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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Os Salões de Arte e os novos Novíssimos

Uma festa, a abertura dos Novíssimos 2010, na Galeria do Ibeu, em Copacabana, Rio. Adoro Copacabana, o prédio onde está o Ibeu é um clássico, a exposição é muito boa, muita gente no vernissage, e eu, o inquieto olheiro, não consigo desviar o foco dos bons trabalhos mostrados para viajar no passado.
A exposição dos Novíssimos está impecável, as premiações foram totalmente acertadas: Daniel Lanes é o premiado que fará uma individual na Galeria em 2011, e Rafael Adorján uma menção honrosa, estraá em um evento de fotografia que a Galeria do Ibeu programa também para 2011.
Muitos outros artistas bons, muitos amigos, outros que conheci ali mesmo; uma alegria especial para mim, a maravilhosa pintura da Danielle Carcav, tão admirada, após a exposição virá para minha coleção, eu poderei olhar para aquelas florações cor-de-rosa até o final dos meus dias. Enfim, o artista M.N. (também lá, com lindas pinturas) diz que eu tenho um toque de Midas, será?
Mas aqui não quero falar sobre os Novíssimos e sim sobre os Salões de Arte, uma instituição cada vez mais anacrônica (sua irrelevância já constatada por Marcel Duchamp com a Fonte). Uma expoaição como o Novíssimos mostra uma alternativa para um Salão do século XXI; outras alternativas existem; mas a questão básica é: inserção dos novos artistas no circuito.
Antigamente, muito antigamente, a unica maneira de um jovem artista entrar no circuito de artes no Brasil era através da participação em Salões.

Nem falo de uma época pré-histórica, pré-anos 1950-60, dos Salões de Belas Artes, que estavam intimamente atrelados ao establishment: professores eram jurados e os alunos que se destacavam, talvez não só pela qualidade em seguir os parâmetros da Academia mas também pela cordialidade e outros critérios pessoais, recebiam os prêmios, o maior dos quais as Viagens ao Exterior, aí entendido como Paris.

Falo dos anos 1970, quando o Salão de Belas Artes foi expurgado do academicismo e se transformou, por lei federal, no Salão Nacional de Artes. Do Salão Carioca, da Prefeitura do Rio.
E também de Salões da iniciativa privada, como o Salão da Bússula, patrocinado por uma empresa de publicidade cuja logomarca era uma bússula (coisa tão pré-design). Dos Salões de Verão patrocinados pelo então grande Jornal do Brasil; em um deles o jovem artista Antonio Manoel se inscreveu, ele, seu corpo, como obra; a proposta era que o prêmio de aquisição significaria que o MAM, beneficiário das obras adquiridas, deveria prover a subsistência do artista, como obra, pelo resto de sua vida; na abertura do Salão o artista ficou nu no Museu; as fotos são emblemáticas; e em uma época em que ainda não se falava, no Brasil, de performance, e onde a repressão era sufocante, não só a repressão da ditadura como a repressão sexual de uma classe média pré-liberação sexual.
Um pouco mais tarde, ainda anos 1970, quando a maioria dos artistas no Brasil estava entregue ao sistema (o boom da Bolsa incentivado pelo Delfim Neto criou uma bolha de galerias de arte em lugares nobres do Rio e São Paulo), um grupo de artistas no Rio começa a questionar o circuito de artes.
No Rio, um dos Salões preparados com toda a pompa pelo mesmo Jornal do Brasil foi boicotado pelos artistas, um manifesto com assinaturas dos artistas foi distribuído aos convidados, à burguesia que frequentava as festas da Condessa Pereira Carneiro, aos intelectuais que contestavam a ditadura mas que não viam a ditadura do circuito de artes. Minha assinatura está lá, neste manifesto, ao lado dos então também jovens artistas Paulo Herkenhoff e Fernando Cocchiarale, tenho a documentação guardada em algum armário aqui em casa, se os cupins não comeram.
Como o fogo comeu o MAM em 1978. As dores do parto do moderno gerando o contemporâneo e do contemporâneo matando em lenta agonia o moderno.
Sim, todos os Salões que citei eram no Rio de Janeiro. São Paulo era o templo dos consagrados, as Bienais; mas para os jovens artistas a entrada no circuito eram os Salões no Rio. Uma unica exceção, o Paraná, com uma política cultural própria, e bons Salões e boas mostras temáticas, como as mostras de desenhos, muito valorizado na época, mesclando artistas convidados e artistas selecionados.
No final desta década e início dos anos 1980 a Funarte começa a incentivar a descentralização: exposições itinerantes, salões em pequenas cidades, mas ainda um movimento tímido, tudo muito distante e difícil. Um projeto da Funarte, o Projeto Arco-Íris (sem segundas intenções, na época o rainbow ainda não tinha sido apropriado como símbolo do movimento gay) levou trabalhos de uma meia dúzia de jovens artistas, eu estava lá com 3 ou 4 aquarelas, em lugares como Itajubá, Teresina e Belém; recebemos depois clipping dos jornais locais que exaltavam os artistas como redentores da cultura local; em Itajubá eu fui, com o Chico Fortunato, e fomos recebidos com banda de música e todas as honras de visitantes ilustres.
Participar de um salão nesta época era muito complicado, em termos de logística. Fotos de trabalhos com qualidade eram caras, em preto e branco, coloridas então totalmente fora do orçamento de um artista jovem. Assim, você se inscrevia e tinha que mandar, na inscrição, os trabalhos, físicos, com moldura. Se o Salão era no Rio, tudo bem, você podia pegar um ônibus até o local da inscrição carregando aquela tralha; os trabalhos não eram avaliados a partir do dossiê (na verdade o dossiê era apenas o currículo e as fichas de inscrição) e sim "ao vivo"; e os trabalhos rejeitados eram "jogados" em um porão com a humilhante letra "R" em vermelho no verso; e lá você ia ter que resgatá-los, voltando de ônibus com eles, o peso das letras "R" era de toneladas.
Acidentes: uma pintora, E.S., minha namorada na época, foi aceita em um Salão de Verão com uma bonita pintura. Na semana da montagem do Salão, o crítico Roberto Pontual liga para ela, totalmente fora de si; nos trabalhos de montagem, outro trabalho, pesado, caiu sobre a pintura dela e cortou a tela; três cortes grandes, profundos; as opções eram retirá-la do Salão; ou ela refazer a tela. Disciplinada, ela repintou a obra; como era uma pintura mais conceitual, foi possível; a tela nova foi exposta e ganhou um prêmio de aquisição; deve estar nos subterrâneos do MAM; a original, um Fontana-like, está comigo (se os cupins não comeram).
Tudo isto que escrevi é um preâmbulo para dizer de como hoje o contexto está diferente.
Acabaram-se totalmente os Salões Nacionais. Os salões regionais e locais hoje tem uma programação intensa, uma consequencia das leis de incentivo à cultura e da política de descentralização cultural do Ministério da Cultura, que pode ter seus excessos (supervalorizar o regional em detrimento da contemporaneidade) mas que significa descentralização do fluxo de recursos.
Ao mesmo tempo, os salões regionais/locais deixam de ser provincianos, pois as novas tecnologias facilitam a inscrição de artistas de todo o país. Para participar em um salão no Pará, por exemplo, hoje basta mandar o dossiê, por email ou Sedex; nos anos 1970-80 eu teria que mandar três trabalhos, com moldura, vidro; pesados, pela Varig-Cargas, para o Pará, um custo alto; e que poderiam ser recusados (frete de retorno a cobrar). Para mim, na época, participar em salões fora do Rio só como artista convidado, e assim mesmo só em alguns, os mais conceituados.
Então, hoje, temos para os artistas jovens um circuito intenso de salões pelo Brasil afora; e nenhum salão no centro irradiador de cultura que é, ainda, o Rio de Janeiro.
Pensei nisso tudo entre chopps e bolinhos de bacalhau na velha Adega Pérola, saindo da abertura da exposição Novíssimos e esperando a hora de entrar no Fosfobox para a festa do Saulo Laudares, desta vez com o artista convidado Heleno Bernardi. Minha madeleine foram os bolinhos de bacalhau, me levaram por um breve momento aos anos 1970 (não fosse a visão do fantasma de um antigo garoto-prodígio, precoce autor de uma peça de sucesso e hoje, trôpego em suas muletas, um lobisomem pelas madrugadas de Copacabana), e me trouxeram de volta a uma atualidade bem diferente.
Melhor ou pior, não dá para comparar, diferente; a tecnologia certamente facilitou a vida, mas abriu novos desafios. No final das contas, a instituição "Salão de Arte" está aí, mais viva que nunca, e ninguém mais contesta. Enfim.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O céu da pintura

