Mostrando postagens com marcador pessoas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pessoas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Retornando ao meu jardim caipira

Visitar Jardim das Daninhas, a exposição da artista Rosana Palazyan, na Casa França Brasil, que comentei em meu último post, me levou em uma viagem de memória a um jardim que já tive. Final dos anos 1970, uma casa de pescador em Arraial do Cabo, que então era apenas uma aldeiazinha de Cabo Frio; a uns vinte passos da areia do mar; uma praia, a Prainha, uma pequena enseada com agua quase morna e ondas fracas, de piscina; a casa montada em uma pirambeira que muito tempo depois virou uma favela; e um quadrado de uns 100 m2 de areia e pedra na frente da casa, onde pensamos um jardim japonês mas onde fizemos, com a ajuda de uma caseira muito decidida, Dona Elza, um "jardim caipira".
A inspiração foi Monteiro Lobato. Em um dos livros sobre o Sítio ele fala de jardins com plantas fora de uso, e das zínias (zinnias elegans), que à época que ele escreveu estavam desaparecendo dos jardins, por terem saído de moda. Dentro dos padrões estéticos da época em que ele escreveu, as zínias eram vistas como flores "loucas", rústicas e até defeituosas (acho que meio mutantes, pois nasciam pequenas flores, com pétalas e tudo, nas corolas; e nasciam flores de cores diferentes em um mesmo pé).
Talvez Monteiro Lobato tenha visto as zínias como viu as pinturas da Anita Malfatti, não sei; sei que não vou nunca mais achar o texto que li na infância, mas quando tive meu primeiro pedaço de terra para fazer um jardim, pedi à obsequiosa D.Elza que nos arranjasse zinias, e ela o fez, e jardim foi por um tempo um reduto daquelas flores obsoletas, mutantes e decadentes, um triunfo do eugenismo às avessas.
O jardim já tinha um pé de figo (não é a figueira, árvore grande que está em algumas ruas do Rio e sempre cai em temporais, destruindo carros; era um arbusto e que produzia intermitentemente figos, comestíveis, para minha surpresa), e chuchu, que se alastrava e tomava conta de grande parte do terreno (Arraial é um cabo, não é serra, mas o dito popular que diz de moças que "dão mais que chuchu na serra" é absolutamente verdadeiro, o chuchu se espalha como pessoas fogosas).
Um dia D.Elza nos trouxe uma muda de um arbusto, um "mato", caruru, ela disse, e é comestível; eu achei muito parecido com urtiga, o caruru que eu conhecia era a comida da Bahia, achei que ela estivesse planejando me envenenar, mas finalmente descobri que o tal caruru é uma erva daninha,  invade tudo, resiste a seca e mal tratos, e é realmente comestível, é gostoso até, cozido ou no vapor, como um espinafre.
E uma caramboleira mirrada, mas que dava muitas carambolas que atraíam as crianças da vizinhança que pulavam a cerca para roubá-las. Erva cidreira, boldo, este último muito útil nas ressacas depois de muitas cervejas e caipirinhas na praia, o que era nossa rotina dos sábados.
Tudo misturado: jardim, horta, farmácia, como nos jardins de roça.
O jardim mudava muito, pois a terra não era boa e a água era escassa. Juro que uma vez tivemos até uma babosa ou outra planta com folhas duras, pontudas e com um espinho na ponta, como lanças; enfeitada com cascas de ovo (quem nunca viu isso? cada folha recebe, na ponta, uma casca inteira de ovo, uma produção, quebrar os ovos apenas pela ponta para esvaziar as cascas e colocás-la perfeitas, como brancas bolas de um Natal que dura o ano inteiro).
Dona Elza sempre com uma novidade da região e uma planta nova, acompanhada dos três filhos, bem crianças ainda, e do marido, Seu A., um louro meio bronco que trabalhava no único empregador da cidade, a Companhia Álcalis, uma estatal deficitária, e fazia bicos. Um dos bicos foi como pedreiro para as primeiras coisas que incrementei na casa: uma varanda, uma entrada para o carro... e ela, D.Elsa, sem medo de trabalho, ajudava o marido a virar a massa, a assentar as lajotas.
Por um tempo, as zínias deram vez às maria-sem-vergonha (coitadas, estas gostam da umidade da mata atlântica, na falta d'água de Arraial elas sofriam), aos jacintos, a umas rosas murchas e muito espinhosas...
A fase dos jacintos foi interessante. Além do aspecto mitológico (Jacinto da mitologia grega morreu vítima de uma disputa amorosa entre Apolo e Zéfiro), os jacintos me levavam a minha casa de infância, onde um canteiro no jardim era plantado com jacintos; e o empregado da casa também se chamava Jacinto; e quando minha mãe dava as ordens: "Jacinto, não esqueça de molhar os jacintos", as crianças morriam de rir. As flores eram como chagas, de uma folhagem verde rompiam linguas amarelas e vermelhas, como o sangue que brotou da testa do Jacinto original quando Zéfiro, enciumado de Apolo, desviou o disco com que os amantes brincavam e o tranformou em instrumento de morte.
Bom, estes eram os jacintos de antigamente, e acreditem ou não, nos canteiros da Rosana Palazyan, lá estava um jacinto igual a estes, os da minha infancia e o do jardim em Arraial; quando pesquiso na internet vejo que hoje jacinto, ou hyacintu, é outra coisa, uma planta bonita com muitas flores azuis, poderosa, talvez geneticamente incrementada, nada da rusticidade que eu associava a um mortal que despertou paixões em um Deus e em um Vento.
Tivemos também uma que se chamava de bambu japonês ou renda portuguesa ou algo assim, parece uma samambaia mas é uma trepadeira, precisa de umidade, tem alguns espinhos nos galhos que se enroscam e se expandem, mas as folhas são lindas como um rendado, uma filigrama, e lá estava também no jardim da Rosana Palazyan.
Na época não sabíamos (como prever o futuro?) que aquela cidadezinha que eu conheci com 20 mil habitantes ia sofrer muitas transformações, e ao meu ver para pior. A inauguração da Ponte Rio-Niterói, em 1974, talvez tenha sido a causa primeira; ou a fama de uma cidade meio contra-mão que era "um Paraíso" e à qual se chegava deixando o caminho de Cabo Frio por uma estrada que ficava coberta pelas dunas em períodos de vento mais forte; talvez o estilo de vida rústico, os terrenos baratos, a ausência de repressão, a população acolhedora...
Arraial cresce, em meados dos anos 1980 se emancipa de Cabo Frio, torna-se um município autônomo, acho que a primeira obra do novo prefeito foi fazer um Portal para a cidade, obra predileta das administrações municipais pelo Brasil afora, absolutamente inútil mas com grande visibilidade. A cidade cresce desordenadamente, se faveliza.
A Álcalis, que tinha sido criada no Governo Vargas para produção de barrilha, e onde além do Seu A. trabalhava também grande parte dos moradores da cidade (outra parte, pescadores, ou donos de comércios rudimentares ou bares), é vendida, na onda de privatizações do Governo Collor; a nova administração da empresa faz reestruturações, demissões, e segue aos trancos e barrancos até que mais recentemente fecha as portas. Mas antes mesmo disso tudo, Seu A. começa a beber, fica desempregado, o casal se separa; eu passo a ouvir cada um deles, separadamente, falar mal do outro, e assim fico sabendo de histórias sórdidas e muito complicadas.
Conheço outras pessoas e passo para um outro arranjo para a administração da casa, que também foi reformada, não é mais aquela casinha de pescadores, D.Elza já não é mais caseira, mas continua como vizinha e eu continuo acompanhando a família, vendo os filhos de D.Elza que crescem, adolescentes, deixam a escola, para uma vida sem perspectiva de emprego, para um outro mundo, que chega a Arraial e transforma a cidade idílica em uma miniatura de cidade grande, com furtos, drogas.
Um dos filhos, T., uma linda criança hiperativa que matava passarinhos com baladeiras, que torturava ratos do mato, que criava ovos de cobra e pescava de mergulho, cresceu em um adolescente lindo e gauche. Olhos verdes, de um verde lindo, como um mar, como uma água estagnada, e um sorriso mau. Pequenos furtos, envolvimento com drogas (não, ainda não era o crack, talvez maconha e cocaína), um dia a notícia: foi morto, junto com outros colegas de praia, de drogas e de furtos, todos crianças que eu cansei de ver, na praia, brincando e soltando pipa. Como as ervas do meu jardim, da casa que um dia vendi, de um passado que sobrevive apenas em fotos cada vez mais desbotadas.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Todos os Prazeres (A Ressurreição)

