sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Projeto Acervo, no Espaço Bananeiras, Santa Teresa, Rio

Abertura da 7a. edição do Projeto Acervo. Não conhecia o Espaço Bananeiras, e mesmo Santa Teresa, que já frequentei tanto nos anos 1970 e 80, é como um bairro novo para mim: mais bonito, bem cuidado, muitos estrangeiros e pessoas bonitas nas ruas e no bonde (bem, isso sempre teve, pessoas bonitas), os restaurantes e bares deixaram aquela aura hippie de pé sujo e se tornaram cult. E o Espaço Bananeiras é mágico, visto da rua (Ladeira do Castro) é uma casa simples com um porão habitável (tudo muito silencioso, eu achei que tinha errado o dia do evento); entra-se pelo que me parecia ser a porta do tal porão, e que é a entrada para espaços que se desdobram, até se chegar a uma galeria com grandes vidros, em outro nível abaixo outra grande galeria, tudo isso entre jardins com, claro, bananeiras; descendo mais um pouco um bar, um espaço que poderia ser de projeção de filmes ou vídeos, e mais além outro jardim; dos níveis inferiores ao se olhar para cima se vê que a tal casa simples, na verdade, como um origami em câmara reversa, se desdobrou em um prédio do início do século XX com quatro andares, pelo menos dois anexos e os tais jardins com as onipresentes bananeiras.
Na primeira galeria (a dos grandes vidros), o trabalho da artista residente Marie Fleur Lefebvre. Desenhos sobre papel translúcido, montados nos grandes vidros, podendo ser vistos dos dois lados, poéticos e muito bonitos. Em duas grandes telas, cada uma dialogando com uma pequena fotografia, as linhas volteiam orgânicas sobre o linho cru, como hastes coroadas por um fruto maduro de tinta pesada. Um bom trabalho, muito sensível e delicioso de se ver, e que ficou bem exposto no salão com vidros rodeado de jardins de floresta tropical (tudo a ver).


Na galeria do nível abaixo, as dez obras do Projeto Acervo. A colecionadora é a artista Lucia Laguna, artista que tem um trabalho que fala por si próprio. A felicidade da Lucia é muita, e é fácil de entender, pois ela vai levar para casa uma seleção de obras de alto nível. Em uma leitura da esquerda para a direita:
Rafael Alonso: Gostei da exposição do Rafael na Amarelonegro: listras de fita colante ou de elásticos, fotos de listras de fita colante ou de elástico, e, no que para mim o é o arremate, pinturas de listras de fitas colantes. No Projeto Acervo, uma “paisagem” horizontal com fitas com azuis dominando.
Arjan: Vi e gostei da exposição dele na 90 Arte Contemporânea, o desenho é forte, tem um traço fluido e expressivo. Na individual a soma dos desenhos, o ambiente, reforça cada um dos trabalhos, aqui é um desenho só, mas muito bonito e quase ascético (se é que posso falar em ascetismo em um desenho tão visceral) em sua moldura-caixa branca.
Felipe Barbosa: Uma lixa, comum, de loja de material de construção. Ao lixar uma superfície, a marca da mão do artista fica gravada na lixa, como uma monotipia, a partir da aderência do material da superfície lixada. Emoldurada, é uma obra de arte, e vemos (salta aos olhos e ao intelecto) a beleza da monotipia e também, principalmente, o conceito que gerou o trabalho.
Guga Ferraz: O artista recobriu seu rosto e pescoço de band-aids, apenas os olhos estão de fora, tristes? irônicos? Uma foto, e este é o trabalho: instigante, perspicaz, escrutinador, um diálogo que passa a se fazer entre o artista e o observador, como uma monalisa do século XXI, torturada, doente, sobrevivente.
Gisele Camargo: Duas pinturas, muito bonitas. Conheci o trabalho de Gisele na exposição do CCBB, Arte Nova Arte, e também na Amarelonegro. Acho interessante que o trabalho dela funciona “em massa”, ou seja, cada pintura é muito bonita, e funciona de per si, mas a apresentação das pinturas em série faz com que se pense no conjunto como uma obra, não em cada pintura isolada. Sim, e as delimitações do espaço, as perspectivas, as sobreposições de campos de cor, dialogam com o trabalho da Lucia Laguna, o que é um plus do Projeto Acervo.
Leonardo Videla: Um díptico “de esquina”, duas pequenas telas com os motivos arquitetônicos e de dobradura de caixa que são ícones na obra do Leonardo, com um bom tratamento de pintura, e que se articulam nos 90 graus de uma quina de parede. Um bom trabalho, gosto muito deste enfrentamento com a arquitetura e com a pintura, com a rigidez do desenho arquitetônico e a fluidez da pintura, e acho que o Leonardo é bem feliz com os resultados desta série... embora para mim, claro, seu momento mais feliz é a série Janelas...em outra postagem falarei sobre as Janelas...
Alexandre Vogler: O artista faz uma interferência em um dos morros que cercam a pacata cidade de Nova Iguaçu, Grande Rio: um tridente, pintado em dimensões gigantes sobre a pedra nua. Os moradores reagem contra “a obra do demo”, e o prefeito bonitinho marca uma cerimônia de desagravo. O trabalho no Projeto é uma foto dos evangélicos exorcistas, o prefeito midiático ao centro. O trabalho deverá ser emoldurado no formato do tridente. E uma republicação, feita pela artista, de revistas evangélicas, mostra o desenlace da proposta pelos olhos da midia religiosa.
Marcos Abreu: O artista está trabalhando com bandeiras de nações inexistentes, improváveis ou impossíveis. No Projeto Acervo, uma foto institucional da entrega da bandeira do Mediterrâneo pelo artista a curador de um museu em Barcelona. A bandeira, projetada pelo Marcos, executada por uma empresa que fabrica bandeiras, é uma bandeira nacional “real” de uma nação impossível, o Mar Mediterrâneo, que banha e banhou tantas nações desde tempos imemoriais. No Acervo, a bandeira do Mediterrâneo, em seus azuis e pretos, dialoga com o trabalho do Rafael Alonso.
Brígida Baltar: Um bonito desenho. O trabalho de Brígida tem sempre um clima de sensibilidade e interiorização, presente em seus trabalhos mais conhecidos, como as Coletas (neblina, orvalho, maresia ), os trabalhos com pó de tijolos. A artista esteve em Brasília este ano, no Centro Cultural da Caixa, com uma instalação sonora, ao lado de outra instalação sonora do Paulo Vivacqua, e voltará a Brasília em março, com um trabalho realizado no Cariri. Com um trabalho marcante, Brígida também é uma pessoa muito especial.
Daniela Mattos: Um lindo trabalho, "Procura(r)-se", de 2005, uma série de fotografias montadas como stills de um filme. A artista trabalha com vídeo e performances.
Na saída, o artista Álvaro Seixas me faz uma pergunta, a queima-roupa: "Queria saber por que você comprou o meu quadro". Mas este diálogo vai ser tema de outra postagem.

Libertada a pixadora da Bienal

Saiu da cadeia ontem a pixadora da 28ªBienal de SP, Caroline Pivetta da Mota (que se assina "Sustos"), que passa a responder processo em liberdade.
"Entre o vazio existencial da jovem 'Sustos' e o vazio conceitual da Bienal, há menos identificação do que antagonismo: a fúria da primeira é o impulso desesperado de vida que traz a luz o espírito burocrático e mortificante da segunda. O templo da arte contemporânea (a Bienal) faz aqui o papel (ou papelão) de museu do que há de pior na tradição nacional. Ou esse qüiproquó artístico-policial não é um sinal das nossas iniqüidades de sempre?" ("O vazio e a fúria", Fernando de Barros e Silva na Folha de São Paulo, 15/12/2008).

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Um evento na Lapa, Rio de Janeiro


Rio, Lapa, início da noite de uma 5a.feira. Uma chuva fina, os bares se preparam para mais uma noite que deve bombar. Cada vez mais bares, quiosques, carrocinhas, ambulantes, todos vendem cerveja e muito mais. Rua Joaquim Silva, a escadaria de azulejos está mais linda ainda do que quando a vi pela última vez, talvez uns três anos atrás. Procuro o número 71, imprimi o convite que recebi por email e confirmo o número. Evento de um grupo de artistas jovens, não os conheço mas hoje estou mesmo pela Lapa e sedento (morador que sou do deserto do Planalto) de ver o movimento artístico, tudo, tudo, da Bienal aos eventos off-off-off. Grupo Gomo, e os artistas são Tahian Bhering, Jonas Aisengart, Jorge Allen, Andrei Yurievitch, Flávio Villanova, Horácio Dutra, Adeildo Roriz, Julio Ferretti e Joto. O número 71 é um edifício de 3 ou 4 andares, sem elevador, cercado dos lindos sobrados do Rio antigo, e os artistas ocupam a garagem (exibição de vídeos - vi um de uma performance de um homem-múmia passeando no centro do Rio e sendo ignorado pelos transeuntes - e um bar com cerveja bem gelada), o apto. 101 (uma individual de Adeildo Roriz com interferências em jornal, pinturas e objetos, converso um pouco com o artita e ganho um livro, peço um autógrafo) e o apto. 302 (coletiva de trabalhos em maioria com fotografia). As pessoas são interessantes, alegres e hospitaleiras. Os trabalhos tem coisas interessantes, percebe-se a vitalidade de jovens artistas, talvez ainda fora do circuito mas cavando seu espaço. E esta tendência que é tão século XXI, o Coletivo. Pena que tenho que sair cedo, senão tomaria outra ceveja e conversaria um pouco mais. Na saída encontro o artista Daniel Murgel, que está chegando para o evento, pena que tenho que sair tão cedo, pois agora é que vai começar a bombar...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Leituras