Pintor gosta de pintura.
Eu sou pintor, além de blogueiro obsessivo, mas não sou sectário. Adoro exposições como a do Gordon Matta-Clark e a da Rebecca Horn, as esculturas do Thomas Schütte que vi em maio no Reina Sofia, a coleção de 140 pequenas esculturas do Amilcar de Castro que vi no CCBB-BSB e depois na Silvia Cintra, os parangolés do Hélio Oiticica, os desenhos da série trágica do Flávio de Carvalho.
Mas exposições de pintura lavam minha alma, a minha e a de muitos pintores amigos meus, ficamos babando diante de pinturas boas comentando, só entre nós, como o dialeto de alguma seita, entre dentes, frases do tipo: "que brancos...", "óleo ou acrílica?", "essa pequena mancha magenta escorrida", "os lilases...", enfim. Os que passam por perto não devem entender nada, mas nós nos entendemos, em nosso dialeto e no roer das unhas sempre com um pouco de tinta, nós, os pintores, os que adoram pintura.
Principalmente quando o MAM abre seus salões para uma individual da Cristina Canale (Arredores e Rastros) e para uma exposição chamada "Se a pintura morreu o MAM é um céu", ambas com curadoria do Luiz Camillo Osorio, a coletiva com pinturas de Daniel Senise, Luiz Zerbini, Adriana Varejão, Jarbas Lopes, Vania Mignone, Eduardo Berliner e Gustavo Speridião.
Eu não ia à inauguração, juro que não ia, estava em casa, em meu ateliê provisório, fazendo o que? pintando, todo sujo com as tintas que vão para a tela mas teimam em escorrer em mim e na cerâmica branca, com gosto de gesso-cré e de pigmento na boca, com telas e telas secando indefinidamente ao sol que já se pôs. Mas o convite veio e foi irresistível.
Escreve Luiz Camillo, na apresentação da coletiva: "A morte da pintura é um tema recorrente. Quase tanto como sua insistente sobrevivência, suas muitas metamorfoses e reinvenções contemporâneas. Nossa memória visual está marcada pela história da pintura. Cada gesto de um pintor-artista recria e repotencializa sua tradição. Enquanto formos capazes de nos surpreender diante de uma pintura ela existirá e incorporará sua morte como estímulo vital. (...) O nosso objetivo é o de por em foco os vários caminhos da pintura contemporânea, com ênfase nos desdobramentos da figuração depois de incorporada a abstração no imaginário pictórico. Uma pintura na qual a figura cria vínculos improváveis e alimenta nossa capacidade de fabulação visual. Uma figura intoxicada pelas muitas formas de produção de imagens contemporânea – fotografia, HQ, cinema e, como não poderia deixar de ser, a própria história da arte – e que sem duplicá-las nos faz pensar sobre o visível, nos faz parar para olhar e perder tempo, em um mundo cada vez mais acelerado visualmente."
E a exposição está assim, forte, impecável. Claro que não esgota o assunto, poderia se fazer muitos e muitos outros recortes, incluir outros pintores da cena atual (muitos deles estavam lá, presentes, na abertura da exposição), mas o objetivo nem é o de fazer uma antologia completa; e sim fazer uma boa exposição; conseguiu; me faz parar a cada obra, maravilhado. Algumas pinturas eu só conhecia em reprodução, pequenas, e vê-las ao vivo, imensas, faz toda a diferença, é o caso de duas das telas do Zerbini ("O Hamlet Contemporâneo não segura a caveirinha" e o retrato do Barrão). E é bom, sempre é bom rever as fantásticas pinturas dos anos 1980 do Daniel Senise, como também ser envolvido pela força dos azulejos craquelados, manchados de sangue, da Adriana Varejão. Ver como o Berliner é o mesmo e é sempre diferente a cada tela, e como pinta bem! Gustavo Speridião também impressiona, gosto especialmente das apropriações dos cartazes da Casa Cruz; e o clima de mistério das pinturas da Vania Mignone tem histórias não contadas e um emprego de cor que acerta, pela sobriedade, ao realçar o mistério. E para mostrar que pintura não se faz só com tintas e tela, as enormes colagens, tramas, trançados, com rostos de banners de propaganda eleitoral do Jarbas Lopes são pintura, da boa; brincam com a percepção do espectador com sua dubiedade, deixando também um mistério, de outro tipo.
Gosto da pintura da Cristina Canale desde o tempo de Geração 80, e é muito bom ver nestas obras recentes (de 7 ou 8 anos para cá) como sua pintura cresceu, como sua técnica se aprimorou e sua narrativa se tornou mais densa e também mais misteriosa.
Poética, nas sugestões de plantas, nos animais, nas imagens de fotografias que são como memórias de infância se desvanecendo.
Ousada, nas cores, no sobrepor de imagens, no fazer e destruir. Pintura é isso, é abdicar de posições conquistadas, é ter a humildade de destruir "partes boas" em função de um todo que só existe na cabeça do pintor; é criar, do nada, Universos.
Um amigo meu (pintor, claro) comenta algo sobre uma tela em "feios verdes", que só a Cristina tem coragem de usar; e que com ela os verdes feios ficam maravilhosos; dialogam com uma pequena área laranja na borda superior da tela; é a "conversa de pintor", eu respondo falando sobre outra tela onde os brancos são tão diferentes, são várias áreas de brancos, só que cada branco é completamente individual, diferente dos demais; depois falamos sobre as áreas em violeta claro em outra tela, são espessas, o óleo tem volume e brilho como de esmalte, de asas de um besouro adorado como um deus no antigo Egito.
A boa pintura é assim, nos faz viajar até a infância, até um mítico Egito, até o Jardim primeiro, até o futuro mais impensado, tudo, simples assim, como mágica, a partir de manchas de cor sobre uma superfície. Simples. E tão difícil.
Mas a noite estava apenas começando.
Um pit-stop na Cobal do Humaitá, mais bebidas (sim, o coquetel do MAM tinha caipivodkas deliciosas e, sinal de sucesso, lá estava D.Graça, a penetra oficial que chancela os bons eventos), comida tex-mex. Bom, todos riram quando eu disse que era a primeira vez que eu ia à Cobal do Humaitá, de que mundo este blogueiro veio? Mas é verdade pura, e foi bom contar com guias fabulosos que destrincharam o cardápio e me aconselharam com as bebidas e comidas. Voltaram a rir quando eu falei que também nunca tinha ido a nossa próxima parada, o Bar/Clube Fosfobox. Pois é, onde eu estava, em que mundo? mesmo descontando o tempo que morei em Brasília, aqui no Rio eu trabalhava demais, estava sempre cansado ou casado ou mergulhado em pintura ou em livros, não necessariamente nesta ordem.
Enfim, o Fosfobox, para a 10a. edição da festa GANG BANG, do Saulo Laudares, que desta vez convidou o artista Raul Mourão para mostrar vídeos (300 vídeos!) e o DJ Diogo Reis.
A cada semana, sempre às quartas-feiras ("a quarta-feira é o novo sábado"), a cada edição com um DJ e um artista convidados, esta festa se transformou em um point de encontro dos artistas, em especial artistas visuais.
Esta edição, então, foi excepcional, uma festa, em todos os sentidos, para todos os sentidos.
Como a boa pintura, que é uma festa para o olhar e que por sinestesia se transforma em uma festa para todos os sentidos.
Podemos sentir o cheiro das flores gigantescas na tela da Cristina Canale, dos abricós de macaco do Zerbini; podemos ouvir ruídos estranhos das figuras estranhas do Eduardo Berliner; podemos sentir na pele a aspereza ou o liso da tinta que se acumula em camadas e camadas da pinturas da Cristina; e mesmo sentir na boca o gosto doce do sangue e enjoativo das carnes cruas que brotam dos azulejos da Adriana Varejão.
Eu gosto de pintura.


