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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Em busca do ouro

Chegar a Ouro Preto é como, de repente, estar dentro de uma paisagem de Guignard, é claro que já devem ter escrito isto antes mil vezes pois é a mais pura e óbvia verdade, não me importo, para que tentar ser original quando do alto destas montanhas tantos séculos me contemplam, tanto ouro tirado da terra, entregue aos Bragança ou contrabandeado nas trancinhas dos cabelos pixaim ou nas entranhas dos santos-do-pau-oco, tantos escravos mortos ou alforriados, em busca do ouro, do ouro preto.
(o ouro encontrado na região tinha as pepitas escurecidas por uma camada de paládio, o que lhe dava uma  tonalidade escurecida, característica, diferente da cor do ouro de outros lugares).
O ônibus vem devagar, amanhece, eu estou totalmente aceso, a estrada é cheia de curvas, subidas, descidas; em uma curva do caminho se abre inesperada a paisagem, um panorama entremeado de névoa, neblinas, um sol insistindo em nascer, as montanhas que se sucedem em planos irregulares. Nos planos: palmeiras, igrejas, casas com telhas moldadas nas coxas dos escravos, rios, córregos, matas. E acima de tudo o céu onde provavelmente moram anjos e santos barrocos. Guignard puro.
Desço (aqui se desce e sobe o tempo todo) até a Praça Tiradentes, já é plena manhã com sol forte e céu azul, pego um mapa da cidade para programar passeios e, no lugar onde os pedaços de Tiradentes ficaram expostos, enquanto estudo o mapa, ouço conversas como música de fundo. No mais puro sotaque de mineiro, que sempre traz uma sensação de pureza, de ingenuidade, um rapaz conta para o outro o ciúme que sentia da mulher e como ela a traiu, o assunto passa abruptamente para como ele agora está "em condicional", o interlocutor pergunta "o que é condicional", ele explica. Com a impressão de que perdi para sempre alguma informação importante (provavelmente os detalhes de como a infiel foi morta), sigo minha descoberta de Ouro Preto, Vila Rica, a Imperial Cidade de Ouro Preto.
Para mim, apenas um lindo dia de sol, a sensação de caminhar sobre pedras, seguir o mapa até uma igreja, ficar deslumbrado com o poder, a grandiosidade das volutas barrocas, da pedra entalhada, dos dourados, dos azulejos, dos santos com roupas e cabelos de verdade e com olhos brilhantes de vidro; descobrir que as sacristias são mais bonitas que os altares-mor; desenhar em meu moleskine detalhes, detalhes, detalhes intermináveis; seguir o caminho, pelo mapa ou pedindo informações, uma cidade turística como outra qualquer, só que sem um MacDonalds, o que é um diferencial altamente positivo.
Mas não é só isso, à medida em que sigo e converso ou ouço conversas, percebo presenças, sinto que o Tiradentes exposto na praça continua exposto, que a paisagem está cheia de grupos de turistas mas também está cheia de fantasmas, de vultos que se intui ou se percebe apenas com a visão periférica ou com os olhos fechados.
Vila Rica, o nome já nasceu com o indicativo da riqueza que foi sua glória e sua derrota: o garimpo. E a rica vila , uma serra pelada do período colonial, deve ter sido um lugar bem estranho para se viver.
Há uma Vila Rica, expansiva, solar; no burburinho dos onibus escolares com turistas; nos garotos, as cuecas aparecendo sob as bermudas caídas, que tiram fotos com seus celulares e ao apito dos professores se aglomeram para ouvir as explicações sobre a história da cidade; nas famílias que fazem turismo ou festejam uma segunda lua-de-mel; nas igrejas cheias de fiéis mas mais cheias ainda de turistas que sempre querem fotografar; no movimento de estudantes que tomam café com pão de queijo no intervalo entre as aulas.
E uma outra Ouro Preto, noturna, misteriosa, feita do sangue dos garimpos e dos escravos, dos inconfidentes, dos poetas, e que aparece em lugares insuspeitos; na conversa ao meu lado na praça; nos calouros que circulam pelas ruas com cartazes pendurados em seus corpos indicando sua situação (como os escravos); nos crimes; no Tiradentes esquartejado e exposto; nos becos onde você pode se perder para sempre; nas noites onde o barulho das festas ao longe mal esconde o rumor de correntes arrastadas, de matracas da Paixão de Cristo, de novenas e Te Deums, de açoites, castigos e orgasmos.
Vila Rica começou com a Bandeira de Antônio Dias no final do século XVII, o primeiro bandeirante paulista a chegar na região, atraído pelas promessas de riqueza a partir do estranho ouro enegrecido. Um primitivo arraial se fundou no morro de São João com a celebração de uma primeira missa para um grupo pequeno, que depois se multiplicaria. O garimpo, terra de ninguém; as atividades tradicionais - agricultura, criação - são abandonadas pela busca do ouro, para que perder tempo plantando ou pastoreando quando em uma pepita se pode descobrir a riqueza instantânea?
Assim, no início do século XVIII, a região passa pelo que se chamou de A Grande Fome. Dois forasteiros se matam a faca por uma cuia de farinha. Cheias dos rios em terríveis estações de chuvas agravaram a situação e provocam o êxodo de populações para outros arraiais, uma marcha de famintos que caíam de inanição nos caminhos do Rodeio. Fala-se que existiria até hoje um Campo das Caveiras, com centenas de mortos no esforço de subir a serra fugindo da cidade famélica. Escravos e ciganos, armados, assaltavam os vivos e saqueavam os mortos. O horror.
Horror que continuou e talvez tenha tido seu auge na Inconfidência; penas cruéis: por enforcamento, amarrado a cavalos e arrastado pelas ruas, depois esquartejado. Tiradentes, enforcado em 1792, teve seu corpo esquartejado e os destroços espalhados pelos caminhos de Minas Gerais; outros, exílio da África; o poeta Cláudio Manuel da Costa encontrado morto na prisão, oficialmente por suicídio. A cabeça de Tiradentes foi exposta em plena Vila Rica, sumiu misteriosamente e nunca mais foi encontrada.
Já no século XXI, o horror foi outro, novas tecnologias na cidade colonial, um jogo de RPG (role-playing game) com toques de magia negra teria provocado o assassinato de uma jovem,  a estudante Aline Silveira Soares, que foi a um evento em Ouro Preto, a "Festa do Doze", em 11 de outubro de 2001. Com duas amigas, ficaram hospedadas em uma república; no dia 13, um túmulo do cemitério de Ouro Preto foi violado; e no dia seguinte, o corpo de Aline foi encontrado no cemitério da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia; sobre um túmulo, despida, de braços abertos e pés cruzados, e com 17 ferimentos feitos a faca. Os acusados pelo crime são três rapazes, moradores da república, e uma jovem, prima da vítima.
As repúblicas em Ouro Preto são um capítulo a parte; se espalham pela cidade, cheia de estudantes; de todos os níveis, umas ricas e tradicionais, ocupam casas maravilhosas; outras menos poderosas, improvisadas até; só de moças, só de rapazes, mistas, GLS ou homofóbicas. São muito parecidas com as fraternities e sororities das universidades americanas, tão descritas em livros (A História Secreta, de Donna Tartt, é um deles, com sua trama de cumplicidades e estudos clássicos) e filmes (um dos melhores talvez o Sociedade dos Poetas Mortos, do diretor Peter Weir, além de longas séries de terror+rir de Pânico e aparentados). Uma experiência que, no Brasil, não é onipresente como na cultura norte-americana; na Universidade em que estudei o campus era uma ficção, se resumia às conversas nos pilotis; assim para mim foi uma experiência engraçada ficar hospedado em uma república.
O ponto forte é a hospitalidade, a facilidade em se fazer amigos, a diversão sempre presente, a casa cheia todo o tempo. O que poderia ser um ponto fraco, a pouca privacidade, não cheguei a sentir; mesmo com a casa cheia há um cuidado com as individualidades. Enfim, uma boa experiência, como é interessante passear na noite na cidade e ver a movimentação nas repúblicas, o barulho de festas, a juventude. E também uma marca da cidade, de Minas, a interiorização: não há um "baixo Ouro Preto", como temos vários "baixos" no Rio, onde as pessoas vão para as ruas beber e confraternizar; as loucuras acontecem entre as paredes coloniais das repúblicas, das casas, das igrejas; sob a aparência tradicional, o desvio; sob as igrejas barrocas, o prazer, a transgressão, o êxtase.
Como no crime das irmãs Poni, em 1962; as irmãs Ethel e Edina Poni, da chamada alta sociedade de Minas Gerais, assassinaram em uma pousada em Ouro Preto, a sangue frio, a nova companheira do ex-marido de Edina, o milionário Fernando Melo Viana Filho. Uma história de amor e ódio, de traição, de dinheiro, violência e impunidade; um assassinato cometido na frente de testemunhas, em público; enquanto Ethel segurava os braços de Maria de Lourdes Dias Calmon, Edina, campeã de tiro ao alvo dos clubes tradicionais de Belo Horizonte, dispara dois tiros de seu revolver calibre 32 na nuca da vítima. As duas senhoras foram presas algumas horas depois; para recebê-las, a cadeia de Ouro Preto foi reformada; o julgamento teve a participação de juristas importantes, e o conservadorismo da sociedade mineira foi determinante para acolher a tese da defesa, de coação moral irresistível, e absorver as acusadas, culpabilizando a vítima.
Segundo a defesa (o texto é uma pérola ao descrever o conservadorismo brasileiro da época, onde o divórcio ainda não era legalizado e as separações eram vistas com estranheza, um casal formado após um desquite era um casal pária, apontado na rua, os filhos de desquitados marginalizados nas brincadeiras com os filhos de famílias),  "a vida de Edina tornou-se uma via crucis, n’uma sucessão de sobressaltos e angústias, permanentemente oprimida e coagida por sua impiedosa rival (...) se viu obrigada a privar-se de comodidades e da vida de conforto que sempre teve – pois passou faltar-lhe o mínimo para a sua subsistência – Maria de Lourdes deixava seu emprego (...) anunciando aos quatro ventos que descobrira uma “mina de ouro” e não precisava exercer um ganha-pão honrado: foi engrossar o número daquelas que vivem da mais triste e mais antiga das profissões... (...) Continua acentuado o contraste entre ambas, após a desgraça visitar a morada de Edina, na pessoa da Calmon: enquanto esta fazia freqüentes viagens a Europa (...), ostentava jóias de um luxo asiático (...), requintando em sempre fazer chegar a Edina a notícia dos presentes caríssimos que recebia do Dr. Fernando (...). Edina a esposa legítima, atravessava períodos de notórias privações, com os credores batendo-lhe humilhantemente às portas (...) com os próprios fornecedores de gêneros negando-lhe mais crédito e obrigando-a a ir as duras fainas do trabalho na propriedade agrícola do casal, onde se dedicava à fabricação de doce para vender junto ao seu círculo de relações.  (...) Senhora da situação como se julgava, confiante de sua ascendência de fêmea moça sobre o amante sexagenário (em números redondos a Calmon tinha 30 anos e o dr. Fernando o dobro, passou ela a infernar a vida da acusada Edina atormentando-a, amargurando-a e levando-a ao desespero, através de freqüentes (...) telefonemas urbanos e interurbanos em que, utilizando de linguagem sórdida, preservada na tradição das vivandeiras, à Edina dizia que devia conceder o desquite ao marido para que ele pudesse regularizar sua situação com ela; que Edina se convencesse que era uma mulher velha e superada, enquanto que ela tinha mocidade a oferecer a seu marido e coisas quejandas (...)"
Estão todos lá, vagando, enquanto caminho pelas ladeiras, enquanto fotografo com meu celular as sombras, os azulejos e as fontes, enquanto bebemos uma cerveja Backer, enquanto vamos de república em república, os vultos nos perseguem e se escondem nos becos, os barulhos ao longe, as estrelas, o céu do Guignard.
Sim, e o Museu Casa de Guignard, uma delícia; a casa onde o artista morou, uma casa muito simpática com um gostoso quintal, muito bem conservada e adaptada para um museu simples, sem grandiosidade, cool como o artista.
Museu com pouco acervo, nem meia dúzia de telas do Guignard (mas uma lindíssima, pintura sobre madeira, grande, com cores fortes); uma cama e outros objetos pintados pela artista; e uma coleção de pequenos desenhos, cartões, bilhetes de enamorado; apenas isso; mas não faz mal, se respira Guignard em toda parte, um lugar gostoso para se ficar horas como ficamos, e se sentir também um pouco enamorado por esta Ouro Preto de Guignard. Como esta casa fosse um par de parênteses, fosse como uma capa protetora a deixar fora o lado soturno, os espíritos.
(Guignard também tem um lado negro, sabemos; depressivo, os complexos a partir dos lábios leporinos; mas sua obra dificilmente é soturna, mesmo nas cenas de noite, há uma transcendência, uma elevação, uma alegria quase ingênua. Outro artista, ligado a Ouro Preto, que transcendeu as limitações do físico foi certamente Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, cuja deformação absolutamente não deixa marca na beleza de seus anjos. O barroco, a transcendência da pérola deformada, o êxtase)
E assim deixo Ouro Preto, já fazendo planos para voltar.
Uma residência, registrando em meus moleskines os azulejos e azulejos das igrejas, quem sabe?
Ou simplesmente voltar, sem motivo, sem desculpa, pois a vida é boa e melhor ainda se se consegue rever o passado e tornar realidade algo que ficou inconcluso há tantos anos. Ou séculos.
Buscando o ouro e o encontrando.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Colecionando arte e esposas


