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sábado, 4 de junho de 2011

Dona Paula

Um pedido de uma amiga é uma ordem. Daniela Name pediu a quatro pintores cariocas algumas frases ("três frases, sintético mesmo", ordenou) para seu blog sobre a exposição da artista portuguesa Paula Rego na Pinacoteca de São Paulo. Os artistas: Patrizia d´Angello, Bruno Miguel, Jozias Benedicto e Raul Leal.
Uma das super-exposições que vi em São Paulo na intensa semana da SP Arte. E que não virá ao Rio, shame! shame! Como a do Leonilson no Itaucultural de SP, maravilhosa, e a do Gerhard Richter (que está na Caixa Cultural de Brasília e que vai a São Paulo e até a Salvador). Será que é porque ainda somos um balneário? Enfim, nada que uma passagem com desconto ou com milhagem não resolva, mesmo se for uma ida bate-e-volta a SP como fiz em horários absurdos mas a preço mais-barato-que-o-Expresso-Cometa.
Os textos estão no blog da Daniela Name, ao lado da análise, como sempre enriquecedora, feita sobre a trajetória e a obra da artista, complementada com boas imagens de algumas obras expostas.
Aqui vai o meu texto, um registro apenas de uma exposição marcante, inesquecível, de um trabalho forte e visceral, ao mesmo tempo eterno e tão contemporâneo.
"Domínio técnico completo: óleo sobre colagem, tinta acrílica, desenho, pastel, gravura em ponta-seca, água-forte, lito. Mas o trabalho de Paula Rego é muito mais que isso, que o virtuosismo técnico. É o desvendar de um universo completo em sua estranheza e pervesidade, infantil e adulto, mulher e homem e andrógino, feto abortado e animais à espreita, personagens de contos de fada e de Sade. Em salas e quartos de classe média-alta, famílias se dedicam a jogos dúbios, de prazer e de horror, enquanto sobre o tapete passeia um inocente animal de estimação, um pequeno javali de dentes afilados ou a filha masturba a bota do pai ao engraxá-la. Bailarinas musculosas, um anti-Degas, ajeitam os tutus e se preparam para entrar em um palco  que nunca aparece, o espetáculo é a espera do espetáculo. Mulheres que abortam, solitárias, dor e sangue discretos, recolhidos, fetos, bonecas destruídas, criaturas do mar. Azulejos portugueses, Portugal que lida com as décadas de brutal repressão e atraso, a tristeza do fado e a nostalgia de um antigo império hoje decadente, a herança moura, os muxarabis, as mulheres encarceradas. Uma exposição para ser vista e revista, com vagar, mergulhando neste mundo cruel e pulsante, ameaçador e ao mesmo tempo tão familiar, de histórias infantis, de dores e de sangrar. Ao mesmo tempo um mundo tão real: basta olhar em volta. Basta ter olhos e ver. Ou fechar os olhos e sonhar os pesadelos de Paula Rego."


Clique aqui para o blog da Daniela Name, uma referência em comentários, notícias, tudo sobre arte

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pinturas 2009-2011

Admirava as pinturas medíocres, bandeiras de portas, cenários, telões de saltimbancos, letreiros, iluminuras populares; a literatura antiquada, (...) romances do tempo da avó, contos de fadas, almanaques infantis, óperas antigas, refrões simplórios, ritmos singelos.”  Uma estação no inferno,  A.Rimbaud (citado por Eco, U. em “A História da Feiúra”)

Revisando as pinturas que fiz a partir de 2009, anoto algumas características que me parecem comuns. Um exercício, busco ver estas muitas dezenas (centenas) de telas como um conjunto, em sua diversidade de temas e procedimentos, à semelhança da minha série Polkianas, exposta no Largo das Artes em fevereiro de 2011, onde as 35 pequenas telas se agrupam em uma só pintura.
Esta é exatamente uma primeira característica que está presente em meu trabalho:  Ele se desenvolve em séries, se agrupa em polípticos, séries que não se encerram e que são sempre retomadas. Serialidade, repetição, multiplicidade, camadas. Obsessão em dividir, em contar as partes e em agrupá-las, em propor elementos em quantidades precisas, em números ímpares, o 3, o 7, o 12+1 (este uma metáfora da Última Ceia)... Pedaços de mundo que se agrupam em um todo, um todo que é bem maior que a soma das partes, uma completeza que está sempre em aberto.
Trabalho cada pintura em camadas, sobrepondo formas, manchas, técnicas, matérias, universos. Sobreponho citações de imagens da História da Arte e cito procedimentos de pintura, “estilos”: os gestuais da action-painting, as cores fortes do fauve, as pinceladas do expressionismo abstrato... Os polka-dot do Sigmar Polke, as Vanitas do Philippe de Champaigne, os rostos e corpos que se desfazem como no Francis Bacon... A coexistência entre estas camadas nem sempre é pacífica, em muitos trabalhos me interessa mesmo o embate entre mundos pictóricos: o abstrato-orgânico versus o geométrico-metálico.
Recorrentes em meu trabalho são as imagens do kitsch, em especial o kitsch religioso: sagrados corações, coroas de espinhos, mantos de nossa senhora aparecida, as Vanitas. Fora do contexto de uma pintura sacra ou mística, no meu trabalho estes elementos não significam transcendência, ao contrário, estão pairando sobre a aridez de um mundo inóspito.
Utilizo uma paleta exuberante, tons fortes, cores falsas, berrantes, tons neon, tintas metálicas, superfícies cheias, texturas, matéria, pigmentos, excesso de acontecimentos. Passo longe do clean.  Tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Uma teatralidade de ópera: nos autorretratos eu sou eu e sou o Rei Sol, o Cardeal Richelieu, nas paisagens o trampolim de Icaraí é como um palco, há uma história que está sendo contada mas o que é fixado é o momento entre duas falas, o silêncio que precede a ária, a expectativa do salto mortal sem a rede de proteção.
Deixo muito espaço para o acaso, para o aleatório, para o erro. A mancha, o escorrido, o sem-controle. O feio. Trabalho com incertezas, muitas vezes buscando os limites da percepção: manchas que são figuras humanas ou não, paisagens apenas sugeridas, imagens dúbias, espaços dúbios.

