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domingo, 18 de julho de 2010

Muitos cavalos, muitos textos, muito trabalho

Hoje, sábado chuvoso no Rio, vontade de ficar na cama mas um compromisso me acorda cedo; elétrico, enfrento a chuva e o metrô para o Laboratório de Vivência Literária, um workshop de dia inteiro com o escritor Luiz Ruffato, na Estação das Letras.
Como preparação para a atividade, os participantes deveriam levar um texto, de preferência um conto, com até 6000 caracteres (ah meu Deus, sempre este stress de contar toques), e isso em uma semana que para mim foi cheia de trabalhos, cursos e eventos, além de uma inesperada noitada de 5a.feira depois da abertura de uma exposição. É bom sair, em companhia agradável, beber, chegar em casa com o dia claro; mas a 6a.feira, o dia em que eu contava para burilar meu texto, se tornou muito curta. Paciência.
Eu vasculhei meus arquivos no computador, incrível, tantos textos inacabados ou enormes, muito acima das duas laudas. Muitos fragmentos, para desenvolver ou dar um sentido só tendo uma 6a.feira de 48 horas. Muitos textos "fortes", politicamente incorretos, e eu não quero repetir a experiência de ter sido tão patrulhado na Oficina de Crônicas que fiz no início do ano.
Finalmente, um texto que é um fragmento de um trabalho maior, um romance que planejei em meu exílio em Brasília e que deixei de lado ao voltar ao Rio. O título (provisório, claro) do romance é "Doce B. e o Tigrão". Risos, o efeito meio cômico é o desejado mesmo.
E o trecho com mais 12 mil caracteres, incluindo espaços, tem as cartas que o narrador troca com sua sogra e seu irmão, e que narram sua adaptação em uma nova vida, tentando esquecer sua tragédia; e que pouco a pouco são substituídas por emails que são a transição do narrador para novos interesses, e a preparação para a entrada em cena de um novo personagem, o Tigrão. Ufa.
Dito assim, difícil fazer caber o texto nos 6 mil caracteres, mas foi o que fiz na 6a.feira: cortar, cortar, cortar. Cortar o irmão, no romance faz muito sentido mas neste conto que estou produzindo não acrescenta, só dispersa. Resumir as cartas a apenas três, três momentos chave na nova vida que o narrador procura desesperadamente. Finalizar com o que no romance está em outro trecho, a descrição da tragédia.
E, ao final, ver que faz sentido. Nada como trabalhar com restrições de número de toques e com deadlines.
Tarefa cumprida, meu texto impresso a tempo, protegido da chuva e também no pen-driver para maior segurança, aqui estou eu.