Escrevi aqui no blog que a minha visita ao Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid, me trouxe curiosidade sobre o Barão e a Baronesa, cujos retratos, de um kitsch imponente, se destacavam no hall do Museu; um pouco como se no meio da coleção Gilberto Chateaubriand aparecesse um retrato do colecionador não feito por um Glauco Rodrigues e sim por um pintor de rua da Feira Hippie de Ipanema (ou de Montmartre, dá na mesma). 
Afinal, como uma pessoa que viveu cercado de obras-primas desde criança (o pai já era um grande colecionador), não se fez retratar por um grande artista contemporâneo, um Warhol, um Sutherland, ok, um Bacon ou um Freud pode ser demais, mas há alternativas não tão radicais. A Baronesa, em especial, uma perua, com os cachorrinhos poodle com lacinhos cor-de-rosa combinando com seu vestido, é um triunfo do kitsch.
Também me lembrava vagamente de ter lido sobre ligações do Barão com o nazismo, com o Brasil, um casamento com uma brasileira, será esta a do retrato? poxa, ela poderia ter contratado pelo menos o Albery... Minha companheira de viagem lembrava de mais detalhes, quem era a brasileira, e de um divórcio rumoroso ou uma disputa pela herança.
Enfim, os melhores amigos do homem são o Google, a Wikipedia e o whisky, não necessariamente nesta ordem; chegando no Rio fiz minha pesquisa básica sobre o Barão, para complementar meu post sobre Madrid, imaginava um ou dois parágrafos, mas o assunto rendeu e aqui vai em um post próprio.
As histórias que circundam o Barão Thyssen-Bornemisza, morto aos 81 anos de um ataque cardíaco, em 2002, e de sua coleção de arte que deu origem ao Museu, tem aspectos bem interessantes e que aprecerem na midia não só nos cadernos econômicos e culturais, mas também nas revistas sobre o jet-set e nos tablóides de escândalos e fofocas, com cenas de traições, processos e brigas familiares, e com um capítulo importante contado nas colunas sociais brasileiras.
Conhecido como Heini, o Barão veio de uma riqueza e título nobiliárquio recentes, embora as biografias apontem a família Thyssen com raízes alemãs antigas. O avô, August Thyssen, era um produtor rural alemão que, a partir de um negócio de cercas para galinheiros, construiu um império em aço, ferro e armamentos, rivalizando com os Krupp, e se tornando amigo do Kaiser; colecionador tardio, encomendou esculturas a Rodin. Já o filho mais velho, Fritz (tio de Heini), amigo de Goering e Hitler, tornou-se um defensor ardente do nazismo, apoiando e financiando este regime até que um desentendimento com Hitler o levou a um campo de concentração; com a vitória dos Aliados ele também foi preso, e terminou seus dias na Argentina.
O pai de Heini, Heinrich, deixou a Alemanha e se fixou na Hungria, casando-se com a filha de um nobre, o Barão Bornemisza; herdando (ou comprando, para terror dos heterodoxos seguidores do Almanaque de Gotha) o título do sogro. Em húngaro, Bornemisza significa "que não bebe vinho"; posteriormente, Heini brincava que deveria ter modificado o título para Wiznemisza ("que não bebe água"). É bom este Barão, e a história está só começando...
Com a tomada da Hungria pelo governo comunista, em 1919, o Barão Heinrich se mudou com a família  para a Holanda, onde ganhou fortunas, como banqueiro e armador; formando então uma grande coleção de obras de arte, que ficava sob a guarda do filho Heini.
Os biógrafos (não-autorizados, claro) de Heini dizem que sua infância foi muito solitária, apesar de ter três irmãos; foi criado por uma governanta alemã, que depois suicidou-se; e raramente via seus pais, que se divorciaram quando ele tinha 8 anos; ninguém contou a ele sobre o divórcio dos pais até seus 11 anos. Ah, os ricos...
Com a morte do pai em 1947, Heini herdou as empresas e o título, mas seus irmãos reivindicaram na justiça a partilha da coleção, o que o marcou muito. Ele depois passou anos recomprando a maioria das obras e também comprando muitas outras, expandindo o gosto focado em arte do passado da coleção paterna ("Meu pai considerava lixo qualquer pintura feita após o século XVIII", dizia Heini), e transformando-se em um dos colecionadores mais obsessivos e ecléticos, e também muito preocupado em que sua coleção não se dispersasse no futuro. Estimativas são que o Barão gastava cerca de 60 milhões de dólares anuais na compra de obras de arte, e declarava: "Gosto de pintura porque é um assunto que nunca rende conversas desagradáveis", bem ele nunca frequentou como artista uma escola de arte senão teria ouvido muitas conversas desagradáveis sobre pintura.
Tornou-se o segundo maior colecionador particular de arte, só perdendo no ranking para a Rainha da Inglaterra; mas ele observava que a "a Rainha talvez não fosse exatamente uma colecionadora".