*   *  *
Sobre o que falam estas pinturas? São paisagens, vanitas, retratos e autorretratos.
As paisagens são praias com o esqueleto de uma construção, um trampolim. São ruínas de usinas nucleares, um mirante abandonado no alto de uma serra, pedaços da arquitetura modernista de Brasília. São cenários de um mundo destruído ou em destruição, onde o tempo está congelado. O apocalipse nuclear já veio e nós ainda não notamos.
As vanitas repetem à exaustão uma cena clássica: sobre uma mesa, um crânio ladeado por um vaso com flores e uma ampulheta: em uma série com 50 pinturas dissequei a pintura de Philippe de Champaigne. Em outras pinturas, as caveiras de príncipes e imperatrizes dançam, esqueletos dos Habsburgos e dos Bragança. Crânios aparecem, ou se escondem no limite da percepção, em paisagens, em retratos. Memento mori, a vida como um teatro.
Retratos de ídolos mortos ou eternamente vivos, de estátuas de museu de cera, de crianças com lábios leporinos. Paródia de um expressionismo, de um Francis Bacon ou de um Lucian Freud ou de um Graham Sutherland – mas as carnes à mostra são de plástico, as cores são de um cenário de teatro, o sangue é puro Alizarim Crimson 346 Acrilex.
Dos retratos aos autorretratos, a teatralidade se exacerba: eu sou personagens, meu verdadeiro eu está na superfície, na tinta metálica que reflete o espectador, no rosa-neon que desmascara a seriedade do expressionismo. Um cardeal, um pintor com uma taça de vinho e uma tela em branco, um jogador de futebol e seu duplo, um homem com o coração exposto, com os olhos fechados, com os dentes arreganhados como um cão de guarda. Como o Rei Sol. Teatro.
Vendo o conjunto, observo que um tema se mostra presente em todo o meu trabalho: a transitoriedade. Não quero falar da morte de um indivíduo, da minha morte, da morte de alguém querido, não quero falar de um ponto de vista psicológico, não busco ser triste, não quero ser sério, ser deprimente. Luto, talvez; mas não melancolia. Não quero ser óbvio fazendo uma pintura sóbria em tons fechados: as minhas caveiras dançam, as cores explodem, busco exatamente este contraste. Busco falar da transitoriedade da vida e do Universo, dos papéis neste teatro de sombras. Nada é absoluto, as certezas se dissolvem em tinta e em pedaços de História, as imagens se apagam e reaparecem, as camadas se somam e ao fundo se vê restos de vidas neste palimpsesto em que vivemos.

“We are dying, we are dying, we are all of us dying
and nothing will stay the death-flood rising within us
and soon it will rise on the world, on the outside world.”
The Ship of Death, D.H.Lawrence

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Erotismo e Apropriação (Fábio Baroli)

Em janeiro deste ano escrevi aqui no blog sobre uma "descoberta": Narrativas Privadas, série de pinturas do artista Fábio Baroli, de Brasília, que me impressionaram de maneira muito forte.
Depois disso, conheci melhor o Fábio, conversamos bastante sobre arte, e em julho fui surpreendido com um convite do artista para escrever, com base no texto que escrevi para meu blog, uma apresentação de sua exposição individual no Centro Cultural Adamastor, em Guarulhos. Esta individual veio em decorrência da premiação recebida pelo artista no 9 Salão de Guarulhos (2009).

Foi uma encomenda interessante, transformar um texto escrito descontraidamente, em linguagem de blog, em outro texto que falasse sobre a obra do Fábio sem perder a informalidade, um texto "de artista para artista" e não um "texto crítico".

A exposição ficou bem bonita, mostra um apanhado da obra do artista, incluindo além das pinturas alguns trabalhos de cunho mais conceitual, e aconteceu ao mesmo tempo da primeira individual do Fábio no Rio, no Anexo da Galeria Laura Marsiaj, com boa repercussão. Na galeria do Rio foram apresentadas pinturas da série Narrativas Privadas; já em Guarulhos as demais séries, com as imagens fortes que descrevo em meu texto, causaram polêmica que teve que ser contornada para que a exposição fosse mantida.

As imagens deste post são o projeto do Fábio para sua exposição de Guarulhos, e dão bem a ideia do que foi a mostra.

Segue também o texto que escrevi para essa exposição:

 
Erotismo e Apropriação

Estava navegando na internet, sem compromisso, quando aquelas imagens me pegaram pelo pé, me derrubaram, me nocautearam. Assim descobri, como um voyeur, a pintura de Fábio Baroli.
Narrativas Privadas é uma série de pinturas concebidas a partir da apropriação de imagens de sites pornográficos. Homens e mulheres, distraídos, tomando seus banhos, com sexos e celulites à mostra, observados de longe, através de basculantes, pelo voyeur-pintor escondido, que se apropria de seus corpos e que ao pintá-los erotiza igualmente suas peles e os azulejos, as torneiras de metal gasto, os aparelhos de gilete. A sensualidade é minimizada, como se o artista "dissecasse" os corpos, ao invés de "expô-los". Os banhistas não são jovens nem belos, mas através da pintura o artista os retira de seus banheiros vulgares, e nos faz desejá-los, objetos de um olhar perverso polimórfico. O prazer de ver uma pintura, de possuir pela visão.
Já na série Semblantes o artista se apropria da tradição da pintura de retratos: o modelo encara o espectador; o claro-escuro destaca a figura centralizada; há a semelhança com as feições do retratado; mas o que domina tudo é um pensamento contemporâneo. O voyeurismo dá lugar a um olhar direto e mútuo, a uma nudez de intimidade; uma intimidade que “filtra” o corpo nu, o torna familiar. São pinturas que congelam em bem pintados retratos o momento anterior ou posterior ao clímax do desejo ou a familiaridade de uma amizade muito intensa.
Outra série, as Apropriações Textuais, apresenta pinturas que tem a tensão de um erotismo rebelde. O artista de novo se apropria da tradição da História da Arte, a domina e a expõe em toda a crueza, em toda a força de um erotismo século XXI, pós-liberação sexual. Uma versão sangrenta, menstruada, da “Origem do Mundo”, de Courbet. Um homem empalado, um Cristo clássico, tem o rosto do artista e genitais expostos na altura do olhar do espectador. Uma cabeça decapitada, um autorretrato, exibida por um carrasco nu com vigor erótico explícito. No auto-erotismo escandaloso do “Autômato”, uma metáfora da própria pintura.
A forte carga de erotismo aparece também nos trabalhos de cunho conceitual, as Intervenções. “Telúrico” é um obelisco, uma árvore exageradamente fálica que foi construída nos jardins do campus da Universidade de Brasília. Em outra instalação, ao se apropriar da Catedral de Brasília “pintando-a” com luz, o artista transmuda o concreto armado em carne, vibrante em um escandaloso tom de rosa. O templo, monumento arquitetônico modernista, se torna uma gigantesca vulva multifacetada.
Na internet, inscreva-se em um site pornô, veja as câmeras de vídeo que a cada momento oferecem a intimidade de várias pessoas, em cidades ou países distantes ou talvez suas vizinhas. Escolha uma imagem, é fácil, basta um clique, e pronto, você está acompanhando todos os detalhes de um corpo desconhecido que se expõe on-line para dezenas, centenas de espectadores anônimos. Você não precisa dizer nada, basta olhar; e para apagar aquela pessoa de sua vida basta fechar a janela do computador.
O erotismo hoje se escancara pela mídia, pela internet; e se torna banal, nada mais surpreende.  Mas ao internalizar o erotismo em sua pintura através do fetiche, da citação, da apropriação, Fábio Baroli consegue "se infiltrar" e "nocautear" o espectador desavisado, como eu naquela noite em que navegava descompromissadamente pela internet e fui parar em uma exposição de arte.  