Fotos da inauguração em registro do Fotógrafo Odir Almeida no www.soartecontemporanea.com

sábado, 12 de dezembro de 2009

Wanda Pimentel: "Linhas"


O trabalho de Wanda Pimentel certamente é um ícone da pintura brasileira do final dos anos 1960-70. Com rigor formal e liberdade temática, uma estética que unia o pop ao concretismo, a abstração à figuração, o quotidiano ao metafísico, com temas anos 1970 (crítica ao consumo) e temas precursores das décadas futuras (o papel da mulher), as pinturas da série Envolvimento são inesquecíveis. E incrivelmente atuais.
Acho que a última exposição que vi da artista foi a da série Animais, em 2004, no MAM-Rio, que achei interessante, correta, mas na verdade não me empolgou muito, talvez pela força da lembrança dos trabalhos da série Envolvimento; assim, fiquei muito curioso por ver a exposição Linhas, com trabalhos novos da artista, na Galeria Anita Schwartz. Não só para ver a evolução do trabalho da artista, como também para ver como um trabalho basicamente de pintura, séria, concisa, sem o espetacular, iria ocupar o espaço de catedral do grande salão da Galeria.
Ocupou, e ocupou bem, com pinturas, só pinturas, em paletas nada espetaculares, terras, marrons, negros; em tamanhos sensatos, de 60x60 a nenhuma enormidade; sem virtuosismos de montagem. A pintura em si, enfileirada, na altura do olhar do espectador; ao centro, uma instalação com sequencias de caixas contendo serpentes, dialoga com as Linhas das pinturas, mais que isso, mostra que as linhas são vivas, podem ser traçadas com rigor ou livres, serpenteando, aprisionadas em caixas com outras linhas, espelhos, e estão vivas, mesmo dormindo, as linhas são como serpentes encantadas que pulsam da superfície das pinturas. Nas pinturas da artista, nada é apenas o que nos parece; as superfícies chapadas em marrom ou negro são vibrantes, as linhas retas oscilam, o rigor é calculado e intuitivo, as escadas saem do plano e levam além dele, a um além transcendental ou são simplesmente escadas de pedreiro, usadas por alguma equipe de limpeza para alcançar um teto que está muito acima das pinturas mas que na verdade está dentro delas.
Ainda, em uma instalação, o giz desenha as linhas e as escadas nas paredes de uma pequena sala da Galeria; como um esboço para as pinturas, como um ambiente que será magicamente compactado nos quadrados de 60x60cm, como um exercício, um aquecimento, uma preparação da artista para as pinturas e também do espectador para as pinturas que, enfileiradas na sala monumental, não se diminuem, não se apequenam, pelo contrário: elas dominam a sala monumental e a transformam em um suporte neutro para elas, para ela: a pintura, vitoriosa.
Ainda, na Galeria, uma mostra do acervo, com obras ineditas de Arthur Omar, Vergara, Ivens Machado, Nuno Ramos e Rodrigo Andrade. Bons trabalhos, todos eles, mas impossível deixar de destacar os totens do Ivens, ao ar livre, com sua imponência e precariedade de material de construção, cimento e vergalhões, uma metáfora do ser humano e do construir/destruir que é a vida.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Gérard Fromanger no MAM-Rio


Chega ao Rio, no MAM, a boa exposição "A Imaginação no Poder", do artista francês Gérard Fromanger, que vi em Brasília (no CCBB) e sobre a qual comentei em meu blog.


