Rodoviária de Brumadinho). Há toda uma preocupação do Instituto Inhotim com o entorno, as comunidades vizinhas, que incluem até descendentes de quilombolas, e a proposta de inserção é muito importante: não só o emprego para os moradores vizinhos, mas a evolução desses, e isso se vê bem nas dezenas de monitores, moradores da região, muito bem preparados e interessados, que acompanham as obras e os grupos. Os murais dos artistas, como outras obras expostas, falam desta inserção: mostram cenas de Brumadinho, e foram feitas com a participação dos locais.
A primeira sala da Galeria, já um choque: uma belíssima instalação sonora de Janet Cardiff, Forty Part Motet, uma música do século XVI distribuída por quarenta caixas de som colocadas no nível do ouvido do espectador, em círculo; as vozes do coro se separam e se unem, os espectadores podem se sentar ao centro ou passear entre as fontes sonoras, que, com o som, produzem um espaço, um espaço de elevação. Em outro grupo, uma deficiente visual em êxtase com esta e outras instalações sonoras, me fazem pensar que é bom esta expansão, tão contemporânea, das artes visuais para artes sensoriais.
Em outras salas da mesma Galeria, objetos de  Alexandre da Cunha levam para Inhotim um pouco da "estética da gambiarra" das redondezas (como as cercas de garrafas pet); Nave Deusa, uma instalação do Ernesto Neto, com aromas; e uma belíssima instalação da Janine Antoni, Swoon, que coloca o espectador nos bastidores e dentro de um espetáculo de ballet, através de uma projeção de vídeo e jogos de espelho e de transparências, além de uma suntuosa cortina de veludo.

No pavilhão dedicado ao artista Cildo Meireles, duas instalações permanentes (a terceira, o magistral Desvio para o Vermelho, não está exposta no momento): Glove Trotter e Através. O impacto desta última é imenso, ao se caminhar sobre pedaços de vidro quebrado avançando pelo labirinto de obstáculos, é impossível não se emocionar com a força da instalação.
Em seguida, na Galeria Fonte, a exposição Lugares se inicia com um "caminhão de mudança" feito todo em madeira, do artista brasileiro Marepe; e em seguida, obras de Anri Sala (video-instalação Air-Cushioned Ride), Jorge Macchi (Cidade Luz, bonita instalação onde um mapa de Paris sobre uma mesa, iluminado de cima, "projeta" outro mapa maior colocado no chão sob a mesa, uma situação mágica), Rivane Neuenschwander & Cao Guimarães (com um video Word/World, que mostra o trabalho de formigas construindo/desconstruindo um mundo/palavras), Steve McQueen (Once upon a time, obra de 2002, coloca uma trilha sonora em uma projeção em slides de fotografias que a NASA mandou para o espaço à bordo da Voyager II, em 1977, com a intenção de contar sobre a vida na Terra para seres extraterrestres inteligentes, e mostra a ideologia por trás da escolha das imagens), Alessandro Pessoli (bonitas pinturas, uma escultura/instalação com um avião e pinturas, e uma animação em video) e Jennifer Allora & Guillermo Calzadilla (video There’s More Than One Way To Skin a Sheep).

O almoço é no restaurante do Inhotim, um bufê com comida deliciosa e ótima apresentação, uma festa para os olhos e para o paladar; há ainda opções de lanches, sanduíches e omeletes em coffee-shops ao longo dos pavilhões. Como nos museus do Primeiro Mundo, mas melhor ainda, pois a paisagem que se vê são os lindos jardins e a mata Atlântica...
À tarde, continuamos com uma discussão sobre o que é uma obra emblemática de Inhotim, Troca-troca, os palindrômicos fuscas do artista Jarbas Lopes, desta vez colocados em sequencia na beira do lago. O debate é sobre a obra, o processo, e como é importante para o artista a viagem trazendo os fuscas do Rio até Inhotim, como os incidentes do trajeto fazem parte da obra, a obra não é só o objeto e o entorno e sim o processo todo, e está em constante circulação pelo espaço.