Talvez um dos posts mais tristes que escrevi neste blog foi uma história real de um casal fantástico, Beth Calasans e Mark Walton, que criaram o restaurante Todos os Prazeres, em Arraial do Cabo. Convivi com o casal, com sua gastronomia criativa e seu humor inglês, por muitos verões (primaveras, outonos...), e a última notícia que tive deles, em 2006, foi de um fim trágico em pleno tsunami de 2004. Clique aqui para o post original, que escrevi em fevereiro de 2009.
 Agora neste início de 2010, recebi um email que me trouxe um desfecho inesperado para o assunto. Minha primeira reação foi de incredulidade; trocamos outros emails; e o estilo é inconfundível, há detalhes que não são de conhecimento geral, e o tracking que faço no blog confirma acessos vindos da Inglaterra.
Assim, a versão da morte de Beth e Mark se comprovou (felizmente!) um boato, provavelmente com intenções maldosas, mas que se espalhou por Arraial e por todos que conheceram Todos os Prazeres. E que, para desmentí-lo, nada melhor que transcrever parte dos emails recebidos:
 
dear jozias,
antes de mais nada esta não é uma mensagem do além, simplesmente da Inglaterra, onde nós dois estamos bem, ao contrário das noticias da morte em tsunami. Obrigado por seu blog sobre Todos os Prazeres! (onde descobri seu email), você sempre foi muito gentil e querido. Soubemos de nossas mortes antecipadas quando Arraial fez um festival de gastronomia em homenagem a nossa memória. Trabalhamos para outros agora, nunca tivemos o saco de refazer um restaurante tudo de novo, preferindo gastar tudo que ganhamos em viagens. Moramos em (..., na Inglaterra), na beira mar (gelado), mas bonito, porém um pouco monótono. Valeria a pena você fazer uma visita qualquer dia. Só trabalhamos à noite, deixando os dias livres para andar a pé e de canoa.
Desculpa termos tirado um pouco do misterio e tragédia das nossas mortes predatadas, provavelmente quando acontecer, tomara que em um dia bem distante (se o álcool permitir), vai ser uma coisa medíocre e comum. Ficamos honrados com o seu blog, deixa tudo como está, so inclui a  nossa ressurreição. Quando lemos, relembramos dos muitos dias felizes que passamos em sua companhia em um Arraial mais tranquilo e ainda pouco estragado.
(...) Incrível como nemhum dos donos dos restaurantes onde a gente trabalha (na Inglaterra) jamais ficaram curiosos em saber o que nós fizemos de comida no Brasil, mesmo o Brasil continuando com a imagem, para os ingleses, mais quente, um sinonimo de tudo gostoso. (...)
Mil beijos
Mark Walton e Lizabeth Calasans

O referido é verdade e dou fé. Ou, como diria outro inglês, All's Well That Ends Well.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Relembrando um amigo (João Luiz Perigault)