Clique aqui para ler o post de janeiro de 2010 sobre o trabalho do Fábio Baroli

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cenas de uma ocupação

O cenário: Prédio neoclássico em ponto nobre do Rio, construído na década de 1920, por encomenda de Otávio Guinle, pelo arquiteto francês Joseph Gire, autor do Copacabana Palace e outros marcos históricos do Rio: o edifício A Noite, o Hotel Glória, o Palácio Laranjeiras, a mansão da ilha de Brocoió, o embarcadeiro da praça Mauá, entre outros. Um prédio com tudo o que uma construção de luxo da época tinha direito: vista para o mar, amplos espaços, pé-direito alto, simetrias, ornatos em mármore e ferro forjado, sancas, nichos, molduras douradas, tacos de madeira nobre, elevadores amplos, elevador de serviço com grades de ferro, daqueles tão comuns em Paris e, no último andar, uma chambre-de-bonne para cada apartamento. Um prédio surpreendentemente bem conservado em um Brasil e um Rio que odeiam as memórias do passado. Neste prédio, um apartamento que mantém os acabamentos luxuosos e que, recém-comprado, passará por uma planejada reforma para adequá-lo às necessidades de seus novos moradores.
Os personagens: artistas plásticos/performers/músicos, um deles a proprietária do apartamento.
A ação: Ocupar o local com instalações, performances, pinturas, esculturas, desenhos, ambientes, fotografias, propostas, vídeos, músicas, danças... por um final de semana inteiro
Cenas:
Inicialmente tímidos diante do espaço, os artistas negociam seus espaços com os organizadores, apresentam suas propostas, discutem a logística, fazem incursões ao apartamento de cobertura do prédio (fechado há 25 anos) e ao bar próximo ao prédio, onde o croquete apresentado como autêntico do Alemão de Petrópolis é a sensação.
Aos poucos os trabalhos vão tomando forma, as propostas se modificam à medida em que se sente melhor o espaço, em que a interação entre trabalhos aponta para outros caminhos.
Uma semana, cinco dias úteis de preparação, de uma 2a. até uma 6a.feira. Alguns trabalham em casa, e os que preparam suas instalações no local estranham: será que só nós estamos trabalhando? onde estão os outros? será que vai dar certo? será que o resultado final vai ser um conjunto harmônico, vai "ter uma cara" ou vai ser um agregado de divergências?
O convívio estabelece alianças, cria amizades, propicia troca de informações, troca de energia. Descansa-se trabalhando, ou visitando o trabalho dos outros artistas. Para os lanches ou o chopp do final do expediente, o Bar da Praia bomba como talvez nunca tenha bombado. Segunda-feira, terça-feira...
Sexta-feira no início da tarde, a maioria dos trabalhos está completa ou em fase final de instalação, mas a tal visão de conjunto ainda não se faz, talvez o barulho de artistas trabalhando ou conversando, talvez o lixo ainda por tirar, talvez os trabalhos que ainda não estão montados, uma certa sensação de uma coisa anárquica... Vou para casa, um banho, descansar um pouco antes da festa de abertura...
...e ao chegar no apartamento vejo que, aparentemente como uma mágica, a luz se fez: a exposição flui, os trabalhos dialogam, se integram, se reforçam, há uma organização no que parecia um caos, há linhas de leitura que fazem "um desvio para o azul", "um desvio do rosa para o vermelho" e outros percursos, há até um bar na cozinha do apartamento com um eficiente barman preparando a melhor caipirinha de morango que jamais bebi em minha vida.
Mágica? não, sincronicidade, e a atuação discreta e agregadora dos organizadores/curador.
(Sonho com possível percurso: ao se abrir a porta do elevador, o tapete persa com corte de silhuetas de corpos humanos e uma misteriosa fotografia de um rosto-meio-vegetal dão as boas-vindas. No palaciano hall do apartamento uma cascata de pérolas, que pode ser uma arquitetura desconstruída ou uma infiltração, e sugestões de paisagem anacrônica pintadas nos nichos dourados das paredes se somam em uma minúscula gruta que expõe as entranhas do prédio em pérolas e pigmento azul.
Desviando para o vermelho, passamos por uma saleta obsessivamente cor-de-rosa com pequenos faunos desafiando a gravidade e chegamos a outra sala com uma parede pintada com gestos também cor-de-rosa e uma cascata de maçãs vermelhas caindo das gavetas de um armário; um pano vermelho entra pela parede e se conseguirmos seguir por este pequeno buraco chegaremos a uma biblioteca ocupada por uma bateria e outros instrumentos de percussão, e uma pequena escultura; na parede, uma pintura feita de contas brilhantes e coloridas; na estante, uma coleção de pratos de porcelana pintados reconta a História do Brasil.
De novo no hall, o percurso para o azul leva a uma paisagem sugerida por discretas linhas em um enorme campo de azul brilhante, que  confronta uma parede ocupada por uma dança erótica em traços livres de tinta azul, leves como as azaléias brancas de papel em vasos em frente à varanda; desta sala, o verdadeiro acesso à biblioteca; ou o acesso a outra sala dominada por gigantesco animal feito de pedaços de móveis antigos e penas e plumas brancas, onde um pequeno desenho da paisagem externa em uma parede preta é companheiro de instalações que fazem brotar da parede o interior de um processo construtivo moderno, vergalhões e tijolos.
Volta-se ao hall marcado pelas pérolas, e o largo corredor/galeria que leva à antiga cozinha é palco de uma massiva instalação com fotos do desabitado apartamento de cobertura e com material recolhido em lixo. No meio do corredor, portas de correr levam a uma antiga sala de banquetes, hoje o espaço de performances, marcado por pinturas/desenhos que fazem referência a corpos.
Pelo apartamento, telas exibem videos, um deles mostra uma mulher de burca andando compulsivamente pelos corredores vazios do que parece o mesmo apartamento mas talvez seja outro apartamento no prédio; outro mostra um estranho despertar; mendigos à volta de uma fogueira; e outras imagens perturbadoras.
Em uma pequena saleta, uma parede com buracos e textos de filósofos mostra como "filosofar com um martelo"; já em um dos banheiros, delicados desenhos feitos com lágrimas e maquilagem escorrida, um diálogo com as pérolas, com as flores de papel; com as pequenas placas de gesso que se esgueiram em diversos lugares mostrando desenhos da paisagem externa, de detalhes do interior ou do exterior do apartamento e os pequenos retratos sobre pedaços de fórmica de pessoas desconhecidas mas possíveis, reais, como os fantasmas, como o fantasma da mulher de burca que vagueia pelos corredores, como os pombos mortos no apartamento de cobertura, como as asas brancas que se estruturam em pedaços de móveis, e se volta ao início e se retorna em outro percurso, agora já um percurso mental de links e reflexões.)
No fim de semana a visitação é grande, no cair da tarde o apartamento se transforma em uma happy-hour, à noite é uma festa. Mesmo com a concorrência de outros eventos importantes no Rio: exposições do Hélio Oiticica no Corredor Cultural, Santa Teresa de Portas Abertas... e a concorrência desleal do que é o evento mais importante para o Rio, um fim de semana com sol gostoso chamando para as praias.
Gratificante.
E também um exercício de despreendimento, de viver o efêmero: domingo à noite as portas se fecham, segunda-feira tudo está desmontado, daí a alguns dias as equipes de pedreiros entrarão, quebrando paredes, trocando azulejos, substituindo a fiação elétrica que passa com fios envoltos em papel dentro de tubos de ferro, atualizando as instalações hidráulicas que se entopem com o acúmulo de décadas...
A partir de agora, só os registros da ocupação. Só a memória.