Finalizando a releitura de "As Inciais", e antes de entrar no próximo passo da minha programação de releituras do Bernardo Carvalho, com o "Teatro", uma leitura de avião (sem demérito), o novo livro da historiadora Mary del Priori - "Condessa de Barral, A Paixão do Imperador". A autora, além de participar de livros mais voltados para a pesquisa (História da Vida Privada no Brasil), tem se dedicado a romances históricos, em trono do Império Brasileiro. O primeiro que li foi "O Príncipe Maldito", a história romanceada do príncipe brasileiro D.Pedro Augusto, neto de D.Pedro II, filho da princesa Leopoldina (sobrinho portanto da Princesa Isabel, herdeira do trono) e de Augusto de Saxe-Coburgo. Pedro Augusto foi cogitado como sucessor de D.Pedro II, uma vez que a herdeira Isabel era odiada, por ser mulher, carola, totalmente dominada pelo marido Conde d'Eu e pela Igreja, enfim... Pedro Augusto cresceu, mas a Proclamação da República pegou todos de surpresa... e Pedro Augusto foi o único da abúlica família Imperial que tentou reagir contra o golpe republicano (sem êxito, claro...), a falta de perspectivas fez com que ele acabasse louco. Um dos meus trágicos e românticos heróis monárquicos prediletos, ao lado de Alexei Romanoff. No aeroporto vi o livro sobre a Condessa, comprei e li nas esperas de vôos deste novo apagão versão verão 2008-09. Um livro muito interessante, resume a vida de Luísa Margarida Portugal e Barros, a Condessa de Pedra Branca e Condessa de Barral, perceptora das imperiais princesas Isabel e Leopoldina, e paixão do Imperador Pedro II. A Condessa era 9 anos mais velha que o Imperador, e o tempo que passarm efetivamente juntos, somando tudo, foi curto, além disso a situação de ambos casados, da vigilância da opinião pública, tudo fez com que o relacionamento fosse singular, aos olhos de hoje. Mas as monarquias todas foram singulares, é complicado entender tudo isso com as nossas cabeças laicas e republicanas do Século XXI, e a autora tenta nos trazer a este mundo: com base nos docuemtos factuais (principalmente as cartas trocadas entre os amantes), reconstituir as motivações dos protagonistas, e nisso ela tem bons resultados.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Segunda-feira no Rio

Segunda-feira, tarde chuvosa no Rio. No Maracanã, Madonna deve estar repassando o som para o segundo show do Sticky & Sweet (eu vi ontem, adorei, mesmo com toda a chuva). Na calçada da Praça da Paz, Rupert Everett, de camiseta e bermuda pretas, se confunde com os muitos garotões cariocas das mais diversas idades que passam olhando vitrines. Para os detratores do Rio, nossa cidade é o eterno balneário, mas além das aparências (e apesar dos governantes), o Rio tem um movimento cultural muito intenso, totalmente inserido no circuito internacional.
Visitei três galerias, três individuais de artistas cariocas. Três artistas com trabalhos bem diferentes entre si, e todos bem contemporâneos, que poderiam perfeitamente estar em galerias de grandes metrópoles.
Na Novembro, Laura Erber com a exposição “O Funâmbulo e o Escafandrista”. Laura é poeta e artista visual, e este trabalho partiu de uma pesquisa, feita em Paris, sobre um poeta, Ghérasim Luca, chegando ao tema do suicídio, e ao suicídio por afogamento no Rio Sena (o poeta matou-se desta forma em 1994, e uma jovem desconhecida morta em 1901 tornou-se um mito como a “Desconhecida do Sena”, muito popular na primeira metade do século XX). A artista trabalhou utilizando alta tecnologia em uma instalação multimídia (alguns freqüentadores do Shopping onde fica a Galeria pensaram se tratar de uma Lan-house...), mas o conteúdo é arquetípico: a pulsão da morte, as ondas dos rios que levam os suicidas à eterna noite de um mar sem fim, animais que se transformam em outros, os escafandristas cegos que resgatam os mortos do leito sem fim do rio. O Sena da Laura Erber se transforma em um Aqueronte, o rio do infortúnio, o afluente do Styx, o rio do mundo dos mortos. Algumas imagens me remetem aos surrealistas (o peixe que dá a luz a um pequeno violino, os cabelos que flutuam e se afogam no Sena, as maçãs jogadas ao rio...), mas o tratamento das imagens, com alta tecnologia, projeção três aparelhos, outra sala com quatro monitores exibindo outros vídeos com uma linguagem mais documental, e um trabalho de filmagem e edição tão preciso e requintado, torna tudo muito contemporâneo e universal. O lirismo, a sensibilidade da artista, a beleza das imagens, conseguem um resultado que fala de um tema forte, pesado, sem morbidez, sem tintas carregadas. Sem drama, como uma realidade existencial. Laura Erber está também no CCBB, na exposição Nova Arte Nova, com uma projeção de vídeo com peixes dourados sobre um livro, um dos trabalhos inesquecíveis da coletiva.
Na Artur Fidalgo, “Antropologia Industrial Alienígena” exposição do Franklin Cassaro. O trabalho do artista tem momentos de alta criatividade, ele tem alguns trabalhos que são inesquecíveis, verdadeiros “achados” (a palavra “achado” pode dar a impressão de algo a que se chegou aleatoriamente, não é o sentido que eu quero dar, e sim de imagens que uma vez produzidas tem tanta força que acompanham o espectador para sempre, como se elas – as imagens – sempre estivessem “lá”, esperando o artista descobri-las, tornando-se imagens universais e atemporais: as Marilyn do Andy Warhol, os Puppy do Jeff Koons...). Os “achados do Franklin Cassaro são muitos: as caveiras (outras vanitas) feitas de papel-alumínio amassado; as vulvas metálicas; a gaiola com cubos voando como pássaros; os desenhos feitos de mordidas sobre folha de metal... Nesta exposição, surgem imagens novas, oriundas dos “folha de alumínio amassada”: são planetas, medusas, seres extra-terrestres, que se espalham pela galeria, em uma instalação onde os trabalhos mantém sua força como trabalhos individuais. Uma estética contemporânea, parente dos games, da toy-art, do Murakami... e por que não? nas medusas vejo algo da Maria Martins, as mulheres-anêmonas, só que transformadas em seres espaciais, alados, em brilhos e cores que os trazem ao século XXI. Os adolescentes freqüentadores do shopping ficam loucos, ao ver a galeria como uma vitrine, e a estética tão deles, tão atual, em uma galeria de arte... Uma exposição que poderia estar em Tokyo, em NYC, em Londres... e que chega ao hi-tech usando paradoxalmente uma coisa muito low-tech: amassar papel metalizado e ir construindo os alienígenas que parecem andróides, que estão esperando apenas um sinal para se mover na galeria e travar batalhas de guerra e de amor (o kama-sutra em um nicho especial no escritório da galeria) e conquistar o hiperespaço. Me chamem, tou a postos, minha pistola a laser está pronta...

Na Lurixs, José Bechara em “Sobremirada/O ar e a cega”. Pintura. Sem tinta, usando as oxidações para uma reconstrução dos campos de cor, e desta vez usando as oxidações de cobre chegando em azuis, verdes... ao lado das já tradicionais em seu trabalho, oxidações de ferro gerando marrons, ocres, terras... Para mim os azuis/verdes são uma referência aos céus, aos Turners, às ninféias de Monet, aos Ives Klein, aos Caspar Friedrich... impossível resistir a um azul, principalmente como os que o artista consegue através da manipulação controlada de oxidações, e que parecem não produzido por humano, por pincel, chegam ao espectador como produtos de reações químicas além do humano. Em outro trabalho, a oxidação é de cobre sobre madeira, a tonalidade é dos terra, e os azuis aparecem sutis, brilhantes como asas de borboletas da Floresta da Tijuca, e a madeira do suporte também aparece, seus veios, sob a oxidação que forma crostas, lembrando os troncos calcinados do Krajcberg. Em outro trabalho, uma instalação (o Sobremirada que dá o título a parte da exposição), panos de vidro, enormes, são vítimas das oxidações em listas horizontais, como venezianas ou persianas, e temos a sensação e a vertigem do ver/não ver, do opaco/transparente, do ar/oxidado, explicitando a dicotomia do oxigênio, como respiração, criação de vida, e como oxidação/destruição/expiração, o que ao meu vê dá uma leitura ao trabalho do artista. No anexo da galeria, um belo espaço, “A Cega”. As maquetes de casas com os móveis explodindo pelas portas e janelas, que já foram mostradas como maquetes e também como instalações, agora em alumínio, o que permite uma nova leitura, pelo menos me parece: os móveis estão explodindo da “casa”, ou a “casa”, cubos de alumínio, é um buraco negro que aspira o mobiliário, o real? Expiração/inspiração. Também: desenhos, com casas e grandes aguadas de pigmento azul ultramar, complementam a exposição. Aproveitando a visita, na reserva técnica, outra casa explodindo os móveis, feita em madeira e fórmica, com cores, reforça minha interpretação sobre A Cega. Enfim. O importante é que é uma boa exposição, de um artista cujo trabalho gosto muito, e que me sinto orgulhoso de ter um Anjo, uma pequena oxidação sobre tela 30x30 de 1995.
Bom, o Rupert Everett, vindo diretamente de Londres para o Rio, pode ficar tranquilo. Em uma tarde sem praia, ele pode fazer seu passeio nas galerias de arte cariocas e vai ver obras que ele poderia ver em seu passeio verpertino em Londres, Tokyo, Milão ou em Chelsea NYC.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Outra vanitas (sem drama...)