Éramos amigos inseparáveis, pelo menos por um breve período. Eternos, como costumam ser as amizades e as crenças quando somos jovens e temos o mundo à nossa frente.
O ano era 1973. Com a morte do Ivan Serpa, alguns alunos migraram para as aulas com o Bruno Tausz, no mesmo Centro de Pesquisa de Arte, em Ipanema, uma casa no número 48 da Rua Paul Redfern: um terreno pequeno e a casa se espalhava para o alto, para os 4 andares onde arte & vida se misturavam.
O segundo andar era o local dos cursos. Até o final de 1972 o Ivan vinha do Méier para suas aulas e a sala ficava cheia: alunos antigos (Emil Forman, Gerald Thomas, Paulo Gomes Garcez, Luiz Ferreira...), alunos novos, as "madames" (que tinham arte por hobbie, adoravam o Ivan e compravam seus quadros e às vezes também compravam trabalhos dos jovens alunos), passantes (vinham assistir uma ou duas aulas e depois sumiam, talvez com medo das broncas do Ivan)...
Nós víamos a obra dos pintores nos livros que o Ivan trazia ou nos "audio-visuais" que o Bruno projetava (slides, com a trilha sonora da querida Jenny, depois sonoplasta de tantas novelas na TVGlobo). Tão diferente de hoje, quando a arte internacional chega por exposições, pela internet, no momento mesmo em que é feita; naquela época a maneira de conhecer a arte dos grandes centros era uma viagem internacional (caríssimas) ou através dos livros de arte que pessoas antenadas como o Ivan recebiam em primeira mão através da D.Vanna, da Livraria Leonardo da Vinci.
Com a morte do Ivan, o espaço se reorientou em torno das aulas do Bruno, que tinha uma didática excelente; embora fosse controvertido como artista, era um líder, com muito carisma e extremamente envolvido com o ensino.
Assim conheci os alunos do Bruno e logo éramos 3 amigos, inseparáveis: eu, Perigault e S. Um trio improvável, mas que estava sempre junto, viajando, vendo exposições, discutindo arte, fazendo planos para o futuro, rindo, rindo muito...
Eu, artista misto de executivo da nascente tecnologia da informação, tentando ser um hippie mas curtindo muito o dinheiro que minha carreira me dava.
S., uma linda mulher nos seus 20 e poucos anos, charmosa, sexy, gargalhada farta, vinda de uma estadia em Londres e buscando conhecer arte, ser artista talvez? trabalhar em alguma atividade ligada a arte, o que conseguiu, pois se firmou no meio das artes como uma marchand das mais conceituadas.
João Luiz Perigault, alguns anos mais novo, meio wierd, super-inteligente, um romântico, introspectivo, um dark ou gótico ("avant la lettre", só se falaria nestes movimentos anos depois), detentor de uma mitologia toda pessoal que ia toda para suas pinturas excessivas, barrocas... Sempre de preto e com uma jaqueta mesmo em pleno verão do Rio, grande consumidor de livros de arte e de rock (ganhei dele o meu primeiro LP do Lou Reed, ninguém esquece), freguês de carteirinha da Livraria Leonardo e da Modern Sound.
No apartamento no Bairro Peixoto, o pai, uma influência marcante, muito inteligente, foi José Perigault, um dos fundadores e diretores do Ibope (na fase pré-Montenegro da instituição); morreu em 1977 em um acidente na Via Dutra e hoje é nome de rua em Jacarepaguá. A mãe, D.Marisa Villela Perigault, uma juíza competente e uma pessoa doce e gentil; e a irmã mais nova, Márcia, na época uma garota que devia achar estranho o rock sempre nas alturas no quarto do irmão. Ah sim, e um cachorro, o Caifás (que o Perigault pronunciava escandindo: "Cai-e-faz").
Em nossas discussões existenciais que viravam noites, ele tinha sempre uma dúvida, profunda, intensa: "Não sei se devo ou não pintar em tela". Eu e S. ríamos do que nos parecia uma dúvida menor, ingênua, diante das dúvidas sobre o mundo, sobre dinheiro/ideal, sobre ter ou não talento, sobre a imortalidade da alma; mas esta era a dúvida que estava submersa no mundo das artes quando se dizia que a pintura morrera, e que foi respondida com o grito, na década seguinte, da Geração 80, da Transvanguarda. Só hoje entendo que a questão que ele colocava de forma quase infantil era então a verdadeira questão da arte; o que eu e S. na época, talvez nos achando mais velhos e mais experientes, não víamos.
Perigault fez uma exposição individual no mesmo Centro de Pesquisa de Arte, ainda nos anos 1970. Pelo que me lembro, em uma época de arte conceitual, as suas pinturas góticas, épicas, com forte influência do H.R.Giger, foram mal recebidas; devo ter ainda o recorte de jornal de uma crítica negativa. Completamente fora de seu tempo. Nos dias de hoje certamente o trabalho do Perigault seria melhor compreendido, é o que penso quando vejo artistas como o ingles Glenn Brown (um dos YBA, Young British Artists), o belga Stephan Balleux, entre outros. Pintura minuciosa, feita com prazer, transpirando carne e erotismo, apropriação/referências à história da arte, elementos de ficção-científica (impressionante como os enormes quadros da série de Sci-fi do pintor inglês me lembram as telas do Perigault!), está tudo lá, em telas que hoje foram esquecidas.
Muitas gargalhadas depois, fomos cada um para seu caminho.
Nunca mais o vi, nunca mais ouvi falar dele. Por uma notícia de jornal muito tempo depois, soube da morte da mãe; no obituário de D.Marisa, ele é qualificado de "artista plástico" e a irmã, Márcia, que conheci vagamente como irmã mais nova de meu amigo, citada como médica, conceituada, morando em São Paulo.
Recentemente, pesquisando na internet, soube que o João Luiz Perigault morreu em 2000 ou 2001; morreu novo, sem completar 46 anos; apenas a data da morte, sem detalhes; nem mesmo a qualificação como artista. Não sei o que foi feito do trabalho, se as pinturas se conservaram; tenho uma, óleo sobre papel cartão; um icônico torso, fantástico, esfolado, dissecado, em tons de azuis e lilases. Apenas isso, e as memórias.
Ao querido J.L.P., onde estiver, em um Walhalla qualquer, vendo as Valquirias e os guerreiros do seu universo fantástico, o meu abraço.

Leia também:




quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Meu pai, Antonio Moraes Correia, 90 anos