Como colecionava obras de arte, o Barão também colecionava mulheres bonitas, em 5 casamentos (com divórcios crescentemente mais caros, afinal colecionar é uma obsessão crescente). Em 1946, casa-se com uma Princesa, Theresa de Lippe, e tiveram um filho, Georg Heinrich.

Em 1953 começa um caso com Nina Dyer, uma linda modelo inglesa, casando-se com ela em 1954 após o divórcio, para descobrir que Nina o traía com "um ator francês empobrecido" (segundo Danuza Leão, que, em seu livro "Quase Tudo" alega também ter sido paquerada por Heini (será?), o amante de Nina era Christian Marquand; entrega ainda Danuza que Marquand era amante de Marlon Brando; apaixonado, Brando batizou  seu primeiro filho com o nome de Christian). Enfim, Heini e Nina tiveram um divórcio ainda mais caro que o anterior; depois Nina casou-se (e também se divorciou) do Príncipe Sadruddin Aga Khan , irmão do Aga Khan IV, convertendo-se ao islanismo com o nome "Shirin", que significa "doçura", suicidando-se em 1965, tudo muito rápido como as bolhas de champagne que bebiam.

O Barão insiste nas modelos inglesas, casando-se em 1956 com Fiona Campbell-Walter, e um divórcio ainda mais caro, em 1964. Fiona depois se envolveu com um homem muito mais novo, Alexander, filho do armador Onassis, que morreu com 24 anos em um acidente de helicóptero.
Heini e Fiona tiveram dois filhos, FrancescaLorne Freiherr, que se converteu ao islamismo, não casou e é produtor/diretor de cinema). Já Francesca se casou muito bem, com Karl Habsburg-Lothringen, o herdeiro do extinto Império Austro-Húngaro, filho do Arquiduque Otto. Os avós de Karl, Karl I e Zita de Bourbon-Parma, foram os últimos Habsburgos reinantes, por pouco menos de 2 anos, até o final da Primeira Guerra, quando Karl I foi deposto (não abdicou, detalhe sutil); posteriormente Karl I foi beatificado (um passo antes de ser declarado santo) pelo Papa João Paulo II, em 2004; e o processo para beatificação de Zita também está correndo no Vaticano. Chiques, não? E outra conexão brasileira: o milagre atribuído a Karl I foi a cura, inexplicável pela ciência, das veias varicosas que tornavam inválida uma freira brasileira.

Mas a fase brasileira do Barão só começou em seguida, casando-se com Denise Shorto, riquíssima, frequentadora, com sua irmã Charlene Shorto, de todas as colunas sociais brasileiras e do jet-set internacional na época. Viveram juntos por 17 anos, com um filho (Alexander), até um divórcio muito mais caro e conflituoso, com acusações mútuas de sonegação (ele) e roubo de jóias de família (ela).

Uma fofoca interessante (traduzo livremente uma entrevista do colecionador e marchand Eugene V.Thaw, publicada na Architectural Digest em fevereiro de 2008, e que está na internet, clique aqui) é que "em algum estágio do casamento Denise tinha, com o consentimento do Barão, um amante, Franco Rapetti, que se tornou um grande fornecedor de obras de arte para Heini: pinturas de grandes mestres e do barroco. Ao mesmo tempo, as obras do período modernos eram adquiridas em NYC de marchand Andrew Crispo, que logo se tornou famoso de um modo negativo, envolvido em um caso de assassinato ligado a sadomasoquismo, conhecido como Máscara da Morte? E mesmo o Rappetti acadou caindo ou sendo jogado de um apartamento em Manhattan. Ele sabia demais, já que havia muita coisa envolvida na batalha por acesso ao Barão, marchands em amplas redes de intermediários e comissões super-lucrativas ..."

Outras histórias interessantes, para quem lia a Interview brasileira, são as que envolvem Charlene Shorto, irmã da baronesa Denise, e seu marido, o lindo modelo Cacá de Souza, e o estilista da haute-couture  Valentino Garavani. Cacá tinha 18 anos quando conheceu Valentino; companheiros inseparáveis; até que Cacá conhece Charlene e esta paixão falou mais alto, casou-se com a jovem linda (e rica, claro); as fotos do casal na praia de Ipanema, mesmo em preto e branco na antga Interview são inesquecíveis, o sorriso aberto de Cacá e a sensualidade loura de Charlene. Segundo publicado em revistas sobre o jet-set, Valentino deixou de falar com o antigo protegido, até que um telefonema insistente teve que ser atendido: era Cacá comunicando o nascimento de seu primeiro filho, Sean; e o convite para que Valentino fosse o padrinho da criança. Irresistível, vem o perdão, e Cacá e Charlene trabalham para o costureiro, Cacá é o relações-públicas, mesmo depois do divórcio Charlene (hoje Charlene de Ganay) continua tendo tarefas na maison de Valentino; e Valentino é o padrinho de Sean e de Anthony, os dois filhos do casal, e herdeiros de toda a fortuna do estilista. O amor é lindo, e todas as pessoas desta história são lindas, Cacá não é mais aquele jovem de sorriso aberto das fotos da Interview mas continua lindo em seus cabelos grisalhos; tem um sítio em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em uma Casa Vogue antiga tenho fotos do sítio, dele e de Sean e Anthony, dois belos rapazes.

E a história segue, estas histórias paralelas caberiam em um blog inteiro, assim volto ao Barão. Uma boa fonte para este underground do mercado de arte e do sadomasoquismo no jet-set são os números antigos da Vanity Fair. Sobre o crime da Máscara da Morte, alguns artigos na internet, clique aqui e aqui. E sobre a morte do Rappetti, um colunista do NYT que o conheceu bem (e que também detalha no artigo outras fofocas sobre o Barão e suas esposas) diz que teria sido um suicídio causado pelo excesso de cocaína, clique aqui.

Bom, em 1981 o Barão conhece uma antiga Miss Espanha 1961, Carmen Cervera, ou Tita, ex-mulher do ator Lex Barker, antigo Tarzan e um dos muitos (ao todo 7) ex-maridos de Lana Turner, a "Garota do Suéter", a inesquecível mulher fatal de The Postman Allways Rings Twice. Lex foi casado 5 vezes e estava noivo da futura 6a. esposa quando um enfarte fulminante o levou, caminhando nas ruas de NYC poucos dias depois de completar 54 anos, muito jovem e ainda charmoso.

