quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Philippe de Champaigne


Pintor nascido em Bruxelas (26/05/1602), em plena era do Barroco, foi aluno do pintor de paisagens Jacques Fouquières. Em 1612, já residindo em Paris, trabalhou com Nicolas Poussin na decoração do Palácio de Luxemburgo, sob a direção de Nicolas Duchesne, com cuja filha casou-se.
Após a morte de seu sogro e protetor, Champaigne trabalhou para a Rainha Mãe Maria de Médicis e para o Cardeal Richelieu, tendo sido um membro fundador da Academia Real de Pintura, em 1648.
Produziu grande número de pinturas, principalmente trabalhos religiosos e retratos. Foi influenciado por Rubens no início de sua carreira, seu estilo se tornando posteriormente mais austero, inclusive com influência do pensamento Jansenista. Morreu em Paris em 12/08/1674.
É do pintor esta vanitas de 1671, “Natureza Morta com um Crânio”. Tudo me encanta nesta pintura: A simplicidade da composição (os objetos, sobre uma mesa, encaram frontalmente o espectador; a mesa avança na direção deste, com os cantos fora do enquadramento, como se o espectador estivesse sentado à mesa, encarando-os; o fundo é sombra). A sobriedade do tratamento pictórico. O simbolismo dos objetos (o crânio, ao centro; nas extremidades, a flor que brota e a ampulheta que marca o tempo que se vai). A referência não só à história da pintura, mas à história do pensamento humano, a uma época onde uma visão religiosa do mundo imperava e moldava o pensamento. Tudo isso, gosto de ver, em uma pintura pequena porém prenhe de significados.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Ainda sobre o "puxadinho"

Muitos pensam que a importância de Brasília, que fez dela Patrimônio Histórico da Humanidade, vem da beleza (estética) das construções de Niemeyer, e que seria então apenas "uma questão de gostar ou não" das linhas do arquiteto. Na verdade, a importância maior de Brasília é ela ser o único exemplar de uma cidade inteira projetada e construída segundo a ideologia do modernismo. Urbanisticamente ela é, habitada, funcionando, exatmente tudo o que preconizaram Le Corbusier e demais pensadores daquele movimento que modificou a concepção do homem e sua relação com a cidade, com a técnica, com a natureza, e que hoje é visto como um pensamento "de época". Claro que a utilização da linha curva pelo Niemeyer foi um passo além, em termos de arquitetura, mas urbanisticamente a importância de Brasília está em como os escritos de Lucio Costa no Memorial do Plano Piloto de Brasília refletem o pensamento modernista, e em como este pensamento modernista virou concreto, uma cidade inteira viva, não simplesmente experiências limitadas (e posteriormente modificadas) como as construções do modernismo europeu. E a síntese deste pensamento está nas quatro escalas que Lucio Costa propõe para Brasília e que presidiram a própria concepção da cidade: a Monumental; a Residencial; a Gregária; e a Bucólica:
Escala Monumental – é aquela que contribui para a formação do sentido de Capital, onde a monumentabilidade confere aos edifícios seu valor simbólico. Constituída pelo Eixo Monumental, desde a Praça dos Três Poderes até a Praça do Buriti, incluindo as principais edificações que estão neste trajeto.
Escala Gregária – é aquela para onde convergem os fluxos no encontro dos eixos Rodoviário e Monumental. É o centro urbano onde se previu edifícios maiores e mais altos e o espaço urbano é disposto de forma a permitir um fluxo de circulação mais intensa. É a escala do encontro.
Escala Residencial – é aquela que define a relação entre os edifícios residências, onde se encontra uma proposta inovadora de Lucio Costa – as Superquadras. Neste caso, a relação entre os espaços edificados e os abertos é outra, respeitando as características do convívio cotidiano, por isso, a altura fixada para as edificações é de seis pavimentos (permitindo, nas palavras do urbanista, que a mãe, de sua janela, mesmo que no último andar do edifício, conseguisse ver e chamar seu filho que brinca no parque), além de uma extensa área verde de 20 metros emoldurando cada Superquadra.
Escala Bucólica - se constitui dos gramados, passeios, bosques e jardins da cidade que permeiam e envolvem as Superquadras, as Entrequadras, os diversos setores e os conjuntos de casa e comércios locais, e a cidade inteira, imprimindo a Brasília a qualidade de cidade-parque que ela é. Está por todo lugar, protegendo as áreas construídas umas das outras.
E, em 1987, ao redigir o documento “Brasília Revisitada”, Lucio Costa ratifica, como urbanista da cidade, o respeito as quatro escalas que presidiram a própria concepção desta, através da manutenção dos gabaritos e taxas de ocupação que as definem.
Ao meu ver, com a proposta da Praça da Soberania, com o gigantesco obelisco e o prédio que encobrirá a visão da Rodoviária para a Praça dos Três Poderes, Oscar Niemeyer está danificando o equilíbrio entre as escalas, "expandindo" a escala gregária (o "centro" de Brasília, traçado por Lúcio Costa na junção dos Eixos) para a escala monumental; e ao mesmo tempo enfatizando esta última, minimizando a outra. Mais que isso, com o apoio dos políticos e da mídia, faz-se uma redução do papel de Lucio Costa, este o urbanista, para inflar desproporcionalmente o papel de arquiteto do Niemeyer.
Que Niemeyer é um arquiteto genial, isto é indiscutível; porém Brasília não é um amontoado de prédios projetados por ele (um "Caminho Niemeyer", como o de Niterói, só que em ponto maior) e sim uma concepção urbanística e o testemunho de um mundo que "pensou-se moderno".

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Um "puxadinho" do Niemeyer


A polêmica está no ar (seco, apesar das chuvas de janeiro no Planalto), e da discussão depende o futuro da perpectiva monumental idealizada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer para a Esplanada dos Ministérios, em Brasília (na imagem deste post, em uma visão do pintor Glauco Rodrigues). Um dos cartões postais mais bonitos da Capital, a visão de quem está na Rodoviária para o lado Leste sofre a maior ameaça já sofrida nestes 48 anos de Brasília. A visão que, na concepção original de Lucio Costa, teria o homem simples, ao olhar, da Rodoviária (para ele o verdadeiro "centro" do povo) para a direção do nascente: o gramado central do Eixo Monumental; a Catedral à esquerda; os Ministérios enfileirados; ao fundo o Congresso, com as cúpulas em simetria horizontal e as torres gêmeas do anexo, pensadas para serem a elevação máxima da Esplanada (como a dizer que, mesmo com a hegemonia dos Poderes corporificada no triângulo equilátero da Praça, no fundo todo o poder emana do Povo). Lucio Costa fala desta visão: "Eu queria que a Praça dos Três Poderes fosse um Versalhes, não um Versalhes do rei, mas um Versalhes do povo, tratado com muito apuro."Uma ameaça veio durante a ditadura, a construção do mastro da Bandeira Nacional, projetado pelo Sérgio Bernardes, bancada pelos militares e que teve a oposição dos criadores de Brasília e dos intelectuais (principalmente cariocas), por perturbar esta perspectiva tão perfeita. Outra ameaça veio com a explosão populacional dos condomínios do Lago Sul, que "mancham" o verde que era o pano de fundo para a perspectiva; e tornando obsoletas as palavras de Lúcio Costa sobre a visão monumental para a Praça dos Três Poderes: "Meu objetivo era acentuar o contraste da parte civilizada, de comando do país, com a natureza agreste do cerrado."
Sintomaticamente, as ameaças seguintes não vieram mais dos militares ou do populismo, e sim do próprio criador: Oscar Niemeyer.
A ocupação dos grandes espaços contíguos à Rodoviária era pequena, deixando grandes espaços a serem ocupados no decorrer do tempo, apenas dois projetos do Niemeyer: no terreno do lado Norte, o Teatro (lindo, com a laterais com os relevos do Athos Bulcão que foram retirados para uma restauração que já demora tanto tempo); e no lado Sul, o antigo prédio do Touring (sempre achei inexplicável a ocupação de área tão nobre por uma instituição privada, a menos pelo fato que o falido Touring sempre foi reduto de militares reformados).
Quando cheguei em Brasília, há quase três anos, vi o final da construção do projeto do Niemeyer para o espaço entre o Touring e a Catedral, o Complexo Cultural da República, com a Biblioteca e o Museu. Apesar da beleza das construções, alguns problemas me chamaram a atenção. O primeiro é a inadequação da forma dos novos prédios em relação aos já tradicionais da Esplanada (Catedral, Ministérios, Congresso): a forma de cúpula do Museu repete a cúpula do Senado, no complexo do Congresso Nacional, esvaziando portanto o seu impacto e criando um "eco" totalmente assimétrico que desequilibra a monumentalidade da Esplanada; e de quebra reduz a imponência da própria Catedral, meio que a esmagando. Ao meu ver este segundo problema poderia ser resolvido com outra distribuição dos prédios no terreno (por exemplo, colocando o Museu contíguo ao Touring e a Biblioteca mais perto da Catedral e em posição paralela, não perpendicular, ao Eixo); mas a solução do primeiro problema teria que passar por uma mudança na própria solução de cúpula. Outros problemas, aí mais de funcionalidade (bom, mas o Niemeyer NUNCA é funcional): por que tão pouco estacionamento, por que não fazer logo um estacionamento subterrâneo, com entrada pela S2 (já em nível mais baixo)? por que não ter um jardim, uma graminha, e só aquele inóspito chão de concreto com uns pífios laguinhos? sem contar com a inadequação total do interior do belo Museu para exposições de arte.
As ameaças seguintes ficaram em projeto apenas, a construção de um monumento à paz em pleno gramado, e um local para shows, no terreno contíguo ao Teatro, que foi vetado pelo IPHAN por superar o gabarito permitido (neste projeto aparecem duas outras cúpulas, menores, talvez seja a solução do arquiteto para ecoar a forma de cúpula na Esplanada).