Li pouco, muito pouco, do escritor Luiz Ruffato. Apenas o livro da coleção Amores Expressos, Estive em Lisboa e Lembrei de Você, muito bom. E agora, motivado pela expectativa do workshop, comecei a ler seu principal livro, Eles eram muitos cavalos. Uma pauleira. Um livro que se começa e não se consegue parar, um clima de tensão constante; um mosaico, um caleidoscópio, uma cidade e seus personagens, cada personagem falando em sua própria linguagem e tudo se somando em uma cacofonia de uma São Paulo, uma megalópolis que poderia ser qualquer outra, ou não.
Treze alunos, doze textos (uma moça não conseguiu escrever, diz; outra ia ceder para ela um dos dois textos que trouxe, mas desiste). Tiradas as cópias dos textos, cada um começa a ler o seu; vem os comentários, inicialmente tímidos, cortezes; depois mais incisivos, mas sempre pertinentes. Ruffato é um bom moderador, mais que isso, é um leitor muito sagaz, nesta primeira leitura, rápida, ele extrai do texto as fragilidades, as inconsistências e os pontos positivos; não dói, pelo contrário, é desafiante ouvir que meu texto, de certa forma feito meio que "nas coxas", pode ser melhorado, com um trabalho de alguma reescrita.
Os textos lidos vão de uma densa viagem interior sobre um relacionamento a uma seca descrição de uma tarde em um bar de periferia; entre estes extremos, textos que dão vontade de continuar a ler, ou que são pesados mas que podem servir de base para um novo trabalho; ou que são totalmente perfeitos em seu humor e o que poderia ser (ou não) memória de um final de adolescência e passagem para a vida adulta.
O trabalho flui bem, o medo que eu tinha de não se conseguir ler e comentar todos os textos se mostra infundado, terminamos apenas 10 minutos depois do horário marcado, e ainda tive o prazer de, no breve intervalo para o almoço, comer um quibe na mesa do escritor e ouvir alguns causos interessantes de Minas Gerais.
Três dos participantes do workshop já são veteranos desta atividade com o Ruffato, e a qualidade de seus textos mostra isso, esta evolução. Bom, vou reescrever meu texto, e volto no próximo com outro texto mais bem trabalhado.
E algumas lições que levo para casa, a partir do que nos disse Luiz Ruffato:
a) Ler muito
b) Buscar interlocutores, outros escritores com os quais me identifico
c) Escrever sempre
d) Disciplina
e) Reescrever
f) Tentar sempre compreender que história está tentando ser contada
E o meu conto? Em princípio, Três Cartas e uma Memória. Vou reescrever, e quando achar que está razoável, publico aqui no blog.
Enquanto isso, disciplina; e as lições acima valem também para pintura. O que faz a pintura é o que faz o bom texto: trabalho, trabalho disciplinado e prazeroso, que envolve o corpo e alimenta o espírito, que exige estar sempre ligado, sempre buscando os interlocutores, na literatura e na história da arte.
Um árduo caminho, uma escada íngreme e estreita, a sensação do ar cada vez mais rarefeito e o prazer de (1) chegar lá (2) ver que ainda há mais escada para escalar, e que o "lá" é sempre além.