Clique aqui para ler o comentário sobre a exposição

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Exposições no MAM-Rio


No Rio para o final de semana, como não podia deixar de ser, visito ateliês de artistas, vejo exposições e também, no meu ateliê de frente para o São Sebastião, trabalho em pinturas da série do Exército de Mim, tudo isto me rende material para alguns posts no blog.
No MAM, além do acervo da Coleção Gilberto Chateaubriand (Do Modernismo à Abstração Informal / Nova Figuração), que já vi e que sempre é bom rever:
1- Cumplicidade, 35 fotos que registram o cotidiano de Frida Kahlo e Diego Rivera. A pequena exposição comemora o 199 aniversário do início da Guerra da Indepenência do México.
2- Raul Seixas, Prisioneiro do Rock - 13 fotos de Ivan Cardoso, selecionadas de um ensaio fotográfico de 1977. As mais engraçadas, e um retrato da época, mostram um Raul sem a cara do Raul que ficou gravada em nossa memória coletiva: sem barba, rosto juvenil, de camisa aberta amarrada na barriga, sapato mocassim com meias escuras 3/4... porém com uma sunguinha incrível, estampada, na verdade uma cuequinha minúscula muito utilizada para loucos banhos de mar no Pier de Ipanema, um olhar meio sexy e a mão , quase em exibição explícita...

3- David Cury, duas instalações ("Há vagas de coveiros para trabalhadores sem-terra", feita com 2.500 capachos de fibra de coco reciclado, e "Antonio Conselheiro não seguiu o conselho") e uma intervenção ("Eis o tapete vermelho que estendeu o Eldorado aos carajás"), um site-specific sobre a grande parede lateral de 263m2, formando ondas com 4 milhões de etiquetas adesivas vermelhas; a parede vibra e o olho se movimenta, interrompido pelo bloco escuro da instalação. Um trabalho cerebral e politizado, tomando como temas os conflitos fundiários brasileiros, uma boa exposição.
(a bonita foto da exposição do David Cury é do coletivo de fotógrafos DSOUZALEITEcoletivo)

4- Revista Revista, de Orlando Mollica. O artista questiona a arte, a pintura, como objeto decorativo; e expõe, em um ambiente de alta decoração (sofás, mesas, luminárias, dispostos como uma decoração minimalista de casa de ricos com o luxo de muito espaço), posters, feitos a partir da digitalização de pinturas abstratas feitas sobre páginas de revistas de decoração, onde as legendas meio que aparecem (do tipo "esta é a melhor pintura de Joan Mitchell...").
5- Enquanto Mollica faz, ao meu ver, uma crítica sobre a pintura como objeto de decoração, a exposição logo ao lado, o Belo Caos do artista Jorge Guinle mostra uma outra coisa:  uma pintura viva, vibrante, que nunca poderá ser confundida com um objeto de decoração. Pintura pintura. Já comentei aqui no blog a minha impressão da exposição, que vi no MAM-SP, e tenho a acrescentar que a montagem carioca, apesar de contar com mais obras, está mais bem resolvida em termos de espaço que a montagem paulista, as dimensões do nosso MAM são mais generosas (sim, ele foi bem projetado para isso) do que as do Museu paulista (que afinal é um improviso em forma de corredor sob a marquise projetada pelo Niemeyer), com isto há espaço para respiração entre as obras, e o espectador ganha. Volto a dizer: uma grande exposição. Um grande artista.

E mais:
Fotos das inaugurações em registro do Fotógrafo Odir Almeida no www.soartecontemporanea.com

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Jorge Guinle no Rio de Janeiro

Hoje a abertura de Belo Caos, exposição retrospectiva do pintor carioca Jorge Guinle, no MAM-Rio. A exposição, que tem curadoria de Ronaldo Brito Vanda Klabin, esteve antes em São Paulo, no MAM-SP (onde eu a visitei, magnífica, e comentei aqui no blog) e na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Por pouco não veio ao Rio, ao que consta por falta de patrocínio. Felizmente para todos nós, cariocas, especialmente os que puderam conviver com Jorginho em sua curta porém intensa e produtiva carreira, esta questão se resolveu e a exposição, que no Rio está ampliada com mais 19 telas, está abrindo no que seria  a sua verdadeira casa, o nosso MAM. Entre as novidades da montagem do Rio, a monumental "A Última Pincelada", com 2x3,40m, que pela primeira vez sai da residência do colecionador João Sattamini.
A epígrafe da exposição é um texto do Ronaldo Brito, que diz muito sobre Jorginho e sua pintura: "Por uma questão de justiça poética, já que o artista partiu tão cedo, as telas de Jorge Guinle decidiram permanecer jovens. Fisicamente até, elas passam a impressão de tinta fresca. Irradiam sempre a mesma vontade de pintar, a mesma vontade de viver, continuam a provocar, a agradar e a desagradar."

E, em paralelo, a Galeria Mercedes Viegas abre no dia 22, próxima 3a.feira, uma exposição dedicada ao artista. Mercedes, que tem formação em museologia, consegue apresentar em sua galeria uma programação que eu diria institucional, intercalando com a programação mais de galeria mesmo, voltada para a arte contemporânea. Foi o caso da exposição do Amilcar de Castro, uma concisa retrospectiva do escultor, e agora certamente o da exposição sobre o Jorge Guinle, que complementará a grande exposição no MAM.