Hoje, 4 de novembro, ele faria 90 anos. Meu pai. Escorpião (como eu, ou melhor, eu sou Escorpião como ele). Uma vida interessante, uma perpétua busca.
Família tradicional nordestina, uma família patriarcal como se lê em romances, e que existia realmente, no início do século XX. O pai de meu pai (meu avô, de quem herdei o nome), o Coronel Jozias, certamente cristão-novo, um mascate que construiu um Império, em um porto longínquo do Nordeste brasileiro, na beira do Delta do Parnaíba: Amarração, a cidade depois batizada Luiz Correia, como seu irmão mais novo, tio de meu pai. Quando meu pai nasceu, caçula de 14 irmãos, o Império já era comandado pelo filho mais velho do meu avô, o maquiavélico Zeca Moraes; meu pai, filho caçula-temporão, era como que neto do pai dele, o que lhe permitia ser um pouco mais moderno, o Antonio, o artista.
Estudou no Rio, início dos anos 1940, dividiu quarto em pensão na Rua das Marrecas com Augusto Rodrigues, era amigo de Santa Rosa, de Pancetti; com eles, artistas jovens, frequentava o atelier do mestre Portinari, no Cosme Velho; misturava tintas, tinha um bom desenho, recebeu uma menção honrosa com um desenho no importante Salão de Belas Artes. Enquanto isso, estudava, ia ser arquiteto (o primeiro arquiteto da familia patriarcal que tinha comerciantes, diplomatas, políticos, mas que girava em torno do dinheiro da exportação da então riqueza do Nordeste, a cera da carnaúba). E fazia aventuras, foi um dos pioneiros a escalar, com amigos, o pico das Agulhas Negras, no Itatiaia, então o ponto culminante do Brasil, o que rendeu uma grande matéria na revista O Cruzeiro, com muitas fotos.
Na Rua Santa Clara, em Copacabana, a casa da irmã, Maria Alice, costureira de alto nível, modista, o que hoje chamaríamos de estilista; nos finais de semana meu pai saía da pensão da Rua das Marrecas e ia almoçar na casa da irmã, se sentir na família patriarcal, manter os laços com o longínquo Piauí, o Delta, as carnaúbas, a riqueza verde, exportada para os Estados Unidos e matéria prima para tanta coisa antes da descoberta do plástico, até para os discos em 78 rpm que levavam em seus sulcos as vozes do momento. Carmem, a Miranda; Frank, o Sinatra; eles todos tinham suas vozes registradas para a eternidade graças à cera da carnaúba que saía dos campos do Piauí para a América do Norte nos navios dos Moraes Correia.
Uma lenda familiar diz que o sobrenome Correia é a maior prova de cristão-novos que somos, na verdade uma adaptação do sobrenome Cohen. E os Cohen-Correia, que fizeram a vida como mascates no Nordeste, do Rio Grande do Norte para o Ceará, para o Piauí, e acumulando, pouco a pouco, economizando, construíram este império de exportação da cera de carnaúba.
A vida de meu pai tem rupturas, em algumas ele é invadido pela realidade adversa, em outras me parece que ele opta por uma ruptura. Compreendo bem isso, eu também herdei esta compulsão por rupturas, por apagar tudo e começar de novo, o que hoje entendemos como a tecla DEL.
Ele estava muito bem no Rio, mas foi passar férias em Parnaíba; as férias devem ter sido maravilhosas, pois ele perdeu os prazos todos para entrar na Faculdade de Arquitetura, ia ser aluno do Lucio Costa; deixou malas no sótão da casa da irmã, nas malas nada menos que 3 telas do Pancetti, deixou tudo, e começou vida nova. (Os Pancetti perdidos são outra lenda na família, imaginamos que ficaram no sótão de Tia Maria Alice até que a casa da Rua Santa Clara foi vendida e derrubada para a construção de um prédio, o fato é que se foram, se perderam)
Vida nova: o novo patriarca, meu tio Zeca, achou que estava na hora do jovem Antonio entrar na realidade, e   o mandou para uma temporada de estudos em NYC. Em paralelo, ele estaria em contato direto com os compradores da preciosa cera de carnaúba, e atuaria, como uma pessoa da maior confiança, como irmão, nas manobras contábeis de super e sub faturamento das exportações.
Ah sim, e também nestas férias que imagino maravilhosas, meu pai conheceu, e teve um namoro, com minha mãe, na festa de 15 anos dela, o que antigamente era um evento, a debutante; isso também é outra história, que merece um capítulo a parte.
Assim, deixando o Brasil, a Faculdade de Arquitetura, as tardes no atelier do Portinari, as telas do Pancetti, o flerte com minha mãe, tudo isso, meu pai aperta a tecla DEL e chega em New York, para um curso na Columbia University e também para trabalhar, controlando de perto os importadores americanos da preciosa cera de carnaúba.
Era época da guerra, NYC não parava, como hoje, mas os homens jovens estavam, em sua maioria, fora, nas manobras da Guerra na longínqua Europa (muita literatura sobre isso, e alguma literatura sobre como ficou NYC vazia neste tempo).
Além de bonito, simpático, inteligente, uma aura de latin-lover, o Antonio se beneficiou da baixa na concorrência, e entre as aulas na Columbia, fazia a vida noturna em uma NYC maravilhosa... The Copa, Jazz in Harlem, Village... Uma das namoradas era modelo da Saks 5th Avenue, e as fotos da linda americana, sulista, com casacos de pele, ficaram com ele; uma carta onde ela diz que precisa casar com o noivo da cidade sulista, mas que se ele, Antonio, dissesse que sim, ela cancelaria o casamento.
Mas ele voltou (DEL), o Brasil, Parnaíba, o Império o esperavam. Trouxe novidades dos USA, hábitos considerados excêntricos pela família patriarcal (um deles, piada na família: em um almoço festivo, mandou servir uma salada de frutas como entrada; o pai, meu avô, apenas perguntou, com a voz rouca, se o almoço estava terminando pois já era servida a sobremesa).
Enfim, o casamento com minha mãe, moram em São Luiz do Maranhão, ele é um grande vendedor, grande negociante, os negócios vão bem, nascem os filhos, crescemos todos. Um casal perfeito, uma família perfeita; ideias avançadas para a época (exemplo, os filhos de todas as familias nordestinas nos anos 1950 eram costumeiramente espancados como método educativo; meus pais conversavam conosco sobre o certo e o errado, o que causava espanto entre as outras famílias).
Anos 1960-70, o auge e a débâcle. Os negócios vão bem, muito bem. Na estreita sociedade de São Luiz do Maranhão, meu pai e minha mãe são referências, em contato sempre com o que há de moderno.
Compram um apartamento no Parque Guinle, no Rio, uma obra-prima modernista; ao mobiliar, mesa de jantar do Terneiro; em temporadas no Rio frequentam a sociedade carioca, e em São Luiz mantém uma casa aberta para os intelectuais e políticos, uma tendência para a esquerda, claro.
Viagens frequentes aos Estados Unidos (meu pai passa a vender também aviões Piper, produzidos na Pensilvânia, e, nos seus quarenta anos, aprende a pilotar e passa a atuar como co-piloto em todos os aviões que importa). Fiz umas viagens destas com ele, e uma lembrança inesquecível é a do meu pai me apresentando o MoMA; me apresentando a NYC que ele tanto viveu, e me incentivando a voltar, a ficar, na Capital do Mundo.
Logo são os anos da ditadura. Uma lembrança, boba, que tenho, é a de meu pai me explicando que naquele ano (1964? 1965?) não teríamos férias no Rio; era o período do arrocho econômico feito pelo Roberto Campos, e a baixa na atividade econômica afetava todos; eu teria que me preparar para viver as férias no Olho d'Água mesmo (tudo bem).
A atividade de meus pais com a intelectualidade logo se torna uma atividade política. Eles se filiam ao MDB (não o PMDB de hoje, fisiológico, mas o autêntico, de combate à Ditadura). Em 1966 participam de uma campanha política, apoiando Renato Archer como candidato a Governador (contra o José Sarney), meu pai como candidato de protesto a Senador obtém expressiva votação e minha mãe é eleita vereadora de São Luiz. Quem ganhou a eleição? e como? o José Sarney que hoje todos conhecem.
Na época, Glauber Rocha esteve em São Luiz para fazer um documentário sobre a eleição do Sarney, o documentário existe e muitas cenas foram aproveitadas em Terra em Transe; o Glauber filmava o Sarney, mas às noites ele ia, com os intelectuais da cidade, à casa dos meus pais, no Olho d'Água, pois era o lugar onde havia uma conversa inteligente, um whiskey do bom e umas casquinhas de caranguejo deliciosas.
Mas a atividade política de meus pais, o combate à Ditadura, teriam consequencias.
Depois da política recessiva do Roberto Campos, o Brasil entra na época do Milagre Brasileiro. Expansão, crédito ilimitado, crescimento, este é um país que vai pra frente, 90 milhões em ação, pra frente Brasil...
Uma combinação fatal para o país, que gastou, se endividou e depois amargou concordatas e hiperinflação. No caso do Brasil, conseguimos nos recuperar, porém para meu pai, a combinação foi fatal. No Milagre Brasileiro, ele foi forçado a expandir ao extremo seus negócios, aplicando em devedores sem condições de saldar suas dívidas; os créditos podres que vimos depois em muitas crises do capitalismo; os devedores não pagaram e ele teve que assumir as dívidas com seu patrimônio. Aliado a isso, as posições políticas dele e de minha mãe não os tornavam exatamente simpáticos para os dirigentes, os ditadores.
Depois, tudo se precipita.
As empresas são fechadas. Oficiais de justiça acossam meus pais com citações. Os devedores aproveitam e não pagam, já que as contas todas vão para meu pai. As autoridades dão respostas negativas, em um massacre com fundamentos políticos. Os credores não fazem acordos, e muitos se aproveitam da situação para comprar "na bacia das almas" bens da família levados a leilão, inquilinos aproveitam para furtar coisas de valor, antiguidades, para se dizer posseiros de imóveis da família. A meta é: calar meus pais, humilhá-los, aniquilá-los.
E em 1977, setembro, a hipertensão do meu pai explode em um AVC. Momentos terríveis, a exigir a união de nós, filhos, em torno de minha mãe, a exigir muito de uma família que, em poucos anos, caiu violentamente.
Meu pai se recupera, mesmo com sequelas. A fala enrolada, difícil, o lado direito com poucos movimentos, o andar claudicante. E o espírito de luta. E começa outra vida, com uma deficiência, fazendo pouco caso das limitações. Recupera o que ele gostava de fazer, artes, a fotografia. Reaprende a empunhar a câmera, uma Nikon analógica; a desenhar, com o lado esquerdo apenas.
Transformado em um andarilho, viaja, sozinho, com sua câmera, pelo Brasil. Viaja, vai aos Estados Unidos várias vezes, visita minha irmã que mora em Atlanta, vai ao Rio aonde moramos eu e minha irmã mais nova, volta a Teresina onde minha mãe fixou residência para tomar conta de minha avó, sua mãe, doente; mas ele nunca é dependente, circula por todos os lugares, fotografa, expõe suas fotografias.
É outra ruptura, desta vez externa, provocada pela doença; que marca uma nova vida para ele; e que ele bem aproveitou, nunca deprimido, sempre animado, sempre disposto, viajando, pegando ônibus e às vezes carona em caminhão, sempre com a sua câmera e registrando o mundo em fotos.
Fotos, fotos, fotos. Meu pai, o Sr. Antonio. Uma obra que evoluiu silenciosa, que se fez de registros, que resistiu a ser calada, que se rebelou, que gritou, que estava à frente, que se alimentou de adversidades e de rupturas, que viveu uma transição entre um mundo patriarcal e um mundo moderno, que investiu nos filhos, na liberdade e no livre-arbítrio dos filhos, para o futuro; ancorado em um passado mas sempre voltado para um futuro; que nos ensinou a, sempre, sempre, nos superarmos. E nos ensinou o valor da tecla DEL. E, principalmente, da tecla FORWARD.
Em 1994, ele se foi. O corpo frágil (ficou um ano inteiro sem consciência, alimentado por tubos, sob a vigilância de minha mãe), as fotos se desbotam, a memória se esvai, as pinturas precisam de restauro, os filhos tem outras prioridades, ninguém mais se interessa pelo Milagre Brasileiro, muito menos pelas vítimas do Milagre, a memória é curta e o tempo é pouco.
Este é meu pai, o Sr. Antonio Severiano de Moraes Correia. Hoje, 90 anos, uma data. Mais que isso, uma presença, inesquecível, não só para mim e minhas irmãs, mas para quem conviveu com ele, em vários momentos, sempre sobrevivendo na adversidade.
Meu Pai. Parabéns. Estamos com você, sempre.

