Mostrando postagens com marcador gastronomia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gastronomia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Todos os Prazeres (A Ressurreição)

Talvez um dos posts mais tristes que escrevi neste blog foi uma história real de um casal fantástico, Beth Calasans e Mark Walton, que criaram o restaurante Todos os Prazeres, em Arraial do Cabo. Convivi com o casal, com sua gastronomia criativa e seu humor inglês, por muitos verões (primaveras, outonos...), e a última notícia que tive deles, em 2006, foi de um fim trágico em pleno tsunami de 2004. Clique aqui para o post original, que escrevi em fevereiro de 2009.
 Agora neste início de 2010, recebi um email que me trouxe um desfecho inesperado para o assunto. Minha primeira reação foi de incredulidade; trocamos outros emails; e o estilo é inconfundível, há detalhes que não são de conhecimento geral, e o tracking que faço no blog confirma acessos vindos da Inglaterra.
Assim, a versão da morte de Beth e Mark se comprovou (felizmente!) um boato, provavelmente com intenções maldosas, mas que se espalhou por Arraial e por todos que conheceram Todos os Prazeres. E que, para desmentí-lo, nada melhor que transcrever parte dos emails recebidos:
 
dear jozias,
antes de mais nada esta não é uma mensagem do além, simplesmente da Inglaterra, onde nós dois estamos bem, ao contrário das noticias da morte em tsunami. Obrigado por seu blog sobre Todos os Prazeres! (onde descobri seu email), você sempre foi muito gentil e querido. Soubemos de nossas mortes antecipadas quando Arraial fez um festival de gastronomia em homenagem a nossa memória. Trabalhamos para outros agora, nunca tivemos o saco de refazer um restaurante tudo de novo, preferindo gastar tudo que ganhamos em viagens. Moramos em (..., na Inglaterra), na beira mar (gelado), mas bonito, porém um pouco monótono. Valeria a pena você fazer uma visita qualquer dia. Só trabalhamos à noite, deixando os dias livres para andar a pé e de canoa.
Desculpa termos tirado um pouco do misterio e tragédia das nossas mortes predatadas, provavelmente quando acontecer, tomara que em um dia bem distante (se o álcool permitir), vai ser uma coisa medíocre e comum. Ficamos honrados com o seu blog, deixa tudo como está, so inclui a  nossa ressurreição. Quando lemos, relembramos dos muitos dias felizes que passamos em sua companhia em um Arraial mais tranquilo e ainda pouco estragado.
(...) Incrível como nemhum dos donos dos restaurantes onde a gente trabalha (na Inglaterra) jamais ficaram curiosos em saber o que nós fizemos de comida no Brasil, mesmo o Brasil continuando com a imagem, para os ingleses, mais quente, um sinonimo de tudo gostoso. (...)
Mil beijos
Mark Walton e Lizabeth Calasans

O referido é verdade e dou fé. Ou, como diria outro inglês, All's Well That Ends Well.

sábado, 19 de setembro de 2009

Um vinho, um ícone, nas asas da Varig


Minha primeira viagem à Europa, acompanhado de uma amiga mais velha, mais rica e mais sofisticada que eu, que já havia morado uns anos em Londres.
Antes do avião da Varig levantar vôo, o comandante chama pelo som da cabine o nome de minha amiga, pede que ela se identifique aos comissários de bordo.
“Srta. X? Há um telex da Diretoria com uma ordem para um up-grade da sra. para a Primeira Classe, queira nos acompanhar.”
Eu devo ter lançado meu olhar de medo e de tristeza, eu tinha pouco mais de 20 anos.
Ela responde, firme, “estou na companhia de meu amigo, ele pode ir também?”
Ante a negativa, optou por ficarmos juntos, e o comissário finaliza com algo sobre “um tratamento de primeira classe”.
Algum tempo depois, é servido o jantar, e na bandeja de minha amiga veio uma garrafinha de 375 ml de um vinho. Tinto. Francês.
Eu devo ter lançado novamente meu olhar de medo e de tristeza.
O comissário me pergunta se também aceito um vinho, respondo (é claro) que sim, e ganho também uma garrafinha igual, de um precioso e desconhecido líquido, com uma identificação que ficou marcada como a fogo em minhas retinas: Châteauneuf-du-Pape. Apenas isso, eu não sabia o que sei hoje, que deveria gravar também as letras menores, que há Châteauneuf-du-Pape e Châteauneuf-du-Pape, que há os quatro algarismos da safra que também podem fazer toda a diferença.
Bebemos nossas garrafinhas, também não me lembro qual era o prato principal, nada, só me lembro daquela garrafinha, do nome mágico, do líquido “quente” (melhor: não-gelado, para quem bebia apenas cerveja, caipirinha...), rubro escuro, vivo.
E depois, terminada a refeição, recolhidas as bandejas, quando o comissário veio até mim e me cobrou o vinho, 10 dólares. Poderia pagar também em moeda brasileira (cruzeiros? Cruzados? Alguma coisa novos?), mas aí eu preferi pagar com as verdinhas fazendo pose de rico e viajado, apesar de minha confusão. O vinho de minha amiga não foi cobrado.
Depois disso, as palavras mágicas Châteauneuf-du-Pape passaram a ser para mim um ícone de finesse, de uma vida rica e de prazeres...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Exposições no Rio - 4