Lex era um galã, alto e muito bonito, e Lana um símbolo sexual; um casal perfeito de Hollywood; mas o casamento  acaba quando Lana, com um revolver, expulsa Lex de casa; ele havia estuprado Cherryl Crane, filha de Lana, então com pouco mais de 12 anos; em uma sequencia de abusos que, segundo a autobiografia de Cherryl, se iniciara há algum tempo. Pobre Cherryl, poucos anos depois, com 14 anos, foi a vez dela usar uma arma, desta vez uma faca, e matar o gangster Johnny Stompanato, guarda-costas e amante de Lana, que, extremamente ciumento,  extorquia e espancava a atriz, ameaçando desfigurar seu rosto. Cherryl foi absolvida, posteriormente assumiu seu lesbianismo, trabalha como corretora de imóveis em Palm Springs e foi um apoio para Lana em seu período de decadência, devido principalmente ao alcoolismo da atriz. Ufa!

Em menos de 6 graus de separação, portanto, vamos do Barão Thyssen-Bornemisza a Johnny Stompanato e ao submundo de gangsters da California (o filme L.A. Confidential coloca Johnny Stemponato como um personagem secundário), como fomos do Barão a John Kennedy via Onassis.

Abro parênteses:
A teoria dos 6 graus de separação é muito interessante, e serve como base para os vários sites de relacionamento a partir do Orkut. Segundo esta teoria,  são necessárias no máximo seis "laços de amizade" para que duas pessoas, no mundo inteiro, estejam ligadas. Assim, A é amigo de B (1 grau), B é amigo de C (2 graus)... Se pegarmos duas pessoas quaisquer do Planeta Terra, elas podem ser ligadas em uma rede menor que 6 graus. 
Quaisquer pessoas, pensei agora em um exemplo meio louco, a Madonna (sim, a superstar) e a Dona Deusa, a auxiliar de minha mãe em Teresina, Piauí. Não me pergunte como seriam todas as redes possíveis, mas vou tentar uma delas:
Madonna  ---  Jesus Luz  ----  D.Christiane, mãe de Jesus Luz  ---  minha amiga Virgínia (sim, a mãe de Jesus Luz trabalhava em um salão de beleza em Ipanema como tinturista e cuidava da cor do cabelo de minha amiga e de muitas outras pessoas no Rio)  ---  eu  ---  minha mãe  --- Dona Deusa.
Fácil, exatamente nos 6 graus de separação, com possíveis simplificações: ir direto da Madonna para a sogra D.Christiane e de Virgínia para minha mãe, e chegamos a 4 graus de separação entre a Madonna e Dona Deusa. Faça a brincadeirinha, é engraçado.
Esta teoria inspirou uma peça e um filme muito interessantes. No filme, que se passa em NYC, um rapaz (interpretado pelo Will Smith) que se diz filho de Sidney Poitier, entra na vida de um casal rico, o marido é marchand, e a partir daí vai entrando na vida de pessoas da elite americana.
Eu tenho uma sub-teoria, a de que ao se analisar a elite, o jet-set, a realeza, o patriciado, em qualquer época; e se usar para os "graus de ligação" um conceito mais restrito, o de "parentesco de sangue ou sociedade em negócios ou conhecido no sentido bíblico" (veja que o conceito usado na teoria original é muito amplo, o que é "amigo" parece mais com "amigo virtual" ou apenas "conhecido"), as ligações, todas elas, se fazem em bem menos que 6 graus, talvez 4.
O jet-set é muito incestuoso, sempre foi, haja visto os Habsburgos, os Bourbons, o círculo em torno de Napoleão, e mesmo os Césares de Roma com o monte de Julias e Otávias.
Fecho os parênteses.

Com o casamento com Tita, Heini adota Borja, um filho que Tita teve como produção independente, complicando mais ainda sua sucessão. As relações entre o Barão e seus filhos se agravam a partir do casamento com Carmem, a quem a filha Francesca descreve como "a madrasta má". A partir de um derrame, Heini entrega o controle das empresas ao filho Georg; posteriormente o Barão e a Baronesa (na verdade a Baronesa, comandando o Barão já parcialmente inválido) acusam Georg de negligência nos negócios; a Baronesa até mesmo, como tentativa de tirar o controle dos negócios de Georg, alega que este não seria filho do Barão e sim de seu cunhado. Após uma longa disputa judicial, um acordo é assinado. 


Uma grande preocupação de Heini era a de não dispersar sua coleção, e para tal entra em negociações com várias instituições e governos. Inicialmente a Suíça, país onde morava e onde já estava a coleção; mas a proposta do governo suíço, para ele, foi insuficiente. A Disney acenou com a possibilidade de abrigar a coleção em Orlando, na Flórida, e os governos da França e da Alemanha entraram na disputa. Margaret Thatcher, na época primeira-ministra da Inglaterra, escreveu várias cartas ao Barão, informando-o de que investiria 220 milhões de dólares para erguer um museu em Londres, e o lobby inglês se completou com uma visita do príncipe Charles ao magnata. O barão declarou ter se divertido com o assédio, mas declinou gentilmente as propostas. 

Sua escolha finalmente foi pela Espanha, onde passou seus últimos anos de vida, e atendendo também ao desejo da Baronesa para se firmar socialmente de forma mais completa, como benemérita diretora de uma Fundação importante em seu país. O que a princípio seria uma doação acaba como uma cessão com custos; por cerca de 350 milhões de dólares, o governo espanhol arrendou 830 obras da coleção, para sediar a coleção reforma o antigo Palácio de Villahermosa, construído entre o final do século XVIII e o início do século XIX, em Madrid.  Mais tarde, outras peças da coleção Thyssen-Bornemisza ganharam exibição permanente num monastério medieval perto de Barcelona, no antigo Mosteiro de Pedralbes. E assim a coleção, como o Barão queria, ficou coesa e aberta para o público, que pode, como eu fiz, admirar as obras-primas em uma tarde ensolarada em Madrid.


Leia ainda: Obituário do Barão no Telegraph

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Madrid em maio

Uma viagem com tempo curto, uma programação intensa e muita disposição: nada mais que 12 dias do mês de maio, entre Madrid, Bilbao e Paris, para conhecer o Guggenheim de Bilbao, os novos (para mim) espaços de arte em Madrid e Paris e, como motivação maior, 2 exposições em Paris: "Vanités (C’est la vie)" - claro, meu tema preferido - e a retrospectiva do Lucien Freud. O planejamento inicial evoluiu, incluindo uma ida a Metz para conhecer o recém inaugurado (ainda com cheiro de tinta fresca) Centre Pompidou-Metz, e o resultado foi melhor que o planejado, conto aqui no blog.

Talvez eu seja muito americanizado, como Carmem Miranda e a bossa nova. O fato é que nos últimos anos (décadas) privilegiei viagens para meu playground artístico predileto, NYC, deixando a Europa de lado. Este ano tomei coragem, e com as prestações da última viagem (NYC em outubro de 2009) pagas e um passaporte novo, cá estou andando na Gran Via de Madrid que está completando 100 anos e que, juro, já se chamou, nos tempos franquistas, Avenida José Antonio (não confundir com a paulista Brigadeiro Luiz Antonio, o de Madrid é barra-pesada, é o fundador da organização fascista Falange).

Agora um parênteses no meu texto. Minha primeira viagem a Madrid foi há longos anos, em plena ditadura do Generalissimo Francisco Franco e também em plena ditadura no Brasil, assim eu flanei pela Avenida José Antonio e fui em excursão ao principal passeio turístico, o tal Valle de Los Caídos, um bosque e uma igreja incrustada em uma montanha de pedra, e que são na verdade um monumento fascista em homenagem aos mortos da Guerra Civil espanhola; uma marca dolorosa para o povo espanhol, pois foi construído com exploração do trabalho dos vencidos na Guerra Civil.
Quando voltei a Madrid alguns anos depois, o Rei Juan Carlos garantia os primeiros passos da nova ordem, uma monarquia parlamentar; o fascismo era algo a ser totalmente esquecido, e a Avenida voltou a ser Gran Via; e bem que tentei rever, sem segundas intenções, o Valle de Los Caidos, mas os guias turísticos me olhavam com suspeita, disfarçavam, mudavam de assunto, o passeio não fazia mais parte de nenhuma programação turística, era como se o Valle nunca tivesse existido ou fosse um produto de minha imaginação.
Bom, hoje, em 2010, talvez a Espanha tenha chegado na um tempo sem radicalismos, o fato é que ao final dos menus de passeios turísticos, provavelmente o passeio mais brega, lá está o Valle, agora com um plus: o ditador F.F. também está enterrado lá (não sei se isso é um plus ou um minus, enfim). Fechar parênteses.