Esta obra do Luiz Zerbini (de 2007, bronze, edição de 10), chama-se "Sem Drama" e é uma criativa contribuição à tradição das "vanitas". Dependendo do ângulo em que é visto, o crânio se transforma na carinha sorrindo, o Smiley, este um ícone do final do século XX. Ou o contrário, a carinha sorridente e quase idiota em sua pós-modernidade, é forjada a partir de um crânio descarnado (lembra-te que és pó e ao pó reverterá, o "memento mori"). O título (sem drama...) completa a obra, que permanece aberta em seu diálogo com o espectador e com a tradição da grande arte.

No Rio, Cadu e Ação entre Amigos


No Rio, abertura de exposição na Galeria Laura Marsiaj.
Cadu, objetos e desenhos. Conheci o Cadu em 2003, quando fiz o workshop "Procedência & Propriedade", com o Charles Watson, e sempre me impressionou o rigor conceitual de seu trabalho, estranhas máquinas fazendo pinturas, desenhos feitos de marcas do sol queimando papéis e traçando a passagem das estações... Para mim o trabalho emblemático do Cadu está na mostra do CCBB, Nova Arte Nova: o histograma de consumo de energia, parte de uma conta padrão da concessionária, é manipulado pelo artista através de obsessiva modificação em seu padrão de consumo; assim os meses onde tradicionalmente o consumo de energia no Rio é alto (verão) aparecem artificialmente baixos, enquanto que no inverno Cadu atingiu seu pico de consumo de energia elétrica. Sutileza, rigor formal, obsessão. Na exposição da Laura Marsiaj, Cadu mostra mais: desenhos/pinturas sobre papel, em grandes dimensões, muito bonitos, além de objetos - uma máquina de preencher cartões de megasena e outra engenhoca para tocar caixinhas de música.
A imagem neste post é de um dos desenhos, de 2008, Barbican 4(óleo e grafite sobre papel - 136x115cm). Nestes desenhos, Cadu partiu da observação da histórica marina de Barbican, durante residência artística que fez na universidade de Plymouth, a convite do Arts Council of England. Ao meu ver, no desenho de observação, Cadu emprega a mesma forma meticulosa, assética, "científica", de ver a realidade que utiliza nos seus trabalhos mais conceituais; a marina é vista não como impressão mas como dissecação; e o prazer estético vem não da paisagem, do clima, do mar, das referências históricas, e sim de uma apreensão "estrutural" da realidade.
No anexo da Galeria, "Ação entre Amigos", coletiva de desenhos com Bernardo Damasceno (duas lindas vanitas, desenhos), Bruno Miguel (ele está com pinturas que gostei muito na exposição Nova Arte Nova, no CCBB), Carlos Mélo (outras vanitas, grafite sobre papel, gosto muito), Daniel Murgel (os desenhos em molduras são plantas que saem de uma jardineira real), Marcelo Gandhi, Pedro Varela (as lindas paisagens espaciais), Silvana Mello.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Projeto Acervo


Este é o convite para a abertura da 7a. edição do Projeto Acervo, no Espaço Bananeiras, em Santa Tereza.
O Projeto Acervo propõe "pacotes" com 10 obras de 10 artistas, que são vendidos (diretamente, sem intermediação de galerias) a um colecionador, a um preço fixo para o pacote. Somente na abertura da exposição o colecionador irá conhecer as suas 10 obras, que ficam expostas por algum tempo no Espaço Bananeiras. A idéia e a curadoria das obras é do Leonardo Videla, um artista que conheci há pouco tempo e que tem um trabalho muito bom.
O colecionador desta edição é a excelente pintora Lucia Laguna, e as obras são dos artistas Arjan Martins, Alexandre Vogler, Brígida Baltar, Daniela Mattos, Felipe Barbosa, Gisele Camargo, Guga Ferraz, Leonardo Videla, Marcos Abreu e Rafael Alonso. A valor do pacote é dividido igualmente entre os 10 artistas, e o Leonardo recebe apenas sua parte como um dos artistas, não havendo diferenciação pelo trabalho de organização. Muitos conceitos interessantes perpassam a idéia do Projeto Acervo: propor outra forma de circular obras de artes fora do circuito, uma democratização para os artistas e para os colecionadores também (compradas individualmente as 10 obras sairiam por um preço bem maior que o do pacote do Projeto), a noção de cooperativismo de artistas, a distribuição de objetos de arte e a disseminação de idéias através de redes (um conceito bem do século XXI) e outras. Além do que os trabalhos (pude ver alguns desta edição em visita ao ateliê do Leonardo há alguns dias) são muito bons, de alta qualidade, e os artistas em sua grande maioria já bem situados no circuito artístico.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Texto de Aracy Amaral sobre a 28a.Bienal