Agora aparece, já como um plano do Governo do DF para os 50 anos de Brasília, em 2010, o que ao meu ver é a a pá de cal na perspectiva monumental: a construção, no terreno central (entre os Eixos N1 e S1), exatamente onde, na pintura do Glauco Rodrigues é a testa do índio (só que muito maior), de uma Praça da Soberania, com "memorial dos presidentes", um prédio semi-circular com três andares, e um obelisco em forma de chifre, de 100m (equivalente à altura do mastro da Bandeira e do prédio do Congresso, na Praça dos Três Poderes, na verdade mais alto que eles, já que o terreno do obelisco esta em uma cota acima do terreno das outras edificações), o que eu vejo como um "puxadinho", mesmo projetado pelo genial arquiteto Niemeyer. Ah, e a nova praça será totalmente de concreto, sem verde; e no subsolo será construído um estacionamento para 3000 automóveis (que acho que deveria ter sido projetado no subsolo do Complexo Cultural).

Um artigo da Prof. Sylvia Ficher (arquiteta, doutora em história e professora da Universidade de Brasília), com o título Oscar Niemeyer e Brasília: criador versus criatura, publicado na revista de Arquitetura e Urbanismo MDC, analisa bem a questão, lançando a tese de que "coitada de Brasília. Niemeyer não gosta mais dela". Acho bem pertinentes os argumentos da Prof. Sylvia, e tenho visto na internet comentários em apoio ao artigo, um deles o publicado por Elio Gaspari em sua coluna de 18/01 em diversos jornais de circulação nacional. Espero que o debate sirva para repensar algumas coisas e que se preserve as intenções originais da cencepção do genial Lucio Costa.

artigo da Prof. Sylvia Ficher

artigo do jornalista Elio Gaspari

sábado, 17 de janeiro de 2009

Arte para Crianças, no CCBB/BSB


Uma das coisas boas desta minha vida de nômade pós-moderno é poder ver (nem sempre, às vezes perco por problemas em agenda) as coisas boas em arte que às vezes ficam restritas a um dos polos apenas (Rio, Brasília, São Paulo). Ou ver duas ou mesmo três versões da mesma exposição, com diferenças de acordo com a cidade (a "fumaça" do Anish Kapoor - Ascension - no CCBB do Rio era solene, icônica, intimidadora; no CCBB de Brasília era lúdica, interativa, user-friendly).
Esta exposição, Arte para Crianças, por exemplo, é específica para o CCBB de Brasília, com seus espaços amplos. O curador é o Evandro Salles, que conheci no início dos anos 1980 (participamos juntos, com muitos outros artistas, de um ciclo de exposições no Parque Lage, dirigido então pelo saudoso Rubem Breitman, outro dia falo destas exposições).
E a exposição tem muitos acertos. É arte para crianças, mas não é absolutamente "baixar o nível" para que as crianças entendam; pelo contrário. É uma ousadia mostrar Lawrence Weiner para as crianças (sem intermediação dos pais, que certamente não entendem nem um pouco do conceitual brabo de L.W.). É uma ousadia colocar centenas de xilogravuras do Rubem Grilo, emolduradas uma a uma, entre elas um pequeno video disfarçado de quadro, em uma "casinha de boneca", com bancos de vaqueiro em couro trançado onde as crianças se sentam e imaginam histórias a partir dos elementos fantásticos das gravuras... É uma ousadia apresentar o suprematismo de El Lissitzky em um desenho animado... E tudo em espaços bem organizados, com textos explicativos, áreas de repouso...

Mas a maior das ousadias, certamente, é o grande salão dedicado ao Amílcar de Castro. O aspecto lúdico, para as crianças, é trabalhar em dobraduras; o que fazem com prazer em grandes mesas. Mas para os adultos (para mim), é absolutamente espantoso ver 140 esculturas do Amílcar (pequenas, 30cm, além de uma escultura grande) em estantes, em uma sequencia infinita. Meu Deus, eu tive que ir a uma exposição "para crianças" para ver esta maravilha? Para poder ver uma legião de esculturas como nunca vi antes, lado a lado, para ver as repetições, as variações, as dobraduras, o ferro tratado como um papel, o movimento suspenso, o equilíbrio precário, todos juntos, 140, o ad nauseam! Que colecionador é esse, que tem 140 esculturas pequenas do A.C.? Que inveja, que deslumbramento!

Ainda: um ambiente lúdico, uterino, maravilhoso, do Ernesto Neto. O cubo de vidro do CCBB foi totalmente ocupado pelo ambiente do Ernesto e por mesas e cadeiras orgânicas do artista, que vi em exposição na Galeria Artur Fidalgo, onde as crianças (e os adultos) fazem trabalhos de dobraduras e encaixes, tendo como molde esculturas "duras" do Ernesto Neto; mas o ponto alto realmente é a vivência do ambiente. As crianças deliram, os adultos viram crianças.

As pinturas do Sued transformadas em varais coloridos com panos manipuláveis pelos espectadores, ao ar livre, em pleno sol da tarde; para as crianças, são casas de cor. Ainda, uma instalação do Emanuel Nassar, que é como se uma pintura do artista se expandisse para abarcar um módulo do prédio; com direito a um mistério (a letra "E" está bem visível no "lado Este" da pintura/instalação; mas onde está o "N"? pergunto à monitora e a resposta é: enterrado, em um canteiro do jardim, no "lado Oeste"...).
Trabalhos emblemáticos da Yoko Ono (talvez excessivos, mas é bom rever o jogo de xadrez com todas as peças brancas). As xipófagas do Tunga (hoje apenas em vídeo, na abertura estavam ao vivo). Uma parede de interatividade com os azulejos tão Brasília, tão modernismo, do Athos Bulcão. Gaiolas e aquários do Eder Santos. Um vídeo do poeta Manoel de Barros. E os fantásticos e safados robôs da Mariana Manhães, em versão candelabros.

O catálogo é didático, sem ser excessivo, e os textos estão próximos a cada trabalho, oferecendo chaves (acho que para os pais, as crianças talvez entrem direto nos trabalhos, sem a necessidade destas chaves). Para mim, este é o maior acerto do Evandro Salles: fez uma exposição "para crianças" que atinge a todos os públicos; pois ele parte de uma concepção de criança que não é absolutamente piegas, paternalista; ele não faz "arte boba para crianças", e não se preocupa em explicar o que não pode ser explicado em arte ("O que é isso, uma mulher de nariz verde? Minha senhora, isto não é uma mulher, é uma pintura"). Ele acredita que a percepção livre das crianças pode ser melhor que a percepção de um adulto reprimido; e ele mostra arte contemporânea sem ter que pedir desculpas pelo que está mostrando.

Projeto Acervo, 8a. edição, uma imagem


A imagem é uma foto do Leonardo Videla, mostra um desenho do Bernardo Damasceno e, refletido no vidro da moldura, o trabalho do Daniel Murgel - participantes da 8a. edição do Projeto Acervo, que na terça-feira passada (13/01) entregou as 10 obras ao novo Colecionador. Na foto, a caixa-maquete do D.M. (acompanhada do desenho-projeto em uma moldura) dialoga com o cubo vazado no desenho (série Afrika) do B.D., e o crânio parece flutuar à frente de um espaço real mantido na penumbra.
Ao fazer acompanhar a maquete do desenho-projeto, como um trabalho único (projeto+maquete), o Daniel Murgel acerta na mosca. Ele tem um desenho excelente, e os objetos também são muito fortes, e a junção do objeto com o seu projeto chega a um resultado muito maior que a soma das partes. Os desenhos funcionam como projetos e também como desenhos, e as maquetes tem muito impacto. Em uma exposição na Galeria Mercedes Viegas, acho que em 2007, ele mostrou uma construção em escala natural, se não me engano uma casa na árvore; o impacto é maior, claro; mas as maquetes funcionam com muita força, são trabalhos em si, não como algo que precise ser construído grande para ter sentido.
E a série Afrika é certamente um destaque no trabalho do Bernardo Damasceno, um sonho de consumo de qualquer colecionador... Na coletiva de desenho da Galeria Laura Marsiaj estavam (foram vendidos, claro) dois desenhos desta série, pequenos, e depois pude ver ainda os demais desenhos, os pequenos, todos com fundo azul; e os maiores; este do Projeto Acervo é dos maiores. Gosto: do desenho preciso, cirúrgico; da repetição, ad nauseam, com pequenas, imperceptíveis, variações; do colorido (um dos grandes, com fundo lilás, é chocante de tão bonito); de um subtexto político (o formato do crânio é o formato do mapa da África, os olhos tem cruzes ou miras de fuzis...); de referências à História da Arte (as vanitas); de uma aura de contemporaneidade que identifico com uma relação direta com Basquiat, com o grafitti, com a estética da guerrilha urbana; etc. etc. etc.
O que vi (por foto) dos demais trabalhos desta edição do Projeto Acervo é muito interessante: um lindo desenho da Brígida Baltar, uma escultura do Leo Tepedino, uma "paisagem" feita com fita durex, do Rafael Alonso, um "acrílico sobre tela" do Leonardo Videla, uma foto misteriosa do Álvaro Seixas.

mais sobre a 8a. edição do Projeto Acervo

imagem do convite da 7a. edição do Projeto Acervo

sobre a abertura da 7a. edição do Projeto Acervo

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dos Alpes à Ilha de Capri: Lucimar Bello


Como falei em post anterior, em 2003 fiz o workshop Procedência & Propriedade, com o Charles Watson. No grupo do workshop, umas 15 pessoas de diversas formações e idades, naturalmente se formam sub-grupos à medida que aparecem as afinidades. E uma das pessoas que estava ao meu lado, "sofrendo" comigo, trabalhando intensamente nos exercícios e preparando uma linda exposição final, era a Lucimar Bello. Ela veio de São Paulo, onde mora, só para o workshop; tinha uma experiência grande em arte, ensino, pesquisa, cursos, doutorado... e no entanto uma disponibilidade de jovem para aprender e se despojar do conhecido rumo ao novo.
Estes dias recebi um email da Lucimar, com o link do seu site, e pude ver que o trabalho dela continua e cresce. Vale à pena dar uma navegada pelo site. Um trabalho particularmente me chamou a atenção, uma das imagens coloquei aqui, é da série Dos Alpes à Ilha de Capri. Estes "locais" (Alpes, Capri), na verdade são nomes de edifícios em Perdizes, bairro de São Paulo; do Edifício Alpes, onde a artista morou, ela acompanhou o dia a dia da construção do vizinho Edifício Ilha de Capri; e documentou o processo através de fotoDesenhos, "desenhos turvos, imagens oblíquas..." O rigor conceitual se soma à sensibilidade e apuro técnico, nesta série e nos demais trabalhos da artista.