Realmente outros tempos (a velha piadinha sem graça, "a Espanha finalmente entrou para a Europa"). Madrid é uma cidade linda, bem conservada, muito limpa, pujante na nova arquitetura que é feita sem destruição do antigo; os serviços funcionam muito bem, o Aeroporto foi reformado e está lindo e funcional (e ligado ao centro da cidade por metrô, que diferença dos nossos); a vida noturna é íntensa e mais barata que em Paris; e a vida cultural também bombando.
É o que me interessa, fui lá para isso, e muito fácil, os principais museus todos em uma mesma linha, um passeio para se fazer a pé. Ou pelo tour do ônibus regular de turismo, 17 euros por um dia de viagens ilimitadas em duas linhas, podendo saltar em qualquer ponto e retomar o passeio, vale à pena, até para um entendimento melhor da geografia da cidade.
Ah sim, filas grandes nos museus, compensa comprar um passe para todos os museus, pelo menos se evita as filas; embora em alguns museus o passe não dá direito às exposições temporárias.

Primeiro, o Prado. Um clássico, modernizado com uma ala nova para exposições temporárias (expondo as releituras do Richard Hamilton sobre Las Meninas, as de Velasquez, de Goya e as do Picasso), mas o bom mesmo é visitá-lo como a um clássico: Las Meninas, claro, pelo menos uns 10 minutos de êxtase diante desta obra-prima, e os outros Velasquez, as infantas e os reis; e os Goya, e o Saturno devorando seu filho (o mesmo Prado tem também uma outra versão do mesmo tema, de Rubens, vale a pena ver e comparar, o expressionismo de Goya é mais ao gosto contemporâneo, mas a visão da mordida e da cara de pavor da criança no quadro do Rubens não tem preço, a criança do Goya é meio um boneco destroçado mas a do Rubens é uma criança viva, como eu, como nós todos); e, ainda do Goya, o "Perro Semihundido", este tão contemporâneo e que me faz lembrar a visita ao ateliê da Lucia Laguna e um tela dela, um estudo a partir do Goya, desconstruindo-o, que foi fundamental para o desenvolvimento de sua pintura. E o Jardim das Delicias e outros Bosch, e os El Greco, e mais, muito mais.

Museo Reina Sofia. Um espaço maravilhoso, amplo, uma junção perfeita da arquitetura antiga (o edifício do antigo hospital projetado por Hermosilla e ampliado por Sabatini) com a nova (a expansão feita pelo Jean Nouvel). Um jardim interno delicioso, na ala Sabatini; e uma praça agradável com um bar muito gostoso, na ala Nouvel, são os espaços de convivência.  Perfeito? não tão perfeito assim, achei o museu com um fluxo meio confuso, algumas exposições ou obras se perdem completamente; mas nada que um bom design não possa remediar. A dica: entre pelo predio principal, o Sabatini, nós entramos pelo Nouvel e ficamos meio perdidos até nos situarmos.
Um museu de primeiro mundo, com muito espaço disponível, um acervo monumental (Guernica finalmente em seu pouso, eu a vi pela primeira vez no MoMA, "asilada" segundo orientações do próprio Picasso, aguardando a redemocratização espanhola, e depois no Prado) e exposições temporárias de peso.
Sim, as exposições temporárias. As principais:
1- Retrospectiva do artista alemão Thomas Schütte, nascido em 1954 e que foi aluno do Gerhard Richter.Eu conhecia pouco o trabalho do artista, assim foi muito bom ver uma retrospectiva tão extensa e bem montada, com esculturas, cerâmicas, projetos/maquetes, desenhos, pinturas e principalmente instalações, combinando as demais midias; uma obra forte, coerente, política (uma série fantástica de esculturas, Dirty Dictators, são bustos de ditadores com fisionomias contraídas, esgares, caretas) e também poética, frequentemente em grandes escalas e bem ancorada em conceitos muito precisos e execução primorosa.

2- Martín Ramírez, Marcos de reclusión. Morto em 1963, mexicano que passou a maior parte de sua vida internado em hospitais psiquiátricos na California, construiu uma obra pessoal e obsessiva. Eu tinha grande curiosidade pelo seu trabalho, muito badalado em termos de outside art, mas ao ver uma grande exposição como esta me decepcionei um pouco, achei um tanto repetitivo, e com resultados que não chegam aos de um Bispo de Rosário.

3- "Desvíos de la deriva. Experiencias, travesías y morfologías", com curadoria de Lisette Lagnado e Maria Berríos, apresenta projetos arquitetônicos/urbanísticos utópicos (a maioria dos quais não chegou a ser construída) brasileiros e chilenos. A exposição tem para nós, brasileiros, portanto, um significado especiais, mostrando o trabalho de artistas bem conhecidos nossos: Flávio de Carvalho, seu traje de verão, os projetos para prédios e palácios não construídos e também o de sua casa na Fazenda Valinhos (com páginas de revistas de época, O Cruzeiro, Casa e Jardim...); Lina Bo Bardi; Sérgio Bernardes e outros modernistas utópicos brasileiros. E também, claro, para conhecer trabalhos chilenos na mesma linha, que conhecemos tão pouco: Juan Borchers, Roberto Matta...

Andando um pouco, chegamos na CaixaForum Madrid para La solitude organisative, uma exposição do artista Miquel Barceló. Adoro, é um de meus pintores prediletos, a partir da exposição que vi em 2003 na Pinacoteca de SP. E agora fico  muito feliz em poder ver outra exposição grande deste pintor, que, segundo falou Martin, um jovem espanhol que jantou conosco, não é muito bem visto no meio artístico espanhol atual; talvez muito comercial; não sei; a partir deste comentário tentei ver a exposição com olhos mais críticos mas acabo gostando mais ainda do Barceló e de suas pinturas, desenhos e esculturas extremamente matéricos.
O espaço da CaixaForum também é lindo, os arquitetos aproveitaram um prédio antigo e acima dele construíram espaços de exposição, com um muro vivo, de plantas, e os muxarabies, janelas que os espanhóis herdaram dos mouros, a reclusão a partir de treliças colocadas nos balcões; mas os arquitetos fizeram um muxarabie de terceiro milênio, em aço córten com textura cortada a laser.
Na entrada, uma escultura do Barceló, um imponente elefante equilibrado apenas em sua própria tromba. E no espaço expositivo, a obra do artista aparece, distribuída em sete módulos; são os desenhos (destaque para as aquarelas feitas às centenas na África), pinturas (os mares, as bibliotecas, os vegetais e os seres marinhos, as "paisagens para cegos"  que parecem "pintadas em braille"; as cabras, os crânios, os gorilas, os retratos e auto-retratos...), esculturas, cerâmicas, uma obra múltipla e que celebra a vida e arte, uma pintura que se impõe no espaço a partir de um peso interno e da forte matéria pictórica.
Um bom catálogo também, com um resumo da trajetória "nômade" do artista e de suas casas: Maiorca, Barcelona, Madrid, Paris, Portugal, Genebra, NYC, além das muitas temporadas em pequenas cidades na África.


E o Museu Thyssen-Bornemizsa. Lindo, instalado em um Palácio do Século XVIII-XIX especialmente reformado para abrigar a coleção, o Palacio Villahermosa, um excelente acervo com uma visão sequencial da história da arte ocidental, do medieval ao modernismo, complementa exatamente o espaço entre o Prado e o Reina Sofia bem como as coleções destes outros museus: o primeiro com a pintura mais antiga e um acervo extenso, e o segundo com foco nos modernistas, artistas espanhóis e arte contemporânea.
Uma exposição temporária, muito boa, Monet e a Abstração, aborda o trabalho de Monet como  importante no desenvolvimento do Expressionismo Abstrato e outras formas de abstração. Monet, que nas primeiras décadas do século XX teve seu trabalho em ostracismo, voltou a ser valorizado a partir dos anos 1950 com o Expressionismo Abstrato. Assim, obras de Monet, em especial algumas da série das ninféias, são colocadas junto a obras de Pollock, Lee Krasner, De Kooning, Rothko, Helen Frankenthaler... e de outros artistas onde se pode ver abstração embora não sejam expressionistas abstratos, como Turner, Gerhard Richter, Cy Twombly e mesmo o surrealista Andre Masson.
Se o Museu Thyssen-Bornemizsa impressiona, me trouxe também curiosidade sobre a vida do Barão e da Baronesa, cujos retratos imponentes e kitsch dominam o hall principal da construção; uma leve lembrança de talvez ter lido em colunas sociais que uma brasileira era a mulher deste Barão aumentou minha curiosidade; uma pesquisa rápida pela internet me abriu um filão interessante, mas isto fica para o próximo blog.