Esta Bienal... reflete a arte contemporânea?
A gente entra; e de imediato se indaga, constrangida: a "isto" se viu reduzida a Bienal de São Paulo? Mas é bom que se saiba: a indigência presente na Bienal de várias maneiras e que vimos na noite de abertura não reflete a arte contemporânea. Ela é antes espelho da debilidade de uma instituição. Não há necessidade de fazer simpósios ou seminários sobre o assunto. Também entendemos que a Bienal não é festival de artes em geral. Em São Paulo, a oferta de espetáculos de dança, música e teatro é imensa o ano todo e teria sido desnecessário o que se despendeu ocupando o espaço com essas atividades.
Quando se viaja ao exterior e se vêem exposições marcantes de artistas em grandes museus como a Tate Modern, em Londres, ou em Viena, no Ludwig Museum, ou em Nova York no MoMA ou Whitney, só para citar alguns, damo-nos conta do que está se passando em arte contemporânea. Como ao visitar uma Documenta de Kassel, por exemplo.
Também as grandes feiras internacionais de arte nos passam uma imagem viva da efervescência do meio artístico, seja com as obras expostas, ou com seminários que realizam.
Se entre nós o problema foi falta de verba que caberia à presidência da Bienal providenciar, essa presidência está no lugar equivocado, pois essa é a sua competência. Se a escolha do curador foi tardia, a responsabilidade é da instituição e da curadoria que aceitou, assim como a proposta e suas limitações, pela simples necessidade de vê-la aprovada por falta de tempo para executar ou conceber outro projeto.
Até detalhes paralelos à "proposta" de Ivo Mesquita podem ser criticáveis. Como a apresentação de "documentos da Bienal", pois afinal, o Arquivo Wanda Svevo sempre esteve aberto a pesquisadores e não precisava ter sido deslocado para o terceiro andar nem facilitar o manuseio de catálogos raros por parte de qualquer visitante sob risco de perda ou vandalismo.
Tentemos falar claro. Esta Bienal parece antes preconceituosa - em sua preocupação em não mostrar artistas de outras tendências, mas apenas aqueles rigorosamente conceituais . Afinal, para citar apenas um jovem artista brasileiro e um do jet set, as imagens poderosas de um Henrique Oliveira acaso foram cogitadas? Um Damien Hirst, artista há 20 anos "estrela" no meio internacional, não seria interessante ter sido apresentado? A arte chinesa de hoje (e mesmo a coreana !), espanto em grandiloqüência, mas sem dúvida um fenômeno das artes visuais de nossos dias, e atual "darling" de museus e centros culturais de todo o mundo ocidental, por que não está presente? Na linha de "happenings", por que não pensar nos 40 anos depois do Grupo "actionista" de Viena, do qual fizeram parte Schwartzkogler e Gunther Brus, performáticos e violentos em suas manifestações e expressões ao vivo e em vídeo? O Ludwig Museum de Viena comemorou com grande exposição em junho-julho último essa documentação forte, embora os jovens de hoje raramente saibam que existiu e creio que pouco se comovessem ao ver esses documentos. A arte também envelhece. Mas, enfim, há tantas vertentes das artes visuais no mundo que a pálida 28ª Bienal pode passar ao visitante incauto a falsa impressão de que nada mais ocorre na área. Ou, que não há nada de outros tempos que bem valeria um gesto generoso por parte do "Conselhão" ou Comissão (?) da Bienal em aprovar, recomendar e levantar fundos para sua apresentação. Afinal, repetimos, fortunas não nos faltam em particular neste Estado. E temos em mente que presidir uma Bienal de São Paulo, ou candidatar-se a esse cargo, pressupõe minimamente séria responsabilidade.
Mas, ou se apresenta evento digno dessa tradição - Bienal de São Paulo - ou se reformula a existência ou freqüência do evento, como sugerimos há mais de 30 anos em simpósio latino-americano ocorrido aqui na Bienal mesmo para que ela se transforme em trienal ou quadrienal. Embora nossos profissionais, enquanto curadoria, sejam dignos de respeito, nada mal se em bienais alternadas tivéssemos curadores convidados de outros países, do mais elevado nível, para formar e diversificar as equipes que se formam no Parque do Ibirapuera.
Se não se pertence ao círculo fechado do "Conselhão", ou dos que decidem o que entra e o que não entra -, pois estamos distantes da organização por parte dos países convidados para que tragam seus artistas indicados pela curadoria da Bienal - nunca será veiculado quais os que foram convidados e não compareceram, por recusa, ou porque não houve orçamento possível.
No terceiro andar, sem dúvida o que mais chama a atenção são os móveis de marcenaria de mesas, cadeiras e bancos, que seriam muito bem-vindos em centros culturais sem recursos ou mesmo em creches de nossos bairros mais carentes, segundo observou Ana Maria Belluzzo.
Como descobrir uma proposta interessante da fértil Rivane Neuenschwander em meio às mesmices expostas, como as reproduções nas paredes ou papéis em vitrines que dificilmente despertam nossa atenção? Referimo-nos à monotonia da arte conceitual, a nos recordar das maçantes exposições de galerias dos anos 70 em Nova York ("como são chatas!", nos dizia Hélio Oiticica, só para citar um nome respeitado em nosso meio). Naquele tempo, só de penetrar numa dessas galerias, dar uma olhada às pranchas penduradas com palavrórios mil e cálculos matemáticos já era suficiente para nos expelir do recinto.
Não deixamos de notar o assédio curioso de uma obra por parte do público que ocasionou a única longa fila que vimos no dia da abertura - a possibilidade de penetrar no tobogã do belga Carsten Höller - para poder usufruir da adrenalina na queda vertiginosa. Na verdade, esse trabalho, de verdadeira interação com os visitantes, talvez seja o único da Bienal a alcançar a escala de bienais passadas em termos de expectativa: "Quero ir à Bienal para ver tal trabalho."
Allan McCollum, uma raridade igualmente, parece ter trazido, com seu envio, aquilo que eu consideraria um "trabalho para um espaço de Bienal".
Por isso me pergunto, espantada diante do que está exposto, como preparar visitas guiadas de escolares? Como explicar "artes visuais contemporâneas" a um público infantil ou adolescente nesta Bienal? Ou, como justificar a existência das Bienais?
Convenhamos: como ouvir tranqüilamente que é "genial" o piso geométrico de Dora Longo Bahia, que deve ter sido de difícil implantação, por certo, para seus auxiliares, com desenhos a nos lembrar azulejos hidráulicos magnificados, ou de inspiração islâmica?
Na verdade, ao ver a diminuta peça de Iran do Espírito Santo, parece que esta Bienal, salvo exceções, pelo teor das propostas, parece feita de presenças antes para a elite freqüentadora de galerias do que baseada numa concepção considerando o grande publico. O que significa isso?
Significa que num evento "bienal", "trienal", em particular num país como o Brasil, de extrema desigualdade social e educacional, os espaços, a cidade, as obras e os visitantes devem ser pensados em termos interativos, como alvo de motivação e não apenas de exibição.
Assim foi o propósito, a meu ver, que ocasionou a vinda da Guernica (em 1953-54), da sala Mondrian, da sala Picasso, da sala Van Gogh, do pop norte-americano já em meados dos anos 60, e de tantas outras salas especiais, como a dos artistas modernos e modernistas da Bienal da Antropofagia. Ou mesmo da Bienal da Grande Tela, sob a curadoria de Sheila Leirner, em 1985, ao trazer-nos a nova pintura dos anos 80. Claro que o Brasil mudou, e nossos museus e centros culturais idem. Assim, temos tido grandes exposições nos últimos 10-12 anos. Mas quem sabe os tempos agora ficarão mais magros e teremos que batalhar por novas oportunidades?
Mas, afinal, o que eu vi na abertura da Bienal? Muita "arte de processo", tendência típica dos anos 70, ou simulacros, como uma pseudoloja de rua reproduzida no interior da Bienal (Chaveiro, de Paul Ramirez Jonas), pseudográfica com impressão de jornais (Erick Beltrán), folhetos conceituais humorosos (ou não), e por vezes criativos, como sempre são distribuídos nas Bienais ao longo do tempo; entre vídeos modestamente dispostos, ao largo do circuito "nobre" do espaço, como alternativa para eventual outra visita do apreciador.
Melhor não mencionarmos a museografia, a organização do espaço desta Bienal. Nem há etiquetas dos autores dos trabalhos em suas proximidades. Talvez entendam os curadores que os folhetos com mapas impressos sejam suficientes... Não o são. Passa uma idéia de descaso para com o visitante, de falta de tempo para os "finalmente" do evento.
O que é o "espaço vazio" da Bienal? Prédios e habitações vazias em nossos tempos são um convite certo à "invasão". Se não ocorre "ocupação", vamos ocupá-los. Assim pensaram visitantes de um museu, cujo diretor, na década de 80, deixou o espaço vago para motivar a população, numa cidade no sul da França, a ocupá-lo com objetos e obras que traziam de casa. Mas acontece que hoje vivemos em tempos bem mais agressivos.
Colocar como alvo de admiração o espaço concebido por Niemeyer, e que usufruímos há mais de 50 anos, poderia ser projeto para uma Bienal de Arquitetura de São Paulo. Mas esta é a 28ª Bienal. Assim, não tem sentido, e mesmo a definição desse espaço pela curadoria parece-nos equivocada se não for de humor (?) dúbio (*). Assinala falta de idéia, de concepção, de tempo, de orçamento. Ou tudo junto. Se o desejado é a polêmica sobre a provocação, então o objetivo foi alcançado. Mas o "void", com certeza, é uma omissão. Nada tem de rebeldia. E se o curador da Bienal, Ivo Mesquita, aceitou os termos da presidência, as regras do jogo, quando aceitou, não se pode dizer apenas que "salvou" a Bienal por ter ela sido realizada em menos de um ano. Pode-se ser mais incisivo: dizer que ele "quebrou o galho" para a atual presidência. E certamente poderá até ser elaborado um catalogo bilíngüe pleno de textos sobre a filosofia da arte de nosso tempo.
Na verdade, há algo de cinismo murmurado, reconhecido e vivenciado no meio artístico contemporâneo. O conceitual é bem imaterial, mas aqueles que sobrevivem vendem, ou viajam a convite para expor suas criações. A própria crítica, as curadorias, a mídia, o sistema de galerias e museus, todos enfim contribuímos amplamente para esse fim, apesar do que se publica em vários países sobre esse fenômeno. Isso se deve ao fato de se escrever, em geral em literatura pouco acessível ou pedante, sobre obras sem nenhum ou parco valor, para um público reduzido que acredita erroneamente que quanto mais hermético mais elevado.
Mas é certo que a criação contemporânea é um instante de trânsito, entre o passado e o futuro, pois como prever qual será exatamente o tipo de expressão visual dentro em pouco com os avanços da nanotecnologia, da internet, do papel eletrônico ou da fotografia digital, que influenciarão várias formas de manifestação?

*No folheto distribuído ao público é definido esse espaço e sua concepção: "2.º andar: Planta Livre - Ao contrário das bienais anteriores, que transformaram todo o interior do pavilhão modernista em salas de exposição, desta vez o segundo andar está completamente aberto, revelando sua estrutura e oferecendo ao visitante uma experiência física da arquitetura do edifício. O termo planta livre refere-se ao conceito criado por Le Corbusier, em 1926, para definir um dos cinco princípios da nova arquitetura."

Aracy Amaral é crítica e historiadora de arte

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pichadora presa há 44 dias tenta de novo a liberdade

Do Jornal O Globo, 10/12/2008 (repórter Flávio Freire):
Aos 23 anos, a gaúcha Caroline Pivetta da Mota tem, há 44 dias, a liberdade apenas tatuada no peito. Presa em flagrante em 26 de outubro, quando pichava o pavilhão da 28a. Bienal Internacional de São Paulo, Caroline, desde então, divide com outra detenta uma pequena cela da Penintenciária Feminina de Santana. (...) Ao lado de outros 40 jovens (era a única mulher), ela atacou com um spray o prédio instalado no Parque do Ibirapuera, quando foi detida por soldados do Batalhão de Choque da Polícia Militar (...) A pichação foi feita num espaço onde não havia obra de arte. A instalação foi batizada pelo autor como "Vazio", um dos trabalhos mais polêmicos já apresentados na Bienal. (...) Em entrevista à "Folha Online", na semana passada, Caroline disse (...): "A gente não queria estragar as obras da Bienal, mesmo porque não tinha obra. Ali, nós é que íamos fazer uma obra".
Eu concordo. Acho inclusive que a curadoria da Bienal deveria se pronunciar de público exigindo a liberdade dos pixadores. Basta ler a conceituação desta Bienal, chamada como "Em vivo Contato", pelo curador Ivo Mesquita: "Considerando que parte das práticas artísticas contemporâneas não se restringe à produção de um só objeto passível de contemplação em um mesmo tempo e lugar, a 28a. Bienal propõe diferentes dispositivos de exposição e difusão (...): Praça: A transformação do andar térreo do Pavilhão Ciccillio Matarazzo numa praça pública, como no desenho original de Oscar Niemeyer para o parque em 1953, sugere uma nova relação da Bienal com o seu entorno - o parque, a cidade -, que se abre como a ágora na tradição da polis grega, um espaço para encontros, confrontos, fricções (...), procurando gerar energia para uma aeração do edifício, assim como para a consolidação da mostra como um espaço social temporário, gerador de uma potência criativa que perpassa tanto artistas quanto público reunidos em seus acontecimentos." Ainda o curador, descrevendo o segundo andar, a "planta livre", o "vazio", o local buscado pelos pixadores para sua interferência: "É nesse território do suposto vazio que a intuição e a razão encontram solo propício para fazer emergir as potências da imaginação e da invenção. Esse é o espaço em que tudo está em um devir pleno e ativo, criando demanda e condições para a busca de outros sentidos, de novos conteúdos".
Em minha opinião a advogada de Caroline poderia utilizar a conceituação da Bienal como argumento de sua defesa: "o confronto, a fricção que geram energias para uma aeração do edifício, a potência criativa... etc. etc." tudo isto poderia estar se referindo ao trabalho dos pixadores, não fossem eles de periferia e sem acesso ao circuito de artes, que a Bienal pretensamente procura discutir.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Um trabalho da Virgínia


