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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Narrativas privadas, pinturas de Fábio Baroli


Estava na internet, navegando sem compromisso, vendo sites ligados a artes (bom, claro que no meio tempo uns sites pornôs, também), quando aquelas imagens me pegaram pelo pé, me derrubaram, me nocautearam; eu queria ver mais; pesquisei pelo nome do artista, descobri um blog e um flickr, mas sem endereço de email para contato. Pinturas. Um artista de Brasília. Fábio Baroli.


As primeiras imagens que vi, no site do Olheiro da Arte, uma boa vitrine para jovens artistas, foram as que me nocautearam. O breve currículo diz apenas: "É bacharelando do décimo semestre em Artes Plásticas pelo Instituto de Artes (IdA) da Universidade de Brasília (UnB)."

Depois, no blog e no flickr, pude ver mais imagens. Pinturas, retratos, grandes dimensões, de um realismo até meio retrô, virtuosísticas, mas nas quais se sente forte conceituação como base. A questão do conceito sustentando a pintura fica mais clara ao ver que o artista é o mentor de algumas performances que vi pelos jornais aqui em Brasília: intervenção na Catedral com uma luz cor de rosa; Telúrico, polêmica escultura para espaço público no campus da UnB.

Como tenho sorte, o artista participa de um Salão juntamente com uma artista amiga minha, faz-se o contato, primeiro por email e depois, ao vivo, na abertura de uma coletiva em Brasilia; uma exposição heterogênea, mas onde os trabalhos dele se destacam. Enfim vejo "ao vivo" as pinturas, continuo gostando delas, e gosto mais ainda do artista, um jovem motivado e antenado, que escolheu como meio de expressão a velha e já tantas vezes anunciada como morta, a pintura; um artista que está participando de muitas exposições e salões pelo Brasil afora, com premiações, e que é uma aposta para o futuro.

A série Narrativas Privadas se desdobra em pequenos trípticos. Uma pintura de nus que elimina a sensualidade da carne; a carne e o azulejo tem o mesmo tratamento pictórico; e o azulejo é na verdade mais sensual que a carne; como se o artista "dissecasse" os corpos, ao invés de apenas "expô-los". Mas não é um tratamento frio, distanciado; pelo contrário, a pintura é espessa, exuberante, pinceladas, espátulas, óleo; a cor é muito variada, a pele tem tonalidades de carne, de ocre, de marfim, de verde, marrons, azuis; mas a voluptuosidade é da tinta, da pintura, não das pessoas; estas estão tranquilas tomando seus banhos, os sexos e as celulites, as dobras de gorduras, as varizes, os cabelos do corpo, à mostra; como se vistas, em movimento (dado pelo enquadramento dos trípticos), observadas por alguém escondido, vistas através de um basculante, o voyeur-espectador; e o erotismo está todo nele, no pintor, no espectador, que ao ver a cena erotiza não só a carne mas também os azulejos, as gotas d'água, as torneiras de metal gasto, os aparelhos de gilete e os box de plástico.

Erotização feita não pelo tema (nus banais), e sim através da pintura; a marca do pincel do artista é a marca que o olhar do voyeur-espectador busca, e extrai de uma cena de quotidiano, de homens e mulheres de meia idade em uma tarefa corriqueira, um banho talvez meio corrido para não perder o horário do trabalho, ou cansado depois de um dia de luta; não o banho de quem se prepara para o amor ou de quem, saciado, se limpa dos fluidos e secreções de uma cópula; não; apenas isso: um prosaico banho.

Não são jovens, os corpos não são os malhados que a midia vende como os desejáveis, eles talvez não conheçam mais a intensidade do desejo já há tanto tempo perdido na rotina dos dias. Não são Madonas, não são Jesus. Mas o artista os retira de seus banheiros anônimos, e nos faz desejá-los, e nos faz, a nós, iguais a eles, desejados; como objetos de um desejo perverso polimórfico, como objetos de uma sensualidade pagã, como objetos de desejo para o voyer-artista.

Engraçado, Narrativas Privadas não é um trabalho erótico, carnal; ao optar pelo erotismo do voyeur, pelo fetichismo, eles se tornam menos crus, podem participar de exposições, não tem a pulsação de outros trabalhos do Fábio, que são explícitos e tem o vigor de um erotismo rebelde, uma série erótica da qual mesmo o artista fala com certo cuidado. São as Apropriações Textuais: uma versão sangrenta, menstruada, da Origem do Mundo, de Courbet; um enorme empalado com o rosto do artista e genitais bem desenhados, que tem de um Cristo clássico, de Goya (Esto es Peor) e de Vlad Tepes; Decapto, onde (como nos Caravaggio) a cabeça decaptada é um auto-retrato - mas o jovem carrasco está nu e seu vigor erótico é explícito.



Outros trabalhos do Fábio também tem esta forte carga de erotismo, que aparece até mesmo nos trabalhos de cunho conceitual. Telúrico é um obelisco que é uma árvore fálica em pleno campus da UnB; a rejeição ao trabalho acabou por derrubá-lo, o que irônicamente não desfez a semelhança, apenas destruíu a ereção.

Da mesma forma, ao pintar com luz a Catedral de Brasilia o concreto se torna carne, vibrante em cor de rosa, uma gigantesca vulva multifacetada. Talvez estes trabalhos mais explícitos sejam muito chocantes (pois Brasília, embora Corte, é uma Província) e estejam guardados, protegidos, para serem mostrados aos poucos, como véus que se abrem. Mas ao "domesticar" o erotismo através do fetiche, do voyeur, das Narrativas Privadas, Fábio consegue, sem prejuízo da qualidade, "se infiltrar" e  "nocautear" o espectador desavisado, como eu naquela noite em que navegava na internet.  