E seguimos para o pavilhão dos trabalhos da pintora Adriana Varejão, uma maravilha de integração arte/arquitetura. Por um espelho d'água, com uma "ilha" com um banco "para meditação" revestido dos azulejos feitos pela pintora com imagens de plantas alucinógenas (exemplares de uma edição de 1000 com 51 azulejos à venda na lojinha na entrada do complexo por R$6.000,00), entra-se em uma sala onde se vê que a água "vem" de uma grande pintura, da série das Saunas, O Colecionador, que também como que dá as linhas para a construção; e Linda do Rosário, impressionante pintura/objeto, as paredes de azulejos em monótono e asséptico grid prendem, ocultam, revelam, pedaços de carne sangrenta que rompem as barreiras e se preparam para invadir o espaço, o mundo, o nosso mundo. No andar seguinte, Celacanto Provoca Maremoto, linda pintura/instalação com 184 "azulejões" (1,10x1,10m cada), são ondas barrocas, de azulejos azul-brancos, com os craquelês, colocados desordenadamente nas quatro paredes do pavilhão e espelhados pelo piso que também é branco brilhante como os azulejos, uma vertigem, o maremoto está dentro de nós.

Ainda, pinturas de teto visíveis pelos "fundos" da sala ou pelo vão que une os andares, representam plantas carnívoras.
No andar superior, um terraço que é um ponto de observação para as montanhas, com um banco revestido em azulejos da artista, desta vez desenhos de pássaros.
Uma ponte a partir deste terraço nos joga de novo em trilhas na mata, e seguimos para as novas instalações.
Em um platô com visão para Inhotim e para outro vale, Chris Burden e“Beam drop Inhotim”, na verdade a recriação de obra realizada originalmente em 1984 no Art Park, um parque de esculturas no Estado de Nova York, e destruída três anos depois. Em Inhotim, em 2008, sob orientação do artista, durante 12 horas um guindaste de 45 metros de altura lançou em uma poça de cimento fresco as 71 enormes vigas de aço, selecionadas em ferro-velhos da região, criando como que uma floresta/labirinto, um monumento aleatório, uma obra que fala do minério de ferro que tanto define a região e as origens do próprio Centro de Artes, de uma forma contemporânea e contestadora, uma obra forte e que marca profundamente a paisagem.

Retornando pela trilha, o que nos parecia parte da área de lazer de uma casa de fazenda, ao lado da churrasqueira, na verdade é uma instalação site-specific do artista Jorge Macchi, Piscina, de 2009, uma enorme agenda telefônica cujo índice alfabético se transforma em degraus de uma piscina.
Finalmente, um pavilhão com outra instalação sonora, permanente, impactante: O Assassinato dos Corvos, de Janet Cardiff e George Bures Miller. Inspirada na gravura de Goya, O Sono da Razão Produz Monstros, a instalação utiliza 98 auto-falantes, montados sobre cadeiras e nas paredes; ao centro, um antigo gramofone veicula a voz dos artistas, narrando sonhos apocalípticos; dos outros auto-falantes, brotam canções de ninar, marchas, musica eletrônica, textos recitados, composições musicais, tudo se combinando para um efeito de sonho.
E com este sonho nas mentes, retornamos a BH, para voltar amanhã, pois há muita coisa ainda para ver!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Um desenho do Vergara