Trabalho recente da minha amiga Virgínia Paiva, uma artista com muito talento e uma grande amiga. Aquarela e pastel sobre tela. Virgínia é filosofa, morou em Amsterdam muitos anos, fez trabalhos com ilustração e estudou no Parque Lage com Maria do Carmos Secco e João Magalhães.

domingo, 7 de dezembro de 2008

A dança das cadeiras

Quando estou menos seguro de mim, tenho uma visão do mundo que se assemelha a uma dança das cadeiras, mas sem a menor graça, por não ter suspense, sendo só uma enfadonha repetição interminável, onde os que ficam vivos se sentam nos lugares antes ocupados pelos mortos. É como se no mundo não houvesse lugar para todo mundo e estar vivo não eliminasse a possibilidade de longos e longos anos na fila de espera até aparecer uma vaguinha...
Carvalho, Bernando - Em As Iniciais, pag.18 - 1999

Posts sobre minhas releituras dos livros do Bernardo Carvalho:
Prazer da Leitura
Teatro
O Livro de hoje

O livro de hoje

Estou relendo os Bernardo Carvalho do início, na sequência. Aberração, Onze, Os Bêbados e os Sonâmbulos. Aí dei uma desconstruída na ordem cronológica, reli o Medo de Sade. E hoje comecei a reler As Iniciais, de 1999. Cada vez gosto mais.

Posts sobre minhas releituras dos livros do Bernardo Carvalho:
Prazer da Leitura
Teatro
A dança das cadeiras

O vinho de hoje

Robert's Rock, Chenin Blanc & Chardonnay, 2007, África do Sul. Um branco básico, boa relação custo-benefício, um vinho para o verão... mas cadê o verão?

sábado, 6 de dezembro de 2008

Exposições no Rio

Cheguei no Rio tarde, com o atraso do vôo, e assim tive que reduzir bastante a minha agenda, me concentrando em visitas às exposições de dois circuitos de galerias de arte: Praça General Osório e Praça Santos Dumont.
Praça General Osório:
Na Amarelonegro, individual de Hugo Houayek. Uma boa exposição. No texto de apresentação o artista diz que "...como um camaleão, a pintura vai se camuflando no mundo, fazendo da camuflagem uma opção estética". Uma instalação transforma a galeria em um espaço de morar, porém totalmente insólito, pois cama, bancos, espelho, quadros, são painéis ou sólidos recobertos em plástico com cores fortes, meio fofos, talvez confortáveis, porém áridos na sua existência plástica e visualmente berrante. Os objetos são obras em si, além da instalação, como no Store do Claes Oldenburg (preservado no MoMA). Os espelhos são painéis recobertos de plástico preto, que paradoxalmente podem funcionar como espelhos. No acervo da galeria há também objetos onde o aspecto de chassi, de pintura que todos tem, viram mais "pintura" pois o artista descasca o plástico criando quadros abstratos com zonas de cor. O pequeno cubo (20x20x20), um múltiplo, é um objeto de desejo: recebe as cores fortes, e funciona como uma "almofada" no ambiente-casa, em uma versão aparece dourado, e em uma versão (não exposta, vi no acervo), tem listas vermelhas e brancas que remetem a um Daniel Buren.
Na Silvia Cintra e no Box4, Tatiana Blass, O Globo da Morte. Pinturas sobre tecido e um escultura, muito bonitas, na linguagem já marca registrada da artista, na Silvia. E, no Box4, um trabalho de gande impacto: Uma moto (real) cortada pela metade, suas partes separadas por tubos metálicos (que também separam as metades do instrumento musical na escultura na outra sala), em rotação de 90 graus (a parte traseira da moto sobre o chão, a parte dianteira sobre a parede) - como em um Globo da Morte mesmo, e a separação das partes transmite de forma maximizada a sensação de velocidade e de vertigem de um Globo da Morte. Gosto muito do trabalho da artista, tanto as pinturas (um dos meus objetos de desejo...) quanto os ambientes e objetos. Vi em 2007, no Centro Maria Antonia (SP), um ambiente da Tatiana Blass de fazer perder o fôlego: uma sala, completa, normal: sofá, estantes, livros, CD, pinturas, mesa, cadeiras, fotos de família... só que à altura de pouco mais de um metro do chão o espaço foi seccionado, na horizontal, como se uma motoserra tivesse passado pela sala e cortado tudo em seu caminho, a parte de cima se despreendendo da parte de baixo deixando um vazio entre elas: CDs,livros, quadros, paredes, móveis, tudo o que estava naquela altura, cortados ao meio, como testemunhas de uma tragédia de uma violência cirúrgica tão século XIX.
Arnaldo Antunes na Laura Marsiaj. Um artista multimidia, com criações da maior qualidade no campo da música, levando adiante a pesquisa de palavras, sons, letras, conceitos, que já desenvolve em seus trabalhos musicais principalmente após ter deixado os Titãs. Gosto muito, sempre gostei, vi shows, tenho todos os CDs. Na exposiçào anterior, também na Laura Marsiaj, eram desenhos, trabalhos gráficos bidimensionais sobre papel, usando tinta, e com jogo de palavras, letras, inventando caligrafias (influência do concretismo, dos calígrafos orientais). Nesta exposição ele parte para o tridensional: objetos explorando as letras, conceitos, aparências, e se vê que em alguns ele chega a uma semelhança com objetos surrealistas (o ovo com sinais gráficos - um ponto e um vírgula, o sol feito dos arames de um guarda-chuva). Gosto da carteira de cigarro feita de duas metades de carteiras de cigarro de marcas diferentes, criando uma nova marca(Marmel) a partir do Marlboro e do Camel das carteiras originais.
Praça Santos Dumont:
Coletiva na Anita Schwartz. A Galeria é maravilhosa, instalações que poderiam perfeitamente estar em Chelsea NYC e está comemorando um ano de inauguração com uma boa coletiva, trazendo seus artistas consagrados (Gonçalo Ivo, Palatnick, Zilio, Fabio Miguez, Nuno Ramos, Rubens Grilo...) e também artistas mais jovens. Uma exposição bem montada, e de qualidade.
Anna Maria Niemeyer - na Praça, remontagem de uma instalação do João Carlos Goldberg, usando fios de prumo/pêndulos, bem interessante. E no Shopping da Gávea, trabalhos recentes do José Patrício, com os já conhecidos dominós, estruturas feitas com preguinhos de cabeça colorida, e uma estrutura feita com botões de cores diferentes. Todas "de parede", são pinturas feitas com estes elementos, uma meticulosidade impressionante, rigor conceitual e muito bonitas. Gosto muito.
Na Galeria Toulouse, uma coletiva do acervo, com obras de Eduardo Sued, Rubens Gerchman, John Nicholson, Cildo Meireles, Waltercio Caldas, Gonçalo Ivo, Augusto Herkenhoff, Barrio, Adriana Salazar. As máquinas da Adriana Salazar, artista colombiana, são muito interessantes, uma das máquinas é um aparelho para enfiar linha em uma agulha (a máquina tenta, tenta, como uma avó míope, e nunca acerta...) E uma surpresa, dois objetos em acrílico do Osmar Dillon, de 1973, que não se vê mais por aí, os icônicos Sol e Tu.
Mas a surpresa mais agradável do dia foi encontrar a artista Beatriz Milhazes, em pessoa, esperando um mesa para um almoço tardio no Guimas. Conversamos, ente muitos outros assuntos, sobre a exposição dela na Estação Pinacoteca, que eu adorei, e ela falou da dificuldade de conseguir, atualmente, empréstimo de obras dos colecionadores para a montagem de uma exposição como esta.
É bom estar no Rio.