Veja mais trabalhos do artista em seu Blog e em seu Flickr, com mais fotos da construção e da derrubada de Telúrico, e a repercussão na imprensa.

domingo, 18 de outubro de 2009

Semana no Rio (uma maratona artística)

Dias chuvosos no Rio, perfeitos para me enfurnar no ateliê (após os muitos estudos sobre a vanitas do pintor francês Philippe de Champaigne, descobri outra pintura do artista, o Tríplice Retrato do Cardeal Richelieu, que é o tema para meu trabalho em nova série de pinturas), e também para visitar as galerias e espaços culturais, com uma programação de matar de inveja os não residentes... Uma semana que infelizmente termina em tragédia, com a terrível notícia do incêndio que destrói cerca de 90% da obra do artista Helio Oiticica em poder da família, uma perda irreparável.
Bom, sem contar com as exposições já comentadas antes aqui no blog, são duas dezenas de eventos, em um mês "normal", ou seja, está acontecendo muita coisa!

1- Quintal, exposição de Efrain Almeida na Galeria Anna Maria Niemeyer. O cubo branco da galeria, com a força do trabalho do artista, como que se transforma em um quintal de uma casa no interior do Nordeste brasileiro; mas esta transformação se faz sem recriar ambientes que se caracterizam pelo excesso, e sim ocupando, com rigor e concisão, o espaço com pequenas e preciosas peças.
Em revoada, 22 pequenas mariposas, entalhadas em madeira e laminado, ocupam uma das paredes; embora presas à parede branca, a sensação é de que voam no infinito; e cada uma delas é diferente das demais, tem suas características e personalidade diferenciadas pelo trabalho do artista, que não fez uma série repetitiva e sim criou 22 mariposas únicas e diferentes, indivíduos.
Ao lado, um pequeno galho solitário com algumas folhas, esculpido em madeira, também brota da parede como se brotasse de uma manhã, vencendo a seca e a adversidade para ser ele o quintal.
Abaixo, oito pintinhos em madeira (também cada um deles um indivíduo) fazem o que fazem pintinhos em um quintal: ciscam, se bicam, se agrupam, se separam correndo... Mais ao lado, dois pássaros (“assum preto”, tão característico do Nordeste, imortalizado na canção de Luiz Gonzaga que minha geração ouvia na límpida voz da Gal Costa), bicam um cordão de canutilhos de vidro vermelho, como se disputassem a mesma infinita minhoca viva e transcendente.
O todo é contado por suas partes, e destas cenas se faz o quintal, para onde viajamos, nos transportando mentalmente do Shopping da Gávea para o sertão nordestino. E o toque final a nos mostrar onde estamos nesta viagem mental, é a gravura feita pelo artista com xilogravadores populares nordestinos; cada gravador entalha seu auto-retrato, e um dos 14 auto-retratos é o do artista, Efrain, que assim mostra que sua arte, contemporânea e internacional, tem as raízes solidamente plantadas em um quintal nordestino e nas ricas tradições populares deste Brasil.

2- Claudio Paiva, O Multiplicador de Infinitos, na Galeria Artur Fidalgo, é uma exposição que poderia/deveria estar em um espaço institucional. Já comentei aqui sobre situações onde as galerias ditas comerciais assumem um papel diferenciado, ao patrocinar exposições que, por resgatar artistas ou obras importantes porém fora do circuito, estão trabalhando em uma lacuna que não é coberta pelas instituições culturais do Estado. Em duas situações recentes, Artur Fidalgo atuou desta forma, na exposição do artista Umberto Costa Barros, e agora ao recuperar a obra do artista Cláudio Paiva, em uma exposição importante não só pelo resgate da obra (apresentando trabalhos das décadas de 1970, 1980 junto a trabalhos recentes, uma mini-retrospectiva) mas pela qualidade, sutileza e força dos trabalhos expostos. Cláudio Paiva é da geração de Cildo, Barrio, Waltercio, Tunga, Umberto, Luiz Alphonsus, tantos outros, uma geração de artistas que apareceu logo após a Nova Figuração de Gerchman, Antonio Dias, Vergara, Roberto Magalhães... E que apareceu no período em que era mais negra a ditadura militar, a repressão e o milagre brasileiro eram as duas faces de um regime anti-cultura e anti-vida que combatia não só a contestação mas qualquer forma de vida pensante.
Em 1969, Cláudio recebe o primeiro prêmio no Salão de Verão do MAM-Rio, com desenhos que marcam para sempre a retina de quem os viu; nos anos 1980 cria obras com caixas de fósforos (as Instalações de Bolso), singelos objetos transubstanciados pela poesia dos títulos; mais recentes, desenhos também simples, concisos, ganham a força pelo título displicentemente escrito quase na borda do papel; alimento para o pensar, os objetos e desenhos tem uma seriedade e ao mesmo tempo um humor, uma ironia e uma visão de mundo de quem vê cada copo d’água como uma fonte em potencial de sabedoria e ensinamento. Imperdível.
Ah sim, sobre desenho, Claudio Paiva escreveu: “Há um pacto entre os meios, entre a linha e a cor: se, por um lado, o desenho quer ser cor, quer ser pintura, por outro lado, o desenho não quer ser nada além da linha”.