Artistas:
Abel Duarte
Alessandro Sartore
Aleteia Daneluz
Bob N
Bruna Lobo
Claudia Bakker
Edu Monteiro
Evandro Machado
Fernando de La Rocque
Gimena Mello
Hugo Richard
Jozias Benedicto
Kunja Bihari
Leo Ayres
Luar Maria
Luiza Crosman
Marcelo Rocha
Matias Mesquita
Moises Alcuna
Natali Tubenchlak
Nora Stephens
Orlando Mollica
Pontogor
Rafael Inacio
Robson
Sandra Schechtman
Simone Michelin
Ursula Tautz
Virginia Paiva
Ze Carlos Garcia

Organização:
Aleteia Daneluz
Bob N

Barman:
Ricardo

meus registros em foto


Registros em vídeo:








FaceArte publica uma versão resumida deste texto





quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Em busca do ouro

Chegar a Ouro Preto é como, de repente, estar dentro de uma paisagem de Guignard, é claro que já devem ter escrito isto antes mil vezes pois é a mais pura e óbvia verdade, não me importo, para que tentar ser original quando do alto destas montanhas tantos séculos me contemplam, tanto ouro tirado da terra, entregue aos Bragança ou contrabandeado nas trancinhas dos cabelos pixaim ou nas entranhas dos santos-do-pau-oco, tantos escravos mortos ou alforriados, em busca do ouro, do ouro preto.
(o ouro encontrado na região tinha as pepitas escurecidas por uma camada de paládio, o que lhe dava uma  tonalidade escurecida, característica, diferente da cor do ouro de outros lugares).
O ônibus vem devagar, amanhece, eu estou totalmente aceso, a estrada é cheia de curvas, subidas, descidas; em uma curva do caminho se abre inesperada a paisagem, um panorama entremeado de névoa, neblinas, um sol insistindo em nascer, as montanhas que se sucedem em planos irregulares. Nos planos: palmeiras, igrejas, casas com telhas moldadas nas coxas dos escravos, rios, córregos, matas. E acima de tudo o céu onde provavelmente moram anjos e santos barrocos. Guignard puro.
Desço (aqui se desce e sobe o tempo todo) até a Praça Tiradentes, já é plena manhã com sol forte e céu azul, pego um mapa da cidade para programar passeios e, no lugar onde os pedaços de Tiradentes ficaram expostos, enquanto estudo o mapa, ouço conversas como música de fundo. No mais puro sotaque de mineiro, que sempre traz uma sensação de pureza, de ingenuidade, um rapaz conta para o outro o ciúme que sentia da mulher e como ela a traiu, o assunto passa abruptamente para como ele agora está "em condicional", o interlocutor pergunta "o que é condicional", ele explica. Com a impressão de que perdi para sempre alguma informação importante (provavelmente os detalhes de como a infiel foi morta), sigo minha descoberta de Ouro Preto, Vila Rica, a Imperial Cidade de Ouro Preto.
Para mim, apenas um lindo dia de sol, a sensação de caminhar sobre pedras, seguir o mapa até uma igreja, ficar deslumbrado com o poder, a grandiosidade das volutas barrocas, da pedra entalhada, dos dourados, dos azulejos, dos santos com roupas e cabelos de verdade e com olhos brilhantes de vidro; descobrir que as sacristias são mais bonitas que os altares-mor; desenhar em meu moleskine detalhes, detalhes, detalhes intermináveis; seguir o caminho, pelo mapa ou pedindo informações, uma cidade turística como outra qualquer, só que sem um MacDonalds, o que é um diferencial altamente positivo.
Mas não é só isso, à medida em que sigo e converso ou ouço conversas, percebo presenças, sinto que o Tiradentes exposto na praça continua exposto, que a paisagem está cheia de grupos de turistas mas também está cheia de fantasmas, de vultos que se intui ou se percebe apenas com a visão periférica ou com os olhos fechados.
Vila Rica, o nome já nasceu com o indicativo da riqueza que foi sua glória e sua derrota: o garimpo. E a rica vila , uma serra pelada do período colonial, deve ter sido um lugar bem estranho para se viver.
Há uma Vila Rica, expansiva, solar; no burburinho dos onibus escolares com turistas; nos garotos, as cuecas aparecendo sob as bermudas caídas, que tiram fotos com seus celulares e ao apito dos professores se aglomeram para ouvir as explicações sobre a história da cidade; nas famílias que fazem turismo ou festejam uma segunda lua-de-mel; nas igrejas cheias de fiéis mas mais cheias ainda de turistas que sempre querem fotografar; no movimento de estudantes que tomam café com pão de queijo no intervalo entre as aulas.
E uma outra Ouro Preto, noturna, misteriosa, feita do sangue dos garimpos e dos escravos, dos inconfidentes, dos poetas, e que aparece em lugares insuspeitos; na conversa ao meu lado na praça; nos calouros que circulam pelas ruas com cartazes pendurados em seus corpos indicando sua situação (como os escravos); nos crimes; no Tiradentes esquartejado e exposto; nos becos onde você pode se perder para sempre; nas noites onde o barulho das festas ao longe mal esconde o rumor de correntes arrastadas, de matracas da Paixão de Cristo, de novenas e Te Deums, de açoites, castigos e orgasmos.
Vila Rica começou com a Bandeira de Antônio Dias no final do século XVII, o primeiro bandeirante paulista a chegar na região, atraído pelas promessas de riqueza a partir do estranho ouro enegrecido. Um primitivo arraial se fundou no morro de São João com a celebração de uma primeira missa para um grupo pequeno, que depois se multiplicaria. O garimpo, terra de ninguém; as atividades tradicionais - agricultura, criação - são abandonadas pela busca do ouro, para que perder tempo plantando ou pastoreando quando em uma pepita se pode descobrir a riqueza instantânea?
Assim, no início do século XVIII, a região passa pelo que se chamou de A Grande Fome. Dois forasteiros se matam a faca por uma cuia de farinha. Cheias dos rios em terríveis estações de chuvas agravaram a situação e provocam o êxodo de populações para outros arraiais, uma marcha de famintos que caíam de inanição nos caminhos do Rodeio. Fala-se que existiria até hoje um Campo das Caveiras, com centenas de mortos no esforço de subir a serra fugindo da cidade famélica. Escravos e ciganos, armados, assaltavam os vivos e saqueavam os mortos. O horror.
Horror que continuou e talvez tenha tido seu auge na Inconfidência; penas cruéis: por enforcamento, amarrado a cavalos e arrastado pelas ruas, depois esquartejado. Tiradentes, enforcado em 1792, teve seu corpo esquartejado e os destroços espalhados pelos caminhos de Minas Gerais; outros, exílio da África; o poeta Cláudio Manuel da Costa encontrado morto na prisão, oficialmente por suicídio. A cabeça de Tiradentes foi exposta em plena Vila Rica, sumiu misteriosamente e nunca mais foi encontrada.
Já no século XXI, o horror foi outro, novas tecnologias na cidade colonial, um jogo de RPG (role-playing game) com toques de magia negra teria provocado o assassinato de uma jovem,  a estudante Aline Silveira Soares, que foi a um evento em Ouro Preto, a "Festa do Doze", em 11 de outubro de 2001. Com duas amigas, ficaram hospedadas em uma república; no dia 13, um túmulo do cemitério de Ouro Preto foi violado; e no dia seguinte, o corpo de Aline foi encontrado no cemitério da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia; sobre um túmulo, despida, de braços abertos e pés cruzados, e com 17 ferimentos feitos a faca. Os acusados pelo crime são três rapazes, moradores da república, e uma jovem, prima da vítima.