lucimarbello

Procedência & Propriedade (Charles Watson)

Em 2003 fiz o workshop Procedência & Propriedade, com o Charles Watson. Um trabalho de grupo, intensivo, voltado para romper bloqueios que impedem a criação.
Eu tinha feito o curso regular do Charles por um semestre, no Parque Lage, quando me reciclei e participei de discussões do mais alto nível sobre coisas em arte que eu estava acompanhando apenas superficialmente; mas o curso me tomava uma noite por semana, eu fazia em paralelo a outros cursos e outras atividades. Para o workshop, me preparei, tirei férias do trabalho, adiei atividades, tomei coragem, e lá estava eu.
O grupo passa um mês convivendo, de 2a. a sábado, 8 horas por dia, no atelier do Charles na Rua Mundo Novo (Rio), e sendo desafiado a cada momento, em um crescendo; palestras, exercícios, desafios, respira-se arte, criatividade; e mesmo nas horas de relaxamento, mais arte...
O método é extenuante: desenho, desenho, desenho, desenho, desenho... Cada pessoa escolhe um objeto (o meu foi um banco alto, velho, refugo do atelier), e disseca este objeto, desenha-o, convive com ele, tenta amá-lo, odeia-o... Os desafios são ferozes, e a crítica do Charles e do grupo é impiedosa. Para mim foi um início desgastante, desesperante. Eu estava bloqueado, e a cada vez que tentava com todas as minhas forças atingir o objetivo dos exercícios, mais o meu resultado era duro, pífio, convencional. Eu me rebelava, sentia inveja dos demais, achava que nunca ia nem conseguir entender o que o Charles queria ao propor cada exercício... e nada: continuava com um desenho travado, sem vida.
Um dia, lá pela segunda semana, depois de sofrer muito, eu pensei seriamente em desistir, ir embora do atelier, sumir. Pensando então no como desistir, falei para mim mesmo: eu já tinha arranjado todo um esquema para ficar liberado neste mês; já tinha tirado férias, e não ia voltar a trabalhar, se desistisse ia ter que passar o resto de minhas férias de bobeira em casa; já tinha pago e ia ser problemático receber meu dinheiro de volta; então o melhor que eu tinha a fazer seria continuar no workshop, sem tentar acertar, sem tentar ser "o melhor aluno", meio "alienado", até; pois quando acabasse o workshop, eu, fracassado, iria embora e nunca mais na vida precisaria olhar o Charles nem as pessoas do grupo, podia desistir de tudo; mas decidi que eu iria até o fim do workshop, assim, "alienado"(como me vi), agora sem exigência nenhuma para comigo mesmo.
A partir daí, como uma mágica, sem eu sentir, comecei a "acertar". Justo quando eu não me preocupava mais em acertar, lá estava eu, despojado, solto, sem a exigência que havia me paralisado anos... e finalmente entendendo, não com o racional mas com o corpo, com o traço que, livre, finalmente fazia desenhos!
O bloqueio era a exigência que eu me colocava, em "fazer perfeito".
Foi uma lição para minha vida. O resultado para mim foi fundamental. Consegui vencer os bloqueios que me colocaram em anos de silêncio. E vivenciei, tornei real, o mal que a "síndrome do primeiro aluno da classe", o excesso de racionalidade, de objetividade, fizeram para mim, por tanto tempo. Aprendi na pele, vivenciei, o que eu sabia apenas racionalmente: que o importante é a busca, a procura, não o resultado; que arte tem seu lado racional mas embricado neste racional temos o inconsciente, o corpo, falando...
Devo isso ao Charles (não só eu, muita gente que está atuante em artes deve muito ao Charles, desde os anos 1980 no Parque Lage, um dos pais da Geração 80, até os dias de hoje, quando a itinerância das palestras, workshops e viagens guiadas disseminam Arte no Brasil inteiro, e continua formando gerações de artistas).

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

João Gilberto Noll

"(...) aquilo que há de comum a todas as tramas de Noll (vividas por um único protagonista que muda de pele de uma para a outra mas se mantem identico na humanidade que nos vincula a ele) é uma condição de desqualificação ou anonimato que se resume bem no termo ingles disenfranchisement, a grande decepção de uma modernidade que ofereceu a todos a promessa da emancipação universal mas que não a cumpriu. Significa a carencia absoluta dos direitos que tornam o indivíduo livre, capaz de se representar e, em consequencia, de participar e existir juridica e politicamente no corpo da sociedade. Sofrer este anonimato ou desqualificação vem a ser igualmente o destino de quem se vê emagado pelo peso das condições e estruturas dadas pelo mundo, e de quem se recusa confromar-se a elas, como bem entendia Lima Barreto, autor de Triste fim de Policarpo Quaresma. O encarceramento e o exílio são as duas imagens de espelho entre os quais os protagonistas de Noll se debatem na luta para se reconhecer a si mesmos." (David Treece, tradutor das obras de Noll para o ingles)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Coletiva na Galeria Mercedes Viegas

Como há alguns anos, a Galeria Mercedes Viegas exibe uma mostra coletiva, com um apanhado dos artistas representados pela galeria e também do acervo. Não funciona só como um retrospecto das exposições do ano que passou e uma prévia do ano seguinte, já que apresenta, ao lado de obras novas, trabalhos mais antigos; em diversos meios; sempre um grande número de artistas e trabalhos; e a boa montagem tira partido desta diversidade. Este ano uma surpresa interessante: um espaço que funciona como reserva técnica da galeria está aberto e mostra um acúmulo de trabalhos - nas paredes, do chão ao teto e mesmo acima da porta, em uma mesa baixa de centro. É quase como uma pequena sala abarrotada de ex-votos; mas a coisa funciona, a sensação é de que o espectador "invadiu" um arquivo que está oculto a maior parte do tempo. São 32 artistas, entre eles: Rubens Gerchman (logo na entrada, um trabalho maravilhoso, uma construção em madeira com a moldura de vidro da Lindonéia enquadrando uma linda pintura; e um pequeno beijo na reserva técnica), Antonio Dias, Daniel Senise, Ivens Machado, Bechara (um lindo tríptico, em vermelho e e oxidações), Sued, Waltércio, Ângelo Venosa (uma linda escultura grande e um múltiplo, em lâminas de MDF), Daniel Murgel, Marta Jourdan (um bule dourado que "vomita" metal), Ricardo Ventura... muitos mais. Uma boa exposição e, no sábado quando visitei, com boa frequencia mesmo com a concorrencia de um lindo dia de sol e praia no Rio.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Prazer da Leitura (Bernardo Carvalho)

Já adulto, tive de novo a sensação do “prazer de ler associado à nostalgia do fim do prazer”, que senti ao ler Monteiro Lobato em minha infância (como coloquei em post anterior) ao conhecer a literatura de Bernardo Carvalho, em meados dos anos 1990.
Eu havia lido sobre ele, jornalista da Folha de São Paulo, sobre os livros, mas o meu primeiro contato mesmo foi ao encontrar, em um sebo de livros na calçada da Escola de Música no Passeio Público, meu caminho de todos os dias, um exemplar, discreto, do Onze. Olhei, peguei, como quem pega uma relíquia; comprei; comecei minha leitura, nesta mesma noite, no meu canto de leitura na varanda do apartamento onde então morava, em Ipanema, na Rua Vinícius de Moraes, antiga rua Montenegro. Foi amor à primeira vista, à primeira leitura. Procurei em várias livrarias até conseguir o Aberração, este o primeiro livro do autor, e a minha impressão foi reforçada: é um grande escritor; quero ler tudo dele... A partir daí, comecei a esperar cada novo livro com a expectativa de quem espera um prazer intenso.
Diferentemente do meu prazer pela coleção do Monteiro Lobato, quando eu via na estante os livros que ainda iria ler, via materialmente o fim do prazer se aproximando, à medida em que a leitura evoluia e os livros passavam para a categoria de "lidos"; como a obra do Bernardo Carvalho estava sendo escrita, a perspectiva de prazer era, pelo menos teoricamente, ilimitada... era só uma questão de esperar, um belo dia apareceria uma nova resenha na Folha, vai ser lançado o novo livro, e meus sentidos se aguçavam na expectativa do novo livro do B.C...
Me lembro da surpresa que tive com um deles, acho que As Iniciais. Eu não havia lido nada sobre o breve lançamento, ainda estava naquela expectativa distante do “próximo livro”... e uma tarde de sábado, passeando na Livraria da Travessa de Ipanema apareceu, pronto, materializado, na estante, sob meu olhar atônito, inesperado, o novo livro, como um amor de Carnaval... E cada um deles, os esperados ou o inesperado, era o prazer renovado, o prazer da leitura, como o que eu tinha, criança, ao ler os Monteiro Lobato...
Ao ler o Nove Noites, senti uma estranheza, vi uma mudança, uma inflexão na prosa do escritor; depois continuada com o Mongólia. Os temas são os mesmos dos primeiros livros, os grandes temas da literatura, os arquétipos: o duplo, o labirinto, o jogo de espelhos, o amor e a morte, a busca do pai e da identidade, a literatura/a arte como uma chave e também como um engano, os relacionamentos e o amor também como uma solução e um engano, os mistérios que jamais serão desvendados, a memória e o esquecimento... Mas, para mim, é como se nos primeiros livros estes temas se desenvolvessem em um universo totalmente interior, subjetivo, portanto mais universal; enquanto que nos dois últimos este universo passa a ser mais jornalístico, objetivo: uma memória focada no concreto, em uma narrativa “real”, perdendo um tanto do onírico dos primeiros, onde a narrativa desfocada leva a uma obra aberta, a ser completada pelo leitor. Mongólia segue esta vertente: a estranheza que perpassa os primeiros livros continua, só que ao meu ver colocada externamente: o viajante sente a estranheza da civilização e da cultura estranhas, da língua desconhecida, da Mongólia, ou dos índios; enquanto que, na minha opinião, os narradores e personagens dos primeiros livros sentem a estranheza dentro de si, e a partir desta estranheza subjetiva vem todo um clima que contamina mesmo as situações aparentemente simples e quotidianas (o jantar e o almoço de As Iniciais não seriam absolutamente estranhos, seriam eventos típicos de uma classe social, se não fossem vistos assim pelo narrador).
O último, O Sol se põe em São Paulo, ao meu ver consegue integrar as duas vertentes; pois tem um tanto do “jornalístico”, da estranheza colocada "externamente" (no Japão, na cultura japonesa mesmo quando se é descendente dessa cultura) mas apresenta algumas imagens fortes de um mistério, de um mundo interior, que remetem aos primeiros livros. Uma imagem, para mim inesquecível, é a da casa japonesa escondida no meio dos prédios e construções de São Paulo, e que desaparece aparentemente da noite para o dia; como um sonho; como as oníricas cidades borgianas do Aberração, como a misteriosa caixinha de As Iniciais, como o sexo de Ana C. do Teatro.
Enfim, continuo lendo B.C., esperando ansioso o próximo livro, que deve ser o situado em São Petersburgo como parte da coleção Amores Expressos. Mas aquele prazer intenso, para mim, com certeza vem mais dos seis livros iniciais do autor.
Uma crítica que li (está em um dos links abaixo) diz que o sétimo livro, quando B.C. retornou ao formato de contos, foi recusado pela editora por estar sendo um pastiche dos livros anteriores; a partir desta recusa, o escritor teria feito uma mudança de rumo e partiu para o Nove Noites, com bons resultados (premiações, vendas, reedições em formato de massa). Não sei se é verdade, mas eu ADORARIA ler o livro de contos “recusado”.
Com tudo isso em mente, fiz a minha proposta de 2008: reler os livros do Bernardo Carvalho, na sequencia; reler em meses os livros que li espaçadamente em mais de dezena de anos; comprovar se eles resistiam a esta segunda leitura (mais que resistiram, cresceram); testar uma hipótese que eu tinha formulado ao longo das leituras, de que os livros todos na verdade seriam um mesmo livro, uma epopéia interior em vários volumes, e que as histórias que se entrelaçavam em cada um dos livros na verdade se entrelaçariam em um corpo maior (minha conclusão é que sim). Ainda: ao reler, senti talvez o mesmo prazer da leitura inicial, ou um prazer renovado; eu havia esquecido muita coisa dos enredos, claro, mas o clima de cada um dos livros permaneceu comigo desde a primeira leitura, e se renovou com a releitura.
Embora esteja considerando minha tarefa concluída, já que não pretendia reler, pelo menos nesta década, os livros da fase que chamei de “jornalística”, estou reavaliando o assunto, e vou relê-los sim (Nove Noites, Mongólia, O Sol se põe em São Paulo), até como testes para minhas hipóteses. E continuo esperando os novos livros. Sim, e o blog que o B.C. fez, meio a contragosto ("O horror confesso que eu tenho dos blogs..."), de São Petersburgo.