3- Paulo Pasta, na Galeria HAP, apresenta desenhos, com enfoque diferente, e é interessante comparar as frases dos artistas sobre o assunto: “Se a pintura manda em mim, parece que no desenho mando eu. Dizendo em outras palavras, o desenho funciona como um respiradouro. É um exercício mais rápido, e essa agilidade é necessária todas as vezes que estão ocorrendo mudanças no meu trabalho. O desenho se presta melhor a isso. Ele não é uma tradução mais rápida do que faço, mas me faz ver mais rapidamente as coisas”.
Paulo Pasta é um mago da cor, da sutileza; trabalha no limite entre a percepção e a cor que “entra” no observador, além da percepção; ao ver as grandes telas, com formas e estruturas simples e tantas vezes repetidas.
Nada é o que lhe parece; uma tela monocromática, a uma inspeção mais detalhada se revela em formas e cores sutilmente diferenciadas; em outras, um contraste entre dois campos na verdade é um escape para a dança de outras formas e cores sutis e ocultas.
Os desenhos, em óleo sobre papel, apresentam as questões da pintura do artista, mas não são simples estudos ou preparatórios para "a grande arte" da pintura, eles tem um pathos próprio, que pode ser equivalente ou até mais forte que o das grandes pinturas.
Bom de ver, de pensar sobre, de sentir, de viajar nas cores e nelas encontrar uma âncora, um porto, o respiradouro do artista que também é nosso; inspirar fundo; prender o fôlego; uma passagem para uma nova realidade, mais real que o real; expirar. É isso!
4- Turdus, de Ângelo Venosa, na Casa de Cultura Laura Alvim, com curadoria de Ligia Canongia, é uma exposição de impacto. O motivo dos trabalhos é um pequeno crânio de um pássaro, um sabiá, que o artista guardou em seu ateliê por uma década. O gênero das aves que inclui o sabiá, Turdus, é o nome da exposição; e a “dissecação” do pequeno crânio, a inspiração direta para as obras. O artista trabalhou a partir de uma ressonância magnética da caixa óssea do pássaro, criando duas obras na linha das pesquisas de serialidade e fatiamento características de seu trabalho. Em "Turdus 160", 170 placas de acrílico com os cortes transversais feitos a partir de uma ressonância magnética do pequeno crânio do pássaro. Unidas as placas, elas compõem uma caixa na qual se vê a estrutura translúcida de um crânio de sabiá. Já em "Turdus 21", uma escultura suspensa é formada por fatias de acrílico, baseadas nos cortes transversais do crânio, ampliados, como um móbile.
Duas visões do pássaro. O Assum Preto, do Efraim, é um pássaro quotidiano, esculpido na madeira mas leve, vivaz, o pássaro que habita os quintais e que poderia estar voando; o pássaro do Ângelo é dissecado, fatiado, seu crânio, fonte da vontade, é recomposto em esculturas feitas do espaço negativo.
Nas outras salas da exposição, o pássaro é visto como que sublimado: um dois três. Uma sala repleta do que pode ser visto como um ninho, a base para o voo do pássaro; depois, uma sala com trajetórias circulares cortadas em madeira (como a Baleia, escultura do artista, podem ser as circularidades do organismo do animal mas também as trajetórias de vôo do hipotético pássaro), contradição entre o leve do voar, da forma, e  o pesado da estrutura, do esqueleto; e na sala frontal, que se joga sobre o mar de Ipanema, “curadoria” imortal da "louca" Laura Alvim, uma enorme forquilha em madeira e metal é o bico do pássaro. Ele está pronto para voar, sobre a praia, além da praia, para o infinito.
E no Museu Chácara do Céu, na série dos Amigos da Gravura, Ângelo apresenta um múltiplo em papel recortado a laser e gravuras, baseados nas tomografias do corpo humano, bons trabalhos. E o múltiplo, 50 exemplares, um achado por R$550,00 (uma edição já quase esgotada).

5- Na Mercedes Viegas, complementando a grande exposição do Jorge Guinle no MAM, desenhos, pinturas sobre papel e duas pinturas sobre tela, do pintor carioca. Uma boa exposição, as pequenas pinturas pulsam e gritam, tem "a marca" do Jorginho, e os desenhos tem "a força" do artista. Duas boas telas complementam a visão de uma obra forte e que a cada vez que é mostrada nos traz novos significados.


6- No Paço Imperial, fotografias de Alair Gomes. Mas uma greve dos servidores da área da cultura fechou este e outros espaços, o que é uma pena. Alair é um fotógrafo, morto de forma violenta no auge de sua produção, cuja obra - séries de fotos de rapazes se exercitando na praia - sempre é revisitada com muito prazer. Desta vez são fotos e texto, de uma viagem a Europa, onde as esculturas clássicas de homens ganham o mesmo tratamento terno e apaixonado dado às imagens dos rapazes. Miguel Rio Branco editou as centenas de fotos em sequencias, dentro da linguagem de Alair. Um livro, A New Sentimental Journey, registra e acompanha a exposição. Uma dúvida que tenho, Alair desenvolveu seu trabalho de uma foram discreta, só expôs em 1984 (Galeria do Centro Cultural Candido Mendes), com retorno altamente favorável. Se fosse hoje, onde o politicamente correto comanda, ele não seria acusado de pedofilia, voyerismo,  apropriação da imagem das pessoas fotografadas à revelia? Talvez nossos dias e o futuro acabem com a possibilidade de trabalhos que, através da transgressão, chegam ao sublime.

7- Linha de Sombra, exposição da artista Regina Silveira, no CCBB. Com um trabalho desenvolvido ao longo de várias décadas e mostrado internacionalmente, a artista disseca a sombra - e a luz - traçando as distorções da sombra dos objetos sobre as superfícies. Interessante é ver, nos desenhos, o trabalho preparatório da artista, utilizando simples desenhos com quadradinhos para decompor as formas, trabalho que eu imaginava feito em computação gráfica, bom, mas na verdade trabalhos desenvolvidos antes da computação gráfica estar acessível. Na rotunda, uma projeção de pegadas, me lembra a monumentalidade dos insetos, na instalação que a artista apresentou no CCBB-BSB e que comentei, com fotos, aqui no blog. Um trabalho que fala por si, com imagens fortes, engenhosas, que desafiam a percepção do espectador e o colocam como criança, na descoberta de um mundo maravilhoso.

8- Ainda no CCBB, Argentina Hoy. Conhecemos tão pouco a arte dos países vizinhos, que eu sinceramente esperava mais, uma exposição maior, são apenas 63 obras de 33 artistas; mesmo assim, é um bom recorte da produção argentina atual. A curadoria é do brasileiro Franklin Espath Pedroso e da Argentina Adriana Rosenberg, e estão, entre outros, Jorge Macchi (que está tão bem representado na coleção de Inhotim), Marina de Caro, Leandro Erlich, Esteban Pastorino Diáz, Sandro Pereira e Flavia Da Rin. Gosto particularmente desta imagem, Bullfight, foto de Leonel Luna.
9- Ainda no CCBB, espalhadas pelo espaço esculturas de Abelardo da Hora. Vi a exposição do artista no CCBB de Brasilia, e comentei no blog.