No Parque Lage, o espaço das Cavalariças está sendo ocupado, desde o final de julho, pelo Projeto 2 em 1, que reuniu 5 duplas de artistas e 1 dupla de curadores (Cabot|Daniel Toledo, Simone Michelin|Ricardo Ventura, Marta Jourdan|Barrão, Domingos Guimaraens|Luiz Aphonsus, Daniela Labra|Felipe Scovino e Suely Farhi|Carol Valansi) para exatamente isso: uma ocupação do espaço, que questiona a estrutura de uma exposição de arte e do espaço expositivo, a autoria da obra de arte e também a hierarquia artista-curador.
Além disso, a proposta acrescenta outras visões, enfatizando a variedade de linguagens utilizáveis pela produção artística atual, agregando uma performance-gastronômica da chef Rebeca Lockwood, com direito a garçons-anões (o que causou polêmica na mídia, nesta época do império do politicamente correto...) às propostas mais comumente vistas em exposições contemporâneas: intervenção arquitetural (Roberto Cabot e Daniel Toledo), arte sonora (Barrão e Marta Jourdan), video-performance (Daniela Labra e Felipe Scovino), fotografia (Luiz Alphonsus e Domingos Guimaraens), ambientação (Suely Farhi e Caroline Valansi) e instalação multimídia (Simone Michelin e Ricardo Ventura).
O resultado, uma exposição que rompe as barreiras entre as obras expostas e incorpora o espaço e os espectadores, transformando-se em um corpo enorme, orgânico, imenso, autônomo, com uma vida e desejos próprios.
Isto fica muito evidente na noite da abertura, pois o público interage, o bar "bomba", a chuva fina obriga todos a se apertarem por entre as obras, os fotógrafos e videomakers e celulares tudo registram... até que tudo é obra, tudo é público, tudo é uma coisa só.
Alguns trabalhos, como o "quarto escuro" (perfeito!) do Barrão e da Marta Jourdan, tem uma existência autônoma, até pelo espaço "separado" que ocupa; ou a enorme instalação com "a cor vermelha" de milhares de lápis de cor descascados, uma balança e luz, muita e precisa luz (da dupla Suely Farhi e Caroline Valansi); mas mesmo eles se integram ao que é um todo, o prédio das Cavalariças transfigurado em obra de arte, e no qual até os garções-anões tem tudo a ver... Esta foi a minha dificuldade, ao retornar da abertura da exposição, eu queria escrever no blog sobre cada um dos trabalhos, mas eu mesmo não sabia onde começava cada trabalho e acabava o outro, assim optei por um silêncio estratégico...
...até que encontrei (na verdade, conheci no mundo real uma já grande amiga virtual) a artista Suely Farhi, com a qual pude conversar sobre a minha dificuldade, e entender que este meu problema era na verdade uma prova do acerto da proposta da exposição, na medida em que uma das premissas do Projeto 2 em 1 é exatamente a diluição da autoria, indo além mesmo das duplas para chegar a uma exposição coesa, dentro da multiplicidade de linguagens.
Fiat lux! é como se a exposição fizesse um corte ortogonal, em um eixo a multiplicidade de linguagens (0 a 100%), em outro eixo a diluição da autoria (0 a 100%); e tivesse alcançado um equilíbrio difícil... pois à medida que se aumenta a multiplicidade de linguagens fica mais difícil conseguir uma coesão/integração de propostas que é a premissa para a diluição de autorias; e vice versa; pois bem, ao meu ver, o Projeto 2 em 1 conseguiu atingir este delicado equilíbrio neste quadrante marcado pelos eixos citados (obrigado, Descartes...)
Com esta visão, o trabalho cresce, talvez seja a exposição carioca recente mais bem fechada conceitualmente, e vale à pena rever...