Foi a primeira obra de arte que eu comprei, em 1971.
Ainda estava na Faculdade de Economia e já trabalhava com tecnologia, estagiário, no Centro do Rio, na Esplanada do Castelo, no imponente prédio do Ministério da Fazenda. Trabalhava com modelos matemáticos, na Assessoria Econômica do Gabinete do Ministro, bom, meu trabalho nada era de tão imponente assim, os brilhantes economistas que eram assessores tinham as ideias e eu os apoiava implementando os modelos em computadores que na época eram poderosos, mas que hoje equivalem a uma mísera fração deste notebook em que escrevo.
Era a época onde o "cara do computador" era meio o "gênio louco", mais informal que as outras opções profissionais para os economistas, e eu, 20 anos, meio hippie, cabelo grandão e barba, abracei este caminho, que me permitia flexibilidade de horário, manhãs nos pilotis da PUC, tardes no Pier de Ipanema e noites trabalhando. Como a informática era um mistério, os sacerdotes desta tecnologia futurista tinham salários altíssimos; mesmo eu, ainda estudante, minha bolsa era bem maior que a dos outros colegas, e ainda, como eu apoiava diversos economistas com trabalhos acadêmicos que tinham financiamento muitas vezes do exterior, eu era incluído nos projetos e recebia extras também significativos, tudo isso um garoto solteiro, com casa e mesada garantida pelos pais... uma vida boa, pagava minha Faculdade e ainda dava para outros luxos, a gasolina do fusquinha café-com-leite, os chopps com a turma no Amigo Fritz, de vez em quando um sapato novo no Spinelli, e ainda dava para uma reserva. Em paralelo, via exposições (quase chorei na exposição do Antonio Dias na Petit Galerie, ainda em Copacabana), frequentava o MAM, fazia minhas aulas com o Ivan Serpa.
Namorei uma menina, Priscila, cuja família colecionava arte, não esqueço os Krajcberg e os Volpi, e um coração enorme do Antonio Dias pendurado do teto e feito especialmente pelo artista, então um jovem artista, para a mãe da Priscila, D. Isabel.
Um amigo meu da Faculdade, Paulo, também estava muito bem, trabalhava na Bolsa de Valores e se beneficiava do primeiro boom da Bolsa, parte do Milagre Brasileiro que estava sendo articulado no Ministério do poderosíssimo Delfim Neto, e estava ganhando muito, com a valorização das ações.
Em uma conversa com o Paulo, ele falou sobre "diversificar, investindo em arte", bem o jargão da época; como ele sabia que eu gostava de arte, me pediu uma dica. Fui com ele ao MAM (bem antes ainda do incêndio), uma tarde de sol pela Pres. Antonio Carlos até o Aterro, e em uma pasta na lojinha do Museu escolhemos (eu escolhi) dois desenhos do Carlos Vergara.
Não me lembro do desenho que o Paulo comprou, não sei se ele ainda o tem, passou-se tanto tempo.
Mas o meu ainda está comigo, e me enche do mesmo prazer que tive ao retirá-lo da pasta escura na lojinha do MAM.
Vergara (com Gerchman, Antonio Dias e Roberto Magalhães) eram artistas jovens, e eu os conhecia pois era antenado, lia o JB, ia aos eventos no MAM, minha programação aos domingos à tarde era: visitar as exposições no MAM (o Salão da Bússula, Tropicalia, o Salão de Verão...), sessão de cinema de arte no MIS e depois um lanche no Bobs's da Pres.Wilson, eu e meu fusquinha...
Mas naquela tarde eu era poderoso, eu e Paulo éramos "avalistas" um do outro: se ele dizia que Arte seria um bom investimento para o futuro, eu estava tranquilo em gastar quase um mês de minha bolsa em um desenho; e se eu dizia que o Vergara era um artista jovem já consolidado e que só iria evoluir, o Paulo podia gastar o lucro de alguma ação naquele desenho que ele talvez nem entendesse direito.
Anos depois, um desenho da mesma série, com a mesma temática, na coleção do Gilberto Chateaubriand, foi publicado no pequeno livro da Funarte sobre o artista, isso me deu a certeza que tinha acertado.
Acertei mesmo. É um lindo desenho, e não me canso de olhá-lo, ele sempre me remete a um clima misterioso, de relações estranhas, de uma interrupção do tempo, onde a violência é uma ameaça presente, uma espada de Dâmocles, uma visão da época da ditadura militar, de momentos de terror que estão na obra de vários artistas da geração...

domingo, 23 de agosto de 2009

Lembrando Emil Forman


Início de 1973, eu frequentava o Centro de Pesquisa de Arte, na Rua Paul Redfern, em Ipanema, onde tive meu primeiro contato sério com a arte, nas aulas com o Ivan Serpa, em 1972. Em 1973 este mundo estava ruindo, com a doença do Ivan, que culminou em sua morte, em abril. Uma noite antes da aula a querida Jenny, discretamente como sempre agiu e viveu, me falou de um momento também difícil, e que a família do Emil estava se desfazendo de alguns desenhos dele, uns poucos, apenas para pessoas especiais que poderiam curtir o trabalho... Forço a memória, era logo depois do Carnaval, apenas três ou quatro pequenos desenhos em uma pasta, e as instruções eram estas: "discrição" e "pessoas especiais", já que o Emil não queria vender seus trabalhos; assim pelo menos a família teria mais possibilidade de que depois ele aprovasse o que fora feito neste momento tão difícil.