Leia aqui meus comentários sobre a exposição Belo Caos no MAM-SP

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Um desenho do Vergara


Foi a primeira obra de arte que eu comprei, em 1971.
Ainda estava na Faculdade de Economia e já trabalhava com tecnologia, estagiário, no Centro do Rio, na Esplanada do Castelo, no imponente prédio do Ministério da Fazenda. Trabalhava com modelos matemáticos, na Assessoria Econômica do Gabinete do Ministro, bom, meu trabalho nada era de tão imponente assim, os brilhantes economistas que eram assessores tinham as ideias e eu os apoiava implementando os modelos em computadores que na época eram poderosos, mas que hoje equivalem a uma mísera fração deste notebook em que escrevo.
Era a época onde o "cara do computador" era meio o "gênio louco", mais informal que as outras opções profissionais para os economistas, e eu, 20 anos, meio hippie, cabelo grandão e barba, abracei este caminho, que me permitia flexibilidade de horário, manhãs nos pilotis da PUC, tardes no Pier de Ipanema e noites trabalhando. Como a informática era um mistério, os sacerdotes desta tecnologia futurista tinham salários altíssimos; mesmo eu, ainda estudante, minha bolsa era bem maior que a dos outros colegas, e ainda, como eu apoiava diversos economistas com trabalhos acadêmicos que tinham financiamento muitas vezes do exterior, eu era incluído nos projetos e recebia extras também significativos, tudo isso um garoto solteiro, com casa e mesada garantida pelos pais... uma vida boa, pagava minha Faculdade e ainda dava para outros luxos, a gasolina do fusquinha café-com-leite, os chopps com a turma no Amigo Fritz, de vez em quando um sapato novo no Spinelli, e ainda dava para uma reserva. Em paralelo, via exposições (quase chorei na exposição do Antonio Dias na Petit Galerie, ainda em Copacabana), frequentava o MAM, fazia minhas aulas com o Ivan Serpa.
Namorei uma menina, Priscila, cuja família colecionava arte, não esqueço os Krajcberg e os Volpi, e um coração enorme do Antonio Dias pendurado do teto e feito especialmente pelo artista, então um jovem artista, para a mãe da Priscila, D. Isabel.
Um amigo meu da Faculdade, Paulo, também estava muito bem, trabalhava na Bolsa de Valores e se beneficiava do primeiro boom da Bolsa, parte do Milagre Brasileiro que estava sendo articulado no Ministério do poderosíssimo Delfim Neto, e estava ganhando muito, com a valorização das ações.
Em uma conversa com o Paulo, ele falou sobre "diversificar, investindo em arte", bem o jargão da época; como ele sabia que eu gostava de arte, me pediu uma dica. Fui com ele ao MAM (bem antes ainda do incêndio), uma tarde de sol pela Pres. Antonio Carlos até o Aterro, e em uma pasta na lojinha do Museu escolhemos (eu escolhi) dois desenhos do Carlos Vergara.
Não me lembro do desenho que o Paulo comprou, não sei se ele ainda o tem, passou-se tanto tempo.
Mas o meu ainda está comigo, e me enche do mesmo prazer que tive ao retirá-lo da pasta escura na lojinha do MAM.
Vergara (com Gerchman, Antonio Dias e Roberto Magalhães) eram artistas jovens, e eu os conhecia pois era antenado, lia o JB, ia aos eventos no MAM, minha programação aos domingos à tarde era: visitar as exposições no MAM (o Salão da Bússula, Tropicalia, o Salão de Verão...), sessão de cinema de arte no MIS e depois um lanche no Bobs's da Pres.Wilson, eu e meu fusquinha...
Mas naquela tarde eu era poderoso, eu e Paulo éramos "avalistas" um do outro: se ele dizia que Arte seria um bom investimento para o futuro, eu estava tranquilo em gastar quase um mês de minha bolsa em um desenho; e se eu dizia que o Vergara era um artista jovem já consolidado e que só iria evoluir, o Paulo podia gastar o lucro de alguma ação naquele desenho que ele talvez nem entendesse direito.
Anos depois, um desenho da mesma série, com a mesma temática, na coleção do Gilberto Chateaubriand, foi publicado no pequeno livro da Funarte sobre o artista, isso me deu a certeza que tinha acertado.
Acertei mesmo. É um lindo desenho, e não me canso de olhá-lo, ele sempre me remete a um clima misterioso, de relações estranhas, de uma interrupção do tempo, onde a violência é uma ameaça presente, uma espada de Dâmocles, uma visão da época da ditadura militar, de momentos de terror que estão na obra de vários artistas da geração...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Exposições no Rio - 1 (MAM)

O Rio de Janeiro é tão maravilhosamente lindo (apesar do esforço dos seus governantes em acabar com ele) que nem precisava ter uma vida cultural, poderia ser apenas um balneário, com a vida noturna e a praia e a sensualidade... Mas o Rio tem uma vida cultural, intensa, de qualidade; em termos de artes visuais, muitas coisas acontecendo; e eu, que vim para alguns dias de conflitos e tensão no trabalho, usei bem minhas horas vagas.
Hoje, por exemplo, uma linda 6a.feira (thanks God!), no meu horário de almoço fui, caminhando, até o MAM. O entorno está bem cuidado, bem policiado, sem os mendigos que em outros governos faziam sua casa sob as passarelas do Redig de Campos e se banhavam seminus no lago do Burle Marx.
No caminho, a ocupação do antigo prédio da Esso (imortalizado na canção Paisagem Inútil, do Caetano - "Mas já se acende e flutua/No alto do céu uma lua/Oval, vermelha e azul/No alto do céu do Rio/Uma lua oval da Esso/Comove e ilumina o beijo/Dos pobres tristes felizes/Corações amantes do nosso Brasil") por uma Universidade criou uma agradável praça onde os estudantes e não estudantes almoçam saladas, conversam e bebem revigorantes expressos.
É bom, é um Rio que funciona, onde os turistas (como a menina que encontrei indo ao MAM mas que estava na verdade procurando o Museu Histórico) podem levar suas cameras, descontraídos, podem ver a beleza da paisagem, da arte brasileira, da arquitetura e paisagismo brasileiros... Qual a fórmula? simples (acho eu), um bom policiamento, localizado a partir da praça em frente ao lago do MAM. Enfim.
1- Biblioteca, do artista Araken. São livros, montados a partir de pinturas do artista, alguns são pinturas sobre páginas de livros, catálogos, um grande livro/album, sensacional em sua capa de pelo de vaca em manchas pretas e brancas. Os livros estão colocados, como uma sala de leitura, sobre duas mesas no formato de asas de um avião (inclusive com os flaps posicionados para aterrisagem). É claro, o pintor foi um aviador. Um video nos mostra as pinturas, abstratas em sua maioria, que compõem os livros. Coloridos intensos, texturas, experiências com materiais. A trilha sonora é Ravel (bom, pelo menos não é o Bolero).