Clique aqui para ler as crônicas que produzi na Oficina de Crônicas, Dever de Casa e Carnaval de Antigamente.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Carnaval de Antigamente

Carnaval bom era o de antigamente, penso; só penso, não falo nem comigo mesma, se me ouvem vão dizer que a velha está com Alzheimer e me internam. Mas é verdade, tenho fotos em algum lugar, se os pestinhas dos meus bisnetos não destruíram.
O Rio naquele tempo era outro, bem diferente de hoje em dia. Paisagem linda, praia limpa, pouca violência. Eu saía com minhas amigas para a praia, um barzinho, meus pais dormiam tranquilos, não tinha perigo nenhum. Anos depois, minha filha nervosa sem saber o que podia acontecer quando meus netos saiam, com os meus bisnetos pior ainda, hoje os pestinhas nunca saem do Condomínio, nem conhecem direito o Rio.
E o Carnaval era assim, três dias de folia e brincadeira, eu e minhas amigas, fantasias produzidas, os rapazes abordavam mas a gente só queria saber de se divertir, pular e dançar, beber um pouquinho, claro, mas nada excessivo.
Não posso nem falar, contar coisas do Rio antigo, os netos vão achar que estou mentindo. Minha filha não, ela ainda viveu um pouco deste tempo bom. Colocava uma fantasia nela e íamos, eu, meu marido e ela, ver o Carnaval de rua, os blocos, ela morria de medo das máscaras, meu marido me abraçava e dizia “lembra que a gente se conheceu no Carnaval?” como eu ia esquecer, não esqueço nunca aquele Carnaval.
Nem mesmo depois que ele foi morto pelo governo eu deixei de levar minha filha para ver os blocos, saudade louca dele, ainda sinto, sempre vou sentir, basta fechar os olhos e vejo.
Hoje não tem mais aquela pureza, aquela alegria autêntica, é tudo falso e artificial. Vejo, ouço meus netos falarem, tenho medo de sair nestes dias de Carnaval, a cidade fica entregue, o jornal só fala em mortes e conflitos. Ouço o barulho na rua e não tenho coragem nem de ir até a janela, quanto mais até a rua.
O barulho da rua está maior, deve ser um bloco enorme cercando o prédio. Os gritos me apavoram. Mas não quero deixar este bairro por nada, nasci aqui, conheci meu marido neste bloco, prefiro morrer aqui do que me enterrar nestes Condomínios distantes. Depois que meus netos levaram minha filha para morar com eles eu sei que ela está morrendo aos poucos, quem mandou vender o apartamento quando meu genro morreu e dividir o dinheiro com eles? Isso eu não fiz, a única maneira de me tirarem daqui é dizendo que eu estou com Alzheimer, por isso não falo nem baixinho que Carnaval bom era o de antigamente...
...como o Carnaval em que conheci meu marido, me lembro perfeitamente, os detalhes, até a data. Nós já nos víamos na praia, mas eu era muito novinha, gostava de esportes, de correr, e ele era metido a intelectual, sempre lendo ou escrevendo, mesmo na praia. No domingo antes do Carnaval ele me ofereceu um chopp, fiquei nervosa e não aceitei. Na semana seguinte, no bloco, aceitei o chopp, ficamos conversando, minhas amigas acharam ele feio e bobo mas ele era tão engraçado e carinhoso que ficamos juntos o Carnaval inteiro, depois noivamos, casamos quando ele terminou a faculdade de Letras, tudo no devido tempo... Não esqueço mesmo aquele Carnaval, o Monobloco, o ano é fácil de lembrar, foi o ano em que o tempo mudou de vez, verão quente que não acabava, o gelo derreteu e o mar subiu, de repente, o Rio invadido pela água, dizem que ficou mais bonito ainda, eu não acho. Fácil lembrar, eu tinha 18 anos em 2010, hoje tenho quase 100 mas vou resistir, mesmo que não possa dividir com ninguém minhas lembranças ou que os pestinhas tenham deletado todas as minhas fotos.




Escrevi o texto acima como um dos exercícios para um Workshop, Oficina de Crônica, com o Prof.Felipe Pena, que fiz recentemente, na Estação das Letras
Clique aqui para ler o texto com os comentários dos demais participantes do Wokshop
Clique aqui para o blog onde estão todos os textos do Workshop
O tema deste segundo exercício foi Carnaval, e tentar um texto mais perene para um evento tão perene. Fiz um link com a crônica anterior, que só se revela no final, e continuou a polêmica que o primeiro texto causou entre os participantes do Workshop, mesmo eu tendo usado personagem decididamente não-autobiográfico (como aliás é o personagem da crônica anterior)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Dever de Casa