sábado, 5 de setembro de 2009

Diogo Mainardi x Vik Muniz

Acho que sou um pouco retardado, eu vejo os filmes depois que todos já viram, e quero conversar sobre eles como se fossem novidade; eu guardo uma pilha de jornais e vou lendo aos poucos, estou até hoje vendo fotos do ex-namorado da neta do Sarney quando me parece que todos esqueceram o assunto, hoje li um jornal de quando a Argentina estava cheia de mortes na gripe suína, e as pessoas desistiam de viajar para lá; aí vi em outro jornal, mais recente, que este campeonato o Brasil já ganhou, "nunca antes neste país tivemos mais mortalidade na gripe suína do que a Argentina ou os USA, a Europa se curva diante do Brasil, o campeão em mais uma modalidade esportiva, os óbitos pela gripe H1N1", enfim, eu não nego que sou meio retardado.
Então, só hoje tomei conhecimento de uma polêmica que esteve na mídia em maio, o texto do Diogo Mainardi sobre o Vik Muniz, e a réplica do artista, em carta publicada na revista.
Aí vão os textos, cada um faz sua própria análise e toma posição, ou não, apenas se diverte, como eu. E continuo lendo os jornais velhos de minha pilha, e depois vou ver a lua cheia, com uma taça de vinho ao lado, pensando em alguém que está em Paraty.
Thank's God it's Friday!!!

Diogo Mainardi
Mister Maker


"Vik Muniz reproduz a Mona Lisa com pasta de amendoim e a Última Ceia com calda de chocolate.
Em vez de ganhar um programa no Discovery Kids,
ele tem suas obras compradas pelo MoMA"
Mister Maker tem um programa no Discovery Kids. Ele ensina a pintar coelhos e paisagens marinhas usando materiais insólitos como balas de goma, embalagens de ovos e tampinhas de garrafa. Vik Muniz é o Mister Maker do MoMA. Ele reproduz a Mona Lisa com pasta de amendoim e a Última Ceia com calda de chocolate. Em vez de ganhar um programa no Discovery Kids, ele tem suas obras compradas pelo Museu de Arte Moderna de Nova York.
Aleijadinho? Portinari? Hélio Oiticica? Lygia Clark? Ninguém é páreo para Vik Muniz. Ele é o artista brasileiro mais festejado de todos os tempos. Ele está para a arte brasileira assim como Leonardo da Vinci está para a arte italiana. O que já diz tudo sobre a arte brasileira. Vik Muniz valorizou as técnicas mais desprezadas da história da arte: a cópia e o trompe-l’oeil. Primeiro, ele copia, fotografando. Em seguida, reconstrói a imagem colando sobre ela elementos de uso cotidiano, como molho de tomate, geleia de amora e soldadinhos de plástico, em forma de mosaico. O resultado se assemelha às telas de Arcimboldo, o pintor maneirista que compunha figuras humanas a partir de legumes, frutas e livros. Além de ser o Mister Maker do MoMa, Vik Muniz é o Arcimboldo cearense. O Arcimboldo pau de arara.
Nos últimos anos, os artistas brasileiros se espalharam por museus e galerias dos Estados Unidos e da Europa. Vik Muniz é o mais popular de todos. Mas há outros na cola dele. Em particular: Cildo Meireles, Beatriz Milhazes e Ernesto Neto. Inicialmente, eles eram patrocinados pelo Banco Santos, do fraudador Edemar Cid Ferreira. Assim como as mulheres dos deputados, os artistas brasileiros iam a Veneza, Berlim ou Nova York com todas as despesas pagas pelos contribuintes. Agora isso mudou. Eles ganharam o mercado mundial. Em 1891, Paul Gauguin abandonou Paris e foi retratar os selvagens no Taiti. Um século depois, os artistas brasileiros percorreram o caminho inverso: eles representam os selvagens do Taiti indo retratar Paul Gauguin em Paris. Vik Muniz é aquela taitiana com o seio de fora. Ele é aquela taitiana de cócoras. Ele é aquela taitiana segurando uma fatia de melancia.
A meta de Vik Muniz é "romper a hierarquia da arte". É o que ele faz quando pendura uma cópia de Rafael ao lado de uma cópia de Bosch. O mesmo discurso populista e popularesco é estendido ao público de suas obras. Segundo ele, tanto faz se o espectador é um curador de arte ou um bilheteiro. Vik Muniz sempre diz que é um produto do Brasil. E é mesmo. Nós rompemos a hierarquia das ideias, dos valores, dos gostos, dos costumes, das leis. Os outros fizeram a Mona Lisa. Nós a lambuzamos com pasta de amendoim.