O desenho que escolhi, uma sutil intervenção com lápis de cor vermelho alaranjado em papel antigo, cheio de marcas do tempo; para ser visto sem um cima/baixo fixo (quatro pequenas assinaturas nos quatro lados do papel marcam esta volatilidade). O tema: nuvens? pedras? um mistério, formas levemente orgânicas em suspensão, em atração e repulsão, em um espaço marcado pelas manchas do tempo no papel antigo.

Nas aulas do Ivan o Emil sempre chegava tarde. Muito jovem, tinha então 20 anos, mas já a personalidade forte e o trabalho definido; muito branco, louro, alto, sempre com roupas escuras; tom de voz baixo, porém seguro, sem timidez; uma suavidade, uma certa aloofness que sempre foi sua característica; mas sob a suavidade estava uma pessoa forte, determinada, precocemente maduro; vindo de um debacle de uma família tradicional, muito rica, uma aristocracia carioca que muito perdera nas mudanças da economia na década. A aula estava pelo meio quando ele chegava, com uma pastinha debaixo do braço; o Ivan perguntava, "trabalhou, Emil?" ele sorria como que envergonhado e dizia, "fiz uns desenhos de ônibus", abria a pasta e mostrava dezenas e dezenas de desenhos feitos com canetas hidrográficas, possivelmente criados em um banco do fundo de um ônibus que o traria da Praia do Flamengo a Ipanema; e os desenhos eram as mesmas formas, nuvens? pedras? só que em um tratamento mais gestual (como os desenhos feitos depois em NYC que são uma parte mais conhecida da obra do artista); os desenhos passavam de mão em mão, um silêncio reverente se fazia, e o Ivan aprovava; um dia alguém falou, meio sério meio boutade, que as formas seriam "desenhos de cocô"; se esta fosse realmente a temática, seria uma antecipação em mais de 30 anos ao Copromanta Jonas da Patrícia Melo.
Enfim, naquela noite escolhi o desenho. Após a convalescença do Emil, conversei com ele sobre o desenho que estava comigo, sobre o mistério das formas, a poesia do lápis de cor suave sobre o papel gasto, as alternativas para exibi-lo; reciclei uma moldura antiga, discreta; e ele achou que estava bom.
No decorrer de 1973 nossa amizade se estreitou, depois o Emil foi morar em Paris, depois em NYC, e em uma época onde não havia email, voip, facebook, nosso contato continuou intenso porém esporádico. Tenho até hoje comigo pequenos desenhos (um lindo caju em uma folha de caderneta de anotações e outros), objetos (fotos ready-made), um envelope onde fizemos em lápis de cor um trabalho conjunto (um cadavre-exquis)... e principalmente lembranças, boas lembranças, fortes lembranças...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Nova edição do Projeto Acervo


Leo Videla promove a inauguração, no próximo dia 22, um sábado, na Rua Visconde de Caravelas, da nova edição do Projeto Acervo, em paralelo a uma individual de Leonardo Tepedino.
São estes os artistas que participam desta edição do Projeto: Brígida Baltar, Cadu Costa, Gabriela Machado, Gisele Camargo, James Kudo, Leonardo Videla, Luiza Baldan, Marcos Chaves, Rafael Alonso e Vicente de Mello. Como das edições anteiores, um time de primeira.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Uma "peça" da Coleção Sérgio e Hacilda Fadel



Como notícia já não é novidade, mas não custa lembrar, para não ficar esquecida no monte de novos escândalos que aparecem a cada dia.
Sérgio e Hacilda Fadel acumularam uma espetacular coleção de arte brasileira, com cerca de 1.500 peças, do início do século XIX aos dias de hoje. A coleção foi apresentada ao público em exposição no CCBB, em 2002, e também através de livros e catálogos.