Tenho um dever de casa, com prazo: segunda-feira, 19h. Tudo bem, hoje ainda é domingo, meio-dia. Se eu não tivesse saído ontem, farra, Lapa, dormi tarde e sozinho. Hoje é um dia de sol, e eu tendo que escrever um texto, máximo de 4500 caracteres com espaços, disse o Mestre, sobre um tal manifesto que está na internet.
Faço um café, leio o manifesto, de um Grupo Silvestre (bem que podia ser Grupo Praiano, rio comigo mesmo e queimo a língua com o café quente) e é “em defesa da narrativa, do entretenimento e da popularização da literatura”. O caderno de esportes fala do jogo de hoje, um clássico, e eu aqui, sem mulher, com dever de casa e a praia que deve estar cheia de gatinhas.
Ideia brilhante, levo o netbook para a praia, o governo fala em wireless na orla toda, leio o manifesto, faço o texto e ainda tiro uma onda de bill gates com as gatas.
Um lugar na sombra do quiosque. O manifesto logo no item 1 diz que “entretenimento é sedução pela palavra“. Sedução é esta morena que parou do meu lado, fazendo alongamento. Leio o manifesto, sedução, sorrio, leio, ela finalmente olha para mim, sorri e começa a correr… se não fosse o netbook e a farra de ontem eu ia correndo atrás dela, ao lado dela, até o final do Leblon, até...
Volto ao manifesto. “Acessível a uma parcela maior da população“. “Experimentalismos vazios não nos interessam“. “Formação de leitores assíduos“.
“Oi, tudo bem, você vem sempre aqui neste quiosque?”, aproveito a ideia que o manifesto me deu e começo a conversa com uma menina que sentou do meu lado. Ela sorri e responde: “Venho sim, meu noivo joga volei naquela rede”, aponta para o noivo que parece um pit-bull, malhado daquele jeito deve ser gay ou débil-mental, eu penso mas digo apenas “legal, boa praia para você e seu noivo“, volto ao manifesto.
Uma elite que dita regras, cria rótulos e se autoenaltece em resenhas mútuas, eventos e panelas”. Um chopp. Uma ideia para o texto, esta questão da elite, luta de classes, sempre pega bem citar Marx (“proletários do mundo das letras, uni-vos”), vou batucando no teclado e tomando o chopp que é ótimo para o calor e para as idéias, cito até o Deleuze, que o Mestre tem cara de quem gosta do Deleuze...
Delícia sim é esta gringa que para no quiosque como perdida. Ofereço um chopp e descubro que é uma argentina meio hippie que está procurando lugar para ficar, barato ou de graça, na Zona Sul em pleno verão. Desconverso, já me dei mal com hóspedes, indico o Chez Lagarto, logo ali, por via das dúvidas deixo meu telefone para ela me ligar mais tarde, conhecer a Lapa comigo. E volto, bem animado, ao texto.
O autor pode e deve se esforçar pela disseminação de sua obra”. “Enredos ágeis e cativantes”. Outro chopp, bem rápido, e lá vou eu, ágil e cativante no teclado, devo estar com uns 1500 caracteres, não tem mínimo de caracteres mas se o máximo é 4500 é bom chegar a pelo menos uns 4000. São os tais processos de produção que o manifesto diz que pelos quais devo me interessar, além do marketing e distribuição. O título da obra deve chamar a atenção do leitor e despertar a vontade de chegar até o livro. Posso chamar o texto de “Manifesto sob o sol”, será que chamará a atenção do Mestre? Outro chopp.
Volta a morena corredora, cansada, suada, ofereço um chopp e ela me olha com nojo, eu deveria ter oferecido um gatorade, agora já era, a gata foi e eu continuo no manifesto e no texto.
O desejo soberano de ser lido”. Isso é bonito, parece música do Cartola, posso citar o samba como o exemplo do conflito entre criação e diluição, entre arte e indústria, me empolgo e mais uns 800 caracteres, acho que esta parte do texto ficou meio sem pé nem cabeça, nada que uma revisão não resolva, o importante é que estou concluindo meu dever de casa e ainda por cima me divertindo neste domingo de praia, só tenho que pensar em um Plano B caso a argentina não ligue para irmos à Lapa.
 Maniqueísmo que produz distorções, afasta leitores e joga sua névoa sobre o mundo literário.” Respiro fundo, peço outro chopp, ao longe ouço fogos, deve ser o jogo começando, mas o chopp não vem, o rapaz do quiosque sumiu, olho para a praia e todos estão correndo em minha direção, demoro a perceber no barulho da multidão a palavra “arrastão!”.
Agarro o netbook e corro também, cadê o netbook? procuro, já era, pegaram na confusão, e eu nem terminei de pagar nem tirei back-up e o pior é o texto que estava tão bom e se foi.
Bom, pelo menos bebi chopp de graça a tarde inteira. E pode ser que a hippie ligue.


Escrevi o texto acima como um dos exercícios para um Workshop, Oficina de Crônica, com o Prof.Felipe Pena, que fiz recentemente, na Estação das Letras
Clique aqui para ler o texto com os comentários dos demais participantes do Wokshop (causei polêmica...)
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