E a réplica do Vik Muniz, na seção de cartas do leitor da revista na semana seguinte:
"Eu gostaria de agradecer a Diogo Mainardi pelo interesse e tradicional eloquência com que me criticou (ou elogiou, até agora não sei) o meu trabalho. Agradeço, pois, ao Diogo, que, apesar de pessoalmente ser uma pessoa formidável, intelectualmente é um gabiru recalcado cuja única contribuição para a cultura local tem sido uma constante e enfadonha reinvenção da demagogia como forma de entretenimento. Muito obrigado por me comparar ao Mister Maker. Adoro e recomendo o programa, especialmente para o Diogo, que, como crítico de arte, demonstrou ser confuso e não enxergar um palmo além de parcos estereótipos."

domingo, 23 de agosto de 2009

Lembrando Emil Forman


Início de 1973, eu frequentava o Centro de Pesquisa de Arte, na Rua Paul Redfern, em Ipanema, onde tive meu primeiro contato sério com a arte, nas aulas com o Ivan Serpa, em 1972. Em 1973 este mundo estava ruindo, com a doença do Ivan, que culminou em sua morte, em abril. Uma noite antes da aula a querida Jenny, discretamente como sempre agiu e viveu, me falou de um momento também difícil, e que a família do Emil estava se desfazendo de alguns desenhos dele, uns poucos, apenas para pessoas especiais que poderiam curtir o trabalho... Forço a memória, era logo depois do Carnaval, apenas três ou quatro pequenos desenhos em uma pasta, e as instruções eram estas: "discrição" e "pessoas especiais", já que o Emil não queria vender seus trabalhos; assim pelo menos a família teria mais possibilidade de que depois ele aprovasse o que fora feito neste momento tão difícil.


O desenho que escolhi, uma sutil intervenção com lápis de cor vermelho alaranjado em papel antigo, cheio de marcas do tempo; para ser visto sem um cima/baixo fixo (quatro pequenas assinaturas nos quatro lados do papel marcam esta volatilidade). O tema: nuvens? pedras? um mistério, formas levemente orgânicas em suspensão, em atração e repulsão, em um espaço marcado pelas manchas do tempo no papel antigo.

Nas aulas do Ivan o Emil sempre chegava tarde. Muito jovem, tinha então 20 anos, mas já a personalidade forte e o trabalho definido; muito branco, louro, alto, sempre com roupas escuras; tom de voz baixo, porém seguro, sem timidez; uma suavidade, uma certa aloofness que sempre foi sua característica; mas sob a suavidade estava uma pessoa forte, determinada, precocemente maduro; vindo de um debacle de uma família tradicional, muito rica, uma aristocracia carioca que muito perdera nas mudanças da economia na década. A aula estava pelo meio quando ele chegava, com uma pastinha debaixo do braço; o Ivan perguntava, "trabalhou, Emil?" ele sorria como que envergonhado e dizia, "fiz uns desenhos de ônibus", abria a pasta e mostrava dezenas e dezenas de desenhos feitos com canetas hidrográficas, possivelmente criados em um banco do fundo de um ônibus que o traria da Praia do Flamengo a Ipanema; e os desenhos eram as mesmas formas, nuvens? pedras? só que em um tratamento mais gestual (como os desenhos feitos depois em NYC que são uma parte mais conhecida da obra do artista); os desenhos passavam de mão em mão, um silêncio reverente se fazia, e o Ivan aprovava; um dia alguém falou, meio sério meio boutade, que as formas seriam "desenhos de cocô"; se esta fosse realmente a temática, seria uma antecipação em mais de 30 anos ao Copromanta Jonas da Patrícia Melo.
Enfim, naquela noite escolhi o desenho. Após a convalescença do Emil, conversei com ele sobre o desenho que estava comigo, sobre o mistério das formas, a poesia do lápis de cor suave sobre o papel gasto, as alternativas para exibi-lo; reciclei uma moldura antiga, discreta; e ele achou que estava bom.
No decorrer de 1973 nossa amizade se estreitou, depois o Emil foi morar em Paris, depois em NYC, e em uma época onde não havia email, voip, facebook, nosso contato continuou intenso porém esporádico. Tenho até hoje comigo pequenos desenhos (um lindo caju em uma folha de caderneta de anotações e outros), objetos (fotos ready-made), um envelope onde fizemos em lápis de cor um trabalho conjunto (um cadavre-exquis)... e principalmente lembranças, boas lembranças, fortes lembranças...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Uma aula do Ivan Serpa


Um dia, o Ivan trouxe um exercício para os alunos das aulas que ele dava nas noites de 2as.feiras, no Centro de Pesquisa de Arte, na Rua Paul Redfern, em Ipanema, no início dos anos 1970. A turma da tarde era a que nós (os então "alunos jovens") chamávamos de "a aula das Madames" (mas foi nesta turma que foi descoberto o tardio e grande talento de Grauben do Monte Lima, Maria Luísa Serra de Castro e outras). Já a aula da noite era uma festa: os jovens artistas e os aspirantes a artistas; as pessoas que apareciam para assistir uma aula e às vezes saiam chorando e não mais voltavam; alguns que apareciam esporadicamente mas já eram alunos de longa data do Ivan; algumas personalidades excentricas ou fronteiriças... E para os que ficavam após encerrada a aula, mais conversas, discussões; uma rodada de chá de jasmim feito pela querida Jenny, sobre a qual falarei em outro post; Bruno Tausz ia levar o Ivan em casa, em seu fusca; e em sua volta, mais chá, mais conversas sobre arte; os livros de arte, tesouros comprados na Livraria Leonardo da Vinci, passavam de mão em mão ou eram fotografados em slides e viravam "audio-visuais", nossa janela para o mundo das artes internacionais em uma época pré-internet; a noite era uma criança; eu era vizinho, em meu primeiro apartamento (alugado) no Jardim de Allah, assim não tinha hora para voltar para casa; Ipanema era uma vila e o Rio uma cidade sem problemas de segurança, onde se podia tomar chopp em pé em um boteco, ao lado de Leila Diniz.

Naquela aula, o exercício trazido pelo Ivan era: "vamos todos pintar em jornal". E devíamos recolher jornais, pintar sobre eles, recobrindo as palavras, ou deixando parte delas, aproveitando as imagens ou ocultando-as, páginas simples ou páginas duplas, temas livres, usando os temas dos jornais ou criando novos temas, novas relações, novas cores. Um exercício de composição, depois entendi, e parente direto dos "flans" do Antonio Manuel (que tantos trabalhos fez em conjunto com o Ivan). Na época, o objetivo do exercício passou meio despercebido da maioria, acho eu. (Emil Forman pintou sobre jornais à moda dele, interferindo sutilmente com cores pálidas de aquarela e lápis de cor nas reportagens e fotos de jornais populares); eu tentei umas coisas conceituais como o que eu fazia na época, aproveitando textos e imagens levemente politizadas (era o império dos anos de chumbo); outros foram para as apropriações expressionistas... enfim.
Mas durante uns meses todos nós "pintavamos em jornal" (o diálogo era comum entre nós: "o que você tem feito?" - "ah, tenho pintado muito em jornal"). Nas aulas, cada um de nós levava dezenas de jornais pintados, e mostrava para o Ivan e para o restante da turma, um a um, como se estivesse mostrando obras primas, e ouvia os comentários, às vezes ácidos, mas sempre pertinentes.