10- No Centro Cultural da Justiça EleitoralMemórias Inventadas em Costuras Simples, exposição de Caroline Valansi. A artista trabalha como fotografias antigas, no estado (rasgadas, amassadas, deterioradas), fazendo intervenções - colagens de pedaços de fotos diferentes dão novo significado à imagem; costurando, com linha vermelha, para pontuar as uniões entre os personagens das fotos; componto um painel com o verso de várias fotos; montando em álbum diversas fotos/cartões-postais com suas dedicatórias, de lugares e personagens muito diferentes, mostrando que apesar das diversidades a emoção é comum a todos. Um trabalho limpo e bonito, que desperta no espectador fortes memórias afetivas.
11- Na Galeria Anna Maria Niemeyer da Praça Santos Dumont, uma individual do artista Luiz Alphonsus, uma boa chance de ver os trabalhos novos do artista.

Imagem aliada à palavra, com uma poética bem própria; e pinturas muito bonitas, usando do contraste entre cores e tintas metalizadas, pontuadas pelas palavras, trabalhos que dão prazer ao espectador em ler e navegar pelos significados.
12- Na Galeria Anita Schwartz, exposições de Germana Monte-Mór (belos trabalhos com uso do preto, asfalto, sobre papel, com forte carga emocional provocada pelos contrastes - branco/preto, forte/frágil, leve/pesado) e Everardo Miranda (estruturas em grade que provocam fortes sensações de perspectiva, inexistente, e de cor, por reflexo do verso da grade, branca, sobre a parede branca).

13- Coletiva na Amarelonegro, apresenta bons trabalhos dos artistas da galeria: Elvis Almeida (bonitos desenhos), Fernanda Junqueira, Geraldo Marcolini (intervenções sobre capas de discos de vinil), Gisele Camargo (bonitas obras da série Panavision), James Kudo (linda instalação sobre a parede), Louise D D, Marina Freire, Mônica Rubinho, Rafael Alonso (pintura!) e Raul Leal (gravuras clean mostradas na individual do artista).
14- Paisagem Ready-Made, na Galeria do Lago (Museu da República). Com curadoria de Armando Mattos, a exposição gira em torno de uma box-valise de Marcel Duchamp, e apresenta trabalhos de Taunay (do acervo do Museu), Daniel Buren, Daniel Toledo (intervenção sobre a cabeça de Getúlio Vargas, escultura-monstrengo que fica na Praça do Russell), Felipe Barbosa, Laura Lima, Roberto Cabot e Sophie Taueber-Arp, além da box-valise do Duchamp.
15- Coletiva de trabalhos sobre papel, na Galeria 90 Arte Contemporânea, Muro de Papel apresenta obras de Alex Gama, Ana Vitória Mussi, Chang Chi Chai, Evany Cardoso, Helena Freddi, Ileana Hochmann, Lena Bergstein, Leonor Décourt, Nelson Augusto e Neno del Castillo.

16- Pinturas de Kincas Caetano, pintor e designer brasileiro residente em Paris, na LGC Arte Contemporânea.
17- No Centro Cultural Candido Mendes de Ipanema, Marci Trotta, O Verdadeiro e o Falso, fotografias e pinturas digitais.
18- Na Galeria Toulouse, coletiva do acervo da galeria, destaco uma bonita tela grande do Augusto Herkenhoff, da  série chuva de rosas, uma bela tela do Enéas Valle e uma pintura enorme do Luiz Pizarro, da série dos Surfistas (anos 1980), uma preciosidade; além do vídeo e fotos da Brenda Valansi (A Filha de Jambo).
19- No Castelinho do Flamengo, Que segredos tem o Castelo?, coletiva com curadoria de Lucia Avancini, reunindo obras, de diversos artista, que tem como tema o belo prédio eclético do Castelinho - fotos, videos, instalações, pinturas...
20- No Espaço Clarabóia, exposição de obras que farão parte de um leilão agendado para 7 de novembro. Obras de artistas jovens ao lado de artistas já consagrados, um panorama eclético e com boas opções para um colecionador. Fiz uma rápida wish list...
Ufa!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Rio, 4 exposições

1- Na Galeria Mercedes Viegas, uma exposição com obras do artista Amílcar de Castro, duas dezenas de obras entre esculturas e pinturas, uma boa exposição, bem representativa da obra do artista.
É interessante ver as pinturas do Amílcar logo após ter visto as pinturas negras da Célia Euvaldo; tem a ver, o fazer deve ser muito semelhante; mas o resultado é bem diferente, os artistas enfocam problemas diferentes em suas pinturas:  as pinturas do artista mineiro, paradoxalmente para um escultor, são bem bidimensionais, leves, enquanto que as pinturas negras da artista paulista tem um peso, elas querem sair do seu suporte, mesmo dialogando com ele; estas, esculturas, relevos, dançam, se movem com a luz, que enfatiza as diferenças de textura, de espessura, de profundidade.
Embora as pinturas do Amílcar sejam muito bonitas, o forte de sua obra é mesmo sua escultura. Com formas simples, dobraduras precisas, repetições e rupturas, simplicidade e coerência, pesos e levezas, o artista constrói uma obra que vai se mostrando aos poucos ao espectador, que se revela aos poucos, recatada e desafiadora, como a paisagem mineira; obra que é perfeita tradução do concretismo, dos trabalhos gráficos do artista com o Jornal do Brasil nos áureos tempos, tradução do período desenvolvimentista, e que vem até nós, no terceiro milênio, renovada, atualizada, contemporânea...
E uma lembrança, a exposição Arte para Crianças, no CCBB/BSB, no início deste ano, com curadoria do Evandro Salles, que apresentou, em uma sala, 140 pequenas esculturas do Amilcar, com uma enorme ao fundo, inesquecível!