Posts sobre minhas releituras dos livros do Bernardo Carvalho:
Teatro
A dança das cadeiras
O Livro de hoje

Alguns links interessantes:
Blog do Bernardo Carvalho em São Petersburgo
Coleção Amores Expressos
Livre de Cacoetes (resenha sobre O Sol se põe em São Paulo)
Medo de Sade
Traição e Horror em Medo de Sade
Bernardo Carvalho e a arte da fuga
Nove Noites
O Sol se põe em São Paulo

O Prazer da Leitura (Monteiro Lobato)

Quando eu era criança, meu pai comprou uma coleção com as obras completas de Monteiro Lobato, encadernada em verde com letras em prata.
Uma parte da coleção era a das obras adultas do escritor: Urupês, A Onda Verde, A Barca de Gleyre (este título me deixava intrigado, quem seria este Gleyre que tinha uma barca? além de tudo o livro era em dois "tomos", o que era mais estranho para mim ainda), O Presidente Negro...
Mas a parte que me importava, e à qual me atirei sofregamente, eram as obras para o público infantil e juvenil, que é afinal a obra mais conhecida do escritor: Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, Memórias da Emília, A Chave do Tamanho, Viagem ao Céu, O Saci... e alguns que, hoje, acho que devem ter ficado irremediavelmente datados no passado: O Poço do Visconde, Emília no País da Gramática (com todas as reformas ortográficas dos anos 1950 até está última...)
Lia sem parar, viajava no mundo maravilhoso criado pelo Lobato (é bom dizer que falo de uma época pré-Sítio do Picapau Amarelo na TV, assim a minha imaginação era totalmente livre para visualizar personagens, cenários, efeitos e edição do meu filme interior sobre o que lia).
Mas ao mesmo tempo em que avançava na leitura extraindo dela um prazer enorme, comecei a ficar triste ao ver que o estoque de livros era limitado e estava acabando, e com ele o meu prazer; e o meu ritmo de leitura se transformou em um deslizar entre os dois momentos: o de correr para o prazer e ao mesmo tempo o de regular este prazer para que demorasse o mais possível. Como no amor, como no sexo (eu ainda não sabia disso).
Em paralelo, fiz pesquisas para tentar prolongar o prazer: “Não tem uma outra coleção Monteiro Lobato, uma sequencia?” – “não, o escritor já morreu, e estas são, o nome diz, as obras completas”. Tentei partir para ler os livros de adultos e os achei intragáveis (provavelmente são mesmo, sabemos que o nacionalismo do escritor beirava a xenofobia, e conhecemos seu horror ao modernismo em artes, que culminou na célebre crítica “Paranóia ou mistificação” que conseguiu calar o vigor expressivo da Anita Malfatti)...
Hoje sei que, como amar de novo, repetidamente, a mesma pessoa, a releitura é uma forma de revisitar o prazer de uma leitura; mas a releitura exige tempo para um distanciamento e um certo esquecimento da memória, coisas impensáveis para uma criança. E sei também, a partir de Proust, que a memória do prazer pode ser tão forte como o próprio prazer, se armazenado e despertado de uma forma certa... Ao simplesmente me lembrar do prazer que eu sentia, este prazer é muito mais vívido para mim do que voltasse a ler os mesmos livros, que tanto prazer me deram em uma determinada época...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Projeto Acervo


Esta é a imagem da oitava edição do Projeto Acervo. Como sempre, uma ótima seleção de artistas, desta vez: Alexandre Vogler, Álvaro Seixas, Brígida Baltar, Bernardo Damasceno, Cadu Costa/Eduardo Berliner, Daniel Murgel, Gisele Camargo, Leo Tepedino, Leonardo Videla, Rafael Alonso. Fico muito curioso para ver as obras, mas nesta edição não haverá a inauguração com mostra, o que é uma pena...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Vicky Cristina Barcelona

Um bom filme, gostei. Claro que Woody Allen abusa dos clichês (americanas em férias no verão europeu questionam sua vida para ao final retornar aos USA; a loura - apaixonada, e a morena - racional; o latin lover; a espanhola à beira de um ataque de nervos etc. etc.), claro que ao mudar sua locação tradicional de Manhattan ou Londres para a ensolarada Barcelona o filme é um pouco um marketing do turismo catalão... mas apesar disso é um filme leve, mesmo no drama; ágil, witty, sensível, como os melhores Woody Allen. Sim, e os atores estão ótimos, a fotografia, os ambientes e a música também, o roteiro é inspirado etc. etc. Em suma, gostei.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Over the Rainbow


Ver um arco-íris é sempre uma imagem que nos leva a pensar em paz, união, esperança, superação... sem contar com a utilização como símbolo do movimento gay, o que injetou novas referências ao arco-íris... E ver um arco-íris em um cair da tarde em Brasília é vê-lo diferente do que é visto no Rio, onde as montanhas e os prédios segmentam sua visão: graças à topografia do Planalto e a ausência de construções muito altas, a visão do horizonte é mais ampla, e se vê (como vi há pouco) um arco-íris "inteiro", em sua plenitude de 180 graus. Não é nada, não é nada, mas é sempre uma visão de transcendência para um encerramento de um dia de trabalho...
Este meu desenho (aquarela e caneta de nanquim) é de 1984, da série dos Selos Postais, e, acho, diz mais que estas minhas palavras.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Os anjos


Still de outro filme do Derek Jarman, outra obra-prima, The Angelic Conversation. O beijo dos anjos é quase idêntico ao beijo do Morrissey na caveira, do The Queen is Dead e que postei recentemente no blog.
Depois, algumas conversações não tão angélicas assim, na minha sexta-feira no Rio: No brechó "De Salto Alto", com o meu grande amigo Marcos Pantera, e depois em visita ao atelier de minha grande amiga Virgínia Paiva. Os trabalhos recentes de Virgínia são lindíssimos, ela está ousando muito, ao partir para grandes tamanhos, ela que veio de um trabalho de ilustração e quase miniaturista; e está se saindo extremamente bem nesta expansão de escala. Ainda, fiz uma aquisição, mas falarei em outro post.

Post sobre The Queen is Dead

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

MAM-Rio 60 anos

Últimos dias da exposição e uma surpresa: apesar do dia útil imprensado entre os feriados e da concorrência do sol forte significando dias de praia no Rio de Janeiro, o MAM está bem cheio.
Na mostra comemorativa dos 60 anos do MAM, um módulo sobre a construção do prédio, outro sobre a formação da coleção do Museu (na verdade a re-formação, com o que sobrou do incêndio e pode ser restaurado e as doações posteriores ao incêndio. Um lindo Pollock cinza, pequeno (uns 50x50cm), doação do Nelson Rockfeller; e na minha memória ainda aparecem flashes cada vez mais esmaecidos de algumas obras de antes do incêndio: dois lindos Picassos, um lindo Magritte (cenouras/garrafas), e a obra quase completa do Torres Garcia que ficou calcinada.
Ainda um módulo sobre a Cinemateca e seu papel de resistência na época da ditadura, e outro módulo mostra (parte) da exposição da Pré-Bienal de Paris 1969, quando a representação brasileira foi proibida pela ditadura militar de ir representar o Brasil na Bienal, e mesmo a exposição prévia foi fechada após a inauguração. As fotos do Evandro Teixeira são famosas, estão na memória coletiva dos brasileiros quando se pensa sobre os anos da ditadura; bem como os trabalhos do Antonio Manuel, e estes trabalhos incomodaram muito os militares à época pois são documentos muito fortes do período que culminou no AI-5; apenas uma pintura do Humberto Espíndola, e os trabalhos do Ascânio MMM não foram expostos "pois só existem em projeto".
Finalmente, o último módulo , o mais importante, mostra a Arte brasileira no período 1963-1978, com obras importantes de Gerchman (entre outras o LUTE), Antonio Dias, Vergara, Roberto Magalhães, Nelson Leiner, Wesley Duke Lee, Claudio Tozzi (com um pintura de um Guevara pop), Leonilson, Anna Bella Geiger, Cildo, Ivens... e muitos outros.
Como um plus, um recorte da Coleção Gilberto Chateaubriand, desta vez mostrando cem obras do modernismo brasileiro (1915-1960), com curadoria do Reynaldo Roels Jr.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O Livro dos Porquês