2- Retrospectiva de Noêmia Guerra. A artista participou de movimentos importantes na arte brasileira, como o Salão Preto e Branco; depois morou fora do Brasil muito tempo, e quando retornou, já nos anos 2000, trouxe seu acervo para o Brasil; é de uma família carioca tradicional; este ano completaria 90 anos, assim esta retrospectiva, e o catálogo. São séries de retratos, paisagens, danças, flores, em uma paleta bem homogênea, bonitos, porém dentro de limites de uma pintura tradicional que beira o decorativo.
3- Acervo (coleção Gilberto Chateaubriand). Sempre é bom rever. Desta vez fiz uma releitura dos auto-retratos (claro): Antonio Bandeira, Guignard com os lábios leporinos, Ione Saldanha... E um vaso de flores do Vicente do Rego Monteiro, de 1930, que é mais contemporâneo que os vários vasos de flores, dos anos 1980-90 da Noêmia Guerra, no andar de baixo.
4- Doações recentes: É bom saber que o MAM tem recebido doações de qualidade, espero que eles não deixem queimar como aconteceu pela negligência da administração da época (lembro os Picasso, os Magrite, os Pollock, os Torres Garcia, que se foram irremediavelmente). As doações recentes são talvez o melhor de minha ida de hoje ao MAM: 2 lindas telas de 1963 do Ivan Serpa, uma paisagem e uma da série das Mulheres e Bichos, Ivan ainda será muito estudado pois o que ele fez em 1963 tem um diálogo forte com 2009 e além; uma serigrafia do Niemeyer, ok; uma instalação fantástica, O Tigre Adormecido, do Nelson Leiner: um cercadinho de criança, com um chão que é um carpete de grama plástica; deitado, dormindo, um tigre de brinquedo; sobre ele, dorme profundamente um bebê, vestido em um macacão de padronagens de tigre; o bebê tem uma etiqueta Anne Geddes, a mesma grife das fotos nas quais o artista fez interferências que foram censuradas pelo fundamentalismo do Estatuto do Menor. E, em uma sala separada, mostra da doação de uma coleção de pinturas do Emeric Marcier. Paisagens, um retrato do mecenas, um lindo auto-retrato. Com o lirismo, a visão transcendental, a noção de um caos próximo, a melancolia, a paleta escura e sangrenta, a pintura direta e sem efeitos, que são características do artista. O Brasil não tem memória, assim é bom ver esta "mini-retrospectiva" do Marcier, como foi bom ver os estudos do pintor que estão sendo recuperados e digitalizados, e postados no Facebook, pelo filho, o arquiteto Matias Marcier.
Assim acaba meu horário de almoço, volto ao trabalho alimentado (bom, almoço com camarões e sashimi de salmão fazem uma diferença) e mais convicto de como o Rio é maravilhoso.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

BobN no MAM - Festa de Encerramento


Coerente com abertura da exposição, que foi uma festa, BobN faz a festa de encerramento de sua exposição, no MAM-Rio, no próximo domingo dia 14. Na verdade a exposição apresenta, em sua parte principal, uma instalação que é um autêntico Lounge, com direito a DJs, sofás, laguinho, pistas de dança, luz estroboscópia e as paredes recobertas de motivos do Modernismo (especialmente Tarsila) com uma visão totalmente contemporânea...

BobN at MAM-Rio, closing party


Not only was the opening of BobN exhibition a big party, but the closing also will be another party, on Sunday, 14 June, on MAM-Rio. Actually, the main part of the exhibition is an installation, a Lounge, complete with DJs, couches, dancing spaces, and an all-over decoration full of motivs taken from Brazilian Modernism painters, as Tarsila do Amaral.

domingo, 19 de abril de 2009

No Rio, feriados, sol e cultura

Nestes dias no Rio, um período pródigo em feriados, além do feriado nacional de Tiradentes, dia 21, o dia de São Jorge, 23/04, feriado apenas no Rio. Não vou poder aproveitar todos os feriados, mas consegui um final de semana com um bom sol e uma praia gostosa, e também uma programação cultural interessante:


1. Na Galeria Silvia Cintra, Contos, mostra de pinturas da Cristina Canale, pintora que surgiu na Geração 80 e hoje mora na Alemanha, com uma carreira bem consolidada. São imagens de cenas quotidianas, interiores, com cachorros; a narrativa é, na verdade, apenas pretexto para a excelente pintura. Penso em Bonnard, os cachorros tem o "at-ease" que os cachorros e as mulheres nos banheiros do pintor francês, envoltos pelo ambiente caseiro, com seus padrões e cores, cena capturada pelo pintor em um ângulo meio estranho, que ressalta a sua presença, o olho do pintor/observador, e coloca o espectador do quadro como um voyeur. Melhor ainda, consegui ir na abertura e pude rever amigos, vários artistas da Geração 80 lá estavam. O fotógrafo Odir Almeida estava lá, registrando para o seu site Só Arte Contemporânea , vai ser bom rever o movimento do vernissage nas fotos
2. Na Galeria Mercedes Viegas, a coletiva Trabalhos sobre papel. Uma marca das coletivas da galeria tem sido o alto nível de todos os participantes; só há, na exposição, trabalhos bons; e os contemporâneos, como Daniel Murgel e Marta Jourdan, estão lado a lado com Tarsila, Ismael Nery,Ivan Serpa, Antonio Dias, Tunga...

3. No Instituto Moreira Salles, se encerrando hoje, ainda consegui ver os desenhos e aquarelas do Samson Flexor; os desenhos e gravuras de Claudio Mubarac ("Idéias de fabricação: pequeno atlas") e as fotos de Otto Stupakoff. Três belas exposições. O IMS é um oásis de tranquilidade e beleza, um pedaço de Mata Atlântica cada vez mais sitiado pela Rocinha que se expande e que breve destruirá a Gávea e o Rio de Janeiro (espero não estar sendo apocalíptico). Um bom catálogo acompanha a exposição do Mubarac; eu gosto muito do trabalho do artista: um desenho preciso, uma utilização fantástica de várias técnicas de gravura, a temática de investigação do corpo, e o resultado são lindas gravuras com um pathos próprio, onde o contemporâneo e o arcaico se combinam e se completam.
4. No MAM, três exposições, além de mostra do acervo (meu Deus, não me canso de olhar os Iberê!).