2- Aquarelas de José Alberto Nemer, na Galeria Anna Maria Niemeyer. O artista, também mineiro, com suas aquarelas, ao meu ver busca expandir os conceitos de aquarela. São aquarelas grandes, as maiores com 1,30 x 2m, o que já contraria a noção comum de um meio que se presta a trabalhos pequenos, delicados, imediatos. O perfeccionismo na técnica do artista chega a nos fazer duvidar de que se trata de aquarela, aquele meio que não aceita erro, que não permite consertos; pois as manchas de tinta se sobrepõem, se derramam, se entrecruzam; as tonalidades se combinam e se mesclam, para logo depois fluírem isoladamente; e fazer esta tinta líquida, mercurial e rebelde, seguir por grandes áreas de papel, obediente ao desejo e visão do artista, é um feito e tanto!
Além desta minha análise, afinal uma análise de quem também já brigou com a aquarela e entende as dificuldades que Nemer superou com maestria, mesmo os olhos de um leigo se encantarão pela beleza e força dos trabalhos. Vi duas exposições anteriores do artista, no CCBB em 2000 e depois em 2003, no Instituto Moreira Salles, e vejo um crescimento e amadurecimento na técnica e nos resultados.
3- Na Galeria Silvia Cintra, Divagações de um Fugu delirante, exposição de fotos de Miguel Rio Branco. O fugu é o peixe japones, equivalente ao que conhecemos como baiacu, e que, apesar de extremamente venenoso, é uma iguaria apreciada na culinária nipônica, e na verdade é o pretexto para o fotógrafo mostrar suas lindas imagens sobre Tóquio, onde expôs em 2004.
Em 2007, Miguel volta ao Japão para realizar seu segundo projeto no país, fotografando a capital japonesa enquanto o japonês Daido Moryama fazia o mesmo com a cidade de São Paulo, para uma grande exposição no Museu de Arte Contemporânea de Tóquio, em 2008, e parte da qual está sendo exposta na Galeria carioca. As fotos são excelentes, e ao serem apresentadas em conjuntos elas se agigantam, as cores saltam e se sobressaem em relação às formas, são quase abstratas em sua concretude de fotografias, são instalações, imagens de um caleidoscópio que apresenta a estranheza (para nós, claro) da cultura japonesa.
Sobre o Fugu, uma boa referência na Wikipedia, onde podemos ler sobre os cuidados para a retirada das partes venenosas do peixe, o treinamento e a prova pelos quais passam os chefs licenciados pelo Governo Japonês a preparar e servir o Fugu (na prova final o aluno come o Fugu que ele mesmo preparou, e a reprovação é a morte, o que é muito curioso mas, pensando bem, muito correto), e ainda que o prato mais popular é o tessa, um sashimi de Fugu, cortado em fatias tão finas que os desenhos do prato são vistos sob a carne crua; os pratos de tessa são decorados na forma de uma flor do crisântemo, que é, na cultura japonesa, um símbolo da morte...


4- Visões, exposição de José Tannuri, na Galeria Hugo Rocha. Um plus em minha visita à exposição foi vê-la na companhia do artista, podendo discutir com ele o trabalho, buscando um entendimento mais completo. José Tannuri utiliza o jornal como matéria prima para seu trabalho, mas nesta série que está exposta o jornal entra como meio, não como informação. Um pouco como o trabalho do Luciano Figueiredo, que utiliza as palavras e imagens do jornal como um elemento visual a mais na composição de um espaço pictórico, e diferente portanto do trabalho, por exemplo, do Antonio Manuel, onde a informação do jornal é tratada graficamente mas é a informação que o trabalho veicula.
Assim, Tannuri monta as folhas de jornal em grandes chassis; recobre-as com uma fina camada de tinta amarela, o que protege o frágil jornal e também dilui um pouco as palavras/imagens, coerente com sua proposta; sobre esta "tela", grava, com matrizes de serigrafia, imagens de "telas de arame", o que é outra camada de distanciamento; ao final pintando em silhueta partes de corpo feminino, pernas, pés, curvas; em algumas delas formas circulares como que vazadas, em diálogo com o vazado das redes; um diálogo de sobreposições, de cheio-vazio, de mostrar-se/cobrir-se, uma tensão erótica que aparece muito explícita em uma obra onde uma pequena tela de video, engastada em um suporte de jornal/tela de arame, mostra repetidamente uma dança adolescente e palavras/imagens de prostitutas.

Veja registros dos vernissages no site do fotógrafo Odir Almeida, http://www.soartecontemporanea.com/

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Exposições no Rio - 5 (na verdade, Niterói)


É um lugar comum falar da beleza do MAC, bem como das dificuldades que ele apresenta para ocupação por uma exposição: as paredes curvas, a competição entre a vista magnífica e as obras de arte... Mas esqueço tudo isso ao chegar ao Museu, em um lindo dia de sol, e me deixar invadir pela beleza das formas criadas pelo Niemeyer e da paisagem, das formas sobre a paisagem, da paisagem que invade as janelas estrategicamente posicionadas...
Nosso almoço foi no Bistrô do MAC, um pouco caro em relação ao que oferece (a menos, claro, da vista...). Niterói em termos de serviços é um pouco como Brasília (ou como o Nordeste), muita simpatia mas um certo "atolamento", enfim... mas a comida satisfez.
Três exposições em cartaz no Museu:
1- "Migranti", do artista italiano Sergio Fermariello: São pinturas e "figuras hieroglíficas", em aço recortado.
2- Arte Contemporânea Brasileira, coletiva com obras das Coleções João Sattamini e do MAC, uma boa exposição, boa oportunidade de rever boas obras como uma instalação do José Rufino, bonitas telas da Beatriz Milhazes e do Daniel Senise, um duo de imagens vestidas do Efraim, e outras.

3- Rota, exposição do artista Afonso Tostes, com curadoria de Guilherme Bueno.
A mostra não é descrita como uma retrospectiva do artista, porém a presença de momentos diversos de sua carreira do artista oferecem um pequeno panorama de sua trajetória, no que diz respeito aos trabalhos tridimensionais (em uma exposição no Paço há alguns anos pude ver, ao lado das esculturas, bonitas pinturas, grandes, do Afonso Tostes, mas no meu entendimento o ponto forte são mesmo as obras que estão neste recorte exposto no MAC).