A filha do casal, a advogada Marta, a caçula, que nas matérias da Veja à época da exposição do CCBB foi apresentada como "a grande conselheira do pai no que diz respeito a novas aquisições" e como ela mesma, com o marido, filho do senador e agora Ministro Edison Lobão, grandes colecionadores (as matérias não falam sobre o perfil da coleção do jovem casal).
Pois este início de julho foi divulgado que, entre os 663 atos secretos do Senado está a nomeação da advogada Marta, um mês depois de seu casamento, para um cargo de assessora no gabinete do sogro, então Senador; o gabinete fica em Brasília e a advogada mora e tem seus negócios no Rio, portanto imagina-se que a frequencia ao local do trabalho deve ter sido bem baixa nos 16 meses em que ficou recebendo o polpudo salário, que se origina dos impostos pagos por toda a população brasileira. Polpudo para os padrões médios desta população mas não certamente para a advogada e sua família.

Bom, eu pelo menos gostaria de ver uma declaração coerente destes colecionadores, dizendo que fizeram tudo por amor à arte, e que precisavam deste salário de funcionária fantasma para comprar quem sabe, um Antonio Dias, um Vergara ou um Krajcberg que absolutamente "estava faltando" na coleção... Se fosse assim, eu até "entenderia" a situação, como entenderia a situação de mãe faminta que rouba um pão para alimentar seu filho ("entender", claro, não significa que eu "validaria" os atos, é apenas um entendimento da motivação para uma ação eticamente errada). Custa-me crer que não foi isso, e que o jovem casal da elite precisava receber este salário de fantasma para complementar um orçamento... assim, sem motivação, o emprego fantasma passa a ser apenas mais uma, entre tantas, demonstração da arrogância do patriciado que vem da sensação ou certeza de impunidade, uma "peça" de anti-ética que mancha a estética das obras de arte da coleção.
E sobre o Senado? já andou pela midia um movimento para simplesmente extingui-lo, acabar com o princípio bicameral que é utilizado em muitos outros países mas que não em todos. Sem analisar a fundo a questão, penso que eu hoje com certeza assinaria uma campanha neste teor.
Veja mais detalhes e mais sobre os escândalos do Senado.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"Projeto Acervo"


A new edition of Projeto Acervo, curated by artist Leonardo Videla. The Project aims to reach new collectors of brazilian contemporary art. In each edition of Acervo, a collector gets, for a fixed price, 10 works (not multiples) of artists who participated in the project, mixing young artists with artists already consolidated in brazilian art market.
This edition will be shown on June 15, in Bar do Mineiro, in bucolic Santa Teresa, Rio de Janeiro. Bar do Mineiro is a special bar and restaurant, and also a special place for the visual arts, as his owner is also an art collector and has a huge collection of paintings of Volpi, with whom he has a friend.
The artists on this edition of Acervo are: Arjan Martins, Alexandre Vogler, Beth Jobim, Cadu Costa, Gustavo Speridião, Gabriela Machado, Gisele Camargo, James Kudo, Leonardo Videla e Raul Mourão.

Projeto Acervo, convite


Este é o convite para a nova edição do Projeto Acervo, a inauguração será no Bar do Mineiro, em Santa Teresa, um local tradicionalmente ligado às artes (o dono do bar é talvez o maior colecionador particular de Volpi), na próxima 2a.feira dia 15. E o curador, o artista Leo Videla, escalou um time de primeira, participam os artistas: Arjan Martins, Alexandre Vogler, Beth Jobim, Cadu Costa, Gustavo Speridião, Gabriela Machado, Gisele Camargo, James Kudo, Leonardo Videla e Raul Mourão.