Primeira imagem de 2009 neste meu blog, uma pintura que fiz em 2005, uma das primeiras no ateliê da Rua do Russell. O tamanho é 80x100cm, faz parte da série Thesouro da Juventude e se chama O Livro dos Porquês, tem imagens tiradas dos meus inseparáveis livros da coleção Thesouro da Juventude, e marca a transição da "pintura sobre os livros" (sobre, literalmente, usando os livros como suporte) para "pintura a partir dos livros", unindo as duas vertentes que continuam em meu trabalho atual.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Flores do Sono


Na despedida de 2008, no último post do ano neste meu blog, uma imagem final. Uma pintura que fiz em 2004, tela 30x30cm, uma pequena vanitas, acho que a primeira vanitas que fiz em meu retorno à pintura. O título é "Flores do Sono", e com esta imagem e os fogos na Av.Atlântica em algumas horas, marcar o começo de um novo ciclo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Outro desenho do moleskine Erotica #1


Outro desenho meu, no moleskine Erotica #1. O tema é a Índia, e também alguma coisa do GOZO+DIVINO, que na verdade é bem indiano, com os rituais do Kama-Sutra como uma ponte para uma transcendência.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Acenos e Afagos, de João Gilberto Noll

O livro é um jorro de palavras, sem separações de capítulos nem de parágrafos. Presente e passado se entrelaçam em imagens fortes que o Narrador despeja como que em tempo real do pensamento, para falar de sua busca erótica frenética e insaciável. O homoerotismo se soma à redescoberta do sexo com sua mulher, com lembranças de lutas eróticas na infância, com orgias em um submarino meio nazista, com fantasias sobre a sexualidade do filho adolescente e mesmo com o sexo afetuoso, quase amor, com uma cabra... Estou gostando muito. J.G.N é um grande escritor brasileiro, eu li pouco dele ainda, mas a leitura deste livro, lançado em 2008, que ele descreve como uma "epopéia libidinal", está me deixando com vontade de, terminada a releitura dos primeiros Bernardo Carvalho, viajar na leitura completa dos seus livros. É um projeto para mim em 2009; o outro é ler (finalmente) Ulysses, do James Joyce (acho que agora tenho a maturidade para). Já que é tempo de resoluções de Ano Novo, o terceiro projeto seria retomar e terminar a leitura do Pedro Nava (mas P.N. talvez seja assunto para outro post).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Exposições no Rio

Nestes dias entre Natal e Ano Novo, provavelmente todas as galerias já estão de recesso, assim a 6a.feira chuvosa é um bom dia para visitar alguns dos espaços institucionais no Rio de Janeiro, que estão abertos e, sem a concorrência da praia e com as compras de Natal encerradas, recebem um bom número de visitantes.
No Centro Cultural da Caixa, duas exposições bem interessantes.
A primeira é sobre "O barroco no popular e o popular no barroco", curadoria de Cristina Ávila e Gisele Catel. Eu imaginava que após a mega-exposição-cenográfica da Bia Lessa sobre o Barroco, em 2000, nas comemorações dos 500 anos do descobrimento, ninguém iria tentar mais nada sobre o assunto por um bom tempo. Realmente já é um bom tempo, 8 anos, e esta exposição é concisa e mostra ao que veio, indo para uma vertente mais analítica do que espetacular. Seu enfoque é sobre a influência do barroco, "arma ideal da colonização para a dominação de novas terras e novos povos", que se voltou "contra os opressores: os artistas mestiços usando a liberdade do barroco para o 'fazer, ver e sentir' permitiu a brancos, índios, negros e mestiços do Brasil modificar o gosto, o estilo e a vida que adotamos e vivemos ainda hoje."
A outra exposição da Caixa Cultural é "Identidade do Artista", que mostra o projeto de arte postal (mail-art) feito nos anos 1970 pelo Ângelo de Aquino, com fichas encaminhadas pelo correio e respondidas, também pelo correio, por 75 artistas do mundo inteiro. Ver na sala da exposição as fichas ampliadas e manuseáveis, ao lado dos originais em vitrines, para mim é muito bom, é gratificante. Eu mesmo trabalhei com arte postal nos anos 1970 e 1980 (estive na XVI Bienal de SP, em 1981, na seção de Arte Postal, com curadoria do Walter Zanini). Certamente que para os jovens artistas de hoje, geração pós-internet, a arte postal deve soar como algo anacrônico como o impressionismo (pior ainda, pois sem valor de mercado...), e afinal se na Bienal de 1981 o conceitual ainda imperava, a Bienal de 1985, com a Grande Tela, consagrou o retorno da Pintura e a morte do conceito. Pelo que me lembro a arte postal continuou a ser feita até o final dos anos 1980; talvez alguns heróicos resistentes tenham continuado pelos anos 1990, mas o advento e crescimento da internet, por volta de 1995, modificou totalmente o perfil dos meios de comunicacão. Com isso, os conceitos que sustentavam a arte postal evoluíram para as novas midias e muitos se tornaram arte do mainstream: a criação de redes, a democratização das artes, fazer uma arte do quotidiano (herança da arte povera), a dessacralização do papel do artista (qualquer um com acesso a uma máquina de xerox e uma agência dos correios, em qualquer país, pode divulgar sua idéia para públicos nos mais diversos lugares do mundo e, melhor ainda, com eles dialogar, formar redes de comunicação, discutir assuntos que não são cobertos pela midia careta ou pelo circuito de artes). Estes conceitos são muito atuais, e se hoje a arte postal pode ser vista como uma curiosidade pelos visitantes da exposição do projeto do Ângelo de Aquino, a sua herança não se perdeu.
Depois, no Paço Imperial, a retrospectiva do Burle Marx. Eu gosto do Burle Marx, ele é um dos pilares do modernismo no Brasil, sua obra em paisagismo foi inovadora e marcará as gerações vindouras, como foi o Niemeyer na arquitetura. Gosto também da pintura, das gravuras e desenhos, das cerâmicas e até dos panneaux, as pinturas em tecido. Gosto dele em geral, já que eu sou tão ligado no modernismo, moro em uma utopia modernista (Brasília), gosto dele como um dos ícones do modernismo, o "visual Burle Marx" é um arquétipo dos anos 1960, a mais perfeita tradução, em pintura, do zeitgeist dos anos 1950-60-70. É um excelente colorista, e impressiona ver como os jardins são projetados como pinturas (vistos de cima), o que é a ideologia do modernismo, a escala umana utilizada em Brasília e que marca até hoje o paisagismo.
(Por que não os jardins para serem vistos "de dentro"? na minha juventude no final dos anos 1970, quando se reagia ao modernismo eà bossa-nova como "velhos", "americanizados", tínhamos uma brincadeira: se você fosse um jardim, qual seria? as pessoas respondiam o do Parque Lage, a Floresta da Tijuca... e quando alguém falava que seria o Aterro do Flamengo, era vaiado)
A exposição está linda, bem montada, a cronologia é precisa e preciosa, a sala dos panneaux é belíssima, a tapeçaria gigantesca é uma epopéia, o jardim interno é demais... Mas vendo a exposição como um todo, vejo a obra total de um artista que hoje estaraia na categoria de multimeios; só que me detendo na pintura (que é o que mais me interessa), vejo que: um grande colorista; esteticamente muita beleza, muita técnica, sensibilidade; mas em algumas telas parece que "falta sair de dentro" um Picasso, mesmo um Portinari, ou seja, "falta" a força de um Mestre. O que não diminui absolutamente a força do conjunto da obra.
Galeria Progetti, uma instalação e desenhos da Sandra Cinto e pinturas da Lívia Flores. As "pinturas" da Lícia Flores são na verdade colagens de papel de presente dos anos 1980, com padrões cinéticos, brilhantes, repetitivos, sobre telas. O resultado é muito bonito. Os amassados e rasgados do papel de presente dá uma característica realemnte pictórica às "pinturas", e, o que é um motivo meu para gostra mais, o padrão multiplica losangos em prata e azuis.
A instalação da Sandra Cinto desenha ondas de mar sobre uma parede e sobre reproduções monocromáticas, em tamanhos variados, de uma mesma pintura (A balsa da Medusa, de Géricault), com excelente resultado.
No CCBB, rever, com mais calma pois minha primeira visita foi meio corrida, a exposição Nova Arte Nova. E, com tempo, visitar o sanctum sanctorum, a seção de livros raros da Biblioteca do CCBB. Colocar luvas, ter um simpático guardião ao lado, e poder folhear precisidades como o Coisa mais linda, o livro em edição limitada, da Beatriz Milhazes; um livro de desenhos (série de desenhos de um cão), obra única da Gabriela Machado; um livro também cópia única do Zílio, de 1977, onde, entre desenhos e fotografias extremamente conceituais, características do trabalho do artista na época, aparece um desenho esquemático sobre do "homem concretista excitado", diagrama que o Zílio mostra em pintura na exposição dele este ano na Anita Schwartz; e o livro do Nuno Ramos com um poema gravado em folhas de vidro. Além disso, o livro de fotos do Helmut Newmann, com sua base do Phillip Strack, o livro de mesa que é a própria mesa de livro. Mais não vi pois não teria mais tempo, mas é um lugar para voltar.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Uma imagem de Natal


Um still do filme The Queen is Dead, de 1986, do cineasta Derek Jarman. O filme na verdade é um videoclip do maravilhoso album do The Smiths, cuja capa, inesquecível, tem um sorriso suave do lindo Alain Delon bem novinho. No filme, uma longa sequência do Morrissey beijando uma caveira, uma vanitas dos anos 1980, mil referências na história da arte, claro, até chegar na performance da Marina Abramović (que também estava em uma mini-retrospectiva na Bienal de SP).
Quem não ouviu; quem não dançou, não ficou bêbado, não chorou, não queimou fumo, não tomou banho de mar pelado, não se apaixonou... ao som do The Smiths, certamente não viveu os anos 1980. Quem não viu os Derek Jarman, do primeiro, Sebastiene (1976), ao impressionante e minimalista Blue (1993), também ficou por fora...
Mas nos anos 2000 a internet oferece uma oportunidade de recuperação, estou baixando os filmes do Derek Jarman pelo Emule, assim pude ver o The Queen is Dead e rever o Caravaggio. E também, ao pesquisar na internet para este post, me deparei com uma foto recente, má, do Morrissey, gordo e muito longe da imagem que eu tenho guardada em minha memória e que está neste still. O tempo é cruel, e a internet sabe ser mais cruel ainda...
É uma imagem de Natal, a vanitas do Morrissey e do Jarman, e um Feliz Natal para todos...