No Aeroporto JK


“Senhor, o seu vôo foi cancelado, os passageiros estão sendo acomodados no vôo das 8:30h.” OK, o que fazer? Dezembro, apagão aéreo.
O Aeroporto de Brasília é esquisito. Os militares fizeram de tudo para impedir que o Niemeyer fosse o autor do projeto do aeroporto da capital, então construíram um galpão, hoje renovado, e com planos de expansão. É amplo, bom estacionamento, limpo, mas não deixa de ser weird.
São 6 e meia da manhã de um sábado, meu vôo para o Rio foi cancelado, estou sonado e com fome, e do terceiro andar do Aeroporto, onde ficam os cinemas, praça de alimentação, até barzinhos com som ao vivo, um barulho de festa: uma música ao longe, gargalhadas, vozes jovens que conversam quase gritando...
E pelas escadas rolantes vão descendo do terceiro andar e se espalhando pelo Aeroporto inteiro, aos poucos, como num final de festa, dezenas e dezenas de jovens. Aos poucos minha mente sonolenta identifica o evento como uma festa de formatura, pela idade dos jovens, pelos vestidos a rigor das moças (provavelmente o primeiro vestido a rigor que muitas usam), pelo rigor não tão rigoroso dos rapazes: blazers, camisas sociais, ternos pretos sem gravatas, muitos combinam os ternos com tênis, alguns abriram a camisa para mostrar o peito malhado. Alguns descem no fluxo inverso da escada rolante, outros se equilibram perigosamente na borda do espelho d’áagua do térreo, um é empurrado até o estacionamento dentro de um carrinho de bagagens. Algumas meninas descem a escada rolante em duplas ternamente abraçadas. Não é ainda o final de festa, pois o movimento é intermitente, me pergunto até que horas esta festa vai durar, se é que é mesmo uma festa de formatura, num Aeroporto?
Me lembro de minha festa de formatura, me vejo também me equilibrando na borda de um laguinho, andando por uma contra-mão, tirando os sapatos com o primeiro terno, bebendo até vomitar em uma sarjeta daquela São Luiz do Maranhão de tantos anos atrás, do século passado... Na verdade minha festa de formatura foi a formatura do primeiro grau (na época era o ginásio), pois minha formatura da faculdade foi na época de contestações, pós-1968, e nossa turma votou por não fazer uma festa de formatura, minha avó queria me dar o anel de grau e eu pedi o dinheiro do anel para me ajudar na entrada de um fusquinha.
Entro para os portões de embarque, o detector de metais apita, tenho muito tempo, penso, e rio comigo mesmo. Eu não tenho mais muito tempo assim, eles têm, e têm também a consciência de ter todo o tempo do mundo pela frente, que eu já perdi nesta estrada.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A Morte e a Donzela



Duas pinturas de novembro (50x60cm), ambas chamadas "A Morte e a Donzela". Para as mulheres expressionistas me lembrei do de Kooning e da série Mulher e Bicho do Ivan Serpa. "Death and the Maiden" é o filme do Polanski mas é sobretudo o quarteto de Schubert, e também as xilogravuras da Dança da Morte de Holbein.
Da Wikipedia:
La Danse Macabre, também chamada Dança Macabra, Dança da Morte, La Danza Macabra, ou Totentanz, é uma alegoria do final do período medieval sobre a universalidade da morte: não importa o estatuto de uma pessoa em vida, a dança da morte une a todos. La Danse Macabre consiste na representação de uma Morte personificada conduzindo um fileira de figuras de todos os estratos sociais dançando em direcção aos seus túmulos— tipicamente com um imperador, rei, papa, monge, adolescente e bela mulher, todos numa forma esqueletal. Estas representações foram produzidas sob o impacto da Peste Negra, que lembrou as pessoas de quão frágeis eram suas vidas e quão vãs eram as glórias da vida terrena.
O exemplo artístico mais antigo é o cemitério pintado a fresco da Église des St. Innocents (Igreja dos Santos Inocentes, em francês) em Paris (1424). Há também trabalhos por Konrad Witz na Basiléia (1440), Bernt Notke em Lübeck (1463) e xilogravuras por Hans Holbein, o Moço (1538).
As cenas finais do filme O Sétimo Selo por Ingmar Bergman retratam um tipo de Danse Macabre.
Israil Bercovici afirma que a Danse Macabre originou-se entre os judeus sefardins no século XIV na Espanha. [Bercovici, 1992, 27].

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

...e em 2007 o Frank Stella no Roof Garden...




Em 2007, a exposição no Roof Garden do Met era do Frank Stella, maquetes de projetos arquitetônicos, e as esculturas feitas a partir das maquetes. Não tinha o colorido e a alegria da celebração do Jeff Koons, era uma exposição mais pesada, ligada à temática do Moby Dick explorada pelo Stella. Mesmo assim, como se vê em minha foto, o Roof Garden se transforma em uma explêndida happy hour...

Ainda Jeff Koons no Roof Garden do Met...




Três ângulos da escultura de um coração embrulhado para presente, do Jeff Koons, que esteve no Roof Garden do Met em NYC até outubro. Uma resenha creditada ao NYTimes (recebi por email) bem interessante (abaixo) mostra alguns senões à mostra, porém focados na localização ingrata para as obras:
"NOVA YORK - Com uma vista de tirar o fôlego, traçando um panorama do Central Park e do horizonte de Manhattan, o jardim no telhado do Metropolitan de Nova York, denominado Cantor Roof Garden, poderá surpreender o visitante como um excelente lugar para abrigar uma exposição de esculturas ao ar livre, como acontece todos os anos. Na verdade, trata-se de um lugar inóspito para esculturas, como demonstrado pela exposição de 2008, aberta nesta terça-feira, 22: três belos e inéditos trabalhos do conceituado artista pop Jeff Koons.
"Cada uma das esculturas é uma representação ampliada de algo menor em aço inoxidável, polido e laqueado - um cão de brinquedo feito de balões, um coração do dia dos namorados embalado numa folha metálica e a silhueta do 'leitão', de um livro de colorir do 'Ursinho Puff', como se estivesse pintado ao acaso por uma criança pequena.
"São trabalhos expressivamente travessos. Com suas partes pneumáticas, em forma de salsicha, Balloon Dog (amarelo) é um astuto cavalo de tróia: parece inocente, mas é carregado de estética e perversidade erótica. Sacred Heart (vermelho/dourado) comenta de maneira incisiva a mudança comercial no significado de uma experiência emocional e religiosa. Coloring Book reflete a obsessão jovem e a infantilidade da cultura e sociedade moderna.
"Mas localizados num pátio sem definição arquitetônica, onde também se vêem áreas ocultadas pelos proprietários do Roof Garden Cafe, as esculturas se tornam acessórios decorativos. O maior problema é a escala. Visto numa galeria interna, o brilhante Balloon Dog metálico, que atinge cerca de 3 metros de altura em seu ponto mais alto, poderia ter uma imposição diferente. No teto, parece ter seu crescimento impedido pelo céu; no aberto, poderia se expandir para o espaço, no sul e oeste do museu.
"A intimidade das esculturas de Koons também é diminuída. A atenção perfeccionista aos detalhes é um dos aspectos mais convincentes de seus trabalhos: note o exato laço que serve como nariz para o cachorro em forma de balão, ou as marcas de dobras e pregas no coração embalado.
"O ambiente que causa distração, porém, impede um olhar mais cuidadoso.
"Devido ao fato de ser a maior e mais simples escultura, Coloring Book é o trabalho que menos sofre com a inferência do ambiente. Mas também é o menos interessante do ponto de vista formal, contornado irregularmente com cores transparentes e aquosas.
"Local à parte, as esculturas de Koons permanecem como objetos intelectualmente excitantes, que aguçam os sentidos - Balloon Dog é a obra-prima - e valem uma visita sob qualquer circunstância."

Mesmo reconhecendo a pertinência das críticas, eu continuo achando que foi uma exposição maravilhosa... e uma ótima happy-hour...

Cantareira


Da série "Thesouro da Juventude", foto de uma proposta de instalação para o evento do Grupo Pyrata nas Barcas Rio-Niterói em 2005. Até a realização do evento mudei muito a proposta, a instalação finalmente realizada se ampliou até se tornar uma "sala de leitura" no 2º andar da Barca, assim este trabalho que publico aqui ainda permanecia inédito.

A Difficuldade do Barqueiro (série “Thesouro da Juventude”)
Três livros, com interferências em desenho, de uma velha edição do Thesouro da Juventude, abertos em páginas com imagens das “Bellezas Architectonicas do Rio” e da “Praia de Icarahy (Bellas Praias perto das Grandes Cidades)”, mediadas por uma fábula sobre “A difficuldade do barqueiro”.
Os 3 livros são apresentados abertos, em seqüência, da esquerda para a direita:
a) Volume 17, pág. 5358-5359 - “Bellezas Architectonicas do Rio”
b) Volume 16, pág. 5210-5211 - “A difficuldade do barqueiro”.
c) Volume 14, pág. 4488-4489 – “Praia de Icarahy (Bellas Praias perto das Grandes Cidades)”
A única exigência em relação à montagem é que esta seqüência na posição horizontal seja obedecida, dependendo do espaço disponível será definida a melhor opção para a montagem final. Dimensões do trabalho: 90 cm x 24 cm (l x a)

Pelo amor de Deus...