As repúblicas em Ouro Preto são um capítulo a parte; se espalham pela cidade, cheia de estudantes; de todos os níveis, umas ricas e tradicionais, ocupam casas maravilhosas; outras menos poderosas, improvisadas até; só de moças, só de rapazes, mistas, GLS ou homofóbicas. São muito parecidas com as fraternities e sororities das universidades americanas, tão descritas em livros (A História Secreta, de Donna Tartt, é um deles, com sua trama de cumplicidades e estudos clássicos) e filmes (um dos melhores talvez o Sociedade dos Poetas Mortos, do diretor Peter Weir, além de longas séries de terror+rir de Pânico e aparentados). Uma experiência que, no Brasil, não é onipresente como na cultura norte-americana; na Universidade em que estudei o campus era uma ficção, se resumia às conversas nos pilotis; assim para mim foi uma experiência engraçada ficar hospedado em uma república.
O ponto forte é a hospitalidade, a facilidade em se fazer amigos, a diversão sempre presente, a casa cheia todo o tempo. O que poderia ser um ponto fraco, a pouca privacidade, não cheguei a sentir; mesmo com a casa cheia há um cuidado com as individualidades. Enfim, uma boa experiência, como é interessante passear na noite na cidade e ver a movimentação nas repúblicas, o barulho de festas, a juventude. E também uma marca da cidade, de Minas, a interiorização: não há um "baixo Ouro Preto", como temos vários "baixos" no Rio, onde as pessoas vão para as ruas beber e confraternizar; as loucuras acontecem entre as paredes coloniais das repúblicas, das casas, das igrejas; sob a aparência tradicional, o desvio; sob as igrejas barrocas, o prazer, a transgressão, o êxtase.
Como no crime das irmãs Poni, em 1962; as irmãs Ethel e Edina Poni, da chamada alta sociedade de Minas Gerais, assassinaram em uma pousada em Ouro Preto, a sangue frio, a nova companheira do ex-marido de Edina, o milionário Fernando Melo Viana Filho. Uma história de amor e ódio, de traição, de dinheiro, violência e impunidade; um assassinato cometido na frente de testemunhas, em público; enquanto Ethel segurava os braços de Maria de Lourdes Dias Calmon, Edina, campeã de tiro ao alvo dos clubes tradicionais de Belo Horizonte, dispara dois tiros de seu revolver calibre 32 na nuca da vítima. As duas senhoras foram presas algumas horas depois; para recebê-las, a cadeia de Ouro Preto foi reformada; o julgamento teve a participação de juristas importantes, e o conservadorismo da sociedade mineira foi determinante para acolher a tese da defesa, de coação moral irresistível, e absorver as acusadas, culpabilizando a vítima.
Segundo a defesa (o texto é uma pérola ao descrever o conservadorismo brasileiro da época, onde o divórcio ainda não era legalizado e as separações eram vistas com estranheza, um casal formado após um desquite era um casal pária, apontado na rua, os filhos de desquitados marginalizados nas brincadeiras com os filhos de famílias),  "a vida de Edina tornou-se uma via crucis, n’uma sucessão de sobressaltos e angústias, permanentemente oprimida e coagida por sua impiedosa rival (...) se viu obrigada a privar-se de comodidades e da vida de conforto que sempre teve – pois passou faltar-lhe o mínimo para a sua subsistência – Maria de Lourdes deixava seu emprego (...) anunciando aos quatro ventos que descobrira uma “mina de ouro” e não precisava exercer um ganha-pão honrado: foi engrossar o número daquelas que vivem da mais triste e mais antiga das profissões... (...) Continua acentuado o contraste entre ambas, após a desgraça visitar a morada de Edina, na pessoa da Calmon: enquanto esta fazia freqüentes viagens a Europa (...), ostentava jóias de um luxo asiático (...), requintando em sempre fazer chegar a Edina a notícia dos presentes caríssimos que recebia do Dr. Fernando (...). Edina a esposa legítima, atravessava períodos de notórias privações, com os credores batendo-lhe humilhantemente às portas (...) com os próprios fornecedores de gêneros negando-lhe mais crédito e obrigando-a a ir as duras fainas do trabalho na propriedade agrícola do casal, onde se dedicava à fabricação de doce para vender junto ao seu círculo de relações.  (...) Senhora da situação como se julgava, confiante de sua ascendência de fêmea moça sobre o amante sexagenário (em números redondos a Calmon tinha 30 anos e o dr. Fernando o dobro, passou ela a infernar a vida da acusada Edina atormentando-a, amargurando-a e levando-a ao desespero, através de freqüentes (...) telefonemas urbanos e interurbanos em que, utilizando de linguagem sórdida, preservada na tradição das vivandeiras, à Edina dizia que devia conceder o desquite ao marido para que ele pudesse regularizar sua situação com ela; que Edina se convencesse que era uma mulher velha e superada, enquanto que ela tinha mocidade a oferecer a seu marido e coisas quejandas (...)"
Estão todos lá, vagando, enquanto caminho pelas ladeiras, enquanto fotografo com meu celular as sombras, os azulejos e as fontes, enquanto bebemos uma cerveja Backer, enquanto vamos de república em república, os vultos nos perseguem e se escondem nos becos, os barulhos ao longe, as estrelas, o céu do Guignard.
Sim, e o Museu Casa de Guignard, uma delícia; a casa onde o artista morou, uma casa muito simpática com um gostoso quintal, muito bem conservada e adaptada para um museu simples, sem grandiosidade, cool como o artista.
Museu com pouco acervo, nem meia dúzia de telas do Guignard (mas uma lindíssima, pintura sobre madeira, grande, com cores fortes); uma cama e outros objetos pintados pela artista; e uma coleção de pequenos desenhos, cartões, bilhetes de enamorado; apenas isso; mas não faz mal, se respira Guignard em toda parte, um lugar gostoso para se ficar horas como ficamos, e se sentir também um pouco enamorado por esta Ouro Preto de Guignard. Como esta casa fosse um par de parênteses, fosse como uma capa protetora a deixar fora o lado soturno, os espíritos.
(Guignard também tem um lado negro, sabemos; depressivo, os complexos a partir dos lábios leporinos; mas sua obra dificilmente é soturna, mesmo nas cenas de noite, há uma transcendência, uma elevação, uma alegria quase ingênua. Outro artista, ligado a Ouro Preto, que transcendeu as limitações do físico foi certamente Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, cuja deformação absolutamente não deixa marca na beleza de seus anjos. O barroco, a transcendência da pérola deformada, o êxtase)
E assim deixo Ouro Preto, já fazendo planos para voltar.
Uma residência, registrando em meus moleskines os azulejos e azulejos das igrejas, quem sabe?
Ou simplesmente voltar, sem motivo, sem desculpa, pois a vida é boa e melhor ainda se se consegue rever o passado e tornar realidade algo que ficou inconcluso há tantos anos. Ou séculos.
Buscando o ouro e o encontrando.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O céu da pintura