Um diálogo (a motivação do colecionador)


Quando eu já estava saindo do evento de abertura do Projeto Acervo, no Espaço Bananeiras, o artista Álvaro Seixas me faz uma pergunta, a queima-roupa: "Queria saber por que você comprou o meu quadro". Logo em seguida, se desculpa pela pergunta, acha que talvez tenha sido impertinente, mas eu acho a pergunta relevante e adio minha saída. Conversamos um bocado, a artista Gisele Camargo também participa da conversa, e eu tento verbalizar minha motivação para "ter" o quadro do Álvaro, a motivação do colecionador, o impulso irresistível para possuir determinada obra de arte, aquela, não outra...
Aqui no blog vou tentar escrever, de uma forma mais estruturada, meu pensamento que talvez não tenha ficado bem expresso no momento (depois da deliciosa caipirinha do Espaço Bananeiras as idéias se aclaram mas as palavras às vezes ficam mais obscuras).
A.S.: Por que você comprou o meu quadro?
J.B.: Em primeiro lugar vou dizer o porque não. Não foi para pendurar em uma sala combinando com o sofá. Não foi como um investimento, embora eu ache que é um bom investimento, A.S. é um artista jovem, com um trabalho de qualidade, vai dar continuidade a este trabalho e evoluir, e a tendência será uma valorização no correr dos anos; mas não foi esta a motivação primordial. Há uma diferença sutil: claro que para o colecionador é importante visualizar um futuro para a obra que estrá sendo adquirida, projetar se o artista terá uma carreira, uma evolução; e também se a obra adquirida será, futuramente, representativa no contexto geral do trabalho do artista; agora, se isso significa uma valorização monetária, um investimento, ao meu ver (pelo menos para mim) não é o essencial.
Vou falar do processo de compra. Fui à exposição, na galeria Amarelonegro, gostei da exposição como um todo e dos trabalhos individualmente, claro que gostei mais de uns e de outros menos, vi uma continuidade (conceitual e formal) entre os trabalhos, mesmo utilizando meios diferentes. Me fixei na pintura, isso é uma opção pessoal minha; como minha atividade artística é mais voltada para a pintura, as pinturas me atraem mais. E em pintura, o que eu acho do trabalho de A.S.: resultado bonito e com técnica impecável; gosto muito do minimalismo do preto e branco, da pouca cor; gosto das veladuras; gosto do mistério das formas, dos escorridos de tinta, das áreas de repouso e das áreas de inquietude para o olhar, das sugestões de paisagem ou de retratos, porém nada óbvios; gosto do diálogo com a tradição da grande pintura, atualizada em uma linguagem bem contemporânea. Gosto de ver que é uma pintura de qualidade que está ancorada por um conceito forte. Minha análise é que a pintura, após as tantas mortes anunciadas, consegue sua permanência no século XXI a partir desta ancoragem forte em um conceito; depois da pintura pela pintura da Geração 80, para mim os pintores que permanecem são os que tem um bom resultado visual com um forte conceito por trás.
Depois, dentro da pintura, minha opção era bem direta. Pintura tem a ver com grandes dimensões, o desafio que é o problema da escala; assim gostei em primeiro lugar das grandes pinturas do A.S., "paisagens", mas logo me volta o tal "espírito prático": "são muito grandes, muito caras, fora do meu orçamento, não tenho paredes..."
Até aí é um monólogo, eu comigo mesmo, em toda exposição que eu gosto. Saio da Galeria sem "dar bandeira" do meu desejo. Normalmente, como vejo várias exposições em sequencia, os desejos se anulam; como Darwin diria, os mais fortes sobrevivem.
No dia seguinte, e depois, acordo com as imagens em minha mente, e verifico que EU QUERO. Mais que isso, não poderei viver sem aquelas imagens me acompanhando, do meu lado. Dialogando comigo. Para o resto dos meus dias.
Voltam os pensamentos práticos, o orçamento, o limite do meu espaço.
Então, somei isso tudo e concluí: o EU QUERO TER ganhou. EU QUERO um A.S. para me acompanhar pelo resto dos meus dias. Dito de outra forma: Eu não poderei viver o resto dos meus dias sem ter uma pintura do A.S.
A próxima etapa é operacionalizar: As grandes, como falei, são maravilhosas, mas "fora do meu orçamento, não tenho espeço de parede..." Gostei de uma pequena tela, com tons de um rosa-salmão-carne discreto e imagens de explosão (continuo gostando e queria ter...), mas me fixo nas pinturas "de tamanho médio". O valor está dentro de meu orçamento, cabe na minha parede e as duas pinturas são lindas.
Por email, peço à galeria que me mande as imagens.
Bom, aí vem a grande dificuldade, para mim, a escolha de Sofia... Uma das pinturas (na minha interpretação) é masculina, a imagem é mais angulosa, retilínea; a outra mais circular, feminina... Vem de novo a incerteza, o desejo de tudo abarcar, e o orçamento que é uma restrição, e finalmente opto por uma das telas (a "masculina").
Hoje, ela está comigo. No lugar perfeito, em minha casa, acima de uma gravura do Nuno Ramos com quem dialoga pelo monocromatismo, pelo mistério. Ao mesmo tempo, fico triste de não ter podido ter para mim também a gêmea (a feminina) ou um trabalho grande. Claro, o colecionador sempre é insaciável, quem sabe?...
Não sei se ao descrever "o processo de compra" consegui esclarecer a pergunta do artista A.S. Acho que ainda falta dizer, ou enfatizar, o que eu disse a ele no Espaço Bananeiras: o desejo do colecionador é obsessivo; não sou um colecionador padrão, compro o que entra no meu interesse, diferente dos colecionadores que tem um programa (e um curador), e também diferente dos colecionadores que querem decorar um espaço; comprei pois não poderia viver o resto de meus dias sem TER; comprei o que eu quero ter, ver, segurar, cheirar... para sempre... Para mim este é o desejo que impulsiona O Colecionador...
Talvez esta obsessão do Colecionador seja o medo da morte, o desejo de permanência, de transcendência. Projeção do ego em objetos, fetiche. Prato cheio para meu antigo analista (ele também um artista e um colecionador). Enfim. O importante é que eu terei a tela do A.S., por mim escolhida, até o fim de meus dias (espero).

Um moleskine (erotica)




Imagens de um dos meus moleskines. Sempre carrego comigo pelo menos um deles. Tenho o de viagens (já o segundo da série), o de Brasília (também já no número 2), e este é o primeiro de uma das séries temáticas, o Erotica #1. Às vezes explícitas, às vezes mais leves (como estas que mostro aqui), as páginas deste moleskine se sucedem e me levam a pensar e a criar sobre esta pulsão: o sexo, o desejo, a força que nos impulsa para o mais, para a sarjeta e para a transcendência, a obsessão, a penetração, a dor, a submissão, a dominação, o gozo, o êxtase... Penso em Ana C., personagem do "Teatro" de Bernardo Carvalho, ator porno que, ao ser penetrada, recitava seus versos livres baseados em São João da Cruz: "Esta escada é o meu amado para mim. Esta casa é o meu amado para mim. Esta praia é o meu amado para mim." Eles sentiram isto, os místicos, Santa Teresa e seus orgasmos, São João da Cruz... Como falar destas coisas todas? como senti-las, como dizê-las? qual a diferença entre o meu eu de ontem, quando estava no deserto do desejo, e meu eu de hoje, quando estou totalmente saciado? e saciado, até quando? pois mesmo a tempestade tropical logo é absorvida pelo deserto do desejo... Como falar desta vontade que nos leva a deixar caminhos racionalmente estabelecidos para frequentar veredas mal-faladas? como pintar, desenhar, esta pulsão? é o que eu tento, no meu diário, neste meu moleskine do qual aqui mostro algumas páginas, apenas as mais sutis, como mostrar neste blog as mais ousadas?

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Estudos sobre o Plano Piloto

Seis pequenas telas (20x20cm) da série "Estudos sobre o Plano Piloto", que fiz este ano (2008). Não são um políptico, coloquei-as juntas apenas nesta foto e neste post, embora ache que também funcionam em pares ou trios. A imagem central de cada tela, claro, se baseia nas imagens do Lucio Costa ao conceituar o traçado básico de Brasília, os dois eixos que se cortam em cruz, e depois encurvando o eixo horizontal, para maior dinamismo na imagem e melhor disposição do Plano Piloto dentro dos limites dos braços do Paranoá. Algumas das pinturas foram feitas em setembro, quando os ipês amarelos da Praça dos 3 Poderes ("homenagem aos Habsburgos") estavam floridos. Em uma delas pintei usando a base de uma tela remanescente da série "Thesouro da Juventude", com desenhos sobre dobraduras ("Cousas que Podemos Fazer"), e outra tem um GOZO+DIVINO, vindo de desenhos que fiz em 2006.

Teatro, de Bernardo Carvalho

Continuando as releituras dos livros de Bernardo Carvalho, termino agora o Teatro, livro de 1998. Um estudo sobre a paranóia, as mentiras, o escrever, contar histórias e inventar verdades. Jogo de espelhos, qual é mesmo a trama? nada é o que parece. "É espantoso como no fundo não se sabe nada de nada, não é?" repete Ana C., protagonista do romance, ao narrador, e ambos assumem várias personas, são mutantes. Policial, menina abusada pelo pai, fotógrafo de stills, ator de filmes porno, cowboy na Disneylandia, as histórias se cruzam e se desmentem.
"O paranóico é aquele que acredita num sentido. (...) É aquele que vê um sentido onde não existe nenhum. O paranóico não pode suportar a idéia de um mundo sem sentido. É uma crença que ele precisa alimentar com ações quase sempre militantes, para mantê-la de pé, tal é a força com que o mundo o contraria. O paranóico é aquele que procura um sentido, e não o achando, cria o seu próprio, torna-se o autor do mundo."