Outro "museu" a visitar foi o Museo del Jamón, alimento não para o espírito como os outros museus e sim para o corpo, uma cadeia de bares/restaurantes, meio o que seria aqui no Rio um lugar tradicional como o é Cervantes (ih, outro espanhol), que se pode comer no balcão mesmo, sem decoração sofisticada mas comidas deliciosas: presuntos de todo tipo, claro; frutos do mar, paellas, queijos também deliciosos, tapas; cervezas, viños... tudo muito gostoso e não muito caro.

Se o tour de ônibus dá uma ideia global da cidade, não se pode dispensar andar a pé pela Gran Via, Plaza Mayor, o centro antigo, até o Palacio Real; no caminho, muito bem restaurado, e um point gastronômico que ferve tanto no almoço como na happy hour, o Mercado de San Miguel. Um mercado antigo, lindo, em ferro e vidro, totalmente recuperado, transformado em lojinhas de tapas, queijos, jamón, viños, cervezas, ostras e champagne francês, caviar, vodkas, drinks sofisticados e drinks básicos, pães, doces, cafés, chocolates, pasta... tudo possível e imaginável, de todas as regiões da Europa pelo milagre do Mercado Comum... Atendimento excelente, pessoas lindas, muito movimento, um lugar para degustar muitas outras vezes.

Encontramos nossos amigos, o pintor Gonçalo Ivo, sua mulher Denise e seus filhos Antonia e Leonardo, que moram em Paris e estavam em uma semana de férias em Madrid, nos deram muitas dicas e que apresentaram a restaurantes muitos bons, a cada noite íamos a um novo lugar, em um crescendo gastronômico e em conversas cada vez mais interessantes; mas o destaque da programação com eles foi mesmo o happy-hour no Teatriz, o antigo teatro redesenhado pelo Philip Stark como um restaurante fantástico, um lugar onírico... e com um champagne frances mais barato que em Paris...

Madrid surpreendeu, um lugar lindo, barato, movimentado, com muitas opções culturais e gastronômicas. E uma característica para mim inusitada. Nós, brasileiros, falamos muito da tal "lógica portuguesa", ("esta estrada vai para tal lugar?" "não sinhoire, ela fica aqui, se ela for nós ficamos sem estrada" e outras coisas do tipo). Pois descobrimos que na verdade é uma "lógica ibérica", na Espanha menos acentuada que em Portugal mas que se manifesta para os brasileiros espantados. Nosso batismo nesta lógica foi no primeiro café-da-manhã no Hotel; o horário para o café estava bem explícito, das 7h às 10h; o que fizemos? claro, chegamos às 9:45h para ver com surpresa que exatamente às 10h, quando ainda estávamos no suco de laranja e no primeiro croissant, toda a mesa farta estava sendo desmontada, muito rapidamente; corremos para salvar o resto do café-da-manhã que afinal deveria nos manter alimentados até mais tarde em um dia de muitas caminhadas; ao reclamarmos com a gerente, ela explicou que estava bem divulgado que o horário de encerramento é às 10h. Ela tem razão, claro, dentro da lógica ibérica cartesiana, "pelo ponto de vista do estabelecimento, se encerra às 10h, às 10h as pessoas não tem mais nada para comer"; só que por nossa lógica, "pelo ponto de vista do consumidor, se o horário é até as 10h, pode se chegar até este horário, encerram-se as entradas no local, não o serviço, até mesmo por que é um buffet". Enfim, são pontos de vista discrepantes, e chega a ser engraçado; mas tudo se passa numa boa, sem conflitos, afinal temos muitos mais coisas em comum que diferenças com a Espanha...