Três imagens de "For The Love of God", escultura produzida pelo Damien Hirst em 2007, e que é talvez o "memento mori" mais famoso deste milênio. É um crânio de um homem europeu que viveu entre 1720 e 1810, inteiramente recoberto de platina (exceto os dentes, que são os originais) incrustado com 8.601 diamantes perfeitos, incluindo um diamante rosa em forma de pera que fica no fronte do crânio, no total de 1.106,18 quilates. É a obra de arte mais cara jamais criada, com um custo de produção de cerca de 14 milhões de libras esterlinas, e teria sido vendida, para um consórcio de compradores anônimos, por 50 milhões de libras (embora haja comentários de que esta venda nunca teria sido realizada, seria uma forma de aumentar os preços de todos os trabalhos do artista, com quem a obra permaneceria).
O título da obra teria sido inspirado em um comentário da mãe do artista: "Pelo amor de Deus, o que você vai fazer agora?"
E o crítico Richard Dorment, do Daily Telegraph, escreveu: "Se qualquer um exceto Hirst tivesse feito este curioso objeto, estaríamos atônitos ante sua vulgaridade. Parece o tipo de coisa que Asprey ou Harrods poderiam vender para crédulos visitantes vindo dos países produtores de petróleo, com ilimitadas quantias de dinheiro para gastar, pouco gosto e nenhum conhecimento de arte. Posso imaginá-lo enfeitando a sala de estar de algum ditador africano ou barão do tráfico de drogas colombiano. Mas não foi feito por qualquer um - Hirst o fez. Sabendo disso, olhamos para ele de uma maneira diferente, e compreendemos, na forma mais direta e brutal possível, que "For the Love of God" questiona alguma coisa sobre a moralidade da arte e do dinheiro." (clique aqui para a crítica completa, é bem interessante)

7 Habsburgos e Braganças


Pintura feita em novembro, 50x60cm. Parti dos losangos, e do verde-amarelo. O verde dos Bragança e o amarelo dos Habsburgo, que se juntaram na bandeira do Império Brasileiro e foram mantidos na bandeira positivista da República Brasileira.
Mesmo aqui, na Brasília modernista, o verde dos Bragança e o amarelo dos Habsburgo foram incluídos por Lucio Costa e Niemeyer na Praça dos Três Poderes, com o jardim de palmeiras imperiais e o jardim de ipês amarelos flaqueando o Congresso Nacional (ao que consta a partir de sugestão do Le Corbusier).
As 7 caveiras vieram das "vanitas".
O título, "Os sete Habsburgos e Braganças", surgiu depois da pintura terminada. Tive curiosidade de pesquisar sobre quem seriam os personagens que eu tinha retratado de forma meio inconsciente, e vi que o matrimônio imperial de D.Pedro I com a Arquiduquesa Leopoldina da Áustria gerou exatamente 7 filhos:
1) D. Maria II, rainha de Portugal (1819-1853), casada por procuração com seu tio, D. Miguel I, rei de Portugal, em primeiras núpcias com Augusto de Beauharnais, duque de Leuchtenberg, e em segundas núpcias com o príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, rei consorte de Portugal;
2) Infante D. Miguel de Bragança (1820), príncipe da Beira;
3) Infante D. João Carlos de Bragança (1821-1822), príncipe da Beira;
4) D. Januária Maria (1822-1901), princesa imperial do Brasil, casada com o príncipe Luís de Bourbon e Duas Sicílias, conde de Áquila;
5) D. Paula Mariana (1823-1833);
6) D. Francisca (1824-1898), princesa do Brasil, casada com o Francisco Fernando de Orléans, príncipe de Joinville;
7) D. Pedro II (1825-1891), imperador do Brasil, casado com D. Teresa Cristina de Bourbon e Duas Sicílias, princesa de Duas Sicílias.
...embora eu não tenha planejado, estes são, portanto, os 7 Habsburgos e Braganças...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Da série "A cidade modernista"






São 4 pequenas telas (20x20 e 30x30), de 2006, pintadas logo que cheguei em Brasília. Na época eu estava estudando sobre o modernismo, como movimento artístico e na arquitetura, e especificamente sobre o projeto de Brasília, uma Utopia modernista. As pinturas refletem isso, e o clima soturno o momento de solidão e recomeço de minha vida. Hoje, as telas da série (que continua) são mais coloridas, com tintas metálicas, e a atmosfera já é outra.

Um trabalho apenas iniciado


Parece pronto, por isso eu deixei de lado há algumas semanas a tela de 50x60. Bonito, as cores falam entre si. Olho para a tela, e sei que isso é apenas o começo: os retângulos traçados, a carvão, com informalidade; as cores; as manchas, pingos e escorridos de tinta... Vou retomar a tela, e quem sabe quando eu poderia dizer "está pronto..." ? Ou não, e o trabalho apenas iniciado já está pronto mesmo.

Um quarteto (e um dois de ouros)


Pintura de novembro/2008, o quarteto podem ser os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, a Gang of Four, os Beatles, ou os 4 Seasons... tela 50x60, e os naipes aparecem comedidos, como um dois de ouros invertido, apenas um pretexto para aparecerem os ubíquos losangos...

Os trigêmeos Habsburgos


São trigêmeos, ou apenas três irmãos mesmo. A linhagem está explícita no losango amarelo, a cor dos Habsburgos que continua na bandeira da república brasileira. Meu analista talvez dissesse que há algo meio óbvio, já que eu sou um de três irmãos (tenho duas irmãs). O tamanho é o básico 50x60, e é de outubro/novembro/2008.

Outra foto de NYC


A data é setembro/2008. O local, uma das galerias novas e poderosas no Chelsea, NYC. O trabalho é de um artista chinês (todos para mim com os nomes muito parecidos). Devo ter tudo anotado, acho eu, e fico devendo: nome da Galeria e do artista, e o outro dever de casa meu é ver se este artista esteve nas duas exposições de artistas contemporâneos chineses no Brasil (CCBB e MASP, veja post abaixo). Provavelmente não. Minha suspeita é que o mercado internacional de arte descobriu na China um estoque imenso de artistas que produz a preços relativamente baratos e que, com divulgação, podem estourar nos leilões internacionais, algo muito semelhante à produção chinesa de camisas, brinquedos ou outros produtos que, usando insumos baratos, um pouco de trabalho escravo, fraco controle de qualidade etc. etc. etc. inundam as lojas de 1.99 do mundo globalizado inteiro. O pulo do gato do mercado de arte é que os produtos artísticos chineses, a partir da apropriação por este circuito de arte, deixam as lojas de 1.99 e caem na Sotheby's ou na Christie's, se transformam em "luxury goods", com lucros exponencialmente maiores do que as pobres camisas e brinquedos. Bom, mas de qualquer forma o resultado que se é muito melhor que a arte do camarada Mao (não o Mao do Andy Warhol, claro, o do livrinho vermelho).

Jeff Koons e eu...


Meu reflexo em umas das esculturas monumentais do Jeff Koons, no rooftop do Met, em NYC, no setembro passado. Uma tarde de sol, a bolsa caíndo na maior recessão desde 1929, um setembro negro, mas NYC ferve, como sempre, e as esculturas do Jeff Koons parecem dominar a cidade.
Melhor que esta "pequena" exposição, só o Jeff Koons em Versailles, que eu adoraria ir ver, é meu sonho de consumo mas... acaba dia 4 de janeiro de 2009... então só vendo no site... O catálogo ainda não saiu, a previsão é março 2009, mas eu já encomendei na Amazon (US$ 53.55 em pré-venda). Jeff Koons e Versailles são a combinação perfeita, um casamento "made in heaven" como o de Jeff K. e Cicciolina...

Uma pintura recente


Uma tela no meu atual tamanho básico (50x60), de novembro. O título é "Tu (pisavas os astros distraído)". Os losangos cedem a cena para as esferas douradas, que são planetas, com direito aos anéis de um pequeno Saturno. As caveiras das vanitas se alinham como os quatro pontos que marcam uma cruz (ou como a marcaçao original do Lúcio Costa ao criar o Plano Piloto). E o "personagem oculto" (o "Tu") é masculino mesmo, o "distraído" não é um erro de digitação.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Antonio, expondo em São Paulo


Meu amigo de São Paulo, Antonio Sobral, artista visual e cineasta e uma pessoa fantástica, está abrindo uma exposição esta semana. O trabalho dele é muito bonito, não conheço estes últimos mas certamente vale à pena ver. Boa sorte, Antonio.

Exposições em São Paulo

Em 21 e 22 de novembro fui a São Paulo, para a maratona de exposições.

O MASP, cuja programação raramente compensa os R$15,00 da entrada, desta vez estava valendo: além de outra exposição temática sobre o acervo (desta vez auto-retratos) - sempre é bom rever e sonhar com um tempo em que o mecenato brasileiro podia comprar Van Gogh, Rembrandt, Rafael, Gauguin, Monet, diga um nome... Mas o que valeu a entrada é uma exposição sobre arte contemporânea chinesa (China: Construção – Desconstrução), com um bom catálogo. Um dever de casa que ainda não fiz é uma comparação entre os nomes desta exposição (16 artistas) e os da exposição de alguns anos atrás no CCBB. Os artistas desta exposição são: Wang Qingsong, Yin Zhaoyang, Chen Bo, Wang Chengyun, Ma Jawei, Qiu Xiaofei, Ai Weiwei, Yin Xiuzhen, Xiong Yu, Zhou Wenzhong, Mao Yan e Liu Ding.
Na OCA (Parque Ibirapuera), uma exposição comemorativa dos 60 anos de MAM-SP. Excelente exposição, embora o andar térreo esteja com uma distribuição meio confusa, a qualidade das obras expostas é enorme. Muita coisa boa, mais de 500 obras em exposição, além do aspecto documental. Ao meu ver um dos pontos altos da exposição é rever a série trágica, do Flávio de Carvalho (que na verdade não está mais com o MAM e faz parte das obras do MAM doadas pelo Cecílio Matarazzo à USP, na manobra até hoje mal explicada que quase acabou com o Museu, que só a muito custo conseguiu, depois, se reerguer). Destaco também uma sala linda, em volta de vários trabalhos do Leonilson, perto de outra sala com várias Mira Schendel. Como se não bastasse, no subsolo um magistral ambiente do Frans Krajcberg, com várias esculturas enormes de madeira queimada e fotos contra a destruição do meio ambiente.