Posts sobre minhas releituras dos livros do Bernardo Carvalho:
Prazer da Leitura
A dança das cadeiras
O Livro de hoje

domingo, 21 de dezembro de 2008

Uma carpa


Uma pequena tela (20x20cm), pintura que fiz em 2006, tinta acrílica. A imagem dos peixes de cor forte nadando em círculos me perseguiu a partir da visão, em Visconde de Mauá, de um viveiro de trutas douradas, dentro de uma mata cerrada, raios de sol varavam as folhagens para incidir exatamente sobre a piscina onde as trutas nadavam incessantemente, e, como se isso não bastasse, na margem da piscina, dezenas de borboletas brancas voando, também em círculo, na dança do acasalamento.
Um comentário do artista Leonardo Videla: "Essa pintura da Carpa é sua? Uma grande pintura!!" ... obrigado, Leo!!!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Projeto Acervo, no Espaço Bananeiras, Santa Teresa, Rio

Abertura da 7a. edição do Projeto Acervo. Não conhecia o Espaço Bananeiras, e mesmo Santa Teresa, que já frequentei tanto nos anos 1970 e 80, é como um bairro novo para mim: mais bonito, bem cuidado, muitos estrangeiros e pessoas bonitas nas ruas e no bonde (bem, isso sempre teve, pessoas bonitas), os restaurantes e bares deixaram aquela aura hippie de pé sujo e se tornaram cult. E o Espaço Bananeiras é mágico, visto da rua (Ladeira do Castro) é uma casa simples com um porão habitável (tudo muito silencioso, eu achei que tinha errado o dia do evento); entra-se pelo que me parecia ser a porta do tal porão, e que é a entrada para espaços que se desdobram, até se chegar a uma galeria com grandes vidros, em outro nível abaixo outra grande galeria, tudo isso entre jardins com, claro, bananeiras; descendo mais um pouco um bar, um espaço que poderia ser de projeção de filmes ou vídeos, e mais além outro jardim; dos níveis inferiores ao se olhar para cima se vê que a tal casa simples, na verdade, como um origami em câmara reversa, se desdobrou em um prédio do início do século XX com quatro andares, pelo menos dois anexos e os tais jardins com as onipresentes bananeiras.
Na primeira galeria (a dos grandes vidros), o trabalho da artista residente Marie Fleur Lefebvre. Desenhos sobre papel translúcido, montados nos grandes vidros, podendo ser vistos dos dois lados, poéticos e muito bonitos. Em duas grandes telas, cada uma dialogando com uma pequena fotografia, as linhas volteiam orgânicas sobre o linho cru, como hastes coroadas por um fruto maduro de tinta pesada. Um bom trabalho, muito sensível e delicioso de se ver, e que ficou bem exposto no salão com vidros rodeado de jardins de floresta tropical (tudo a ver).


Na galeria do nível abaixo, as dez obras do Projeto Acervo. A colecionadora é a artista Lucia Laguna, artista que tem um trabalho que fala por si próprio. A felicidade da Lucia é muita, e é fácil de entender, pois ela vai levar para casa uma seleção de obras de alto nível. Em uma leitura da esquerda para a direita:
Rafael Alonso: Gostei da exposição do Rafael na Amarelonegro: listras de fita colante ou de elásticos, fotos de listras de fita colante ou de elástico, e, no que para mim o é o arremate, pinturas de listras de fitas colantes. No Projeto Acervo, uma “paisagem” horizontal com fitas com azuis dominando.
Arjan: Vi e gostei da exposição dele na 90 Arte Contemporânea, o desenho é forte, tem um traço fluido e expressivo. Na individual a soma dos desenhos, o ambiente, reforça cada um dos trabalhos, aqui é um desenho só, mas muito bonito e quase ascético (se é que posso falar em ascetismo em um desenho tão visceral) em sua moldura-caixa branca.
Felipe Barbosa: Uma lixa, comum, de loja de material de construção. Ao lixar uma superfície, a marca da mão do artista fica gravada na lixa, como uma monotipia, a partir da aderência do material da superfície lixada. Emoldurada, é uma obra de arte, e vemos (salta aos olhos e ao intelecto) a beleza da monotipia e também, principalmente, o conceito que gerou o trabalho.
Guga Ferraz: O artista recobriu seu rosto e pescoço de band-aids, apenas os olhos estão de fora, tristes? irônicos? Uma foto, e este é o trabalho: instigante, perspicaz, escrutinador, um diálogo que passa a se fazer entre o artista e o observador, como uma monalisa do século XXI, torturada, doente, sobrevivente.
Gisele Camargo: Duas pinturas, muito bonitas. Conheci o trabalho de Gisele na exposição do CCBB, Arte Nova Arte, e também na Amarelonegro. Acho interessante que o trabalho dela funciona “em massa”, ou seja, cada pintura é muito bonita, e funciona de per si, mas a apresentação das pinturas em série faz com que se pense no conjunto como uma obra, não em cada pintura isolada. Sim, e as delimitações do espaço, as perspectivas, as sobreposições de campos de cor, dialogam com o trabalho da Lucia Laguna, o que é um plus do Projeto Acervo.
Leonardo Videla: Um díptico “de esquina”, duas pequenas telas com os motivos arquitetônicos e de dobradura de caixa que são ícones na obra do Leonardo, com um bom tratamento de pintura, e que se articulam nos 90 graus de uma quina de parede. Um bom trabalho, gosto muito deste enfrentamento com a arquitetura e com a pintura, com a rigidez do desenho arquitetônico e a fluidez da pintura, e acho que o Leonardo é bem feliz com os resultados desta série... embora para mim, claro, seu momento mais feliz é a série Janelas...em outra postagem falarei sobre as Janelas...
Alexandre Vogler: O artista faz uma interferência em um dos morros que cercam a pacata cidade de Nova Iguaçu, Grande Rio: um tridente, pintado em dimensões gigantes sobre a pedra nua. Os moradores reagem contra “a obra do demo”, e o prefeito bonitinho marca uma cerimônia de desagravo. O trabalho no Projeto é uma foto dos evangélicos exorcistas, o prefeito midiático ao centro. O trabalho deverá ser emoldurado no formato do tridente. E uma republicação, feita pela artista, de revistas evangélicas, mostra o desenlace da proposta pelos olhos da midia religiosa.
Marcos Abreu: O artista está trabalhando com bandeiras de nações inexistentes, improváveis ou impossíveis. No Projeto Acervo, uma foto institucional da entrega da bandeira do Mediterrâneo pelo artista a curador de um museu em Barcelona. A bandeira, projetada pelo Marcos, executada por uma empresa que fabrica bandeiras, é uma bandeira nacional “real” de uma nação impossível, o Mar Mediterrâneo, que banha e banhou tantas nações desde tempos imemoriais. No Acervo, a bandeira do Mediterrâneo, em seus azuis e pretos, dialoga com o trabalho do Rafael Alonso.
Brígida Baltar: Um bonito desenho. O trabalho de Brígida tem sempre um clima de sensibilidade e interiorização, presente em seus trabalhos mais conhecidos, como as Coletas (neblina, orvalho, maresia ), os trabalhos com pó de tijolos. A artista esteve em Brasília este ano, no Centro Cultural da Caixa, com uma instalação sonora, ao lado de outra instalação sonora do Paulo Vivacqua, e voltará a Brasília em março, com um trabalho realizado no Cariri. Com um trabalho marcante, Brígida também é uma pessoa muito especial.
Daniela Mattos: Um lindo trabalho, "Procura(r)-se", de 2005, uma série de fotografias montadas como stills de um filme. A artista trabalha com vídeo e performances.
Na saída, o artista Álvaro Seixas me faz uma pergunta, a queima-roupa: "Queria saber por que você comprou o meu quadro". Mas este diálogo vai ser tema de outra postagem.

Libertada a pixadora da Bienal

Saiu da cadeia ontem a pixadora da 28ªBienal de SP, Caroline Pivetta da Mota (que se assina "Sustos"), que passa a responder processo em liberdade.
"Entre o vazio existencial da jovem 'Sustos' e o vazio conceitual da Bienal, há menos identificação do que antagonismo: a fúria da primeira é o impulso desesperado de vida que traz a luz o espírito burocrático e mortificante da segunda. O templo da arte contemporânea (a Bienal) faz aqui o papel (ou papelão) de museu do que há de pior na tradição nacional. Ou esse qüiproquó artístico-policial não é um sinal das nossas iniqüidades de sempre?" ("O vazio e a fúria", Fernando de Barros e Silva na Folha de São Paulo, 15/12/2008).