A primeira é do contemporâneo BobN . Conheci o BobN no Parque Lage, ele era assistente do José Maria Dias da Cruz e eu aluno; depois fiz um curso, no mesmo Parque Lage, Arte Hoje, onde BobN e Márcio Botner se voltavam mais para a arte bem contemporânea, novas midias, os exercícios eram coisas como propor uma forma de veicular um trabalho usando a internet (daí surgiu este meu blog e meu outro, o Thesouro da Juventude). Pode parecer contraditório, este mesmo Bob que em um trabalho "invade" uma instalação do artista Ducha e se põe a "comer grama" ao lado de um equino; e que nas aulas do José Maria nos colocava para, incessantemente, combinar as cores à perfeição em obsessivos exercícios de misturar tintas, e que dava para os alunos as dicas práticas de pintura. Na verdade, ao montar um lounge no MAM, ou interferir em pinturas magistrais do acervo com molduras berrantes em impressão sobre plástico (nos livros de assinaturas na exposição pessoas reclamaram das intervenções como gratuitas), o Bob tem um embasamento teórico e prático que sustenta isso tudo. Pena que não pude estar na abertura, mas nas fotos do site do Odir pude ver que foi um evento...

"O lugar do ar", exposição da artista Carla Guagliardi. A artista é carioca, teve a formação artística na cidade, mas há quatro anos não expõe por aqui. A exposição é bem interessante, são esculturas ou instalações, nas quais o tempo é um dos agentes: vergalhões enferrujando dentro de recipientes de plástico com água; elásticos cedendo ao peso de placas de ferro; balões sustentando precariamente pesadas táboas, ou se sustentando a si mesmo na diferença de peso entre o ar e o gas hélio. O paradigma da escultura é o bronze, o mármore, o eterno; a artista rompe com este paradigma ao fazer como que uma escultura-povera, pela transitoriedade; mas que ao mesmo tempo tem a precisão, a imponência, da grande escultura. Boa exposição. E, ainda no MAM, a exposição que comemora os 50 anos do movimento Neoconcreto. Só o poder ler, na íntegra, os manifestos do Ferreira Gullar (Manifesto Neo-concreto e a Teoria do Não-objeto) já vale; e mais ainda ver os recortes de jornal da época, os catálogos, e os trabalhos dos artistas que estiveram neste momento seminal do neoconcretismo.

5- No Centro Cultural Candido Mendes de Ipanema, agora Galeria Maria de Lourdes Mendes Almeida, pinturas abstratas, interessantes, de Rogério Tunes. Lembro muito dela, D.Maria de Lourdes, a entevistar os artistas, entrevistas intermináveis, na verdade meio desconfortáveis para o artista, uma curadora quando as galeiras e a crítica eram ainda bem incipientes no Brasil, e que com isto, o personalismo, a condução do trabalho dos artistas, fez do CCCM nos anos 1970 e 80 um espaço de primeira linha, revelando artistas jovens e mostrando artistas fora do circuito como o fotógrafo Alair Gomes e outros.
6- Cruel, da Companhia Deborah Colker. O início é um pouco diferente do que se imagina da Deborah Colker (acrobacias, uma dança quase ginástica, dançarinos em aparelhos grandiosos, a marca de Vulcão, Velox, Rota); o início é soft, bailarinos vestidos com roupas sociais, bailarinas em vestidos vaporosos e sapatos altos, minha lembrança é um pouco do "Nine Sinatra Songs", da Twyla Tharp, que esteve no Municipal do Rio no início dos anos 1980, e que infuenciou meu amigo o pintor Chico Cunha em uma série de lindas pinturas. "Coisa de menina", eu penso, cadê a parede de alpinista, cadê a roda gigante, cadê os saltos mortais, cadê a crueldade? Mas aos poucos o clima vai mudando, o amor-romance dos primeiros momentos vai deixando entrar a crueldade das relações, o sexismo, as mulheres com o prato de comida entregue pelos homens como uma escravidão do dia-a-dia, e que acaba sendo jogado, quebrado; as roupas finas vão caindo e os bailarinos ficam mais corpo, pulsão, amor-ódio. Uma dançarina com uma roupa que é clássica, um espartilho, como uma puta de Proust, dança com facas, que brilham rubras; as facas são enterradas em uma mesa gigantesca, que é palco para cenas de sexo-ódio, amor-violência. Finalmente, as construções tão características da coreográfa, desta vez são paredes móveis, de espelhos, com escotilhas, onde os bailarinos parecem flutuar. O final é um sorriso de esperança, de uma bailarina sozinha, como se depois de tanto ódio, tanta crueldade, ainda houvesse uma esperança, um pouco um anti-climax. Um bom espetáculo, de uma coreógrafa que tem se renovado e que é uma referência na dança brasileira contemporânea.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Osmo Rauhala, no MAM-Rio




No MAM, até 01/março, "O surgimento da compreensão", exposição individual do artista finlandês Osmo Rauhala. São 5 instalações com vídeos e 10 pinturas em grandes formatos, todas marcadas pelo que Rauhala chama de "memória genética", uma visão quase que arquetípica de sua terra natal. O artista, que reside em NYC desde a década de 1980, retorna todos os anos à sua fazenda na Finlândia, onde se "recarrega" com as energias da terra natal; segundo ele, a experiência de estudar, desenvolver seu trabalho e morar na metróple o fez mais analítico sobre sua própria cultura, influenciando seu trabalho, que joga com elementos da natureza nórdica - cervos, florestas, pássaros, rios, uma natureza quase que virgem, porém dentro de uma linguagem absolutamente contemporânea, tanto nas videoinstalações como nas belas pinturas.