Pintor gosta de pintura.
Eu sou pintor, além de blogueiro obsessivo, mas não sou sectário. Adoro exposições como a do Gordon Matta-Clark e a da Rebecca Horn, as esculturas do Thomas Schütte que vi em maio no Reina Sofia, a coleção de 140 pequenas esculturas do Amilcar de Castro que vi no CCBB-BSB e depois na Silvia Cintra, os parangolés do Hélio Oiticica, os desenhos da série trágica do Flávio de Carvalho.
Mas exposições de pintura lavam minha alma, a minha e a de muitos pintores amigos meus, ficamos babando diante de pinturas boas comentando, só entre nós, como o dialeto de alguma seita, entre dentes, frases do tipo: "que brancos...", "óleo ou acrílica?", "essa pequena mancha magenta escorrida", "os lilases...", enfim. Os que passam por perto não devem entender nada, mas nós nos entendemos, em nosso dialeto e no roer das unhas sempre com um pouco de tinta, nós, os pintores, os que adoram pintura.
Principalmente quando o MAM abre seus salões para uma individual da Cristina Canale (Arredores e Rastros) e para uma exposição chamada "Se a pintura morreu o MAM é um céu", ambas com curadoria do Luiz Camillo Osorio, a coletiva com pinturas de Daniel Senise, Luiz Zerbini, Adriana Varejão, Jarbas Lopes, Vania Mignone, Eduardo Berliner e Gustavo Speridião.
Eu não ia à inauguração, juro que não ia, estava em casa, em meu ateliê provisório, fazendo o que? pintando, todo sujo com as tintas que vão para a tela mas teimam em escorrer em mim e na cerâmica branca, com gosto de gesso-cré e de pigmento na boca, com telas e telas secando indefinidamente ao sol que já se pôs. Mas o convite veio e foi irresistível.
Escreve Luiz Camillo, na apresentação da coletiva: "A morte da pintura é um tema recorrente. Quase tanto como sua insistente sobrevivência, suas muitas metamorfoses e reinvenções contemporâneas. Nossa memória visual está marcada pela história da pintura. Cada gesto de um pintor-artista recria e repotencializa sua tradição. Enquanto formos capazes de nos surpreender diante de uma pintura ela existirá e incorporará sua morte como estímulo vital. (...) O nosso objetivo é o de por em foco os vários caminhos da pintura contemporânea, com ênfase nos desdobramentos da figuração depois de incorporada a abstração no imaginário pictórico. Uma pintura na qual a figura cria vínculos improváveis e alimenta nossa capacidade de fabulação visual. Uma figura intoxicada pelas muitas formas de produção de imagens contemporânea – fotografia, HQ, cinema e, como não poderia deixar de ser, a própria história da arte – e que sem duplicá-las nos faz pensar sobre o visível, nos faz parar para olhar e perder tempo, em um mundo cada vez mais acelerado visualmente."
E a exposição está assim, forte, impecável. Claro que não esgota o assunto, poderia se fazer muitos e muitos outros recortes, incluir outros pintores da cena atual (muitos deles estavam lá, presentes, na abertura da exposição), mas o objetivo nem é o de fazer uma antologia completa; e sim fazer uma boa exposição; conseguiu; me faz parar a cada obra, maravilhado. Algumas pinturas eu só conhecia em reprodução, pequenas, e vê-las ao vivo, imensas, faz toda a diferença, é o caso de duas das telas do Zerbini ("O Hamlet Contemporâneo não segura a caveirinha" e o retrato do Barrão). E é bom, sempre é bom rever as fantásticas pinturas dos anos 1980 do Daniel Senise, como também ser envolvido pela força dos azulejos craquelados, manchados de sangue, da Adriana Varejão. Ver como o Berliner é o mesmo e é sempre diferente a cada tela, e como pinta bem! Gustavo Speridião também impressiona, gosto especialmente das apropriações dos cartazes da Casa Cruz; e o clima de mistério das pinturas da Vania Mignone tem histórias não contadas e um emprego de cor que acerta, pela sobriedade, ao realçar o mistério. E para mostrar que pintura não se faz só com tintas e tela, as enormes colagens, tramas, trançados, com rostos de banners de propaganda eleitoral do Jarbas Lopes são pintura, da boa; brincam com a percepção do espectador com sua dubiedade, deixando também um mistério, de outro tipo.
Gosto da pintura da Cristina Canale desde o tempo de Geração 80, e é muito bom ver nestas obras recentes (de 7 ou 8 anos para cá) como sua pintura cresceu, como sua técnica se aprimorou e sua narrativa se tornou mais densa e também mais misteriosa.
Poética, nas sugestões de plantas, nos animais, nas imagens de fotografias que são como memórias de infância se desvanecendo.
Ousada, nas cores, no sobrepor de imagens, no fazer e destruir. Pintura é isso, é abdicar de posições conquistadas, é ter a humildade de destruir "partes boas" em função de um todo que só existe na cabeça do pintor; é criar, do nada, Universos.
Um amigo meu (pintor, claro) comenta algo sobre uma tela em "feios verdes", que só a Cristina tem coragem de usar; e que com ela os verdes feios ficam maravilhosos; dialogam com uma pequena área laranja na borda superior da tela; é a "conversa de pintor", eu respondo falando sobre outra tela onde os brancos são tão diferentes, são várias áreas de brancos, só que cada branco é completamente individual, diferente dos demais; depois falamos sobre as áreas em violeta claro em outra tela, são espessas, o óleo tem volume e brilho como de esmalte, de asas de um besouro adorado como um deus no antigo Egito.
A boa pintura é assim, nos faz viajar até a infância, até um mítico Egito, até o Jardim primeiro, até o futuro mais impensado, tudo, simples assim, como mágica, a partir de manchas de cor sobre uma superfície. Simples. E tão difícil.
Mas a noite estava apenas começando.
Um pit-stop na Cobal do Humaitá, mais bebidas (sim, o coquetel do MAM tinha caipivodkas deliciosas e, sinal de sucesso, lá estava D.Graça, a penetra oficial que chancela os bons eventos), comida tex-mex. Bom, todos riram quando eu disse que era a primeira vez que eu ia à Cobal do Humaitá, de que mundo este blogueiro veio? Mas é verdade pura, e foi bom contar com guias fabulosos que destrincharam o cardápio e me aconselharam com as bebidas e comidas. Voltaram a rir quando eu falei que também nunca tinha ido a nossa próxima parada, o Bar/Clube Fosfobox. Pois é, onde eu estava, em que mundo? mesmo descontando o tempo que morei em Brasília, aqui no Rio eu trabalhava demais, estava sempre cansado ou casado ou mergulhado em pintura ou em livros, não necessariamente nesta ordem.
Enfim, o Fosfobox, para a 10a. edição da festa GANG BANG, do Saulo Laudares, que desta vez convidou o artista Raul Mourão para mostrar vídeos (300 vídeos!) e o DJ Diogo Reis.
A cada semana, sempre às quartas-feiras ("a quarta-feira é o novo sábado"), a cada edição com um DJ e um artista convidados, esta festa se transformou em um point de encontro dos artistas, em especial artistas visuais.
Esta edição, então, foi excepcional, uma festa, em todos os sentidos, para todos os sentidos.
Como a boa pintura, que é uma festa para o olhar e que por sinestesia se transforma em uma festa para todos os sentidos.
Podemos sentir o cheiro das flores gigantescas na tela da Cristina Canale, dos abricós de macaco do Zerbini; podemos ouvir ruídos estranhos das figuras estranhas do Eduardo Berliner; podemos sentir na pele a aspereza ou o liso da tinta que se acumula em camadas e camadas da pinturas da Cristina; e mesmo sentir na boca o gosto doce do sangue e enjoativo das carnes cruas que brotam dos azulejos da Adriana Varejão.
Eu gosto de pintura.