MAM-SP Depois de ver a exposição dos 60 anos do MAM, o próprio MAM ainda oferece coisas surpreendentes: o Projeto Parede, desta vez um belo mural do Barrio. Uma "exposição de curador" - "Cover = Reencenação + Repetição" (interessante, bom catálogo). E uma retrospectiva, com um bom catálogo, do músico suíço Walter Smetak (1913-1984), que se radicou na Bahia, foi citado por Caetano Veloso, Arto Lindsay (um dos curadores da mostra, com Jasmin Pinho), influenciou vários grupos musicais. Para mim uma surpresa ver que além de importante como músico, ele era um escultor, produzindo instrumentos musicais com sons diferentes e que funcionam como escultura, onde o espaço é conquistado pelo visual e pelo auditivo. Algo na linha do que hoje é feito pelo Chelpa Ferro, Paulo Vivacqua, Paulo Nenflidio e outros. E, na lojinha, uma barganha: "Abdias Pequeno", um múltiplo em resina do Sérgio Romagnolo (pequeno sim, cerca de 20cm de altura), com tiragem de 150 exemplares, por incríveis R$95,00.

28ª Bienal de São Paulo, a Bienal do Vazio. Bom, realmente, a visão do vazio do 2º andar é impressionante. Porém no final da visita fica muito pouco. Para mim, que amo pintura, é pouco ver apenas uma pintura (a pintura do chão da Dora Longo Bahia), bonita, e feita para ser pisada...

No CCBB, uma exposição, "Sobrevivência", de Eduardo Srur, na verdade espalhada por diversos monumentos públicos na cidade (um deles eu vi de perto, no Parque Trianon em frente ao MASP). São vinte e cinco esculturas “vestidas” com coletes e bóias salva-vidas, produzidos em escala proporcional a cada uma delas. E Brasil Brasileiro, que procura "festejar o conceito de brasilidade". Uma instalação do Nelson Leirner, no vão central, mostra uma "praia", com bananas e guardas-sol... Uma trilha sonora agradável, com músicas brasileiras, e é bom ver ou rever os Volpi, Guignard, Leonilson, Bonadei, Gerchman, Tarsila... pena: não tinha (ainda?) catálogo.

Na Pinacoteca de São Paulo uma retrospectiva da Maria Bonomi ("Gravura Peregrina"), muito bonita. Um trabalho forte, monumental. Ainda: instalações da artista espanhola Cristina Iglesias, "Eliseu Visconti: Arte e Design" e uma retrospectiva do (para mim desconhecido) modernista paulista Leopoldo Raimo.

Na Estação Pinacoteca, a razão maior de minha ida a SP, a exposição da Beatriz Milhazes. Um colírio para os olhos, um refrigério para a alma... A instalação nas janelas da sala do meio são vitrais de uma catedral pós-moderna, brasileira, universal. Um excelente catálogo. Além da Beatriz e do bom acervo (coleção José e Paulina Nemirovsky), uma boa exposição sobre artistas mexicanos ("A Era da divergência: Arte e cultura visual no México 1968 – 1997")

Paralela 08 nos galpões do Liceu de Artes e Ofícios, um espaço incrível, correndo em paralelo com a Bienal, com curadoria de Rodrigo Moura e organizada por 11 galerias paulistanas. É a quarta edição do evento e reúne obras de 61 artistas. Batizada pelo curador com o nome “De Perto e de Longe”, título emprestado de um livro de Claude Lévi Strauss, a “Paralela” conta com obras produzidas desde a década de 1970 e investiga o interesse dos artistas pela idéia de “lugar”. Uma excelente exposição, trabalhos com altíssima qualidade, difícil destacar alguns poucos sem cometer injustiças mas vamos lá: a instalação do Nuno Ramos (um trágico Goeldi ampliado - algo para uns 2x3m - cavado no chão e cheio de óleo queimado). O ambiente penetrável do Ernesto Neto. A cascata de garrafas PET da Márcia Xavier (na minha visita, um violento e inesperado temporal, entrando nos galpões em alguns lugares, ecoava a cascata). Um ambiente monumental, imenso vazio, com esculturas do Efraim Almeida. As "vanitas" do Saint Clair Cemin. Os quadros-letreiros do Rodrigo Matheus. Um cisne-escultura da Erika Verzutti. As pipocas de cerâmica espalhadas pelo chão, pisadas, presenças discretas, da Débora Bolsoni. A Paralela, ao contrário da Bienal, mostra como bem preencher um vazio, com trabalhos de qualidade, montagem sobria e uma proposta instigante.

Vanitas


Um dos temas que persigo (ou que me persegue) é o da "Vanitas", as vaidades, as caveiras e outros símbolos a nos lembrar sempre que tudo é vaidade e só a morte é a permanência. Este trabalho é de setembro/2008, 40x50cm, chamado "Vanitas (com um quatro de ouros)", e os naipes de cartas são uma referência ao acaso, que também conduz nossas vidas. Uso muito estes naipes, o losango "em pé" do naipe de ouros. Em diversos trabalhos os losangos se transformam em outros elementos, como: as colunas do Palácio da Alvorada; balões meio Volpi meio Guignard; os losangos dos Habsburgos (que continuam na bandeira da República brasileira); diamantes; os losangos da roupa do Arlequim, que aparecem em Picasso e Bracque, e outros elementos.

domingo, 30 de novembro de 2008

O segundo cigano esbofeteado (o cenário)


Retomando o tema do cigano esbofeteado, agora em uma cenário noturno, com estrelas, uma meia lua e as colunas do Palácio da Alvorada. As referências são (acho) bem claras, ao modernismo, Volpi, Guignard, Athos Bulcão... A tela está assim, pouco mais que iniciada, as cores fortes do iníco já foram rebaixadas com uma velatura de cinzas, as estrelas e as colunas já traçadas em branco bem aguado, à espera do Cigano que hoje, daqui a pouco, começará a habitar seu cenário.

Cancion del Gitano Apaleado


"O Cigano Esbofeteado", 50x60, set-out/2008. Estou trabalhando atualmente em outro cigano esbofeteado, desta vez um noturno. A inspiração para a imagem do cigano esbofeteado é um poema de Federico Garcia Lorca:

Cancion del Gitano Apaleado

Veinticuatro bofetadas.
Veinticinco bofetadas;
después, mi madre, a la noche,
me pondrá en papel de plata.

Guardia civil caminera,
dadme unos sorbitos de agua.
Agua con peces y barcos.
Agua, agua, agua, agua.

!Ay, mandor de los civiles
que estás arriba en tu sala!
!No habrá peñuelos de seda
para limpiarme la cara!

Série Calendário


Uma pintura da série "Calendário", como estava ontem, 29/11. Ainda não pintei o quadrado de hoje. Iniciei este calendário em 13/10, e não há regra para os dias - apenas registro os dias que quero registrar. O plano é acabar em meados de dezembro. O tamanho é 50x60, que é meu tamanho padrão aqui em Brasília - o espaço no Planalto é amplo, mas meu espaço para pintar é bem reduzido...

sábado, 6 de outubro de 2007

Ponte JK

Somente estes dias eu descobri que a Ponte JK, em Brasília, não é um projeto do Niemeyer (que alias faz críticas a este projeto) e sim do arquiteto Alexandre Chan, também autor do projeto do Piscinão de Ramos...
A Ponte é monumental, e domina a paisagem deste trecho do Lago Paranoá. Minha primeira sensação ao vê-la foi a de que as pontes sempre foram tradicionalmente estruturas quase bidimensionais, "chatas", e que esta era a primeira ponte pensada tridimensionalmente, como uma escultura...
Foi inaugurada no final de 2002, portanto a mais nova das três pontes sobre o Lago Paranoá, o que faz com que os moradores a chamem também de Terceira Ponte (isto me causou uma gafe, logo que cheguei em Brasília, quando fui visitar um amigo, Léo, que me deu por telefone a indicação de que, de onde eu estava, deveria pegar a L4 e a Terceira Ponte. Para mim o conceito de terceira não seria nunca um conceito cronológico, afinal eu não havia visto a construção da primeira, da segunda e da terceira... e sim um conceito espacial, e lá fui eu pela L4 contando: primeira, segunda, terceira... e fui parar no extremo oposto do Lago, exatamente na chamada "primeira" - cronologicamente - ponte, a Ponte das Garças, ou Ponte Presidente Médici. Entre JK e Médici está a Ponte Presidente Costa e Silva - homônima da Ponte Rio-Niterói - esta sim um discreto projeto do Niemeyer).
É hoje um cartão-postal e um dos símbolos de Brasília, miniaturizado em lembranças de lojas de turistas ao lado de bibelôs de outras obras criadas pelos modernistas Niemeyer (Catedral, cúpulas do Congresso, colunas do Alvorada...), Lúcio Costa (o traço de avião do Plano Piloto), Bruno Giorgi (os Candangos, o Meteoro)... E o fato de Brasília ter este novo símbolo não mais modernista mas ao meu ver totalmente pós-moderno, uma apropriação do traço livre do Niemeyer, tão coerentemente Niemeyer que me enganou... isso mostra que Brasília cresceu além do modernismo, para o bem ou para o mal (para desgosto dos puristas) e adquiriu uma personalidade própria, diferente do planejado... Além disso, a Ponte JK possibilita o acesso a uma nova Brasília que, tembém além do planejado, vem introduzindo uma nova forma de morar para a classe média, os condomínios irregulares ou em fase de legalização, mas isso já é outra história...