Assim, podemos ver as esculturas em madeira com as quais o artista inicia sua pesquisa escultórica, e que funcionam muito bem em conjuntos, instalações ("florestas") como nesta mostra, são as "pernas de três". E trabalhos inéditos: a série "perna de árvore", mistura de escultura e galhos de árvore; "sem limite", esculturas montadas em bases brancas menores que as peças, fazendo com que boa parte da obra fique para fora do suporte; e uma terceira série intitulada "de dentro para fora ou escalada", com ossos de resina acrílica montados como se estivessem saindo da parede, ou como uma parede de escalada. A exposição está instalada na varanda, e portanto competindo com a bela paisagem, mas a obra do Afonso Tostes tem uma força orgânica e uma precisão que a fazem sustentar bem o confronto. E que nos fazem desejar ver mais da produção do artista.

sábado, 15 de agosto de 2009

Exposições no Rio - 2

Na 5a.feira passada fui à abertura de duas boas exposições, no Baixo Gávea, encontrei amigos, conheci pessoalmente amigos virtuais, conversas inteligentes, tudo contribuiu para uma noite bem agradável, uma festa como costumava ser o Rio e, vejo ainda continua, em lugares e momentos especiais...
Artur Lescher na Galeria Anita Schwartz. No salão monumental da galeria, Máquina, uma escultura de malha e tubos de aço inox, é como que gigantesco tear de ficção-científica; pelos espaços, peças articuladas, em madeira; e no terraço, ao ar livre, enorme colchão de água de um azul profundo é como um mar fluído, onde se pode deitar e flutuar e observar o céu limpo, com estrelas e o Cristo Redentor.
Outro vai ser, na Galeria Anna Maria Niemeyer da Praça Santos Dumont, é uma coletiva com obras sobre papel, dos artistas Ana Miguel, Cristina Salgado, Monica Barki e Victor Arruda. A curadoria é do artista Carlos Martins. As diferentes trajetórias dos artistas faz com que as obras sejam bem diferenciadas, do desenho a uma instalação (com papel) da Ana Miguel (Amor a Kafka: relato de viagem), mas a exposição está harmônica e bem interessante.
Já na 6a.feira, no Centro da Cidade, no belo prédio do Centro Cultural da Justiça Federal, a coletiva Vem na Mão apresenta obras de Alê Souto, Antonio Bokel, Bernardo Ramalho, Elvis Almeida, Gustavo Speridião, Julio Castro, Marcelo Eco, Márcio Mitkay, Nueve Polar, Ozi, Paulo Santos, Petite Poupée 7 e Smael. O link entre eles é a temática urbana, a carga gestual e o graffiti, e a sisudez e imponência da arquitetura do prédio contrasta com o frescor e a contemporaneidade da mostra.
Depois, um capuccino da Kopenhagen da Senador Dantas, um luxo!

(para ver as fotos dos vernissages, entre no site do fotógrafo Odir Almeida, www.soartecontemporanea.com)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Exposições no CCBB-BSB

Fim de semana em Brasília, e uma boa programação é sempre o CCBB. Pensar que enquanto o Palácio do Planalto está sendo reformado, o Centro Cultural é utilizado para os despachos da Presidência da República; será que os políticos tem a curiosidade de andar um pouquinho e ver as exposições em cartaz?
Três boas exposições:
1- Saint-Étienne - Cidade de Design: É parte das comemorações do Ano da França no Brasil, uma mostra sobre design, tecnologia e sustentabilidade da Cité du Design Saint-Étienne. Objetos interessantes, um design que sabe ser bonito mas também cheio de preocupação com ecologia, desperdício, reaproveitamento de recursos etc.
2- Elder Rocha - Justaposição Polar: pinturas, desenhos e uma instalação do artista goiano, residente em Brasília, professor de Artes Visuais da UnB. Bonitos trabalhos, justaposição de imagens anônimas, quase arquetípicas, com elementos de pintura. As imagens são ilustrações de livros antigos, gravuras em traços finos, pré-computação gráfica; ampliadas, adquirem uma estranheza, os traços finos se tornam aparentes como traços, e a pintura traz efeitos painterly ao gráfico, escorridos, velaturas, contrastes. Um trabalho limpo e preciso, uma boa exposição, para ver e rever. O lançamento do catálogo será no dia 5 de agosto.
3- Abelardo da Hora, retrospectiva - Amor e Solidariedade: Artista radicado em Recife, Abelardo da Hora completa 60 anos de carreira, marcada pelos temas sociais e líricos, e a retrospectiva no CCBB apresenta cerca de 120 peças - esculturas, desenhos e trabalhos em cerâmica. Uma oportunidade de ver o trabalho do artista, pouco apresentado no circuito Rio-SP. Embora algumas peças me pareçam meio "datadas", é inegável o vigor da obra.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Dia no Rio

O tempo no Rio melhorou, após o frio do final de semana o sol veio, não com a força do verão, claro, mas suficiente para encher a praia pela manhã, e com isso encher meus olhos de coisas bonitas, em meu caminho pela orla para o trabalho.
Comemorando o ano da França no Brasil, uma exposição de artistas franceses em outdoors montados como totens, pela orla de Copacabana. Indo de carro, uma visão rápida mostra o que parecem ser trabalhos na sua maioria gráficos, toques de arte urbana, bem contemporâneos, mas sem nada a destacar. É um ponto a mais de beleza em uma paisagem já tão bela, mas está longe de representar a arte francesa ou mesmo de chegar como arte para o espectador, que certamente vê como mais uma série de outdoors.
Meu pensamento vai para uma notícia dos eternos jornais velhos: a prefeitura está pensando em comprar uma "escultura" do Romero Britto (pelo que vi na foto é na verdade um recorte bidimensional montado na vertical), uma imagem de uma mulher de biquini que poderia ser a Garota de Ipanema. Pela módica quantia de R$165mil rais (ou seria dólares?). Bom, certamente será melhor que o pândego corneteiro do finado César Maia na esquina da Garcia com a Visconde (qualquer coisa seria melhor que este estrupício). Mas o poder público no Rio, que já colocou nas ruas da cidade Waltércio, Amílcar, Ivens, Angelo Venosa, poderia dar destino melhor para esta verba.
Mas a visão da praia me impede de ser resmungão, e me mantém feliz até a noite.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Anita Schwartz, Rio, 2 openings