Site do artista Osmo Rauhala

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Rubens Gerchman


No início dos anos 1980, tive o privilégio de ter como professor o grande pintor Rubens Gerchaman. No MAM, ainda sofrido com a difícil reconstrução após o incêndio. O tema do curso era "pintura em grandes dimensões". Os encontros eram no salão com lambris de madeira onde hoje funciona o restaurante Laguiole. Na turma, o Marcus André, que eu já conhecia do Parque Lage e que se firmou no meio das artes brasileiras com seu forte trabalho com pintura.
Os encontros eram muito interessantes, desafiadores; para mim, que vinha de um trabalho cerebral, conceitual, de um desenho meticuloso em pequenos formatos, tuda era uma verdadeira revelação. Em uma época onde ainda não tinha entrado em moda o culto ao corpo, ao dançar, onde ainda havia na arte brasileira uma separação entre a "arte séria" e a "diversão", a abertura das aulas era um trabalho de soltura do corpo, com um pouco de automassagem, de expressão corporal, de dança livre, como uma preparação para o gesto largo que íamos exercitar no restante da aula.
Em algumas aulas o modelo vivo (uma linda mulher, morena, cabelos longos e um corpo mignon e fantástico) não ficava extática, como os modelos vivos em poses rígidas das aulas tradicionais; ela dançava, movimentava seu corpo em uma marcha como que de danças orientais, e a turma desenhava traços largos, soltos e rápidos, para tentar capturar o movimento da modelo.
Usávamos marcadores (os pilot, na época chamados de "pincel-atômico") presos na ponta de bastões de bambu, para levar o traço à extensão máxima. Pintávamos sobre enormes bobinas de papel kraft, e nossos traços se misturavam uns aos dos outros. Acompanhando os trabalhos práticos, havia discussões sobre arte, sobre o que estava se fazendo na arte mundial, sobre as muitas viagens do Rubens e o que ele tinha visto e aprendido, na Europa, NYC ou no Oriente.
Foi uma experiência muito enriquecedora. Algumas coisas só vim a entender algum tempo depois, e muitas coisas aprendidas só fui utilizar efetivamente após retomar meu trabalho depois de vários anos de silêncio, mas muita coisa ainda está aqui comigo e certamente ainda me alimentará por um bom tempo.
Depois, continuei a manter o contato com o Rubens e com seu trabalho, que tem um espaço garantido na história da arte brasileira.
Hoje faz 1 ano que, em 29/01/2008, Rubens Gerchman nos deixou, após uma luta contra uma doença fatal. Mesmo doente, não esmoreceu, continuou a trabalhar e a manter o espírito inquiteto e inovador. A exposição póstuma na Galeria Pinakhoteke, com os trabalhos feitos na Índia, é uma prova disso. E é lindo ver os trabalhos sobre o Kama Sutra, um grito do artista de que o eros pode vencer o thanatos. Estes trabalhos, com os corpos entrelaçados das frisas indianas, me remetem diretamente àquelas manhãs no MAM, ao movimento da modelo registrado pelos alunos nas bobinas de papel kraft, as diversas visões do corpo feminino se sucedendo, como os corpos indianos das frisas que o Rubens usou e transfigurou em seus últimos trabalhos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Vik Muniz, no MAM


No MAM-Rio, visitei a retrospectiva de Vik Muniz, uma exposição que faz um apanhado da obra do artista, de uma forma leve, agradável, bem montada e bem didática, com um bom catálogo. É uma exposição que se vê com interesse e da qual se sai (eu saí) com a sensação de querer ver mais, de "podia ser maior e ocupar o MAM inteiro..." E o publico corresponde, apesar da entrada cara do MAM: grande número de pessoas, muitos pais com crianças, fazendo fila na porta do Museu no horário da abertura, em plena tarde de 3a.feira. A midia está divulgando bem, e isso contribui para o sucesso da mostra, claro, mas a força, a pertinência, o lúdico, o irônico e os questionamentos do trabalho do Vik Muniz são os fatores mais fortes a atrair o público. Muniz trabalha (brinca) com a percepção, a representação na arte e a história das artes; de uma maneira totalmente pós-moderna, contemporânea; obtendo resultados com técnica precisa e estética impecável.

Uma curiosidade minha em relação as últimos trabalhos do artista, que vi em setembro no Chelsea NYC (Galeria Sikkema Jenkins), e sobre os quais não vi referência em outro lugar, nem nesta retrospectiva (para ser completa, a retrospectiva deveria fazer pelo menos uma referência a este novo trabalho). Na verdade, como não vejo ninguém falar destes novos trabalhos do Vik, se eu não tivesse uma prova material (o catálogo da exposição de NYC), poderia ter dúvidas se sonhei... A exposição se chama Verso, e nela não estão fotografias e sim objetos (esculturas? retorno do artista ao seu início de escultor?), que reproduzem "hiperrealisticamente" o verso de obras-primas da arte que se encontram em museus, com o avesso da tela, o chassis, as molduras, as etiquetas de exposições, números de tombamento, parafusos, grampos, reforços... encostados nas paredes, tudo no tamanho real, sinais de poeira e de envelhecido, como devem estar, ocultos do público, os versos dos quadros nas reservas técnicas, como em uma pausa para uma viagem entre uma e outra exposição. Picasso, Hopper, Van Gogh... Les Demoiselles d'Avignon, Nighthawks, Starry Night... Também expostas, recriações (objetos) do verso de famosas fotografias nos arquivos do New York Times e do MoMA.
Embora não utilize fotografia como suporte para os trabalhos dessa exposição, Vik apresenta grande coerencia com seu trabalho mais conhecido, com fotografia: o mesmo espírito irônico, o mesmo questionamento da percepção, da representação, o mesmo mergulhar na história da arte, de uma certa forma a mesma pesquisa sobre a memória e o esquecimento que já aparece nas celébres fotografias (expostas no MAM) onde o artista, nos momentos iniciais de sua carreira, fotografa desenhos feitos de memória sobre fotos originais da Revista Life que estão impressas no imaginário ocidental do século XX.

domingo, 13 de maio de 2007

No Rio...

Fim de semana no Rio.
Exposições: Nelson Leiner na Silvia Cintra, Cinthia Marcelle na Box 4, Mollica (Ressonâncias) na Galeria 90, Gastão Manoel Henrique na Anna Maria Niemeyer, acervo na Filial da Anna Maria Niemeyer da Praça Santos Dumont (o destaque é para uma pintura óleo sobre tela, grande, do Rodrigo Andrade, O Cubo Preto) e Marcos Veloso na Mercedes Viegas.
No MAM, Caetano de Almeida e as novas aquisições da Coleção Gilberto Chateubriand.
Espero ter tempo, depois, de escrever um pouco sobre cada uma delas.
E... lindos dias, frio, sol, como só o Rio de Janeiro (que continua lindo) tem...