Um dos alunos (para nós, jovens à época, era "um senhor" - devia ter talvez menos que a minha idade hoje) se empolgou muito com os trabalhos dos jovens artistas; ele tinha uma loja no centro da cidade, no Saara, acho que alguma coisa de móveis e decorações, e a cada semana levava as dezenas de jornais pintados para expor e vender (a um preço bem acessível) em sua loja. Eu realmente não me lembro se alguém comprou algum dos jornais pintados e assinados como obra por jovens artistas então desconhecidos; de repente alguém tem, sem saber, no quarto de despejo, uma "técnica mista", assinada, datada, que poderá alcançar um preço até razoável em um leilão.
Depois de alguns meses, quando a febre do "pintar em jornal" estava no auge, em outra aula da noite, Ivan falou: "agora chega de pintar em jornal..." e lançou outro exercício...
Para mim, até hoje, abril ("the crudest month" para T.S.Eliot)
tem duas datas que fazem lembrar Ivan: hoje, dia 6 de abril, ele, nascido em 1923, faria 86 anos; e no dia 19 de abril estaremos a 36 longos anos daquele quente abril de 1973 quando ele se foi, vítima da fragilidade física do seu coração tão generoso, deixando todos nós meio órfãos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Todos os Prazeres


Conheci Mark e Beth Walton há muito tempo (final dos anos 1970), em Arraial do Cabo, RJ, onde tive por décadas uma casinha de pescador que aos poucos reformei; eles moravam perto de minha casa, na areia da Prainha, e Arraial ainda era uma cidadezinha tranquila, "um paraíso" como dizíamos, nadando nas águas tranquilas e mornas da Prainha ou nas águas agitadas e geladas da Praia Grande.
Mark e Beth eram professores de inglês em Cabo Frio (ela, carioca do Leblon; ele, um inglês bem inglês), e para complementar a renda, abriram o que no início era um restaurante caseiro, na sala de jantar e varanda da casa onde moravam. Serviam: Pratos feitos (PF) com peixe, arroz, feijão e batata frita; saladas; bolinhos de bacalhau, cerveja bem gelada; uma conversa interessante e culta; lembranças e fotos de viagens. Mark era fotógrafo, tinha feitos cursos no Parque Lage, o que era um ponto em comum comigo. Um lugar perfeito para um almoço tardio após uma praia deliciosa. E o nome do restaurante, um achado: Todos os Prazeres (às vezes escrito, claro: All the Pleasures).
Com o tempo, Mark e Beth foram ampliando a casa e o restaurante e também ampliando o foco de suas viagens (Grécia, Índia, Marrocos, Tailândia, Turquia, Jordânia, Bali...). Deixaram as aulas de inglês para se dedicar totalmente ao restaurante; e o restaurante cheio no verão (um trabalho extenuante para eles e a pequena equipe) possibilitava as viagens de 2 meses por destinos exóticos, de onde traziam receitas, temperos e histórias sempre interessantes. Com o sucesso da culinária, puderam melhorar o padrão do restaurante e torná-lo mais exclusivo: a primeiras "vítimas" foram as batatas fritas e os PF, substituídos pelas receitas novas e criativas. Começaram a trabalhar com reservas, a não aceitar aqules grupos grandes de mesas com muita cerveja e barulho e poucos pratos. De cozinheira, Beth se tranformou em uma chef, com muita pesquisa, estudo e experimentos, e sobretudo um bom gosto ímpar.
Como vizinho, amigo e frequentador de todos os finais de semana, logo me tornei o "cobaia" de receitas novas, o que era um ritual sempre renovado: no cardápio, um prato novo; pergunto detalhes, hesito, me decido, peço; provo, sentindo a expectativa da garçonete (querida Regina) e intuindo a expectativa da Chef no seu santuário; meu sorriso de aprovação é levado pela Regina, já aliviada em sua expectativa; e ao final da refeição, Beth vem à mesa me ouvir, discutir comigo minhas impressões sobre a novidade no cardápio. Alguns pratos saem do cardápio, mas para mim estão sempre disponíveis, pois são os meus preferidos e afinal eu sou amigo, vizinho, de casa...
E novidades inesquecíveis: moqueca de jaca mole (as línguas de jaca em seus caroços, o curry e o dendê, um prato de inspiração indiana em sincretismo com a Bahia); jabá com jerimum desconstruídos (finas lâminas de abóbora al dente com carne seca cortada bem fina, quase um carpaccio); coelho com molho de chocolate amargo; couscous marroquino; postas de peixe com molho de tamarindo; framarão (prato tipo um yakisoba, com pedaços de peito de frango e camarões enormes)... Bem, e estou falando dos anos 1980, hoje alguns destes pratos já são mais familiares, mas na época eram total novidade; ainda não havia a abertura para importações, assim alguns ingredientes eram trazidos nas malas das viagens do casal. Foi a primeira vez que comi o couscous fora do Marrocos; hoje vende em supermercados, mas na época eles trouxeram caixas e caixas, de uma viagem; e o prato ficou no cardápio só enquanto durou o estoque. Outros ingedientes eram improvisados ou pesquisados (por exemplo, a pimenta rosa, colhida por eles em Búzios)...
Nos anos 1990, a cidadezinha cresceu, e creceu mal: favelização, escalada de violência, tráfico, invasões; o fechamento da Álcalis, a empresa em torno da qual Arraial começou, nos anos 1940-50, acelerou este processo: menos empregos para os moradores, em especial os jovens; invasões, condomínios imensos sem respeito ao meio ambiente, lixões, foram ocupando os terrenos que a Álcalis antes ocupava e preservava, manchando irreversívemente as dunas; e o populismo dos políticos; destruindo o maior patrimônio da cidade: sua beleza natural, sua tranquilidade; transformando a cidade perfeita para um turismo diferenciado em uma cidade para um turismo predatório.
Uma noite inesquecível: depois do Carnaval, findo o verão, a cidade esvaziava, era o período em que eu gostava de tirar férias e ficar os ainda longos e quentes dias ao sol, na praia quase deserta, lendo o meu Proust, tomando cerveja bem gelada. Em um destes dias, numa 2a.feira, o dia em que o restaurante não abria, o convite para jantarmos com Mark e Beth. Pela primeira vez subi as escadas que separavam o restaurante da área privativa do casal; e a noite foi de um menu degustação (também isto era uma novidade na época): dezenas de pratinhos individuais com pequenas porções das especialidades da Chef, algumas no cardápio, outras experimentais, outras feitas personalizadamente para os convidados. Vinhos fantásticos, também trazidos de viagens (nas férias eles sempre somavam aos destinos exóticos uns dias de Europa), outras bebidas diferenciadas (um cocktail feito por eles para mim exclusivamente, era o que chamávemos de "Limpol": um coquetel com cor e aparência verde brilhante do desinfetante com esse nome, um aroma de menta, e que tinha o poder mágico de secar minhas lágrimas), música de países distantes... Uma conversa sobre o futuro, sobre a preocupação deles com a transformação de Arraial, com as dificuldades com vizinhos que poluiam a praia, se sentem "espremidos", o Todos os Prazeres está ficando quase que como um ilha de calma e classe em meio a uma selva barulhenta e hostil... e os desejos de um futuro em outro lugar que se parecesse à Arraial de antigamente... Uma noite onde partilhamos, Beth, Mark, Sebastian e eu, de uma intimidade e de momentos mágicos, que pareciam eternos e que, depois eu compreendi, eram como que um prelúdio de um fim.
Alguns meses depois, Sebastian morre. Mais alguns anos e coloco à venda a minha casa, minhas idas a Arraial passam a ser bem espaçadas, agora quero conhecer outros lugares - Paraty, Ilha Grande, Penedo... Por amigos comuns sei que Mark e Beth conseguem vender o restaurante, um bom negócio, e saem do Brasil para sempre, com primeira parada em Londres, mas em busca de outros novos paraísos onde recomeçar o seu sonho.
O restaurante continua, o novo dono mantém o nome, o cardápio, a Regina e demais funcionários (uma preocupação de Beth e Mark); aos poucos, porém, teve que fazer adaptações. O livro de receitas acabou sendo só um projeto. Hoje, vejo na internet, o Todos os Prazeres é uma pousada.
Em 2006, antes de vir morar em Brasília, fui rever Arraial, depois de anos sem ir à cidade. Revi minha antiga casa (irreconhecível, pelo menos não cortaram as árvores), fui à Prainha; revi, de longe, o Todos os Prazeres...
E em final de 2006, a notícia chega a mim, atrasada e arrasadora: Mark e Beth haviam descoberto o novo paraíso, abiram seu novo All the Pleasures em Bali, na Indonésia, e estavam indo bem com o restaurante. Até que veio o tsunami de dezembro de 2004, devastando o Oceano Índico e fazendo centenas de milhares de mortos, deixando milhões de desabrigados... não sei de mais detalhes, apenas imagino em minhas noites de insonia, o que sei é que entre os mortos no tsunami estão meus amigos, Mark e Beth Walton, mortos ao trabalhar para reconquistar seu paraíso destruído. O paraíso que todos nós perdemos, e que hoje existe apenas em minha memória.

