quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Uma traição


A primeira vez que te vi, nossos olhos não conseguiam se separar, era uma festa badalada, em uma época em que eu ganhava convites para festas badaladas, nem sei porque.
Lá estava eu, sozinho e na festa e sozinho no mundo, e nossos olhos não conseguiam se separar. Eu era casado mas estava sozinho no mundo, se é que isso é possível, claro que é, é o mais comum.
Uma criança, você, e por que estas olheiras? que só aumentam a profundidade do teu olhar, que só fazem do teu olhar um lago de águas verdes aparentemente rasas e paradas mas com uma armadilha, um redemoinho, um sumidouro.
(ah não, sem os lugares-comuns, não vou falar dos olhos de ressaca ou dos olhos-espelho-d'alma, mas teu olhar me levou para junto de você e me fez te desejar muito, me fez te desejar muito, me fez trair)
Nos encontramos outras vezes, em outras festas badaladas, pulseirinhas de convidado vip, um dia nos beijamos na festa mesmo, muitas vezes, saímos da festa e fomos a um bar e bebemos mais e mais e nos beijamos mais e mais e eu voltei para casa com dois balões pretos com caveiras brancas e o teu telefone anotado em um pedaço de papel com uma caligrafia totalmente ilegível.
(claro, uma festa de lançamento de um estilista que usa a caveira como ícone, como eu uso, as vanitas, os balões eram a decoração da festa, eu levei para casa dois deles que depois murcharam, nada é para sempre)
Liguei, marquei, desmarquei, tinha medo, eu nunca tinha traido. Mentira. Eu não queria trair. Mentira. Eu não sabia o que eu queria. Mentira. Eu não queria o que eu sabia.
(na manhã seguinte eu acordei cego, como Édipo, mas isso é outra história:)
Aquela manhã J acordou cego e com o braço direito dormente. Dentro da névoa da ressaca, abriu um olho para olhar o relógio digital ao lado da cama, como sempre fazia, cada manhã; um dia de semana, tenho que ir trabalhar; depois o outro olho: via o brilho do mostrador digital mas não conseguia enxergar os números. Estava cego.
Enquanto um neurônio pensava que esfinge ele tinha decifrado para ter a cegueira como castigo, com o racional percebe que apenas havia dormido, totalmente bêbado, com as lentes de contato. Aí a dormência do braço aumenta, e ele percebe que há alguém dormindo ao seu lado.

(mas isso é realmente outra história)