sábado, 11 de abril de 2009

Colecionadores, consumismos e compulsões


No Rio, vejo os jornais velhos que estão me esperando em uma pilha que não para de crescer, é um trabalho de um Sísifo pós-moderno; eu leio o jornal todos os dias pela internet, onde quer que eu esteja; mas mantenho no Rio a assinatura que me coloca, fisicamente, os jornais de minha cidade, como um prazer e uma obrigação (tenho medo que a pilha, precariamente colocada sobre uma velha cadeira do Philippe Starck, caia ou, pior, invada a sala e o apartamento todo).
Uma taça de vinho, uma torta de bacalhau e em uma Revista O Globo um tanto antiga, de 15 de março, duas matérias me chamam a atenção e servem de material para o blog.
A primeira, A Nova Arte, coloca para os milhões de leitores da grande midia a tendência que tenho acompanhado e explicitado no blog: novas alternativas ao circuito de arte, como o Projeto Acervo, a exposição recente da galeria Arte em Dobro, os Clubes de Colecionadores dos MAM (Rio e SP), que ampliam o circuito possibilitando aos interessados a aquisição de obras de arte (múltiplos e, no Projeto Acervo, obras únicas), a preços/condições mais em conta; este grupo de novos colecionadores fortalece o circuito; e amplia o circuito além do grupo dos grandes colecionadores e colecionadores institucionais; algo que já existe nos mercados mais consolidados, USA e Europa, e que no Brasil se iniciou na fase do chamado "fastígio da gravura" nos anos 1960, com ressurgências nas serigrafias e litografias dos anos 1970 e a sempre tentativa de fazer o mesmo com a fotografia em tiragem assinada.
A diferença, acho eu, da tendência moderna para as experiências anteriores, é que antes se partia para "vamos multiplicar a oferta" (centenas de litos do Volpi com a aura da assinatura do artista "equivaleriam" nesta equação a uma única tela do mestre?); e agora se parte para "vamos multiplicar a demanda", ou seja, criar novos mercados, para múltiplos, obras únicas, fotografias, videos, o que seja, importante é abrir novas frentes, trazer novos consumidores de arte para o mercado, para o circuito. Ao meu ver esta nova estratégia é mais eficaz que a anterior, e a matéria da revista mostra: o publicitário que foi o primeiro colecionador do Projeto Acervo e que em 6 anos comprou 70 obras de arte (parabéns pelos Felipe Barbosa, são demais!).
A outra matéria, páginas adiante, e chamada na capa, é sobre o consumismo: "em plena crise financeira, histórias de cariocas que lutam para deixar de comprar compulsivamente". São histórias de consumistas compulsivos, alguns famosos (Preta Gil com foto ninando sua maravilhosa bolsa Louis Vuitton com design do street artist Stephen Sprouse , adoro; a escritora Maria Carmem Barbosa e seu vestido vintage do Georges Henri...) outros anonimos (a professora de dança que é viciada em produtos de papelaria...).
Em meio ao texto descrevendo uma "patricinha", Alexia Schultz Wenk, moradora do Jardim Pernambuco, lugar exclusivo de casas de ricos no Leblon, compradora compulsiva de grifes como Prada e Balenciaga a preços "em conta" em brechós, pontas de estoque e liquidações em NYC (adoro!), descobre-se o link entre as matérias: Alexia "confessa a sua nova mania: comprar obras de arte. A mais recente paixão é um 'Lula na caixa', de Raul Mourão". O ciclo se fecha.
Outra taça de vinho, branco, harmonizando com o lindo sábado de sol e não com o bacalhau, e penso. Haverá algo em comum entre isso tudo, entre o colecionador de obras de arte, a consumista de sapatos, de objetos de papelarias ou de caríssimas bolsas de grife?
A palavra chave é (read my lips) o.b.s.e.s.s.ã.o. Ela motiva os colecionadores, as crianças que não dormem até fechar o album com aquela figurinha dificil, os adultos que compram sem parar perfumes, sapatos, bolsas, ações, imóveis... e também os adultos colecionadores de obras de arte...
Eu poderia estar roubando e estou aqui neste ônibus vendendo balas Halls... Eu poderia estar comprando Ferraris e estou aqui comprando Frans Hals...
Bom, nada contra, de verdade, eu também um obsessivo. Falei no blog sobre minha relação com a compra de uma obra de arte, a partir de um diálogo com o pintor Álvaro Seixas ("por que você comprou minha pintura?"). E é importante que se agreguem novos "obsessivos" ao circuito, que (como eu) não se contentam com ter só um trabalho do artista, queiram ter um de cada fase, depois queiram ter um de cada fase e vários das melhores fases etc etc etc... Além disso tudo, um toque básico: os sapatos e bolsas velhas podem ser revendidos etc. mas dificilmente terão valor agregado; enquanto que, no longo prazo, para quem escolhe bem, as obras de arte terão valorização constante e em alguns casos (raros, é claro) exponencial.