(Escrevi este post em fevreiro de 2009. Agora, em início de 2010, um email trouxe um desfecho inesperado para a história, clique aqui para ler o novo post sobre esta reviravolta)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Um email do Gonçalo Ivo

Por estes dias, recebi um email, de Paris, do pintor Gonçalo Ivo, meu amigo de longa data:
(...) Adorei ler seu texto, fluido como o Rio de Janeiro da minha juventude, em que os amigos se reuniam, viam as novidades no cinema, vc se lembra? The Police, chopp, Ipanema...
Li ontem e o contraste com a neve e a rigidez parisiense era enorme...
morri de saudades (...)

Esta Rio que o Gonçalo rememora era nos anos 1980, íamos ver umas sessões especiais de meia-noite no cinema do Centro Cultural Cândido Mendes, que passavam em primeira mão vídeos (VHS mesmo) de conjuntos que estavam aparecendo na cena musical, foi aí que vimos e ouvimos pela primeira vez o The Police... Depois voltávamos a pé até meu apartamento na Vinícius de Moraes, onde Gonçalo havia deixado o carro estacionado, tomávamos uma saideira no Nelson ou em um pé sujo, e ele voltava para seu apartamento em Santa Teresa, tudo tranquilo, sem violência, bonde, arrastão... e muitas discussões sobre arte, música, cinema, pintura, aquarelas (Gonçalo dava aulas de aquarela no MAM, um dia me chamou para mostrar meu trabalho para os alunos e depois me deu um presente, uma linda aquarela da série das bandeiras).
Farei um post especial sobre esta amizade.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Rubens Gerchman


No início dos anos 1980, tive o privilégio de ter como professor o grande pintor Rubens Gerchaman. No MAM, ainda sofrido com a difícil reconstrução após o incêndio. O tema do curso era "pintura em grandes dimensões". Os encontros eram no salão com lambris de madeira onde hoje funciona o restaurante Laguiole. Na turma, o Marcus André, que eu já conhecia do Parque Lage e que se firmou no meio das artes brasileiras com seu forte trabalho com pintura.
Os encontros eram muito interessantes, desafiadores; para mim, que vinha de um trabalho cerebral, conceitual, de um desenho meticuloso em pequenos formatos, tuda era uma verdadeira revelação. Em uma época onde ainda não tinha entrado em moda o culto ao corpo, ao dançar, onde ainda havia na arte brasileira uma separação entre a "arte séria" e a "diversão", a abertura das aulas era um trabalho de soltura do corpo, com um pouco de automassagem, de expressão corporal, de dança livre, como uma preparação para o gesto largo que íamos exercitar no restante da aula.
Em algumas aulas o modelo vivo (uma linda mulher, morena, cabelos longos e um corpo mignon e fantástico) não ficava extática, como os modelos vivos em poses rígidas das aulas tradicionais; ela dançava, movimentava seu corpo em uma marcha como que de danças orientais, e a turma desenhava traços largos, soltos e rápidos, para tentar capturar o movimento da modelo.
Usávamos marcadores (os pilot, na época chamados de "pincel-atômico") presos na ponta de bastões de bambu, para levar o traço à extensão máxima. Pintávamos sobre enormes bobinas de papel kraft, e nossos traços se misturavam uns aos dos outros. Acompanhando os trabalhos práticos, havia discussões sobre arte, sobre o que estava se fazendo na arte mundial, sobre as muitas viagens do Rubens e o que ele tinha visto e aprendido, na Europa, NYC ou no Oriente.
Foi uma experiência muito enriquecedora. Algumas coisas só vim a entender algum tempo depois, e muitas coisas aprendidas só fui utilizar efetivamente após retomar meu trabalho depois de vários anos de silêncio, mas muita coisa ainda está aqui comigo e certamente ainda me alimentará por um bom tempo.
Depois, continuei a manter o contato com o Rubens e com seu trabalho, que tem um espaço garantido na história da arte brasileira.
Hoje faz 1 ano que, em 29/01/2008, Rubens Gerchman nos deixou, após uma luta contra uma doença fatal. Mesmo doente, não esmoreceu, continuou a trabalhar e a manter o espírito inquiteto e inovador. A exposição póstuma na Galeria Pinakhoteke, com os trabalhos feitos na Índia, é uma prova disso. E é lindo ver os trabalhos sobre o Kama Sutra, um grito do artista de que o eros pode vencer o thanatos. Estes trabalhos, com os corpos entrelaçados das frisas indianas, me remetem diretamente àquelas manhãs no MAM, ao movimento da modelo registrado pelos alunos nas bobinas de papel kraft, as diversas visões do corpo feminino se sucedendo, como os corpos indianos das frisas que o Rubens usou e transfigurou em seus últimos trabalhos.