Fotos da inauguração em registro do Fotógrafo Odir Almeida no www.soartecontemporanea.com

sábado, 8 de maio de 2010

O trampolim de Icarahy

No início deste ano descobri, pela internet, algumas fotos de um trampolim, uma estranha edificação em concreto armado, construído em 1937 no meio da praia de Icaraí, em Niterói (na ortografia da época a praia se chamava Icarahy e a cidade Nictheroy, e creio que elas perderam muito em imponência e sofisticação com a simplificação ortográfica). O trampolim foi dinamitado no final da década de 1960 por supostamente oferecer perigo aos banhistas, graças à estrutura comprometida devido à falta de manutenção.
Não me lembro de tê-lo visto "ao vivo", nos anos 1960 eu já morava no Rio mas a vida de minha família se centrava no Rio, inicialmente em Copacabana e depois em Laranjeiras, nos predios modernistas do Parque Guinle; me lembro muito de outras construções fantásticas como o Belvedere da estrada Rio-Petrópolis, este disco-voador que ainda está inteiro porém desativado, mas não do trampolim. Este veio para meu imaginário com as fotos que vi este ano, com a força de uma forma totalmente nova e ao mesmo tempo arcaica.
Impossível resistir, e comecei a trabalhar em pinturas a partir destas imagens, usando (como nos auto-retratos, que a recente reforma ortográfica me obriga a rebatizar de autorretratos) a tinta como tinta, espessa, em cores arbitrárias. E usando também o aprendizado em termos de pigmentos a partir das aulas com a Katie van Scherpenberg, que retomei no Parque Lage.
A busca é de um clima de mistério, de fragmentos de construção invadidos pelo mar e por figuras que lembram vagamente humanos ou monstros marinhos ou extraterrestres, ou apenas o que sobrou das pessoas que se posicionavam para a câmara fotográfica, em traje de banho, naquele domingo de sol dos anos 1950 em uma praia e um tempo e uma vida que ainda estão lá mas não mais retornam.
As pinturas que mostro aqui no blog são o início da série, pequenas (25x33cm), e estou trabalhando também em outras maiores. O processo de trabalho é demorado, diferente do da maioria dos auto-retratos, que deviam muito de sua força ao imediatismo, ao gestual. Estas pinturas se constroem em camadas, em recobrir, em usar novos pigmentos, em um aspecto geral de corrosão que vem dos pigmentos terrosos contrapostos à tinta acrílica com cores e aspecto de "novo".
Ah sim, e também estou "atacando", em outras pinturas, as fotos do Belvedere...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Entre a Linha Vermelha e a Amarela, no escuro e debaixo d'água