Mais:
O blog do Projeto 2 em 1
Fotos da inauguração no site do Odir Almeida, www.soartecontemporanea.com

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Todos os Prazeres


Conheci Mark e Beth Walton há muito tempo (final dos anos 1970), em Arraial do Cabo, RJ, onde tive por décadas uma casinha de pescador que aos poucos reformei; eles moravam perto de minha casa, na areia da Prainha, e Arraial ainda era uma cidadezinha tranquila, "um paraíso" como dizíamos, nadando nas águas tranquilas e mornas da Prainha ou nas águas agitadas e geladas da Praia Grande.
Mark e Beth eram professores de inglês em Cabo Frio (ela, carioca do Leblon; ele, um inglês bem inglês), e para complementar a renda, abriram o que no início era um restaurante caseiro, na sala de jantar e varanda da casa onde moravam. Serviam: Pratos feitos (PF) com peixe, arroz, feijão e batata frita; saladas; bolinhos de bacalhau, cerveja bem gelada; uma conversa interessante e culta; lembranças e fotos de viagens. Mark era fotógrafo, tinha feitos cursos no Parque Lage, o que era um ponto em comum comigo. Um lugar perfeito para um almoço tardio após uma praia deliciosa. E o nome do restaurante, um achado: Todos os Prazeres (às vezes escrito, claro: All the Pleasures).
Com o tempo, Mark e Beth foram ampliando a casa e o restaurante e também ampliando o foco de suas viagens (Grécia, Índia, Marrocos, Tailândia, Turquia, Jordânia, Bali...). Deixaram as aulas de inglês para se dedicar totalmente ao restaurante; e o restaurante cheio no verão (um trabalho extenuante para eles e a pequena equipe) possibilitava as viagens de 2 meses por destinos exóticos, de onde traziam receitas, temperos e histórias sempre interessantes. Com o sucesso da culinária, puderam melhorar o padrão do restaurante e torná-lo mais exclusivo: a primeiras "vítimas" foram as batatas fritas e os PF, substituídos pelas receitas novas e criativas. Começaram a trabalhar com reservas, a não aceitar aqules grupos grandes de mesas com muita cerveja e barulho e poucos pratos. De cozinheira, Beth se tranformou em uma chef, com muita pesquisa, estudo e experimentos, e sobretudo um bom gosto ímpar.
Como vizinho, amigo e frequentador de todos os finais de semana, logo me tornei o "cobaia" de receitas novas, o que era um ritual sempre renovado: no cardápio, um prato novo; pergunto detalhes, hesito, me decido, peço; provo, sentindo a expectativa da garçonete (querida Regina) e intuindo a expectativa da Chef no seu santuário; meu sorriso de aprovação é levado pela Regina, já aliviada em sua expectativa; e ao final da refeição, Beth vem à mesa me ouvir, discutir comigo minhas impressões sobre a novidade no cardápio. Alguns pratos saem do cardápio, mas para mim estão sempre disponíveis, pois são os meus preferidos e afinal eu sou amigo, vizinho, de casa...
E novidades inesquecíveis: moqueca de jaca mole (as línguas de jaca em seus caroços, o curry e o dendê, um prato de inspiração indiana em sincretismo com a Bahia); jabá com jerimum desconstruídos (finas lâminas de abóbora al dente com carne seca cortada bem fina, quase um carpaccio); coelho com molho de chocolate amargo; couscous marroquino; postas de peixe com molho de tamarindo; framarão (prato tipo um yakisoba, com pedaços de peito de frango e camarões enormes)... Bem, e estou falando dos anos 1980, hoje alguns destes pratos já são mais familiares, mas na época eram total novidade; ainda não havia a abertura para importações, assim alguns ingredientes eram trazidos nas malas das viagens do casal. Foi a primeira vez que comi o couscous fora do Marrocos; hoje vende em supermercados, mas na época eles trouxeram caixas e caixas, de uma viagem; e o prato ficou no cardápio só enquanto durou o estoque. Outros ingedientes eram improvisados ou pesquisados (por exemplo, a pimenta rosa, colhida por eles em Búzios)...