domingo, 6 de junho de 2010

Um vinho, um vinho, um vinho

Paris, perto de l'Opera, o lugar onde antigamente os turistas brasileiros iam comprar os perfumes e olhar, só olhar, os produtos no Fauchon. Sim, mangas e carambolas a preço de uma fortuna, os turistas brasileiros riam, na feira da General Osório as mangas custam uma ninharia, saíam e iam comprar os tais perfumes; hoje, o Fauchon é mais bonito que nunca, todo rosa Schiaparelli (clique neste link e é uma overdose de rosa, pink, minha cor predileta e também da avó da Marisa Berenson, e do Fauchon também, claro), se modernizou, lá agora pode se comprar um kit com sushis ou com caviar e degustar lá mesmo, em mesinhas e tamboretes como os do Baixo Leblon, mal comparando, pães também, deliciosos, e mesmo um simples capuccino.
Mas não ficamos no Fauchon, e as lojas da Maison Chanel não resolveram nosso problema. Minha companheira de viagem tem encomendas, encomendas caras, uma delas é um tamanco Chanel, para mim um tamanco Dr.Scholl atualizado, de salto alto com um detalhe de uma flor do lado, discutível para o meu gosto, mas pelo preço é um produto que separa os de alta renda dos de baixa renda; difícil encontrar o tal tamanco; a viagem inteira uma busca do tal tamanco e de outros objetos de desejo. Já escreveram muito sobre o consumo conspícuo, eu não vou entrar nessa e escrever mais bobagem sobre isso.
Quero escrever sobre o nosso outro compromisso no l'Opera: conhecer a Lavinia. Uma loja de vinhos. Disse meu amigo que mora em Paris: a melhor de todas. OK, acredito, vou lá ver, e dou minha mão à palmatória:  oui! É realmente a melhor, e eu estive pela California, por NYC, pela Itália toda, pela Argentina, até pela Serra Gaúcha... mas vinho realmente é na França.
A Lavinia se faz presente: além das adegas (os vinhos em si), dos produtos para ajudar na degustação dos vinhos ( das taças de cristal aos decanter em cristal até os simples abridores e sacolas para levar vinhos em picnics, ah! Le Déjeuner sur l'herbe...)
Bom, achamos a loja, e fomos vendo como as coisas acontecem. Comidinhas deliciosas (um queijinho francês básico em homenagem a Paris e, para quem acabou de chegar de Madrid, um jamón fatiado é a pedida).
A degustação é de terceiro milênio. Na  loja, duas torres projetadas para uma degustação automática, um self-service, o que conceitualmente é muito engraçado. Você compra um cartão magnético com 10, 15 ou 20 euros, passa o cartão em um aparelho de leitura e a máquina atualiza do valor no cartão e serve uma dose do vinho escolhido.
Duas torres: uma para vinhos branco e outra para vinhos tinto, na temperatura ambiente. O preço das doses depende, é claro, do vinho escolhido .
Entendido o esquema, só nos resta curtir. Um cartão "básico", de 10  euros, uns queijinhos e jamóns, são três taças para cada um de nós, mas POR QUE COMIGO TUDO SEMPRE É DIFERENTE? Eu paguei 10 euros pelo cartão para as degustações, quando coloco meu cartão nas torres, o computador diz que o meu cartão é de 100 euros? OK, vou beber até cair, penso, tenho vontade de ser gauche na vida, mas a educação que Seu Antonio e Dona Genu me deram é mais forte, volto à caixa, faço uma pequena confusão para retomar o valor verdadeiro no cartão, os tais 10 euros. Sou bobo?
(acho que sim, sou bobo, mas tenho histórias sobre esta minha pseudo-honestidade, vou escrever no blog, na verdade não acho que é tanto "honestidade", ética no sentido abstrato, filosófico, para mim o determinante é a coisa prática, ser desonesto é muito menos prático do que ser honesto. Também vou contar no blog o dia em que eu ganhei na minha conta do banco mil vezes o meu salário, e não sabia o que fazer com isso. Acho que eu sou um mutante, um novo tipo de ético-prático, sei lá, enfim.)
Voltamos à Lavinia, devolvi o cartão "full" e voltei ao meu básico-terra. Bom, acho que pela minha honestidade eles poderiam me dar um upgrade, sei lá, seria ótimo, mas não fizeram isso, ficaram passados e me devolveram o cartão já reduzido aos 10 euros, nem me agradeceram. O mundo é ingrato, a Lavinia também.
Enfim, la nave vá, e as degustações também, os tais 10 euros são sabiamente gastos.
Mas.
Claro.
Nas torres de degustração um vinho se destaca. A dose é 15 euros. Uma dose. Um premier cru. Eu jurava que os premier cru tinham sido codificados como premier cru na época do Napoleão Bonaparte, o que se fez coroar, ele, pessoalmente (e que poderia ter coroado os premier cru, teria melhor resultado que se coroar a si e à Imperatriz Josefina, enfim), mas a Santa Wikipedia me salva, a classificação é de 1855 quando Napoleão já tinha ido desta, talvez envenenado por arsênico. Vou ao caixa (por que não erram de novo e me dão uma garrafa?). Jogo no cartão de crédito, 15 euros é uma pechicha. Muito menos que o tal tamanco Chanel, que custa inacreditáveis 500 euros. Um shot. OK.
Um premier grand cru classé.
Um Chateau Mouton Rotschild, safra de 1978.
Ao lado, um "segundo vinho de um grande Chateau", o Les Forts de Latour (do Premier Chateau Latour) é outra pechincha, o shot a 10 euros. Mas se eu vou abusar, abuso em grande estilo. Refil no cartão, 15 euros. Meu shot. Uau.
Vale cada centavo. O aroma é indescritível. Um viño que amadureceu cada dia dos seus 32 anos (uma criança), em uma cave, ele não envelheceu como eu, como todos nós, ele amadureceu, c'est la difference. Ele ganhou um aroma divino, de um bosque, de folhas úmidas em um bosque, de um deus, de um deus que fosse francês e morasse dentro de folhas úmidas em um bosque; talvez um fauno, um pã, um devoto do tal Dionísio; e de pele, de pelica, de couro, de uma fábrica de bolsas de grife, um Louis Vuitton ou não, mas não na hora das vendas, e sim quando as bolsas estavam sendo feitas e o couro exalava aquele aroma selvagem. De um vinho selvagem, mas há tanto tempo? Já domado, dominado, sim, mais ainda selvagem, mas me dizendo, a cada cafungada em meu shot de 15 euros, de onde ele veio, de que terroir, em que solo pedregoso de Bordeaux nasceram as videiras e onde ele foi colhido, pisado e engarrafado, e me apontando para antes, muito antes, para um mundo onde o tempo e o saber fazer, a expertise, valiam alguma coisa, onde uma garrafa era diferente da outra, onde não existia um McDonalds, onde você aspira o que há de aroma de uma taça e isto te leva a uma viagem para um infinito.
Que mais, além das folhas úmidas, do couro? um cheiro deste infinito, de uma selva onde deuses gregos poderiam dançar mas que optaram por ficar, estáticos; um cheiro de sexo, não o sexo fácil de um turista, não o sexo cansado de um viúvo, e sim o sexo de uma primeira noite, de um namoro recente, de um tirar as roupas e se esfregar com força e com desejo. Um cheiro de sutilezas, flores e frutas de bosque meio passadas, como quando você faz amor e acorda no meio da noite e os morangos e a vodka que você ofereceu a quem compartilhou o momento com você estão fazendo seu caminho rumo à decadência, e você também, mas é muito bom estar com alguém então você volta a dormir.  Um beijo rápido e você volta a dormir, e isso é tudo, mais um abraço só para dizer que ainda estamos juntos, é exatamente este aroma, o aroma de um sexo fulgente e que continuará em uma eternidade de beijos meio dormidos. Um aroma das trufas, de quando se cava a terra úmida e se encontra um presente, uma dádiva do deus que mora na terra úmida, uma trufa? nunca, talvez um diamante, quem sabe, ou nada, mas neste momento você se envolve em si mesmo e o aroma é seu, é o seu suor de amor, é do couro dos cavalos que não saem da estrebaria (meu Deus, não existem mais estrebarias, só garagens sem espaço de estacionamento), da vida que te aponta: para frente e para o alto!
Um, dois, três.
(o milagre do vinho: começa sempre como uma coisa frutada, intensa, pimentões, grama cortada e frutas vermelhas; e evolui para este aroma sutil, de sexo, de carne, de couros e de suor, de decomposição e de transcendência; alguns evoluem, claro, outros morrem no meio do caminho, como as pessoas).
Bom, estou em Paris, sem medo de ser feliz, sem medo de dar bandeira.
Dois belos italianos (me lembro de andar nas ruas de Milão há muitos anos e murmurar para os belos e belas que passavam, chiques em seus casacos negros: bellissimo!) fazem a mesma viagem que eu, dois shots, um para cada. E eles ganham em euro, eu não, tudo bem, na hora de pagar o cartão de crédito eu dou um jeito. Os italianos conversam, racham  outro shot, estão se divertindo em Paris e eu também, faço um brinde com eles, viver é bom, eu gosto.
Na boca meu shot não é tão deslumbrante como no nariz, mas certamente é o horário (início da tarde) e a companhia gastronômica (queijos, jamón, este Grand Cru Classé estaria bem com uma vitela, um funghi, alguma comida mais pesada, mas temos que continuar a tarde em outros passeios).
Volto a aspirar minha taça, quero ela comigo, para o resto de minha vida, guardar este aroma comigo até o final de meus dias.
A taça está quase vazia, coloco duas gotas em meus pulsos, como se fossem um perfume.  E that's it. Inesquecível. Para o resto de minha vida.
Na adega da Lavinia, uma garrafa do Chateau Mouton Rotschild, safra de 1978, custa 450 euros, assim os 15 euros para o shot está nos conformes. E não é nada, não é nada. Uma garrafa do Chateau Petrus de uma boa safra custa nada menos que 4 mil euros.
Enfim. São aromas que vem e se vão, como a vida; e a vida vale muito mais do que tudo, em euros ou em reais, só se precisa ter crédito no cartão para poder pagar, e usufruir; e mesmo sem crédito, a vida é boa, muito boa; e ela nos ensina que há momentos e há terroirs que são inesquecíveis, e eles valem cada centavo gasto, pois não voltam, não há uma segunda chance.
Thanks, Lavinia.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Retornando ao meu jardim caipira