On July 8, at 7pm, Galeria Anita Schwartz, in Rio de Janeiro, is opening two exhibitions:
Trajetórias em Processo II, with works of artists Estela Sokol, Gustavo Speridião, Ronald Duarte, Tatiana Ferraz and Vijai Patchineelam.
And an exhibition of artist Felipe Cohen.
Guilherme Bueno is the curator of both exhibitions.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Um olhar sobre a paisagem contemporânea, in Rio de Janeiro


Pólo de Pensamento Contemporâneo (POP) and Galeria Mercedes Viegas, in Rio de Janeiro, are opening an exhibition, “Um olhar sobre a paisagem contemporânea” (a look on the contemporary landscape), with paintings, photos, drawings and sculptures of several brazilian artists: Amália Giacomini, Ana Holck, Angelo Venosa, Anna Maria Maiolino, Daniel Murgel, Elisa Bracher, Enrica Bernadelli, Eduardo Coimbra, Maria Laet, Maria Lynch, Matheus Rocha Pitta and Ricardo Ventura. Fernando Cocchiaralle is the curator of the show. POP is at Conde Afonso Celso Street, 103, Jardim Botanico, Rio de Janeiro, the opening will be on July 6 and the exhibition stays until July 31.

domingo, 26 de abril de 2009

SP, on-line, 2

Domingo de sol gostoso e temperatura amena em São Paulo, continuo minhas visitas às exposições:
1- No "anexo" da exposição Rumos no Itaú Cultural, um sobrado simples perto abriga duas instalações "site specific", dos artistas Kilian Glasner e Tiago Carvalho ("Galeria Boliche"), interessantes.
2- Na FIESP, "1961: A Arte Argentina na Encruzilhada: Informalismo e Nova Figuração". No geral, conhecemos muito mais da arte européia ou americana do que da arte de nosso vizinhos latino-americanos, assim esta exposição é uma ótima ocasião para suprir um pouco desta lacuna. O interessante é que a exposição foca na produção de arte de apenas 1 ano, 1961, no qual a arte argentina teria passado por esta inflexão da arte abstrata à nova figuração. Um destaque para mim é a pintura do artista Luis Felipe Noé, que eu não conhecia, e que me deixou fascinado: uma pintura espessa, no limiar entre abstração e figura, cores escuras e vermelhos fortíssimos, e uma prova de se pode fazer uma pintura abstrata política ou engajada, sem ter que cair na figuração kitsch.
3- No Instituto Tomie Ohtake, boas exposições. "O Corpo Denso das Imagens", uma pequena retrospectiva do escultor e pintor Sérgio Romagnolo, com esculturas que são a marca registrada do artista (série Os Profetas, os Fuscas Vermelhos...) e pinturas desde o início da carreira nos anos 1980 até recentes, enormes pinturas de stills desfocados da série de TV A Feiticeira; o catálogo é resumido, mas à venda há um lindo múltiplo, réplica em miniatura dos dois fuscas vermelhos. Roberto Magalhães, A Outra Margem, exposição que se concentra na produção desenhos e pinturas) mais recente do artista; eu vi parte destes trabalhos, acompanhados de obras de outras fases, na Caixa Cultural de Brasília; ao meu ver, no confronto com as obras antigas, estas pinturas mais novas (onde o artista deixa o "hiperrealismo" no tratamento da pintura por um tratamento mais chapado, gráfico) perdem um pouco; porém ao vê-las em um conjunto homogêneo adquirem outra vida. Bob Nugent, Amazônia, uma pintura que se estende por várias salas; um bom catálogo também; o artista é excelente colorista, domina com maestria as diferentes técnicas que utiliza e os efeitos que consegue, com base nas suas muitas viagens ao Brasil e especialmente à Amazônia, são belíssimos, embora (eu acho) um tanto frios, distanciados (como um olhar apolíneo sobre uma Amazônia que é mais dionisíaca). Gravuras recentes de Tomie Ohtake, muito bonitas, e o mais importante ao meu ver é o dinamismo e a vida da artista, ainda produzindo, e muito, e bem, em sua idade.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Garaicoa, no CCBB-BSB: arquitetura e ruínas


Carlos Garaicoa é um artista cubano nascido em 1967, com uma obra já reconhecida internacionalmente, e que tem a arquitetura como um dos temas recorrentes. Com estreitas ligações com o Brasil, o artista já participou da Bienal de SP, de coletivas como “Arte de Cuba” no CCBB em 2006 e teve uma individual na Gentil Carioca, no Rio. O CCBB de Brasília está mostrando uma boa exposição individual de Garaicoa, uma ótima chance para conhecer um pouco da trajetória do artista.
Havana, uma cidade com um passado pujante de construções coloniais e da primeira metade do século XX, que os anos de regime fechado e de descaso transformaram em ruínas, e a inventividade da população remendou com os escassos recursos da extinta União Soviética.


Estas imagens que se tornaram tão comuns na midia são a matéria prima para o artista Garaicoa, que as transfigura em seu trabalho; e se tornam imagens universais, a falar de ruínas não só cubanas mas da arquitetura mundial, e mesmo ruínas do ser humano, no sentido mais existencial, zen, como na instalação Jardim Japonês: pó - construção - ornamento arquitetônico - ruína - pó.
A busca de espaços utópicos: maquetes de construções ultra-modernas no meio das ruínas de Havana; a proposta de "clonar" prédios, subvertendo o conceito eugenico de clonagem, ao utilizar como matriz não "o melhor da raça" e sim um prédio industrial decadente, meio abandonado, meio ruína. Em uma instalação, a partir de uma mesa, traços de construções em perspectiva, feitos em linha de costura presa por alfinetes, com panorâmicas de cidades reais em pequenos monitores de vídeo, se projetam na parede em uma cidade utópica, modernista, com direito até a um zepelim sobrevoando, tudo feito em linha com os alfinetes, frágeis construções como que a falar de um futuro-passado lírico porém frágil (do pó ao pó).
A vinculação crítica com a arquitetura, com o modernismo, com o Brasil, a arte brasileira, o concretismo e também, claro, com Brasília, fica muito evidente em uma instalação chamada De como minha biblioteca brasileira se alimenta de fragmentos de uma realidade concreta: Livros de arte e de arquitetura brasileira, presos em blocos de concreto como construções "concretas" modernistas, formam o qe se percebe ser um muro, ao ver que o verso está crivado de cápsulas de balas...
Arquiteturas ideológicas e políticas: uma maquete com a proposta de uma estátua equestre do "governante de plantão"; sem cabeça, a estátua equestre está complementada por rampas e cabeças sobressalentes para que a população substitua pela cabeça dos novos líderes, cabeças que se enfileram nas rampas. cada qual com seu pombo de bronze, à espera de serem colocadas em função no tronco do herói equestre.
Uma boa exposição, e a crítica à arquitetura e ao modernismo ganha, ao meu ver, outra visão ao ser vista em Brasília e no meio do tiroteio sobre a enfim abortada Praça da Soberania, onde apareceu todo um subtexto de ideias sobre o poder mágico da arquitura e do arquiteto, a função da utopia, o desgaste das construções e das ideologias que fizeram estas construções, a ruína... ideias estas que Garaicoa utiliza de maneira precisa, competente e estética, em seu trabalho.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Arte para Crianças, no CCBB/BSB