Visita ao ateliê da pintora Lucia Laguna, situado "entre a Linha Vermelha e a Linha Amarela": título de uma série de pinturas da artista, referência aos viadutos e elevados que marcam a paisagem da Zona Norte do Rio.
O céu do domingo de sol se enche de nuvens pesadas à medida em que a tarde cai; o motorista do táxi  fala pelo rádio com seus colegas e combinam parar de trabalhar cedo, fugir do temporal que certamente virá. Passando pelo Maracanã, a paisagem brilha com a alegria e as camisas dos torcedores que chegam para o jogo; mas em seguida cai a chuva, forte; uma brisa alivia o calor; a rua, em um condomínio, é arborizada e quase que só com casas; o portão esconde um jardim cheio de plantas, uma vegetação que se fecha no alto como uma espécie de tunel de verde, que leva a um terraço muito agradável. Mal chegamos, a chuva aumenta, em pancadas, o céu desaba. E suculentas carambolas do jardim são sacrificadas em prol de caipirinhas deliciosas.
Nos primeiros momentos da conversa e das caipirinhas, a luz se apaga. Lucia tem lâmpadas de emergência, que usamos em toda a visita como a espada de um Darth Vader do bem.

Uma visita a um ateliê de pintura em uma noite sem luz é um delicioso contra-senso, mas vamos em frente. Caipirinhas, conversas. As notícias do Rio lá fora são desanimadoras: um rio mesmo, as águas de março e os bueiros que a Prefeitura não desentope, os táxis que desaparecem, a Light que tira do gancho o telefone para reclamações. Pela janela do ateliê vemos o trânsito parado nas Linhas Vermelha e Amarela, o morro da Mangueira totalmente iluminado e raios que caem ao longe.
Olhamos, sob a iluminação das espadas de Dart Vader, os quadros nos quais Lucia está trabalhando, já direcionados: SP-arte, Basel... E a artista nos fala e nos mostra albuns com fotos de seu processo de trabalho, esclarece nossas dúvidas, mostra imagens de pinturas, um livro sobre Paolo Ucello...
O processo de trabalho de Lucia é muito interessante. Ela parte de fotos, imagens de revistas..., que seleciona a partir de um critério subjetivo, imagens que lhe "dizem" algo, como potencial para seu trabalho. Estas imagens são trabalhadas pelos assistentes da artista, já em tela, utilizando tinta acrílica: é a base da pintura; em interação entre Lucia e o assistente, a imagem é modificada, muitas vezes é invertida ou a tela passa por uma rotação, fica "de cabeça para baixo", enfim, aos poucos se afasta da imagem original.
Até que se encerra o trabalho do assistente e a tela passa a ser trabalhada, já com tinta a óleo, exclusivamente pela Lucia. Cria novos elementos, destrói outros, recobre grandes áreas, mascara trechos e linhas com fita crepe que, descoladas, revelam camadas anteriores. Áreas que não funcionam, já em óleo, são recobertas com gesso cré e pigmento, o mesmo material da preparação inicial da tela; e são retrabalhadas. O contraste entre o fosco do gesso cré e o brilho do óleo é aproveitado, e é interessante; assim como pequenos toques de tinta dourada, que parecm ocre mas que subitamente brilham.
O trabalho incorpora partes da estrutura original (da imagem que serviu de "inspiração" e do trabalho do assistente) mas a cada etapa adquire uma estrutura nova, própria; ele vive a partir das camadas anteriores, dos erros e dos acertos anteriores; como um palimpsesto; como nós, humanos. Uma vida em evolução, até que um momento a artista vê e sente: está pronto.
A chuva volta a cair, mais forte; não se consegue um táxi; Lucia abre um vinho, e continuamos a conversa.
Lucia fala também de seu processo como artista, mostra trabalhos antigos; fala das viagens para ver pintura, dos grupos de estudo para discutir pintura; fala de si como uma pessoa agregadora, que gosta de trabalhar com outras pessoas e que se valeu desta característica para se unir em grupos que discutiam pintura, isso no início dos anos 1990 quando, mais uma vez, a pintura parecia morta; poucos artistas novos queriam saber de pintura em frente aos novos meios; fala da importancia de, ainda hoje, continuar estas discussões, conhecer trabalhos novos, e com isso reavaliar sempre seu trabalho, de resistir às pressões do mercado que empurram no sentido do fácil, da repetição...

Toca o telefone, conseguiram um táxi, já estamos aqui há 6 horas, amanhã começa outra semana de compromissos... durante a noite tentei desesperadamente mandar uma foto pelo celular para o Facebook, talvez como uma forma de contato com a realidade lá fora ou como um náufrago que manda mensagens em garrafas de 3G; ao chegar em casa descubro que a foto "chegou", repetidas vezes, apesar das mensagens de erro; apenas um pálido registro, uma foto escura, com pouca definição.
A noite toda estivemos debaixo de um dilúvio, ilhados, no escuro. Mas a clareza do pensamento de Lucia Laguna, sua força interior, a beleza e a qualidade de seu trabalho, fizeram com que o ateliê se transformasse, para nós, em um lugar mágico, iluminado. Uma lembrança que certamente ficará, com muito mais força e nitidez do que a foto escura e indefinida.

Participaram da visita ao ateliê os artistas Virgínia Paiva e Manoel Novello, além deste escriba que acha que caipirinha de carambola é algo muito próximo ao néctar do Olimpo.

Lucia Laguna, currículo e imagens no site da Galeria Laura Marsiaj

Clique aqui para ver o comentário que fiz no blog sobre a exposição da Lucia em 2009 na Galeria Laura Marsiaj