Visitar Jardim das Daninhas, a exposição da artista Rosana Palazyan, na Casa França Brasil, que comentei em meu último post, me levou em uma viagem de memória a um jardim que já tive. Final dos anos 1970, uma casa de pescador em Arraial do Cabo, que então era apenas uma aldeiazinha de Cabo Frio; a uns vinte passos da areia do mar; uma praia, a Prainha, uma pequena enseada com agua quase morna e ondas fracas, de piscina; a casa montada em uma pirambeira que muito tempo depois virou uma favela; e um quadrado de uns 100 m2 de areia e pedra na frente da casa, onde pensamos um jardim japonês mas onde fizemos, com a ajuda de uma caseira muito decidida, Dona Elza, um "jardim caipira".
A inspiração foi Monteiro Lobato. Em um dos livros sobre o Sítio ele fala de jardins com plantas fora de uso, e das zínias (zinnias elegans), que à época que ele escreveu estavam desaparecendo dos jardins, por terem saído de moda. Dentro dos padrões estéticos da época em que ele escreveu, as zínias eram vistas como flores "loucas", rústicas e até defeituosas (acho que meio mutantes, pois nasciam pequenas flores, com pétalas e tudo, nas corolas; e nasciam flores de cores diferentes em um mesmo pé).
Talvez Monteiro Lobato tenha visto as zínias como viu as pinturas da Anita Malfatti, não sei; sei que não vou nunca mais achar o texto que li na infância, mas quando tive meu primeiro pedaço de terra para fazer um jardim, pedi à obsequiosa D.Elza que nos arranjasse zinias, e ela o fez, e jardim foi por um tempo um reduto daquelas flores obsoletas, mutantes e decadentes, um triunfo do eugenismo às avessas.
O jardim já tinha um pé de figo (não é a figueira, árvore grande que está em algumas ruas do Rio e sempre cai em temporais, destruindo carros; era um arbusto e que produzia intermitentemente figos, comestíveis, para minha surpresa), e chuchu, que se alastrava e tomava conta de grande parte do terreno (Arraial é um cabo, não é serra, mas o dito popular que diz de moças que "dão mais que chuchu na serra" é absolutamente verdadeiro, o chuchu se espalha como pessoas fogosas).
Um dia D.Elza nos trouxe uma muda de um arbusto, um "mato", caruru, ela disse, e é comestível; eu achei muito parecido com urtiga, o caruru que eu conhecia era a comida da Bahia, achei que ela estivesse planejando me envenenar, mas finalmente descobri que o tal caruru é uma erva daninha,  invade tudo, resiste a seca e mal tratos, e é realmente comestível, é gostoso até, cozido ou no vapor, como um espinafre.
E uma caramboleira mirrada, mas que dava muitas carambolas que atraíam as crianças da vizinhança que pulavam a cerca para roubá-las. Erva cidreira, boldo, este último muito útil nas ressacas depois de muitas cervejas e caipirinhas na praia, o que era nossa rotina dos sábados.
Tudo misturado: jardim, horta, farmácia, como nos jardins de roça.
O jardim mudava muito, pois a terra não era boa e a água era escassa. Juro que uma vez tivemos até uma babosa ou outra planta com folhas duras, pontudas e com um espinho na ponta, como lanças; enfeitada com cascas de ovo (quem nunca viu isso? cada folha recebe, na ponta, uma casca inteira de ovo, uma produção, quebrar os ovos apenas pela ponta para esvaziar as cascas e colocás-la perfeitas, como brancas bolas de um Natal que dura o ano inteiro).
Dona Elza sempre com uma novidade da região e uma planta nova, acompanhada dos três filhos, bem crianças ainda, e do marido, Seu A., um louro meio bronco que trabalhava no único empregador da cidade, a Companhia Álcalis, uma estatal deficitária, e fazia bicos. Um dos bicos foi como pedreiro para as primeiras coisas que incrementei na casa: uma varanda, uma entrada para o carro... e ela, D.Elsa, sem medo de trabalho, ajudava o marido a virar a massa, a assentar as lajotas.
Por um tempo, as zínias deram vez às maria-sem-vergonha (coitadas, estas gostam da umidade da mata atlântica, na falta d'água de Arraial elas sofriam), aos jacintos, a umas rosas murchas e muito espinhosas...
A fase dos jacintos foi interessante. Além do aspecto mitológico (Jacinto da mitologia grega morreu vítima de uma disputa amorosa entre Apolo e Zéfiro), os jacintos me levavam a minha casa de infância, onde um canteiro no jardim era plantado com jacintos; e o empregado da casa também se chamava Jacinto; e quando minha mãe dava as ordens: "Jacinto, não esqueça de molhar os jacintos", as crianças morriam de rir. As flores eram como chagas, de uma folhagem verde rompiam linguas amarelas e vermelhas, como o sangue que brotou da testa do Jacinto original quando Zéfiro, enciumado de Apolo, desviou o disco com que os amantes brincavam e o tranformou em instrumento de morte.
Bom, estes eram os jacintos de antigamente, e acreditem ou não, nos canteiros da Rosana Palazyan, lá estava um jacinto igual a estes, os da minha infancia e o do jardim em Arraial; quando pesquiso na internet vejo que hoje jacinto, ou hyacintu, é outra coisa, uma planta bonita com muitas flores azuis, poderosa, talvez geneticamente incrementada, nada da rusticidade que eu associava a um mortal que despertou paixões em um Deus e em um Vento.
Tivemos também uma que se chamava de bambu japonês ou renda portuguesa ou algo assim, parece uma samambaia mas é uma trepadeira, precisa de umidade, tem alguns espinhos nos galhos que se enroscam e se expandem, mas as folhas são lindas como um rendado, uma filigrama, e lá estava também no jardim da Rosana Palazyan.
Na época não sabíamos (como prever o futuro?) que aquela cidadezinha que eu conheci com 20 mil habitantes ia sofrer muitas transformações, e ao meu ver para pior. A inauguração da Ponte Rio-Niterói, em 1974, talvez tenha sido a causa primeira; ou a fama de uma cidade meio contra-mão que era "um Paraíso" e à qual se chegava deixando o caminho de Cabo Frio por uma estrada que ficava coberta pelas dunas em períodos de vento mais forte; talvez o estilo de vida rústico, os terrenos baratos, a ausência de repressão, a população acolhedora...
Arraial cresce, em meados dos anos 1980 se emancipa de Cabo Frio, torna-se um município autônomo, acho que a primeira obra do novo prefeito foi fazer um Portal para a cidade, obra predileta das administrações municipais pelo Brasil afora, absolutamente inútil mas com grande visibilidade. A cidade cresce desordenadamente, se faveliza.
A Álcalis, que tinha sido criada no Governo Vargas para produção de barrilha, e onde além do Seu A. trabalhava também grande parte dos moradores da cidade (outra parte, pescadores, ou donos de comércios rudimentares ou bares), é vendida, na onda de privatizações do Governo Collor; a nova administração da empresa faz reestruturações, demissões, e segue aos trancos e barrancos até que mais recentemente fecha as portas. Mas antes mesmo disso tudo, Seu A. começa a beber, fica desempregado, o casal se separa; eu passo a ouvir cada um deles, separadamente, falar mal do outro, e assim fico sabendo de histórias sórdidas e muito complicadas.
Conheço outras pessoas e passo para um outro arranjo para a administração da casa, que também foi reformada, não é mais aquela casinha de pescadores, D.Elza já não é mais caseira, mas continua como vizinha e eu continuo acompanhando a família, vendo os filhos de D.Elza que crescem, adolescentes, deixam a escola, para uma vida sem perspectiva de emprego, para um outro mundo, que chega a Arraial e transforma a cidade idílica em uma miniatura de cidade grande, com furtos, drogas.
Um dos filhos, T., uma linda criança hiperativa que matava passarinhos com baladeiras, que torturava ratos do mato, que criava ovos de cobra e pescava de mergulho, cresceu em um adolescente lindo e gauche. Olhos verdes, de um verde lindo, como um mar, como uma água estagnada, e um sorriso mau. Pequenos furtos, envolvimento com drogas (não, ainda não era o crack, talvez maconha e cocaína), um dia a notícia: foi morto, junto com outros colegas de praia, de drogas e de furtos, todos crianças que eu cansei de ver, na praia, brincando e soltando pipa. Como as ervas do meu jardim, da casa que um dia vendi, de um passado que sobrevive apenas em fotos cada vez mais desbotadas.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Todos os Prazeres (A Ressurreição)

Talvez um dos posts mais tristes que escrevi neste blog foi uma história real de um casal fantástico, Beth Calasans e Mark Walton, que criaram o restaurante Todos os Prazeres, em Arraial do Cabo. Convivi com o casal, com sua gastronomia criativa e seu humor inglês, por muitos verões (primaveras, outonos...), e a última notícia que tive deles, em 2006, foi de um fim trágico em pleno tsunami de 2004. Clique aqui para o post original, que escrevi em fevereiro de 2009.
 Agora neste início de 2010, recebi um email que me trouxe um desfecho inesperado para o assunto. Minha primeira reação foi de incredulidade; trocamos outros emails; e o estilo é inconfundível, há detalhes que não são de conhecimento geral, e o tracking que faço no blog confirma acessos vindos da Inglaterra.
Assim, a versão da morte de Beth e Mark se comprovou (felizmente!) um boato, provavelmente com intenções maldosas, mas que se espalhou por Arraial e por todos que conheceram Todos os Prazeres. E que, para desmentí-lo, nada melhor que transcrever parte dos emails recebidos:
 
dear jozias,
antes de mais nada esta não é uma mensagem do além, simplesmente da Inglaterra, onde nós dois estamos bem, ao contrário das noticias da morte em tsunami. Obrigado por seu blog sobre Todos os Prazeres! (onde descobri seu email), você sempre foi muito gentil e querido. Soubemos de nossas mortes antecipadas quando Arraial fez um festival de gastronomia em homenagem a nossa memória. Trabalhamos para outros agora, nunca tivemos o saco de refazer um restaurante tudo de novo, preferindo gastar tudo que ganhamos em viagens. Moramos em (..., na Inglaterra), na beira mar (gelado), mas bonito, porém um pouco monótono. Valeria a pena você fazer uma visita qualquer dia. Só trabalhamos à noite, deixando os dias livres para andar a pé e de canoa.
Desculpa termos tirado um pouco do misterio e tragédia das nossas mortes predatadas, provavelmente quando acontecer, tomara que em um dia bem distante (se o álcool permitir), vai ser uma coisa medíocre e comum. Ficamos honrados com o seu blog, deixa tudo como está, so inclui a  nossa ressurreição. Quando lemos, relembramos dos muitos dias felizes que passamos em sua companhia em um Arraial mais tranquilo e ainda pouco estragado.
(...) Incrível como nemhum dos donos dos restaurantes onde a gente trabalha (na Inglaterra) jamais ficaram curiosos em saber o que nós fizemos de comida no Brasil, mesmo o Brasil continuando com a imagem, para os ingleses, mais quente, um sinonimo de tudo gostoso. (...)
Mil beijos
Mark Walton e Lizabeth Calasans

O referido é verdade e dou fé. Ou, como diria outro inglês, All's Well That Ends Well.