Uma das coisas boas desta minha vida de nômade pós-moderno é poder ver (nem sempre, às vezes perco por problemas em agenda) as coisas boas em arte que às vezes ficam restritas a um dos polos apenas (Rio, Brasília, São Paulo). Ou ver duas ou mesmo três versões da mesma exposição, com diferenças de acordo com a cidade (a "fumaça" do Anish Kapoor - Ascension - no CCBB do Rio era solene, icônica, intimidadora; no CCBB de Brasília era lúdica, interativa, user-friendly).
Esta exposição, Arte para Crianças, por exemplo, é específica para o CCBB de Brasília, com seus espaços amplos. O curador é o Evandro Salles, que conheci no início dos anos 1980 (participamos juntos, com muitos outros artistas, de um ciclo de exposições no Parque Lage, dirigido então pelo saudoso Rubem Breitman, outro dia falo destas exposições).
E a exposição tem muitos acertos. É arte para crianças, mas não é absolutamente "baixar o nível" para que as crianças entendam; pelo contrário. É uma ousadia mostrar Lawrence Weiner para as crianças (sem intermediação dos pais, que certamente não entendem nem um pouco do conceitual brabo de L.W.). É uma ousadia colocar centenas de xilogravuras do Rubem Grilo, emolduradas uma a uma, entre elas um pequeno video disfarçado de quadro, em uma "casinha de boneca", com bancos de vaqueiro em couro trançado onde as crianças se sentam e imaginam histórias a partir dos elementos fantásticos das gravuras... É uma ousadia apresentar o suprematismo de El Lissitzky em um desenho animado... E tudo em espaços bem organizados, com textos explicativos, áreas de repouso...

Mas a maior das ousadias, certamente, é o grande salão dedicado ao Amílcar de Castro. O aspecto lúdico, para as crianças, é trabalhar em dobraduras; o que fazem com prazer em grandes mesas. Mas para os adultos (para mim), é absolutamente espantoso ver 140 esculturas do Amílcar (pequenas, 30cm, além de uma escultura grande) em estantes, em uma sequencia infinita. Meu Deus, eu tive que ir a uma exposição "para crianças" para ver esta maravilha? Para poder ver uma legião de esculturas como nunca vi antes, lado a lado, para ver as repetições, as variações, as dobraduras, o ferro tratado como um papel, o movimento suspenso, o equilíbrio precário, todos juntos, 140, o ad nauseam! Que colecionador é esse, que tem 140 esculturas pequenas do A.C.? Que inveja, que deslumbramento!

Ainda: um ambiente lúdico, uterino, maravilhoso, do Ernesto Neto. O cubo de vidro do CCBB foi totalmente ocupado pelo ambiente do Ernesto e por mesas e cadeiras orgânicas do artista, que vi em exposição na Galeria Artur Fidalgo, onde as crianças (e os adultos) fazem trabalhos de dobraduras e encaixes, tendo como molde esculturas "duras" do Ernesto Neto; mas o ponto alto realmente é a vivência do ambiente. As crianças deliram, os adultos viram crianças.

As pinturas do Sued transformadas em varais coloridos com panos manipuláveis pelos espectadores, ao ar livre, em pleno sol da tarde; para as crianças, são casas de cor. Ainda, uma instalação do Emanuel Nassar, que é como se uma pintura do artista se expandisse para abarcar um módulo do prédio; com direito a um mistério (a letra "E" está bem visível no "lado Este" da pintura/instalação; mas onde está o "N"? pergunto à monitora e a resposta é: enterrado, em um canteiro do jardim, no "lado Oeste"...).
Trabalhos emblemáticos da Yoko Ono (talvez excessivos, mas é bom rever o jogo de xadrez com todas as peças brancas). As xipófagas do Tunga (hoje apenas em vídeo, na abertura estavam ao vivo). Uma parede de interatividade com os azulejos tão Brasília, tão modernismo, do Athos Bulcão. Gaiolas e aquários do Eder Santos. Um vídeo do poeta Manoel de Barros. E os fantásticos e safados robôs da Mariana Manhães, em versão candelabros.

O catálogo é didático, sem ser excessivo, e os textos estão próximos a cada trabalho, oferecendo chaves (acho que para os pais, as crianças talvez entrem direto nos trabalhos, sem a necessidade destas chaves). Para mim, este é o maior acerto do Evandro Salles: fez uma exposição "para crianças" que atinge a todos os públicos; pois ele parte de uma concepção de criança que não é absolutamente piegas, paternalista; ele não faz "arte boba para crianças", e não se preocupa em explicar o que não pode ser explicado em arte ("O que é isso, uma mulher de nariz verde? Minha senhora, isto não é uma mulher, é uma pintura"). Ele acredita que a percepção livre das crianças pode ser melhor que a percepção de um adulto reprimido; e ele mostra arte contemporânea sem ter que pedir desculpas pelo que está mostrando.

sábado, 22 de maio de 2004

3 múltiplos: "O Bêbe" do Ernesto Neto, "Icosaedro" do Felipe Barbosa e as pernas dos "Candangos" do Bruno Giorgi Posted by Hello