Nos anos 1990, a cidadezinha cresceu, e creceu mal: favelização, escalada de violência, tráfico, invasões; o fechamento da Álcalis, a empresa em torno da qual Arraial começou, nos anos 1940-50, acelerou este processo: menos empregos para os moradores, em especial os jovens; invasões, condomínios imensos sem respeito ao meio ambiente, lixões, foram ocupando os terrenos que a Álcalis antes ocupava e preservava, manchando irreversívemente as dunas; e o populismo dos políticos; destruindo o maior patrimônio da cidade: sua beleza natural, sua tranquilidade; transformando a cidade perfeita para um turismo diferenciado em uma cidade para um turismo predatório.
Uma noite inesquecível: depois do Carnaval, findo o verão, a cidade esvaziava, era o período em que eu gostava de tirar férias e ficar os ainda longos e quentes dias ao sol, na praia quase deserta, lendo o meu Proust, tomando cerveja bem gelada. Em um destes dias, numa 2a.feira, o dia em que o restaurante não abria, o convite para jantarmos com Mark e Beth. Pela primeira vez subi as escadas que separavam o restaurante da área privativa do casal; e a noite foi de um menu degustação (também isto era uma novidade na época): dezenas de pratinhos individuais com pequenas porções das especialidades da Chef, algumas no cardápio, outras experimentais, outras feitas personalizadamente para os convidados. Vinhos fantásticos, também trazidos de viagens (nas férias eles sempre somavam aos destinos exóticos uns dias de Europa), outras bebidas diferenciadas (um cocktail feito por eles para mim exclusivamente, era o que chamávemos de "Limpol": um coquetel com cor e aparência verde brilhante do desinfetante com esse nome, um aroma de menta, e que tinha o poder mágico de secar minhas lágrimas), música de países distantes... Uma conversa sobre o futuro, sobre a preocupação deles com a transformação de Arraial, com as dificuldades com vizinhos que poluiam a praia, se sentem "espremidos", o Todos os Prazeres está ficando quase que como um ilha de calma e classe em meio a uma selva barulhenta e hostil... e os desejos de um futuro em outro lugar que se parecesse à Arraial de antigamente... Uma noite onde partilhamos, Beth, Mark, Sebastian e eu, de uma intimidade e de momentos mágicos, que pareciam eternos e que, depois eu compreendi, eram como que um prelúdio de um fim.
Alguns meses depois, Sebastian morre. Mais alguns anos e coloco à venda a minha casa, minhas idas a Arraial passam a ser bem espaçadas, agora quero conhecer outros lugares - Paraty, Ilha Grande, Penedo... Por amigos comuns sei que Mark e Beth conseguem vender o restaurante, um bom negócio, e saem do Brasil para sempre, com primeira parada em Londres, mas em busca de outros novos paraísos onde recomeçar o seu sonho.
O restaurante continua, o novo dono mantém o nome, o cardápio, a Regina e demais funcionários (uma preocupação de Beth e Mark); aos poucos, porém, teve que fazer adaptações. O livro de receitas acabou sendo só um projeto. Hoje, vejo na internet, o Todos os Prazeres é uma pousada.
Em 2006, antes de vir morar em Brasília, fui rever Arraial, depois de anos sem ir à cidade. Revi minha antiga casa (irreconhecível, pelo menos não cortaram as árvores), fui à Prainha; revi, de longe, o Todos os Prazeres...
E em final de 2006, a notícia chega a mim, atrasada e arrasadora: Mark e Beth haviam descoberto o novo paraíso, abiram seu novo All the Pleasures em Bali, na Indonésia, e estavam indo bem com o restaurante. Até que veio o tsunami de dezembro de 2004, devastando o Oceano Índico e fazendo centenas de milhares de mortos, deixando milhões de desabrigados... não sei de mais detalhes, apenas imagino em minhas noites de insonia, o que sei é que entre os mortos no tsunami estão meus amigos, Mark e Beth Walton, mortos ao trabalhar para reconquistar seu paraíso destruído. O paraíso que todos nós perdemos, e que hoje existe apenas em minha memória.

(Escrevi este post em fevreiro de 2009. Agora, em início de 2010, um email trouxe um desfecho inesperado para a história, clique aqui para ler o novo post sobre esta reviravolta)