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Um evento na Lapa, Rio de Janeiro


Rio, Lapa, início da noite de uma 5a.feira. Uma chuva fina, os bares se preparam para mais uma noite que deve bombar. Cada vez mais bares, quiosques, carrocinhas, ambulantes, todos vendem cerveja e muito mais. Rua Joaquim Silva, a escadaria de azulejos está mais linda ainda do que quando a vi pela última vez, talvez uns três anos atrás. Procuro o número 71, imprimi o convite que recebi por email e confirmo o número. Evento de um grupo de artistas jovens, não os conheço mas hoje estou mesmo pela Lapa e sedento (morador que sou do deserto do Planalto) de ver o movimento artístico, tudo, tudo, da Bienal aos eventos off-off-off. Grupo Gomo, e os artistas são Tahian Bhering, Jonas Aisengart, Jorge Allen, Andrei Yurievitch, Flávio Villanova, Horácio Dutra, Adeildo Roriz, Julio Ferretti e Joto. O número 71 é um edifício de 3 ou 4 andares, sem elevador, cercado dos lindos sobrados do Rio antigo, e os artistas ocupam a garagem (exibição de vídeos - vi um de uma performance de um homem-múmia passeando no centro do Rio e sendo ignorado pelos transeuntes - e um bar com cerveja bem gelada), o apto. 101 (uma individual de Adeildo Roriz com interferências em jornal, pinturas e objetos, converso um pouco com o artita e ganho um livro, peço um autógrafo) e o apto. 302 (coletiva de trabalhos em maioria com fotografia). As pessoas são interessantes, alegres e hospitaleiras. Os trabalhos tem coisas interessantes, percebe-se a vitalidade de jovens artistas, talvez ainda fora do circuito mas cavando seu espaço. E esta tendência que é tão século XXI, o Coletivo. Pena que tenho que sair cedo, senão tomaria outra ceveja e conversaria um pouco mais. Na saída encontro o artista Daniel Murgel, que está chegando para o evento, pena que tenho que sair tão cedo, pois agora é que vai começar a bombar...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Leituras

Finalizando a releitura de "As Inciais", e antes de entrar no próximo passo da minha programação de releituras do Bernardo Carvalho, com o "Teatro", uma leitura de avião (sem demérito), o novo livro da historiadora Mary del Priori - "Condessa de Barral, A Paixão do Imperador". A autora, além de participar de livros mais voltados para a pesquisa (História da Vida Privada no Brasil), tem se dedicado a romances históricos, em trono do Império Brasileiro. O primeiro que li foi "O Príncipe Maldito", a história romanceada do príncipe brasileiro D.Pedro Augusto, neto de D.Pedro II, filho da princesa Leopoldina (sobrinho portanto da Princesa Isabel, herdeira do trono) e de Augusto de Saxe-Coburgo. Pedro Augusto foi cogitado como sucessor de D.Pedro II, uma vez que a herdeira Isabel era odiada, por ser mulher, carola, totalmente dominada pelo marido Conde d'Eu e pela Igreja, enfim... Pedro Augusto cresceu, mas a Proclamação da República pegou todos de surpresa... e Pedro Augusto foi o único da abúlica família Imperial que tentou reagir contra o golpe republicano (sem êxito, claro...), a falta de perspectivas fez com que ele acabasse louco. Um dos meus trágicos e românticos heróis monárquicos prediletos, ao lado de Alexei Romanoff. No aeroporto vi o livro sobre a Condessa, comprei e li nas esperas de vôos deste novo apagão versão verão 2008-09. Um livro muito interessante, resume a vida de Luísa Margarida Portugal e Barros, a Condessa de Pedra Branca e Condessa de Barral, perceptora das imperiais princesas Isabel e Leopoldina, e paixão do Imperador Pedro II. A Condessa era 9 anos mais velha que o Imperador, e o tempo que passarm efetivamente juntos, somando tudo, foi curto, além disso a situação de ambos casados, da vigilância da opinião pública, tudo fez com que o relacionamento fosse singular, aos olhos de hoje. Mas as monarquias todas foram singulares, é complicado entender tudo isso com as nossas cabeças laicas e republicanas do Século XXI, e a autora tenta nos trazer a este mundo: com base nos docuemtos factuais (principalmente as cartas trocadas entre os amantes), reconstituir as motivações dos protagonistas, e nisso ela tem bons resultados.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Segunda-feira no Rio

Segunda-feira, tarde chuvosa no Rio. No Maracanã, Madonna deve estar repassando o som para o segundo show do Sticky & Sweet (eu vi ontem, adorei, mesmo com toda a chuva). Na calçada da Praça da Paz, Rupert Everett, de camiseta e bermuda pretas, se confunde com os muitos garotões cariocas das mais diversas idades que passam olhando vitrines. Para os detratores do Rio, nossa cidade é o eterno balneário, mas além das aparências (e apesar dos governantes), o Rio tem um movimento cultural muito intenso, totalmente inserido no circuito internacional.
Visitei três galerias, três individuais de artistas cariocas. Três artistas com trabalhos bem diferentes entre si, e todos bem contemporâneos, que poderiam perfeitamente estar em galerias de grandes metrópoles.
Na Novembro, Laura Erber com a exposição “O Funâmbulo e o Escafandrista”. Laura é poeta e artista visual, e este trabalho partiu de uma pesquisa, feita em Paris, sobre um poeta, Ghérasim Luca, chegando ao tema do suicídio, e ao suicídio por afogamento no Rio Sena (o poeta matou-se desta forma em 1994, e uma jovem desconhecida morta em 1901 tornou-se um mito como a “Desconhecida do Sena”, muito popular na primeira metade do século XX). A artista trabalhou utilizando alta tecnologia em uma instalação multimídia (alguns freqüentadores do Shopping onde fica a Galeria pensaram se tratar de uma Lan-house...), mas o conteúdo é arquetípico: a pulsão da morte, as ondas dos rios que levam os suicidas à eterna noite de um mar sem fim, animais que se transformam em outros, os escafandristas cegos que resgatam os mortos do leito sem fim do rio. O Sena da Laura Erber se transforma em um Aqueronte, o rio do infortúnio, o afluente do Styx, o rio do mundo dos mortos. Algumas imagens me remetem aos surrealistas (o peixe que dá a luz a um pequeno violino, os cabelos que flutuam e se afogam no Sena, as maçãs jogadas ao rio...), mas o tratamento das imagens, com alta tecnologia, projeção três aparelhos, outra sala com quatro monitores exibindo outros vídeos com uma linguagem mais documental, e um trabalho de filmagem e edição tão preciso e requintado, torna tudo muito contemporâneo e universal. O lirismo, a sensibilidade da artista, a beleza das imagens, conseguem um resultado que fala de um tema forte, pesado, sem morbidez, sem tintas carregadas. Sem drama, como uma realidade existencial. Laura Erber está também no CCBB, na exposição Nova Arte Nova, com uma projeção de vídeo com peixes dourados sobre um livro, um dos trabalhos inesquecíveis da coletiva.
Na Artur Fidalgo, “Antropologia Industrial Alienígena” exposição do Franklin Cassaro. O trabalho do artista tem momentos de alta criatividade, ele tem alguns trabalhos que são inesquecíveis, verdadeiros “achados” (a palavra “achado” pode dar a impressão de algo a que se chegou aleatoriamente, não é o sentido que eu quero dar, e sim de imagens que uma vez produzidas tem tanta força que acompanham o espectador para sempre, como se elas – as imagens – sempre estivessem “lá”, esperando o artista descobri-las, tornando-se imagens universais e atemporais: as Marilyn do Andy Warhol, os Puppy do Jeff Koons...). Os “achados do Franklin Cassaro são muitos: as caveiras (outras vanitas) feitas de papel-alumínio amassado; as vulvas metálicas; a gaiola com cubos voando como pássaros; os desenhos feitos de mordidas sobre folha de metal... Nesta exposição, surgem imagens novas, oriundas dos “folha de alumínio amassada”: são planetas, medusas, seres extra-terrestres, que se espalham pela galeria, em uma instalação onde os trabalhos mantém sua força como trabalhos individuais. Uma estética contemporânea, parente dos games, da toy-art, do Murakami... e por que não? nas medusas vejo algo da Maria Martins, as mulheres-anêmonas, só que transformadas em seres espaciais, alados, em brilhos e cores que os trazem ao século XXI. Os adolescentes freqüentadores do shopping ficam loucos, ao ver a galeria como uma vitrine, e a estética tão deles, tão atual, em uma galeria de arte... Uma exposição que poderia estar em Tokyo, em NYC, em Londres... e que chega ao hi-tech usando paradoxalmente uma coisa muito low-tech: amassar papel metalizado e ir construindo os alienígenas que parecem andróides, que estão esperando apenas um sinal para se mover na galeria e travar batalhas de guerra e de amor (o kama-sutra em um nicho especial no escritório da galeria) e conquistar o hiperespaço. Me chamem, tou a postos, minha pistola a laser está pronta...

Na Lurixs, José Bechara em “Sobremirada/O ar e a cega”. Pintura. Sem tinta, usando as oxidações para uma reconstrução dos campos de cor, e desta vez usando as oxidações de cobre chegando em azuis, verdes... ao lado das já tradicionais em seu trabalho, oxidações de ferro gerando marrons, ocres, terras... Para mim os azuis/verdes são uma referência aos céus, aos Turners, às ninféias de Monet, aos Ives Klein, aos Caspar Friedrich... impossível resistir a um azul, principalmente como os que o artista consegue através da manipulação controlada de oxidações, e que parecem não produzido por humano, por pincel, chegam ao espectador como produtos de reações químicas além do humano. Em outro trabalho, a oxidação é de cobre sobre madeira, a tonalidade é dos terra, e os azuis aparecem sutis, brilhantes como asas de borboletas da Floresta da Tijuca, e a madeira do suporte também aparece, seus veios, sob a oxidação que forma crostas, lembrando os troncos calcinados do Krajcberg. Em outro trabalho, uma instalação (o Sobremirada que dá o título a parte da exposição), panos de vidro, enormes, são vítimas das oxidações em listas horizontais, como venezianas ou persianas, e temos a sensação e a vertigem do ver/não ver, do opaco/transparente, do ar/oxidado, explicitando a dicotomia do oxigênio, como respiração, criação de vida, e como oxidação/destruição/expiração, o que ao meu vê dá uma leitura ao trabalho do artista. No anexo da galeria, um belo espaço, “A Cega”. As maquetes de casas com os móveis explodindo pelas portas e janelas, que já foram mostradas como maquetes e também como instalações, agora em alumínio, o que permite uma nova leitura, pelo menos me parece: os móveis estão explodindo da “casa”, ou a “casa”, cubos de alumínio, é um buraco negro que aspira o mobiliário, o real? Expiração/inspiração. Também: desenhos, com casas e grandes aguadas de pigmento azul ultramar, complementam a exposição. Aproveitando a visita, na reserva técnica, outra casa explodindo os móveis, feita em madeira e fórmica, com cores, reforça minha interpretação sobre A Cega. Enfim. O importante é que é uma boa exposição, de um artista cujo trabalho gosto muito, e que me sinto orgulhoso de ter um Anjo, uma pequena oxidação sobre tela 30x30 de 1995.
Bom, o Rupert Everett, vindo diretamente de Londres para o Rio, pode ficar tranquilo. Em uma tarde sem praia, ele pode fazer seu passeio nas galerias de arte cariocas e vai ver obras que ele poderia ver em seu passeio verpertino em Londres, Tokyo, Milão ou em Chelsea NYC.