No lançamento do catálogo da exposição do Rubem Grilo, na Caixa Cultural, encontrei os colecionadores George e Monica Kormis, meus contemporâneos do curso de Economia na PUC no início dos anos 1970, e hoje importantes colecionadores de arte, com uma coleção voltada para a gravura brasileira que tem sido objeto de várias matérias e exposições, a melhor a da própria Caixa Cultural, em 2008.
Na conversa, George me relembrou uma situação que eu mais ou menos havia esquecido: no início dos anos 1980 Franco Terranova teve que fechar a Petit Galerie no espaço da Rua Barão da Torre (um espaço maravilhoso de exposições e também, nos andares de cima, onde Rossella Terranova fazia as suas fantásticas aulas de alongamento com dança e que eu tive a felicidade de fazer e me sentir alongando e descobrindo pedaços adormecidos do meu corpo); e fez isso com um "Leilão de Parede" do seu acervo: os trabalhos ficavam expostos e os compradores davam seus lances escrevendo em papéis fixados na parede ao lado de cada trabalho; uma experiência engraçada pois subvertia o paradigma dos lances sequenciais dos leilões tradicionais, ao invés dos lances se sucederem no tempo, se sucediam no espaço, até o momento do fechamento, previamente definido, do leilão.
O acervo do leilão era o máximo, imagine um galerista que esteve com sua Petit Galerie ao lado de todo o movimento de artes nos anos 1960, 70, 80; que trouxe muitos artistas de fora, e que abriu espaço para muitos artistas brasileiros que se firmaram internacionalmente. Tudo lá, os internacionais e brasileiros consolidados a preços altos, mas também boas opções a preços adequados para jovens colecionadores...
Enfim, uma hora destas estamos eu e George Kormis disputando algumas peças, conversamos, combinamos não competir entre nós, dividimos os interesses, fizemos nossos lances, e o leilão se fecha.
Hoje, 20 ou mais anos depois, ao conversarmos, George lembra com detalhes a peça que ele "perdeu" para mim (um lindo Antonio Manuel, um trabalho da série dos flans de jornal com intereferências de desenho, pintura e colagem, cinco cenas de estudantes apanhando da polícia). Mas a que ele levou, á época, deve ter parecido a ele a mais acertada, uma linda pintura sobre papel, grande, do José Roberto Aguilar; que provavelmente ele não terá mais, já que ele e Monica optaram acertadamente por focar sua coleção.
Hoje, tanto tempo depois, George Kormis lembra do Antonio Manuel que não comprou, e me pergunta: se eu ainda tenho o trabalho; e se um dia eu quiser me desfazer dele, se eu consideraria dar prioridade a vendê-lo a ele.
Meio surpreso (gosto do trabalho, sim, mas nem me lembrava muito da situação em que o comprei), demoro um tempo até entender. George lembra com detalhes (mais que eu), descreve o trabalho que ele não vê há 20 e poucos anos, e que teria um lugar em sua coleção focada em gravuras brasileiras, por mostrar, no caso, a utilização da técnica de gravura associada a intereferências.
Pois, diz George, "as pessoas tendem a só pensar em gravura para a reprodução exata, a multiplicação de clones, todos iguais; na verdade se o artista usa a reprodutibilidade e interfere sobre ela (como se se colocasse, por exemplo, um brinco em um Goeldi), não deixa de ser uma gravura, e portanto está dentro do foco de nossa coleção."
Registro o interesse do colecionador sobre a obra que está comigo; e penso, em casa, sobre o assunto.
Sobre a memória do colecionador, que faz com que o George, mais de 20 anos depois, lembre até com mais detalhes que eu, que vejo em meu dia a dia, uma peça que ele "perdeu" e que poderia estar na coleção dele; uma visão atual, pois à época ele certamente não imaginava ainda para onde iria sua coleção, e como aquela obra se encaixaria melhor na sua coleção 20 anos depois do que a obra que ele escolheu.
A memória, o desejo, de isso somos feitos, os colecionadores, as crianças que conquistam suas figurinhas "no bafo", os adultos que perseguem sem cansaço um ideal de coleção completa. As coleções que crescem, tomam vida própria, conseguem uma coesão e uma coerência; ou as que fluem como mato, sem outra coerência que o prazer de colecionar. A ideal, o mito de completar uma coleção; como aquelas figurinhas difíceis dos álbuns de infância, que tinham seu valor multiplicado, o prazer de abrir um envelope e encontrar, entre as fáceis, uma tal figurinha difícil. E completar uma coleção que nunca se completa, pois colecionar é viver, é evitar a morte, e uma vida nunca está completa.